Cannes, Direto do Palais des Festivals

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Cannes surpreendeu a todos esse ano. Imagino que não seja o único que tinha curiosidade em saber como era a movimentação no balneário francês durante a realização de uma das mais importantes e respeitadas mostras competitivas de cinema do planeta. Sempre acompanhávamos de longe o festival e apenas pelo que líamos nos jornais com as fotos no tapete vermelho, as resenhas dos críticos sobre os lançamentos cinematográficos, as entrevistas coletivas, todo o burburinho causado por diretores, atores, roteiristas, jurados, e a festa da premiação com seus erros e  acertos.

Para sua 69a. edição, encerrada domingo passado, os organizadores nos brindaram com registros em tempo real que colocaram o cinéfilo acompanhando toda a festa bem de perto. As gravações seguem disponíveis para os interessados (links acima). Só faltou mesmo vermos os filmes propriamente ditos. Quem sabe não se faz um pay-per-view para isso no futuro?

Pra quem acompanha com gosto as carreiras de Woody Allen e Jim Jarmusch, o festival chegou com a promessa de apresentação dos novos filmes de dois dos mais gabaritados autores/diretores em atividade. Allen fazia a première de seu “Cafe Society”, fora da mostra competitiva como de costume já que o diretor não comunga com a ideia de disputa entre filmes, e Jarmusch a de sua nova obra, “Paterson”, que concorria à Palma de Ouro e, ainda que muito elogiada, não conseguiu levar o prêmio máximo do festival. Jarmusch apresentava ainda um documentário sobre a carreira de Iggy Pop.

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Para sua coletiva, Allen apareceu com os atores Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Blake Lively, Steve Carell e na companhia do fotógrafo Vittorio Storaro. “Cafe Society” foi todo filmado com câmeras digitais e Storaro, fotógrafo das melhores imagens gravadas por Betolucci, Coppola e ainda o diretor de fotografia de “Reds” (já tinha até esquecido disso), de Warren Beatty, garantiu que não há mais diferença entre a imagem eletrônica e o registro em celuloide. Allen só vê vantagens, inclusive para uma eventual manipulação das cenas na etapa de pós-produção.

Jarmusch teve coletiva de imprensa para seus dois trabalhos. “Paterson”, que conta a história de um motorista de ônibus que escreve poesias, parece ser mais um dos filmes naive de um diretor que procura retratar aquelas cenas tocantes que, tenta nos convencer, poderiam fazer parte de nosso cotidiano. Jarmusch filma simulando a falta de pressa de quem quer esperar as coisas acontecerem por conta própria. É o que sugerem mais uma vez as cenas disponíveis de seu novo filme.

Já “Gimme Danger” é o tributo de um fã dos Stooges, do MC5 e do Velvet Underground. A estrela da coletiva acabou sendo a própria estrela do filme, Mr. Pop, como foi chamado pelos que se dirigiam a ele, hoje enfrentando a surdez e se tratando com vinho nas refeições, distante portanto das muitas drogas que alimentaram sua criatividade musical no passado (pelo menos é o que diz).

Jarmusch conta que tentou replicar visualmente a anarquia, comicidade e o tom inventivo do trabalho de Iggy Pop e de seus muitos parceiros.  Ex-integrante da banda de No Wave The Del-Byzanteens nos anos 80, com carreira musical com os SQÜRL e assinando trilhas de alguns de seus filmes (inclusive a techno ambience de “Paterson”), Jarmusch sempre trabalhou com músicos (John Lurie, Tom Waits e  o próprio Iggy Pop em “Coffee and Cigarettes”) e já cuidou de um rockumentário em “Year of the Horse – Neil Young and Crazy Horse Live”. Ainda não temos o trailer de “Gimme Danger”, mas Iggy Pop, que não guarda suas velharias, ajudou a recolher material pouco conhecido entre “fãs, drug dealers, colecionadores de gravações piratas” para termos cenas bem além do que está disponível no youtube. É aguardar pelo resultado.

Kleber Mendonça Filho teve o seu “Aquarius” muito elogiado, embora não tenha levado nenhum prêmio. Estava concorrendo com nomes consagrados como Pedro Almodóvar (“Julieta”), atores-diretores de renome como Sean Penn (“The Last Face”) e o jovem canadense mas já queridinho Xavier Dolan (“It´s Only the End of the World”).  Estar na competição, no entanto, é uma vitória e isso não acontecia com um filme brasileiro desde o “Na Estrada”, de Walter Salles, em 2012. O colaborador da Folha de São Paulo em Cannes, Rodrigo Salem, que fazia a cobertura do festival, falou que “Cinema Novo”, filme de Eryk Rocha, que competia na categoria documentário, tinha posto a plateia pra correr da sala Buñuel bem antes do fim de sua projeção. Não se sabe, no entanto, se pela presença de Amir Labaki no corpo de júri de documentários do festival, mas o fato é que o filme do filho de Glauber Rocha acabou levando o prêmio Olho de Ouro. Fiquei interessado em conferir.

Eryk Rocha

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Garbage 6.0

Expectativa para a chegada do novo disco do Garbage que se encontra em pré-venda e fica disponível para download a partir de 10 de junho. O clipe de “Empty” indica que eles continuam conseguindo fazer o que anda difícil de se encontrar por aí: rock´n´roll de qualidade. “Strange Little Birds” é o título do álbum de uma banda que estreou veterana em 1995, com dois de seus quatro integrantes (Duke Erikson e Butch Vig) na casa dos 40 anos (são de 1951 e 1955, respectivamente), um outro chegando lá (Steve Marker é de 1959) e uma mascote (Shirley Manson, de 1966). Todos de qualquer jeito naquele momento já com vasta experiência como músicos, compositores (Erikson e Vig no grupo Spooner; Manson, no Angelfish) e Vig como festejado produtor do Nirvana (“Nevermind”), dos Smashing Pumpkins (“Siamise Dream”) e do Sonic Youth (“Dirty”) em discos excepcionais. É o sexto trabalho em 21 anos de estrada. Demoram para lançar novidade, mas não decepcionam. Sai, como o disco anterior (“Not Your Kind of People”, 2012), pelo selo do grupo, Stunvolume, e Shirley Manson comentou que as novas composições lembram o álbum de estreia do Garbage. Tomara.

Entrevista de radio em Los Angeles

Discografia:

  • Garbage (1995)
  • Version 2.0 (1998)
  • beautifulgarbage (2001)
  • Bleed Like Me (2005)
  • Not Your Kind of People (2012)
  • Strange Little Birds (2016)                                                                                                                                                                                                                                                                                              Captura de tela inteira 25052016 004605
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A Lenda por Trás do Mito

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Aproveitando a brilhante performance de Gabriel Medina durante a etapa brasileira do mundial da Associação dos Surfistas Profissionais encerrada na última quinta-feira na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, oportunidade em que conseguiu um inédito mortal, segue resenha de um livro que adquiri sem muita convicção, mas que valeu a compra. Maior estrela do surfe no Brasil, Medina, aos 23 anos, acabou ganhando uma precoce biografia. Tudo se justifica no entanto porque sua trajetória pessoal e história familiar, de fato, colecionam assunto suficiente para rechear um livro. Coube ao jornalista Tulio Brandão, ex-repórter do Jornal do Brasil, de O Globo e ex-colunista da revista Fluir, vasculhar a possível lenda por trás do mito e se dar ao trabalho de contá-la no seu “Gabriel Medina – a Trajetória do Primeiro Campeão Mundial do Brasil” (Primeira Pessoa, 2015).

Na orelha do volume, o convite à leitura é feita por um outro brasileiro que também já colocou o seu nome no panteão do esporte nacional ao chegar a número 1 do mundo dando suas raquetadas, Gustavo Kuerten. Surfista nas horas vagas, Kuerten festeja o novo ídolo e deixa o caminho livre para a apresentação feita com muito humor por Kelly Slater. Escrita em junho de 2015, último ano de Slater no circuito mundial, a introdução registra as muitas surpresas que o maior surfista de todos os tempos testemunhou ao acompanhar o percurso de Gabriel Medina desde que ele começou a aparecer em 2009, aos 15 anos de idade. A chegada de Medina à elite do surfe em 2011, aos 17 anos e com o recorde de acabar sendo o mais jovem surfista a estrear no circuito mundial, deixou Slater preocupado com a possibilidade de que o brasileiro pudesse roubar-lhe a marca de mais jovem surfista a se sagrar campeão na World Surf League. Com seu título de 2014 aos 20 anos, Medina acabou no entanto apenas igualando a marca do americano.

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Com Brandão vamos saber do passado da família do atleta. Os avós maternos de Gabriel, dois jovens filhos de pais esquerdistas, vieram a se aproximar durante o período em que estavam fazendo seus estudos na antiga União Soviética. Aurora Medina, de quem Gabriel herdou o sobrenome que ficaria famoso e os traços de índio sul-americano da costa do pacífico, era filha de militantes da Frente Popular Chilena que apoiavam o Governo de Salvador Allende nos anos de 1970. O avô materno, Jaime Pinto, por sua vez, era filho de pais ligados ao Partido Comunista Brasileiro. Com a morte do pai em uma manifestação de um 1o. de maio no sul, Jaime, ainda garoto, acabou sendo criado por um padrasto que era amigo de Luiz Carlos Prestes, Pagu, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. Era natural portanto que os avós de Medina pudessem se cruzar, o que acabou acontecendo quando os dois viajaram para fazer seus estudos em território soviético. O casal teve três filhos e decidiu chamar uma das filhas, a mãe de Gabriel, de Simone, em homenagem a líder feminista Simone de Beauvoir.

Com a jovem Simone, vamos a Maresias, onde a mãe de Medina viveria e conheceria o seu primeiro marido, o jogador de futebol Claudio Ferreira. Com ele teria dois filhos: Gabriel e Felipe, hoje jogador de futebol, como o pai, pelo Independente de Limeira, time do interior de São Paulo. Passamos depois pelo divórcio e o casamento com o padrasto do surfista, Charles Saldanha, aquele que seria responsável por descobrir o talento de Gabriel para as ondas. Caberia a Charles preparar o surfista em todo o seu caminho para chegar ao topo da elite do surfe mundial. Fica-se sabendo de todas as batalhas e agruras passadas pelos dois na luta para transformar Gabriel Medina de uma promessa do surfe amador, em um dos melhores surfista do mundo. Um pequeno tropeço na biografia de Brandão é o de tratar o tempo todo o verdadeiro pai de Medina como “pai biológico”, um recurso desnecessário para realçar a importância de Charles para a carreira do atleta.

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O restante do livro apresenta os bastidores das temporadas em que Gabriel brilhou desde 2012 até chegar a consagração com o título mundial em dezembro de 2014 em Pipeline. Tudo se encerra com Medina abrindo caminho para os jovens surfistas que integrariam a Brazilian Storm, que se confirmou o ano passado com o título de Adriano de Souza e que segue agora com Ítalo Ferreira, Filipe Toledo e Miguel Pupo, todos se destacando no mundial deste ano. A Brazilian Storm por sinal teve ótimo desempenho na etapa brasileira que se encerrou na quinta-feira. Uma pena que Gabriel tenha parado na semi-final. Medina merecia disputar a final com o craque havaiano John John Florence. Foram disparado os dois melhores surfistas da competição, que este ano, infelizmente não teve nem Slater, nem Mick Fanning. De todos que enfrentam um mar adverso em dias chuvosos, Florence e Medina conseguiram a proeza de entrar e sair de tubos que nenhum dos outros surfistas conseguiram enxergar. Gabriel abusou ainda das manobras voadoras com várias notas 10 e encontrou o momento certo para conseguir o inédito mortal de costas que vinha treinando há tempos, foi a primeira vez que isto aconteceu em uma competição oficial de surfe.

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Lindbergh Farias e o Congresso Nacional

O rito de impediamento de Dilma Lana Rousseff acabou servindo para voltarmos os olhos e observarmos mais detidamente o que está acontecendo em Brasília. Acompanhar o desempenho em suas funções de nossos deputados e senadores é algo para deixar qualquer um assustado. Quanto disparate, quanto desleixo, quanta falta de seriedade no trato dos interesses do país. Parece escárnio com a população saber que representantes tão desqualificados gozem de mordomias e de regalias nunca vistas entre a classe política em nenhum outro canto do planeta, num assalto institucionalizado ao erário. Tudo isso sem uma contrapartida mínima.

A verdade é que a cada nova eleição comparecemos para votar e depois esquecemos por completo o grave cenário que envolve a atuação política daqueles que elegemos. Além da falta de preparo e dos descalabros criados por casas que legislam em causa própria, nos damos conta de coisas alarmantes. É vergonho, por exemplo, encontrarmos na câmara dos deputados o senhor Paulo Salim Maluf, integrante da bancada do Partido Progressista (um partido que bate o PT no quesito corrupção com 32 dos seus 46 deputados federais pendurados por processos) e no senado, Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello (envolvidos em esquemas de corrupção no passado e agora na Lava-Jato). Imagino que isso queira dizer que daqui a uns 10, 15 anos, corremos o risco de assistir ao senhor Eduardo Cunha como senador, depois de legalizar o dinheiro arrecadado com propina e corrupção.

Em meio a muita decepção, impressionou muito especialmente por seu trabalho a pessoa de Lindbergh Farias, senador pelo Rio de Janeiro, opção de voto nas eleições do pleito de 2010. A despeito de suas posições políticas, em relação às quais podemos ter divergências e restrições, sua seriedade nas discussões o diferenciaram da maioria dos despreparados e negligentes senadores incluídos na comissão que debatia a aceitação do processo de impedimento.

Parece que apenas a equipe formada pelos advogados de acusação e por pessoas sérias como o procurador do ministério público junto ao Tribunal de Contas da União Júlio Marcelo de Oliveira, particularmente, tinham um conhecimento tão consequente de todo o processo como Lindbergh. Seus questionamentos foram extremamente pertinentes e mostraram mesmo a inépcia e falta de procedência de uma ação que é no final das contas uma peça claramente política com o objetivo de desestabilizar um governo fragilizado por seus descaminhos administrativos. O próprio Fernando Henrique Cardoso, uma das mais dedicadas e fortes vozes pela causa do impeachment, endossou em entrevista no programa de Jô Soares na terça-feira esta obviedade (clique aqui).

Durante a sessão plenária do senado, que deu sequência ao pedido de investigação sobre a administração de Dilma Rousseff, Lindbergh fez também um dos discursos mais bem preparados. Procedeu a um histórico mostrando como tem atuado a nossa classe política sempre afeita a jogadas oportunistas e traçou o quadro da economia contemporânea em que se insere a aposta do governo Dilma. Podemos discordar da posição de Lindbergh, mas não será possível desqualificá-la. Ao apresentá-la, Lindbergh exibiu ainda a articulação e o entusiasmo dos líderes. Ainda que bem redigido e com argumentos bem mais convincentes, o discurso de Cristovam Buarque, por exemplo, não teve a mesma vivacidade e vigor.

Lindbergh avaliou retrospectivamente os equívocos do Partido dos Trabalhadores e ponderou que o PT, no correr da primeira administração de Lula, acabou errando ao não votar coisas importantes como a essencial reforma política e a restrição ao financiamento de campanhas por empresas, duas medidas urgentíssimas como constatamos agora. Teriam de fato sido duas atitudes que evitariam a crise a que chegamos e talvez melhorassem a composição de nosso congresso. Daqui pra frente, esperamos que Lindbergh entre no grupo de desembarque do PT que deixará o partido em outubro deste ano. O congresso precisa de pessoas preparadas. Posições tomadas de forma menos parcimoniosa também ajudariam a termos um político mais consequente. Precisamos disso.

Filho de pai médico e mãe professora universitária, Lindbergh é casado há mais de duas décadas com a advogada Maria Antônia Goulart e tem três filhos, um rapaz e duas meninas, a do meio portadora de síndrome de down. Em função disso esteve envolvido na elaboração de leis para um Estatuto da Pessoa com Deficiência. Contra o articulado senador, que nunca concluiu o curso universitário, embora tenha cursado medicina na Universidade Federal da Paraíba e posteriormente direito, temos uma coleção de processos por sua administração nas duas oportunidades em que foi prefeito de Nova Iguaçu. Alguns talvez até procedam, mas posso imaginar as dificuldades de comandar a máquina administrativa de uma prefeitura. Fui síndico do condomínio em que moro durante um ano, sem remuneração alguma, e em alguns momentos tomava decisões para resolver problemas pontuais contratando serviços que poderiam ser questionados caso houvesse alguém interessado em desacreditar meu trabalho.

Os processos em Nova Iguaçu parecem entrar na lista deste tipo de expediente. Muitas destas ações foram julgadas improcedentes pelo STF, o que mostra que a Suprema Corte talvez seja mesmo uma mãe para os políticos. A única acusação séria pendente contra o senador e ex-cara-pintada é quanto ao seu envolvimento na Lava-Jato. Lindbergh teria pedido a Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobras, ajuda para sua campanha política. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, por ocasião da denúncia que não tem relação com pagamento de propina, Lindbergh confirmou os encontros com o diretor da estatal, mas justificou que recorreu a ele por indicação, como pessoa capaz de auxiliá-lo em sua candidatura. Se tudo ocorreu dentro da lei, o futuro dirá.

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Entre Montanha, Mar e Empreiteiras, o Sinuoso Trajeto das Ciclovias Cariocas

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Sempre foi tortuosa a história das ciclovias cariocas, iniciativa fundamental para humanizar esta nossa pra lá de desumanizada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Teve de enfrentar até mesmo a ira de quem gostava de se exercitar ao ar-livre correndo à beira-mar de manhã bem cedo e que, detalhe importante, não possuía nem automóvel, caso do chargista/escritor/poeta/tradutor Millôr Fernandes. Quando do início da construção da ciclovia, na década de 1990, nas orlas de Copacabana e de Ipanema, principalmente, onde morava o cartunista, Millôr fez campanha insistente na coluna que tinha no Jornal do Brasil condenando a criação da pista para ciclistas.

A briga solitária de Millôr se amparava em um dado condenável, a corrupção que cerca a realização de obras públicas (em época em que isso ocorria de forma bem mais obscura), mas havia ao mesmo tempo a expressão de uma das diatribes inexplicáveis do escritor. O argumento de Millôr era que a ciclovia iria justificar a derrubada dos muitos coqueiros para a colocação de um monstrengo na orla. O craque dos desenhos tinha rixa com os prédios brega-grandiosos que os novos ricos ipanemenses andavam edificando depois de porem abaixo construções antigas e enxergava na ciclovia a extensão deste gosto duvidoso dos abonados da Zona Sul.

A pista construída no começo dos anos 1990 ficou pronta e nunca se viu uma decisão tão acertada. O tamanho do fluxo de bicicletas, triciclos, skates, comprovou como era fundamental e indispensável a sua criação. Nunca compreendi, no entanto, por que a ciclovia foi feita próxima à pista de rolamento de carros, expondo excessivamente os ciclistas em caso de uma queda. Ela poderia perfeitamente ficar na parte interna do calçadão, junto à faixa de areia, o que reduziria enormemente os riscos para os usuários. Mas vá tentar entender como são tomadas essas decisões?

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Com a nova ciclovia Tim Maia, recentemente inaugurada, a mesma coisa. Passo por ali sempre. Até a segunda entrada do Vidigal (sentido Leblon-São Conrado) a pista continua em perfeito estado e sendo utilizada mesmo depois do acidente. Neste grande trecho, que está liberado para circulação, a Prefeitura não fez nada além de ampliar e reformar o passadiço, deixando como deveriam ser nossas calçadas em toda a cidade. A novidade é que ela é obrigatoriamente compartilhada entre pedestres e ciclistas, com uso preferencial para os primeiros. Os pilares só aparecem na descida. Era um trabalho pequeno portanto, embora a obra de engenharia pareça complexa. Nunca entendi aqui também por que a pista não foi construída junto à encosta e em cima de uma tubulação com garfos de apoio que ajudariam a dar sustentação. A ciclovia ficaria ainda colada à pista e teria sempre área de escape.

De qualquer jeito acho que devemos refazer o trecho logo. Esta ciclovia é muito importante para o vai e vem dos moradores do Vidigal e da Rocinha. Muito mais fundamental do que como espaço de lazer de fim de semana. Quando for inaugurada até a Barra vai oferecer uma vista e tanto para quem quiser percorrer as mais deslumbrantes praias que o Rio tem a oferecer. Ampliará uma malha que já nos leva, pelo Aterro, ao centro da cidade, uma área a ser inaugurada também com obras de revitalização, exibindo outras paisagens arrebatadoras. É mais uma conquista na briga maior pra conseguir que as bicicletas tenham algum espaço frente aos direitos irrestritos dos automóveis. Estes sim, sempre ocuparam tudo sem constrangimento algum. Ainda surgem parados em cima das calçadas, fechando as entradas de garagem, usando a ciclovia para desembarque, como se seus donos tivessem privilégios ilimitados.

Para os apaixonados pelas magrelas há um relato muito interessante do ciclista convicto David Byrne sobre como é a experiência de se passear de bicicleta ao redor do mundo. Para qualquer lugar que viaje durante suas temporadas de shows, o ex-líder dos Talking Heads carrega sua bicicleta para conhecer a cidade como um local. Fez isso aqui no Rio, em Buenos Aires, em Istambul, São Francisco, Londres. No livro, Byrne discute políticas públicas que favorecem transportes alternativos e faz a crônica de suas experiências como ciclista. Além de compositor, Byrne é um escritor de enorme talento, desses que conseguem apresentar uma visão singular sobre o que comentam, capaz de transformar qualquer assunto em algo fascinante para o leitor. Fez isso a partir de sua vivência como músico em “Como a Música Funciona” (Amarilys, 2014) e como ciclista em “Diários de Bicicleta” (Manole, 2011).

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Sua Majestade Púrpura

 

prince 4Algumas linhas sobre o pequeno grande Prince, falecido na manhã de 21 de abril. Era um instrumentista virtuose a serviço de um compositor extraordinário, em uma dessas combinações raras. Criou sua chuva púrpura a partir da neblina Hendrixiana, guitarrista ao qual não ousava se comparar em respeito ao talento inigualável do músico de Seattle e também por, sem modéstia alguma, ambicionar deixar sua marca particular na música negra norte-americana. O que fez sem nenhuma dificuldade. Mas Prince, além de exímio guitarrista, era também um pianista admirável e quando um músico se distingue de maneira evidente nestes dois instrumentos, costuma se sair bem em todos, o que fez com que ele pudesse gravar seu disco de estreia, “For You” (1978), de forma solitária.

Sua música foi a trilha sonora perfeita para momentos-chave da existência de muita gente, especialmente para os que acompanharam passo a passo sua carreira. Com “1999” e “Little Red Corvette”, ao lado de Tom Leão e Hermano Vianna, foi possível ver as primeiras imagens do músico e da tal da Music Television de que tanto ouvíamos falar. Tudo gravado no apartamento de Paulo Francis em Nova York, para desgosto do polemista. Sonia Nolasco, mulher de Francis, tinha uma sobrinha amiga de todos e, em uma passagem pela cidade, Hermano foi visitá-los e registrou a novidade. As imagens espalhafatosas de Prince seguiriam ampliando seus excessos em “Purple Rain”. Primeiro através dos clips do disco e, depois, com o filme que era visto em sessões ininterruptas.

O álbum favorito viria logo em seguida, o psicodélico “Around the World in a Day” (1985). Foi objeto de entrega apaixonada de um outro amigo, ou melhor, ex-amigo, Luiz Carlos Mansur, que vive hoje recluso e taciturno em Portugal, avesso a qualquer sinal de contato com o passado. Mansur chegou ao requinte de adentrar certa vez a redação com uma luva em apenas uma das mãos num exagero entre Michael Jackson e Prince. Cigarrinho no canto da boca, se colocou em frente à máquina de escrever para preparar uma das muitas odes que faria à sua Majestade Púrpura.

Apesar da admiração pela qualidade das composições e pelo virtuosismo do cantor, tinha dificuldade com o excesso de afetação do músico, traço que alguns atribuíam à expressão de uma timidez sem medida. Havia ainda aquela breguice e exagero incalculável no vestir que não ajudaram a que a admiração fosse completa. Musicalmente era um assombro, um desses músicos que arrebatam nos shows ao vivo, como no que fez no Rock in Rio no Maracanã em 1991. “Alphabet Street”, “When Doves Cry”, “Let´s Go Crazy”, “Raspberry Beret”, “Kiss”, “Cream”, “Sign of the Times” e mesmo a melosa “Diamonds and Pearls” estão entre as músicas favoritas.

 O jornalista Luiz Henrique Romanholli teve o privilégio de assistir a um show intimista do músico no também bregoso Paisley Park, estúdio que Prince construiu em sua casa em Minneapolis, lugar em que escolheu para passar toda a vida e onde foi encontrado morto na última quinta-feira. Segue a postagem feita por Romanholli para o Livro-de-Caras contando a visita e o encontro. Reprodução feita com permissão desta rara Testemunha Intimista de Prince.Captura de tela inteira 25042016 220854

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O Impedimento da Presidenta da República

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Não sei qual o deputado federal do leitor. O meu é o Alessandro Molon. Virei eleitor do Molon quando ele, ainda deputado estadual, durante uma greve de professores da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, veio se juntar ao grupo de docentes que fazia uma manifestação em frente à Alerj. De dentro da Assembléia, ele soubera que estávamos do lado de fora tendo que enfrentar a tropa de choque do governador Sérgio Cabral. Um simpático batalhão de policiais munido de cassetetes, escudos, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, uma forma muito cordial encontrada pelo governador para conversar.

Ontem, Molon votou contra o impeachment de Dilma Lana Rousseff e eu confesso que, sem muita convicção, fiquei ao seu lado por solidariedade e por duas outras razões. A primeira é que acho este tal de impeachment, não um golpe, mas um complô muito do vagabundo. A segunda é que, junto com Molon, estavam Chico Alencar, de quem também já fui eleitor (até ele não necessitar mais do meu voto),  Luiza Erundina, Maria do Rosário, Arlindo Chinaglia, entre outros deputados pelos quais tenho apreço e admiração. Olhava para a turma que votaria pelo sim e via Cunha, Bolsonaro-pai, Bolsonaro-filho, Feliciano, Paulinho da Força, me sentia em um filme B de Roger Corman tendo como estrela o nosso Mordomo de Fita de Terror e futuro presidente. Do grupo que votava pelo impeachment, só tinha identificação com Miro Teixeira. Foi dos poucos da ala dos que queriam o impedimento a explicar de forma decente o seu voto como pedia o ritual da votação e não a “dedicá-lo” (acho que os deputados se sentiram em uma cerimônia do Oscar) ao pai, mãe, mulher, filhos, papagaio, totozinho. Uma palhaçada sem fim em momento que exigia seriedade e compostura.

Um outro motivo a mais pelo qual estava apoiando o voto contrário ao impeachment era que sempre fui muito desconfiado sobre a posição do ensaboado PSDB.  Nos jornais de hoje, Aécio vem dizendo que vai exigir um compromisso de Temer com uma pauta específica. Entre os pontos, está o seguimento das investigações da Lava-Jato (corajoso ele que é citado em denúncias). Incriminados no processo, temos que ver qual a posição de Temer e de seu braço direito na operação impeachment, Eduardo Cunha. José Serra já desconsiderou a orientação do partido e saiu correndo dizendo que quer o Ministério da Saúde. Vai ser engraçado assistir a essas negociações.

No final das contas, não sei se gostei, mas aceitei o resultado, porque acho que o Brasil precisa dar um fim a esta briga de torcida e cuidar de assuntos práticos com esta crise recessiva mundial que está deixando pessoas desempregadas ao redor do planeta e que já colocou no olho da rua 10 milhões de brasileiros. A Dilma, em meu entender, não iria também conseguir governar pois viria um pedido de impeachment atrás do outro. Vamos ver agora qual será a qualidade do debate que vai se seguir.

Entre os jornais de hoje, o Globo fez a melhor e mais diversificada cobertura com textos assinados por colunistas com orientações variadas (da opção pró impeachment de Cora Rónai à intransigente defesa de Dilma do Veríssimo, passando pela indiferença de Gaspari), que ajudam de qualquer jeito as discussões. O Estadão destoou com um editorial que tenta satanizar o PT. É uma posição caduca, antiquada e que agride a inteligência do leitor. O Partido dos Trabalhadores ainda tem nomes importantes em seus quadros e o “fora PT” coloca em um mesmo saco pessoas de qualidades bem distintas. Não esqueçam que em outubro, Tarso Genro vai, junto com outros militantes petistas, comandar uma debandada do partido que virou uma legenda podre.

A Folha trouxe uma novidade: a volta do ponto de exclamação nos títulos. Banido há mais de meio século, fez uma inesperada reentré. Mario Sérgio Conti ajudou a dar estofo a uma cobertura que optou quase que exclusivamente pelo factual em um momento em que precisamos de debates. Discussões como a reforma política. É inacreditável que o deputado de um estado pouco populoso como Roraima, eleito com 30 mil votos, tenha peso na votação igual ao de um deputado do Rio de Janeiro, eleito com 190 mil votos. O deputado do Rio representaria uma população mais de 6 vezes maior que o de Roraima.

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Semana do Cinema Documentário

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O crítico de cinema Amir Labaki segue com mais uma edição de seu festival do filme documentário. A 21.a rodada do É Tudo Verdade vai até este domingo (17/04), com suas últimas sessões (sempre gratuitas) no Rio de Janeiro (em duas salas do Espaço Itaú Botafogo e no cinema do Instituto Moreira Salles). A extensa mostra competitiva e as programações paralelas trouxeram uma muito interessante seleção de curtas, médias e longas-metragens, com registros documentais sobre escritores brasileiros (Armando Freitas Filho, Cacaso) estrangeiros (Gabriel García Marquéz, Ricardo Piglia, Hannah Arendt), artistas plásticos (Cícero Dias, o coletivo Chelpa Ferro) e a revisão de passagens históricas como o Estado Novo getulista (em filme assinado por Eduardo Escorel), o golpe chileno que tirou Salvador Allende do poder (produção de Marcia Allende, neta do estadista), as manifestações de rua da primavera árabe no Egito (“Faraós do Egito Moderno”) e os recentes ataques na França (“Atentados: As Faces do Terror”).

Todas produções que acabam respingando ou para o circuito ou para apresentação em canais por assinatura.  Como o longa-metragem “As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana”, que abriu o evento semana passado no Rio e que terá exibição em breve no Canal Curta! (Net, 56). Trata-se de um bem humorado apanhado, com assinatura do amigo Claudio Lobato em parceria com a cineasta Paola Vieira, sobre a convivência, os happenings poéticos, as festas futebolísticas e carnavalesca, do conhecido grupo carioca.

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A Nuvem Cigana foi um coletivo de criação artística que se reunia nos anos 70, primeiro em um apartamento na ladeira da Travessa Santa Leocádia em Copacabana, e, depois, em uma casa em Santa Teresa. Congregava a trupe de escritores formada por Chacal, Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Ronaldo Santos, e vários outros poetas, seresteiros e namorados da poesia. Tinha também a participação luxuosa de artistas gráficos como Cafi e Dionisio com suas ilustrações refinadas. Rodou seus versos em mimeógrafo, fez a edição artesanal de seus livros e organizou recitais na saudosa livraria Muro, em Ipanema, no Parque Lage e teve uma performance apoteótica no Teatro Municipal de São Paulo. Criaram ainda revistas lúdico-literárias impressas, como o famoso “Biotônico Vitalidade”, que se enquadrou no que ficaria conhecido como a imprensa alternativa.

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Coincidência das coincidências, foi com Ana Amélia Macedo, que fiz um trabalho, ainda nos bancos universitários, sobre a imprensa alternativa quando está era o assunto do momento no comecinho dos anos 80. Ana Amélia aparece, junto com o marido e diretor cine-documentarista, Roberto Berliner, em um dos docs intimistas da maratona. “Buscando Helena” foi o piloto da série “Histórias de Adoção” que segue sendo exibida pelo GNT (canal 41 da Net), toda terça às 23h30. Narra a belíssima experiência do casal como pais adotivos de duas crianças maravilhosas, os hoje já grandinhos Helena e Antonio.

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Do micro para o macro-cosmo, Labaki selecionou para a mostra produções que retratam dramas e realidades de muitos cantos do planeta, de acidentes e suas consequências em grande escala como um incidente em uma usina na Sibéria (“Catástrofe”, da representante russa Alina Rudnitskaya) a um desastre ecológico que se aproxima da tragédia de Mariana e que está acontecendo na Mongólia (“Gigante”, do chinês Zhao Liang). Trouxe ainda novidades como os registros feitos na Coréia do Norte sobre o aniversário do líder Kim Jong-il (“Sob o Sol”). Aquilo que Cora Rónai e nenhum turista tiveram a chance de fazer, o diretor alemão Vitaly Mansky conseguiu: autorização para filmar o que se passa na última pátria do mundo fechada ao contato estrangeiro.

Hoje e amanhã tem a produção inédita “Eduardo Coutinho, 7 de Outubro”, uma conversa e homenagem a nosso documentarista-mor.  Filme do cineasta Carlos Nader, que é festejado com uma retrospectiva de sua obra no É Tudo Verdade. Haveria um debate amanhã, com o diretor, mas o programa foi substituído pela apresentação de um filme-entrevista com Nader às 18h no Instituto Moreira Salles, na Gávea. O site do Itaú Cultural, parceiro da mostra, está exibindo como um regalo um documentário que já foi premiado em maratonas passadas, o média-metragem “Rocha que Voa”, de Eryk Rocha, filho do cineasta Glauber Rocha (clique aqui).

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Podem Me Chamar de Arthur Gordon Pym

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Uma tradução para a Nota Introdutória preparada para a edição de A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket, único romance publicado por Edgar Allan Poe. A primeira impressão do livro,  pela editora nova-iorquina Haper and Brothers em julho de 1838, saiu sob o pseudônimo de Arthur Gordon Pym. Posteriormente a obra entraria para o cânone do autor    

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Southern Literary Messenger (clique aqui)

A Narrativa de A. Gordon Pym de Nantucket
Nota Introdutória

Por ocasião do meu retorno aos Estados Unidos há alguns meses, depois de uma extraordinária série de aventuras nos mares do Sul e em outros lugares, da qual um relato é dado nas páginas que se seguem, o acaso me trouxe à companhia de vários senhores em Richmond, Virgínia, que sentiram profundo interesse por todos os detalhes relacionados às regiões que eu havia visitado, senhores estes que estavam constantemente exigindo de mim, como um compromisso, dar a público minha narrativa. Eu tinha vários motivos, no entanto, para recusar-me a fazê-lo, alguns dos quais eram de caráter inteiramente pessoal, e não diziam respeito a pessoa alguma além de a mim mesmo; outros nem tanto assim. Uma reserva que havia me dissuadido de fazê-lo era que, não tendo mantido um diário durante a maior parte do tempo em que estive ausente, eu temia não ser capaz de escrever, de cabeça apenas, um relato tão minucioso e coerente a ponto de se assemelhar a uma verdade que fizesse jus a este nome, excluído o exagero natural e inevitável ao qual todos nós nos mostramos propensos ao relatar acontecimentos que tiveram influência poderosa ao instigarem nossas faculdades imaginativas. Outra razão foi que os incidentes a serem narrados eram de natureza tão categoricamente fantástica, que, à falta de comprovação a qual minhas narrações são necessariamente devedoras (exceto pelo testemunho de um único indivíduo, e este um índio mestiço), eu só poderia esperar a crença entre a minha família e entre aqueles amigos que encontraram motivo, ao longo da vida, em colocar fé em minha sinceridade – com a probabilidade de que o público em geral fosse entender o que eu trouxesse ao seu conhecimento como uma mera ficção insolente e engenhosa. A desconfiança de minhas próprias habilidades como escritor era, todavia, uma das principais causas a me impedir de agir em conformidade com a sugestão dos que me aconselhavam.
Entre esses senhores em Virgínia que expressaram o maior interesse em meu relato, mais particularmente no que diz respeito a parte dele que se refere ao Oceano Antártico, estava o senhor Poe, editor há pouco tempo da Southern Literary Messenger, uma revista mensal, publicada pelo senhor Thomas W. Branco, na cidade de Richmond. Ele, entre outros, aconselhou-me enfaticamente a preparar imediatamente um relato completo do que eu tinha visto e de tudo pelo que havia passado, e confiava na perspicácia e no bom senso do público ao insistir, com grande plausibilidade, que, por mais cru que fosse meu livro, no que diz respeito apenas à autoria, a sua falta de elegância, caso houvesse alguma, concorreria em favor de uma melhor chance de ele ser recebido como fidedigno.
Apesar de tal argumentação, decidi-me a não agir em acordo com sua sugestão. Ele posteriormente propôs (achando que não iria mais tocar no assunto) que eu o deixasse elaborar, com suas próprias palavras, uma narrativa da primeira parte das minhas aventuras, a partir de fatos produzidos por mim, publicando-a no “Southern Messenger” sob o manto da ficção. Para tanto, não tendo eu nenhuma objeção, consenti, combinando apenas que o meu nome real devesse ser mantido. Dois números desta pretensa ficção apareceram, em função disto, no “Messenger” de janeiro e de fevereiro (1837), e, a fim de que viesse a positivamente ser considerada com certeza como ficção, o nome do senhor Poe foi aposto aos artigos no índice com o conteúdo da revista.

 A maneira pela qual este artifício foi recebido me levou no final das contas a dedicar-me a uma compilação integral e à publicação das aventuras em questão; pois descobri que, ainda que um ar de fabulação tenha sido tão engenhosamente criado em torno daquela parte de minha narrativa que apareceu no “Messenger” (sem alterar ou distorcer um único fato), o público ainda não estava de todo disposto a recebê-la como fantasiosa, e várias cartas foram enviadas para o endereço do senhor P., nitidamente manifestando convicção contrária. Eu concluí por conseguinte que os fatos da minha narrativa provariam ser de tal feitio a ponto de carregarem provas suficientes de sua autenticidade, e que eu tinha, consequentemente, pouco a temer no que diz respeito à incredulidade popular.
Concluída a presente exposição, será visto de imediato como muito do que se segue eu afirmo resultar de minha própria escrita; e deve também ficar entendido que nenhum fato aparece deturpado nas poucas páginas iniciais que foram escritas pelo senhor Poe. Até mesmo para aqueles leitores que ainda não viram o “Messenger”, mostra-se desnecessário assinalar onde sua parte termina e onde a minha inicia-se; a diferença no que se refere ao estilo será facilmente percebida.
A. G. PYM. Nova York, julho de 1838

Texto completo em inglês (clique aqui)

Audiolivro (clique aqui)

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O Lacan da Lapa

           (Mais um conto do falso escritor, do anti-autor, do farsante ficcionista)

           Os amigos o aconselhavam a mudar para Ipanema, mas ele era intransigente e reagia mesmo de forma agressiva quando tocavam no assunto:

– De modo algum. Vocês devem estar todos loucos. Comecei na Lapa e vou terminar meus dias por aqui. É o bairro da bandalha, da esculhambação, da patifaria.

– Pensa bem, Demétrio – replicavam os companheiros. Na Zona Sul você estaria deitando e rolando, ganhando os tubos, botando dinheiro pelo ladrão e trabalhando na santa paz do Senhor. As grã-finas, bem tratadas, bem vestidas, frugais, fariam fila na porta de seu consultório e pagariam até por meia hora de sua atenção.

– Pode até ser, mas não troco a variedade da minha clientela de libertinas e devassas por nada nesse mundo. E de mais a mais, alguém necessita dar continuidade nesta redondeza ao trabalho pioneiro do Lorival Pestana.

            Entre parêntesis: Lorival Pestana era um amigo pederasta e espécie de guru de Demétrio. Já falecido, começara cedo quando a psicanálise dava seus primeiros passos no Brasil. Estabeleceu seu consultório na rua de Matacavalos, quer dizer, do Riachuelo, e chegou a conhecer figuras legendárias como o Madame Satã, ou por extenso como nos cartões de visita: João Francisco dos Santos. Quem esteve em seu consultório durante uma passagem pelo Rio de Janeiro foi ninguém menos que o filósofo Michel Foucault. Lorival iria revelar ao mundo um detalhe importantíssimo que consta da biografia do iminente pensador francês. Seu gosto pelas cuecas de oncinha. Fecha parêntesis.

          Por estas e outras, seguia o nosso charlacanista com suas convicções inabaláveis. Antes de clinicar, se dedicou a fundo ao estudo da psicanálise. Possuía diplomas de cursos com carimbo de tudo quanto é canto: Viena, Paris, Zurique. Todos feitos por correspondência, bem entendido. Em sua prática, tinha predileção exclusiva por atender ao sexo feminino. Quando aparecia algum homem querendo marcar uma consulta, recomendava logo que procurasse um de seus muitos colegas renomados.

            No bar com os amigos, ele compartilhava, sem cerimônia alguma, suas aventuras vividas em anos de dedicação à sua clínica só para mulheres. Como um caso inesperado com o qual andava se ocupando recentemente e que só estava atendendo por obrigação profissional. Acostumado apenas com a sua muito peculiar clientela, ele estranhou quando apareceu por lá uma dama muito chique, dessas da alta sociedade. Confidenciou contrariado aos amigos:

– Vocês não podem imaginar, senhores, estava esperando que surgisse mais um caso complicado: uma transexual indecisa, uma prostituta desiludida, uma lésbica com alguma tara e me aparece essa grã-fina fricoteira. A psicanálise foi feita apenas para cuidar de casos escabrosos, não temos tempo para perfumaria.

              A grã-fina procurara o doutor Demétrio por força e insistência de suas amigas. Nunca pensara em buscar alguma ajuda para o seu caso, mas amigas, como a Climéria, não cansavam de repetir:

– A psicanálise voltou com tudo, será que você não percebeu o óbvio ululante? Pode ir que é batata. Vai acabar com todas as suas dúvidas e apreensões.

A grã-fina pensou consigo mesma e conclui um pouco desanimada: “É, vai ver que é isso mesmo”.

Não queria que ninguém soubesse e foi assim procurar atendimento bem longe de sua vizinhança. Chegara atrás dos serviços do doutor Demétrio porque vira um anúncio de jornal, anúncio este que era publicado regularmente num tabloide vagabundo. No consultório caindo aos pedaços, ela surgiu toda alinhada em uma roupa muito elegante, com sapato de salto alto e uma bolsa, tudo combinando na cor bege. Apresentou-se proferindo com ênfase seu nome completo: Marisa Letícia Ruth da Nóbrega. Pediu de forma extremamente educada, e com certa inibição, para entrar, sentou-se e perguntou se poderia acender um cigarro.

– Aqui a cliente pode tudo – respondeu o doutor e complementou em seu habitual falar escrachado. Afinal de contas, minha senhora, estamos na Lapa, oras.

– Muito agradecida, disse nossa cliente ainda sem graça e constrangida com o ambiente decadente daquele consultório.

          Puxou então sua carteira dourada e pegou o primeiro dos muitos cigarros que fumaria naquele final de tarde. Tinha chegado no encerramento do expediente e pedira toda a discrição possível.

– Ninguém pode nem imaginar que estive aqui, senhor Demétrio, guarde tudo em segredo como recomenda a ética médica – disse aflita.

            Mal sabia ela que tudo o que se passava entre aquelas quatro paredes, coisas nunca jamais imaginadas pelos piores pornógrafos do planeta, era compartilhado com toda fanfarrice e às gargalhadas em lugares públicos pelo Lacan da Lapa, o apelido que nosso protagonista ganhou de seu círculo de amigos. Quando ele aparecia para a cerveja religiosa que compartilhava toda semana com seus amigos, seus companheiro e entusiastas, soltavam logo a blague:

–  Lá vem o Lacan da Lapa. Hoje temos assunto para a noite inteira.

              Diante das palavras amenas e encorajadoras do doutor Demétrio, no entanto, a dama chique se sentiu segura, não hesitou e foi direto ao assunto:

– O problema é meu marido, doutor.

            A frase pegou nosso charlacanista de surpresa. Ele pensou um pouco, em uma de suas conhecidas e longas pausas de silêncio, e acabou decidindo improvisar uma fala que fugia totalmente ao seu script de trabalho:

– Não és a única, dona Marisa Letícia…

– Ruth da Nóbrega, completou a paciente.

– Ah, sim, Ruth da Nóbrega, repetiu o doutor. Pois pode a senhora acreditar no que vou lhe dizer: quase a totalidade das clientes que deitam naquele divã que podemos ver ali, o fazem por causa de seus maridos. São todos uns canalhas, uns crápulas, uns cafajestes. Vamos tratar de resolver o seu problema rapidamente.

– Ele pensa que me engana, mas eu sei de tudo. Já tive a chance de checar as chamadas em seu celular. Está cheio de números de telefones das maiores pilantras, vagabundas, meretrizes. Isso mesmo, meretrizes. Só mulheres ordinárias, todas se oferecendo a troco de nada. Outro dia, ele passou horas conversando com uma sirigaita na maior cara de pau e eu tendo que ouvir a tudo. Aposto que elas enviam selfies nus e que o levam para um motel qualquer.

            Depois de ouvir aquela ladainha, muito contrariado, Demétrio preferiu ser direto com sua cliente endinheirada:

– Bom, minha senhora, estou preocupado com sua aflição. Queria, entretanto, deixar algo claro desde o início. Esta aqui não é exatamente uma agência de detetives. Esta é exclusivamente uma clínica terapêutica. Entenda, por favor.

– Me desculpe, doutor, é que me descontrolo ao falar sobre o assunto.

             Ingênua, ela quis então saber como tudo funcionava e nosso psicanalista, vendo que não haveria como se livra da grã-fina, resolveu ir em frente com o tratamento.

– É fácil, vamos começar agora mesmo. Basta que a senhora se deite naquele divã, tire os sapatos, relaxe e me conte tudo nos mínimos pormenores sobre sua vida. Esqueça o seu marido. Fale-me dos seus sonhos, desejos e fantasias não realizadas. Quero saber cada detalhe sobre essa alma combalida e atormentada.

            E assim não demorou mais do que três sessões para que o doutor Demétrio, seguindo o método de trabalho do qual não conseguia fugir, estivesse fazendo e acontecendo, pintando e bordando, com sua nova cliente. Era o mesmo que se dava com a grande maioria de sua clientela, às escancaradas, com as cortinas abertas e sem nenhum embaraço por parte daquele investigador de almas. Um vizinho, que se habituara a observar tudo pela janela, pensava consigo: “Então é essa bandalheira que chamam de psicanálise? E a paciente ainda paga por esse serviço? Valha-me Deus, isso é um caso de polícia”.

            Depois de dois meses de terapia, a grã-fina já nem lembrava mais do marido. Tinha reservado as quartas-feiras, um dia da semana acima de qualquer suspeita e com sua áurea de inocência, para as suas sessões com o doutor Demétrio.

         Um dia chegou ao prédio mais cedo do que devia para sua consulta. Quando isso acontecia, ficava sempre fazendo hora passeando pelos arredores. Algumas vezes aproveitou para ir até o relógio da Glória. Sonhadora, olhava para aquele marco da cidade e imaginava o que o tempo havia contemplado: crimes, atropelamentos, suicídios. Desta feita, no entanto, já mais desinibida e à vontade, resolveu subir logo ainda que não fosse o seu horário. Foi quando avistou saindo da sala de consultas do doutor Demétrio um tipo vulgar ainda arrumando a roupa um pouco amassada, retocando o batom e ajeitando o cabelo. Ficou chateada com o que viu e resolveu interpelar o psicanalista.

– Que belo papel, hein Demétrio? Venho aqui para esquecer o pilantra do meu marido e em busca de conforto com alguém de confiança e olha o que você me apronta. Quem é essa ordinária que acabou de sair daqui?

– Quem, a Josicleide? Não fale assim dela, é um doce de pessoa.

– Doce de pessoa, uma ova. Vocês estavam é se atracando aqui dentro.

– Calma, meu anjo, não precisa se irritar tanto. Com o papai aqui tem para todas e nunca vai faltar nada para ninguém. Não vejo motivo para vocês se estranharem.

            A grã-fina saiu indignada, cuspindo marimbondo. Daí a uma semana retornou no horário de sua consulta. Quando Demétrio abriu a porta, ela não teve dúvida, muito senhora de si, tirou da bolsa o revólver e descarregou os cinco tiros à queima roupa. Virou as costas e saiu gritando para que todo o prédio ouvisse:

– Canalhas, patifes, calhordas.

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