Malhação serrana na Locatelli
E no Sesi

“But me and the cat own the lease on the flat
and nothing you do will ever change that
the milk is still delivered we sit by the fire
you could say that we’re having the time of our lives”
Só velharia no café da manhã em Petrô. Cadê os fãs dos novos expoentes do british-rock em 2017? E a quem pertenceriam essas jurássicas canecas?

Cidade Imperial, único lugar do planeta em que ainda é possível encontrar uma locadora pra alugar aquele filminho pro final de noite


Rua Mosela, 350, refúgio de Manuel Bandeira durante o verão carioca


Ziggy e sua prole de malhadinhos com suas namoradas cinza e loirinha:










Hora de desejar aos frequentadores deste espaço um ano de 2017 com tudo do bom e do melhor. Aproveito para encerrar o segundo ano de atividade blogueira com uma pequena homenagem a uma das perdas mais sentidas de 2016.
“O Gato Curioso”, de Ferreira Gullar, por Ian Birkeland
Excelente e honestíssimo o show do Garbage no Circo Voador. Uma pena que Butch Vig tenha feito forfait. Shirley Manson sofreu horrores com o calor, mas segurou com a maior energia a apresentação inteira (fez lembrar a primeira passagem de Morrissey por aqui (“Rio is so hot”)). Muito sensual no palco como de costume, Manson jogou para a plateia e pro grande público LGBT presente lembrando a parada gay que acontecia em Copacabana e dizendo que a cidade, como a banda, sempre foi “freak friendly”.

Inacreditável que estejam viajando (sem interrupção) o planeta inteiro desde pouco antes do lançamento do disco “Strange Little Birds” em junho deste ano (ao que tudo indica, na indústria da música só se ganha dinheiro hoje com shows). Correram os Estados Unidos, Europa, estiveram na Noruega, Dinamarca, em Israel, Rússia e passaram pela Austrália antes de dar início a perna sul-americana da turnê. Amanhã fazem show no Luna Park em Buenos Aires – um teatro que sempre quis conhecer-, e depois encerram a maratona em Santiago do Chile.

Estão tocando todas as melhores músicas dos sempre ótimos discos de estúdio do grupo, com atenção ao favorito álbum de estreia (“Supervixen”, “Vow”, “Stupid Girl”, “Queer” e “Only Happy When It Rains”) e outras das mais esperadas músicas do repertório (“Shut Your Mouth”, “Push It”, “I Think I am Paranoid”, “Special”, “Cherry Lips (“Go, Baby Go!”) “Sex is Not the Enemy”, “Bleed Like Me”). Abriram obviamente espaço para as novas (“Empty”, “Magnetized”, “Blackout”, “Even Though our Love is Doomed”). Tão bom poder ver o Garbage fora de um desses festivais a céu aberto dividindo o palco com 300 outras bandas. Quando poderemos assistir a um show dos Strokes desta maneira?

Natural de Lages, trato de juntar, com o Guga Kuerten, com todos os filhos de Santa-Catarina, com toda a nação dos barrigas-verdes, minha solidariedade à equipe do Chapecoense, o time caçula da nossa cena futebolística que trouxe alegria, animou o campeonato brasileiro e já se aventurava por sonhos sul-americanos quando foi golpeado pela tragédia aérea que levou jogadores, técnicos, auxiliares e dirigentes. Na cidadezinha de Chapecó, lá bem no interior do estado onde segundo a etimologia da língua indígena caingangue/jê se “avista o caminho da roça”, tudo funciona e converge para o clube. Pode-se imaginar o que o time representa para os locais, especialmente com uma equipe que vinha brilhando de maneira mais intensa a cada temporada.
As paixões clubísticas são sempre de duas ordens, ou a paixão como praticante de algum esporte ou como torcedor. Como praticante a minha esteve de início associada ao lugar em que passava as muitas horas vagas do meu dia depois da escola. Podia dizer que minha vida girava em torno deste clube. Quando garoto e morador da zona norte do Rio de Janeiro, o Tijuca Tênis Clube cumpriu este papel. Fazia de tudo, aproveitava a piscina, jogava futebol, basquete, vôlei e principalmente o esporte para o qual o clube havia sido criado (há uma tradição de tenistas na família; tios, primos, e ainda colegas muito próximos na época que veneravam o esporte). E me pergunto mesmo por que o Chapecoense, como a maioria dos clubes, não cumpria esta outra importante função. Talvez porque cuidar de um time de futebol já seja dor de cabeça suficiente. E a Chape soube se tornar um dos clubes mais bem administrados do Brasil. Preocupação que os fez infelizmente optarem por um voo mais em conta, sem saber das loucuras de que os donos de empresas aéreas são capazes.
Consigo entender a origem, embora não saiba explicar a razão da paixão clubística como torcedor. A minha teve seu estopim como resultado da catequese de meu avô materno, Francisco de Mello Pedrosa, que, quando eu ainda estava sendo alfabetizado, me pedia para que lesse as manchetes do Jornal dos Sports nas bancas de jornal. Manchetes que sempre festejavam em sua capa cor-de-rosa os feitos do Flamengo. Ao mudar para Copacabana, em 1972, a paixão clubística me acompanharia e no Flamengo passaria a conciliar as duas paixões, a de torcedor e a de praticante de esportes.
A paixão clubística como torcedor nunca foi exclusivista entretanto. Primeiro porque assistir a jogos de futebol ao vivo e de qualquer arquibancada era um prazer e uma mania. Tinha gosto por muitos clubes em uma época em que o programa no Maracanã se estendia das preliminares, às 15h, até a partida principal, às 17h. Mesmo entre os times cariocas, havia a simpatia pelo São Cristóvão, pelo Olaria, pelo Bangu, pelo América, times que já estavam em baixa e com os quais não havia uma rivalidade explícita. Existia também os clubes do coração para cada estado. Times que eram tão importantes quanto o seu representante em sua cidade. Era assim um prazer poder acompanhar e torcer pelo Santos quando ele vinha com sua maior estrela, Pelé, jogar no Maracanã (meu pai me levou a muitos destes jogos), ou pelo Palmeiras de Ademir da Guia.
O futebol deixou de ser uma paixão não de torcedor, mas de espectador. Talvez porque tenha perdido o hábito de frequentar os estádios e jogo pela televisão não tem a mesma graça. A simpatia pelos times pequenos segue intocável. Me fez torcer por outros tantos clubes menores como o Boavista, e me faz torcer pela volta por cima do Verdão do Oeste. Aqui fica portanto a crônica de solidariedade e homenagem ao clube catarinense. Não foi tão inspirada como a que Nelson Rodrigues escreveu em tributo à equipe do Manchester United na Manchete Esportiva (está na coletânea “O Berro Impresso das Manchetes”, Agir, 2007), e nem como a que Morrissey fez em forma de música na composição “Munich Air Disaster – 1958” (link) para a equipe de sua cidade natal. Fica ainda em sinal de lembrança ao jornalista Paulo Julio Clement, companheiro em O Globo.
Ele diz ter bilhões e bilhões de dólares. Na verdade, são menos do que 4 bilhões (3 bilhões e 700 milhões de dólares, para ser preciso; mera avaliação já que ele não tem o hábito e nem o gosto de tornar pública sua declaração de rendimentos, mesmo quando o cargo de presidente, por força da tradição, costuma exigi-lo), aos 70 anos. Comparativamente, Steve Jobs deixou uma fortuna de 75 bilhões ao morrer aos 56 anos e seu companheiro de geração Bill Gates soma um patrimônio de mais de 80 bilhões de dólares. Um detalhe importante é que nenhum dos dois símbolos máximos do empreendedorismo globalizado registra, em suas respectivas biografias, a sonegação declarada de impostos, embora Gates tenha enfrentado ação por monopólio na sua “home of the brave, land of the free”. Outro senão: ele realizou a proeza de falir por seis vezes. Definitivamente, o falastrão é um fenômeno no mundo dos negócios. Pelo menos, não tem foro especial e vai passar seu mandato sendo questionado sobre os muitos tropeços de sua trajetória como empresário.
Conseguiu colocar toda a imprensa contra a sua candidatura. Tivemos algo semelhante durante a campanha à prefeitura do Rio de Janeiro. O Ricardo Noblat dramatizou um pouco em sua avaliação. Há uma crise comercial no setor, o que é natural quando ocorrem inovações no campo tecnológico-midiático, mas a imprensa sempre lucra em qualidade com vozes menores se manifestando. O New York Times, é bom dizer, tem, ao contrário de O Globo, a tradição de se posicionar claramente sobre quem está apoiando em uma eleição. E o erro de avaliação com números próximos é típico de pesquisas de opinião que, não custa lembrar, não são 100% precisas. É ainda, de qualquer jeito, papel da imprensa procurar problemas nas candidaturas, como fez O Globo com Crivella, e a imprensa americana primeiro com Trump e, depois, com Hillary.
No final das contas, acabamos tendo a eleição de duas forças ultraconservadoras, obscurantistas e fonte de atraso mundo afora. Caetano Veloso disse que, como Mangabeira Unger, simpatiza com os pentecostais e antipatiza com o yuppie João Doria. Nada contra os neopentecostais, à exceção do fato de que vivam livres de impostos e de que estão construindo um império às custas deste expediente. As práticas religiosas neopentencostais são uma nova forma de ritualização. Aos que se identificam com isso, bom proveito. Se doam seus dízimos, não tenho nada a ver com isso. Agora, templos que funcionam como qualquer outro negócio não podem ser construídos e operarem livres de tributos.
João Doria, diferentemente de Trump e Crivella, é uma pessoa sensata, educada, que sabe se comportar em público. Também não foi flagrado até o momento em associação com nomes envolvidos com favorecimento de interesses evidentes na administração pública do município. Apenas um detalhe: se confirmada a delação da Odebrecht, veremos o que o novo prefeito de São Paulo vai declarar sobre a isenção de seus companheiros de legenda. Fico aguardando também a grande coluna de FHC sobre o assunto. Aliás, ele poderia esclarecer as razões que levaram a Odebrecht a doar somas vultosas para o Instituto FHC. Pode não ser ilegal, mas será que é um expediente aceitável?
Mal começa a se preparar para tomar posse, Trump já enfrenta manifestações de rua, coisa que nunca vi na vida política norte-americana. Enfrenta também os ataques da imprensa sobre sua decisão de trazer para a Casa Branca familiares para trabalharem como seus assessores, além de ter escolhido a fina flor do conservadorismo para ajudar a desorientar suas decisões. Há ainda a mistura dos interesses de sua carreira como empresário com a sua posição como presidente. Antes mesmo de iniciar o mandato, imprensa e oposição já estão no seu pé. Fazem muito bem.
Ps. Como comentaram por aqui. Parece que Bowie e Cohen escolheram a hora certa de cair fora.