Torre de Comando para David Robert Jones

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“Black Star”, faixa-título do último disco de Bowie (clique aqui)

“Lazarus”, uma das composições de “Black Star” (clique aqui)

Foi um grande baque encontrar pela manhã a fã toda inconsolável com a notícia de que, como disse, David Bowie havia virado estrelinha. Confesso, no entanto, que sabia que as coisas não iam bem com Bowie. E isso por um  motivo simples. O Major Tom, o Ziggy Stardust, o Thin White Duke, era um performer, gostava de brilhar sob as luzes do palco exibindo todo o seu talento para admiração das muitas plateias que o acompanhavam e o aplaudiam onde quer que ele fosse. Quando ele sumiu por completo de cena, estava na cara que algo de muito errado estava acontecendo. Continuou produzindo da maneira que era possível e “Black Star” e “Lazarus”, músicas/clipes de seu último disco, são registros de alguém que não pode deixar de ser fiel à sua arte. É como se dissesse: é triste, mas é isso que estou vivendo e tenho que colocar o meu talento a serviço e como testemunha de tudo pelo que estou passando. Muito corajoso e belíssimo, David Robert Jones.

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Jornalismo, Literatura e o “Maracanazo”

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É antigo o namoro do jornalismo com a literatura. O último surto mais forte, consistente e inovador deste fenômeno talvez tenha sido o que ficou conhecido como o “Novo Jornalismo” norte-americano. Em vez de frequentarem as redações dos jornais como se estas fossem, nas palavras de Tom Wolfe, “um motel de 24 horas” pelo qual passavam enquanto aguardavam o tempo necessário para que escrevessem seu grande romance, os jornalistas começaram a querer tentar fazer literatura no meio impresso. O próprio Wolfe, e ainda Truman Capote, Hunter Thompson, Gay Talese e outros muitos, trataram de agregar voltagem literária aos seus escritos jornalísticos.

Dentro do jornalismo brasileiro, a crônica foi sempre o espaço literário por excelência. Nossos maiores escritores moldaram com a tão falada cor local aquele que acabou ficando conhecido como o gênero típico das letras brasileiras. De Machado de Assis a Drummond, passando por um plantel de autores que deram brilho e desenvolveram seus estilos amparados nesta vertente. Gente como Rubem Braga, Nelson Rodrigues (com uma obra sem paralelo em sua extensão neste gênero), Fernando Sabino e Vinícius de Morais (sob risco de ser atacado pelos amantes de sua poesia, confesso que tenho a crônica de Vinícius como o melhor de sua obra), entre muitos. Há ainda os cronistas pouco lembrados como o Apicius, que no meu entender escrevia crônicas ao resenhar suas visitas gastronômicas aos restaurantes da cidade (ou ao falar sobre os pastéis preparados por sua cozinheira), e o estrangeiro em meio a brasileiros que foi David-Drew Zingg, que vazava as colunas de Tio Zingg em inglês para que fossem traduzidas e publicadas na Folha de São Paulo.

O gênero se firmou de tal forma dentro da imprensa brasileira que todo jornalista com alguma ambição se prepara para um dia conseguir estrear a sua coluna de cronista. Poucos chegam lá. Dos jornalistas da geração que se inciou nas redações nos anos 80, Arthur Dapieve conseguiu a proeza e vem se dedicando abnegadamente ao ofício desde 1993. É verdade que a geração de Dapieve diminuiu a pátina literária da crônica. Praticaram principalmente, ainda que não de maneira exclusiva, o que Afrânio Coutinho classificou como crônica informativa. Isso se deu certamente porque todos vinham de carreiras nas seções de cultura, resenhando discos, livros, filmes. Esta geração tentou de qualquer jeito investir pela seara literária apostando eventualmente em uma “crônica narrativa” (próxima do conto, seguindo mais uma categorização de Afrânio Coutinho) ou trabalhando seus dotes para a escrita ficcional, fabular, em livros planejados com este fim.

Antes de sua estreia ficcional, Dapieve esteve no Jornal do Brasil onde se inciou com seu texto classudo trabalhando como repórter na redação do prédio da Avenida Brasil 500 nos anos de 1980. Tratou de preparar posteriormente dois livros-reportagem que consolidariam sua trajetória de jornalista nas décadas seguintes. Fez os ótimos “BRock” (Editora 34, 1995), contando sua vivência do rock brasileiro oitentista, e “Renato Russo – o Trovador Solitário” (Relume Dumará, 2000), biografia do líder da Legião Urbana. Escreveu também um trabalho acadêmico, “Morreu na Contramão – o Suicídio como Notícia” (Jorge Zahar Editor, 2007), resultado de uma pesquisa de mestrado. Em seu estudo de pós-graduação, Dapieve procede de início a um apanhado sobre como autores-chave no debate sociológico-filosófico (Durkheim, Marx, Camus) trataram, examinaram e discutiram o suicídio. Em seguida, parte para mostrar a forma cuidadosa, e por vezes tendenciosa, com que a imprensa estampou e continua a estampar o “to be or not to be” (para Camus, segundo Dapieve, a única pergunta fundamental a ser feita) em suas páginas.

Sua prática ficcional é posterior aos livros-reportagem e anterior a esta pesquisa. Ela teve sua estreia com “De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo” (Objetiva, 2004), seguiu com “Black Music” (Objetiva, 2008) e acaba de somar um terceiro título à lista com a edição de “Maracanazo” (Alfaguara, 2015), lançado no finalzinho do ano passado. “Maracanzo” reúne 5 contos, embora o último escrito, que dá nome ao livro, possa ser entendido como uma novela em função de sua significativa extensão. Nesta novela, temos a retomada do tom do primeiro romance de Dapieve. Ainda que a narrativa não guarde relação direta com seu livro de estreia, a escrita segue orquestrada por alguém que sabe criar cenas de alta qualidade literária entremeadas por diálogos certeiros.

Assim como “Fragmento da Paisagem”, segundo dos 5 contos do livro, “Maracanazo” tem como ponto de partida um acontecimento real: o jogo da Copa do Mundo de 2014 em que o Chile tirou a Espanha, campeã de 2010 e força maior do futebol de então, da disputa pelo título. Durante seu desenrolar uma eufórica filha de chilenos, Violeta, e um inconsolável espanhol, Victor, se conhecem e traduzem a rivalidade tanto histórica quanto futebolística entre os dois países. Do esporte de massas para a música das elites, vamos ter, em “Fragmento da Paisagem”, um senhor rememorando o encontro amoroso entre seus pais (começo de sua história) depois da audição do último registro da nona sinfonia de Mahler, regida por Bruno Walter em janeiro de 1938 em Viena. Trata-se da última apresentação pública da sinfonia antes do domínio nazista – resiste até hoje, registrada que foi em áudio.

Interessante ver como os leitores se alternam na escolha de seu conto predileto. Ciça Brandi gostou de “Bloqueio”. Conversando me disse que foi este o conto que mais a impressionou. Ian, meu sobrinho, seguiu a recomendação da dedicatória autográfica do autor e grudou na leitura de “Inverno, 1968”, recriação de mais um fato real: um dos últimos ensaios de Syd Barrett com seus companheiros do Pink Floyd. Eu gostei muito de “Maracanazo” mas o preferido foi o conto de abertura, “Tempo Ruim”. E isso por um motivo estritamente afetivo. Passei  a adolescência e pós-adolescência me esbaldando na praia de Copacabana e tenho para mim que falta uma narrativa épica para retratar a vida à beira-mar do carioca. Dapieve teve um primeiro insight, falta desdobrá-lo em uma aventura grandiosa (acho que Melville, o de “Redburn” principalmente, talvez fosse uma boa inspiração para isso).

Devoto e fiel seguidor de Zé Rubem, o escritor prepara, no entanto, um romance policial para dar sequência ao “Maracanazo”. “Táxi Argentino”, seu conto para o livro-coletânea “Rio Noir” (Leya, 2014), organizado pelo Titã Tony Bellotto, é o capítulo inicial do romance ao qual se dedica. Ao que tudo indica, deve prevalecer o climão policialesco de “Black Music”. Vamos acompanhar o detetive Cabeção e seu ajudante Aguiar para saber por que uma loura falsificada de vestido preto foi acabar dependura em uma das encostas do Cristo Redentor. Será que o traveco Candy Spears e seu companheiro de noitada, Lipe (ou por extenso, Felipe Krauss Barreto), têm alguma coisa a ver com isso? É esperar para saber.

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Notícias de Dezembro e a Chegada do Ano-Bom

Captura de tela inteira 31122015 084907IMG_0565-001Ninguém tinha medo, nem de sol, nem de praia. Nem a Flora Süssekind, nem o Caetano Veloso, nem o Eduardo Mascharenhas, nem a Patrícia Kogut, nem o Hermano Vianna, nem o Bernardo Carvalho, que estaria embarcando em breve para enfrentar as temperaturas glaciais de Nova York, nem o Herbert Vianna, louco de vontade de voltar pra casa pra registrar uma melodia no seu Casiotone, nem o Bussunda, nem o Hélio de la Peña, nem os outros Cassetas. Quanto à botafoguense Maitê Proença, não saberia dizer. Ela nunca passou por lá.

Foi a Leila Maia, no entanto, que chegou ao posto 9 com a notícia de que tinham matado o John Lennon. A partir de então fui cultivando a impressão, a cada fim de ano subsequente, de que dezembro sempre vem com alguma notícia ruim. Cheguei a enumerar vários incidentes brutais que marcaram esse mês, mas como, ainda que não seja supersticioso, tenho lá minhas superstições, deixei a tarefa de lado e trato de endereçá-la aos que tiverem interesse neste passatempo mórbido. Mesmo porque veio aquela voz interior a repetir: “Cala a boca, Batista. Cala a boca, Batista”.

Tentei me convencer também que talvez esse não seja necessariamente o caso. Coisas terríveis se repetem em todos os meses de maneira indiscriminada. E qualquer retrospectiva nos mostra o número de fatos tenebrosos que tivemos ao longo de 2015. Ocorre, entretanto, que o que acontece em dezembro acaba ficando especialmente marcados em nós por ser este um momento de confraternização e que deveria (obrigatoriamente) permanecer intocado.

Este ano tivemos, por exemplo, o incêndio que consumiu por completo o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Mais um indício, na cabeça agorenta, da maldição de dezembro. Antes de encarar a notícia como uma tragédia inesperada, pareceu, a bem da verdade, um descalabro dos responsáveis por manter aquele espaço. Tive a oportunidade de fazer duas visitas ao Museu. A primeira por ocasião de uma belíssima exposição dedicada a Fernando Pessoa em 2010. Em novembro passado, tratei de retornar com o maior entusiasmo para conferir a homenagem a Luís da Câmara Cascudo. Foi, no entanto, uma grandicíssima decepção. Vi uma exposição sem graça e que não comunicava quase nada sobre a obra do folclorista.

Se a exposição temporária deste ano no primeiro piso não chegou a impressionar (se salvaram apenas algumas bonitas imagens, reprodução de fotos de Câmara Cascudo), a apresentação permanente de poesia em um anfiteatro no terceiro e último andar foi um momento de epifania. Não tinha assistido a essa espécie de recital poético na primeira vez em que lá estive. Não sei, portanto, se foi  acrescentada há pouco tempo.

Eram trechos muito bem selecionados de poemas (Camões, Gregório de Matos, Drummond, Vinícius, Manuel Bandeira), de textos em prosa (Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Oswald e Mario de Andrade) e de fragmentos de músicas (Noel Rosa, Emicida), acompanhados por projetações que exploram a materialidade das palavras. Enquanto eram lidas, recitadas, cantadas, pelas vozes possantes de Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Paulo José, Maria Bethânia, Chico Buarque, Bete Coelho e um elenco de primeira, elas surgiam aleatoriamente no teto, nas paredes e no chão. Parece que tínhamos três destes recitais que se alternavam ao longo do dia.

Trabalho muito bem feito com concepção visual arrojada de Marcello Dantas, que de empreendedor da saudosa sala Magnetoscópio se transformou em curador artístico renomado, e direção musical de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski. A projeção acontecia no galpão que chamavam de Praça da Língua e que foi reduzido a cinzas como mostraram as imagens das chamas que consumiram vorazmente toda a estrutura interna do edifício da Estação da Luz.

Uma pena ter de esperar a reconstrução do Museu que, com a dívida que assola todos os Estados, deve demorar para acontecer, para que possamos viver experiência tão estimulante e voltarmos a fruir alguma exposição temporária mais inspirada. O passeio a São Paulo tinha como roteiro ainda a passagem pela Casa de Mario de Andrade, recentemente reinaugurada. Queria conhecer o sobradinho em que o escritor residiu boa parte de sua vida. No site na Internet, somos informados que a Casa da rua Lopes Chaves, na Barra Funda, fica aberta à visitação aos sábados, mas isso não se confirmou na prática. Tive que contemplar tudo do lado de fora. Aos que se interessarem em ir conhecê-la em um sábado, aconselho que liguem se informando se a Casa de Mario estará aberta para visitação.

O melhor de ir a São Paulo é voltar para o Rio de Janeiro e ver com outros olhos como essa cidade é realmente, e apesar dos pesares, qualquer coisa de muito especial (não há nenhum bairrismo nisso porque sou nascido em Lages, Santa Catarina). Dá pra entender assim por que temos tantos paulistas passeando por aqui na expectativa pelo Réveillon deste ano. Nós vamos pra lá em busca de programas culturais. Eles baixam por aqui em busca de alguma das paisagens arrebatadoras e da festa da virada que é infinitamente mais bonita na Cidade Maravilhosa.

Aproveito o finalzinho da postagem para desejar aos amiguinhos e amiguinhas, leitores e leitoras, um 2016 com tudibom, como dizia o Rogério Durst, colega de trampo jornalístico, muito querido, que se foi em abril, bem no comecinho do ano, tendo completado apenas 54 voltas de vida ao redor do sol.

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MozCult – Mémorias com o Último Rockstar Internacional

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All over this town
Yes, a low wind may blow
And I can see through everybody’s clothes
With no reason
To hide these words, I feel
And no reason
To talk about the books I read
But still, I do, That’s ‘cause I’m a…
Sister I’m a…
All over this town

Link para a vinheta do programa “60 Minutos de Música Contemporânea” (clique aqui)

Aproveitando a recente passagem de Stephen Patrick Morrissey pelo país, vamos a um apanhado sobre os livros que têm se dedicado a comentar o percurso do muito querido cantor, compositor, letrista. Alguém que vem há mais de 30 anos fazendo a trilha sonora da vida de muita gente. Como se Moz tivesse sido incumbido de dar sentido a cada momento, cada passagem, cada acontecimento de nossas existências. A poesia desempenha inocentemente essa função e o letrista/cantor encarna o papel de alguém que espelha as aflições, anseios, expectativas, de nossas pobres animas.

Morrissey – Autobiography (copyright de 2011 da Whores in Retirement, editada, em 2013, pela Penguin; inédita no Brasil), com o crivo imponente e inesperado da Penguin Classics, selo que costuma ser reservado apenas para obras consagradas, era a tão aguardada autobiografia que o ex-frontman dos Smiths vinha prometendo há um bom tempo. Através dela, descobrimos que Morrissey recorria, da mesma maneira como seus fãs fazem agora, à música de seus artistas favoritos para fazer a apropriação das condutas, atitudes, posturas (ou poses, afetações, fingimentos, como queiram) de seus cantores e bandas prediletos.

Ficamos sabendo assim que ele idolatrava, de maneira idêntica a forma como é idolatrado hoje, os mesmos grupos que a juventude carioca, criada no começo dos anos 70, venerava. Meu avô paterno, que ficou viúvo ainda na casa dos 50 anos e vivia com sua única irmã em Ipanema, gravava para o seu neto, sempre que solicitado e com o maior gosto, as edições (às 15h, de segundo a sexta) do “60 Minutos de Música Contemporânea”. Um programa da rádio JB AM apresentado pelas vozes de Sérgio Chapelin, Orlando de Souza e Eliakin Araújo e onde se ouvia em primeira mão os novos discos de Marc Bolan, David Bowie, New York Dolls e de outros artistas que salvavam os modorrentos dias de Moz em Manchester. Para nós, o New York Dolls era mais uma banda com gente fantasiada, como o Kiss. Para Moz, eles eram a banda. Embora todos, inclusive Moz, soubéssemos que, por estranho que possa parecer, a pinta de boneca deles nada mais era do que artifício para impressionar as fãs.

Além de ir para a fila do gargarejo nos shows de Ramones, Patti Smith, Iggy Pop, Lou Reed, Morrissey marcava ponto na porta de teatros e hotéis atrás de algum contato com seus artistas favoritos.  De Marc Bolan, ele se aproximou no lobby do hotel Midland em Manchester. Para um sofrido pedido de “Será que você me daria um autógrafo?”, teve de ouvir a resposta negativa: “Ah, não”. Na porta da casa de espetáculo Stretford Hardrock, ele teve mais sorte com Ziggy Stardust. De salto alto e roupa lamê, Bowie desembarcou de uma Mercedez preta ao meio-dia e o jovem Moz conseguiu, ainda vestindo o uniforme de escola, tocar a mão e passar um bilhete para seu ídolo sem poder sonhar que anos depois os dois se aproximariam. Em uma de suas temporadas de férias na casa de uma amiga de sua mãe em Staten Island, Nova York, ele foi ao CBGB onde se apresentava uma banda que desconheço, Sparks. Gostava dos irmãos Mael e fez uma foto com Russell na porta do clube cult nova-iorquino.

Depois de ter tentado parceria com Billy Duffy, futuro guitarrista do (Theatre of Hate, Southern Death Cult e, finalmente,) The Cult, Morrissey começou a compor com um outro instrumentista que Duffy indicara como muito mais talentoso do que ele próprio, Johnny Marr. Marr trouxe Mike Joyce e Andy Rourke e assim nasceu os Smiths.

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As capas conceituais dos singles dos Smiths, com fotos que iam do fisioculturista George O´Mara (“Hand in Glove”), tirada de um livro de nu masculino, ao de Viv Nicholson (“Heaven Knows I am Miserable Now”), famosa por afirmar que iria “gastar, gastar, gastar”, quando o marido ganhou na loteria na Inglaterra dos anos 60, passando por atores (Jean Marais, Terence Stamp, Richard Bradford), atrizes (Pat Phoenix, Yootha Joyce, Candy Darling), escritor (Truman Capote) e cantor (Elvis Presley) 

Uma de minhas irmãs e meu irmão viram o que não tive o prazer de presenciar. Uma apresentação do início da  carreira dos Smiths, em 24 de julho de 1983 no Hammersmith Palais (antológica casa de shows em Londres que já não existe). Os Smiths estavam abrindo o concerto dos Altered Images, ao lado de outra banda que, como os Altered Images, despontaria para o anonimato, Roman Holliday. Só tinham gravado uma única música, “Hand in Glove”, lançada como um compacto em maio de 1983. “This Charming Man” era a composição nova do repertório do grupo e, editada em novembro daquele ano, viraria outro dos clássicos eternos dos Smiths. Continua até hoje levantando as apresentações de Morrissey, como se comprovou em seus shows no Brasil.

Em seu diário da época, minha irmã Marcinha Pedrosa anotou:

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Pouco mais de um ano depois, no segundo semestre de 1984, já impressionado com o disco de estréia dos Smiths e especialmente com uma música que infelizmente não aparece no repertório solo de Moz, “What Difference Does it Make?”, ouviria a transmissão radiofônica de outra composição que chegaria para virar mais um clássico dos Smiths, “How Soon is Now?”. Teve sua execução inaugural no programa de John Peel, na BBC Radio 1, assim que foi lançada, em setembro de 1984. Não dá para compreender a má vontade de Morrissey com o DJ que tanto fez pelos Smiths e por sua carreira.

O olhar clínico de Seu Peru não demoraria para proferir o seu veredito sobre Morrissey: “Tá na cara que é uma bibona, Teacher”. A sexualidade de Moz, entretanto, ficou em suspenso durante décadas. Morrissey se autoproclamou um celibatário e, ao ouvir do amigo David Bowie, em conversa em um restaurante, a confissão de que este havia se excedido com sexo e drogas, confessou que, ao contrário, não tinha tido quase nada das duas coisas. Ele conta, no entanto, sobre o seu caso com o fotógrafo Jake Owen Walters, com quem namorou e viveu em um apartamento em Londres durante dois anos. Jake Walkers se tornou ainda seu assistente pessoal na segunda metade da década de 1990.

 A “Mozepédia – a Enciclopédia de Morrissey e dos Smiths”, de Simon Goddard (Leya, 2013), lembra do affair mencionado em uma carta particular trocada entre o jovem Morrissey e seu pen-pal, Robert Mackie. As cartas podem ser lidas na Internet (link aqui). Em uma delas Moz fala de uma namorada, Annalisa (Jablonska, segundo Goddard), e afirma que ambos são bissexuais. Em sua autobiografia, nada é mencionado. As cartas, de qualquer jeito, aparentam muito mais um jogo de sedução entre Morrissey e seu amigo, que escrevia de Glasgow, do que qualquer outra coisa.

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Capa da saudosa revista Vox, de junho de 1992, que trouxe capítulo do livro de Johnny Rogan, antes de seu lançamento comercial

“Morrissey & Marr – the Severed Alliance” (Omnibus Press, 1993), do mais conhecido biógrafo dos Smiths, Johnny Rogan, trouxe a conhecimento público um assunto delicado que infelizmente ocupa muito e desnecessário espaço na autobiografia de Moz: a briga nos tribunais entre ele e dois dos seus companheiros de banda, o baterista Mike Joyce e o baixista Andy Rourke. A dupla entrou nos anos de 1990 com uma ação na justiça inglesa pedindo reparação pelo pouco que receberam enquanto estiveram com os Smiths. O problema é que bem no começo da carreira do grupo, Moz e Marr assinaram com o selo independente Rough Trade como únicos responsáveis pela banda e Joyce e Rourke foram apenas testemunhas. Eles pediam e conseguiram então uma reconsideração para uma divisão igualitária dos royalties do grupo.

A discussão toca em um ponto que nunca compreendi muito bem em direitos relacionados com música. Para mim, a parte instrumental é tão importante em uma composição quanto melodia e letra. Pensem na bateria de “The Queen is Dead” ou no baixo de “Nowhere Fast”, entre outros incontáveis exemplos. Sem a bateria de Joyce e o baixo de Rourke, essas músicas seriam certamente algo completamente diferente. É ridículo portanto que Morrissey, uma pessoa tão anti-establishment, se apegue a uma assinatura em um papel, contra toda a contribuição real destes dois músicos para o grupo. Grupo que, não custa lembrar, foi sempre apresentado como uma banda e não como um trabalho de um compositor e um letrista com músicos contratados. Bola fora de Moz.

Não posso encerrar sem comentar o sistema de ensino na Inglaterra. Causa surpresa, para quem frequentou uma “escola experimental” no Brasil dos anos 70 como o Colégio Brasileiro de Almeida no Rio de Janeiro, saber que os ingleses ainda adotavam a palmatória e que mestres da St. Mary`s Secondary Modern, em Manchester, deixavam os alunos em um pátio na chuva durante o recreio para não terem que ficar tomando conta de adolescente. É claro que o nosso exemplo era o oposto. Aqui, quem tocava o terror nas escolas eram os alunos que faziam o diabo em estabelecimentos de ensino como o, assim conhecido, “Baseado de Almeida”.

Scanner_20151207 (7)Ps. Na lista dos livros sobre os Smiths, vale recomendar também “The Smiths – the Visual Documentary” (Omnibus Press, 1994), do mesmo Johnny Rogan, autor que Morrissey disse querer ver morto em um engavetamento em uma auto-estrada ou em uma incêndio em um hotel e com quem afirma não ter falado mais do que o suficiente para solicitar que desligasse o telefone. Pelo visto, Morrissey é mais um candidato ao grupo Procure Saber.

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Do Primeiro Assédio à Primeira Pessoa do Plural

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Seguindo outros ilustres exemplos dentro do jornalismo impresso e no ambiente da blogosfera, tratamos de abrir espaço para a #AgoraÉqueSãoElas em texto assinado pela jornalista, pesquisadora e escritora Sheila Kaplan.  Sheila saltou dos bancos universitários direto para as páginas de O Globo, onde trilhou carreira brilhante como repórter e crítica de teatro, escrevendo resenhas refinadíssimas que sempre foram lidas com o maior gosto. Transitou ainda por editoras e pelo espaço acadêmico. Organizou o livro “Jornalismo Eletrônico ao Vivo” (em parceria com o âncora Sidney Rezende) e é autora de dois trabalhos universitários primorosos sobre as escritas do cronista José Carlos de Oliveira e do poeta Murilo Mendes. Dando sequência ao périplo de jornalista, colaborou durante anos com a revista “Ciência Hoje”, produzindo artigos, reportagens científicas e chegando mesmo ao cargo de editora do caderno de cultura deste periódico científico. Veio ainda a descobrir a sua veia ficcional ao se aventurar pelo universo dos livros infanto-juvenis com “Duda Cata Tudo” (Editora Rovelle) e “Mgkai, o Estrangeiro” (Editora Edebê; a ser lançado em breve). Sheila Kaplan apresenta por aqui a sua perspectiva muito pessoal sobre a hashtag que está mobilizando combativas vozes femininas.

O dia a dia nas redes sociais costuma ser modorrento, como expediente em  repartição pública. De post em post, você é levado pra cá e pra lá – bom-dia com orquídeas e margaridas, artigos sobre o drama ou o escândalo da hora, uma música dos anos 50, bichanos fofos, “opiniães” sem fim. Após algum tempo, nauseado, você quase se afoga nesse oceano da dispersão. No meio disso, vez em quando, o potencial crítico e aglutinador das redes vem à tona. Foi o que aconteceu recentemente com a campanha #PrimeiroAssédio, que explodiu no twitter e facebook e rapidamente se alastrou nas redes, levando centenas (milhares?) de mulheres a contarem suas vivências de abuso.

Histórias numerosas, em diferentes nuances de violência: de uma mão indesejada a nos tocar o corpo ou a nos roçar a bunda, de forma despistada ou ostensiva, às experiências mais escabrosas de violentação e estupro. A campanha deixou a nu que o que muitas julgávamos pertencer ao âmbito pessoal situa-se, na verdade, na esfera do coletivo, numa cultura em que o assédio, em seus vários graus, é encarado – e tolerado – como efeito da “natureza” masculina. Quantos homens não entendem ainda como “elogio” o olhar lascivo acompanhado de um “te chuparia todinha”, que se tem de ouvir desde os primeiros anos da puberdade?

Ao desnaturalizar o assédio, os numerosos relatos vieram mostrar como todas sofremos alguma violência, em suas formas ditas mais brandas (as sortudas, como comentou uma das autoras) ou nas mais perversas. A campanha nos mostrou que, à época do primeiro assédio, quase todas nos calamos por vergonha ou culpa. Aos 10, 11 anos, é comum acreditar que foi algo em nós que, sem querer, provocou o abuso do outro. Perceber o quanto é generalizada esta violência nos faz ver como tais palavras e ações nos humilharam, envergonharam, machucaram. Como doeram e, muitas vezes, ainda dóem. A campanha nos aponta que já não é possível ver um caso de pancadaria doméstica e aceitar a justificativa de “descontrole”, ainda que tal versão seja confirmada pela vítima. Menos ainda ignorar a aprovação, à mesma época, do projeto de lei 5069/13, que nega o aborto às vítimas de abuso sexual e estupro ao obrigá-las a fazerem boletim de ocorrência e exame de corpo de delito para poderem ser atendidas, agregando violência à violência.

Estas e outras questões foram discutidas quando, num momento seguinte, a campanha nascida nas redes migrou para a mídia impressa, expandindo-se no #AgoraÉQueSãoElas, em que colunistas homens cederam seu lugar para mulheres refletirem sobre a sua realidade e direitos (http://goo.gl/RsNm1G). Sem dúvida, uma iniciativa importante, mas que não nos impede de pensar que o hashtag, à parte o trocadilho sonoro que tanto agrada à mídia, denuncia que são “eles” que detêm a fala. “Eles”, que cavalheirescamente nos cedem, nessa (breve) ocasião, seu lugar. É um avanço, mas evidencia que ainda há muito pra se conquistar até que se possa chegar ao #AgoraSomosNós.

 

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O Conquistador

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Sigamos com mais um conto. Este, com final feliz. 
Serve de preâmbulo para a #AgoraÉqueSãoElas, que vem por aí.

O Conquistador

Tinha um caderno onde fazia com grande dedicação as anotações das suas conquistas amorosas. Aos amigos, exibia sempre com todo o orgulho e acrescentando, sem constrangimento algum, o comentário:

– Papei todas. Podem conferir aí. Mais de 10 nomes por letra, de A a Z. Solteiras, casadas, divorciadas, viúvas… Tem de tudo.

Os amigos investiam então em tom de blague:

– Ei, mas espera aí? Se você não está mentindo, precisamos urgentemente erguer um busto em sua homenagem.

As mulheres reagiam, no entanto, agressivamente:

– Você é um machista, chauvinista!

Ao que ele retrucava:

– Ué, tenho culpa de gostar das mulheres e de ter toda reciprocidade por parte delas?

Para as mais reativas, ele reservava sempre uma fala que proferia como um desses discursos que trazemos pronto:

– Meus anjos, eu tenho uma teoria: para mim, se esse mundo fosse um mundo só de mulheres, nós não veríamos as atrocidades e a pouca vergonha que grassam por aí.

Edeoclésia não resistia e contra atacava:

– Se você pensa assim, por que se vangloria tanto de fazer e acontecer com nós do sexo frágil?

Contente com o interesse despertado, Adrio Acácio, era esse o nome de nosso conquistador, tentava se justificar:

– Mas não há nada de errado nisso, meu amor. É a ordem natural das coisas. E querem saber de uma coisa: eu gosto pacas de mulher.

E era a pura verdade. Com olhar inebriado, Adrio Acácio cultivava como passatempo contemplar o sexo oposto em ocasiões como as horas mortas no transporte público. Ficava mesmo maravilhado e pensava consigo: como são gentis umas com as outras. Um dia viu duas amigas se encontrarem por puro acaso dentro do ônibus. Ficou fascinado ao observar como elas perderem uma eternidade de tempo uma admirando a outra, sorrindo com uma alegria e satisfação espontâneas e fazendo agrados mútuos sobre a beleza dos cabelos, das roupas e dos adereços que tinham escolhido para aquela manhã.

Pois muito bem. Seguia nosso conquistador levando sua vida amparada em suas convicções muito particulares quando foi convidado para uma festa, daquelas que movimentam toda uma rua, todo um quarteirão, todo um bairro. Os mais exagerados diriam talvez, toda uma cidade. Comentou então com os amigos que também iriam à festa dançante:

– Nessa eu vou bater o recorde mundial da canalhice. Pego pelo menos três numa mesma noite, podem escrever.

E realmente tudo indicava que a festa seria animada. Era o que mais se ouvia falar e sempre comentada com os maiores entusiasmos. Chegou o dia tão esperado e quando Adrio Acácio adentrou aquele ambiente repleto de mulheres, bebidas, pensou alto: “Essa promete, essa promete”. Surgiu no recinto em grande estilo e arriscando de cara e todo senhor de si uns passos de dança, já que se saía muito bem nesse assunto. Quando viu a primeira pequena pela frente, não resistiu a perguntar de pronto e ainda que não tivessem sido apresentados formalmente um ao outro:

– Tô ou não tô elegante, bonitinha? Pode dizer.

Sem graça a moça jogou o cabelo para trás e demonstrando nervosismo se saiu com uma fala que ele sempre interpretava como um sinal de aprovação:

– Ai, sei lá vai, para…

Com um amigo comentou:

– Não te falei? Hoje tem, hoje tem.

A festa estava uma animação só com gente sorrindo, eufórica e feliz pra todos os lados. Em certo momento, Adrio Acácio viu uma moça que lhe encheu os olhos. Uma morena de fechar o trânsito. Foi mais uma vez se apresentando com seu jeito atirado e desinibido.

– Posso saber como se chama essa gracinha de gente? Pode soar ultrapassado, mas era também chistoso, zombeteiro e funcionava.

– Claro, respondeu a beldade. Roxalina, muito prazer.

– Roxa, o quê? Retrucou Adrio Acácio.

– Isso mesmo que você ouviu, Roxalina. Agora me dá licença que esta festa está ótima e não posso perder meu tempo por aqui.

Roxalina partiu direto para a pista de dança e não deu mais conversa para o conquistador que ficou ali esquecido, remoendo o desprezo. Chegou a rilhar nos dentes: “Essa vai ter troco”.

A festa já ia pela madrugada. Roxalina já havia tomado uma, duas, todas. Estava completamente bêbeda ou bêbada, não sei ao certo. Deixo mesmo essa tarefa para o leitor que deve consultar seus alfarrábios para dirimir a dúvida. Já havia também flertado com metade dos rapazes presentes e se atracado com uns tantos. Quando começava a clarear, podíamos reconhecê-la jogada em um sofá em um dos cantos da sala, afundada em meio a muitas almofadas. Aos seus pés (acho mesmo que recitando uns poemas de Ana C.) se encontrava o nosso conquistador. Pedia, suplicava, mendigava, uma atenção, um carinho, um sinal de afeto. Amparada nas muitas doses de bebida que tomara, Roxalina era firme e decidida com o conquistador:

– Com você, meu amigo, nem hoje, nem amanhã, nem nunca.

Adrio Acácio foi para casa inconsolável e tomou chá de sumiço. Ninguém o via mais nos lugares que costumava frequentar. Era um trapo de gente, andava nas ruas sempre cabisbaixo, olhando pro chão, sem falar com pessoa alguma, imerso e taciturno, encafuado, sofrendo com a rejeição. Morava em uma vila, essa não em Laranjeiras, mas em Copacabana. Na casa conjuminada a sua, tínhamos a residência de dona Glaucia. Glaucia havia ficado viúva há pouco tempo e para ajudá-la naquele momento difícil aparecera, para passar uma temporada com a tia, a sobrinha Fidélia. E foi justamente a loiríssima Fidélia que veio a despertar Adrio Acácio de novo para a vida. Flertaram, namoraram com gosto e logo decidiram casar. Primeiro no civil e depois no religioso, como manda o figurino. Venceriam as bodas de prata e de ouro. Deixariam nada menos do que cinco filhos como resultado daquele enlace feliz.

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O Beijo do Largo da Carioca

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Ainda que tenha mudado muito, um logradouro que propiciou o surgimento da rua da Vala não é o melhor lugar do mundo para se partir desta para melhor. Foi justamente isso, no entanto, o que se deu comigo. Já se vão aí muitos anos desde que tudo se passou. Como frequentasse sempre o local, conhecia bem a sua história. Sabia, por exemplo, como o Desvio do Mar (depois Rua do Ouvidor), dos tempos que precederam a urbanização do Rio de Janeiro, se estendeu continente adentro e foi dar na tal rua da Vala, à qual deram esse nome por abrigar em sua adjacência um córrego em que toda sorte de dejetos eram despejados. Só anos depois, a vala seria coberta e a rua ganharia o nome de Uruguaiana, tornando mais aprazíveis as cercanias do Largo da Carioca.

Novas mudanças estariam por vir e hoje quase tudo que ali havia, quando cheguei à cláusula dos meus dias, desapareceu. Foi-se o Hotel Avenida, foi-se a Galeria Cruzeiro, foi-se o Tabuleiro da Baiana e foram-se os bondes elétricos. Da época em que o infortúnio me levou daqui, ficou pouca coisa. Uma delas muito especial para mim: o velho relógio do Largo, contemporâneo do lampadário da Lapa e das reformas de Pereira Passos, com suas quatro faces e três sereias. É uma testemunha remanescente do meu fim. Entre as coisas que sumiram, foi-se acima de tudo a sede do jornal em que trabalhava. Eu tinha um talento mediano para o jornalismo. Apesar de estar presente nas redações desde há muito, minha rotina, no começo da década de 1940, momento do que aqui vai contado, se resumia a redigir notas de batizado, aniversário, casamento e missa. Alguns achavam que eu merecia mais. Pura gentileza.

        Além do jornal, militava como advogado. Era dura a labuta de quem, durante a Segunda Guerra, tinha de sustentar uma família numerosa. Casara-me em primeiras e únicas núpcias com um anjo de pessoa. Com ela, dividia o leito conjugal, as alegrias e as batalhas de quem quer construir uma vida em comum. Desse enlace, nasceram filhos maravilhosos. O que vou contar aqui é algo, portanto, que só posso fazer porque passei para o lado de cá, dada a indiscrição que o episódio representa e o desgosto que atingiria as pessoas a quem sempre quis bem. Mas vamos aos fatos.

        Lembro bem que era uma sexta-feira e que o fim de semana se anunciava com a perspectiva de praia naquela que pra mim já era uma Copacabana ensolarada. Gostava muito de residir perto do mar, sempre com sua brisa fresca e perfumada. Como o jornal em que trabalhava não circulasse aos domingos, o sábado era dia sagrado para mim. Aos plantonistas que me indagavam sobre minha costumeira ausência, repetia:

– Vocês não sabem, meus caros, que o sábado é uma ilusão.

        Ao que um dos meus colegas redatores logo replicava.

– Ei, espera-lá, vamos com calma que essa frase é minha.

        Mas voltemos aquela sexta-feira. Saí cedo de casa, como habitualmente fazia. Tinha ódio aos ônibus à explosão, que, além da tarifa exorbitante, eram barulhentos. Dirigi-me assim à estação de bondes, perto de onde hoje fica a praça Serzedelo Correia, e peguei o de número 13 em direção ao centro da cidade via Túnel do Leme. Como me alegrava o prazer de deslizar nos trilhos correndo as ruas ao som de um intermitente chacoalhar. Seguia sempre apreciando a paisagem, vendo o movimento e puxando assunto com algum passageiro conhecido. Havia até um poeta que gostava de me recitar, vez ou outra, seus versos que até que não eram de todo maus.

Mas voltemos à sexta-feira. Fiz aquela viagem sozinho e cheguei mesmo cedo ao jornal. Cumpri meus afazeres até às 14 horas, quando fui almoçar como de hábito com um grupo de amigos jornalistas naquele que ainda era chamado de Bar Adolph por nós.  Depois do almoço, me separei de todos para ir à Caixa Econômica tirar do prego uma jóia da família. Queria presentear minha mulher naquela noite. Em seguida tomei o caminho de retorno ao jornal.

O relógio do Largo da Carioca marcava 16h45 e confesso que vinha distraído, meio sonhador, inebriado por um final de tarde belíssimo. Caminhava desatento e pensando como a vida é boa e como é bom viver. Quando me encontrava próximo ao Liceu de Artes e Ofícios, deu-se a infelicidade: um motorista inexperiente na direção dos novos e fumacentos ônibus surgiu em alta velocidade e me lançou espetacularmente ao ar. Ao incidente se seguiu um corre-corre. Uma enfermeira que passava por acaso prestou aqueles que não seriam os primeiros, mas os últimos socorros. Foi nesse momento que aconteceu o sublime. Desfalecido nos braços da enfermeira, tive a impressão de ter recebido, junto com a ajuda, um doce e demorado beijo, ao qual correspondi prontamente. Dali seguiríamos para o Posto Central e eu faleceria dentro do carro de assistência. Acompanhado por uma enfermeira que para mim se encontrava em seu uniforme branco e dentro de uma imaculada ambulância encaminhei-me para o undiscovered country de Hamlet.

        Passados anos de toda a comoção que repercutiu nos jornais em extensos necrológios, pelos quais sou muito grato aos meus companheiros de profissão, surgiria a versão de um colega que colocaria no lugar da prestativa enfermeira um crioulo de narinas triunfais. Foi o que me fez perceber, com a natural distância em que me encontro dos mortais, o quanto é realmente vasta a imaginação humana.

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Nem Parece Livro de Economia…

HouseDepois de cruzar os dados disponíveis sobre renda e riqueza (aqueles não guardados em segredo por artifícios variados ou escondidos em paraísos fiscais, bem entendido) durante 15 anos (por julgar que “(…) a questão da distribuição de renda é importante demais para ser deixada apenas para economistas, sociólogos, historiadores e filósofos”), seguem algumas das conclusões de Piketty (London School of Economics, MIT e atual professor da École d´Économie de Paris):

“É impressionante constatar, por exemplo, que várias séries americanas dos anos 2000-2010 representem heróis e heroínas carregados de diplomas e qualificações altíssimas: para curar doenças graves (House), para resolver enigmas policiais (Bones) e mesmo para governar os Estados Unidos (The West Wing), é melhor ter alguns doutorados no bolso, quiça até um prêmio Nobel. Não é difícil enxergar em várias dessas séries, uma ode à desigualdade justa, baseada no mérito, no diploma e na utilidade das elites. (…) Viver de um patrimônio acumulado no passado é quase sempre representado como algo negativo, até infame, enquanto em (Jane) Austen e (Honoré de) Balzac isso se passa de maneira bastante natural, desde que exista entre os personagens um mínimo de sentimentos legítimos.
Essa grande transformação das representações coletivas da desigualdade é em parte justificada, mas se funda, contudo, em vários mal-entendidos. Em primeiro lugar, parece evidente que o diploma desempenha um papel mais importante hoje do que no século XVIII (…). Entretanto, isso não significa necessariamente que a sociedade tenha se tornado mais meritocrática. Em particular, isso não implica que a participação da renda nacional para o trabalho tenha aumentado de verdade e, obviamente, isso não significa que as pessoas tenham acesso às mesmas oportunidades para atingir os diferentes níveis de qualificação: em grande medida, as desigualdades da formação apenas subiram de nível e nada indica que a mobilidade intergeracional tenha realmente progredido por meio da educação.” (“O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty; tradução de Monica Baumgarten de Bolle; Intrínseca, 2014)

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Piketty – Renda e Riqueza, Ontem e Hoje

Capa

Entrevista de Thomas Piketty no programa “Roda Viva” (clique aqui)

Estou chegando atrasado para comentar “O Capital no Século XXI” (Intrínseca, 2014; com excelente e cuidadosa tradução de Monica Baumgarten De Bolle), de Thomas Piketty, lançado no final de 2014 no Brasil. Extraordinariamente bem escrito, o livro mostra que bons escritores podem se esconder até mesmo em nichos áridos como os dos estudiosos de economia. Tenho esbarrado com muitos que reagem negativamente quando falo do meu completo arrebatamento pelo livro. Como um vizinho, que comentou: “já sei, aquela velha balela sobre desigualidade”. Não podem imaginar o quanto estão enganados e do muito que estão perdendo. Trata-se de uma minuciosa e esclarecedora análise sobre o mundo contemporâneo.

Como dado adicional, Piketty é um craque do estilo e transforma um assunto chato e complicado como economia, em algo claro, compreensível e fascinante. Penso mesmo que tenha lastro pra se aventurar por áreas em que a imaginação fale mais alto, como o ramo da escrita não-acadêmica. Seu objetivo com o livro de qualquer jeito é justamente, e ao contrário da crença de meu vizinho, mostrar o quanto a competitividade pode ser benéfica para uma sociedade. Faz isso, investigando renda e riqueza.

Em resumo, Piketty quer saber o quanto, ao longo do curto espaço de tempo de nossas míseras existências, convertemos, como fruto e resultado de nosso esforço pessoal, em riqueza. Sua intenção é mostrar como uma sociedade altamente competitiva e meritocrática pode trazer resultados positivos para toda a coletividade. Por isso, quer colocar às claras os aspectos nefastos daqueles que vivem em inércia completa, usufruindo do dinheiro e das riquezas alheias, sem trazer contribuição alguma para o todo social. Prova, desta forma, como o acúmulo de riquezas, concentradíssima nas sociedades contemporâneas, gera cidadãos nada propensos ao trabalho. Todos preferindo, como os personagens de Balzac e de Jane Austen, viver de renda, de um bom casamento ou de uma herança, a ter de encarar a dureza do dia a dia.

Intelectual consagrado no meio em que trânsita, Piketty pode ficar à vontade para falar sobre o assunto, amparado que está em sua brilhante trajetória pessoal. Aos 22 anos, com um doutorado no bolso, ele já estava dando aulas em centros de pesquisa de ponta nos Estados Unidos. Aos 25 podia escolher a universidade em que queria lecionar. Aos 45, é um autor best seller, escrevendo sobre um assunto pouco convidativo como economia. Um feito. Em um momento no começo do livro, com a classe que percorre todo o volume, ele fala um pouco de seu percurso: “Meu sonho quando lecionava em Boston” (reparem que este vago “em Boston” quer dizer na verdade no “MIT”) “era voltar para a École des Hautes Études en Sciences Sociales, uma instituição cujos expoentes incluem Lucien Lebvre, Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss, Pierre Bourdieu, Françoise Héritier, Maurice Godelier e tantos outros. Será que devo confessar isso, arriscando-me a parecer arrogante na minha visão das ciências sociais?”.

Um dos charmes do livro é a destreza com que o autor espalha por seu texto, sempre com vasta e justificada carga de pertinência, exemplos tirados da literatura (Balzac, Austen, Henry James, Proust), de séries televisivas atualíssimas (“House”, “The West Wing”, “Bones”, “Damages”, “Dirty Sexy Money”) e de acontecimentos recentes como o movimento do “Occupy Wall Street”, de 2011, ou uma greve de mineiros na África do Sul, ocorrido em 2012. Colaborador do Le Monde e do Libération, Piketty sabe lançar mão de certa erudição e do factual para tornar mais interessante sua escrita.

Além dos casos citados, chega ainda a falar de um fenômeno típico dos dias de hoje como o dos executivos de grandes corporações (dentro e fora da iniciativa privada), que têm poder para estabelecer e inflar por conta própria, sem nenhuma restrição e justificativa concreta, suas remunerações. Pena o Brasil não aparecer em seu estudo: a horda de tecnocratas de Brasília, seria outro ótimo exemplo. Aliás, José Dirceu, Eduardo Cunha e cia. dariam outros excelentes tópicos atuais para se falar sobre acumulação de riqueza de forma rápida e jogando contra toda a coletividade.

Curioso contrastar o que disse Piketty sobre a trajetória de um executivo como Bill Gates e o que comentou o próprio Gates sobre “O Capital no Século XXI”. Sem papas na língua, à página 433, nos diz o pesquisador: “Em alguns momentos temos quase a impressão de que Bill Gates em pessoa inventou a informática e o microprocessador, e que ele seria 10 vezes mais rico se tivesse recebido integralmente sua produtividade marginal e o valor correspondente à sua contribuição pessoal para o bem-estar no mundo (felizmente, as boas pessoas do planeta puderam se beneficiar das generosas externalidades). (…) Sejamos francos: não sei quase nada sobre a forma exata como Carlos Slim e Bill Gates enriqueceram e sou incapaz de dissertar sobre seus respectivos méritos. Contudo, me parece que Bill Gates também se beneficiou com uma situação de quase monopólio sobre os sistemas operacionais (o mesmo vale para muitas das fortunas construídas pelas novas tecnologias, das empresas de telecom ao Facebook)”.

Na contracapa do livro, Gates comenta a obra do economista em tom elogioso para surpresa geral: “Concordo com as principais conclusões de Piketty. Espero que seu trabalho estimule pessoas competentes a estudar a desigualdade de riqueza e renda. Quanto mais entendermos das causas e curas, melhor”. Ao que tudo indica, Thomas Piketty conseguiu ser convincente até mesmo aos olhos de um dos maiores e mais rápidos fenômenos de acumulação de riqueza que o mundo viu.

Primeiro pesquisador a trabalhar durante 15 anos sobre os dados referentes às rendas e riquezas acumuladas por  pessoas e empresas (obviamente sofrendo as restrições do que é declarado), Thomas Piketty contou em seu estudo com a ajuda de pesquisadores ao redor do mundo para averiguar a lógica que orienta as dinâmicas patrimoniais. Sua pesquisa investigou os cenários econômicos em mais de 20 países no correr de três séculos. Suas análises estão amparadas no “The World Top Income Database” (clique aqui), banco de dados que vem coletando informações sobre renda e patrimônio no mundo. Infelizmente, a Argentina foi o único país da América do Sul a participar da pesquisa. Parece que há uma compreensível dificuldade de se conhecer os dados sobre a situação brasileira. Pelo menos o TWTID já conseguiu começar a coletar alguns dados sobre o cenário brasileiro. Aparecemos por lá, sob a legenda de “work in progress”, ao lado de outros países sobre os quais Piketty e sua equipe passaram a reunir informações depois de encerrado o livro. É um começo.

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Blur em Buenos Aires

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Trecho do Blur ao vivo na Argentina (clique aqui)

Temporada sortida daqueles shows que já nascem antológicos. Semana passada não resisti e fui até Buenos Aires ver como está o Blur depois da retomada da carreira com “The Magic Whip”, disco lançado no começo deste ano. Não entendi por que eles não abriram datas para apresentações no Brasil dentro da turnê sul-americana que passou por Chile, Argentina e seguiu para o México. Talvez estejam escaldados de um show que fizeram aqui no Rio em 1999 em que o Damon Albarn teve mesmo que perguntar à platéia de pouquíssimos gatos pingados que compareceram ao Metropolitan: “Where are your friends?”. Em 2013, eles tocaram para um público significativo em São Paulo, mas tudo aconteceu dentro de um evento grande como o Festival Terra. Esta semana, eles irão se apresentar ainda em Los Angeles, no Hollywood Bowl, e encerrarão a turnê na sexta-feira no Madison Square Garden, em Nova York. Deu vontade de ver de novo.

Em Buenos Aires, o concerto do Blur aconteceu em Tecnópolis, uma quermesse brega e futurista criada pelos Kirchner na periferia da cidade. Na entrada somos recepcionados por um dinossauro gingante abanando a cauda próximo a um avião das Aerolíneas Argentinas aberto para a visitação da criançada. Depois de andar muito chega-se a um galpãozão com uma precária estrutura de andaimes, dessas que se montam para eventos esportivos na praia, onde cabiam perto de 5 mil pessoas, imagino. As cadeiras demarcadas para sentar, no estilo das antigas arquibancadas do Maracanã, estavam cheias, mas não lotadas como os espaços das duas áreas (vip e comum) para os que quiserem assistir em pé na parte central da arena.

Albarn e o Blur seguem a linha evolutiva do Brit-Pop que tem em Terry Hall, Robert Smith e Morrissey três outros de seus grandes nomes. O que me faz sair de casa para ver qualquer um deles cantando é o fato de, além de serem compositores-letristas excepcionais (Smith e Morrissey acertam mais nas letras, embora os outros dois não deixem a desejar), saberem cantar como poucos. Têm a pegada dos verdadeiros crooners. Por isso, em cada apresentação, as melodias conhecidas ganham sempre algum ar novidadeiro. Vi, por exemplo, Robert Smith apresentar a surrada “Killing an Arab” no HSBC Arena em 2013, recriando sua linha melódia e a colocação de voz de tal forma que pareceu uma música nova pra mim.

Ainda que aprecie todos os discos de Morrissey (com ou sem os Smiths) e os do Blur (mesmo o “Think Tank”, realizado apenas por três de seus integrantes; o guitarrista Graham Coxon parou as gravações no meio para fazer reabilitação por dependência de álcool), gosto particularmente dos trabalhos realizados com um produtor que faz, realmente, grande diferença: Stephen Street. É ele que assina a produção do novo “The Magic Whip” que ganhou toda a crítica. No show, eles tocaram cinco das novas composições: “Go Out”, “Lonesome Street”, “Ghost Ship”, “Thought I was a Spaceman” e “Ong Ong”. As três últimas acabaram, infelizmente, barrando as melhores “I Broadcast”, “Mirror Ball”, “There are Too Many of Us”, favoritas do novo repertório.

O Blur tem uma coleção tão extensa de ótimas músicas que o fã gostaria ainda que houvesse uma maior alternância no roteiro das apresentações. Em Córdoba na noite anterior, a esquecida “Advert” entrou no set list junto com “Caravan”. Esta última, eles não apresentavam ao vivo desde 2003 e voltou a ser interpretada em Buenos Aires. Dias depois, cantaram “Country Sad Ballad Man”, no México. Antes do show mandaram “Vila Rosie” na passagem de som. Para a listagem completa ver o site setlist.fm (http://goo.gl/3L8JW5).

Aguardemos agora pelo Morrissey que baixa por aqui em novembro para apresentações em São Paulo e no Rio. O ex-vocalista dos Smiths passou por um câncer de esôfago, mas está ótimo como contou em  programa recente com Larry King na Internet (clique aqui). Não confio na qualidade do som do Metropolitan (ex-Citibank Hall) e por isso já garanti meu ingresso para SP. Como a Fundição Progresso, costuma derrubar o espetáculo. Aliás, os argentinos fazem som de palco como poucos. Excelente a qualidade sonora do show do Blur na arena em Tecnópolis. Nem em apresentações na Inglaterra vi algo tão bem equalizado.

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