Poesia nos Trópicos

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A experiência aconteceu em um palacete, com seu pátio interno convertido em anfiteatro, localizado em um ambiente muito apropriadamente rodeado por densa vegetação de floresta tropical. Lá, dentro de uma construção em estilo eclético com inspiração romana, a ilha de Próspero pôde mais uma vez ser imaginada. Assim como no Globe shakespeariano, o público ficou sob céu aberto observando uma ação que se estenderia por todos os muitos espaços do palacete. Inclusive por seu terraço e sua imponente torre erguida em arcos.

No centro de sua área interna, uma piscina substituiu o mar e um vento artificial com raios e trovões em precários porém eficientes defeitos especiais pegaria o público de surpresa levando todos a perceber que a feitiçaria de Próspero já estava em andamento. Em pé, de dentro da torre, o deposto duque de Milão comandava o espetáculo. Recorria a seus poderes de bruxo para criar situações em que submetia a seus caprichos, alimentados por desejos de vingança, os que conspiraram contra ele.

Antes da apresentação daquela noite, um dos atores do grupo teatral vendia o programa do espetáculo e não perdia a oportunidade de aconselhar o público a adquiri-lo sob pena de não conseguir entender a história. Era uma técnica de venda bem-humorada, mas o interessante foi ver aquele mesmo ator, mais tarde no correr da peça, jogando xadrez com Miranda dentro da piscina.

A iniciação à escrita de Shakespeare se deu através da tradução feita por Geraldo Carneiro e encenada pelo grupo teatral Pessoal do Despertar no começo dos anos 1980 no Parque Lage. Seria a tradução inaugural da obra do Bardo perpetrada pelo poeta mineiro que vinha arriscando versos autorais em suas colaborações com o grupo A Barca do Sol e com Egberto Gismonti. Fã de primeira hora, seguiria adiante apreciando sua poesia em todas as formas, incluindo a impressa. Desde o livrinho “Verão Vagabundo” (Achiamé, 1980), típico da geração mimeógrafo, até a “Balada do Impostor” (Garamond, 2006). É mais um desses poetas com os quais não tenho maiores dificuldades. Até mesmo com a formalidade da dicção de um momento ou outro de sua escrita em verso.

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Há pouco, Geraldo Carneiro teve que entrar para a Academia Brasileira de Letras. Parece que é o destino dos escritores em um país que dá pouca atenção aqueles que vivem de escrever livros. Ferreira Gullar resistiu enquanto foi possível, até se render definitivamente. Com essa situação de terra devastada, que talvez nem um T.S. Eliot pudesse vislumbrar em seus piores momentos de amargura em um sorumbático mês de abril, os passageiros do Titanic vão procurando refúgio aonde encontram.

Na ABL, Geraldo Carneiro vai ter contato com autores que, segundo disse, costuma tirar de sua estante para consulta. Não custa lembrá-lo que terá também a companhia nada simpática de um político como José Sarney, autor de “Marimbondos de Fogo”, coleção de poemas que, segundo Millôr, “quando você larga, não consegue mais pegar”. Pelo visto, o “Intimidade Anônima”, de Michel Temer, veio para lhe fazer companhia entre as obras pouco inspiradas deixadas por nossos vice presidentes – que se louve ao menos os presidentes que entre uma vilania, uma torpeza, um ultraje e outro, se esforcem em arriscar versos.

Além do conforto monetário, resta para Geraldo Carneiro a lembrança de estar na casa de Machado de Assis. Ainda que dele, o poeta já tenha dito que foi o “primeiro Michael Jackson da história”. A declaração trocista é do tempo em que ele nem sonhava em entrar para a ABL obviamente. Geraldo apontou Machado como precursor da graça dos que nascem pretos para morrerem brancos. Alguns esclarecimentos finais: Próspero foi interpretado pelo já falecido ator Ariel Coelho de voz magnífica e tonitruante. O casal Ferdinando e Miranda, por Miguel Falabella e Maria Padilha.

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Leonard Cohen (1934 – 2016)

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I asked my father,
I said, “father change my name.”
The one I’m using now it’s covered up
With fear and filth and cowardice and shame
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
He said, “I locked you in this body,
I meant it as a kind of trial.
You can use it as a weapon,
Or to make some one smile.”
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
“Then let me start again, ” I cried,
“Please let me start again,
I want a face that’s fair this time,
I want a spirit that is calm.”
“I never never turned aside, ” he said,
“I never walked away.
It was you who built the temple,
It was you who covered up my face.”
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me,
Yes and lover, lover, lover, lover, lover, lover, lover come back to me.
And may the spirit of this song,
May it rise up pure and free.
May it be a shield for you,
A shield against the enemy
Yes and lover, lover, lover…
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É Flórida – Dia-F nas Eleições Americanas

captura-de-tela-inteira-09112016-192041Wolf Blitzer e John King na “magic wall” (que viraria a “nightmare wall”) passariam toda a cobertura das eleições americanas tentando entender o que estava acontecendo para contrariar as previsões de uma vitória apertada, mas inevitável para os Democratas. O pior é ir dormir e acordar de madrugada com buzinaço acho que festejando, no Rio de Janeiro (vá entender), a vitória de Trump. Deve ter gente que identifica o tal do “lulopetismo” se manifestando até mesmo na candidatura de Hillary Clinton.  Só cantando a “Perfeição” dos legionários para fazer a catarse. Renato tinha razão: “Vivemos num mundo doente”. John Green lembrou em seu vlog que ainda que tenha ganho as eleições, Trump obteve menor número de votos dos eleitores do que Hillary Clinton, repetindo o que aconteceu de forma mais dramática quando concorreram Bush-Filho e Al Gore. Costa Oeste e Leste (com exceção da Geórgia, das Carolinas e da Florida) ficaram com Hillary. É um alívio saber que ainda existem seres pensantes ao norte. Será que teremos a surpresa de ver Bolsonaro vencendo o pleito de 2018? Pelo visto, anda valendo a máxima: não basta ser canalha, tem que festejar espalhafatosamente a canalhice.

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Janeiro de 1883, no Teatro Nacional de Oslo: “Toda unanimidade…”

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“Não! A maioria não está com a razão, jamais! Repito, nunca! Essa é uma dessas mentiras que ganham o senso comum e contra a qual todo cidadão livre deve protestar. Quem constitui a maioria em um processo de sufrágio? Os esclarecidos ou os obliterados fundamentais? Ninguém vai discordar, imagino, que, considerando o mundo como um todo, hoje os imbecis são uma dessas esmagadoras, clamorosas, incontestáveis maiorias. E não devemos fingir e aceitar como correto que os idiotas nos governem. (Confusão, gritos.) Vocês podem silenciar minhas palavras gritando, eu sei! Mas não podem contestar o que digo. A maioria tem o poder ao seu lado, mas não a razão. Ela está ao lado de alguns poucos. Estará sempre, acreditem, com as minoras.”
(“Um Inimigo do Povo”, Henrik Ibsen;
versão a partir da tradução inglesa de Farquharson Sharp)
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Freixo 50 com Toda Convicção

freixo-3Embora esteja muito distante do ideário do PSOL, me sinto muito próximo do que têm realizado seus representantes. Amanhã irei votar com toda a convicção em Marcelo Freixo para prefeito de nossa cidade, pois não reconheço nada que desabone sua pessoa. Muito pelo contrário, julgo de extrema coragem que alguém que teve um irmão assassinado na porta de casa, se lance na espinhosa tarefa de combater as milícias e seus braços políticos que atuam de maneira vergonhosa no Rio de Janeiro. Para os que não sabem, de forma bem semelhante ao que acontece na Venezuela, onde existem os coletivos paramilitares chavistas que exercem o mesmo tipo de bandidagem amparados pela conivência da administração de Nicolás Maduro.

Freixo foi, de qualquer jeito, uma opção de candidatura desde o início da campanha para a prefeitura. Este candidato só poderia sair ou do PSOL ou da Rede, dois dos poucos partidos no Brasil de hoje que ainda não foram contaminados pela corrupção endêmica que cerca a vida pública de nossos políticos do PMDB, do PSDB, do PP. Justo os partidos que levaram, no País da Lava-Jato, que busca a correção e que luta pelo fim da propinolândia, a maioria de nossas prefeituras. Por isso mesmo, acho muito estranho que fiquem procurando problemas no PSOL com o intuito de desqualificar a candidatura de Freixo.

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            Os partidos envolvidos na Lava-Jato e os montantes que abocanharam.  Todos, à exceção da PSOL e da Rede, estão lá: PSDB (Osório), PSD (Índio da Costa) e PRB (Crivella) 

Vale qualquer desculpa: um documento no site do partido com o apoio de uma ala de sua militância à posse de Nicolás Maduro em 2013, ainda que Freixo nunca tenha declarado sua aprovação ao governo bolivariano; a reação de um setor do PSOL questionando a violência do governo Israelense, quando o próprio Freixo já esteve palestrando na Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro e tenha o apoio de judeus progressistas. Há também os ressentidos com o “Fora, Temer”. Como se nosso presidente não militasse no PMDB e não tivesse recebido Eduardo Cunha, pouco antes de sua cassação, para uma conversa reservada no Palácio do Planalto. São sempre dois pesos e duas medidas. Ao Temer, todo o respeito. Ao Freixo, as piores acusações.

É a primeira vez que vejo pessoas mais preocupadas com o partido do que com o candidato. O jornalista Fernando Gabeira, por exemplo, como não tem nada o que criticar na atuação de Freixo, usa sua coluna para ficar atacando o PSOL e minando a campanha do candidato. Como se o próprio Gabeira não tivesse buscado o endosso de Cesar Maia à sua campanha para a Prefeitura do Rio, em 2012.  Cora Rónai repete o mesmo tipo de crítica, embora tenha dito que o Freixo é entre os dois candidatos o único com quem conseguiria dialogar. Mas Rónai disse que ele é “marxista” como se isso fosse um ataque. Eu espero que, como professor de história, ele seja pelo menos um pouco marxista. Um pensador que é citação obrigatória em livros de filosofia, economia, sociologia, e por aí afora, há 100 anos. Alguns obliterados fundamentais acham que Marx, como muito provavelmente Freud, Einstein, Walter Benjamin e outros tantos, estão superados. E o pior não é achar, é dizer isso publicamente.

Há uma campanha forte pelo voto nulo que interpreto como um velado apoio à candidatura de Crivella. Como Osório e Índio da Costa estão sendo anunciados como quadro do governo do candidato da Igreja Universal, tudo indica que temos mesmo esse apoio disfarçado. Trata-se de mais uma aliança esquizofrênica no comando da vida pública brasileira. Uma aliança que reúne os Bolsonaros, Garotinho, Bispo Macedo e grupos políticos ligados às milícias, a pior praga para a população que vive na periferia. Mas assim é o Brasil. Seguimos com um dos piores IDHs do planeta e como um lugar em que a violência bate índices de países em guerra civil.

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Maya em Nazaré, Florence em Peniche

captura-de-tela-inteira-26102016-152244-002Com transmissões ao vivo via perfil do FB, Maya Gabeira vem anunciando a chegada da temporada de ondas gigantes à cidade de Nazaré, ao norte de Lisboa, no mesmo momento em que, um pouco ao sul dali, na praia dos super-tubos de Peniche, o havaiano John John Florence se sagra campeão por antecipação do Circuito Mundial de Surfe deste ano.

Depois de várias cirurgias para refazer o nariz, já cansado das pancadas contra sua pesada prancha feita especialmente para enfrentar densas massas de água em movimento, e de uma sequência de operações complicadas nas costas para unir duas vértebras para que possa seguir surfando, Maya volta mais uma vez – e com a maior coragem- ao mar de Nazaré onde viveu, em 2013, aquele acidente tenebroso.

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Ela tem ficado principalmente no jet-ski rebocando surfistas. Vamos ver se vai dar para encarar uma das gigantes que tem aparecido no horizonte por conta da formação rochosa do fundo do mar no litoral próximo ao farol da cidade. Se estivesse no lugar do papai Gabeira, eu aconselharia que ela participasse apenas como coadjuvante durante esta temporada, já que Maya vem de uma série de sessões de fisioterapia para se restabelecer. Acontece que por razões profissionais, Maya parece, talvez até mesmo involuntariamente, presa ao designo de encarar aquelas ondas descomunais a qualquer custo. Filha de quem é, tudo indica que tem atração por correr riscos e que seguirá enfrentando o mar.

John John Florence também enfrentou acidentes em seu percurso, o que fez com que ele só conseguisse sair vitorioso do Circuito agora aos 24 anos, algo que Gabriel Medina realizou precocemente aos 20 anos de idade. Além de já ter quebrado o pulso, o braço e a perna, Florence teve uma vértebra fraturada em Pipeline, onde nasceu e conviveu, desde pequeno, com as desafiadoras ondas locais (que já levaram a vida de alguns surfistas experientes). No ano passado, houve ainda a ruptura de um ligamento do tornozelo que o deixou fora de algumas das competições do Circuito. Ainda assim, tem conseguido sempre terminar a maratona competitiva da World Surf League entre os melhores colocados.

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Joe Turpel, um dos comentaristas craques da equipe da WSL, e John John, ao ganhar a etapa do Rio

Florence e Medina, junto com os veteranos Kelly Slater e Mick Fanning (que, depois do sumiço, deve fazer a última perna do Circuito em dezembro), são as grandes estrelas em todas as competições e tornam as suas baterias as mais esperadas. Ainda que surfistas jovens, como Filipe Toledo e Ítalo Ferreira, ou mesmo um pouco mais tarimbados, como Adriano de Souza e Julian Wilson, ajudem a despertar o interesse pelas competições, transmitidas pela página na Internet da Associação de Surfistas Profissionais ou pela ESPN, é a constância da qualidade das ondas surfadas por Florence, Medina, Fanning e Slater, que deixa a última etapa do Circuito, que acontecerá a partir do dia 8 de dezembro em Pipeline, um programa obrigatório. Vejamos se, mesmo com a vitória antecipada de Florence, a Brazilian Storm atrairá o público brasileiro e transformará, mais uma vez, a Banzai Pipeline na Banzai de Janeiro, como foi em 2014 e no ano passado. Foram dois brasileiros se sagrando campeões em seguida: Medina, em 2014, e Adriano de Souza, em 2015.

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O havaiano Florence e a australiana Tyler Wright, vencedores do Circuito Mundial de Surf de 2016
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Dylan Zimmerman

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Entre as artes que lidam com a palavra, a poesia é considerada a sua manifestação mais nobre. Reina acima da prosa, por exemplo, reputada como uma forma de expressão menor. Tanto assim que os grandes romances em qualquer idioma costumam incluir, em algum momento, versos. Escritor que se preze também tem obrigatoriamente que arriscar, uma hora ou outra, um poema. Confesso a minha extrema dificuldade em entender alguns poetas e seus versos. Outros me maravilham de imediato. A razão talvez seja aquela aventada por uma amiga, Sheila Kaplan, que tem um estudo sobre a poesia de Murilo Mendes. Diz ela que um poema deixa na mão de seu autor uma liberdade tamanha que o resultado ou é algo extremamente sublime, ou totalmente desprezível. E ainda assim, a razão por que o julgamos sublime ou desprezível é, de qualquer jeito e como tudo no campo da arte, da ordem do imponderável (alguns talvez preferissem dizer, da ordem do gosto).

Não existe, que eu saiba, crítico, ou mesmo leitor desinteressado e sem qualquer pose de analista literário, que não considere Machado de Assis melhor prosador do que poeta. Os versos de Herman Melville para as “Encantadas”, de forma semelhante, jamais vão fazer qualquer sombra sobre “Moby Dick”, ou mesmo sobre uma das outras obras em prosa do autor norte-americano. Por outro lado, não conheço ninguém que julgue Drummond melhor cronista que poeta, ainda que já tenha esbarrado com pessoas, acreditem, que tentavam lançar um olhar reprovador para a sua poesia. Drummond não chega a ser o poeta de quem eu saiba os versos de cor, mas imagino que aqueles que não vêem profundidade em sua escrita poética vão sempre se restringir a um grupo bem reduzido de pessoas.

Bom, esta volta toda é para chegarmos ao poeta que acaba de ser laureado com o Nobel de Literatura. Incorporando um pouco do espírito de Lima Barreto, devo começar dizendo que não posso ter nenhum apreço por um prêmio para o qual a literatura brasileira inexiste. Para a Academia Sueca, depois de passar mais de um século contemplando o cenário da produção literária planetária, ninguém no Brasil produziu um conjunto de obras relevantes. Mas a falta de sensibilidade parece ser a marca registrada que fez com que fossem esquecidos Tolstói, Valéry, Proust, Joyce, Kafka… a lista é grande. Portanto é melhor que deixemos ela de lado.

Quanto ao Dylan Zimmerman poeta, ele é fonte de sentimentos ambivalentes. Não chego a condição de fã incondicional como o Suplicy-pai e o Eduardo Bueno, ou mesmo à adoração de uma devota que existe aqui em casa e que tem tara pela fase new wave do bardo (é, senhores, não sei se é lenda urbana, mas dizem que essa fase existiu e que foi inspirada em Boy George e seu Culture Club; dúvidas, questionamentos, serão devidamente encaminhados por inbox a quem de direito). Ainda assim gosto muito, e sem saber bem o porquê, de boa parte de sua obra. Especialmente a veia poética que explora a clivagem beat entre o corriqueiro e o surreal, como nos versos que aparecem em “Tangled Up in Blue”:

She lit a burner on the stove and offered me a pipe.

“I thought you’d never say hello,” she said,
“You look like the silent type.”
Then she opened up a book of poems
And handed it to me.
Written by an Italian poet
From the thirteenth century
And every one of them words rang true
And glowed like burning coal
Pouring off of every page
Like it was written in my soul from me to you

Dylan tem incontáveis exemplos como este, que iriam dar no primeiro e provavelmente único exemplar de jornalismo literário escrito em verso com “Hurricane”, como observou de forma pertinente André de Leones no Estadão da última sexta-feira. Mas aprecio especialmente as investidas vazadas na clave estritamente surrealistas, como no clássico “Highway 61 Revisited”:

Oh God said to Abraham, kill me a son
Abe said man you must be puttin me on
God said no, Abe said what
God said you can do what you want Abe but
Next time you see me coming you better run
Well, Abe said where you want this killin done
God said out on highway 61

Ou na abertura de “Subterranean Homesick Blues”:

Johnny’s in the basement
Mixing up the medicine
I’m on the pavement
Thinking about the government
The man in the trench coat
Badge out, laid off
Says he’s got a bad cough
Wants to get it paid off

Há, no entanto, partes de sua obra poética que não fazem sentido algum pra mim. Antes mesmo de pouco ou quase nada me interessar pela trip cristã de Dylan Zimmerman, já achava hits seus como “Blowing in the Wind” tão bons e contagiantes como um comício político. “Knocking on Heaven´s door”, esta talvez pela exposição excessiva, só serviu como uma das primeiras músicas que usei para ensinar a um de meus sobrinhos, que, eu não fazia ideia, viraria músico, a tocar violão.

Parece que, para justificar a premiação de um ídolo pop, compararam Dylan ao Homero que saía pelas cidades recitando seus versos. E nisso, a contribuição do bardo é única. Além de poeta, Bob Dylan, ainda que possua uma voz de taquara rachada, convence como cantor pela genialidade de suas modulações vocais que fazem suas músicas mudarem de um show para o outro (ou faziam, é melhor dizer, já que há um bom tempo ele não consegue mais cantar decentemente como comprovamos em suas apresentações recentes no Brasil). Suas letras, num caso bastante interessante, mostram ainda que a poesia pode estar em constante transformação, permanentemente alteradas que eram pelo autor de uma apresentação para outra. É o que Dylan sempre faz e o torna um performer singular e merecedor de todas as honrarias.

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Tirada do inspirado Tutty Vasquez,  ou Alfredo Ribeiro, em seu perfil no FB
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O Competidor Estreante

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Um admirador apareceu na sala de controle para desejar boa sorte na prova do Raia Rápida

Depois de passar as últimas semanas namorando a piscina do Parque Olímpico da Barra, não tive como perder a oportunidade de dar minhas braçadas em suas águas azulzíssimas no evento “Raia Rápida”. Uma competição que costuma acontecer na piscina da sede aquática do Botafogo (aquela que fica suspensa no começo do aterro e de cara pro Pão de Açúcar), mas que os organizadores aproveitaram para levar para o palco das disputas olímpicas na Barra este ano.

O evento reuniu nadadores profissionais, iniciantes (com provas nas categorias mirim, infantil e juvenil), ex-atletas e amadores. Primeiro tivemos as competições dos iniciantes, dos atletas amadores/veteranos e depois o show de quatro times profissionais com 4 atletas para cada um dos estilos por equipe. Para a edição de 2016, rivalizaram as equipes da Itália, da África do Sul, dos Estados Unidos e do Brasil. Bruno Fratus comentou apropriadamente que a dinâmica das provas, que acontecem em sequências eliminatórias sucessivas (de 4, de 3 e de 2 competidores, até chegar ao vencedor) para fechar com um revezamento (com pontuação a cada disputa e um peso maior para a vitória no revezamento), pode ser uma maneira de tornar a natação mais atraente como espetáculo para o público espectador. Dos atletas que participaram da Rio 2016, tivemos a presença do americano Anthony Ervin, ouro nos 50 metros aos 35 anos, do italiano Fabio Scozzoli, do sul-africano Douglas Erasmus e dos brasileiros Bruno Fratus, Henrique Rodrigues, Henrique Martins e João Gomes Jr..

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Djan Madruga aos 58 anos e, neste link,  em uma prova na Olimpíada de Montreal de 1976 (400m livres) em que bateu em 4o. lugar e por pouco não subiu ao pódio (clique aqui)

Além de conhecer a piscina de aquecimento, deu ainda para ter, na sala de controle das provas, aquele encontro de fã com os atletas profissionais que iam competir e que apareceram para prestigiar quem saiu da cama cedo para o evento. Teve também a presença dos veteranos Gustavo Borges e Djan Madruga.  Foram 25 baterias amadoras. Gustavo Borges, medalhista em Barcelona (1992), Atlanta (1996) e Sydney (2000), nadou na 22a., e Djan Madruga, primeiro medalhista da natação brasileira em Moscou em 1980 (competiu ainda em Montreal, em 1976, e em Los Angeles, em 1984), na 24a. e penúltima bateria, da qual também tomei parte.

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O medalhista olímpico Gustavo Borges e seus companheiros de bateria

As provas infantis fizeram lembrar as primeiras tentativas de me aproximar das piscinas aos 10 anos nos treinos matinais do Tijuca Tênis Clube antes de escolher o tênis como prática esportiva predileta. Fez recordar também competições que não via há anos e que são fundamentais para a formação e o surgimento de novos atletas.

Só faltou mesmo a presença de Coelho Neto para tirar do bolso um discurso como aquele que proferiu por ocasião da abertura daquela que talvez tenha sido uma das primeiras piscinas construídas para competição no Rio de Janeiro, a do Fluminense Football Club, inaugurada em 1919. Um dia falo com mais calma sobre o pai de Preguinho (ou João Coelho Neto, multi-esportista, campeão como nadador, cestinha recordista de arremessos no basquete e o primeiro jogador a marcar um gol pela equipe brasileira em uma Copa do Mundo, em 1930), de Mano (ou Emmanuel Coelho Neto, jogador do Fluminense como Preguinho, falecido em um incidente durante uma partida contra o São Cristóvão) e de Violeta Coelho Neto de Freitas (exímia nadadora e soprano que encantaria o público fazendo a Cio-Cio-San de “Madame Butterfly”, de Puccini, na primeira temporada lírica com cantores nacionais no Municipal, em 1937).

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“A solenidade que aqui nos reúne e para a qual foram convocados os poderes do Céu e da Terra, e o mar, é de tanta magnitude que a não podemos avaliar senão rastreando, através das sombras do Tempo, a sua projeção no Futuro.” (Coelho Neto. Discurso na inauguração da piscina do Fluminense F.C., em 1919)
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 Preguinho (ou João Coelho Neto) e sua irmã Violeta, dois dos 14 filhos de Coelho Neto com sua mulher Maria Gabriela Brandão

Voltemos desta viagem no tempo. Todas as provas do Raia Rápida foram disputadas em estilo livre em 50m apenas. Na categoria infantil, impressionou o garoto Leandro Odorici, que aos 13 anos nadou com o tempo de 25.43. O tempo de Fratus e de Erwin nas muitas provas que fizeram durante o evento, por exemplo, oscilou entre 22 e 23 segundos. O recorde para esta prova é de Cesar Cielo, conseguido em 2009 em Roma com a marca de 20.91, nunca batido desde então. O tempo do veterano Gustavo Borges, com 44 anos hoje, foi de 24.91 no Raia Rápida. Ao encontrar com ele no vestiário antes da entrada na sala de controle, perguntei qual a dica que daria para quem nunca tinha saltando de um bloco de competição na vida, meu caso. Aconselhou que saísse de dentro d´água. Ao que eu retruquei que ele estava sendo duplamente desleal.

A saída é muito importante e a tecnologia na altura e inclinação do bloco de partida é o que tem ajudado a baixar os tempos, especialmente em provas muito rápidas. É também o que traz mais problemas para os competidores neófitos. Cheguei em 5o. lugar com o tempo de 37.18, nadando tranquilo e aproveitando a beleza da piscina ao reparar pelos retardatários e companheiros de faixa otária que não faria tão feio assim. O vencedor da bateria, Roberto Carlos Carvalho, ganhou com o tempo de 27.60. Djan Madruga fez o tempo de 28.36.

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Foi a segunda competição de natação da qual tomei parte, mas a primeira em piscina. Em 2012, participei da “Travessia dos Fortes”, cruzando a praia de Copacabana do Posto 6 ao Leme. Enjoei muito. Aliás, desde pequeno foi o enjoo dentro d´água que me afastou até mesmo das piscinas. Durante a travessia e na altura do hotel Rio Othon Palace, a ondulação me fez ficar completamente mariado e tive que fazer o restante da prova até o Leme nadando peito no tempo de 1h19. Para quem sofre de enjoo n´água, recomendo o aprendizado e prática da alternância de lado na respiração. O hábito afasta o mal.

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Parceiros da Travessia dos Fortes. A professora Janaína (que também enjoou feio) e Bruno Florentino

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Inclusão Olímpica

daniel-dias-2Para uma sociedade que vive diariamente um sentimento de desprezo absoluto por manifestações mínimas de civilidade, as Paraolimpíadas, que acabam de se encerrar no Rio de Janeiro, se mostraram um evento extremamente educativo. Os jogos cumpriram a simpática missão de mobilizar um número significativo de pessoas e levá-las a um exercício raro de prática inclusiva que, tenho certeza, terá consequências para a elevação do grau de tolerância e de respeito mútuo. Todos aqueles que lidam com a realidade educacional brasileira sabem o quanto isto é importante.

Excluindo os interesses econômicos que movem as disputas esportivas, não consigo compreender a razão de as duas competições não terem ainda se transformado em um único e mesmo acontecimento olímpico. Especialmente quando se sabe que muitos atletas paraolímpicos tiveram desempenho que rivaliza com aquele dos esportistas olímpicos. Além disso, é perfeitamente possível se reduzir o número de baterias seletivas para se ter competições mais enxutas. Seria uma atitude que ajudaria a dar mais importância às provas paraolímpicas e a equiparar em prestígio as duas competições.

Como de costume, acompanhei com atenção especial as provas do parque aquático onde o Brasil teve a chance de festejar o seu maior atleta paraolímpico na pessoa do nadador Daniel Dias. Talvez pareça simples o que o mais destacado medalhista brasileiro faça dentro da piscina. Aos que imaginam se tratar de coisa simplória, desafio a completar apenas 25 metros, ou metade de uma raia olímpica, em nado borboleta.

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Outro nadador que impressionou muito foi o chinês Tao Zheng. Ele vem se distinguindo desde a paraolimpíada de Londres. Enfrentando a limitação que tem como consequência da amputação dos dois braços, ele tira proveito do seu trabalho de pernas, especialmente na impulsão da virada no nado submerso. Consegue com isso trabalhá-las com uma eficiência excepcional, o que o leva a liderar com ampla margem de vantagem suas provas e, na competição dos 100m no estilo costas, o fez bater o recorde paraolímpico durante a competição. Quem pratica este balé dentro d´água que é a natação (por favor, leitores, sem risinhos, sim?), passa a observar estas coisas. Os chineses, tanto na Olimpíada quanto na Paraolimpíada, vêm dominado as competições e liderando o quadro de medalhas a cada edição do evento. Nas disputas aquáticas então nem se fala. A razão, ficamos sabendo, é que todos os seus atletas medalhistas são agraciados com uma pensão vitalícia por seus feitos.

Para um país em que escolas e universidades devotam pouca, ou mesmo nenhuma, atenção às práticas esportivas e em que se olha com desconfiança projetos de mínima justiça social de programas como o Bolsa Família, até que nos saímos melhor do que o esperado. É verdade que desde 2004 houve a criação do Bolsa Atleta, o que foi um primeiro paliativo. Vejamos se ela terá continuidade passada a febre olímpica. Ao fim das competições, nossa colocação geral ultrapassou de longe o desempenho que deveríamos cobrar de nossos atletas. Dos esportistas paraolímpicos nem se fala, já que o investimento nesta categoria ficou bem aquém daquele feito na equipe olímpica.  

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Indagações sobre a Verdadeira Face da Imprevisível e Dissimulada Dama

img_1828-001O assunto poderia ter sido discutido no conjunto de vime composto por um sofá e por quatro poltronas no espaço entre as duas estantes à esquerda de quem adentrava a livraria e casa editorial Garnier, na rua do Ouvidor no centro do Rio de Janeiro, há um século. Os convivas na livraria do editor de Machado de Assis seriam Olavo Bilac, Lima Barreto, João do Rio, Gilka Machado, Coelho Neto e seus muitos amigos e conhecidos. Ele foi, no entanto, inquirido, perscrutado, perquirido, na mais nova filial da Livraria da Travessa que fica em frente às salas de cinematógrafo do antigo cinema Estação Botafogo (agora, Estação Net).

Ao invés de pisarmos a calçada da Ouvidor, com seu ladrilhado vermelho, branco e amarelo, e subirmos os degraus da loja do livreiro Baptiste Louis Garnier (ou, para os maldosos, do Bom Ladrão Garnier), passamos pelo piso quadriculado em verde e branco da entrada da nova livraria da Voluntários da Pátria, vencemos sua vitrine com janelas avermelhadas e percorremos seu sinuoso labirinto. Lá, bem no fundo, no acolhedor recinto dedicado às crianças, nos entregamos a uma tarefa inglória: a de tentarmos entender aquela com a qual convivemos diariamente, estejamos satisfeitos, seduzidos, fascinados ou aborrecidos, chateados, agastados com ela.

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De início, procuraram passar a imagem de uma criatura que, ainda que muito conhecida e falada, é simpática, envolvente, simples e fácil no trato, não só com os próximos, mas também com aqueles que se relacionam com ela à distância. Aos poucos porém fomos descobrindo o quanto estes traços aparentemente afáveis, amáveis, amoráveis, afetuosos, podem esconder uma figura geniosa, cheia de caprichos, veleidades, cismas, desvarios. Capaz mesmo de ensejar brigas homéricas. Percebemos, assim, como temos na verdade uma fonte de permanente dissenso entre todos aqueles que a cortejam.

Alguns chegando mesmo a se arvorar a criadores de leis, punições, sanções, multas, para os que tentarem se engraçar com ela. Das discussões genéricas, avançamos sem demora para as considerações pontuais. Nosso espaço de debate ganhou a partir daí ares de tribunal, uma corte comandada pelo escritor Arthur Dapieve e pelo expert em crimes de lesa-língua, bem como autor de livro sobre o tema, em lançamento naquela noite (“Viva a Língua Brasileira!”, Companhia das Letras, 2016), Sérgio Rodrigues. Procedeu-se assim à análise de alguns dos muitos litígios envolvendo a polêmica figura. Comentou-se, por exemplo, sobre a existência de alguns que juravam que ela jamais poderia aceitar ver algum cidadão a “correr risco de vida”. Para estes, ela só poderia vir a testemunhar, sem incorrer em ilogicidade, uma pobre e infeliz pessoa a passar por “risco de morte”.

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Da mesa, Sérgio Rodrigues, e, da platéia, Arnaldo Bloch, não deixaram de externar suas contrariedades. O primeiro afirmou que, ainda que aceitável, o “risco de morte” não pode ser admitido como uma forçosa contrapartida à exclusão do “risco de vida”, sem que, com isso, seus adeptos fossem reconhecidos como néscios clamorosos. O segundo foi mais direto na desqualificação de semelhante perspectiva e disse que se alguns autores pensam assim, “problema deles”. Ainda que acompanhemos esta opinião, a defesa intransigente de um Ferreira Gullar ao “risco de morte”, em artigo publicado em jornal, e a adoção em seu mais novo livro, “A Noite do Meu Bem”, desta expressão por um escritor mordaz como Ruy Castro, crítico sempre ferino dos que fazem mau uso de nossa querida companheira, faz vislumbrar por quantos caminhos tortuosos vagueia nossa controvertida musa.

Outro capricho de nossa prima-dona envolve o uso de mais uma expressão que tem deixado insatisfeitos os defensores de sua imperiosa e necessária lógica. Para estes, não poderíamos ter “dois pesos e duas medidas”, mas simplesmente “um peso e duas medidas”. A polêmica poderia ganhar curso, caso a expressão não vicejasse desde tempos imemoriáveis, bíblicos, por assim dizer. Quase recorremos a um especialista em aramaico para afastar pra bem longe este embaraço injustificável.

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Encerrada a conversa, inquiri aos que tinham defendido a simplicidade de nossa sábia dama, o porquê de pessoas, que se movem, comunicam e se mostram tão desenvoltas em recorrer a ela para expressar suas ideias, anseios, fascinações, acabarem por tropeçar ao tentar colocar em registro escrito seus inspirados lampejos confabulatórios. Como exemplo, citei o caso do muito falante, articulado e imbatível debatedor de mesas da Flip, Benjamin Moser. O diagnóstico sagaz não tardou a eclodir: levantaram a hipótese de o autor de “Clarice,” ter transitado em excesso pela literatura de sua biografada.

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No final do encontro e no frenesi pela busca de um autógrafo para o volume de “Viva a Língua Brasileira!”, belamente ilustrado por Francisco Horta Maranhão e com capa primorosa de Alceu Chiesorin Nunes, acabou faltando tempo para conversar mais com os presentes. Com Pedro Doria, sobre a troca de um iPhone por um celular-android e ainda sobre o tenentismo. Com o quieto Ronaldo Bastos (sinal de que a poesia observa de longe estas discussões), sobre letras e a Nuvem Cigana. Com Fernando Molica, sobre a mais completa falta de decência política de que se tem notícia na história deste país. Com Mànya Millen, sobre os caminhos da literatura contemporânea. Com Heloisa Fischer (conversa que poderia ser compartilhada com o neo-erudito Dapieve) sobre a escolha de repertório de Yo-Yo Ma e Yuja Wang. E de, finalmente, dar os parabéns ao Álvaro Costa e Silva pelas colunas na prestigiada segunda página da Folha de São Paulo.

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