Conversa sobre a Pérfida, a Traidora, a Desalmada Criatura

Língua BrasileiraGrande expectativa pelo encontro em setembro entre dois craques da escrita na Livraria da Travessa em Botafogo para uma conversa sobre esta prima-dona sem coração, esta senhora vaidosa que gosta de fazer e acontecer comigo.  Já se vão aí mais de 50  anos de convivência e a arrogante sempre me maltratando, sem dó, nem piedade. Faz tantas que, invariavelmente, me pego a conjecturar se ela não teria amantes em cada bairro da cidade. Enamorados, amásios,  concubinos que, como eu, posso antever, também são maltratados, ludibriados, pela pérfida figura. Estamos, ao que tudo indica, condenados por gosto e por destino a procurá-la na triste esperança de uma vida serena em sua companhia. Por vezes suplicando, implorando, nos humilhando em público ou nos remoendo em auto-flagelação no recesso do lar, em busca de um pouco de compreensão. Carentes eternos de sua presença, não conseguimos deixar de pedir que nos trate bem. E ela, invariavelmente, faz justo  o oposto. De nariz em pé, fica debochando, desdenhando, fazendo pouco caso de nós. No próximo dia 5, me dirigirei à Livraria da Travessa para saber se, de fato, existem homens felizes no mundo que se dão em completa harmonia com esta desalmada criatura. E caso tal hipótese se confirme, vou querer entender como fazem para conviver com este tipo arrogante, cuja única atribuição em sua maldosa existência parece ser o desejo de espezinhar e menosprezar os que não conseguem passar um dia sequer sem tê-la por perto.

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O Rei Slater de Volta

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Kelly Slater dando entrevista para Peter Mel depois de vencer em Teahupoo

Ainda não havia se encerrado a maratona olímpica e a temporada de surfe já tinha retomado seu curso com as sessões deste ano nas ondas de Teahupoo na Polinésia Francesa.  Gabriel Medina conseguiu chegar à semi-final para ser desbancado pelo havaiano John John Florence em uma bateria acirradíssima em que perdeu por muito pouco. Os dois seguem brigando pelas primeiras posições na temporada junto com o australiano Matt Wilkinson. Mas a grande figura do evento foi Kelly Slater que do alto dos seus 44 anos continua dando aula para a garotada. Slater teve sua 55a. vitória no surfe mundial, marca que o deixa ainda mais distante de qualquer surfista em qualquer tempo. Surfou com a classe usual em Teahupoo naquelas que são as ondas mais perigosas e desafiadoras de todo o circuito. Ainda que esteja participando apenas de algumas das 11 fases da competição, já conseguiu com sua pontuação se posicionar entre os 10 primeiros mais bem colocados e pode dar trabalho até o fim da temporada que acontece em dezembro em Pipeline. Antes disto, os surfistas voltam aos Estados Unidos (à praia de Trestles, na Califórnia), em setembro, e depois vão a França (Seignosse/Soors-Hossegor) e a Portugal (Peniche), estas duas competições em outubro.

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Duas Semanas de Celebração Esportiva

Captura de tela inteira 14082016 150555As olimpíadas sobreviveram aos piores vaticínios e para quem nunca esteve próximo de um evento desta magnitude, acompanhar tudo de perto foi deleite puro. Duas semanas de contendas esportivas non-stop. Ora pagando ingresso para ver as competições junto a entusiasmados torcedores (alguns, poucos felizmente, mais entusiasmados do que o necessário, é bem verdade) que apoiavam as delegações brasileira e estrangeiras no Parque Olímpico, ora simplesmente dando um pulo até a praia de Copacabana ou até a Lagoa Rodrigo de Freitas para assistir como mero curioso às maratonas no mar e às competições de remo. Ou ainda pela televisão com a excelente cobertura do Sportv, que fez o mais amplo televisionamento da Rio 2016 e que teve nos programas “Bom Dia Sportv” e “Extraordinários” duas de suas melhores atrações.

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Tudo em uma edição especialmente feliz para a delegação brasileira que encerrou o evento com duas partidas que coroaram os jogos. No ex- Maracanã, quebramos o tabu do ouro olímpico no futebol e, no ex-Maracanãzinho, confirmamos o favoritismo que tem levado o Brasil a invariavelmente fazer as finais dos jogos olímpicos no voleibol desde a histórica participação na olimpíada de Barcelona de 1992.

No Estádio Mario Filho, e depois de um início titubeante e com um vergonhoso empate com o Iraque, Neymar Bolt, Renato Augusto, Gabigol, Weverton e uma jovem e promissora seleção resolveram mostrar serviço e apresentar um futebol que ajudou a apagar da memória o fiasco das equipes comandadas por Dunga. São ainda muito marrentos a meu ver para um time que é apenas uma promessa e receberam também um absurdo prêmio individual por atleta de 500 mil de uma entidade corrupta, o que não é bom sinal. Mas inegavelmente conseguirem um feito inédito e jogaram bem, particularmente nas partidas contra Honduras e Alemanha. Foi de se lamentar que um Müller, um Ozil, um Lahm, um Manuel Neuer, não tenham participado do time da Alemanha para que tivéssemos um jogo mais relevante para o público. A presença de craques da seleção campeã da Copa de 2014 do outro lado do campo no jogo final poderia ter tornado a partida ainda mais disputada e interessante.

No Gilberto Cardoso, ginásio que tem o nome de um destes dirigentes esportivos que merecem ser sempre lembrados, a estrela de Bernardinho seguiu brilhando no comando de uma equipe que misturou os veteranos Serginho e Bruninho com  o estreante Lucarelli em uma time afiadíssimo que conseguiu fechar a semi-final e a final com o resultado surpreendente de 3 sets a zero sobre adversários fortes como os russos e os italianos.

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Mas as olimpíadas colecionaram imagens de grande impacto nos cenários que privilegiaram os encantos naturais do Rio de Janeiro. Pela TV era possível ver logo cedo as tomadas belíssimas, ajudadas por amanheceres ensolarados na maioria dos dias. Práticas esportivas que têm a vocação do sublime, como as competições náuticas e aquáticas, fizeram a festa do espectador. Como aquelas, por exemplo, protagonizadas por Isaquias Queiroz, este índio-caboclo que dá a impressão de ser um personagem saído de um livro que José de Alencar nunca escreveu. Vimos Isaquias ser flagrado em imagens de evocação épica montado em sua canoa a singrar as águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, sozinho e ao lado do parceiro medalhista Erlon de Souza Silva.

São cenas de impacto equivalente àquelas proporcionadas pela final das equipes dos barcos de oito das corridas de remo que aconteceram no primeiro sábado de competições e que puderam ser vistas nas muito bem organizadas raias da Lagoa. Repetíamos naquele dia, 60 anos depois, algo que aconteceu neste mesmo cenário em julho de 1956.
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Naquela ocasião, o Jornal dos Sports de Mario Filho trouxe uma guarnição de remo da Universidade de Cambridge para competir contra equipes brasileiras. Todos os jornais da época registraram aquela que, mais do que uma disputa, se transformou em uma belíssima apresentação dos renomados representantes da conhecida universidade inglesa. O público lotou as arquibancadas do Estádio de Remo para prestigiar o evento que deve ter sido um espetáculo tão bonito como o que aconteceu dentro das Olimpíadas do Rio. Assim como a equipe do oito da Grã-Bretanha dominou a prova olímpica final nesta categoria, os remadores do oito de Cambridge deixaram para trás as guarnições do Flamengo, de Aldo Luz (de Florianópolis), do Vasco e do Tietê paulista em 1956.
Na Marina da Glória a vitória de Martine Grael e Kahena Kunze na regata da classe 49er foi uma surpresa, mas não de todo inesperada se nos lembrarmos da tradição de velejadoras que vem de duas famílias ligadas a este esporte. Com uma baía de águas limpas, nenhum dos vitoriosos se privou do seu mergulho para comemorar a conquista. Havia toda a expectativa em relação a participação de Robert Scheidt que saiu muito mal em todo o evento. O comentarista João Bulhões esclareceu que Scheidt teve que voltar ao laser com o fim das competições da classe Star em que sempre faturava suas medalhas. Ainda que quando jovem tenha conseguido subir ao pódio na classe laser, Scheidt não tem mais condições físicas para competir nesta categoria.
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Já tinha assistido à natação e escolhi ainda ver ao vivo duas outras competições no Parque Olímpico da Barra. Os saltos ornamentais e uma partida de polo aquático. Os saltos já estavam sendo realizados em águas azuis e transparentes e o polo havia tomado o espaço da piscina onde se deram as provas de natação na primeira semana. No polo aquático a briga era pela medalha de bronze que ficou com a equipe feminina russa em jogo disputadíssimo contra as húngaras. O jogo de abertura foi uma lavada das jogadoras chinesas contra as brasileiras. De qualquer jeito, o polo aquático se pareceu mais com uma luta livre entre mulheres à beira de um ataque de nervos do que com qualquer outra coisa, com gritaria pra tudo quanto é lado. Bem diferente do ambiente contido dos saltos ornamentais. A febre esportiva segue agora com os jogos paralímpicos. Já nadei lado a lado com atletas deficientes durante a Travessia dos Fortes em 2012 e não quero perder as provas de natação em setembro.
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A Marvada, a Bendita, a Caprichosa Língua Brasileira

Quem passa por aqui sabe da minha luta com o seu, com o meu, com o nosso idioma. Ainda bem que tenho, como desculpa esfarrapada, a companhia de Scott-Fitzgerald, Herman Melville e Rubem Fonseca, três craques das bem-traçadas por vias tortuosas. O que há de bom no blogue é que podemos seguir atualizando, em correções diárias, as atrocidades que escaparam na véspera. Nestas horas, são fundamentais os aconselhamentos sobre o idioma pescados nos textos jornalísticos escritos com classe por Sérgio Rodrigues nos jornais (do JB, de ontem, ao Estadão, de hoje) e na blogosfera (do nominimo, do passado, ao todoprosa, de agora). Estudioso autodidata sobre o assunto, Sérgio Rodrigues é um debatedor culto que sempre levanta questões pertinentes e instrutivas sobre os usos, comportamentos e caprichos da língua. Prestes a lançar o livro “Viva a Língua Brasileira”, pela Companhia das Letras, ele segue também alimentando debates sobre nosso idioma em sua conta no Livro-de-Caras.

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Cidade Olímpica em Festa

13932231_1229364443761739_1493586478_oUma beleza o Rio de Janeiro olímpico. Fizeram tantos prognósticos catastróficos que a impressão era a de que nada iria dar certo. Tudo, no entanto, está funcionando bem (a linha nova do Metrô e o BRT em conexão perfeita) e tem sido uma verdadeira alegria circular pela cidade com o clima contagiante dos torcedores. Os ingressos podiam ser um pouco mais baratos, mas dizem que, pelos custos e gastos que um evento desta magnitude requer, mesmo contando com um grande número de voluntários, estamos tendo as entradas mais baratinhas da história recente dos jogos olímpicos. Batalhador incansável por estimular o gosto do público do Rio de Janeiro pelo esporte, Mario Filho estaria feliz da vida em ver uma festa como esta acontecendo.

Ruy Castro teve a visão profética e foi o primeiro a fazer a observação pertinente contra os olhares dos desconfiados: “Apesar dos espíritos de porco e dos profetas da derrota, vamos ter uma grande Olimpíada. E no cenário mais bonito que os Jogos já viram desde a Grécia”, declarou ao escritor português Nuno Costa dos Santos antes de começarem as contendas esportivas. Por sua plasticidade, o remo, especialmente nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, compôs um quadro de beleza inédita. Deixou aquela vontade de desafiar a salubridade da Lagoa e praticá-lo. O mesmo aconteceu com a maratona ciclística que correu toda a orla e as Paineiras.

Por convicções pessoais, procuro me manter afastado das lutas, em todas as suas modalidades. Tentativa de evitar ver por exemplo uma atleta quebrar o braço da Sarah Menezes no judô, imagem nada agradável que tivemos de testemunhar.  A aversão se estende a todas as modalidade envolvendo luta. Até mesmo a nobre arte dos boxers. Outros esportes que fogem à minha compreensão são as disputas de tiro com suas variantes no tiro com arco e no tiro esportivo com arma de fogo. O atletismo também não chega a entusiasmar, mas a diversidade é, como diria Shakespeare, o que dá gosto à vida. No inacreditável leque de sortimento de modalidades (badminton, tênis de mesa, rúgbi) o impensável hóquei na “grama azul” entra, como comentou Marcelo Madureira, para a categoria dos esportes com pretensões lisérgicas.

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Centro Olímpico da Barra com o “cubo da natação”, abaixo à esquerda; à direita, ao lado, a Arena do Futuro (handebol) e, na sequência, Carioca 1 (basquetebol), Carioca 2 (Lutas), Carioca 3 (Esgrima) e o  mais distante velódromo (ciclismo indoor); ao fundo, as quadras de tênis (o estádio maior e aberto ao centro e as quadras menores com piso rápido na cor verde); bem à direita, a Arena Olímpica do Rio (HSBC), espaço das ginásticas (artística e rítmica)

Quando as práticas esportivas ainda engatinhavam no Brasil na década de 1940, o criador de multidões Mario Filho identificou o encantamento adicional que a presença de atletas mulheres podia trazer para um mundo até então dominado pelos homens. Criou assim os “Jogos da Primavera” (só para elas), para enfatizar como a graça feminina nas competições era fundamental. A ginástica artística, com suas apresentações de solo, segue confirmando o que deve se estender às ginásticas de gala e rítmica.

Como os que frequentam este espaço sabem, comungo na cartilha e sigo os mandamentos de Peter Gabriel quando o assunto é esporte. Faço a opção portanto pelo “I go Swimming” do músico de Bath na hora de escolher o esporte predileto. Especialmente nas transmissões comandadas por Milton Leite, Alex Pussieldi, Mariana Brochado e Fabíola Molina. Competições na água são sempre as favoritas e depois de ter conferido o salto em trampolim pela TV, já penso em assistir ao polo aquático. Apesar desta adesão incondicional às modalidades aquáticas, achei muito estranho termos o anúncio do surfe como novo esporte competitivo para as olimpíadas que irão se realizar em Tóquio em 2020. Surfe em piscina de onda artificial não vai ter nenhum sentido. Melhor deixar que a Associação dos Surfistas Profissionais (ASP) cuide, com a classe habitual, deste assunto, bem longe dos jogos olímpicos.

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Moser e Machado Causando nas Redes Socias

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Mgkai, Estrangeiro como Nós

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A paternidade nunca me inspirou muito e confesso que admiro a abnegação dos que se prontificam a exercer voluntariamente este ofício. Não se trata de aversão à criança. Muito pelo contrário. Sempre me diverti muito com meus sobrinhos e de forma mais intensa ainda quando eles eram bem pequenos. A ter filhos, confesso que, por razões que a só a razão explica, preferiria seguir os passos de Ana Amélia Macedo e Roberto Berliner e optar pela adoção. Já existem crianças em número suficiente no mundo superpopuloso em que vivemos, a grande maioria delas totalmente desassistidas. E vejam a maravilha de família que a Ana Amélia e o Roberto construíram. Falta a mim, no entanto, a coragem que só os pais, sejam eles partidários da adoção ou não, têm.

Essa introdução toda é pra falar de “Mgkai, o Estrangeiro” (Editora Edebê, 2016), livrinho infanto-juvenil que a amiga Sheila Kaplan lançou no sábado passado na livraria Malasartes, no Shopping da Gávea. Desde que vi o título fiquei, como uma criança, intrigado sobre como pronunciar aquele nome: Migkai ou Mikai. Sheila já estabelece no título o estranhamento que quer que todos os seus leitores pequeninos ou já crescidos experimentem. E Mgkai é o estrangeiro que, como já nos demostrou Albert Camus, de forma nada convencional, somos todos não apenas na escola, mas por toda a vida. Estamos sempre buscando a sintonia e a empatia de alguém e achando que esse alguém infelizmente não existe. Imaginamos que todos vão sempre e inevitavelmente entender a nossa perspectiva como estranhíssima e incompreensível. Passamos o diabo tentando acertar o passo com o de nossos semelhantes.

Ao falar do estrangeiro Mgkai, Sheila retrata com a maior classe o ambiente escolar com seus tipos e incidentes recorrentes. Já tive que brigar muito com o Genildo. Como gostava de apanhar. Eu não entendia aquilo e queria paz para estudar. Teve uma hora que tive que ser sincero e direto com minha mãe: “Preciso mudar de escola urgentemente. Aquilo lá é uma bagunça”. A bagunça era o Colégio Brasileiro de Almeida. Nunca fui bad boy, mas andava em más companhias, não sei por quê. Um dia, depois da aula de educação física no Flamengo com o José Roberto Wright, o Marcos Alexandre foi para o alto da arquibancada do clube e, acreditem, jogou uma garrafa de Coca-Cola de lá de cima no meio da rua. O Nadais e eu estávamos com ele e o idiota aqui acabou na coordenação levando pito do professor Terdy. Por nada.

É. Sheila com sua ficção nos faz voltar no tempo. A autora encontra ainda o jeito certo de estabelecer aquele humor que é o que dá graça a uma estória bem contada. Na Malasartes, tivemos a leitura inspirada de uma atriz nata, a Risa Landau, que nos fez mergulhar de cabeça naquela balbúrdia escolar. Aconselhei a dupla a sair pelas livrarias da cidade levando a estória e sua mensagem para novos leitores, que precisam conhecê-la. Sim, senhores, a velha mensagem tão fora de moda estava precisando de alguém que a reabilitasse com alguma dignidade, o que acabou ocorrendo de forma delicada pelas mãos da Sheila. Especialmente em uma sociedade de crianças tratadas como semideuses, paparicadas ao extremo, e que podem tudo sem obrigação alguma em contrapartida.

Como disse Dana Carvey (ele teve dois garotos endiabrados que davam o maior trabalho), os pais de hoje em dia estão desmoralizados. Não têm a mínima autoridade. Em lugar de exigir boas maneiras, se limitam a comentar, como que humilhados, “não foi isso que nós combinamos”. Tomara que “Mgkai” ajude a criar um ambiente mais tolerante entre esta garotada. Quem sabe assim tenhamos pessoas que saibam tratar o desconhecido sem tanto preconceito, intransigência e espírito separatista. Vou recomendar a uma de minhas sobrinhas postiças, a Lilice, que proponha ao pessoal de sua escola de teatro, o Catsapá, uma montagem teatral de “Mgkai”. Torço para que isso aconteça.

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 Sheila Kaplan (primeira à direita, no chão)
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Dia 16 de Junho: Querido por Joyce e por Tantos Outros

Beth Toba Caxambu

Elizabeth e Topche Wester em São Lourenço (circa 1983)

Cada um de nós tem suas datas especiais. Para James Joyce, como todos sabem, era o dia 16 do mês de junho. Data em que conheceu sua mulher Nora Barnacle e dia em que escolheu, em função disso, para que transcorresse toda a ação de seu mais conhecido romance, “Ulysses”. É quando, em reverência a Joyce, se celebra na Irlanda e por todo o mundo o que ficou conhecido como o Bloomsday (o dia de Leopold Bloom, um dos protagonistas do romance). Para mim também é uma ocasião muito significativa porque marca a data de nascimento de minha primeira mulher, Elizabeth Wester, que estaria completando 58 anos de vida este mês. Nasceu na Casa de Saúde São Sebastião no bairro do Catete no Rio de Janeiro, filha de pais de origem polonesa.

O pai, Rachmil Wester, desembarcou no Rio com 20 anos, vindo de Varsóvia, no ano de 1933, como está registrado em seu passaporte de viagem que a família guarda até hoje. A mãe, Topche Tueiv Sperman, nasceu já no Brasil, mas de pais que haviam imigrado também da Polônia. Como além da ascendência polonesa tinham origem judaica, Rachmil e Topche acabaram se casando depois de estreitarem relações ao serem apresentados dentro da comunidade que frequentavam. Tiveram dois filhos, Elizabeth e Alberto, e, como todo imigrante sem muitos recursos, uma vida cercada de dificuldades ainda que menores do que as dos Joyce em Pula e Trieste. Moravam no bloco B de um apartamento pequeno, de quarto e sala apenas, na Tijuca. Rachmil vivia como comerciante de roupas e de trabalhos de alfaiataria.

Como ficaram órfãos do pai bem cedo, os filhos e Topche tiveram que se virar. Beth estudava no Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, próximo de sua casa. Para dar conta de seus estudos no final de sua formação básica, obteve a ajuda daquele que era seu namorado na época, o hoje economista Sérgio Besserman Vianna. Teve uma convivência estreita com os pais e toda a família do Bussunda naquele período e foi graças ao auxílio de Sérgio Besserman, dizia, que passou para a faculdade de medicina da UERJ. Tinha, no entanto, uma missão dentro da Universidade em que ingressara, organizar e divulgar as ações e o pensamento do Partido Comunista Brasileiro a cujas ideias aderira pela proximidade com a família do namorado, toda ela de militantes esquerdistas buscando alternativas políticas durante o período da ditadura militar no Brasil.
Quem já leu Pedro Nava sabe que a aula prática de anatomia em uma faculdade de medicina é o teste de fogo que separa os quem querer ser médicos daqueles que podem de fato ser médicos. Beth foi reprova pela falta de vocação e teve que partir para a faculdade de direito da UFRJ depois de passagem pelo curso de geografia. Foi nesta época que nós nos conhecemos. Namoramos, casamos e tivemos uma vida em comum durante 25 anos até o seu falecimento no ano de 2008, de câncer.
E aqui é importante comentar algo sobre a doença, especialmente para as mulheres. Um pouco depois do falecimento de Linda McCartney, assisti certa noite na TV, o ex-Beatle comentar melancólico: “Se aparecer alguma coisa em um exame que você fizer, por mais diminuta que seja, e seu médico disser que não é nada, não acredite nele”. Alguns meses depois disso fui acompanhar a Beth em um exame em que apareceu a tal coisa diminuta mencionada por McCartney. Fomos juntos, transcorridos alguns dias, à consulta com sua ginecologista que ainda que seja excelente e bem sucedida obstetra, viemos a comprovar, não tinha experiência com ginecologia oncológica.
Quando o assunto é câncer, a questão hereditária é importantíssima como todo mundo sabe. Comentei com a médica que a mãe da Beth havia falecido de câncer de ovário e daí a nossa preocupação. A médica me assegurou que a imagem do exame era um mioma, mioma esse que virou um problema no endométrio e finalmente, três meses depois, chegou-se a conclusão que era um câncer que evoluíra até o estágio III (numa escala de I a IV). Todos ficamos obviamente irados com tamanha inépcia. O mundo veio abaixo, mas Beth era pragmática e passou com a maior bravura por todos os tratamentos, sem nunca reclamar. Além de ter uma personalidade forte, era muito corajosa e enfrentou todo aquele calvário sem em momento algum se fragilizar. Foi muito sofrimento, desde o início de 2003 e até o fim em 2008, por isso compreendo hoje perfeitamente as atitudes radicais de pessoas como Angelina Jolie. 
Houve ocasiões em que se julgava que tudo havia serenado. Numa dessas oportunidades, recebemos para um almoço a visita de Sérgio Besserman. Passamos boa parte da tarde conversando. Besserman estava apaixonado e fascinado com o sucesso de seu irmão humorista, aquela figura iconoclasta, fora dos padrões e divertidíssima com suas tiradas sempre espirituosas. Falou também sobre a amizade com os amigos do irmão e integrantes do programa “Casseta e Planeta” com quem jogava carteado toda semana, pessoas com as quais a Beth também havia convivido. Pouco tempo depois, o Bussunda partiria ainda muito novo. Dois anos em seguida a ele, a Beth nos deixaria. Ficaram os muitos anos de alegria na convivência com uma mulher inteligente, vivaz e batalhadora. Foi quem me ensinou o que é construir por conta própria sua trajetória pessoal desafiando todas as adversidades. Sempre na luta, sem nunca perder a ternura.

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Beth com meu sobrinho Pedro Pinto
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A Drag Queen com Maquiagem Anos 80 dos Strokes

Pete Shelley, Joy Division, Gary Numan, Bauhaus e Howard Devoto que se cuidem, os Strokes partiram em viagem retrô rumo aos anos 80. O primeiro disco da carreira solo de Julian Casablancas (sem o pessoal do The Voidz) já tinha apontado nesta direção e o trabalho anterior do grupo, “Comedown Machine”, deu seqüência ao namoro que chega agora ao seu melhor exemplar com a música “Drag Queen”, do EP (de extended play single; mais que uma única música, menos que um disco inteiro) que acaba de sair. “Future Present Past” apresenta gravações da banda em seguida ao encerramento do contrato de 5 álbuns com os selos Rough Trade/RCA através do qual o grupo vinha lançado seus discos desde a estreia com “Is This It”. Depois de gravar 3 discos excelentes (“Is This It”, em 2001, “Modern Age”, em 2003, e “First Impressions of Earth”, em 2006) e um bem razoável (“Angles”, em 2011), a banda nova-iorquina patinou feio em “Comedown Machine” (álbum burocrático pra cumprir contrato, pelo visto), em 2013, e parece estar tentando retornar ao seu melhor. São 3 músicas apenas. O tributo aos 80 com “Drag Queen” (assinada por Casablancas com Fabrizio Moretti e o guitarrista Nick Valensi) e mais “Threat of Joy” e “OBLIVIUS” (esta última sai também em versão remix feita pelo baterista brasileiro), composições que servem o Strokes de sempre só que em músicas mais inspiradas do que as faixas de “Comedown Machine”. Estão sendo lançadas pelo selo Cult Records, do vocalista Julian Casablancas.

Ps. O muito divertido “Tyranny” de Casablancas com o Voidz pode ser conhecido na página da Cult Records no youtube.

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Open Yale Courses e a Univesp

Gripe, febre e cama são a receita perfeita para passar em revista as 26 aulas de Paul Fry apresentadas durante o correr da primavera de 2009 em seu curso de Teoria Literária na Universidade de Yale, em New Haven. Já conhecia estas palestras de Fry, mas descobri que elas foram legendadas em português pela equipe da Univesp TV, um canal de transmissão em IP que divulga aulas e produz entrevistas com vários professores universitários de estabelecimentos de ensino superior de São Paulo. Depois de recomendá-las a colegas que lecionam em classes de terceiro grau, resolvi revê-las. Ainda que o foco seja a literatura, elas valem por um ciclo básico para qualquer segmento de estudo em ciências humanas, esclarecedoras que são de todos os autores fundamentais (de Sócrates/Platão/Aristóteles  a Jamenson/Said/Homi Bhabha, esbarramdo com Kant, Hegel, Marx/Engels, Saussure, Freud, Heidegger, Lacan, Foucault, Barthes e Derrida no meio do caminho) nesta vasta e imbricada área de conhecimento.

Ao acompanhar o tour de force de Paul Fry, dá pra ficar imaginando quantos anos de sua vida uma pessoa tem de dedicar a uma poltrona para passear com a fluência com que o professor de Yale o faz pelas idéias de todos estes pensadores. O curso de Fry aconteceu naquele primeiro semestre de 2009 às terças e quintas-feiras e seguia o modelo de aulas em universidades americanas. São sempre apresentadas como palestras (“lectures”). O professor fala por uma hora e os alunos apenas escutam. É uma estrutura padrão no ensino superior norte-americano, mas alguns dos professores de Yale, como se comprova em outros cursos, abrem pequenas exceções – bem pequenas mesmo. A participação do alunado vai se dar apenas com a entrega dos ensaios que têm de redigir ao fim de cada período/semestre (Fry chega a creditar, brincando, a falta de quorum em uma de suas aulas, à depressão que antecipa o deadline de entrega dos papers por parte dos alunos).

Playlist com todas as aulas de Paul Fry
Listagem dos Open Yale Courses 

Aos interessados em Saussure a indicação é a oitava aula de Fry, aos entusiastas dos formalistas russos e de Roman Jakobson, a 9a., aos de Freud, a 12a., aos de Lacan, a 13a., aos de Edward Said e Homi Bhabha, a 22a..  Vamos comentar, no entanto, a segunda aula. Aquela em que Paul Fry discute um tema polêmico trabalhado por dois ensaístas brilhantes e complexos. Refiro-me a Roland Barthes e Michel Foucault, o primeiro discutido a partir de seu curto ensaio sobre “A Morte do Autor”, e o segundo comentado a partir de seu texto que problematiza “O que é um Autor?”. Ainda que de perspectivas distintas, os dois pensadores estavam colocando em xeque a figura do escritor de livros literários (foco de Barthes em suas considerações sobre Balzac) e teórico-científicos (assunto principal, mas não exclusivo de Foucault, que fala de Marx e Freud, mas faz menções também a autores ficcionais como Ann Radcliffe), em um momento histórico em que a ideia de autoridade era questionada em amplo senso (estamos próximos do maio de 1968).

As conjecturas de Barthes, mostrando a importância da participação do leitor através de sua intromissão no texto (intromissão essa, que levaria ao apagamento da pessoa do autor), seriam o assunto central do trabalho de Iser Wolfgang (comentado na quarta aula de Fry) em suas considerações sobre o papel sempre muito ativo do fruidor de uma obra. Elas podem ser bem exemplificadas com a entrevista que o pesquisador Bruno Gambarotto concedeu a Ederson Granetto no programa “Literatura Fundamental” da Univesp, em que expõe as conclusões de seus estudos sobre o “Moby Dick”, de Herman Melville (links para a entrevista e a tese de doutorado de Gambarotto, abaixo).

Tese de Gambarotto para download

A leitura de Gambarotto é no mínimo peculiar e mesmo quem conhece bem a obra máxima de Melville vai voltar ao “Moby Dick” e revisitá-lo de uma nova perspectiva. Partindo da clássica frase de abertura do romance, “Trate-me por Ishmael”, o pesquisador da USP afirma, por exemplo, acreditar que alguém que pede a um interlocutor para ser chamado por um nome bíblico pode estar querendo dizer ao seu ouvinte (ou leitor) que este Ishmael não é na verdade sua real identidade. Já li várias edições de “Moby Dick” e ouvi a belíssima leitura de Stewart Wills para o Librivox (clique aqui), sem nunca conjecturar tal hipótese. Talvez por isso e diferentemente da tradução da belíssima edição da Cosac & Naify feita por Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza, a velha tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos tenha optado pelo “Chamai-me Ismael” e tenha seguido adotando uma espécie de interlocução impessoal na segunda pessoa do plural, como nas cerimônias litúrgicas. Melville através de Ismael estaria nos convidando como em uma missa a participar de um rito e culto que se espraia em fartas passagens com digressões de ordem filosófica. Outros momentos do livro, como o capítulo 54 e as partes referentes às discussões na área da cetologia, voltariam segundo o pesquisador a marcar esta flutuação da figura do narrador.

Não é a única hipótese inusitada do trabalho de Gambarotto. Ele faz ainda uma leitura sociológica do romance de Melville. Escrito em seguida à guerra pela anexação de território mexicano aos Estados Unidos e antecipando a Guerra de Secessão, o livro marcaria o espírito expansionista norte-americano. A indústria da pesca baleeira, que em breve seria substituída pela indústria do petróleo (com a descoberta de poços do “ouro negro” em território americano), simbolizaria o espírito empreendedor de um país que tentava se firmar no cenário internacional. O vingativo capitão Acab representaria, em sua caça a Moby Dick, a luta pelo controle de uma ordem expansionista desafiada pela baleia branca que se recusa a ser capturada.

Será que Melville estava pensando nisto tudo? Que eu saiba, Acab era apenas um capitão fulo da vida porque Moby Dick havia levado sua perna esquerda. Portanto, certamente não, mas um livro não pertence exclusivamente a seu autor (ainda que tenha sido ele que se deu ao trabalho de sentar para redigir as suas muitas páginas). “Moby Dick” também pertence, diriam Barthes e Foucault, aos seus leitores (e, eu acrescentaria, a seus tradutores) que, com suas muitas leituras, tratam de recriá-lo.

Ps. Fiquei me perguntando: por que ainda não temos um canal de divulgação científica como este da Univesp no Rio de Janeiro e no Brasil? A TV, como já disse Sérgio Augusto, é a maior e mais importante escola do Brasil. Muito interessante também que o banco de tese da USP esteja disponível para download. De novo, as universidades do Rio de Janeiro e do Brasil seguem marcando passo.

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