Pipe, Gabe e o primeiro título mundial do surfe brasileiro

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 Link para os vídeos da Associação de Surfistas Profissionais (clique aqui)

Este ano foi possível conhecer de perto toda a elite do surfe mundial e acompanhá-la em seu  passeio por algumas das mais bonitas praias do planeta. Com as transmissões ao vivo da Associação dos Surfistas Profissionais (ASP), que vêm se aprimorando e ganhando em sofisticação a cada ano, deu para ver a qualidade diferencial das ondas surfadas pelo americano Kelly Slater, pelo australiano Mick Fanning, pelo havaiano John John Florence e por Gabriel Medina. Houve também a graça do surfe feminino das havaianas Coco Ho e Carissa Moore, da australiana Stephanie Gilmore e da brasileira Silvana Lima. Parada final do tour, Pipeline, ou Banzai Pipeline, esteve desde o fim de semana passado e no correr desta semana diante de nossos olhos diariamente mudando ao sabor dos ventos. O translúcido mar azul turquesa levantou-se gigante sábado e domingo passados, descansou placidamente até esta sexta-feira, quando voltou a se erguer, arremessando suas belas ondas contra o seu recife de corais e pedras. O aussie Julian Wilson levou a tríplice coroa e se sagrou campeão do Pipe Masters, mas a festa foi mesmo a do título mundial inédito conquistado por Medina.

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Pequeno grande Botika

Botika capa

                             (Foto de Jorge Bispo com arte de Guga Ferraz para a  capa do disco de estréia solo de Bernardo Botkay)

“Picolé da Cabeça” no soundcloud (clique aqui)

Site do grupo Os outros (clique aqui)

Eu o conheci bem pequenininho, mas já ensaiando como gente grande no Estúdio 585 (uma casa na rua Sorocaba, 585), no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. “Picolé da Cabeça” é o seu trabalho de estréia como artista solo. Conheço bem a trajetória do agora papai Botika, ou, por extenso, Bernardo Botkay. Ele fez parte da banda Aneura que meu sobrinho Pedro Sá Freire, lá pelos idos de 1997, formou com Vitor Paiva e Bruno Foca Grohl (assim o chamava por me lembrar o ex-baterista do Nirvana e então frontman do Foo Fighters). Botika entrou para o grupo porque os garotos (14, 15 anos, na época) achavam que ele tinha um talento excepcional para compor. Me recordo que fiquei surpreso quando o Pedro fez o comentário. No geral, imagina-se que nessa idade a garotada convoque alguém para sua banda por ter gostos musicais semelhantes. Mas eles se interessaram pelo talento do Botika. E, realmente, a cada ensaio o Bernardo Botkay aparecia com uma nova composição e tinha mesmo certa aversão ao recurso fácil das “covers” de outros grupos. Queria tocar as suas músicas. Sua formação vinha de casa, já que é filho do compositor, instrumentista e arranjador Caíque Botkay.

Os outros garotos, talvez estimulados pelo desafio de Botika, começaram também a compor canções em quantidade. Compuseram muito no período em que ficaram juntos entre 1997 e 2001. Dessa época, o Aneura tem um trabalho de onze faixas, gravado na Rádio MEC no Rio, nunca editado comercialmente. Sobraram ainda em meu computador um número grande de boas composições gravadas em estilo demo tape, que nem sequer tiveram a chance de ser registradas de maneira adequada em estúdio.

Depois do Aneura, Botika partiu com Vitor Paiva para formar a banda Os Outros. Fizeram dois trabalhos autorais de estúdio: “Nós Somos os Outros”, em 2007, e “Pacote Felicidade”, em 2010 (ambos pelo selo Bolacha Discos; o primeiro esgotado porém aberto no youtube (link acima) e o segundo ainda disponível nas lojas on-line). Gravaram ainda o “Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos” (Deckdiscos, 2012), com a cantora de longa trajetória solo. Botika investiu também pelo teatro com o coletivo de música e artes plásticas Aplique de Carne, em que de novo surgem suas composições, desta vez com a violoncelista e cantora Nana Carneiro. Vem trilhando também a carreira de escritor. Publicou dois romances, “Uma Autobiografia de Lucas Frizzo”, em 2004, e “Búfalo”, em 2010. Prepara um terceiro livro (em outra oportunidade falo de seus escritos).

 “Picolé da Cabeça”, gravado no estúdio Toca do Bandido, do falecido produtor Tom Capone (Renato Russo, Skank, Raimundo), reúne 10 ótimas composições, duas delas em parceria: uma com a escritora carioca de Duque de Caxias Bruna Beber (“Pipoca”) e outra com a atriz portoalegrense Carolina Bianchi (“Mundo de Marlboro”). Botika fez-se acompanhar durante as gravações e segue em shows ao vivo com o baterista Bernardo Pauleira (produziu as faixas), o guitarrista Gabriel Mayall (Los Hermanos) e o baixista Daniel Castanheira. A sonoridade é bem distinta do que ele fazia com Os Outros. O produtor e os músicos reunidos para o projeto solo imprimiram textura muito particular às suas composições. Comenta-se que o jeito de cantar lembra o de Cazuza. Procede a observação, ainda que mais do que isso o que vale a pena dizer é que Bernardo Botkay talvez seja um dileto seguidor da tradição musical de Caetano Veloso. Confiram em faixas como “Pequenininho”, “Que você chorou” e a música-título. Curioso que os filhos de Caetano que escolheram o caminho musical (Moreno Veloso e Tom) não tenham querido, até o momento, se aproximar da sombra do nosso grande compositor da maneira como Botika vem se esforçando por fazer. Financiado por dinheiro arrecadado em esquema de crowdfunding, “Picolé da Cabeça” está à venda nas lojas on-line. Adquiri o meu por 7.99 dólares (ou 22,69 reais na conversão feita pelo cartão de crédito este mês).

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Resumo da semana na piscina

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Tempo dentro da piscina e tempo e distância nadados. Trilha sonora debaixo d´água: “Modern Guilt”, de Beck Hansen. “Replica” mostra como fez bem ao Beck ter conhecido Rogério Duprat. Sábado é day-off. Dia da etapa final do Rei e Rainha do Mar na praia de Copacabana. Fazendo a travessia dos Fortes do posto 6 ao Leme em 2012 descobri ao fim da prova que muitos sofrem com motion sickness nadando longas distâncias no mar (teve gente chamando Raul dentro d´água). Bem diferente de nadar em piscina e só com preparação para esse tipo de aventura. Tempo total do percurso em 2012: 1h19.  Não é muito. Senhores de 70 anos fizeram no mesmo tempo.

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Sérgio Rodrigues Todo Prosa

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Blogue  na Veja (clique aqui)

Blogue “Sobre Palavras” (clique aqui)

Sérgio Rodrigues deve estar todo prosa e com justificada razão. É um escritor extremamente talentoso e merecia um prêmio do gabarito do Portugal Telecom de Literatura para coroar anos de batalha. Fico surpreso como a nossa grande imprensa mostra toda a sua diminuta e obtusa visão jornalística ao não abrir espaço para a qualidade de um texto tão superior ao de muitos dos colunistas dos cadernos de cultura que temos que ler semanalmente. É para se colocar em dúvida o correto julgamento dos editores destes cadernos.

O prêmio veio pelo romance “O Drible”, o terceiro escrito por este blogueiro do site da revista Veja. Se em “Elza, a Garota” (Nova Fronteira, 2008), Sérgio Rodrigues misturava fatos históricos com ficção, em “O Drible”, ele ficcionaliza livremente nossa história esportiva e seus protagonistas dentro e fora de campo. No primeiro, romanceava os fatos que levantou sobre a morte da quase menina Elvira Cupello Calônio (Elza no codinome do título), assassinada em uma espécie de queima de arquivo pelo Partidão de Luiz Carlos Prestes (aliás, valeria a pena saber o que a nova biografia de Prestes, de Daniel Aarão Reis, tem a dizer sobre o assunto). Já em “O Drible”, o livro “O Negro no Futebol Brasileiro” e a personalidade de seu autor, Mario Filho, foram fontes de inspiração e surgem entrelaçados ao enredo.

O protagonista é Murilo, um cronista esportivo aposentando e doente vivendo seus últimos dias. Ele reencontra seu filho, Neto, e sua trajetória de cronistas é revista ao longo do livro. A produção de Sérgio Rodrigues, que tem um terceiro romance, este totalmente ficcional (“As Sementes de Flowerville”; Objetiva, 2006), coleciona ainda duas ótimas produções literárias: uma de contos, “O Homem que Matou o Escritor” (Objetiva, 2000), e uma de narrativas curtíssimas, “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010). O jornalista-escritor assina atualmente os blogues “Todoprosa” e “Sobre Palavras”, no endereço da revista Veja na Internet. “Todoprosa” comenta os lançamentos do mercado livreiro, enquanto “Sobre Palavras” dá continuidade às suas observações sempre afiadas sobre as idiossincrasias de nossa língua e daqueles que se esforçam por utilizá-la corretamente. O colunista havia iniciado esta prática no Jornal do Brasil, veículo jornalístico em que protagonizou um interessante debate com Millôr Fernandes sobre um tema aparentemente enfadonho: o emprego da crase (que, como diria Millôr, “não foi feita para humilhar, mas que humilha, humilha”). Uma seleção das colunas do Jornal do Brasil está em “What Língua is Esta?” (Ediouro, 2005).

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Na água em Doha e na Costa Norte de Oahu

Natação © Jefferson Bernardes 16OCT11medina

Aquecimento para o Mundial de Surfe (clique aqui)

Mundial de Surfe – ao vivo 1 (entre 8 e 20 de dezembro, às 16h de Brasília; clique aqui)

Mundial de Surfe – ao vivo 2 (clique aqui)

Felizmente, o Brasil voltou a deixar de ser apenas o país do futebol. Este final de semana, viramos o país da natação. A delegação verde-amarela fez história em Doha, no Qatar, faturando dez medalhas na competição em piscina de 25 metros. Sete dessas medalhas de ouro, o que deixou o país em primeiro lugar na competição. O brilho maior foi o ouro feminino inédito de Etiene Medeiros, de 23 anos, nadando costas. Era uma boa promessa e virou uma estrela com direito a um recorde mundial para marcar sua conquista. Teve ainda a virada de Cesar Cielo no francês Florent Manaudou, nos 100m livres (havia perdido o ouro nos 50m, sua especialidade), e mais dois ouros individuais no nado de peito de Felipe França, com suas conhecidas saídas eficientes nas “filipinas”. Brilhou ainda Nicholas Santos, aos 34 anos, dando trabalho ao jovem Chad le Clos, o prodígio sul-africano. Nicholas ficou com a medalha de prata disputando e dando calor no nado borboleta ao campeão olímpico pela África do Sul. Os brasileiros não saíram do evento ainda sem levar três ouros nos revezamentos, sendo o último no encerramento das provas e em cima dos Estados Unidos de Ryan Lochte (destaque americano nos jogos olímpicos de Londres em 2012). A natação é uma beleza, um balé dentro d´água. Um dia volto a falar mais demoradamente sobre esse esporte ao qual me dedico a cada dia com mais gosto.

O ano da natação, poderá virar ainda o ano do surfe para o Brasil. Depois que Maya Gabeira apareceu como a primeira mulher a enfrentar ondas gigantes, Gabriel Medina surge como o mais novo talento entre nossos surfistas. Faz manobras com desenvoltura sem igual e é senhor de si com um domínio inacreditável da prancha. Ele estará a partir dessa segunda-feira brigando para trazer pela primeira vez o título mundial de surfe para o Brasil. A competição acontece em Pipeline, ou Banzai Pipeline, na Costa Norte da ilha de Oahu no Havaí. Um lugar que lembra Saquarema, com uma maior infra-estrutura obviamente (ainda que tenha muito do clima de Itaúna e das praias próximas). Como tem sido recorrente em outras etapas do circuito mundial de surfe, teremos transmissão ao vivo e on-line no endereço no youtube da Associação dos Profissionais de Surfe (Association of Surfing Professionals, ou ASP, em inglês). Será uma beleza poder testemunhar em tempo real o que está acontecendo em Pipeline, como já foi possível fazer nas demais paradas do tour Mundial de Surfe em competições em Teahupoo, no Taiti, em Landes, na França, e nas outras praias do circuito ao redor do mundo em Portugal, África do Sul, Estados Unidos e Brasil. Gabriel Medina, com 20 anos e 56.550 pontos, tem o australiano Mick Fanning, com 33 anos e 53.100 pontos como seu mais direto adversário pelo título. Fanning foi por 3 vezes campeão mundial (inclusive em 2013; está portanto defendendo o título). O outro concorrente é Kelly Slater, 42 anos, 50.050 pontos, e 11 títulos mundiais em seu currículo. Gabriel Medina tem grandes chances de sair da água com o título inédito para o Brasil.

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Leitura ilustrada de uma crônica do Bruxo do Cosme Velho

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Leitura ilustrada da crônica do dia 16 de outubro de 1892 (clique aqui)

Vez ou outra, voltamos aos textos de Machado de Assis e constatamos o quanto são interessantes, espirituosos, lúdicos e sem pose. Para marcar o reencontro com sua escrita preparei uma leitura ilustrada de uma de suas conhecidas crônicas. Bom proveito para todos.

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O espelho, esboço de uma nova teoria sobre a alma humana

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Conto de Machado (clique aqui)

Leitura do conto (clique aqui)

Palestra do professor Alfredo Bosi na USP (clique aqui)

Ensaio de Bosi na biblioteca SciELO (clique aqui)

Machado de Assis, ou sejamos mais precisos, o capitalista Jacobina, quis certa vez convencer aqueles que lhe deram ouvido de que temos duas almas: uma interior e outra exterior. Eu nunca tive dúvidas quanto a isso. Sempre intuí essas duas manifestações de nossa essência mais etérea. De qualquer jeito é ótimo ter contato com uma explanação demorada na forma de uma teoria feita por um dos Casmurros, um dos Lordes Taciturnos, menos conhecidos do Bruxo do Cosme Velho. Tudo no ambiente convidativo de uma sala no alto do morro de Santa Teresa, “entre a cidade, com suas agitações e aventuras, e o céu em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada”. Sob a cortina de fumaça de seu charuto, Jacobina se sai bem em suas ponderações metafísicas. Aos que ainda hesitam em relação ao tópico, recomendo o conto machadiano. Confesso que fico interessado em saber o que você psicólogo, psicanalista, psicoanalisando, tem a dizer sobre o assunto. Acho de qualquer jeito que ele pede um ensaio com mais detidas considerações sobre as sensibilidades e afecções de nossas tão queridas almas. Alfredo Bosi já incorreu em suas digressões em palestra e ensaio recentes. Para assistir a palestra ou ler o ensaio de Bosi, veja os links para o canal de divulgação científica da USP e para a biblioteca eletrônica SciELO. Para ler e/ou ouvir o conto de Machado, siga os links relacionados acima.

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Vishy vs Magnus – Confronto Mundial de Xadrez 2014

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(Logo inspirado em Escher para o confronto mundial de xadrez de 2014 entre Vishy Anand e Magnus Carlsen)
 
"Meu bom xadrez, meu querido xadrez..."
"Tudo pode ser, contanto que me salvem o xadrez" 
                                                (Machado de Assis)

Se encerrou neste domingo, na cidade balneária de Sochi na Rússia (lugar em que aconteceram os Jogos Olímpicos de Inverno em julho), a disputa pelo título mundial de xadrez de 2014. A imprensa brasileira não deu a mínima atenção ao evento. Como diz uma amiga professora, o xadrez está fora de moda no Brasil. Se enfrentaram, o indiano, Viswanathan Anand (ou Vishy Anand), 44, jogador que alcançou a maior pontuação no ano, e o  norueguês, Magnus Carlsen, 23, atual campeão. Tinham que disputar  doze partidas. Ganhavam um ponto por cada vitória e meio pelo empate. O primeiro que pontuasse 6,5, se sagraria campeão. Jogaram onze partidas. Carlsen ganhou 3, perdeu uma, e empatou 7. Pelo segundo ano consecutivo, ficou com o título de campeão mundial. No confronto do ano passado na cidade de Chennai, na Índia (terra natal de Vishy), Carlsen era o postulante. Esse ano a situação se inverteu e Anand era quem o desafiava a manter o título.

Magnus é o novo prodígio e estrela do xadrez. Está bem mais para um hipster do que para um nerd. Lembra um rock star como Jim Morrison pelo andar cheio de pose. Aos 13 anos já era um grande mestre (GM) e enfrentava de igual para igual gente crescida como Garry Kasparov. Como tudo no xadrez, há um registro desse embate de 2004 que não teve vencedor. Do alto dos seus 13 anos, Carlsen empatou com Kasparov. Magnus é reconhecido como um jogador que exaure os adversários. Seu jogo não é agressivo. Aliás, isso inexiste atualmente no xadrez. Ele simplesmente mina todas as possibilidades do oponente.

No xadrez, o momento é ainda bem outro e diferente da época do Deep Blue, de 1997, quando Kasparov conseguia dar trabalho aos programadores da IBM. A memória de qualquer gadget, por mais limitada que seja, derruba um GM. As quinze primeiras alternativas de jogadas fortes para iniciar as partidas (as aberturas como se diz) são em função disso conhecidas de todos e estão escrutinadas à exaustão com a ajuda de programas sofisticados. Em qualquer jogo, os quinze movimentos iniciais são feitos quase que automaticamente. A partir daí é que começam a aparecer as variantes que apresentam pequenas vantagens dependendo do caminho que cada jogador escolha. Como as partidas são todas anotadas e há o registro de tudo o que é jogado em vários bancos de dados (são muitos), é bastante difícil se chegar a uma posição inédita. Cabe a cada jogador lembrar das possibilidades de continuidade e tentar tirar vantagem de sua sequência de jogo. A agilidade da memória de um rapaz novo como Carlsen neste momento parece ser fundamental, principalmente para lidar com o tempo, elemento crucial em um confronto cronometrado. O final de jogo é que marca a tensão psicológica quando aparecem os tropeços e eventualmente um dos jogadores adquire um pequena vantagem, levando o oponente a desistir da partida. Isso acontece sempre muito antes de qualquer xeque-mate, o que talvez explique a falta de interesse do leigo pelo jogo.

A grande maioria das partidas termina ainda em empate. É como se aos 30 minutos de um jogo de futebol, os capitães de cada uma das equipes se reunissem no meio de campo e um deles dissesse: nossa defesa, como vocês estão vendo, está bem estruturada, o ataque do time de vocês, por outro lado, está num ótimo dia e pode ser que consiga converter um gol. Que tal, antes disso, nós acertarmos um empate? Em vez de um dos times sair daqui com três pontos, nós damos o jogo por encerrado agora e cada equipe fica com um ponto na tabela. Os espectadores nunca terão mais portanto a chance de ver uma jogada de xeque-mate, o gol no xadrez. Isso só acontecia no século XIX, nas partidas de finais surpreendentes com sacrifícios sensacionais como as jogadas pelo americano Paul Morphy, gênio do “período romântico” do jogo.

Para a disputa de Sochi, tanto Carlsen quanto Anand levaram suas respectivas equipes de analistas que trabalham nos bastidores e que conhecem em detalhe as partidas jogadas pelos adversários, bem como suas qualidades técnicas e fragilidades. Os dois mantêm em segredo os nomes desses auxiliares. Anand revelou alguns dos integrantes de sua equipe no confronto do ano passado, mas, diante da recusa de Carlsen de informar qualquer um dos seus, decidiu não falar nada desta vez.

Para cada um dos enfrentamentos tivemos transmissões on-line com os comentaristas oficiais do evento e canais alternativos de jogadores e fãs no twitch.tv (o “youtube ao vivo”), discutindo o andamento dos jogos. Um deles chegou a durar 5 horas. As transmissões do chessnetwork, feitas por Jerry, um mestre nacional norte-americano, reuniram 6 mil pessoas em média. O canal de Jerry no youtube, analisando cada um das partidas em pós-jogo, alcançaram a marca de 20 mil visualizações em média em um dia. É pouco no entanto. Qualquer jogador de vídeo-game bate a marca de 200 mil visualizações com as narrações de seus jogos (sonho de muitos que trabalham com entretenimento).

Como a idade é fundamental para os jogadores de xadrez tradicional (começa com uma hora e meia para as primeiras 40 jogadas e se opõe ao jogo-blitz que varia de 1 a 30 minutos de tempo para a conclusão da partida) temos, como promessa para enfrentar Carlsen, o talentoso Fabiano Caruana, de 22 anos. Caruana tem nacionalidade italiana, mas nasceu em Miami e cresceu no Brooklyn (os americanos estão doidos para que ele se naturalize). Fabiano venceu  sete dos dez mais afiados GMs (incluindo Carlsen) durante a Sinquefield Cup, em Saint Louis, capital do xadrez nos Estados Unidos, em agosto-setembro passados. Foi um feito e tanto e ele é uma promessa. Com Caruana, Carlsen vai com certeza ter mais trabalho do que com Anand, que parecia fragilizado em alguns momentos e deixou passar as chances que teve sobre os pouquíssimos tropeços de Carlsen.

Links relacionados:

 Chessnetwork

Chessexplained

Sean G Godley

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Picassos Falsos no velho Ricamar

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Os Picassos Falsos fizeram um ótimo show na sala Baden Powell em Copacabana sábado à noite. Músicas melódicas, muito bem executadas e com alguém que sabe cantar. Nunca entendi por que eles não ganharam a projeção de outras bandas brasileiras da década de 80. Mas estão aí, com o disco “Supercarioca 25 anos”, que refaz o repertório do segundo LP do grupo. Não custa lembrar que eles começaram em uma época em que os grupos ainda lançavam LPs. CD era novidade. Foram só dois discos (“Picassos Falsos”, de 1987, e “Supercarioca”, de 1988), até que o grupo se dispersasse em função da tentativa de seguir como artista solo de seu cantor e principal compositor: Humberto Effe. Desde 2004, com o excelente “Novo Mundo” e com uma apresentação no TIM Festival (festival que deixou saudades), eles retomaram a carreira que é festejada com o novo disco (disponível, como todos os anteriores, na Amazon, iTunes Store e lojas on-line) e com um especial exibido no Canal Brasil em setembro.

Há duas semanas, o Arctic Monkeys enchia o HSBC Arena, na Barra, cobrando 200 reais por um ingresso para que você se empoleirasse nas cadeiras dos piores setores do ginásio. Ingressos que se esgotaram num instante para os seus 15 mil lugares. Com 40 reais (pros que não recorreram à lista amiga), foi possível assistir aos Picassos Falsos no velho Cinema Ricamar de outros tempos, confortavelmente sentado e sem ter de brigar por ingresso. Muito bom ouvi-los repassarem o repertório de “Supercarioca” (com sua mistura de referências a Noel Rosa (“Marlene”), Jimi Hendrix (“Bolero”) e ao rock inglês do Bauhaus (“Sangue”)), boas composições de outros tempos (“Quadrinhos”, “Você não Consegue Entender”) e ainda conhecer músicas de um novo disco que deve vir por aí. O colega de trampo jornalístico Luiz Henrique Romanholli segue respondendo pelas certeiras linhas de baixo e segurando a cozinha rítmica com o craque das baquetas Abílio Rodrigues. Gustavo Corsi cuidou de florear as composições com sua guitarra de dicção hendrixiana (guitarra que carrega ainda uma plêiade de influências de todas as melhores coisas que já se ouviu no espectro do rock). Os PFs tiveram no palco a companhia da guitarra do produtor JR Tostoi (dos discos/shows de Lenine e do grupo Vulgue Tostoi). Vão abaixo os links com músicas do programa do Canal Brasil. Os Picassos Falsos fazem show novamente em janeiro e deixaram aquela vontade de conhecer mais do novo disco.

Links relacionados:

Picassos – Rio de Janeiro

Picassos – Sangue

Picassos – Bolero

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Bem-vindos ao blogue

Estou inaugurando minha plataforma blogueira aqui pelo wordpress. O primeiro item do menu é este blogue que anunciará ainda uma nova atualização em cada uma das outras seções. Estas estão assim organizadas: na aba “Contos”, postarei as minhas tentativas de escrita ficcional. Nunca tinha me aventurado por essa área. Como, no entanto, vez ou outra, acabo sugestionado por um fiapo de história, passei a fazer o registro dessas narrativas e seguirei postando sempre que isso acontecer. A seção seguinte, “Ensaios/estudos”, reúne os trabalhos acadêmicos que já realizei. Muitos alunos, ex-alunos ou mesmo estudantes com quem nunca tive contato direto, me procuram pedindo aqueles textos que ficam restritos ao meio universitário e que ajudam nas discussões com que estão envolvidos. Em função disso, disponibilizarei nessa seção o que escrevi enquanto fazia mestrado e doutorado e continuarei postando os estudos que escrever daqui pra frente.  “Literatura falada” apresenta as gravações de leituras feitas com meus alunos e alunos de professores com quem trabalhei. Sou um consumidor contumaz de audiolivros há anos. Me interessei em fazer trabalho semelhante com estudantes e pretendo dar continuidade a essa prática. A última seção/aba reunirá as minhas velharias, os textos que publiquei em jornais e revistas. Espero que aproveitem o blogue e queria convidá-los a interagir: comentado, opinando, criticando. É possível ainda se cadastrar para receber alertas sobre atualizações.

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