Antes de cancelarem em definitivo a finada Brigitte Bardot, por seu apoio à família Le Pen, seus ataques aos imigrantes e suas posições em relação à tribo LGBTQI+ (e isso vindo de alguém que leu Simone de Beauvoir quando era jovem), talvez valesse a pena ver ou, para os mais velhos, rever, “O Desprezo” (“Les Mépris”), de Godard, o geniozinho genioso do cinema francês, em que BB aparece linda como veio ao mundo. Para àqueles que vivem uma realidade polarizada, Jean-Luc complica as coisas e Bardot o acompanha com a maior dedicação.
O produtor italiano de “O Desprezo”, Carlo Ponti (que também finaciou os cinemas autorais de Fellini, De Sica, Rosselini, e Antonioni) trabalhava essa produção de 1963 junto com o francês Georges de Beauregard (que bancou muito do cinema godardiano, de “O Acossado” a “O Demônio das 11 Horas”, passando por “”Masculino /Feminino”, “O Pequeno Soldado” e “Alphaville”) e, ao que tudo indica, exigiu que la Bardot aparecesse au naturel. Godard não se fez de rogado e colocou Bardot nuazinha em muitos trechos, desde os momentos iniciais em que ela aparece deitada languidamente em uma cama perguntando a seu par no filme (o ator Michel Piccoli), o que ele achava de todas as partes de seu corpo (bunda, ombros, pés).
E mais, Godard jogou em cena Jack Palance, pistoleiro-mor de westerns americanos, como um produtor inescrupuloso que parodiando Goebbels diz que “quando escuta falar em cultura, gosta de sacar seu talão de cheques”. O cineasta convidou ainda o mestre de fitas expressionistas alemães Fritz Lang, e ele aceitou, para aparecer no filme como aquilo que foi a vida inteira: um diretor de cinema. Adaptação de romance homônimo do italiano Alberto Moravia, Godard seguia as indicações da obra iconoclasta do escritor. Tudo mergulhado em conflitos que projetam no próprio filme, rodado em boa parte nos estúdios Cinecittà, a situação de Godard como realizador antes da radicalização com a experiência coletivista do grupo Dziga Vertov. Ele, por sinal aparece ainda filmando o filme que está sendo filmado. Isso mesmo, carregar na exploração da metalingagem era algo que ele adorava fazer e o romance de Moravia abriu espaço para tanto.
No que diz respeito à Bardot, ela fez tudo o que Godard pediu sem constrangimentos, ainda que tivesse a presença do namorado Sami Frey no set. Frey esteve presente nas filmagens durante a realização da parte final do filme gravada em Capri na casa do escritor Curzio Malaparte (mais uma exigência de Ponti) e não deixou seu affair trabalhar sossegada. A casa era uma belíssima mansão que se projeta a partir de uma colina sobre as águas azuis do Mediterrâneo. Lá foram registradas mais cenas de nudez e o namorado de Bardot teve desentendimentos sérios com os paparazzi. Com alguns deles, dizem, chegou às vias de fato.
Junto com Jean Seberg e as esposas de Jean-Luc Anna Karina e Anne Wiazemsky, Bardot iluminou assim as telas vanguardeiras do tempo em que ninguém se arrependia de ter saído de casa para ir ao cinema. De chorar por sinal o “Nouvelle Vague” (ficou com o título original em francês), produção de 2025 que esteve em cartaz nos cinemas e que pode agora ser vista em streaming no NetFlix. O filme de Richard Stuart Linklater (“Dazed and Confused” e “School of Rock”) tenta sem sucesso recriar o que teriam sido as gravações de “O Acossado”, com as brigas entre Godard e o produtor Beauregard transformadas em comédia pastelão. O filme não vale as latas de negativo que consumiu. Mais interessante para quem cultua a época é a leitura do capítulo de “A Onda que se Ergueu no Mar” (Cia das Letras, 2001), de Ruy Castro, que tem o trecho “Houve uma vez um verão – 1964-1965 Bossa e Brigitte em Búzios” dedicado à passagem de Bardot por paisagens brasileiras. Brigitte na época já surgia com um novo namorado que tomara o lugar de Sami Frey. O par da vez era o jogador de basquete e playboy brasileiro Bob Zagury. A dupla causou alvoroço no Rio e acabou fugindo dos jornalistas e se mandando para Búzios em episódio que ficou lendário.

