Capa, dedicatória e contra-capa de “Anjo Caído” (editora Xenon, 1996); capa por Isabella Perrotta; foto por Ana Branco
Capa, dedicatória e contra-capa de “Anjo Caído” (editora Xenon, 1996); capa por Isabella Perrotta; foto por Ana Branco
Durst, seguiremos por aqui com saudades de suas enfezadas, espirituosas e hilariantes tiradas. Abaixo, como você, nosso crítico de cinema e de cultura favorito, quis se apresentar certa vez. Sua alegre, esfuziante, divertida franqueza não poupava ninguém, nem a você mesmo. Descanse em paz, querido amigo.

Nunca tive o hábito de cultivar uma biblioteca particular. Sempre me servi das excelentes bibliotecas do Instituto Brasil-Estados Unidos, e em especial a da sede desse curso livre de inglês na Avenida Nossa Senhora de Copacabana (a mais próxima de minha casa). Adorava seu ambiente que frequentava desde que comecei a estudar língua inglesa. Ali lia revistas brasileiras e estrangeiras, periódicos e jornais, entre os quais um muito especial, a volumosa edição de domingo do New York Times, que chegava com algum atraso, mas chegava (tinha a do Washington Post também e depois chegaria a do famigerado USA Today). Vasculhei muito as estantes com os livros da coleção dessa biblioteca e sabia onde encontrar a grande maioria dos autores e livros que procurava.
Só muito no começo recorria aos registros catalográficos que, dispostos em caixotinhos de fichas à entrada, guardavam os dados sobre sua coleção de livros. Para se pegar uma obra então era preciso assinar também uma ficha de anotação de empréstimo que ficava guardada na parte interna da contracapa de cada volume. Sempre que tirava um livro da estante tinha a curiosidade de saber se ele era muito ou pouco lido, quem o tinha pego por empréstimo (podia ser algum colega ou professor conhecido), quando o tirou e quanto tempo permaneceu com ele. Na Biblioteca do Instituto Brasil-Estados Unidos tinha a assessoria das bibliotecárias Almerita e Regina que sempre, por cortesia, me levavam rapidamente às obras que encontrava maior dificuldade em saber aonde estavam. Ao contrário da maioria das pessoas, gostava e gosto de livros anotados. Acho interessante saber o que despertou o interesse do leitor que me antecedeu na leitura de um livro. Tanto assim que segui com o hábito de sempre deixar anotações nos livros que leio. Hábito que mantenho até hoje. Principalmente porque quando a leitura visa à preparação de algum estudo, estas anotações são fundamentais.
Quando enveredei pelos cursos de mestrado e de doutorado, meus livros passaram a se multiplicar e comecei a recorrer menos à biblioteca da sede do IBEU (nesta altura já tinha virado freguês também de várias outras bibliotecas, como as da PUC-RJ (a central e a de cada departamento), da UFRJ e da nossa Biblioteca Nacional, obviamente). É que passei a receber uma tal de “bolsa de bancada”, que nada mais é do que um dinheiro para se adquirir exclusivamente livros (com contas a serem prestadas às instituições de fomento de pesquisa que proveem essas bolsas). Foi aí que me vi tendo de comprar livros em quantidade todos os meses. Alguns ficaram com excesso de marcas, anotações, códigos que criei com canetas de diferentes cores, para poder, numa segunda leitura, achar o que julgava importante de maneira rápida. Sei que estudiosos dedicados fazem essas anotações em fichas, mas nunca tive paciência para isso.
Se alguns livros adquiridos com a bolsa de bancada foram escrutinados em detalhe, outros nunca foram tocados. Vim a me dar conta disso agora. Sempre guardei meus livros espalhados em prateleiras pela casa de forma totalmente aleatória. Sabia onde encontrar os autores que procurava por pura intuição. Recentemente resolvi cuidar melhor deles e comprei uma estante maior para ordená-los e estabelecer alguma organização no caos. Meus livros não são muitos, mas pra mim são mais do que o suficiente. Tenho certeza que muitos vão ficar por aí sem nunca terem sido tocados. Ao pensar sobre como organizá-los, descartei logo a ideia de ordem alfabética, porque não tenho e nem pretendo ter livros em quantidade o bastante para isso. Não sou e nunca serei um leitor voraz (e com dinheiro no bolso) como o Umberto Eco que vive em meio ao gigantesco labirinto de estantes de sua casa em Milão.
Escolhi então um certo “critério de afinidade” para agrupar os autores de quem tenho um número mais expressivo de volumes. Assim Machado de Assis abre a estante bem no alto com muitas e diferentes edições de suas obras. A estante segue com toda a obra crítica machadiana. Nessa hora, cada comentarista da obra de Machado entra com todos os volumes de sua produção. Alguns tem foco em Machado, como Roberto Schwarz e John Gledson, e outros permaneceram com seus livros mesmo que tenham escrito pouco sobre o bruxo do cosme velho. De qualquer jeito, Schwarz e Gledson devem se sentir em casa ao lado de Antonio Candido, José Paulo Paes, Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins e Marlyse Meyer.
A minha segunda coleção significativa de obras é de e sobre Nelson Rodrigues, assunto dos meus estudos de doutoramento. Nelson está no alto e no centro ao lado de Machado. Com Nelson estão seus livros, os de seu irmão Mario Filho, os trabalhos críticos sobre sua obra e ainda incluí volumes que tratam sobre o período turbulento em que o autor viveu, como os tomos de Elio Gaspari. Ao lado de Nelson Rodrigues e também no alto, aparece Herman Melville (Machado, Nelson e Melville fazem a tríade de meus autores prediletos), que, inevitavelmente, divide espaço com Joseph Conrad e com Edward Said, cujo primeiro trabalho foi sobre o autor de “Coração das Trevas”. Joyce, outra grande paixão, aparece na estante com seus conterrâneos, Oscar Wilde, Yeats, Bernard Shaw e ainda com Virignia Woolf, Lewis Carroll, Auden e Dickens. Euclides da Cunha abre uma nova estante. Com ele estão Guimarães Rosa, Glauber Rocha e a turma do Cinema Novo. Gilberto Freyre é o primeiro nome na estante dos antropólogos, que tem ainda Darcy Ribeiro e Lévi-Strauss. Pedro Nava ficou responsável por comandar uma outra seção. Com ele coloquei seus amigos, Mario de Andrade, Gastão Cruls e um de seus escritores mais queridos, Marcel Proust, que aparece na primeira edição da recherche em português (ficou da coleção dos livros de meu avô materno).
Na estante abaixo de Nava, vem Ana Cristina César, achei apropriado os dois suicidas ficarem próximo para darem apoio um ao outro. Ana C. puxa a estante de novos autores com ex-colegas de bancos universitários e de faina profissional como Bernardo Carvalho, Fausto Fawcett, Hermano Vianna, Arthur Dapieve, Rogério Durst, Sérgio Rodrigues e muitos outros. Há ainda um espaço só pros poetas (Drummond, Pessoa, Cecília Meirelles, Bandeira, Cabral, Gullar; tenho falhas de leitura aqui pois não entendo muito de poesia, assim, Jorge de Lima e, desculpe, Sheila Kaplan, Murilo Mendes, estão ausentes), incluindo aí a nova (Geraldo Carneiro, Paulo Henriques Britto) e novíssima geração (Angélica Freitas). Deixei ainda um lugar de destaque no alto para as obras completas do inventor de todos, Liam Shakespeare. Liam acabou ganhando a companhia de Rimbaud e dos livros sobre teatro antigo e moderno. Ruy Castro aparece ao lado de seus companheiros Sérgio Augusto, Paulo Francis, José Lino Grünewald e João Máximo. Umberto Eco ficou, imagino que sem estranhamento algum, com os franceses (Sartre, Foucault, Derrida, Deleuze, Ricoeur e Bourdieu). Finalmente temos as seções para obras de variedades (guias turísticos, xadrez, uma paixão antiga que voltou) e para as biografias.
Há uns anos fui à Biblioteca do IBEU de Copacabana para uma visita. Grande decepção, já sabia que Almerita e Regina haviam sido dispensadas e não estavam mais lá há muito tempo. Triste foi ver que o IBEU continua mandando embora tudo o que tinha de mais importante. Assim, muitos dos livros que consultei com gosto sumiram das estantes. A modernização da biblioteca significou a redução de pessoal especializado e de sua coleção de livros. Uma pena.
Resenha vlogueira de Jean-Philippe Depotte (clique aqui)
Tenho aproveitado muito as ótimas postagens que figuram no mundo pra lá de interessante do “broadcast yourself”. Tanto assim que do pouco que assistia de TV não restou quase nada. Estava no entanto aguardando que aparecesse alguma coisa inovadora ligada à literatura, o que acabou acontecendo com o canal no youtube do francês Jean-Philippe Depotte. O primeiro vlogueiro resenhista a se dedicar ao comentário literário com observações mais detidas sobre as obras analisadas. São postagens refinadíssimas desse escritor (tem quatro romances publicados) apresentadas com requinte raro. Fui a ele por causa do último Nobel de literatura, o também francês Patrick Modiano. Estava dando conta da leitura de “Uma rua de Roma” (“Rue des Boutiques Obscures”) e os comentários da postagem de Jean-Philippe foram fundamentais para me despertar o interesse pela obra. Recomendo que assistam (link acima).
“Uma rua de Roma” é um romance de 1978 e aposta em certa vertente da criação literária da época que tentava transformar o leitor em participante ativo da narrativa. É surpreendente ver como essa literatura parecia um pouco que antecipar o que viria com as narrativas dos jogos de RPG e de computador. Mas o romance de Modiano é bem mais que isso. Vamos a um resumo de seu enredo, semelhante ao que Depotte faz para cada uma das criações literárias que analisa nas postagens de seu vlog (leva o título geral de “alquimia de um romance”). Aliás, antes disso devo dizer que tenho conversado com ele por e-mail e discutido a possibilidade de preparação de uma versão em português brasileiro para suas resenhas-vlogueiras.
A narrativa de “Uma rua de Roma” dá conta da trajetória de um certo Guy Roland que, já na fase adulta de sua vida, foi acometido por um episódio de amnésia. Ele é aceito então para trabalhar na agência de investigação (ou de “informações mundanas”, como preferem) de Constantin von Hutte, que simpatiza com nosso protagonista porque também Hutte “perdera os próprios rastros”. Recorrendo à estrutura da agência de detetive com seus catálogos e anuários (“a mais preciosa e comovente biblioteca que alguém pode ter, pois em suas páginas estavam registrados muitos seres, coisas e mundos desaparecidos”), Guy Roland irá tentar reconstituir o seu passado. Nós o acompanhamos e compartilhamos ainda das fichas com informações conseguidas por Jean-Pierre Bernardy, investigador que o auxilia.
Com seus levantamentos, Guy Roland chega a pessoas que conviveram com ele ou com conhecidos dele e que passam a fornecer para o protagonista toda sorte de pistas através de fotos, lembranças, revistas e outros objetos que guardam. O problema é que Guy e aqueles que ele consulta têm dificuldade em reconhecê-lo nas fotos (um artifício narrativo pouco convincente), o que compromete as certezas sobre seu passado. Quando passa a encontrar com pessoas com quem conviveu fica também constrangido em dizer o que se passou já que sua atual identidade é falsa (foi conseguida por Hutte) e ele é um detetive, o que causa embaraços (novo artifício pouco convincente, mas, enfim, muitas vezes, é disso que é feita a ficção). Guy Roland também não tem nenhum parente que pudesse dar conta de sua vida pregressa. Essas são as artes e manhas utilizadas por Modiano para envolver seu personagem em uma atmosfera de sonho que beira o delírio e que rende momentos literários extraordinários.
O senão (para mim pelo menos) é que a certa altura, Guy Roland, ou Freddie Howard de Luz, ou Pedro de Luz, ou Pedro McEvoy, ou Jimmy Pedro Stern (as pistas o fazem pensar que talvez seja diferentes pessoas), junto com as informações que vai levantando, começa a ter lapsos que trazem de volta sua memória pregressa e ele passa a relembrar momentos que nos levam a saber detalhes precisos de sua vida. Em especial, os pormenores da fuga malsucedida que, durante o período de ocupação alemã da França, fez pela fronteira com a Suíça (o tema da Segunda Guerra é recorrente na obra de Modiano). O leitor pode achar que estou entregando spoilers do romance, mas não se trata disso. Essa narrativa completamente implausível além de ser uma paródia ao romance policial rende uma escrita de qualidade sublime nas mãos do escritor. O livro nos leva a nos identificarmos com Guy Roland e nos lembrarmos de passagens que como ele vivemos acordados ou supostamente sonhando, no esforço consciente ou inconsciente de reconstruir ou reviver o passado. Material de sobra para a ala de leitores “psi” fazer a festa com uma abordagem psicanalítica do romance.
Outro senão, esse para mim mais problemático para um escritor premiado (embora tenhamos escritores ganhadores do Goncourt, como Houellebecq, e mesmo do Nobel de literatura, que colocam em dúvida os critérios dessas premiações), diz respeito a certa discrepância no estilo narrativo relacionado com a trama especificamente. Há o personagem misterioso da atriz russa Mara Gay Orlow, que se suicidou com barbitúricos em sua residência luxuosa em Paris, e que aparece em uma das fotos que acabam nas mãos de Guy Roland. Antes de chegar à França, Gay Orlow conheceu o submundo da América onde fez shows como dançarina em Nova York e onde teve um caso com o mafioso Lucky Luciano. Acho que nesse momento, a trama de Modiano começou a se aproximar demais do roteiro de uma das chanchadas da Atlântida. Mas esse é um detalhe que pode passar desapercebido no romance.
A tradução de Herbert Daniel e Cláudio Mesquita é ótima, mas poderia ter sido atualizada já que ela foi feita há um bom tempo e o uso de alguns termos como “fossa” e “boda” (para “festa”) poderiam ter sido revistos. Como bem comenta Depotte, o estilo de escrita de Patrick Modiano é feita com frases simples e diretas, o que facilita o trabalho de tradução. Apesar dessa linguagem direta e sem rebuscamento, há algumas passagens do romance que merecem destaque. Elas vão a seguir:
“Passamos pelos jardins e tomamos a avenida de New York. Ali, sob as árvores do cais, tive a desagradável impressão de sonhar. Já vivera minha vida e não era senão uma alma penada que flutuava no ar morno de uma noite de sábado”
“Hutte repetia que, no fundo, todos somos “homens das praias” e que “a areia” – cito seus próprios termos – “só guarda por alguns instantes as marcas dos nossos passos”
“Pode acontecer que a gente acabe não mais reconhecendo um lugar onde viveu?” (Guy Roland ao voltar ao apartamento em que morou com sua mulher, Denise, desaparecida)
“Acho que se pode ouvir ainda, nas entradas dos prédios, o eco dos passos daqueles que habitualmente as atravessaram e desapareceram”
O carnaval deste ano me levou ao encontro da civilização Maia. Não, não tivemos nenhum novo bloco com foco nas músicas e rituais dos povos da América Central a carnavalizar ainda mais a bagunça de rua carioca que vive seu momento de renascimento glorioso no Rio. Eu é que fui fazer meu turismo farofeiro all-inclusive no mar azul-turquesa de Cancún e me deparei com uma cultura que ainda acho muito desdenhada pelos radares globais. Se tivesse florescido em algum canto da Europa, seria muita mais falada. Toda a experiência em si já foi um grande acontecimento multicultural. O ponto alto do passeio era a visita à pirâmide de Kukulcán, na cidade arqueológica de Chichén Itzá no interior do estado mexicano de Yucátan. Yucátan é vizinho de Quintana Roo, estado onde se encontra Cancún. Ao sul da península em que está instalado o complexo hoteleiro com seus resorts, fica também uma outra das atrações que gostei de ver, as ruínas de Tulum, esta à beira-mar. Para o primeiro destino segui com um grupo de visitantes que incluía um casal de chineses e seus dois filhos (de onde na China, não consegui saber, talvez de Taiwan, mas moradores de Seattle na costa oeste norte-americana), um iraquiano (da cidade de Zakho, no norte do país, na divisa com a Turquia) e três nova-iorquinas (do bairro de Queens). Viramos rapidamente um grupo entrosado na estrada em busca de desfrutar algumas horas do legado e dos monumentos deixados por essa extraordinária e rica cultura que por ali se disseminou. E as pirâmides realmente fascinam por sua grandiosidade e pelos detalhes das construções. Tudo aquilo que os canais de TV Discovery e History alimentam em nossa imaginação se concretizam de repente e arrebatam por sua imponência. Os rituais políticos que tinham lugar nos monumentos maiores e os rituais sagrados em construções menores deviam ser acontecimentos impressionantes e ainda tenebrosos por conta de seus sacrifícios humanos. No caminho, Eric, o garotinho de 10 anos de descendência chinesa, me desafiou a solucionar em seu tablet problemas de xadrez do enxadrista Lasker (confesso que não sei se ele se referia a Emanuel ou Edward; o puzzle engenhoso envolvia um xeque-mate com apenas três cavalos e os dois reis no tabuleiro). Não foi surpresa portanto saber que seu nick no site chess.com é Ericisawesome. O iraquiano Abdulsalam, ou Salam simplesmente, vive nos Estados Unidos, mas trabalha em missão diplomática americana no Iraque. Tem familiares vivendo no país e conhece as atrocidades dos integrantes do Estado Islâmico de perto. Salam vinha de férias pela Argentina e pelo Rio, onde ficou encantado com o desfile das escolas de samba e com a visita ao Cristo. Já estava arranhando o seu castelhano misturado ao nosso português brasileirinho e não resisti a apresentá-lo a “El Justiceiro”, dos Mutantes. O passeio terminou no cenote sagrado de Chichén Itzá. Um dos poços subterrâneos encontrados e mantidos pelos Maias para rituais e hoje espaço de banho com suas bancadas construídas para saltos n´água.

Ana C. lendo a poesia “Samba Canção” (clique aqui)
Como para todo mundo, chega um dia em que se tem de encarar a sua nomeação para ocupar a delicada, a espinhosa, a onerosa posição de síndico. Principalmente em um condomínio em que há um rodízio significativo dos condôminos que se prontificam a assumir essa tarefa. Há uma semana sou síndico de um edifício que tem no entanto significado especial para mim, pois foi aqui, no prédio em que resido, que morou boa parte de sua vida e escreveu muito de sua obra a poetisa, tradutora, crítica e escritora Ana Cristina César. Foi aqui também que ela deu cabo de sua curta existência, se atirando pelo vão da área central que divide às unidades de frente e fundos. Não seria a primeira, ainda que viesse a ser a derradeira tentativa de por fim a sua vida. Seu Cosmo, porteiro do prédio desde 1965, em seguida a conclusão das obras que colocaram a edificação de pé, conheceu bem a família de Waldo César e Maria Luiza, pais de Ana C. (uma das alcunhas com que a autora assinava seus escritos). Conviveu muito com todos e estava por sinal na portaria quando se deu a tragédia. Ana Cristina, depois de morar em uma casa na Gávea uns poucos anos, período em que trabalhava como revisora na Rede Globo, entrou em uma crise séria de depressão. Voltou para o apartamento dos pais e aqui ficou com uma acompanhante. No domingo, dia 29 de outubro de 1983, convenceu sua enfermeira a deixá-la tomar banho sozinha. Aproveitou o descuido e fez o que vinha planejando há um bom tempo. Waldo César e Maria Luiza estavam morando no Chile e retornaram para viver o pesadelo que os acompanharia pelo resto de seus dias. Vim a trabalhar com Waldo César em 1990, oito anos depois da morte de Ana C., e ele ainda carregava a sombra do incidente que lhe roubou a talentosa filha. Por essa época, o documentarista João Moreira Salles se aproximou do sociólogo, que lhe cedeu tudo o que tinha de registros sobre a vida e a obra da escritora. O cineasta fez então o belíssimo curta-metragem “Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem”, com as imagens de que dispôs. Todo o acervo de escritos de Ana Cristina foram ainda levados para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, onde se encontram catalogados e à disposição do interesse de pesquisadores. O IMS por sinal, já reeditou toda a obra de Ana C., bem como seus inéditos, dando aos leitores tudo o que a autora produziu em seus 31 anos de vida. Acho que nosso condomínio merece mesmo uma das placas que a prefeitura tem feito assinalando os pontos em que moraram as pessoas que trouxeram contribuições significativas para a cultura carioca e brasileira. Fez isso por Nara Leão. Vamos ver se o atual síndico consegue sensibilizar as autoridades a dedicar a mesma reverência ao nome de Ana Cristina César.
Disse Oscar Wilde em um de seus textos que não consigo parar de citar: “(…) eu devo confessar que gosto de toda sorte de memórias. Admiro tanto por sua forma, como por seu conteúdo. Em literatura, o mero egoísmo é fonte de enorme prazer.” Wilde coloca então o personagem Gilbert a enumerar vários autores (Rousseau, Byron, Balzac, Flaubert) que deliciaram seus leitores com suas passagens autobiográficas. Em contradição com o que pregava o cordão do Procure Saber (já tomaram vergonha na cara e sumiram, graças a Deus), Chico Buarque resolveu contar a história de seu pai e de parte de sua família sem nenhum constrangimento. Como desculpa, tratou de ficcionalizar sua narrativa. O resultado é o ótimo “O Irmão Alemão” (Companhia das Letras, 2014). Li o livro com um grupo grande de amigos que, ainda que não tenham gostado (em sua maioria) da nova aposta do autor, ficaram de qualquer jeito convencidos das qualidades literárias do “romance”. Para quem tem interesse restrito em narrativas com plot bem amarrado e encadeadas em sequência vertiginosa, a estrutura solta de “O Irmão” talvez deixe a desejar. Chico, no entanto, parece que vem apurando seu talento de romancista e elevando a voltagem literária de seu texto. Particularmente, não aprecio a opção de se ficcionalizar abertamente fatos autobiográficos. É verdade que cada caso é um caso e que o livro de Chico não chega a soar tão inadequado quanto o “romance” “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, por exemplo. Ainda que não simpatize com sua abordagem, “O Irmão Alemão” acabou me surpreendendo e me transformando em um leitor apaixonado por sua narrativa.
Fui reencontrar o passado relendo o texto que escrevi para o encontro “Crítica e Valor”, simpósio em homenagem a Silviano Santiago, que aconteceu em 2006 e cujas comunicações estão sendo agora editadas em livro. Como já disse em postagem anterior, entrei um pouco de gaito nesse evento que reuniu a nata da crítica literária brasileira e estrangeira. Estava na ocasião fechando minha tese de doutoramento. Tinha a maior vontade de ter Flora Süssekind, professora da minha graduação e autora de quem sou fã (acompanho sua trajetória desde que ela me dava aula e escrevia resenhas de teatro infantil para o JB), em minha banca de defesa, mas, diante da impossibilidade de se fazer presente por excesso de trabalho, ela acabou me convidando para apresentar uma comunicação e nos revermos no seminário que estava organizando em homenagem a Silviano.
Foi um desafio. Especialmente porque o homenageado, de quem sou também grande admirador e cuja escrita ficcional e não-ficcional é de um refinamento sem par entre os críticos de todas as origens, nunca escreveu uma única linha sobre a obra de Nelson Rodrigues, assunto de minha tese e que me ocupava completamente. Mas no fim das contas não foi difícil vislumbrar a possibilidade de um encontro entre Nelson e o tema do seminário, tão querido a Silviano. O caminho até lá veio com um dos geniais textos de Oscar Wilde pelo qual andava fascinado na época: “The Critic as Artist”. Voltei também a ele agora. É uma dessas coisas maravilhosas cujo prazer só a boa literatura consegue nos proporcionar. Nele, Ernest, personagem homônimo ao da peça “The Importance of Being Ernest”, conversa com seu amigo Gilbert sobre o real valor e utilidade da crítica. Um, o intelectual Ernest, atacando os críticos, o outro, o músico Gilbert, a defendê-los. Nelson Rodrigues ficaria do lado de Ernest sem dúvida e foi uma pena que pressionado pelo dead-line do seminário não tenha escolhido a epígrafe mais precisa no texto de Wilde. Trata-se daquela em que Ernest afirma: “Por que aqueles que não podem criar se incumbem de avaliar o valor de um trabalho criativo? O que eles podem saber sobre isso? Se o trabalho de alguém é fácil de ser entendido, uma explicação é desnecessária.” Nelson assinaria embaixo. No meu ensaio mostro como Nelson Rodrigues condicionou de certa maneira a visão de muitos críticos que escreveram sobre sua obra (Sábato Magaldi, Hélio Pellegrino, e tantos outros). Críticos estes que tentaram ir contra o pensamento de Ernest e convencer seus leitores de que tinham algo mais a dizer do que tudo aquilo que a própria obra artística de Nelson comunicava.
Por causa do ensandecido trabalho que deve ser a edição de uma obra volumosa como o livro do seminário “Crítica e Valor”, que conta com 710 páginas. Um trecho de meu texto foi omitido durante a edição. Segue abaixo a errata para que a página 278 faça total sentido:
“Se em uma vertente de matiz historiográfico que busca a delimitação de autor e obra podemos, portanto, vislumbrar a insinuação de um dado valorativo, no que se refere à crítica, esse aspecto se faz presente de forma mais evidente. Mesmo porque é papel desta assinalar o grau de permanência de uma obra. Os escritos de Nelson Rodrigues mostram um autor consagrado, uma unanimidade surpreendente e em desacordo com quem sempre repelia o pensamento único. Um dos poucos pontos da recepção crítica de seus escritos que tem ensejado certa controvérsia, diz respeito à discussão sobre se seus textos assinalariam ou não a manifestação de uma autor moralista.
O assunto não poderia escapar ao crítico maior da obra teatral rodrigueana, Sábato Magaldi. Magaldi toca nesse tópico em suas apresentações das peças de Nelson que podem ser apreciadas como um todo no livro Teatro da obsessão: Nelson Rodrigues. Em seu texto, afirma o membro da Acadêmia Brasileira de Letras:
A dualidade bem-mal sustenta os comportamentos, sem primário…” (segue citação de Magaldi em destaque)
Ontem foi dia de voltar ao passado em visita à casa do ilustre senhor Rui Barbosa, jurista, diplomata, orador, jornalista, filólogo, tradutor, e o que mais se possa pensar relacionado com o mundo do direito, da diplomacia e das letras. O passeio a Botafogo tinha como objetivo recolher exemplares com os ensaios apresentados durante o encontro internacional “Crítica e Valor”, organizado pelas queridas Célia Pedrosa e Flora Süssekind ao lado da pesquisadora Tania Dias. O encontro, em homenagem a um de nossos maiores críticos literários, Silviano Santiago, aconteceu em 2006 e já não contava com a publicação das palestras em livro. Os ensaios apresentados durante o simpósio são assinados por um número grande de renomados críticos brasileiros e estrangeiros. Walnice Nogueira Galvão, Paulo Henriques Britto, Beatriz Resende, Hans Ulrich Gumbrecht, puxam uma lista extensa. Flora, professora na minha graduação na PUC-RJ, na época em que começava a deixar de assinar seus textos como Maria Flora, teve a boa vontade, a generosidade e, diria mesmo, o atrevimento de me colocar ao lado de figuras tão consagradas. Lá estou com o ensaio “O artista enquanto crítico”. Espero que gostem, muito embora acredite que esses ensaios discutem assuntos que só interessam a quem vive no meio universitário.