Um Feliz 2017 para Todos

Hora de desejar aos frequentadores deste espaço um ano de 2017 com tudo do bom e do melhor. Aproveito para encerrar o segundo ano de atividade blogueira com uma pequena homenagem a uma das perdas mais sentidas de 2016.

“O Gato Curioso”, de Ferreira Gullar, por Ian Birkeland

 

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Pocket Garbage

captura-de-tela-inteira-12122016-172028Excelente e honestíssimo o show do Garbage no Circo Voador. Uma pena que Butch Vig tenha feito forfait. Shirley Manson sofreu horrores com o calor, mas segurou com a maior energia a apresentação inteira (fez lembrar a primeira passagem de Morrissey por aqui (“Rio is so hot”)). Muito sensual no palco como de costume, Manson jogou para a plateia e pro grande público LGBT presente lembrando a parada gay que acontecia em Copacabana e dizendo que a cidade, como a banda, sempre foi “freak friendly”.

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Inacreditável que estejam viajando (sem interrupção) o planeta inteiro desde pouco antes do lançamento do disco “Strange Little Birds” em junho deste ano  (ao que tudo indica, na indústria da música só se ganha dinheiro hoje com shows). Correram os Estados Unidos, Europa, estiveram na Noruega, Dinamarca, em Israel, Rússia e passaram pela Austrália antes de dar início a perna sul-americana da turnê. Amanhã fazem show no Luna Park em Buenos Aires – um teatro que sempre quis conhecer-, e depois encerram a maratona em Santiago do Chile.

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Estão tocando todas as melhores músicas dos sempre ótimos discos de estúdio do grupo, com atenção ao favorito álbum de estreia (“Supervixen”, “Vow”, “Stupid Girl”, “Queer” e “Only Happy When It Rains”) e outras das mais esperadas músicas do repertório (“Shut Your Mouth”, “Push It”, “I Think  I am Paranoid”, “Special”, “Cherry Lips (“Go, Baby Go!”) “Sex is Not the Enemy”, “Bleed Like Me”). Abriram obviamente espaço para as novas (“Empty”, “Magnetized”, “Blackout”, “Even Though our Love is Doomed”). Tão bom poder ver o Garbage fora de um desses festivais a céu aberto dividindo o palco com 300 outras bandas. Quando poderemos assistir a um show dos Strokes desta maneira?

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Toda Solidariedade à Chape

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Natural de Lages, trato de juntar, com o Guga Kuerten, com todos os filhos de Santa-Catarina, com toda a nação dos barrigas-verdes, minha solidariedade à equipe do Chapecoense, o time caçula da nossa cena futebolística que trouxe alegria, animou o campeonato brasileiro e já se aventurava por sonhos sul-americanos quando foi golpeado pela tragédia aérea que levou jogadores, técnicos, auxiliares e dirigentes. Na cidadezinha de Chapecó, lá bem no interior do estado onde segundo a etimologia da língua indígena caingangue/jê se “avista o caminho da roça”, tudo funciona e converge para o clube. Pode-se imaginar o que o time representa para os locais, especialmente com uma equipe que vinha brilhando de maneira mais intensa a cada temporada.

As paixões clubísticas são sempre de duas ordens, ou a paixão como praticante de algum esporte ou como torcedor. Como praticante a minha esteve de início associada ao lugar em que passava as muitas horas vagas do meu dia depois da escola. Podia dizer que minha vida girava em torno deste clube. Quando garoto e morador da zona norte do Rio de Janeiro, o Tijuca Tênis Clube cumpriu este papel. Fazia de tudo, aproveitava a piscina, jogava futebol, basquete, vôlei e principalmente o esporte para o qual o clube havia sido criado (há uma tradição de tenistas na família; tios, primos, e ainda colegas muito próximos na época que veneravam o esporte). E me pergunto mesmo por que o Chapecoense, como a maioria dos clubes, não cumpria esta outra importante função. Talvez porque cuidar de um time de futebol já seja dor de cabeça suficiente. E a Chape soube se tornar um dos clubes mais bem administrados do Brasil. Preocupação que os fez infelizmente optarem por um voo mais em conta, sem saber das loucuras de que os donos de empresas aéreas são capazes.

Consigo entender a origem, embora não saiba explicar a razão da paixão clubística como torcedor. A minha teve seu estopim como resultado da catequese de meu avô materno, Francisco de Mello Pedrosa, que, quando eu ainda estava sendo alfabetizado, me pedia para que lesse as manchetes do Jornal dos Sports nas bancas de jornal. Manchetes que sempre festejavam em sua capa cor-de-rosa os feitos do Flamengo. Ao mudar para Copacabana, em 1972, a paixão clubística me acompanharia e no Flamengo passaria a conciliar as duas paixões, a de torcedor e a de praticante de esportes.

A paixão clubística como torcedor nunca foi exclusivista entretanto. Primeiro porque assistir a jogos de futebol ao vivo e de qualquer arquibancada era um prazer e uma mania. Tinha gosto por muitos clubes em uma época em que o programa no Maracanã se estendia das preliminares, às 15h, até a partida principal, às 17h. Mesmo entre os times cariocas, havia a simpatia pelo São Cristóvão, pelo Olaria, pelo Bangu, pelo América, times que já estavam em baixa e com os quais não havia uma rivalidade explícita. Existia também os clubes do coração para cada estado. Times que eram tão importantes quanto o seu representante em sua cidade. Era assim um prazer poder acompanhar e torcer pelo Santos quando ele vinha com sua maior estrela, Pelé, jogar no Maracanã (meu pai me levou a muitos destes jogos), ou pelo Palmeiras de Ademir da Guia.

O futebol deixou de ser uma paixão não de torcedor, mas de espectador. Talvez porque tenha perdido o hábito de frequentar os estádios e jogo pela televisão não tem a mesma graça. A simpatia pelos times pequenos segue intocável. Me fez torcer por outros tantos clubes menores como o Boavista, e me faz torcer pela volta por cima do Verdão do Oeste. Aqui fica portanto a crônica de solidariedade e homenagem ao clube catarinense. Não foi tão inspirada como a que Nelson Rodrigues escreveu em tributo à equipe do Manchester United na Manchete Esportiva (está na coletânea “O Berro Impresso das Manchetes”, Agir, 2007), e nem como a que Morrissey fez em forma de música na composição “Munich Air Disaster – 1958” (link) para a equipe de sua cidade natal. Fica ainda em sinal de lembrança ao jornalista Paulo Julio Clement, companheiro em O Globo.

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A Chapa Trump-Crivella

Não pretendia publicar esta postagem, mas, depois do longo artigo de Ian McEwan na Folha do fim de semana passado, resolvi juntar minha voz ao coro dos descontentes. É um começo para se falar sobre quem ganha e quem perde na jogatina econômica do mundo contemporâneo. Política e dinheiro sempre foram parceiros inseparáveis e capazes de grandes estragos como sabemos.

Ele diz ter bilhões e bilhões de dólares. Na verdade, são menos do que 4 bilhões (3 bilhões e 700 milhões de dólares, para ser preciso; mera avaliação já que ele não tem o hábito e nem o gosto de tornar pública sua declaração de rendimentos, mesmo quando o cargo de presidente, por força da tradição, costuma exigi-lo), aos 70 anos. Comparativamente, Steve Jobs deixou uma fortuna de 75 bilhões ao morrer aos 56 anos e seu companheiro de geração Bill Gates soma um patrimônio de mais de 80 bilhões de dólares. Um detalhe importante é que nenhum dos dois símbolos máximos do empreendedorismo globalizado registra, em suas respectivas biografias, a sonegação declarada de impostos, embora Gates tenha enfrentado ação por monopólio na sua “home of the brave, land of the free”. Outro senão: ele realizou a proeza de falir por seis vezes. Definitivamente, o falastrão é um fenômeno no mundo dos negócios. Pelo menos, não tem foro especial e vai passar seu mandato sendo questionado sobre os muitos tropeços de sua trajetória como empresário.

Conseguiu colocar toda a imprensa contra a sua candidatura. Tivemos algo semelhante durante a campanha à prefeitura do Rio de Janeiro. O Ricardo Noblat dramatizou um pouco em sua avaliação. Há uma crise comercial no setor, o que é natural quando ocorrem inovações no campo tecnológico-midiático, mas a imprensa sempre lucra em qualidade com vozes menores se manifestando. O New York Times, é bom dizer, tem, ao contrário de O Globo, a tradição de se posicionar claramente sobre quem está apoiando em uma eleição. E o erro de avaliação com números próximos é típico de pesquisas de opinião que, não custa lembrar, não são 100% precisas. É ainda, de qualquer jeito, papel da imprensa procurar problemas nas candidaturas, como fez O Globo com Crivella, e a imprensa americana primeiro com Trump e, depois, com Hillary.

No final das contas, acabamos tendo a eleição de duas forças ultraconservadoras, obscurantistas e fonte de atraso mundo afora. Caetano Veloso disse que, como Mangabeira Unger, simpatiza com os pentecostais e antipatiza com o yuppie João Doria. Nada contra os neopentecostais, à exceção do fato de que vivam livres de impostos e de que estão construindo um império às custas deste expediente. As práticas religiosas neopentencostais são uma nova forma de ritualização. Aos que se identificam com isso, bom proveito. Se doam seus dízimos, não tenho nada a ver com isso. Agora, templos que funcionam como qualquer outro negócio não podem ser construídos e operarem livres de tributos.

João Doria, diferentemente de Trump e Crivella, é uma pessoa sensata, educada, que sabe se comportar em público. Também não foi flagrado até o momento em associação com nomes envolvidos com favorecimento de interesses evidentes na administração pública do município. Apenas um detalhe: se confirmada a delação da Odebrecht, veremos o que o novo prefeito de São Paulo vai declarar sobre a isenção de seus companheiros de legenda. Fico aguardando também a grande coluna de FHC sobre o assunto. Aliás, ele poderia esclarecer as razões que levaram a Odebrecht a doar somas vultosas para o Instituto FHC. Pode não ser ilegal, mas será que é um expediente aceitável?

Mal começa a se preparar para tomar posse, Trump já enfrenta manifestações de rua, coisa que nunca vi na vida política norte-americana. Enfrenta também os ataques da imprensa sobre sua decisão de trazer para a Casa Branca familiares para trabalharem como seus assessores, além de ter escolhido a fina flor do conservadorismo para ajudar a desorientar suas decisões. Há ainda a mistura dos interesses de sua carreira como empresário com a sua posição como presidente. Antes mesmo de iniciar o mandato, imprensa e oposição já estão no seu pé. Fazem muito bem.

Ps. Como comentaram por aqui. Parece que Bowie e Cohen escolheram a hora certa de cair fora.

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Poesia nos Trópicos

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A experiência aconteceu em um palacete, com seu pátio interno convertido em anfiteatro, localizado em um ambiente muito apropriadamente rodeado por densa vegetação de floresta tropical. Lá, dentro de uma construção em estilo eclético com inspiração romana, a ilha de Próspero pôde mais uma vez ser imaginada. Assim como no Globe shakespeariano, o público ficou sob céu aberto observando uma ação que se estenderia por todos os muitos espaços do palacete. Inclusive por seu terraço e sua imponente torre erguida em arcos.

No centro de sua área interna, uma piscina substituiu o mar e um vento artificial com raios e trovões em precários porém eficientes defeitos especiais pegaria o público de surpresa levando todos a perceber que a feitiçaria de Próspero já estava em andamento. Em pé, de dentro da torre, o deposto duque de Milão comandava o espetáculo. Recorria a seus poderes de bruxo para criar situações em que submetia a seus caprichos, alimentados por desejos de vingança, os que conspiraram contra ele.

Antes da apresentação daquela noite, um dos atores do grupo teatral vendia o programa do espetáculo e não perdia a oportunidade de aconselhar o público a adquiri-lo sob pena de não conseguir entender a história. Era uma técnica de venda bem-humorada, mas o interessante foi ver aquele mesmo ator, mais tarde no correr da peça, jogando xadrez com Miranda dentro da piscina.

A iniciação à escrita de Shakespeare se deu através da tradução feita por Geraldo Carneiro e encenada pelo grupo teatral Pessoal do Despertar no começo dos anos 1980 no Parque Lage. Seria a tradução inaugural da obra do Bardo perpetrada pelo poeta mineiro que vinha arriscando versos autorais em suas colaborações com o grupo A Barca do Sol e com Egberto Gismonti. Fã de primeira hora, seguiria adiante apreciando sua poesia em todas as formas, incluindo a impressa. Desde o livrinho “Verão Vagabundo” (Achiamé, 1980), típico da geração mimeógrafo, até a “Balada do Impostor” (Garamond, 2006). É mais um desses poetas com os quais não tenho maiores dificuldades. Até mesmo com a formalidade da dicção de um momento ou outro de sua escrita em verso.

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Há pouco, Geraldo Carneiro teve que entrar para a Academia Brasileira de Letras. Parece que é o destino dos escritores em um país que dá pouca atenção aqueles que vivem de escrever livros. Ferreira Gullar resistiu enquanto foi possível, até se render definitivamente. Com essa situação de terra devastada, que talvez nem um T.S. Eliot pudesse vislumbrar em seus piores momentos de amargura em um sorumbático mês de abril, os passageiros do Titanic vão procurando refúgio aonde encontram.

Na ABL, Geraldo Carneiro vai ter contato com autores que, segundo disse, costuma tirar de sua estante para consulta. Não custa lembrá-lo que terá também a companhia nada simpática de um político como José Sarney, autor de “Marimbondos de Fogo”, coleção de poemas que, segundo Millôr, “quando você larga, não consegue mais pegar”. Pelo visto, o “Intimidade Anônima”, de Michel Temer, veio para lhe fazer companhia entre as obras pouco inspiradas deixadas por nossos vice presidentes – que se louve ao menos os presidentes que entre uma vilania, uma torpeza, um ultraje e outro, se esforcem em arriscar versos.

Além do conforto monetário, resta para Geraldo Carneiro a lembrança de estar na casa de Machado de Assis. Ainda que dele, o poeta já tenha dito que foi o “primeiro Michael Jackson da história”. A declaração trocista é do tempo em que ele nem sonhava em entrar para a ABL obviamente. Geraldo apontou Machado como precursor da graça dos que nascem pretos para morrerem brancos. Alguns esclarecimentos finais: Próspero foi interpretado pelo já falecido ator Ariel Coelho de voz magnífica e tonitruante. O casal Ferdinando e Miranda, por Miguel Falabella e Maria Padilha.

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Leonard Cohen (1934 – 2016)

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I asked my father,
I said, “father change my name.”
The one I’m using now it’s covered up
With fear and filth and cowardice and shame
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
He said, “I locked you in this body,
I meant it as a kind of trial.
You can use it as a weapon,
Or to make some one smile.”
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
“Then let me start again, ” I cried,
“Please let me start again,
I want a face that’s fair this time,
I want a spirit that is calm.”
“I never never turned aside, ” he said,
“I never walked away.
It was you who built the temple,
It was you who covered up my face.”
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
And may the spirit of this song,
May it rise up pure and free.
May it be a shield for you,
A shield against the enemy
Yes and lover, lover, lover…
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É Flórida – Dia-F nas Eleições Americanas

captura-de-tela-inteira-09112016-192041Wolf Blitzer e John King na “magic wall” (que viraria a “nightmare wall”) passariam toda a cobertura das eleições americanas tentando entender o que estava acontecendo para contrariar as previsões de uma vitória apertada, mas inevitável para os Democratas. O pior é ir dormir e acordar de madrugada com buzinaço acho que festejando, no Rio de Janeiro (vá entender), a vitória de Trump. Deve ter gente que identifica o tal do “lulopetismo” se manifestando até mesmo na candidatura de Hillary Clinton.  Só cantando a “Perfeição” dos legionários para fazer a catarse. Renato tinha razão: “Vivemos num mundo doente”. John Green lembrou em seu vlog que ainda que tenha ganho as eleições, Trump obteve menor número de votos dos eleitores do que Hillary Clinton, repetindo o que aconteceu de forma mais dramática quando concorreram Bush-Filho e Al Gore. Costa Oeste e Leste (com exceção da Geórgia, das Carolinas e da Florida) ficaram com Hillary. É um alívio saber que ainda existem seres pensantes ao norte. Será que teremos a surpresa de ver Bolsonaro vencendo o pleito de 2018? Pelo visto, anda valendo a máxima: não basta ser canalha, tem que festejar espalhafatosamente a canalhice.

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Janeiro de 1883, no Teatro Nacional de Oslo: “Toda unanimidade…”

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“Não! A maioria não está com a razão, jamais! Repito, nunca! Essa é uma dessas mentiras que ganham o senso comum e contra a qual todo cidadão livre deve protestar. Quem constitui a maioria em um processo de sufrágio? Os esclarecidos ou os obliterados fundamentais? Ninguém vai discordar, imagino, que, considerando o mundo como um todo, hoje os imbecis são uma dessas esmagadoras, clamorosas, incontestáveis maiorias. E não devemos fingir e aceitar como correto que os idiotas nos governem. (Confusão, gritos.) Vocês podem silenciar minhas palavras gritando, eu sei! Mas não podem contestar o que digo. A maioria tem o poder ao seu lado, mas não a razão. Ela está ao lado de alguns poucos. Estará sempre, acreditem, com as minoras.”
(“Um Inimigo do Povo”, Henrik Ibsen;
versão a partir da tradução inglesa de Farquharson Sharp)
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Freixo 50 com Toda Convicção

freixo-3Embora esteja muito distante do ideário do PSOL, me sinto muito próximo do que têm realizado seus representantes. Amanhã irei votar com toda a convicção em Marcelo Freixo para prefeito de nossa cidade, pois não reconheço nada que desabone sua pessoa. Muito pelo contrário, julgo de extrema coragem que alguém que teve um irmão assassinado na porta de casa, se lance na espinhosa tarefa de combater as milícias e seus braços políticos que atuam de maneira vergonhosa no Rio de Janeiro. Para os que não sabem, de forma bem semelhante ao que acontece na Venezuela, onde existem os coletivos paramilitares chavistas que exercem o mesmo tipo de bandidagem amparados pela conivência da administração de Nicolás Maduro.

Freixo foi, de qualquer jeito, uma opção de candidatura desde o início da campanha para a prefeitura. Este candidato só poderia sair ou do PSOL ou da Rede, dois dos poucos partidos no Brasil de hoje que ainda não foram contaminados pela corrupção endêmica que cerca a vida pública de nossos políticos do PMDB, do PSDB, do PP. Justo os partidos que levaram, no País da Lava-Jato, que busca a correção e que luta pelo fim da propinolândia, a maioria de nossas prefeituras. Por isso mesmo, acho muito estranho que fiquem procurando problemas no PSOL com o intuito de desqualificar a candidatura de Freixo.

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            Os partidos envolvidos na Lava-Jato e os montantes que abocanharam.  Todos, à exceção da PSOL e da Rede, estão lá: PSDB (Osório), PSD (Índio da Costa) e PRB (Crivella) 

Vale qualquer desculpa: um documento no site do partido com o apoio de uma ala de sua militância à posse de Nicolás Maduro em 2013, ainda que Freixo nunca tenha declarado sua aprovação ao governo bolivariano; a reação de um setor do PSOL questionando a violência do governo Israelense, quando o próprio Freixo já esteve palestrando na Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro e tenha o apoio de judeus progressistas. Há também os ressentidos com o “Fora, Temer”. Como se nosso presidente não militasse no PMDB e não tivesse recebido Eduardo Cunha, pouco antes de sua cassação, para uma conversa reservada no Palácio do Planalto. São sempre dois pesos e duas medidas. Ao Temer, todo o respeito. Ao Freixo, as piores acusações.

É a primeira vez que vejo pessoas mais preocupadas com o partido do que com o candidato. O jornalista Fernando Gabeira, por exemplo, como não tem nada o que criticar na atuação de Freixo, usa sua coluna para ficar atacando o PSOL e minando a campanha do candidato. Como se o próprio Gabeira não tivesse buscado o endosso de Cesar Maia à sua campanha para a Prefeitura do Rio, em 2012.  Cora Rónai repete o mesmo tipo de crítica, embora tenha dito que o Freixo é entre os dois candidatos o único com quem conseguiria dialogar. Mas Rónai disse que ele é “marxista” como se isso fosse um ataque. Eu espero que, como professor de história, ele seja pelo menos um pouco marxista. Um pensador que é citação obrigatória em livros de filosofia, economia, sociologia, e por aí afora, há 100 anos. Alguns obliterados fundamentais acham que Marx, como muito provavelmente Freud, Einstein, Walter Benjamin e outros tantos, estão superados. E o pior não é achar, é dizer isso publicamente.

Há uma campanha forte pelo voto nulo que interpreto como um velado apoio à candidatura de Crivella. Como Osório e Índio da Costa estão sendo anunciados como quadro do governo do candidato da Igreja Universal, tudo indica que temos mesmo esse apoio disfarçado. Trata-se de mais uma aliança esquizofrênica no comando da vida pública brasileira. Uma aliança que reúne os Bolsonaros, Garotinho, Bispo Macedo e grupos políticos ligados às milícias, a pior praga para a população que vive na periferia. Mas assim é o Brasil. Seguimos com um dos piores IDHs do planeta e como um lugar em que a violência bate índices de países em guerra civil.

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Maya em Nazaré, Florence em Peniche

captura-de-tela-inteira-26102016-152244-002Com transmissões ao vivo via perfil do FB, Maya Gabeira vem anunciando a chegada da temporada de ondas gigantes à cidade de Nazaré, ao norte de Lisboa, no mesmo momento em que, um pouco ao sul dali, na praia dos super-tubos de Peniche, o havaiano John John Florence se sagra campeão por antecipação do Circuito Mundial de Surfe deste ano.

Depois de várias cirurgias para refazer o nariz, já cansado das pancadas contra sua pesada prancha feita especialmente para enfrentar densas massas de água em movimento, e de uma sequência de operações complicadas nas costas para unir duas vértebras para que possa seguir surfando, Maya volta mais uma vez – e com a maior coragem- ao mar de Nazaré onde viveu, em 2013, aquele acidente tenebroso.

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Ela tem ficado principalmente no jet-ski rebocando surfistas. Vamos ver se vai dar para encarar uma das gigantes que tem aparecido no horizonte por conta da formação rochosa do fundo do mar no litoral próximo ao farol da cidade. Se estivesse no lugar do papai Gabeira, eu aconselharia que ela participasse apenas como coadjuvante durante esta temporada, já que Maya vem de uma série de sessões de fisioterapia para se restabelecer. Acontece que por razões profissionais, Maya parece, talvez até mesmo involuntariamente, presa ao designo de encarar aquelas ondas descomunais a qualquer custo. Filha de quem é, tudo indica que tem atração por correr riscos e que seguirá enfrentando o mar.

John John Florence também enfrentou acidentes em seu percurso, o que fez com que ele só conseguisse sair vitorioso do Circuito agora aos 24 anos, algo que Gabriel Medina realizou precocemente aos 20 anos de idade. Além de já ter quebrado o pulso, o braço e a perna, Florence teve uma vértebra fraturada em Pipeline, onde nasceu e conviveu, desde pequeno, com as desafiadoras ondas locais (que já levaram a vida de alguns surfistas experientes). No ano passado, houve ainda a ruptura de um ligamento do tornozelo que o deixou fora de algumas das competições do Circuito. Ainda assim, tem conseguido sempre terminar a maratona competitiva da World Surf League entre os melhores colocados.

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Joe Turpel, um dos comentaristas craques da equipe da WSL, e John John, ao ganhar a etapa do Rio

Florence e Medina, junto com os veteranos Kelly Slater e Mick Fanning (que, depois do sumiço, deve fazer a última perna do Circuito em dezembro), são as grandes estrelas em todas as competições e tornam as suas baterias as mais esperadas. Ainda que surfistas jovens, como Filipe Toledo e Ítalo Ferreira, ou mesmo um pouco mais tarimbados, como Adriano de Souza e Julian Wilson, ajudem a despertar o interesse pelas competições, transmitidas pela página na Internet da Associação de Surfistas Profissionais ou pela ESPN, é a constância da qualidade das ondas surfadas por Florence, Medina, Fanning e Slater, que deixa a última etapa do Circuito, que acontecerá a partir do dia 8 de dezembro em Pipeline, um programa obrigatório. Vejamos se, mesmo com a vitória antecipada de Florence, a Brazilian Storm atrairá o público brasileiro e transformará, mais uma vez, a Banzai Pipeline na Banzai de Janeiro, como foi em 2014 e no ano passado. Foram dois brasileiros se sagrando campeões em seguida: Medina, em 2014, e Adriano de Souza, em 2015.

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O havaiano Florence e a australiana Tyler Wright, vencedores do Circuito Mundial de Surf de 2016
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