A paternidade nunca me inspirou muito e confesso que admiro a abnegação dos que se prontificam a exercer voluntariamente este ofício. Não se trata de aversão à criança. Muito pelo contrário. Sempre me diverti muito com meus sobrinhos e de forma mais intensa ainda quando eles eram bem pequenos. A ter filhos, confesso que, por razões que a só a razão explica, preferiria seguir os passos de Ana Amélia Macedo e Roberto Berliner e optar pela adoção. Já existem crianças em número suficiente no mundo superpopuloso em que vivemos, a grande maioria delas totalmente desassistidas. E vejam a maravilha de família que a Ana Amélia e o Roberto construíram. Falta a mim, no entanto, a coragem que só os pais, sejam eles partidários da adoção ou não, têm.
Essa introdução toda é pra falar de “Mgkai, o Estrangeiro” (Editora Edebê, 2016), livrinho infanto-juvenil que a amiga Sheila Kaplan lançou no sábado passado na livraria Malasartes, no Shopping da Gávea. Desde que vi o título fiquei, como uma criança, intrigado sobre como pronunciar aquele nome: Migkai ou Mikai. Sheila já estabelece no título o estranhamento que quer que todos os seus leitores pequeninos ou já crescidos experimentem. E Mgkai é o estrangeiro que, como já nos demostrou Albert Camus, de forma nada convencional, somos todos não apenas na escola, mas por toda a vida. Estamos sempre buscando a sintonia e a empatia de alguém e achando que esse alguém infelizmente não existe. Imaginamos que todos vão sempre e inevitavelmente entender a nossa perspectiva como estranhíssima e incompreensível. Passamos o diabo tentando acertar o passo com o de nossos semelhantes.
Ao falar do estrangeiro Mgkai, Sheila retrata com a maior classe o ambiente escolar com seus tipos e incidentes recorrentes. Já tive que brigar muito com o Genildo. Como gostava de apanhar. Eu não entendia aquilo e queria paz para estudar. Teve uma hora que tive que ser sincero e direto com minha mãe: “Preciso mudar de escola urgentemente. Aquilo lá é uma bagunça”. A bagunça era o Colégio Brasileiro de Almeida. Nunca fui bad boy, mas andava em más companhias, não sei por quê. Um dia, depois da aula de educação física no Flamengo com o José Roberto Wright, o Marcos Alexandre foi para o alto da arquibancada do clube e, acreditem, jogou uma garrafa de Coca-Cola de lá de cima no meio da rua. O Nadais e eu estávamos com ele e o idiota aqui acabou na coordenação levando pito do professor Terdy. Por nada.
É. Sheila com sua ficção nos faz voltar no tempo. A autora encontra ainda o jeito certo de estabelecer aquele humor que é o que dá graça a uma estória bem contada. Na Malasartes, tivemos a leitura inspirada de uma atriz nata, a Risa Landau, que nos fez mergulhar de cabeça naquela balbúrdia escolar. Aconselhei a dupla a sair pelas livrarias da cidade levando a estória e sua mensagem para novos leitores, que precisam conhecê-la. Sim, senhores, a velha mensagem tão fora de moda estava precisando de alguém que a reabilitasse com alguma dignidade, o que acabou ocorrendo de forma delicada pelas mãos da Sheila. Especialmente em uma sociedade de crianças tratadas como semideuses, paparicadas ao extremo, e que podem tudo sem obrigação alguma em contrapartida.
Como disse Dana Carvey (ele teve dois garotos endiabrados que davam o maior trabalho), os pais de hoje em dia estão desmoralizados. Não têm a mínima autoridade. Em lugar de exigir boas maneiras, se limitam a comentar, como que humilhados, “não foi isso que nós combinamos”. Tomara que “Mgkai” ajude a criar um ambiente mais tolerante entre esta garotada. Quem sabe assim tenhamos pessoas que saibam tratar o desconhecido sem tanto preconceito, intransigência e espírito separatista. Vou recomendar a uma de minhas sobrinhas postiças, a Lilice, que proponha ao pessoal de sua escola de teatro, o Catsapá, uma montagem teatral de “Mgkai”. Torço para que isso aconteça.
Elizabeth e Topche Wester em São Lourenço (circa 1983)
Cada um de nós tem suas datas especiais. Para James Joyce, como todos sabem, era o dia 16 do mês de junho. Data em que conheceu sua mulher Nora Barnacle e dia em que escolheu, em função disso, para que transcorresse toda a ação de seu mais conhecido romance, “Ulysses”. É quando, em reverência a Joyce, se celebra na Irlanda e por todo o mundo o que ficou conhecido como o Bloomsday (o dia de Leopold Bloom, um dos protagonistas do romance). Para mim também é uma ocasião muito significativa porque marca a data de nascimento de minha primeira mulher, Elizabeth Wester, que estaria completando 58 anos de vida este mês. Nasceu na Casa de Saúde São Sebastião no bairro do Catete no Rio de Janeiro, filha de pais de origem polonesa.
O pai, Rachmil Wester, desembarcou no Rio com 20 anos, vindo de Varsóvia, no ano de 1933, como está registrado em seu passaporte de viagem que a família guarda até hoje. A mãe, Topche Tueiv Sperman, nasceu já no Brasil, mas de pais que haviam imigrado também da Polônia. Como além da ascendência polonesa tinham origem judaica, Rachmil e Topche acabaram se casando depois de estreitarem relações ao serem apresentados dentro da comunidade que frequentavam. Tiveram dois filhos, Elizabeth e Alberto, e, como todo imigrante sem muitos recursos, uma vida cercada de dificuldades ainda que menores do que as dos Joyce em Pula e Trieste. Moravam no bloco B de um apartamento pequeno, de quarto e sala apenas, na Tijuca. Rachmil vivia como comerciante de roupas e de trabalhos de alfaiataria.
Como ficaram órfãos do pai bem cedo, os filhos e Topche tiveram que se virar. Beth estudava no Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, próximo de sua casa. Para dar conta de seus estudos no final de sua formação básica, obteve a ajuda daquele que era seu namorado na época, o hoje economista Sérgio Besserman Vianna. Teve uma convivência estreita com os pais e toda a família do Bussunda naquele período e foi graças ao auxílio de Sérgio Besserman, dizia, que passou para a faculdade de medicina da UERJ. Tinha, no entanto, uma missão dentro da Universidade em que ingressara, organizar e divulgar as ações e o pensamento do Partido Comunista Brasileiro a cujas ideias aderira pela proximidade com a família do namorado, toda ela de militantes esquerdistas buscando alternativas políticas durante o período da ditadura militar no Brasil.
Quem já leu Pedro Nava sabe que a aula prática de anatomia em uma faculdade de medicina é o teste de fogo que separa os quem querer ser médicos daqueles que podem de fato ser médicos. Beth foi reprova pela falta de vocação e teve que partir para a faculdade de direito da UFRJ depois de passagem pelo curso de geografia. Foi nesta época que nós nos conhecemos. Namoramos, casamos e tivemos uma vida em comum durante 25 anos até o seu falecimento no ano de 2008, de câncer.
E aqui é importante comentar algo sobre a doença, especialmente para as mulheres. Um pouco depois do falecimento de Linda McCartney, assisti certa noite na TV, o ex-Beatle comentar melancólico: “Se aparecer alguma coisa em um exame que você fizer, por mais diminuta que seja, e seu médico disser que não é nada, não acredite nele”. Alguns meses depois disso fui acompanhar a Beth em um exame em que apareceu a tal coisa diminuta mencionada por McCartney. Fomos juntos, transcorridos alguns dias, à consulta com sua ginecologista que ainda que seja excelente e bem sucedida obstetra, viemos a comprovar, não tinha experiência com ginecologia oncológica.
Quando o assunto é câncer, a questão hereditária é importantíssima como todo mundo sabe. Comentei com a médica que a mãe da Beth havia falecido de câncer de ovário e daí a nossa preocupação. A médica me assegurou que a imagem do exame era um mioma, mioma esse que virou um problema no endométrio e finalmente, três meses depois, chegou-se a conclusão que era um câncer que evoluíra até o estágio III (numa escala de I a IV). Todos ficamos obviamente irados com tamanha inépcia. O mundo veio abaixo, mas Beth era pragmática e passou com a maior bravura por todos os tratamentos, sem nunca reclamar. Além de ter uma personalidade forte, era muito corajosa e enfrentou todo aquele calvário sem em momento algum se fragilizar. Foi muito sofrimento, desde o início de 2003 e até o fim em 2008, por isso compreendo hoje perfeitamente as atitudes radicais de pessoas como Angelina Jolie.
Houve ocasiões em que se julgava que tudo havia serenado. Numa dessas oportunidades, recebemos para um almoço a visita de Sérgio Besserman. Passamos boa parte da tarde conversando. Besserman estava apaixonado e fascinado com o sucesso de seu irmão humorista, aquela figura iconoclasta, fora dos padrões e divertidíssima com suas tiradas sempre espirituosas. Falou também sobre a amizade com os amigos do irmão e integrantes do programa “Casseta e Planeta” com quem jogava carteado toda semana, pessoas com as quais a Beth também havia convivido. Pouco tempo depois, o Bussunda partiria ainda muito novo. Dois anos em seguida a ele, a Beth nos deixaria. Ficaram os muitos anos de alegria na convivência com uma mulher inteligente, vivaz e batalhadora. Foi quem me ensinou o que é construir por conta própria sua trajetória pessoal desafiando todas as adversidades. Sempre na luta, sem nunca perder a ternura.
Pete Shelley, Joy Division, Gary Numan, Bauhaus e Howard Devoto que se cuidem, os Strokes partiram em viagem retrô rumo aos anos 80. O primeiro disco da carreira solo de Julian Casablancas (sem o pessoal do The Voidz) já tinha apontado nesta direção e o trabalho anterior do grupo, “Comedown Machine”, deu seqüência ao namoro que chega agora ao seu melhor exemplar com a música “Drag Queen”, do EP (de extended play single; mais que uma única música, menos que um disco inteiro) que acaba de sair. “Future Present Past” apresenta gravações da banda em seguida ao encerramento do contrato de 5 álbuns com os selos Rough Trade/RCA através do qual o grupo vinha lançado seus discos desde a estreia com “Is This It”. Depois de gravar 3 discos excelentes (“Is This It”, em 2001, “Modern Age”, em 2003, e “First Impressions of Earth”, em 2006) e um bem razoável (“Angles”, em 2011), a banda nova-iorquina patinou feio em “Comedown Machine” (álbum burocrático pra cumprir contrato, pelo visto), em 2013, e parece estar tentando retornar ao seu melhor. São 3 músicas apenas. O tributo aos 80 com “Drag Queen” (assinada por Casablancas com Fabrizio Moretti e o guitarrista Nick Valensi) e mais “Threat of Joy” e “OBLIVIUS” (esta última sai também em versão remix feita pelo baterista brasileiro), composições que servem o Strokes de sempre só que em músicas mais inspiradas do que as faixas de “Comedown Machine”. Estão sendo lançadas pelo selo Cult Records, do vocalista Julian Casablancas.
Ps. O muito divertido “Tyranny” de Casablancas com o Voidz pode ser conhecido na página da Cult Records no youtube.
Gripe, febre e cama são a receita perfeita para passar em revista as 26 aulas de Paul Fry apresentadas durante o correr da primavera de 2009 em seu curso de Teoria Literária na Universidade de Yale, em New Haven. Já conhecia estas palestras de Fry, mas descobri que elas foram legendadas em português pela equipe da Univesp TV, um canal de transmissão em IP que divulga aulas e produz entrevistas com vários professores universitários de estabelecimentos de ensino superior de São Paulo. Depois de recomendá-las a colegas que lecionam em classes de terceiro grau, resolvi revê-las. Ainda que o foco seja a literatura, elas valem por um ciclo básico para qualquer segmento de estudo em ciências humanas, esclarecedoras que são de todos os autores fundamentais (de Sócrates/Platão/Aristóteles a Jamenson/Said/Homi Bhabha, esbarramdo com Kant, Hegel, Marx/Engels, Saussure, Freud, Heidegger, Lacan, Foucault, Barthes e Derrida no meio do caminho) nesta vasta e imbricada área de conhecimento.
Ao acompanhar o tour de force de Paul Fry, dá pra ficar imaginando quantos anos de sua vida uma pessoa tem de dedicar a uma poltrona para passear com a fluência com que o professor de Yale o faz pelas idéias de todos estes pensadores. O curso de Fry aconteceu naquele primeiro semestre de 2009 às terças e quintas-feiras e seguia o modelo de aulas em universidades americanas. São sempre apresentadas como palestras (“lectures”). O professor fala por uma hora e os alunos apenas escutam. É uma estrutura padrão no ensino superior norte-americano, mas alguns dos professores de Yale, como se comprova em outros cursos, abrem pequenas exceções – bem pequenas mesmo. A participação do alunado vai se dar apenas com a entrega dos ensaios que têm de redigir ao fim de cada período/semestre (Fry chega a creditar, brincando, a falta de quorum em uma de suas aulas, à depressão que antecipa o deadline de entrega dos papers por parte dos alunos).
Aos interessados em Saussure a indicação é a oitava aula de Fry, aos entusiastas dos formalistas russos e de Roman Jakobson, a 9a., aos de Freud, a 12a., aos de Lacan, a 13a., aos de Edward Said e Homi Bhabha, a 22a.. Vamos comentar, no entanto, a segunda aula. Aquela em que Paul Fry discute um tema polêmico trabalhado por dois ensaístas brilhantes e complexos. Refiro-me a Roland Barthes e Michel Foucault, o primeiro discutido a partir de seu curto ensaio sobre “A Morte do Autor”, e o segundo comentado a partir de seu texto que problematiza “O que é um Autor?”. Ainda que de perspectivas distintas, os dois pensadores estavam colocando em xeque a figura do escritor de livros literários (foco de Barthes em suas considerações sobre Balzac) e teórico-científicos (assunto principal, mas não exclusivo de Foucault, que fala de Marx e Freud, mas faz menções também a autores ficcionais como Ann Radcliffe), em um momento histórico em que a ideia de autoridade era questionada em amplo senso (estamos próximos do maio de 1968).
As conjecturas de Barthes, mostrando a importância da participação do leitor através de sua intromissão no texto (intromissão essa, que levaria ao apagamento da pessoa do autor), seriam o assunto central do trabalho de Iser Wolfgang (comentado na quarta aula de Fry) em suas considerações sobre o papel sempre muito ativo do fruidor de uma obra. Elas podem ser bem exemplificadas com a entrevista que o pesquisador Bruno Gambarotto concedeu a Ederson Granetto no programa “Literatura Fundamental” da Univesp, em que expõe as conclusões de seus estudos sobre o “Moby Dick”, de Herman Melville (links para a entrevista e a tese de doutorado de Gambarotto, abaixo).
A leitura de Gambarotto é no mínimo peculiar e mesmo quem conhece bem a obra máxima de Melville vai voltar ao “Moby Dick” e revisitá-lo de uma nova perspectiva. Partindo da clássica frase de abertura do romance, “Trate-me por Ishmael”, o pesquisador da USP afirma, por exemplo, acreditar que alguém que pede a um interlocutor para ser chamado por um nome bíblico pode estar querendo dizer ao seu ouvinte (ou leitor) que este Ishmael não é na verdade sua real identidade. Já li várias edições de “Moby Dick” e ouvi a belíssima leitura de Stewart Wills para o Librivox (clique aqui), sem nunca conjecturar tal hipótese. Talvez por isso e diferentemente da tradução da belíssima edição da Cosac & Naify feita por Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza, a velha tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos tenha optado pelo “Chamai-me Ismael” e tenha seguido adotando uma espécie de interlocução impessoal na segunda pessoa do plural, como nas cerimônias litúrgicas. Melville através de Ismael estaria nos convidando como em uma missa a participar de um rito e culto que se espraia em fartas passagens com digressões de ordem filosófica. Outros momentos do livro, como o capítulo 54 e as partes referentes às discussões na área da cetologia, voltariam segundo o pesquisador a marcar esta flutuação da figura do narrador.
Não é a única hipótese inusitada do trabalho de Gambarotto. Ele faz ainda uma leitura sociológica do romance de Melville. Escrito em seguida à guerra pela anexação de território mexicano aos Estados Unidos e antecipando a Guerra de Secessão, o livro marcaria o espírito expansionista norte-americano. A indústria da pesca baleeira, que em breve seria substituída pela indústria do petróleo (com a descoberta de poços do “ouro negro” em território americano), simbolizaria o espírito empreendedor de um país que tentava se firmar no cenário internacional. O vingativo capitão Acab representaria, em sua caça a Moby Dick, a luta pelo controle de uma ordem expansionista desafiada pela baleia branca que se recusa a ser capturada.
Será que Melville estava pensando nisto tudo? Que eu saiba, Acab era apenas um capitão fulo da vida porque Moby Dick havia levado sua perna esquerda. Portanto, certamente não, mas um livro não pertence exclusivamente a seu autor (ainda que tenha sido ele que se deu ao trabalho de sentar para redigir as suas muitas páginas). “Moby Dick” também pertence, diriam Barthes e Foucault, aos seus leitores (e, eu acrescentaria, a seus tradutores) que, com suas muitas leituras, tratam de recriá-lo.
Ps. Fiquei me perguntando: por que ainda não temos um canal de divulgação científica como este da Univesp no Rio de Janeiro e no Brasil? A TV, como já disse Sérgio Augusto, é a maior e mais importante escola do Brasil. Muito interessante também que o banco de tese da USP esteja disponível para download. De novo, as universidades do Rio de Janeiro e do Brasil seguem marcando passo.
Cannes surpreendeu a todos esse ano. Imagino que não seja o único que tinha curiosidade em saber como era a movimentação no balneário francês durante a realização de uma das mais importantes e respeitadas mostras competitivas de cinema do planeta. Sempre acompanhávamos de longe o festival e apenas pelo que líamos nos jornais com as fotos no tapete vermelho, as resenhas dos críticos sobre os lançamentos cinematográficos, as entrevistas coletivas, todo o burburinho causado por diretores, atores, roteiristas, jurados, e a festa da premiação com seus erros e acertos.
Para sua 69a. edição, encerrada domingo passado, os organizadores nos brindaram com registros em tempo real que colocaram o cinéfilo acompanhando toda a festa bem de perto. As gravações seguem disponíveis para os interessados (links acima). Só faltou mesmo vermos os filmes propriamente ditos. Quem sabe não se faz um pay-per-view para isso no futuro?
Pra quem acompanha com gosto as carreiras de Woody Allen e Jim Jarmusch, o festival chegou com a promessa de apresentação dos novos filmes de dois dos mais gabaritados autores/diretores em atividade. Allen fazia a première de seu “Cafe Society”, fora da mostra competitiva como de costume já que o diretor não comunga com a ideia de disputa entre filmes, e Jarmusch a de sua nova obra, “Paterson”, que concorria à Palma de Ouro e, ainda que muito elogiada, não conseguiu levar o prêmio máximo do festival. Jarmusch apresentava ainda um documentário sobre a carreira de Iggy Pop.
Para sua coletiva, Allen apareceu com os atores Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Blake Lively, Steve Carell e na companhia do fotógrafo Vittorio Storaro. “Cafe Society” foi todo filmado com câmeras digitais e Storaro, fotógrafo das melhores imagens gravadas por Betolucci, Coppola e ainda o diretor de fotografia de “Reds” (já tinha até esquecido disso), de Warren Beatty, garantiu que não há mais diferença entre a imagem eletrônica e o registro em celuloide. Allen só vê vantagens, inclusive para uma eventual manipulação das cenas na etapa de pós-produção.
Jarmusch teve coletiva de imprensa para seus dois trabalhos. “Paterson”, que conta a história de um motorista de ônibus que escreve poesias, parece ser mais um dos filmes naive de um diretor que procura retratar aquelas cenas tocantes que, tenta nos convencer, poderiam fazer parte de nosso cotidiano. Jarmusch filma simulando a falta de pressa de quem quer esperar as coisas acontecerem por conta própria. É o que sugerem mais uma vez as cenas disponíveis de seu novo filme.
Já “Gimme Danger” é o tributo de um fã dos Stooges, do MC5 e do Velvet Underground. A estrela da coletiva acabou sendo a própria estrela do filme, Mr. Pop, como foi chamado pelos que se dirigiam a ele, hoje enfrentando a surdez e se tratando com vinho nas refeições, distante portanto das muitas drogas que alimentaram sua criatividade musical no passado (pelo menos é o que diz).
Jarmusch conta que tentou replicar visualmente a anarquia, comicidade e o tom inventivo do trabalho de Iggy Pop e de seus muitos parceiros. Ex-integrante da banda de No Wave The Del-Byzanteens nos anos 80, com carreira musical com os SQÜRL e assinando trilhas de alguns de seus filmes (inclusive a techno ambience de “Paterson”), Jarmusch sempre trabalhou com músicos (John Lurie, Tom Waits e o próprio Iggy Pop em “Coffee and Cigarettes”) e já cuidou de um rockumentário em “Year of the Horse – Neil Young and Crazy Horse Live”. Ainda não temos o trailer de “Gimme Danger”, mas Iggy Pop, que não guarda suas velharias, ajudou a recolher material pouco conhecido entre “fãs, drug dealers, colecionadores de gravações piratas” para termos cenas bem além do que está disponível no youtube. É aguardar pelo resultado.
Kleber Mendonça Filho teve o seu “Aquarius” muito elogiado, embora não tenha levado nenhum prêmio. Estava concorrendo com nomes consagrados como Pedro Almodóvar (“Julieta”), atores-diretores de renome como Sean Penn (“The Last Face”) e o jovem canadense mas já queridinho Xavier Dolan (“It´s Only the End of the World”). Estar na competição, no entanto, é uma vitória e isso não acontecia com um filme brasileiro desde o “Na Estrada”, de Walter Salles, em 2012. O colaborador da Folha de São Paulo em Cannes, Rodrigo Salem, que fazia a cobertura do festival, falou que “Cinema Novo”, filme de Eryk Rocha, que competia na categoria documentário, tinha posto a plateia pra correr da sala Buñuel bem antes do fim de sua projeção. Não se sabe, no entanto, se pela presença de Amir Labaki no corpo de júri de documentários do festival, mas o fato é que o filme do filho de Glauber Rocha acabou levando o prêmio Olho de Ouro. Fiquei interessado em conferir.
Expectativa para a chegada do novo disco do Garbage que se encontra em pré-venda e fica disponível para download a partir de 10 de junho. O clipe de “Empty” indica que eles continuam conseguindo fazer o que anda difícil de se encontrar por aí: rock´n´roll de qualidade. “Strange Little Birds” é o título do álbum de uma banda que estreou veterana em 1995, com dois de seus quatro integrantes (Duke Erikson e Butch Vig) na casa dos 40 anos (são de 1951 e 1955, respectivamente), um outro chegando lá (Steve Marker é de 1959) e uma mascote (Shirley Manson, de 1966). Todos de qualquer jeito naquele momento já com vasta experiência como músicos, compositores (Erikson e Vig no grupo Spooner; Manson, no Angelfish) e Vig como festejado produtor do Nirvana (“Nevermind”), dos Smashing Pumpkins (“Siamise Dream”) e do Sonic Youth (“Dirty”) em discos excepcionais. É o sexto trabalho em 21 anos de estrada. Demoram para lançar novidade, mas não decepcionam. Sai, como o disco anterior (“Not Your Kind of People”, 2012), pelo selo do grupo, Stunvolume, e Shirley Manson comentou que as novas composições lembram o álbum de estreia do Garbage. Tomara.
Aproveitando a brilhante performance de Gabriel Medina durante a etapa brasileira do mundial da Associação dos Surfistas Profissionais encerrada na última quinta-feira na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, oportunidade em que conseguiu um inédito mortal, segue resenha de um livro que adquiri sem muita convicção, mas que valeu a compra. Maior estrela do surfe no Brasil, Medina, aos 23 anos, acabou ganhando uma precoce biografia. Tudo se justifica no entanto porque sua trajetória pessoal e história familiar, de fato, colecionam assunto suficiente para rechear um livro. Coube ao jornalista Tulio Brandão, ex-repórter do Jornal do Brasil, de O Globo e ex-colunista da revista Fluir, vasculhar a possível lenda por trás do mito e se dar ao trabalho de contá-la no seu “Gabriel Medina – a Trajetória do Primeiro Campeão Mundial do Brasil” (Primeira Pessoa, 2015).
Na orelha do volume, o convite à leitura é feita por um outro brasileiro que também já colocou o seu nome no panteão do esporte nacional ao chegar a número 1 do mundo dando suas raquetadas, Gustavo Kuerten. Surfista nas horas vagas, Kuerten festeja o novo ídolo e deixa o caminho livre para a apresentação feita com muito humor por Kelly Slater. Escrita em junho de 2015, último ano de Slater no circuito mundial, a introdução registra as muitas surpresas que o maior surfista de todos os tempos testemunhou ao acompanhar o percurso de Gabriel Medina desde que ele começou a aparecer em 2009, aos 15 anos de idade. A chegada de Medina à elite do surfe em 2011, aos 17 anos e com o recorde de acabar sendo o mais jovem surfista a estrear no circuito mundial, deixou Slater preocupado com a possibilidade de que o brasileiro pudesse roubar-lhe a marca de mais jovem surfista a se sagrar campeão na World Surf League. Com seu título de 2014 aos 20 anos, Medina acabou no entanto apenas igualando a marca do americano.
Com Brandão vamos saber do passado da família do atleta. Os avós maternos de Gabriel, dois jovens filhos de pais esquerdistas, vieram a se aproximar durante o período em que estavam fazendo seus estudos na antiga União Soviética. Aurora Medina, de quem Gabriel herdou o sobrenome que ficaria famoso e os traços de índio sul-americano da costa do pacífico, era filha de militantes da Frente Popular Chilena que apoiavam o Governo de Salvador Allende nos anos de 1970. O avô materno, Jaime Pinto, por sua vez, era filho de pais ligados ao Partido Comunista Brasileiro. Com a morte do pai em uma manifestação de um 1o. de maio no sul, Jaime, ainda garoto, acabou sendo criado por um padrasto que era amigo de Luiz Carlos Prestes, Pagu, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. Era natural portanto que os avós de Medina pudessem se cruzar, o que acabou acontecendo quando os dois viajaram para fazer seus estudos em território soviético. O casal teve três filhos e decidiu chamar uma das filhas, a mãe de Gabriel, de Simone, em homenagem a líder feminista Simone de Beauvoir.
Com a jovem Simone, vamos a Maresias, onde a mãe de Medina viveria e conheceria o seu primeiro marido, o jogador de futebol Claudio Ferreira. Com ele teria dois filhos: Gabriel e Felipe, hoje jogador de futebol, como o pai, pelo Independente de Limeira, time do interior de São Paulo. Passamos depois pelo divórcio e o casamento com o padrasto do surfista, Charles Saldanha, aquele que seria responsável por descobrir o talento de Gabriel para as ondas. Caberia a Charles preparar o surfista em todo o seu caminho para chegar ao topo da elite do surfe mundial. Fica-se sabendo de todas as batalhas e agruras passadas pelos dois na luta para transformar Gabriel Medina de uma promessa do surfe amador, em um dos melhores surfista do mundo. Um pequeno tropeço na biografia de Brandão é o de tratar o tempo todo o verdadeiro pai de Medina como “pai biológico”, um recurso desnecessário para realçar a importância de Charles para a carreira do atleta.
O restante do livro apresenta os bastidores das temporadas em que Gabriel brilhou desde 2012 até chegar a consagração com o título mundial em dezembro de 2014 em Pipeline. Tudo se encerra com Medina abrindo caminho para os jovens surfistas que integrariam a Brazilian Storm, que se confirmou o ano passado com o título de Adriano de Souza e que segue agora com Ítalo Ferreira, Filipe Toledo e Miguel Pupo, todos se destacando no mundial deste ano. A Brazilian Storm por sinal teve ótimo desempenho na etapa brasileira que se encerrou na quinta-feira. Uma pena que Gabriel tenha parado na semi-final. Medina merecia disputar a final com o craque havaiano John John Florence. Foram disparado os dois melhores surfistas da competição, que este ano, infelizmente não teve nem Slater, nem Mick Fanning. De todos que enfrentam um mar adverso em dias chuvosos, Florence e Medina conseguiram a proeza de entrar e sair de tubos que nenhum dos outros surfistas conseguiram enxergar. Gabriel abusou ainda das manobras voadoras com várias notas 10 e encontrou o momento certo para conseguir o inédito mortal de costas que vinha treinando há tempos, foi a primeira vez que isto aconteceu em uma competição oficial de surfe.
O rito de impediamento de Dilma Lana Rousseff acabou servindo para voltarmos os olhos e observarmos mais detidamente o que está acontecendo em Brasília. Acompanhar o desempenho em suas funções de nossos deputados e senadores é algo para deixar qualquer um assustado. Quanto disparate, quanto desleixo, quanta falta de seriedade no trato dos interesses do país. Parece escárnio com a população saber que representantes tão desqualificados gozem de mordomias e de regalias nunca vistas entre a classe política em nenhum outro canto do planeta, num assalto institucionalizado ao erário. Tudo isso sem uma contrapartida mínima.
A verdade é que a cada nova eleição comparecemos para votar e depois esquecemos por completo o grave cenário que envolve a atuação política daqueles que elegemos. Além da falta de preparo e dos descalabros criados por casas que legislam em causa própria, nos damos conta de coisas alarmantes. É vergonho, por exemplo, encontrarmos na câmara dos deputados o senhor Paulo Salim Maluf, integrante da bancada do Partido Progressista (um partido que bate o PT no quesito corrupção com 32 dos seus 46 deputados federais pendurados por processos) e no senado, Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello (envolvidos em esquemas de corrupção no passado e agora na Lava-Jato). Imagino que isso queira dizer que daqui a uns 10, 15 anos, corremos o risco de assistir ao senhor Eduardo Cunha como senador, depois de legalizar o dinheiro arrecadado com propina e corrupção.
Em meio a muita decepção, impressionou muito especialmente por seu trabalho a pessoa de Lindbergh Farias, senador pelo Rio de Janeiro, opção de voto nas eleições do pleito de 2010. A despeito de suas posições políticas, em relação às quais podemos ter divergências e restrições, sua seriedade nas discussões o diferenciaram da maioria dos despreparados e negligentes senadores incluídos na comissão que debatia a aceitação do processo de impedimento.
Parece que apenas a equipe formada pelos advogados de acusação e por pessoas sérias como o procurador do ministério público junto ao Tribunal de Contas da União Júlio Marcelo de Oliveira, particularmente, tinham um conhecimento tão consequente de todo o processo como Lindbergh. Seus questionamentos foram extremamente pertinentes e mostraram mesmo a inépcia e falta de procedência de uma ação que é no final das contas uma peça claramente política com o objetivo de desestabilizar um governo fragilizado por seus descaminhos administrativos. O próprio Fernando Henrique Cardoso, uma das mais dedicadas e fortes vozes pela causa do impeachment, endossou em entrevista no programa de Jô Soares na terça-feira esta obviedade (clique aqui).
Durante a sessão plenária do senado, que deu sequência ao pedido de investigação sobre a administração de Dilma Rousseff, Lindbergh fez também um dos discursos mais bem preparados. Procedeu a um histórico mostrando como tem atuado a nossa classe política sempre afeita a jogadas oportunistas e traçou o quadro da economia contemporânea em que se insere a aposta do governo Dilma. Podemos discordar da posição de Lindbergh, mas não será possível desqualificá-la. Ao apresentá-la, Lindbergh exibiu ainda a articulação e o entusiasmo dos líderes. Ainda que bem redigido e com argumentos bem mais convincentes, o discurso de Cristovam Buarque, por exemplo, não teve a mesma vivacidade e vigor.
Lindbergh avaliou retrospectivamente os equívocos do Partido dos Trabalhadores e ponderou que o PT, no correr da primeira administração de Lula, acabou errando ao não votar coisas importantes como a essencial reforma política e a restrição ao financiamento de campanhas por empresas, duas medidas urgentíssimas como constatamos agora. Teriam de fato sido duas atitudes que evitariam a crise a que chegamos e talvez melhorassem a composição de nosso congresso. Daqui pra frente, esperamos que Lindbergh entre no grupo de desembarque do PT que deixará o partido em outubro deste ano. O congresso precisa de pessoas preparadas. Posições tomadas de forma menos parcimoniosa também ajudariam a termos um político mais consequente. Precisamos disso.
Filho de pai médico e mãe professora universitária, Lindbergh é casado há mais de duas décadas com a advogada Maria Antônia Goulart e tem três filhos, um rapaz e duas meninas, a do meio portadora de síndrome de down. Em função disso esteve envolvido na elaboração de leis para um Estatuto da Pessoa com Deficiência. Contra o articulado senador, que nunca concluiu o curso universitário, embora tenha cursado medicina na Universidade Federal da Paraíba e posteriormente direito, temos uma coleção de processos por sua administração nas duas oportunidades em que foi prefeito de Nova Iguaçu. Alguns talvez até procedam, mas posso imaginar as dificuldades de comandar a máquina administrativa de uma prefeitura. Fui síndico do condomínio em que moro durante um ano, sem remuneração alguma, e em alguns momentos tomava decisões para resolver problemas pontuais contratando serviços que poderiam ser questionados caso houvesse alguém interessado em desacreditar meu trabalho.
Os processos em Nova Iguaçu parecem entrar na lista deste tipo de expediente. Muitas destas ações foram julgadas improcedentes pelo STF, o que mostra que a Suprema Corte talvez seja mesmo uma mãe para os políticos. A única acusação séria pendente contra o senador e ex-cara-pintada é quanto ao seu envolvimento na Lava-Jato. Lindbergh teria pedido a Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobras, ajuda para sua campanha política. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, por ocasião da denúncia que não tem relação com pagamento de propina, Lindbergh confirmou os encontros com o diretor da estatal, mas justificou que recorreu a ele por indicação, como pessoa capaz de auxiliá-lo em sua candidatura. Se tudo ocorreu dentro da lei, o futuro dirá.
Sempre foi tortuosa a história das ciclovias cariocas, iniciativa fundamental para humanizar esta nossa pra lá de desumanizada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Teve de enfrentar até mesmo a ira de quem gostava de se exercitar ao ar-livre correndo à beira-mar de manhã bem cedo e que, detalhe importante, não possuía nem automóvel, caso do chargista/escritor/poeta/tradutor Millôr Fernandes. Quando do início da construção da ciclovia, na década de 1990, nas orlas de Copacabana e de Ipanema, principalmente, onde morava o cartunista, Millôr fez campanha insistente na coluna que tinha no Jornal do Brasil condenando a criação da pista para ciclistas.
A briga solitária de Millôr se amparava em um dado condenável, a corrupção que cerca a realização de obras públicas (em época em que isso ocorria de forma bem mais obscura), mas havia ao mesmo tempo a expressão de uma das diatribes inexplicáveis do escritor. O argumento de Millôr era que a ciclovia iria justificar a derrubada dos muitos coqueiros para a colocação de um monstrengo na orla. O craque dos desenhos tinha rixa com os prédios brega-grandiosos que os novos ricos ipanemenses andavam edificando depois de porem abaixo construções antigas e enxergava na ciclovia a extensão deste gosto duvidoso dos abonados da Zona Sul.
A pista construída no começo dos anos 1990 ficou pronta e nunca se viu uma decisão tão acertada. O tamanho do fluxo de bicicletas, triciclos, skates, comprovou como era fundamental e indispensável a sua criação. Nunca compreendi, no entanto, por que a ciclovia foi feita próxima à pista de rolamento de carros, expondo excessivamente os ciclistas em caso de uma queda. Ela poderia perfeitamente ficar na parte interna do calçadão, junto à faixa de areia, o que reduziria enormemente os riscos para os usuários. Mas vá tentar entender como são tomadas essas decisões?
Com a nova ciclovia Tim Maia, recentemente inaugurada, a mesma coisa. Passo por ali sempre. Até a segunda entrada do Vidigal (sentido Leblon-São Conrado) a pista continua em perfeito estado e sendo utilizada mesmo depois do acidente. Neste grande trecho, que está liberado para circulação, a Prefeitura não fez nada além de ampliar e reformar o passadiço, deixando como deveriam ser nossas calçadas em toda a cidade. A novidade é que ela é obrigatoriamente compartilhada entre pedestres e ciclistas, com uso preferencial para os primeiros. Os pilares só aparecem na descida. Era um trabalho pequeno portanto, embora a obra de engenharia pareça complexa. Nunca entendi aqui também por que a pista não foi construída junto à encosta e em cima de uma tubulação com garfos de apoio que ajudariam a dar sustentação. A ciclovia ficaria ainda colada à pista e teria sempre área de escape.
De qualquer jeito acho que devemos refazer o trecho logo. Esta ciclovia é muito importante para o vai e vem dos moradores do Vidigal e da Rocinha. Muito mais fundamental do que como espaço de lazer de fim de semana. Quando for inaugurada até a Barra vai oferecer uma vista e tanto para quem quiser percorrer as mais deslumbrantes praias que o Rio tem a oferecer. Ampliará uma malha que já nos leva, pelo Aterro, ao centro da cidade, uma área a ser inaugurada também com obras de revitalização, exibindo outras paisagens arrebatadoras. É mais uma conquista na briga maior pra conseguir que as bicicletas tenham algum espaço frente aos direitos irrestritos dos automóveis. Estes sim, sempre ocuparam tudo sem constrangimento algum. Ainda surgem parados em cima das calçadas, fechando as entradas de garagem, usando a ciclovia para desembarque, como se seus donos tivessem privilégios ilimitados.
Para os apaixonados pelas magrelas há um relato muito interessante do ciclista convicto David Byrne sobre como é a experiência de se passear de bicicleta ao redor do mundo. Para qualquer lugar que viaje durante suas temporadas de shows, o ex-líder dos Talking Heads carrega sua bicicleta para conhecer a cidade como um local. Fez isso aqui no Rio, em Buenos Aires, em Istambul, São Francisco, Londres. No livro, Byrne discute políticas públicas que favorecem transportes alternativos e faz a crônica de suas experiências como ciclista. Além de compositor, Byrne é um escritor de enorme talento, desses que conseguem apresentar uma visão singular sobre o que comentam, capaz de transformar qualquer assunto em algo fascinante para o leitor. Fez isso a partir de sua vivência como músico em “Como a Música Funciona” (Amarilys, 2014) e como ciclista em “Diários de Bicicleta” (Manole, 2011).
Algumas linhas sobre o pequeno grande Prince, falecido na manhã de 21 de abril. Era um instrumentista virtuose a serviço de um compositor extraordinário, em uma dessas combinações raras. Criou sua chuva púrpura a partir da neblina Hendrixiana, guitarrista ao qual não ousava se comparar em respeito ao talento inigualável do músico de Seattle e também por, sem modéstia alguma, ambicionar deixar sua marca particular na música negra norte-americana. O que fez sem nenhuma dificuldade. Mas Prince, além de exímio guitarrista, era também um pianista admirável e quando um músico se distingue de maneira evidente nestes dois instrumentos, costuma se sair bem em todos, o que fez com que ele pudesse gravar seu disco de estreia, “For You” (1978), de forma solitária.
Sua música foi a trilha sonora perfeita para momentos-chave da existência de muita gente, especialmente para os que acompanharam passo a passo sua carreira. Com “1999” e “Little Red Corvette”, ao lado de Tom Leão e Hermano Vianna, foi possível ver as primeiras imagens do músico e da tal da Music Television de que tanto ouvíamos falar. Tudo gravado no apartamento de Paulo Francis em Nova York, para desgosto do polemista. Sonia Nolasco, mulher de Francis, tinha uma sobrinha amiga de todos e, em uma passagem pela cidade, Hermano foi visitá-los e registrou a novidade. As imagens espalhafatosas de Prince seguiriam ampliando seus excessos em “Purple Rain”. Primeiro através dos clips do disco e, depois, com o filme que era visto em sessões ininterruptas.
O álbum favorito viria logo em seguida, o psicodélico “Around the World in a Day” (1985). Foi objeto de entrega apaixonada de um outro amigo, ou melhor, ex-amigo, Luiz Carlos Mansur, que vive hoje recluso e taciturno em Portugal, avesso a qualquer sinal de contato com o passado. Mansur chegou ao requinte de adentrar certa vez a redação com uma luva em apenas uma das mãos num exagero entre Michael Jackson e Prince. Cigarrinho no canto da boca, se colocou em frente à máquina de escrever para preparar uma das muitas odes que faria à sua Majestade Púrpura.
Apesar da admiração pela qualidade das composições e pelo virtuosismo do cantor, tinha dificuldade com o excesso de afetação do músico, traço que alguns atribuíam à expressão de uma timidez sem medida. Havia ainda aquela breguice e exagero incalculável no vestir que não ajudaram a que a admiração fosse completa. Musicalmente era um assombro, um desses músicos que arrebatam nos shows ao vivo, como no que fez no Rock in Rio no Maracanã em 1991. “Alphabet Street”, “When Doves Cry”, “Let´s Go Crazy”, “Raspberry Beret”, “Kiss”, “Cream”, “Sign of the Times” e mesmo a melosa “Diamonds and Pearls” estão entre as músicas favoritas.
O jornalista Luiz Henrique Romanholli teve o privilégio de assistir a um show intimista do músico no também bregoso Paisley Park, estúdio que Prince construiu em sua casa em Minneapolis, lugar em que escolheu para passar toda a vida e onde foi encontrado morto na última quinta-feira. Segue a postagem feita por Romanholli para o Livro-de-Caras contando a visita e o encontro. Reprodução feita com permissão desta rara Testemunha Intimista de Prince.
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.