Hora de Cair na Folia

Com Pedro Miranda e o Poeta Chacal

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Mudança de Ares

Nada como ter uma raia para chamar de sua

Minhas amigas de Santa Teresa, do Cosme Velho, de Laranjeiras, do Flamengo, do Leme, em contraste com meus amigos que estavam pouco se incomodando com o assunto, ficaram indignadas e assustadíssimas. Uma psicóloga em especial, que mora numa cobertura em um prédio antigo em estilo art-déco em Ipanema, achou que era o caso de chamar a ambulância e me despachar direto em camisa de força para ser tratado na praia da Saudade. Não havia, no entanto, motivo para tanto alarde. O movimento já vinha sendo planejado há alguns anos. Em minhas andanças pelo Rio de Janeiro para cumprir meu ritual diário de aulas estive em muitos bairros e mesmo em municípios próximos ao Rio. Fazia um tour que me levava de Copacabana, a São Conrado, ao Rio Comprido, ao Recreio dos Bandeirantes e que passava ainda por Madureira, se estendendo a Petrópolis e Niterói.

A maior parte de minhas aulas eram porém ministradas na Barra da Tijuca. Comecei lecionando em um espaço na academia Akxe, próximo ao condomínio Parque das Rosas (aqui as pessoas se localizam pela proximidade de um shopping ou condomínio) para depois me fixar no campus Tom Jobim no Centro Empresarial BarraShopping. Cheguei em 2000 quando estavam inaugurando o campus e fiquei até 2008. O campus era um dos primeiros prédios construídos no Centro Empresarial e para irmos de lá até o Barrashopping tínhamos que cruzar as duas pistas da Avenida Luís Carlos Prestes. A busca por oferecer comodidade logo levaria a construção de uma passarela muito bem planejada que facilitaria a vida de quem tinha de sair do Centro Empresarial em busca de um lugar para resolver coisas do dia a dia.

Gosto da praticidade e conveniência de ambientes modernos, organizados, como os que temos na Barra da Tijuca. Visto a carapuça que David Byrne descreve sarcasticamente em “Don´t Worry about the Government”, faixa que fazia parte da minha playlist quando tinha de enfrentar o trânsito correndo a cidade de um lado para o outro. E foi assim, para decepção de minhas amigas que habitam e defendem com ardor os bairros que integram as Repúblicas Socialistas das Laranjeiras, do Cosme Velho e Adjacências, que me mudei há dois anos para um condomínio por aqui.

Acho mesmo curioso que pessoas que se dizem deslumbradas por aquilo que encantou Walter Benjamin em Paris no começo do século passado, tenham horror a modernidade dos shopping centers. Em seu livro “Walter Benjamin, o Marxismo da Melancolia” (Editora Campus, 1988), escrito nos anos 1980, Leandro Konder nos conta: “Na segunda metada dos anos vinte, Benjamin começou a dedicar uma atenção especial às “passagens” parisienses, galerias de estrutura metálica, cobertas por tetos de vidro (…). Elas reuniam muitas lojas e as pessoas passeavam por elas, olhando, fascinadas, as mercadorias expostas nas vitrinas, num clima de sonho, realçado pela iluminação a gás.” Com o que Benjamin se encantou, se não com os precursores dos shopping centers? Não faço ideia da extensão da briga que esses escritos do mais brilhante aluno da Escola de Frankfurt causaram entre Adorno, Horkeheim e seus pares. Posso imaginar que Benjamin tenha abordado o assunto em seus aspectos positivos e negativos, como era característico de um pensador capaz de colocar em uma perpectiva complexa temas aparentemente banais (o próprio Konder nos sinaliza isso em seus comentários sobre o livro “Passagens”).

Don´t worry about me, David

De qualquer forma, foi sob a suspeição de minhas amigas, que me aventurei e adquiri de início um apartamento de dois quartos na Barra, como pouso de fim de semana, para ver se me agradava. Gostei tanto que depois vendi meu apartamento em Copacabana e passei definitivamente para um de três quartos, do qual não me arrependo. A tal da “qualidade de vida” transformou minha rotina. Aqui tenho duas piscina, uma no meu condomínio e outra na Associação Bosque Marapendi, lugar onde, além de raias para nadar, temos quadras de tênis e uma casinha para os adeptos de um pilates. O bosque aí não é mera sugestão, temos um grande espaço arborizado onde podemos caminhar na sombra e um canal com uma agradável vegetação de Mata Atlântica. Ao cruzá-lo de barco, chegamos a uma praia muito frequentada como toda a orla carioca, mas com aglomeração bem menor que as da Zona Sul.

Depois de ter morado na Tijuca (por três vezes), em Copacabana (por duas), no Leme e em Botafogo, esse será certamente meu último endereço. Foram 20 anos de rua Toneleiros e a partir de agora pretendo ficar pra sempre por aqui na rua Jornalista Henrique Cordeiro. Identificado com a direita, o bairro é recordista em celebrar comunistas. Além da Avenida Luís Carlos Prestes, temos a Avenida Salvador Allende e a rua onde moro homenageia um jornalista paraense, militante do PCdoB, e que foi integrante da diretoria da ABI. Costumo dizer que daqui só saio para me juntar a Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Lima Barreto, no doce solo do São João Baptista. Mas a verdade é que meu destino é bem outro. Irei para um dos jazigos das minhas famílias partena ou materna no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, onde meus familiares me aguardam e onde terei a companhia de Clarice Lispector.

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De Volta às Piscinas

Depois de enfrentar uma bursite, que me deixou algumas semanas de molho, estou retornando aos treinos aproveitando o finalzinho de um recesso. Com o Rio de Janeiro esquentando, após um começo de verão atípico com baixas temperaturas, a escapada para a serra petropolitana era inevitável. E por aqui, a opção mais em conta para quem procura uma piscina para nadar é a filial do Sesi da Barão do Rio Branco.

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Lembrando Tom Verlaine

Mestre na criação de melodias sombrias e belíssimas às quais embalava, acompanhado pelo Television e seus intermináveis improvisos, sua poesia caótica, Thomas Joseph Miller foi-se no sábado na ilha de Manhatã. Sua partida, nos conta o New York Times, foi anunciada por sua ex-mulher Jesse Paris Smith, filha de Patti Smith, acrescida da informação de que o líder do Television foi acometido de “uma breve doença”. Verlaine passou por aqui em 2005 em show memorável apresentado em uma tenda do Tim Festival instalada no Aterro do Flamengo. Foi um ano em que tivemos, além de Tom Verlaine e sua TV band, Elvis Costello e Strokes. Deixou enorme saudade.

Verlaine no Jools Holland

Faixa de seu disco solo que rodou pra valer na MTV brasileira

Television em show no Tim Festival

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Eterno Retorno

Imagino que viva num eterno retorno nietzschiano que me leva sempre de volta a determinados autores. Refiro-me a algumas leituras do segundo semestre do ano passado que incluíram as cartas de Ana Cristina César endereçadas a Luiz Augusto Ramalho, estão no volume “Amor mais que Maiúsculo” (Cia das Letras, 2022), o Geraldinho Carneiro de “Folias de Aprendiz” (do selo História Real da Intrínseca, 2022) e o tijolaço de Thomas Piketty “Capital e Ideologia” (Intrínseca, 2019), cujas 48 horas de narração (em leitura de Richard Adamson para o catálogo da Audible) rodaram no media player do carro em viagens para a praia do Sapê em Ubatuba (Pousada do Grego, lindo lugar, mas não recomendo a pousada), Itaipava (Quinta da Paz e Altenhaus) e para Geribá em Búzios (Corais e Conchas e Maravista).

Ana C. é uma obsessão antiga. A garotada que está descobrindo a escritora por agora a tem classificado como uma autora difícil. Especialmente a partir do momento em que “A Teus Pés” virou assunto de vestibular. Depois de passar por exame acadêmico minucioso por parte dos entendidos, os livros da escritora entraram também para a lista das obras prediletas de booktubers que não perderam tempo em resenhá-las. Mas, será que de fato no campo da ficção e da poesia especificamente pode existir um autor cuja leitura seja “difícil” e exija dedicação em busca de uma compreensão precisa e transcendente de seu real sentido? Em áreas de conhecimento como a filosofia, por exemplo, isso é justificável. Em um Hegel, um Heidegger, um Foucault, um Derrida, nos confrontamos com passagens áridas e que pedem estudo para seu pleno entendimento. Mas, no espectro da ficção de maneira geral, isso simplesmente não existe. Talvez o que ocorra no caso da poesia de Ana C., o que é verdadeiro para qualquer obra de ficção, é que é necessário que haja uma identificação de alguma ordem com o que se lê.

O que está acontecendo com Ana C. guarda relação com algo já muito discutido e que foi assunto do ensaio “Contra a Interpretação”, de Susan Sontag, texto que dá título a um livro homônimo. Trata-se de um dos muitos insights ensaísticos da autora americana escrito no começo dos anos 60, época em que a crítica iniciante de assuntos tão variados quanto literatura, fotografia, cinema, teatro, artes plásticas, marcava com classe insuperável presença em publicações badaladas como Partisan Review, The New York Review of Books, Book Week e Evergreen Review, ou em revistas mais rasteiras como Moviegoer e Mademoiselle, entre outras – aparecem coligidos em “Susan Sontag, Essays of the 1960´s & 70´s”; The Library of America, 2013.

Em “Contra a Interpretação”, Sontag, em mais uma de suas incursões de assombroso refinamento, faz uma extensa apreciação sobre como se deu a busca por se interpretar obras de artes ao longo da história. Do período da Grécia Antiga, a autora destaca de início a semelhança da percepção da arte como mimesis (imitação), presente tanto em Platão quanto em Aristóteles. Depois, no entanto, a ensaísta lembra que, ao contrário da perspectiva negativa do autor de “O Mito da Caverna” (aquele que colocou o poeta para correr de sua república), a visão da “Arte Poética” aristotélica reconhece um caráter pedagógico e positivo na purgação catártica que ocorre durante fruição artística (Aristóteles falava do teatro mais especificamente). Da antiguidade grega, Sontag cruza um longo percurso e chega às avaliações que marcaram o século XX, nas abordagens de matiz freudiano a partir de teorias psicanalíticas. Aponta os excessos e mesmo falácias dos pontos de vista analíticos que se arvoram a buscar desvendar o que estaria por trás de cada obra. Propõe ao leitor ao final, e como alternativa, que, em lugar de procurar uma hermenêutica da obra de arte, este se lance a uma, na sua opinião mais proveitosa, análise erotizada do artefato artístico.

De qualquer forma, aos que estiverem atrás de justificativas e quiserem encontrar sinais esclarecedores sobre a escrita poética de Ana C., apoiados em pareceres de representantes do meio acadêmico, recomendo o ensaio “Até Segunda Ordem, Não me Apaguem Nada”, de (Maria) Flora Süssekind (escrito em1989 e publicado em 1995 pela 7Letras). Flora escreveu este ensaio quando pouca coisa do acervo de muitos inéditos da escritora, hoje preservados sob a guarda do Instituto Moreira Salles, estava disponível. Contou com a ajuda da dedicada mãe de Ana, Maria Luiza Cruz, que guardou durante anos tudo o que a escritora deixou. Consultou a famosa pasta rosa (que reunia os “rejeitados, inacabados e antigos”), os cadernos pessoais da poetisa (“Challenge”, “Oxford Project Book” e do gênero “Papelaria União”), bem como os registros da viagem da autora a Portsmouth e Colchester, durante o período, no final dos anos 1970, em que voltou pela segunda vez à Inglaterra – mais de uma década depois da época das cartas de “Amor mais que Maiúsculo”.

Süssekind faz basicamente duas observações sobre a escrita da poetisa. A primeira delas, um tipo de abordagem que se tornaria corrente e mesmo repetitiva na crítica literária a partir dos anos 1980, é aquela que identifica a intertextualidade como marca da poesia de Ana C. Intertextualidade esta que se daria tanto com a poesia de seus companheiros da geração mimeógrafo como com autores de sua preferência (Manuel Bandeira, Elizabeth Bishop e Carlos Drummond de Andrade), bem como com escritores por ela traduzidos (Emile Dickson, Gertrude Stein, Katherine Mansfield e T. S. Eliot, entre outros).

A segunda observação em forma de questionamento, era se deveríamos tomar sua prosa-poética como uma rasgada confissão autobiográfica ou, na opinião divergente de Flora, como uma voz alterada e não propriamente como um auto-retrato. Süssekind questiona a visão do auto-retrato e chega mesmo a criticar a sedução voyeurística com que os leitores costumam se aproximar da poesia de Ana C a partir de uma identificação com a autora. Bom, sinto informar, mas faço parte deste grupo. E isso talvez aconteça, porque sou adepto e defensor intransigente dos escritos confessionais, do contrário não teria dedicado alguns anos de minha vida a estudar a obra de Nelson Rodrigues.

Minha perspectiva de leitor de tudo o que Ana C. escreveu em seus curtos 31 anos de vida, passa pelo fato de ter morado no mesmo edifício em que ela viveu boa parte de sua curta existência, da leitura da biografia que o amigo da poetisa Ítalo Moriconi escreveu (“Ana Cristina César – Perfis do Rio”, Relume Dumará – Rio Arte; 1996) e de todo o material que o IMS tem editado. É por aí que vai a minha compreensão e vivência de sua poesia fragmentária assim como a sedução irresistível por toda a obra que ela nos deixou.

E isso se refere a tudo, desde o talento da poetisa que, quando ainda não era alfabetizada, ditava seus versos para que a mãe anotasse (transbordaria para as publicações da jornalista mirim no seu jornal caseiro “O Mundo”) e para a redatora de uma autobiografia precoce, publicada por sua editora também caseira, a Problemas Universais. Essa fascinação pela escrita, e particularmente pela escrita autobiográfica, é para mim reforçado na fruição de sua vasta correspondência epistolar. A qualidade de seus textos é, para muitos pelo visto, tanta, que se justifica até a publicação do que ela registrou compulsivamente quando ainda se encontrava na casa do seus 17, 18 anos de idade como no volume das cartas inéditas de “Amor mais que Maiúsculo”. O livro foi lançado em junho do ano passado para lembrar os 70 anos de nascimento da escritora com merecida pompa em evento no Instituto Moreiras Salles.

Podemos conjecturar quais as reações de Ana Cristina a essas observações sobre sua escrita. Como acredito que “todo imparcial é um vigarista”, imagino que a poetisa me apoiaria e muito provavelmente reagiria como Susan Sontag. Pediria desta forma a seus leitores que fruíssem sua obra menos com o intelecto e mais com sua sensibilidade pessoal. A aproximação da verve da poetisa com a escritora americana foi por sinal percebida por Miss Purdy, sua professora de história do programa de intercâmbio da igreja evangélica, no International Christian Youth Exchange, quando Ana C. esteve na Inglaterra no final do anos 1960, justo o período destas cartas agora coligidas e organizadas em um trabalho meticuloso por Rachel Valença com uma grande equipe do IMS e da editora Companhia das Letras.

Miss Purdy já reconhecia ares de rebeldia na moçoila e passou a tomá-la como uma “S.S. em miniatura ou em potencial”, nas palavras de Ana C.. Fato que fez com que a professora se desse ao trabalho de passar à aluna uma entrevista e um artigo crítico à ensaísta americana, ambos publicados pela imprensa inglesa. Por coincidência, ao final do curso, em uma viagem pelo Mediterrâneo em que esteve com parentes, Ana C. viria a esbarrar com o ensaio de “Contra a Interpretação”. Conta ela, em um trecho de “Amor mais que Maiúsculo”: “Cheguei de surpresa na casa da prima na praia, visitamos o litoral sul todo, Capri, Sorrento (roubei um livro interessantíssimo lá: AGAINST INTERPRETATION”, da crítica americana Susan Sontag)…”. O título em caixa alta, quando ainda não existiam os analfabetos funcionais de Internet, é recurso expressivo da autora. Alguns talvez reclamem dos excessos de uma alma apaixonada (as cartas, afinal, tinham caráter privado), mas mesmo aí a forma elaborada e surpreendentemente inovadora com que tudo é expresso ganhará o leitor.

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Ano Novo com Muita Festa em Zabrilha

Um número grande de meus amigos petistas rumaram em excursões para o Planalto Central para celebrar o novo governo que vem por aí. Os que vivem por lá já se preparam para o grande festão que acontece amanhã. Que venha o ano de 2023 com novos ares

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Despedidas de Dezembro

Não sei se o leitor tem a mesma percepção que este que vos digita, mas, no meu imaginário lúgubre, ainda que agosto leve a fama de mês do desgosto (muito provavelmente por conta da rima fácil), cabe ao mês de dezembro a reputação desonrosa de período agourento por excelência. Na minha fantasia mórbida, ele vem sempre acompanhado por notícias terríveis, medonhas, atrozes. Talvez isso se deva ao fato de ser um mês em que estamos mais disponíveis, na expectativa pelas festas natalinas e pelo réveillon e qualquer acontecimento que escape a esse anseio acabe por sobressair. Nos preparamos para celebrar o fim de ano torcendo para que tudo resulte em comemoração com a chegada de um novo e alentoso tempo.

Esse mês de dezembro de 2022 trouxe pelo menos três notícias fatídicas, as do passamento de Terry Hall, de Nélida Piñon e de Pelé. A de Hall foi comentada por mim em dois posts anteriores em que procurei festejar o grande legado de um cantor e compositor que teve sua genial trajetória interrompida brutalmente. A partida do Atleta do Século XX e maior craque de futebol da história ganhou a cobertura esperada e ampla na imprensa para alguém tão querido dentro e fora do campo e seria portanto repisar o óbvio acrescentar qualquer coisa. Além de um encontro com Chico Buarque no campo do Politeama (time de futebol do compositor no Rio de Janeiro), que frequentou a timeline de muita gente, e que trato de repostar abaixo, vou me referir a um texto que fiz sobre a Copa do Mundo de 2018, em que comentei demoradamente a importância de Pelé para um jovem torcedor que descobria o futebol pela TV e em idas ao Maracanã no final dos anos 1960.

Gostaria assim de falar de Nélida Piñon, pois, ainda que não seja um profundo conhecedor de sua obra, tive um encontro pontual com a autora que me marcou pela simpatia e intensidade de uma pessoa vivaz e agradável ao extremo. Estagiava na TV Educativa no começo dos anos 1980, quando saímos, como era corriqueiro todas as terças-feiras, para a gravação de mais um depoimento para o programa “Um Nome na História”, com o apresentador Roberto D´Ávila. Para alguém que caiu de para-quedas para participar como aprendiz de um dos programas da grade da emissora, foi uma sorte poder ter visitado e conhecido na intimidade de suas casas nomes consagrados como os de Antônio Houaiss, Carlos Heitor Cony, João Cabral de Mello Neto e Nélida Piñon, entre muitos outros. Ela nos recebeu em seu apartamentou na Barra da Tijuca, discorreu sobre sua obra e especialmente sobre o percurso de uma descendente de imigrantes galegos. Não deixou de dar um depoimento politicamente firme naquele começo de experiência de abertura democrática depois dos anos de chumbo do período ditatorial.

Achei inusitado, em sua despedida, que Nélida tenha deixado os seus apartamentos para servirem de espaço para as suas duas cachorras de estimação enquanto elas estiverem vivas. Me lembrou o Quincas Borba, de Machado, autor por quem Nélida tinha, como os bons escritores de nossa literatura, especial apreço. Não tenho dúvida de que ela estaria contente da vida celebrando neste fim de semana a inauguração de um novo momento em nosso cenário político, depois de quatro tristes anos de atraso sob o comando de uma administração que tanta dor trouxe aos brasileiros. Aproveito para desejar um ótimo ano de 2023 para os leitores.

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Meus Amigos Artistas Plásticos

São poucos, mas muito queridos os meus amigos que ousam a se lançar pelos caminhos insondáveis das artes plásticas. Esse ano, eles estiveram em duas exposições que tive o prazer de visitar. A primeira delas foi uma individual do poeta, dos tempos do grupo Nuvem Cigana, e roterista da Rede Globo, Claudio Lobato. Lobato expôs o seu “Absoluto Obsoleto”, com seus móbiles poéticos e suas criações com objetos esquecidos do dia a dia, com pompa e circunstância na galeria da Casa de Cultura Laura Alvim. O espaço da galeria, debruçado sobre a praia de Ipanema, foi perfeito para estimular com objetos insólitos e desconcertantes o imaginário dos que passaram por lá. Nos dias em que fui ainda não havia a exibição de trechos de seu documentário sobre a Nuvem (“As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana”, de 2016). Uma pena, fico aqui pensando que autores recitando seus poemas em projeção nas paredes da galeria, um autêntico cinematógrafo das letras que surpreenderia a João do Rio, casaria perfeitamente com a cenografia ambientada por Lobato com suas obras/objetos.

A segunda aconteceu na Fábrica Bhering, na Gamboa, próxima à zona portuária. O espaço, que no passado, como o nome anuncia, foi uma fábrica de chocolate e balas (as famosas balas Toffee da infância de muitos), com maquinário vindo de Hamburgo na Alemanha, hoje abriga, em seus muitos andares, com pé-direito avantajado como pede um prédio industrial, quase uma centena de ateliês (de ceramistas, designers, lojistas, fotógrafos, livreiros e o que mais se imaginar). Os amigos João Araújo (fotógrafo) e Ana Canti (aquarelista) participaram de uma mostra coletiva no espaço Liliane Braga no terraço da Fábrica, que dá vista para a cidade de Niterói. O João já ganhou há uns anos uma individual para suas fotos no Centro Cultural da Justiça Federal, mas Ana Canti está devendo uma exposição exclusivamente sua com as belíssimas aquarelas que cria.

Ana Canti, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ, preparando uma de suas aquarelas

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Tributo a Terry Hall — Parte II

= TERRY, BLAIR & ANOUCHKA = (1990)

Em seguida ao FB3 e ao Colourfield, Terry Hall partiu para mais um trio impensável, desta vez com a cantora, compositora, arranjadora e tecladista americana Blair Booth e com a psicanalista, escritora e guitarrista australiana Anouchka Grose. Fizeram um único, mas muito inspirado album, intitulado “Ultra Modern Nursery Rhymes” (1990), com arranjos vocais notáveis. É quase inacreditável que os três tenham se conhecido casualmente. As composições originais são assinadas por Terry Hall e Blair Booth exclusivamente e o repertório inclui ainda versões de clássicos dos anos 50 e 70 com arranjos vocais que funcionam que é uma beleza na alternância exuberante das vozes do trio. Tendo influência, segundo eles, dos Mamas and the Papas e dos Beach Boys, regravaram “Three Cool Catz” e “Love Will Keep Us Together”. A volta a décadas passadas é, como constantamos, uma constante nas escolhas feitas por Terry Hall e seguiria como uma de suas marcas. Sempre faixas muito bem selecionados por alguém com grande cultura musical pop.

“Missing” foi a única faixa que ganhou um clip, mas o disco inteiro é excelente.

O “Negro Gato”, clássico de Leiber and Stoller, na versão do trio

Mais uma versão, essa para “Love Will Keep Us Together”, de Neil Sedaka e Howard Greenfield

= VEGAS = (1992)

Um grupo que resultou da parceria de Terry Hall com Dave Stewart dos Eurythmics. Fizeram só um disco com participação da mulher de Stewart na ocasião, Siobhan Fahey, que havia deixado o grupo Bananarama para integrar o duo Shakespeare Sisters (ao lado da americana Marcella Detroit). O Vegas gravou “She” de Charles Aznavour e uma bateria de composições assinadas pela dupla. Em faixas como “Walk into the Wind”, Terry segue o namoro com o som eletrônico da fase final do Colourfield, agora tendo um parceiro especialista no assunto.

“Possessed” foi a música mais conhecida do Vegas

= TERRY HALL SOLO = (1994-1997)

Finalmente, Terry Hall resolveu assumir uma carreira solo. Foram dois albuns apenas, “Home” e “Laugh”. O primeiro, de 1994, trouxe parcerias com Ian Brodie, Craig Gannon (guitarrista da fase final dos Smiths e do começo da carreira solo de Morrissey) e uma genial composição escrita com Damon Albarn, músico com quem Hall trabalharia ainda no futuro. Todos os parceiros, além de assinarem as composições, participaram das gravações que contaram também com o baixista Les Pattison do Echo and the Bunnymen. Em “Laugh”, lançado em 1997, três anos depois de “Home”, a dobradinha com Craig Gannon seguiria funcionando maravilhas e teríamos uma nova composição com Albarn, “For the Girl”, além de versões que recriaram com classe hits melosos e bregas como “Close to You”, de Burt Bacharach, e “I Saw the Light”, de Todd Rudgren.

“Chasing a Rainbow” é a genial composição assinada por Hall com Damon Albarn na época do LP “Home”

Composição original do muito inspirado LP “Laugh”, daqueles que não se pula uma única faixa

Hall desencavou “I Saw the Light”, mais uma escolha certeira para incluir em seu repertório passadista

= GRAVAÇÕES COM GORILLAZ, MC MUSHTAQ, DUB PISTOLS = (2003 – 2007)

Com MC Mushtaq (do coletivo Fun-Da-Mentals), ele fez um disco pouco conhecido, “The Hour of Two Lights” (2003), em que é acompanhado por um rapper argelino, um flautista sírio, um grupo de ciganos poloneses e por Damon Albarn. Trabalhou também com os Dub Pistols, em faixas dos discos “Six Million Ways to Live” (2005) e “Speakers and Tweeters” (2007), com o Gorillaz (single “911”) e o rapper Tricky (versão de “Ghost Town”).

Hall investindo pela World Music com Mushtaq Omar Uddin

Dub Pistols e a versão para “Rapture”, do Blondie

= A VOLTA DOS SPECIALS = (2009 – 2022)

Os Specials se reuniram novamente em 2009 para festejar os 30 anos de carreira. Fizeram shows e registraram tudo em um especial com a presença da grande maioria dos integrantes da banda, inclusive o guitarrista Roddy James Byers. Só Jerry Dammers não quis participar deste retorno do grupo. Depois de muitos shows, voltaram a gravar material inédito em “Encore”, de 2019, e fizeram um disco com versões de músicas abertamente engajadas intitulado “Protest Songs (1924-2012)” (2021). “Encore” apresentou nove músicas inéditas e uma versão para “The Lunatics” dos tempos do Fun Boy Three. “Protest Songs” mistura versões de canções que tratam de embates raciais, como a assinada pelo bluesman dos anos 20/30 Big Bill Broonzy (“Black, Brown and White”), assim como composições no clima de rebeldia do flower power californiano como a do disco de estreia de Frank Zappa e do seu Mothers of Invention (“Trouble Every Day”).  A seleção eclética reúne também Leonard Cohen (“Everybody Knows”), Bob Marley e Peter Tosh (“Get up Stand up”) e uma faixa de Brian Eno e David Byrne dos tempos dos Talking Heads (“Listening Wind”), que comprova que a percepção de música de protesto é tomada em muito lato sensu. Confesso que nenhum dos dois trabalhos figurariam nem de longe em meus projetos favoritos da carreira dos Specials. Como não sou saudosista, gosto de novidades de verdade e minha preferência fica com a variedade das investidas inovadoras e desprendidas das apostas solo de Terry Hall.

Show de aniversário de 30 anos dos Specials

Homenagem de Damon Albarn ao amigo

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Tributo a Terry Hall – Parte I

Terça-feira passada amanheci em Búzios com a manchete do The Guardian que informava sobre a partida prematura de Terry Hall. A notícia mencionava uma “breve doença” que, depois, viemos a saber, era um câncer no pâncreas descoberto recentemente. Foi o baixista dos Specials Horace Panter quem informou os detalhes. Eles se preparavam junto com o vocalista e guitarrista Lynval Golding para a gravação de mais um trabalho dos Specials como sequência a “Encore” (2019) e “Protest Songs (1924-2012)” (2021). Desta vez contariam com a volta do vocalista da primeira formação do grupo, Neville Staples, que havia se reunido brevemente com o grupo para a celebração dos 30 anos de carreira dos Specials em 2009 e depois saíra nas excursões e shows subsequentes (cheguei a vê-los em agosto de 2015 no Kew Gardens em Londres já sem Staples, embora ainda com o baterista da formação original John Bradbury que viria a falecer em dezembro daquele ano). 

Antes de um jogo de futebol na quarta-feira passada, entre o Coventry City e o West Bromwich Albion, uma das muitas homenagens que se espalharam por Coventry, cidade natal de Terry Hall

Terry Hall foi um grande crooner, daqueles que conseguem a proeza de envelhecer cantando cada vez melhor. Compunha também com surpreendente desenvoltura. Criou, com os mais diferentes e inesperados parceiros, músicas antológicas. Era um craque também em recuperar canções esquecidas e atualizá-la em interpretações memoráveis. Segue a recaptulação de sua trajetória, com alguns dos números de seu repertório autoral e das versões que fez ao longo de sua muito produtiva carreira.

= SPECIALS = 1a. Formação (1979-80)

Amigos que conhecem e têm entre suas preferências musicais um gosto mais enraizado na cultura jamaicana, como Edinho Cerqueira, Carlos Albuquerque (Calbuque) e Maurício Valladares (MalVal), podem discorrer com pleno saber sobre os Specials. Apesar de adorar o mais importante grupo de ska de Coventry, descobri, passeando pela Internet, que meus conhecimentos sobre a banda que consagrou o nome de Terry Hall é limitado. A presença de seu vocal característico era importante, não há dúvida, tanto assim que a chamada do texto de Zeca Camargo na Folha de São Paulo comentando a morte do cantor semana passada, o apresentava como líder dos Specials, ainda que a figura mais fundamental no grupo tenha sido sem dúvida alguma a pessoa do tecladista Jerry Dammers.

Ao lado do Madness e do The Beat (ou English Beat nos Estados Unidos), o Specials formou a mais festejada tríade de ska de matriz inglesa. Entre o final dos anos 1970 e começo dos 80, eram venerados dentro da cena indie britânica, embora rapidamente ganhassem também com enorme êxito a parada de sucessos oficial da BBC, cuja aferição era feita, em tempos de cultura pré-digital, levando-se em conta o movimento de compra de discos por parte do público nas lojas. Certa feita, no começo dos anos 1980, estava no underground londrino com uma camiseta estampada com uma propaganda do filme “Dance Craze” (um dos silk screens confeccionados por Maurício Valladares com suas fotos e imagens de bandas favoritas – The Jam, Brian Setzer, Paralamas do Sucesso), quando fui surpreendido por uma fã que do nada agarrava a camiseta para afirmar sua adoração pelas bandas do selo 2-Tone. Acho que naquela época, até em Londres, ainda era um acontecimento pouco usual trajar uma camiseta com bandas de ska.

A música mais famosa do disco de estreia dos Specials foi “Gangsters” (recriação de um ska de Prince Buster, de 1964)

Uma outra versão, sempre com versos adicionais como era de costume no caso dos Specials, feita para “Enjoy Yourself”, clássico de Herb Magidson e Carl Sigman

O sucesso mais conhecido do grupo acabou, no entanto, sendo “Ghost Town”

= FUN BOY THREE = (1982-83)

Terry Hall deixaria o ska para trás e, com dois de seus companheiros do Specials, o vocalista Neville Staple e o guitarrista Lynval Golding, partiria para formar o Fun Boy Three. Com o FB3, eles embarcariam em uma vibe new wave nada ortodoxa em dois excelentes discos. Lançados em 1982 e 83, o primeiro levaria o próprio nome da banda e contaria com a participação de um outro trio, este só de mulheres, o Bananarama, formado por Siobhan Fahey (futura esposa de Dave Stewart dos Eurythmics e depois integrante do duo Shakespeare Sisters), Keren Woodward e Sara Dallin. O segundo e último disco dos FB3, com produção de David Byrne, se intitularia “Waiting”. Traria “Our Lips are Sealed”, faixa de enorme sucesso, parceria de Terry Hall com sua namorada na ocasião, a guitarrista da banda americana The Go-Go´s Jane Wiedlin.

A versão solar das Go-Go´s para o hit “Our Lips are Sealed”

Play it again, Sam”, em mais um clip divertido dos FB3 com uma faixa muito querida (“It must be wondeful to live like you do…”) e participação do Madness e das Bananaramas

FB3 interpreta “This is the End”, dos Doors, que faria ponte com as composições que Hall assinaria em seu futuro grupo, o Colourfield

= COLOURFIELD = (1985-87)

Chamava a atenção a maneira desprendida com que Terry Hall se atirava a novos projetos sem conexão nenhuma com os anteriores. E assim foi com o Colourfield que formou com a dupla Toby Lyons and Karl Shale. No programa Ronca Ronca da última quinta-feira, Maurício Valladares tocou alguns discos de 12 polegadas do grupo. Eram os singles ingleses, os nossos compactos que vinham em uma bolachona de vinil como um LP comum, mas com uma única música de cada lado para que a gravação fosse reproduzida com melhor qualidade sonora. No endereço da 7 Lemington Road Villas, recebi muitos desses discos de 12 polegadas enviados pelas gravadoras, quando morei por lá nos anos 1980 e de onde enviava textos de música. Meus irmãos que também estiveram por lá, fizeram a façanha de queimar 4 mil dólares em discos desses na Virgin Megastore e na HMV da Oxford Street, muitos deles terminariam nos toca-discos da Fluminense FM alimentando o Rock Live, programa do MalVal da época. Depois com a chegada da tecnologia digital seriam todos passados por preço irrisório ao pessoal das barraquinhas de vinil da Pedro Lessa, na travessa de pedestres ao lado da Biblioteca Nacional. Foram dois discos apenas do Colourfield, ambos excelentes, “Virgins and Philistines” (1985) e “Deception” (1987).

“Take” do “Virgins and Philistines”, primeiro disco do grupo, com participação do baterista Pete de Freitas

“Sorry”, a composição que deu nome a banda com arranjo à la Echo and the Bunnymen e “Pushing up the Daisies”

“Deception”, segundo e último disco do Colourfield com paricipação de Sinéad O´Connor na faixa “Monkey in Winter”

 

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