José Carlos Avellar – A Sétima Arte sob o Olhar de um dos seus Grandes Críticos

Captura de tela inteira 24032016 070552Os jornais hoje vivem de manchetes e delas quase que exclusivamente. Em uma hora no máximo, somos capazes de dar conta de uma edição cuja leitura antigamente podia se estender por toda uma tarde, quiça por por todo um dia, como costumava acontecer aos domingos. Estas mudanças começaram a acontecer no final da década de 1980. O jornal em preto e branco foi aos poucos incorporando cores às suas edições, as fotos ganharam proeminência, o tamanho do tipo de letra impressa foi aumentado, e os extensos textos passaram a ser substituídos por matéria jornalística curta e resumida em função do pouco espaço dedicado a cada repórter/jornalista/crítico. Era o começo da proliferação de colunas sociais e políticas feitas quase que exclusivamente com fotos e notas.

Todas as seções sofreram indiscriminadamente com estas mudanças. Mas a morte de José Carlos Avellar nos faz lembrar como as críticas cinematográficas já foram um dia feitas com digressões caudalosas. Avellar preparava resenhas de filmes para as edições de dias ingratos e menos nobres como as segundas e terças-feiras, mas tinha todo o espaço do mundo para escrever o que quisesse. Suas extensas críticas no Caderno B do Jornal do Brasil eram a garantia de que teríamos com o que nos entreter em dias em que as seções de cultura eram mais comedidas em comparação com as volumosas edições do fim-de-semana. Não fazia ideia de que antes de começar a lê-lo, o crítico, ensaísta e professor carioca chegou a escrever, à época em que deu início a sua carreira assinando resenhas como crítico interino do JB, textos publicados em duas partes. Algo impensável nos cadernos culturais dos dias de hoje.

Por entender de técnicas cinematográficas, uma vez que era também um realizador, associava seu conhecimento prático à sua formação teórica e conseguia com isto dar tratamento crítico único às resenhas. José Carlos Avellar sabia explorar como poucos a dimensão mais profunda da experiência fílmica. Certamente impressionado com as características onírica dos filmes de um Buñuel, de um Fellini, de um Bergman, ou o oposto, estimulado pelo neo-realismo italiano de um Vitório De Cica, de um Rossellini, de um Visconti, procurava retratar por contraste, em suas críticas, o que podemos experimentar quando nos reclinamos nestes espaços entre o sonho e a realidade que são as salas escuras dos cinemas. Isto numa época em que as salas de projeção preservavam seu clima de culto, resguardadas das luzes inoportunas e intrometidas dos celulares.

Além da carreira de crítico, ele tratou de cuidar da memória do cinema, trabalhando na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e apostou em novos e conhecidos realizadores comandando primeiro a Embrafilme e, posteriormente, a Riofilme. Mais recentemente atuava como programador da sala de cinema do Instituto Moreira Salles, onde também reunia e mediava conversas com cineastas, jornalistas e críticos. Seguia também publicando resenhas no blogue escrevercinema na Internet (clique aqui).

12380131_1134491983248986_554097659_n

 

Publicado em José Carlos AVellar | 1 Comentário

Seguem os treinos…

Captura de tela inteira 20032016 115216

Com limitações, o relógio de pulso Garmin vem registrando e transferindo para sua página on-line (um app chamado Garmin Express que abre a página da Garmin Connect) os dados dos treinos na piscina da Bodytech da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ali onde ficava o Cine Copacabana. Desde agosto de 2015, quando os dados passaram a ser enviados, foram 375 quilômetros nadados em 114 horas dentro d´água. O que não dá pra entender é como seria possível se fazer 100 metros em apenas 21 segundos. Se isto acontecesse, estaríamos batendo os recordes dos recordes. Em piscina curta (25m), 1:07 já é um tempo difícil de acreditar e tenho minhas sérias dúvidas em relação a ele. A explicação é, no entanto, simples. Existe um Garmin, que custa na faixa dos 500 dólares, que funciona ancorado em registros via GPS como vários dos gadgets de que dispomos hoje. O modelo que uso tem um preço mais acessível (150 dólares), mas opera a partir de dados informados previamente (como a extensão da piscina e o tipo de treino, por exemplo). E para fazer estes registros, ele é sensível aos movimentos realizados na piscina. É necessário, assim, dar um impulso contínuo a cada larga de uma das bordas para ele contabilizar novos 25m. No geral, isso acontece de forma precisa. Quando se divide uma raia com outros nadadores, qualquer eventual mudança de percurso, no entanto, o força a registrar a finalização de mais uma extensão da piscina o que pode gerar marcas recordes. A alternância de estilos também pode ser fonte de imprecisão pelo que tenho observado.

Captura de tela inteira 20032016 113556

Captura de tela inteira 20032016 115435

Captura de tela inteira 20032016 115909

Publicado em Natação | 1 Comentário

Justiça e Ódio

          6_Walks_in_the_Fictional_Woods upload-r38is1alftfm90307eg7urqd93388830.jpg-final

Capa da edição americana de Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, esgotado no Brasil. Na Estante Virtual, o preço do exemplar começa em 100 reais (clique aqui).  Na audible.com, o áudio-livro sai por 22 dólares (clique aqui)

Achamos que conhecemos bem um escritor e não mais do que de repente descobrimos que a obra deste autor ainda apresenta textos de um completo ineditismo para nós. Passei os últimos dias me deliciando com alguns escritos de Umberto Eco dos quais nem sabia da existência. Especialmente, Six Walks in the Fictional Woods (Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, Companhia das Letras), as 6 conferências proferidas na década de 1990 por Eco dentro do famoso ciclo de palestras que leva o nome do estudioso norte-americano Charles Eliot Norton, evento que desde 1925 acontece anualmente na Universidade de Harvard nos Estados Unidos e prestigia um intelectual de renome. Trata-se de livro com digressões interessantíssimas sobre o ato da leitura e sobre as relações possíveis entre autor/leitor a partir das obras de Arthur Gordon Pym, ou melhor dizendo, Edgar Allan Poe, Italo Calvino, Achille Campanile, Kafka, Joyce, entre muitos outros. Não é preciso ser um entendido em semiótica para saber que estas considerações se aplicam à produção artística veiculada em ou por qualquer meio, até mesmo pela televisão, por exemplo.

Em meus comentários sobre a obra de Eco há algumas postagens atrás deixei esquecido também um romance, O Cemitério de Praga (Editora Record,  2011), aquele que traz o registro de uma citação que desconhecia: “Odeio, logo existo”. O livro e o tópico são comentados por Umberto Eco em depoimento concedido a Paul Holdengräber durante palestra gravada para os arquivos da Biblioteca Pública de Nova York (clique aqui). Com sua exuberante e majestosa barriga, que parece estar ali como que a atestar o júbilo de uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, Eco nos diz que ao que tudo indica a história tem demonstrado que necessitamos odiar fortemente alguém para existirmos. Foi um motorista de táxi em Nova York que o despertou para o assunto, ao indagá-lo, para sua grande surpresa, sobre as pessoas que odiava em seu país.

Ódio semelhante a este podemos talvez identificar nas ações do senhor Sérgio Moro em relação ao senhor Luiz Inácio Lula da Silva. E, nesta hora, peço ajuda aos queridos amigos leitores e entendidos nos campos da psicologia e da psicanálise (em breve teremos aqui um conto dedicado a vocês; aguardem). Vejamos se vocês conseguem me auxiliar no esclarecimento de um enigma. De onde vem, onde nasce, este ódio para com uma pessoa?

Acompanhem a seguinte ponderação: o senhor Sérgio Moro, mestre e doutor pela Universidade do Paraná com um curso rápido de especialização de 5 dias (clique aqui) realizado naquela mesma Universidade de Harvard em que Eco palestrou, poderia perfeitamente, e a bem da justiça, ter encaminhado as gravações que suas investigações levantaram direto para o Supremo Tribunal Federal, em sigilo completo, a fim de que este tomasse conhecimento, avaliasse e, como corte suprema e soberana, decidisse o que fazer. Em lugar desta atitude, no entanto, ele preferiu, sem justificativa razoável alguma, constranger publicamente a pessoa por ele investigada. A intenção, segundo foi comentado, era informar a população sobre fato relevante. O que foi revelado para o que vos digita, porém, foi a manifestação daquele ódio profundo que o ser humano parece guardar bem escondido no lugar mais recôndito de sua alma.

Lembrou muito os ataques de um craque neste assunto: Carlos Lacerda. O Corvo em suas investidas iradas contra Getúlio Vargas e Samuel Wainer nos anos de 1950 conseguiu criar um momento de instabilidade no país que culminou com o suicídio do ditador do Estado Novo. E com esta lembrança, chego mesmo a me perguntar se não estaríamos revivendo a República das Abelhas com a história se repetindo como farsa neste momento. A diferença é que Carlos Lacerda era um político, uma classe que vive deste tipo de expediente. Investidas desta natureza por parte de um juiz, no entanto, não ficam nada bem. Não foi à toa que editorial de hoje da Folha de São Paulo reprovou a iniciativa de Moro.

 

Publicado em Umberto Eco | Deixe um comentário

“Je collectionne tous les livres que je ne crois pas…”

Captura de tela inteira 14032016 234807

Umberto Eco em entrevista ao programa La Grande Librairie (clique aqui)

 

Publicado em Umberto Eco | Deixe um comentário

Domingão Anti-Dilma/Lula/PT

impeachment

Dia de manifestação anti-Dilma, anti-PT e anti-corrupção. Nas redes sociais, o país pareceu muito dividido, mas a mobilização foi expressiva e histórica, superando até as “Diretas Já”. Não fui um entusiasta da iniciativa e nem participei ativamente porque há um foco excessivo, em meu entender, no PT e nas pessoas de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Sou contrário a este tipo de execração pública. Fantoches dos dois políticos e faixas contra o PT inundaram as ruas. Não vi coisa semelhante em relação a nenhum dos outros partidos e políticos que são acusados de improbidade administrativa. A justiça, como todos que prezam a democracia sabem, deve ser isenta e isonômica.

Em  uma lista do Dossiê do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, o PT aparece na 9a. posição, bem atrás de vários outros partidos políticos. O levantamento é antigo, e, depois da Lava-Jato, a situação deve mudar. Mas é difícil que o PT, com 10 políticos cassados por corrupção eleitoral nesta lista, bata os primeiros colocados: DEM, com 69, PMDB, com 62, e PSDB, com 58. Estranhamente, não vi, no entanto, faixas contra nenhuma dessas agremiações partidárias que, pelo contrário, saíram das manifestações de rua intocadas. Nem tampouco fantoches de políticos com acusações sérias e corroboradas por provas claras (o que ainda não é o caso, pelo menos até o momento, de Dilma Rousseff).

Captura de tela inteira 14032016 185317

No sábado, em uma reunião do PMDB, foram feitos também ataques ao PT e à Dilma por uma mesa comandada por Michel Temer com a presença de Eduardo Cunha. O líder do partido já posava como novo salvador da pátria e parece vir se articulando para assumir o cargo de chefe da nação. Aécio Neves, citado em investigações, por sua vez, aproveitou a mobilização para se promover em Belo Horizonte, onde foi bem recebido e acolhido pelos manifestantes. Tentou fazer o mesmo em São Paulo, mas felizmente foi rechaçado. José Serra parou para selfies na manifestação na capital paulista em situação que pedia comedimento. Com este tipo de espírito público, acho difícil querer mudar a situação política.

Publicado em Lava-Jato | 4 Comentários

Ainda sobre Umberto Eco…

Captura de tela inteira 09032016 213601Alguns textos preparados para este blogue acabam não sendo postados por razões variadas. É o caso da passagem abaixo que fica como mais um gesto de homenagem ao escritor Umberto Eco, especialmente a seu romance A Misteriosa Chama da Rainha Loana, a seu gosto por enciclopédias e sua mania de colecionar velharias e obras raras (o que começou a poder fazer, como relatou certa vez, depois de ganhar muito dinheiro com O Nome da Rosa).

A Wikipédia não cansa de nos servir e parece mesmo fadada a não perder seu status de fonte de difusão de conhecimento da qual a vida online jamais poderá prescindir. Antes do seu aparecimento em 2001, fato que ficamos sabendo consultando a própria Wikipédia, no entanto, os estudantes do mundo todo viviam na dependência das enciclopédias tradicionais com seus pesados volumes. Para o aluno brasileiro da década de 1970, duas tiveram importância fundamental: a Barsa e a Delta-Larousse. Foi através do confronto, da paráfrase, ou da mera cópia, dessas duas obras de referência, que muitos trabalhos escolares foram escritos.

Hoje, parece claro que a elaboração de um saber enciclopédico em volume impresso teria dificuldade de competir com a construção desse mesmo saber de forma colaborativa em ambiente digital com um número incontável de pessoas envolvidas. Um ponto de desvantagem para as enciclopédias geradas na rede mundial de computadores é que elas não passam necessariamente pelo crivo do juízo de pessoas qualificadas como um Antonio Houaiss, um Otto Maria Carpeaux, nomes que deram tratamento único aos verbetes das primeiras enciclopédias lançadas no Brasil. Além disso, há a questão da credibilidade do que é comunicado. Dilma Rousseff, por exemplo, divulgou durante um bom tempo na Wikipédia informações incorretas sobre sua trajetória pessoal, sem problema algum. Até o assunto se transformar em um escândalo.

As enciclopédias impressas tiveram no Brasil da década de 1990 um renascimento por conta de sua associação com nossos jornais como produto de marketing. Em 1996, o jornal Folha de São Paulo traduziu e lançou como encarte de suas edições de domingo os fascículos da “Nova Enciclopédia Ilustrada Folha” (tradução adaptada para a realidade brasileira da “The Oxford Illustrated Encyclopedia”). Muita gente adquiriu esses fascículos que depois eram encadernados através de serviço oferecido pela empresa Folha da Manhã junto às bancas de jornal para os colecionadores dos encartes. Perfizeram dois tomos e vieram em seguida ao lançamento em esquema semelhante do “Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa – Folha Aurélio”, nos anos de 1994 e 1995. Ambas eram estratégias para aumentar a vendagem do jornal aos domingos, o que de fato aconteceu. Essa estratégia seria repetida por todos os jornais brasileiros e se desdobraria em outras jogadas de marketing semelhantes com a comercialização de fitas cassetes, cds, dvds, livros.

Há um ensaio muito interessante de Umberto Eco que contrasta as duas formas de conhecimento que orientam um saber enciclopédico e um saber dicionarizado. O autor do romance Número Zero, em um estudo teórico de 1986, examina o que diferenciaria essas duas maneiras de construção de conhecimento. Eco diz que o dicionário trabalha com um saber redundante e a enciclopédia, por outro lado, com um saber que se perde em um labirinto. O que nos levaria talvez a pensar que os dicionários não passam na verdade de enciclopédias empobrecidas. Pode-se, no entanto, supor justamente o oposto e achar que os dicionários são extremamente refinados em sua especificidade.

De qualquer jeito, os dicionários operam em redundância permanente, a partir da sinonímia, da antonímia, da hiperonímia e da hiponímia das palavras. A utilidade dos dicionários é, em função disso, dependente das culturas que os geraram. Sem um conhecimento prévio da sinonímia, antonímia, hiperonímia e hiponímia dos vocábulos de um idioma específico, a utilidade do dicionário se perde.

O termo “enciclopédia” quer dizer “educação circular” ou “conhecimento geral”, nos diz de novo a Wikipédia. O verbete segue nos informando que elas foram desenvolvidas a partir dos dicionários no século XVIII. São, portanto, posteriores a eles, cronologicamente falando. No Brasil, os nomes de Aurélio Buarque de Hollanda e Antonio Houaiss acabaram associados aos dicionários que produziram ajudados sempre por uma equipe grande de entendidos, deve-se salientar. Aurélio foi o primeiro e dedicou sua vida inteira ao trabalho de lexicógrafo. Seu nome virou mesmo um sinônimo de dicionário durante um bom tempo no Brasil. Antonio Houaiss incursionou de início pelo mundo do conhecimento enciclopédico para só depois se dedicar ao registro e a datação de palavras. Foi levado a esses dois projetos pelo empresário de origem judaica Abraham Koogan que financiou a enciclopédia Delta-Larousse em sua versão brasileira e o dicionário Koogan-Houaiss. Nos armários da minha infância/adolescência as enciclopédias Barsa e Larousse repousavam aguardando as demandas das tarefas escolares. Junto a elas, estava uma outra e mais importante coleção. Trata-se da “Great Books of the Western World”, da enciclopédia Britânica, com seleção dos textos mais importantes de todos os pensadores e escritores fundamentais para a formação de qualquer pessoa.

12825267_1123064697725048_481343147_n12324995_1123064681058383_638209912_n

Ela chegou em seguida à Barsa e à Delta-Larousse e veio, pelo que me lembro, como cortesia. Seus muitos tomos ficaram envelopados em papel celofane, esquecidos e preservados durante anos do risco da poeira e da humidade. Quando descobri, já na fase universitária, a coleção intocada, não acreditei. Tomos com os escritos de Platão, Aristóteles, Copérnico, Newton, Kant, Hegel, Marx, Freud, Cervantes, Shakespeare, Dante, Goethe (a lista é bem grande), estavam todos lá sem que ninguém tivesse dado qualquer atenção a eles. A biblioteca do Ibeu de Copacabana tinha uma coleção da Britânica. No sebo da Faculdade de Letras da UFRJ podia se ver uma outra malcuidada edição por um preço exorbitante. Daniel Piza contou certa vez como adquiriu a sua coleção em um sebo em São Paulo e ao chegar em casa teve ainda que dar um bom trato, lixando e reparando alguns volumes. Em tempo: no Brasil, a editora Abril lançou a série “Os Pensadores” e a Nova Cultural, a “Coleção Obras Primas”, que lembram a iniciativa da Britânica.

Publicado em Umberto Eco, Wikipédia | 2 Comentários

A Obra Aberta da Lava-Jato

12834761_1120957261269125_1685187744_n

Os dois mais importantes colunistas culturais brasileiros vivos, Ruy Castro e Sérgio Augusto, dedicaram artigos a Umberto Eco durante o fim de semana. O nosso biógrafo e historiador da vida cotidiana do século XX favorito desencavou um daqueles achados e nos lembrou que a primeira especulação sobre a tal “obra aberta” partiu de um artigo de Haroldo de Campos publicado em 1955 no jornal Diário de São Paulo. O poeta, tradutor e um dos idealizadores do programa de comunicação e semiótica da PUC-SP disparou portanto a fagulha que Eco, que teve convivência com os irmãos Campos, soube bem aproveitar. Ruy Castro comenta então, em tom trocista, que não custaria nada portanto ao estudioso italiano ter registrado de alguma forma um agradecimento.

Sérgio Augusto falou sobre a prática jornalística de Umberto Eco citando os artigos que o “sábio do Piemonte” escreveu ao longo de toda a vida e desde os anos 1960. Escritos que desconheço. Parece que há coletâneas desses textos em Diário Mínimo, obra editada em dois volumes dando conta de períodos diversos da práxis jornalística de Eco. Quando achamos que conhecemos bem a obra do escritor, vemos que ainda há muita coisa a ser lida. Sérgio Augusto não deu muita atenção à produção romanesca do autor, mas ficou encantado e teceu loas a Número Zero, para vermos como cada obra chega a um leitor distinto.

Em sua coluna na página 2 da Folha de São Paulo, por onde já passaram dois dos maiores nomes do jornalismo brasileiro (Cláudio Abramo e Otto Lara Resende), Ruy Castro tratou ainda de atrelar a conversa sobre Umberto Eco ao momento conturbado que vivemos para observar de novo jocosamente que de obra aberta e ambígua quem entende mesmo é Luiz Inácio Lula da Silva. Para não dizerem que vivo em outro planeta, gostaria de comentar com petistas e anti-petistas (tenho amigos queridos dos dois lados) que a briga de torcida em que se transformou a investigação da Lava Jato, que, como assunto jurídico deveria correr distante de qualquer paixão, me deixa admirado. Não me agrada o jogo de cena de Lula, mas, como Chico Buarque de Hollanda, não acredito e nem confio no PSDB. Esta história de ex-presidentes criarem seus institutos é também das coisas mais megalomaníacas e abomináveis de que já se teve notícia.

Publicado em Ruy Castro, Sérgio Augusto, Umberto Eco | 2 Comentários

O Legado de Umberto Eco

Umberto Eco

Conversa com Umberto Eco sobre memória e livros (clique aqui)

A morte de Umberto Eco, ocorrida há pouco mais de uma semana, faz com que qualquer um que tenha acompanhado sua trajetória e convivido com seus escritos se sinta compelido a comentar a impressionante herança deixada por alguém que se dedicou com empenho surpreendente à escrita: seja para refletir sobre as relações entre arte e ciência, seja para incorrer em uma criação romanesca de significativo lastro. Nos obituários e textos póstumos publicados sobre o autor, apareceram os elogios e também observações críticas a um escritor cujos livros foram de qualquer jeito objeto de afeição e estima por parte de todos aqueles que apreciam os autores/teóricos que conseguem aliar erudição e inventividade. Vamos então a cada um dos segmentos que compõem o denso e extensíssimo legado deixado pelo grande mestre italiano.

Semiólogo

12787978_1116795915018593_295581645_n

Outro dia falamos sobre os escritos de Roland Barthes, que se notabilizou por suas discussões e interesse pela semiologia. Mas, se houve alguém que se dedicou ainda com mais empenho aos fundamentos desta ciência, essa pessoa foi Umberto Eco. Os estudos de Eco talvez sejam extremamente técnicos e eventualmente maçantes para o leitor desinteressado pelos princípios da semiótica, mas são, a bem da verdade, as mais pormenorizadas e profundas considerações sobre o assunto já feitas e resultaram em um número grande de tratados definitivos sobre o tema.

Partindo dos escritos do pioneiro filósofo e lógico americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), o professor italiano, que inaugurou a cátedra de semiótica na mais antiga universidade européia  (a Universidade de Bolonha, onde lecionou até se despedir de nós), deu sequência aos estudos semiológicos em vários volumes. Começou por A Estrutura Ausente, livro de 1964, editado no Brasil em 1976, e seguiu com Tratado Geral de Semiótica, de 1976, lançado por aqui na mesma época. A semiologia, ciência considerada prospectivamente por Ferdinand de Saussure em suas anotações para o seu curso de linguística geral, continuaria a pontuar trabalhos subsequentes de Eco, ainda que sob uma nova abordagem que incluiria a perspectiva do leitor.

Nas escolas de comunicação nas décadas de 1970/80, o erudito italiano, que visitara o Brasil e convivera com a intelectualidade brasileira, era leitura obrigatória. No curso da PUC-RJ da década de 80, havia um culto às suas discussões semiológicas. Quem me apresentou particularmente aos textos do autor e fez a minha iniciação ao mundo do teórico foi a muito querida professora Rosângela Araújo. Convivi com seus textos ao longo de toda a graduação e quando estava fazendo a monografia de final de curso, voltei a eles. Queria escrever sobre o cinema de Glauber Rocha e julguei que seria pertinente tentar entender como se estruturava a linguagem cinematográfica.

As discussões de Eco se insinuavam como perfeitas para embasar teoricamente o trabalho monográfico, ainda que o espaço de tempo de um semestre não tenha sido suficiente para aproveitar consequentemente as ponderações do teórico. De qualquer jeito, os tratados do semiólogo me marcariam por demais e seriam mesmo incorporados às discussões de minha dissertação de mestrado sobre a tradução em meios audiovisuais.

A tentativa de Eco de estabelecer um modelo teórico que desse conta de todas as formas de troca que acontecem na comunicação é preciso e adequado a uma abordagem estruturalista, mas parece não ter conseguido fugir às suas limitações, especialmente para um autor que já havia escrito a muito citada Obra Aberta (1962). Tanto assim que, dos tratados de semiótica, ele partiria para relacionar a discussão semiológica com uma filosofia da linguagem e para investigar o papel do leitor no processo comunicacional.

Ensaísta

12782118_1116795885018596_1763779221_n

Retomando sua verse ensaística, Eco começou então a escrever livros especulativos e mais prazerosos de se ler como Lector in Fabula (1979), Semiotics and the philosophy of Language (1986) e Os Limites da Interpretação (1990). Este último se desdobraria em uma apaixonante discussão que resultaria no livro Interpretação e Superinterpretação (1993). Coletânea que reuniu os textos das conferências de Tanner que aconteceram em Cambridge em 1990. O professor italiano era homenageado e suas palestras foram realizadas em diálogo com outros três estudiosos do tema: Richard Rorty, Jonathan Culler e Christine Brooke-Rose. Foi um daqueles debates em que não se consegue chegar a consenso sobre coisa alguma. A proposta de discutir o assunto de qualquer jeito partira galhardamente do próprio Eco que já devia imaginar os embates que viriam pela frente e deve ter se divertido com o confronto de ideias.

O auge da carreira de Umberto Eco é certamente marcado por obras especulativas, escritas sempre, como tudo o que fez, com muita criatividade. Assim começamos com Kant and the Platypus (1997), reunião de ensaios sobre linguagem e cognição, seguimos com Quase a Mesma Coisa (2003), sobre o trabalho tradutório, e chegamos ao extraordinário História das Terras e Lugares Lendários (2013). Trata-se de uma das várias (e belissimamente ilustradas) obras de um erudito que consegue discorrer sobre temas como cartografia e as crenças sobre as características esféricas da Terra, bem como os lugares em que se passam as narrativas de Homero.

Eco 1

Ilustração do livro “História das Terras e Lugares Lendários”, de Umberto Eco, com exemplo da cartografia em seus primórdios. O “mapa em T” representa, na linha horizontal, à direita, o Nilo e, à esqueda, o mar Negro. Na vertical temos o Mediterrâneo. Em cima, a Ásia e, abaixo, Europa e África.

12784209_1116795931685258_65783764_n

Há ainda Sobre a Literatura (2002), digressões variadas sobre o exercício de escrita por autores inevitáveis (Shakespeare, Dante, Karl Marx, Oscar Wilde e James Joyce).  Cito por fim On Beauty (2010) e On Ugliness (2011), dois outros livros ilustrados, que infelizmente nunca comprei pois achei excessivamente caros quando dos seus respectivos lançamentos, distribuídos em livrarias por editoras que não têm pena do bolso dos leitores.

Romancista

12782217_1116797101685141_1217574954_n

O obituário do New York Times desencavou, o que é salutar em um apanhado sobre um autor, os ataques de Salman Rushdie ao romance O Pêndulo de Foucault (1988), publicados em uma resenha do London Observer na época do lançamento do livro. Foi o suficiente para o editorialista da Folha de São Paulo Marcelo Coelho sair à caça de aspectos problemáticos nos livros do autor. Além de Eco ter identificado, de maneira errônea segundo Coelho, pontos positivos no âmbito da cultura de massa em Apocalípticos e Integrados (1965), o escritor produziu, “com resultados insatisfatórios” de acordo com o articulista, um produto híbrido entre a “alta” e “baixa” cultura com seu romance best-seller O Nome da Rosa (1980).

Coelho gastou ainda uma coluna inteira para mostrar os descaminhos de Número Zero (2015), última obra ficcional de Eco, e espera que o legado do escritor italiano seja maior do que o fato de ter inaugurado, com O Pêndulo de Foucault, a tradição na literatura da moda dos títulos implausíveis, que teria sequência, de acordo com o colunista da Folha, com O Atiçador de Wittgenstein, O Cachorro de Rousseau e O Relógio de Cuco de José do Patrocínio.

Ainda que eventuais questões críticas pontuais possam ser reconhecidas na obra romanesca de Eco, não podemos esquecer das criações mais significativas do autor. Além de O Nome da Rosa (aquele livro que foi lido por mais de 10 milhões de leitores em 30 idiomas ao redor do planeta) obras literárias que consagraram um escritor que gostava de mistura um saber erudito com histórias de tons narrativos variadíssimos. Obras como A Ilha do Dia Anterior (1995), com suas referências às clássicas aventuras marítimas, Baudolino (2000), que nos conduz à Idade Média de uma forma bem distinta de O Nome da Rosa, e A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2005), em que surge uma espécie de alter ego do escritor, um senhor que perdeu a memória afetiva e tenta reconstituir sua história pessoal na Itália do século XX. Todas obras de fôlego, as duas primeiras em tradução caprichada de Marco Lucchesi e a última vertida por Eliana Aguiar, dois tradutores que cuidaram recorrentemente dos escritos de Umberto Eco.

Publicado em Umberto Eco | 1 Comentário

A Vida Noturna Carioca em “A Noite do Meu Bem”

Nada como um recesso para termos um reencontro de verdade com o prazer da leitura. Leitura de livro, bem entendido. Antigamente as pessoas falavam em uma tal de “maquininha de fazer doido” para se referir à televisão. A definição parece mais apropriada para caracterizar uma outra invenção da modernidade, a Internet. Ela está fazendo com que deixemos de lado, esqueçamos, o encanto fundamental da leitura de livro, aquele feito de papel e cola, se é que alguém ainda se lembra dele. É verdade que atualmente ouço muito mais do que leio, viciado que estou nos áudio-livros da Librivox e da Audible. Mas Caetano Veloso está coberto de razão ao falar do grande amor táctil que votamos a este objeto de inacreditáveis qualidades transcendentes e de cujas características físicas às vezes não se pode prescindir sem que eles percam toda sua graça.

Quando esbarramos com um novo livro de Ruy Castro, então, esta sensação é intensificada em razão do cuidado único que a editora Companhia das Letras (que trata o autor a pão de ló) dedica a cada uma de suas obras. Elas merecem. Assim, a fascinação com “A Noite do Meu Bem”, lançado no finalzinho do ano passado pela editora de Luiz Schwarcz, começa em pé, dentro da livraria. Antes mesmo de adquirir o livro já nos pegamos embevecidos a folhear aquele volume com arrojadíssimo projeto gráfico-editorial. A escolha das fotos, a vivacidade das legendas (nunca gratuitas), os elaboradíssimos índices remissivos (neste volume há até uma “cançãografia”), tudo colabora para transformar a obra em um vasto território para os instintos exploratórios do leitor antiquado.

Além disso, há o texto sempre espirituoso de Ruy Castro, capaz de despertar o interesse até daqueles que, como Lucio Rangel e Stanislaw Ponte Preta, trocariam com facilidade as noitadas regadas a samba-canção (assunto central da obra que leva o subtítulo de “A História e as Histórias do Samba-Canção”) por um jazz after midnight (jam para os íntimos) à beira da piscina do Hotel Glória. E é assim que seguimos o convite da contracapa e mergulhamos de cabeça no ambiente agitado do Night and Day, situado no segundo piso do majestoso edifício Serrador na Cinelândia, do Sacha´s, do Fred´s, do Casablanca, do imponente Monte Carlo, com uma estrela de neon verde que podia ser vista de toda a Zona Sul, do diminuto Chez Colbert, que reencarnaria no Little Club, e do Baccara. Um mapa no caderno de fotos no meio do livro situa cada um deles, a quase totalidade em Copacabana.

Vivenciamos ainda (e principalmente) a ascensão e queda, com fim dramático, do Vogue, na Princesa Isabel, de frente pra praia, talvez o mais badalado dos nightclubs que fizeram a alegria dos notívagos que frequentavam as noites cariocas entre 1946 e 1965. Não podia imaginar que  houvesse tanto o que contar e Ruy Castro sabe ir reservando para cada momento do livro um destes episódios que custamos a crer que aconteceram de fato.

A vida sofisticada dos irmãos Carlinhos e Jorginho Guinle com a rivalidade entre as suas respectivas e pra lá de glamorosas esposas. Uma egípcia, e a outra, norte-americana. A amizade do primeiro com Dorival Caymmi, que sempre foi para mim muito mais carioca e copacabanense do que baiano. As trajetórias de Doris Monteiro, Maysa, Dolores Duran, todas com passagens antológicas. O mesmo vale para a carreira de Dick Farney, Ibrahim Sued e Antonio Maria. Os momentos conturbados da vida conjugal de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, que já foram narrados em especial de TV, são relembrados pela pena inspirada do autor. Como fã de Ary Barroso, me deliciei com passagens de sua vida de compositor, figura iconoclasta da noite e narrador de futebol. Uma novidade saber das narrações de jogos de futebol com dois locutores, como na final da Copa de 1950 em que Ary narrou os ataques brasileiros e Antonio Maria, os uruguaios.

Não fazia ideia da importância de Humberto Teixeira, que, segundo nos conta Ruy, era autor solitário das composições assinadas com Luiz Gozanga, que respondia apenas pela “sanfonização” das músicas que “compunham em parceria”. Em postagem anterior já disse que acho o arranjo tão importante quanto a música e a solidariedade da assinatura de Gonzagão é merecida. Mas foi uma surpresa saber que Humberto Teixeira era um intelectual, folclorista, que fazia letra e música ao piano e que foi quem levou a sanfona de Luiz Gozanga dos tangos, fados e fox-trotes, para o mundo do baião. Já incorri em muitos spoilers deste livro delicioso. O melhor é lê-lo, folheá-lo e conferir as imagens vintage-retrô dos cadernos de fotos. Boa leitura e bom divertimento.

Publicado em Ruy Castro | 2 Comentários

Roland Barthes, Costa Lima e as Teorias literárias

João Ubaldo tinha horror a teorias literárias, dizia que em sua casa a discussão era de interesse exclusivo de sua mulher. Achava o assunto enfadonho. Quando era perguntado sobre seu método de trabalho, costumava recorrer à velha blague para lançar por terra qualquer sinal de elaboração e justificativa maior para orientar sua prática de romancista. Afirmava que seus romances eram criados de modo muito simples: primeiro, dava um nome a figura do seu protagonista e, depois, tratava de sair correndo atrás dele.

Os livros teóricos são na verdade tão engenhosos quanto qualquer romance, têm seus encantos particulares e um público de fascinados leitores, entre os quais me incluo. É claro que como em tudo, e até mesmos nos escritos ficcionais, há os seus excessos. Falemos portanto de dois autores que se mantêm na tensão entre a extrema e salutar erudição e o incompreensível exagero academicista.
Em meados do século passado, a moda das grandes teorias que tudo explicam seguia em plena voga e tínhamos pensadores em muitas áreas querendo estabelecer uma nova e inédita perspectiva teórica para dar conta de qualquer coisa. Algumas teorias daquele período ainda se sustentam hoje com o endosso de muitos estudiosos, como a postulação de Stephen Hawking de que o universo se iniciou com um Big Bang.
Muito particularmente, e ainda que seja bem embasada a teoria de Hawking, não acredito que tudo o que exista tenha algum dia se contraído até a dimensão diminuta de uma bola de golfe para em seguida passar pelo processo de uma grande expansão que gerou todo o universo. Sei que está tudo profundamente fundamentado, mas o bom senso, e o senso comum, imagino, não se deixam convencer. A discussão no entanto não é Hawking, mas dois outros teóricos seus contemporâneos que dedicaram seu tempo à análise literária, um campo mais movediço do que às áreas de conhecimento das tão cultuadas e precisas ciências exatas. Refiro-me a Roland Barthes e Luiz Costa Lima.
Hoje, na Casa do Saber, na Lagoa no Rio de janeiro, teremos o depoimento de Ana Maria Machado sobre o professor do Collège de France, de quem a escritora foi aluna. A conversa será mediada por Beatriz Resende, professora do meu doutorado em Ciência da Literatura na UFRJ e, não estivesse em Búzios, iria acompanhar a conversa para ouvir mais sobre Roland Barthes.
Ele merece esse tipo de reverência. Em sua aula inaugural no Collège de France, quando assumiu a cadeira de Semiologia Literária em 1977, Barthes disse algo muito inspirado e com aquela naturalidade dos intelectuais sem pose. Falou que a sua entrada para o Collège de France, orquestrada pelo amigo Michel Foucault, talvez não tivesse amparo no percurso de alguém que só tinha o título universitário, já a alegria por estar naquele centro de excelência, por onde os mais importantes nomes da intelectualidade francesa haviam passado, era para ele motivo do mais justificado júbilo.
Barthes sempre teve uma escrita classuda, que dispensava qualquer título comprobatório, mesmo quando se aventurava por caminhos problemáticos. A questão é que tanto ele quanto Luiz Costa Lima viveram no período em que a (para alguns santa, para outros maldita) praga do pensamento estruturalista dominava as universidades de todo o planeta. Foram assim contaminados pela tentativa de busca de um explicação geral que desse conta de tudo.  São, porém, tentativas inventivas e algumas resistem, em alguns de seus aspectos, bravamente ao tempo.
Peguemos, por exemplo, dois livros de Barthes: o Mitologias e o S/Z. Escritos de forma muito criativa, o primeiro trata das “mitologias” presentes naquele momento da história contemporânea (os anos de 1950/60enquanto o segundo  procede a uma análise da novela “Sarrasine”, de Balzac. Ambos pecam, no entanto. Mitologias menos, explorarando, ainda que em um espectro intersemióitco, o que depois ficaria conhecido como intertextualidade (o que não deixou de ser uma análise inovadora naquele momento); já S/Z se mostra malsucedido em ganhar o leitor por conta do modelo críptico de sua organização interna que pouco ajuda as muito interessantes observações que Barthes faz sobre a inventiva novela balzaquiana.
Com Luiz Costa Lima temos um exemplo correlato. Seus livros são um show de erudição, preparados por alguém que conseguiu ler com gosto ficção, filosofia, sociologia e as mais fundamentais obras humanistas. A tentativa porém de nos convencer de que houve um certo “controle do imaginário” que cerceou a criação literária é que é questionável. Se existe um espaço em que a censura pode até coibir legalmente, mas não consegue se meter e causar inibição, é o da criação artística. O próprio autor, no percurso das perto de 1.500 páginas que dedicou ao assunto, parece em muitos momentos lutando para se convencer de sua própria tese. Não tivéssemos pelo meio do caminho descidas a detalhes de obras ficcionais geniais e pararíamos antes de concluir sua leitura.

Além do estofo com que trabalha seus ensaios/livros, o que aprecio nos estudos de Luiz Costa Lima é que eles sempre se encerravam com o registro do lugar em que foram escritos ou concluídos. E este lugar era muitas vezes a cidade de Armação dos Búzios. Cidade inspiradora para se voltar a estes dois críticos e suas obras mirando, do jardim da pousada que atende pelo nome de Le Relais La Borie, a bela praia de Geribá.

Writer Roland Barthes
Publicado em Roland Barthes | 1 Comentário