La Biennale di Venezia 2015

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Cobertura do Trendnotes para a Bienal de Veneza (clique aqui)

Não entendo quase nada de artes plásticas, embora tenha gosto pelo assunto. Me sirvo como guia nestas horas dos conhecimentos do meu expert favorito nesta área, o escritor Ferreira Gullar. Tive mesmo o privilégio de participar de um curso ministrado pelo poeta maranhense na Casa do Saber há alguns anos, oportunidade em que ele fez um muito instrutivo apanhado sobre a história das muitas escolas de pintura e de seus maiores expoentes. Gullar discorreu ainda sobre a jovem cultura brasileira no campo das artes plásticas e de sua participação como crítico em meados dos anos de 1950 com o movimento neoconcretista em meio a um cenário com a presença de artistas inovadores como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Fiquei surpreso, no entanto, quando da abordagem sobre a tradição da escola espanhola, com o fato de Gullar não saber da existência de um texto genial de Michel Foucault sobre “As Meninas”, de Velásquez, ensaio que abre o livro “As Palavras e as Coisas”.

Como minha família é de classe média, bem média mesmo, passei infância e adolescência consumindo apenas cultura de massa, todo aquele lixo cultural problematizado por Walter Benjamin, um dos mais inspirados alunos da Escola de Frankfurt, em suas considerações sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Por isso, só fui ter o interesse despertado para a fruição de quadros nos bancos universitários. Especificamente por causa de uma cadeira de “Estética da Comunicação” ministrada pela professora Rosângela Araújo na PUC do Rio de Janeiro. Em um período em que viajar ao exterior era um luxo para poucos (bem diferente de hoje quando qualquer professorzinho consegue fazer a sua viagem todo ano), Rosângela já havia corrido todos os mais importantes museus da Europa de onde trouxe, para projeção em suas aulas, coleções de slides com imagens dos acervos das principais instituições que havia visitado.

Em cada encontro com os alunos, sempre vestida com aquela classe das personagens mais chiques das estórias de Clarice Lispector, discorria com lastro e erudição rara sobre as obras de Da Vinci, Botticelli, Bosch, Dalí e Escher, misturando discussões de matiz psicanalítico (ah, a maldição de ler José Castello) com o pensamento dos teóricos em alta naquele momento (Lévi-Strauss, Umberto Eco, Roland Barthes). Guardo até hoje a folha em xerox com a listagem dos livros que embasavam suas aulas e que começavam pela tríade Sócrates-Platão-Aristóteles e chegavam a obras de pensadores contemporâneos de todas as latitudes (McLuhan, Otávio Paz, Gullar).

Isto tudo me veio à lembrança, porque este ano tive a oportunidade de pela primeira vez na vida visitar Veneza e ver a tão badalada Biennale Arte em sua 56ª. edição, tudo ao vivo e a cores. Não fazia ideia da dimensão do evento. Iniciada em 1895, a Biennale veneziana virou um atrativo a mais para aumentar a já numerosa horda de turistas que aflui à cidade, povoando de gente mesmo as vielas menos movimentadas. Além das duas extensas áreas da cidade, que guardam os pavilhões dos 89 países participantes (e pode colocar extensa nisso; são um desafio para os que quiserem se arvorar a cobri-las a pé de um só fôlego), há exposições alternativas alocadas em charmosos sobrados e históricas igrejas.

O evento, que teve início em maio e vai até novembro, durando sete meses portanto, apresenta trabalhos inovadores em suporte high-tech ao lado de pintura tradicional, bem como momentos específicos com foco na dança (aconteceu em junho), teatro (em julho e agosto) e música (de hoje até o dia 11 deste mês). A organização da Biennale, que dá atenção também à arquitetura, ao arquivo histórico e ao livro (na abertura de cada dia desta edição está acontecendo a leitura de trechos de “O Capital”, de Karl Marx), me trouxe de novo lembranças de uma exposição de artes que a Rosângela Araújo organizou na PUC e que repetia em um nível menor o espírito da Bienal de Veneza.

Foram abertas inscrições numa mesinha no pátio da PUC e apareceram obras maravilhosas de todas as áreas: Fausto Fawcett fez um de seus primeiros recitais poéticos acompanhado por um grupo de dançarinas e com fundo musical a cargo do futuro escritor e filósofo José Thomaz Brum, o professor Carlos Henrique Escobar apresentou seu espetáculo teatral “Heliogábalo”, Caetano Veloso cantou nos pilotis e foram inscritos quadros muito interessantes de novos artistas plásticos que ocuparam a Biblioteca central e vários espaços na Universidade. Muitos alunos ajudaram na preparação da semana de artes, que deu um trabalhão danado. Valeu porém a pena.  Em tempo: os detalhes sobre a 56ª. edição podem ser conhecidos no site Trendnotes, em reportagem assinada por Ana Carolina Landi.

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Encontro com Picasso e a Modernidade nas Artes Plásticas

IMG_0315Mestres Modernos (programa da BBC1 com Alastair Sooke): Pablo Picasso (clique aqui); Salvador Dalí (clique aqui); Andy Warhol (clique aqui)

Tempo de encontro com as artes plásticas. Alguns sábados atrás, fui, com alguns colegas professores e um grupo de alunos do Polo-Rocinha de Ensino à Distância, em São Conrado, visitar a exposição “Picasso e a Modernidade Espanhola”. A mostra se encerrou esta semana no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, depois de passagem por São Paulo.

Ano passado, tivemos o gênio de Salvador Dalí. Este ano foi a vez de Picasso, em uma não muito extensa, mas belíssima exposição com obras assinadas por ele e por outros artistas espanhóis (Dalí, Miró, Gris, Tàpies). A arte de Picasso é tão ampla e diversificada, que temos espaços que se dedicam a reverenciá-lo, expondo exclusivamente seus originais. Dois em especial o fazem em grande estilo: o Museu Picasso de Barcelona e o Museu Nacional Picasso-Paris, reaberto recentemente. Suas obras estão ainda espalhadas pelos mais renomados museus e galerias do planeta (Prado, Tate, MOMA, Metropolitan). A exposição do CCBB foi realizada com a coleção do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madri, onde se encontra sua mais famosa pintura: o grandioso painel de Guernica.

Para me preparar para a recorrente incursão de Picasso pelo tema do minotauro, a sua sintonia com artistas espanhóis contemporâneos seus (Benjamín Palencia, Alberto Sánchez, Dalí), que também exploraram as metamorfoses da natureza, e os esboços para retratar a tragédia de “Guernica”, assisti aos documentários do crítico de arte inglês Alastair Sooke. Particularmente, a sua série sobre “Mestres Modernos” feita para a BBC. Foi uma certeira fonte informativa para os debates dentro da Semana de Artes de nosso Polo, em seguida a visita à exposição de Picasso.

O “Mestres Modernos” (links acima) de Alastair Sooke, apresenta de forma muito interessante quatro pintores que marcaram o século XX: Picasso, Dalí, Andy Warhol e Henri Matisse. O programa foi originalmente transmitido em 2010 pela BBC 1, em uma tentativa da emissora britânica de trazer um comentarista de arte pouco conhecido do grande público (Alastair Sooke é crítico do jornal inglês The Daily Telegraph) e a discussão sobre pintura para o horário nobre da televisão inglesa. É uma aula sobre artes plásticas e  a influência representada por alguns de seus expoentes na cultura do século passado, influência esta que repercute nos dias de hoje. Sooke acabou me levando a rever meu juízo quanto a Andy Warhol. Sempre achei Warhol o maior picareta do mundo das artes plásticas, mas o crítico inglês nos convence de sua grande originalidade e fundamental importância.

Com os professores Adélia Simões, Fabiana de Souza, Jussara Sans do Nascimento, Roberto Batista e um grupo pequeno mas de entusiasmados alunos, passamos a exposição em revista e saímos contentes com a iniciativa  do CCBB. Como tem se repetido, os curadores de “Picasso e a Modernidade Espanhola” também reservaram um lugar para os “selfies” dos visitantes. Ano passado foi o sofá em forma de boca da atriz Mae West, de Dalí. Esse ano tivemos um labirinto espelhado que dilacera as imagens refletidas, como em “Guernica”. No final da exposição colocaram ainda uma reprodução em tamanho natural da obra maior de Picasso. O foco de duas lanternas quando projetadas sobre a imagem do painel de “Guernica” fazia aparecer os esboços originais do pintor. Uma beleza. Que os curadores do CCBB continuem investindo em iniciativas assim.

Ps. Depois da exposição de Picasso, me deparei em casa com uma caricatura minha que um aluno fez durante uma aula anos atrás. Será que o Alex seguiu pelo mundo das artes plásticas? Talento, ele tem. De sobra.

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Duchamp, Godart e o vício do xadrez

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O Grande Mestre das artes plásticas Marcel Duchamp passou 20 anos de sua vida jogando xadrez. Comparou o jogo a uma droga que vicia e que chega para consumir uma quantidade absurda de horas de nossa existência. De modo semelhante, me vi nos últimos três anos envolvido com esse jogo, disputando partidas no site “chess.com” sob a alcunha de Godart, em homenagem ao cineasta de minha predileção. Comecei no dia 27 de agosto de 2012 e, exatos 3 anos depois, estou dando por encerrada minha passagem por lá.

Jogava xadrez com certa desenvoltura quando era bem garoto. No ensino fundamental da época cheguei a ganhar um torneio disputado com alunos do Colégio Brasileiro de Almeida, aquele colégio da família Jobim na rua Saddock de Sá em Ipanema, em desafio organizado pelo professor de matemática Joffre (no segundo grau voltaria a encontrá-lo dando aulas no Colégio Andrews na Praia de Botafogo). Como vencia adultos amigos de meu pai em partidas caseiras, segui com a crença de que sabia tudo sobre o jogo intuitivamente. Quando fui jogar xadrez com meus alunos das turmas preparatórias para o IME e para o ITA, no final dos anos de 1990, vi que estava redondamente enganado. Levei surras homéricas.

Me desinteressei do assunto. Isso até reler “Alice através do espelho” e me deparar mais uma vez com o jogo da infância na segunda parte da narrativa de Lewis Carroll. Voltei a ele e comecei a me dedicar a conhecer melhor o assunto estudando alguns livros, especialmente o trabalho de Garry Kasparov (“Meus Grandes Predecessores”, Editora Solis, 2008, 5 volumes) que conta a história do xadrez e do desenvolvimento de seus sistemas de jogo (excelente leitura que descreve em detalhe como nos aprimoramos pessoalmente em um curioso espelhamento da evolução da forma como se jogou xadrez através dos tempos). Vi então que sempre joguei na intuição e que não tinha nenhum conhecimento sobre aberturas, táticas de meio e de fim de jogo e toda a parafernália teórica que segundo “o americano Bob Fischer” (bordão de Jô Soares em programa de humor dos anos 1970) veio para matar o xadrez.

Inscrito no “chess.com”, comecei disputando jogos de 15 minutos e me fixei nos de 5 minutos (5 minutos para cada jogador; dez no total). Isto porque constatei que o xadrez, em qualquer nível, é um jogo de azar como qualquer outro, independente do tempo que se perca jogando. Envolve alguma técnica, por certo, mas as partidas, mesmo entre Grandes Mestres, como os dez maiores enxadristas do mundo que estão se enfrentando desde segunda-feira na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, são resolvidas por um lance infeliz que resulta da pressão exercida pelo tempo.  Os bons enxadristas como Magnus Carlsen, número 1 do mundo no momento, dirão que trabalham duro para que a sorte apareça. Embora esteja liderando em Saint Louis, ele fez feio recentemente em um torneio gêmeo do de Saint Louis disputado na Noruega, vencido pelo veterano Veselin Topalov. O búlgaro Topalov está na casa dos 40 anos, idade em que a memória se transforma em um problema para os mais velhos em confrontos de alto nível (Topalov e Vishy Anand são os únicos na casa dos 40 que seguem entre os melhores).

Comecei com a classificação de 585 e estou encerrando com 1350 pontos. Esta pontuação é muito fiel a qualidade de seu jogo. Impressionante como se custa para melhorar e como, mesmo tendo quedas, logo se volta à pontuação correta para o seu nível de desempenho à medida em que estudamos e conhecemos o jogo e seus princípios. Embora muito interessante, só serve para isso mesmo. Acredito, como o Millôr Fernandes, que o jogo de xadrez, e a dedicação a ele, nos levam apenas a disputar partidas com mais classe.

O Grande Mestre (GM) americano Hikaru Nakamura, que está entre os 10 enxadristas que jogam em Saint Louis, tem perfil no “chess.com” com uma classificação de 2875. O Mestre Internacional (IM; categoria abaixo de Grande Mestre) e boa praça Daniel Rensch, que comanda o site “chess.com”, tem classificação de 2530. O Mestre Nacional (NM; categoria abaixo de Mestre Internacional) Jerry (do excelente canal de xadrez do “youtube”: ChessNetwork; https://goo.gl/miU3y3) tem 2.220 de pontuação. Entre 1.700.000 jogadores do “chess.com”, fico com uma classificação perto da casa dos 315 mil. A razão tentativa/erro respaldado em alguma técnica para melhorar esta posição é porém coisa custosa e apenas para o viciado que não passa um dia sem sua cota de jogatina. Para Duchamp, não há escapatória, todos aqueles que se iniciam no jogo levam a paixão pelo resto da vida. Ainda que concorde com o GM Duchamp, acho melhor parar com a febre por aqui. Vejamos se consigo.

Classificação da Sinquefield Cup depois de 6 das 9 rodadas

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Swimming around the clock com Garmin e Neptune

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O Garmin apresenta dados que guardam certa semelhança com aqueles com os quais o Thomas Piketty (“O Capital no Século XXI”, Intrínseca, 2014; voltarei a ele em breve) tem de trabalhar. Eles não chegam a ser de todo precisos, mas são os dados que temos à disposição e nos quais temos que confiar ainda que com muita suspeita. Assim, além do dia, mês e ano em que caímos na água, ele nos mostra o tempo que permanecemos dentro dela, o tempo que nadamos e a distância nadada.  O que é difícil de entender é como podemos ficar mais tempo nadando do que o período em que estivemos dentro da piscina. É verdade que eventualmente pode-se iniciar a cronometragem do Garmin alguns segundos depois de se ter dado o impulso para as primeiras braçadas, mas acho um pouco difícil que ele tenha conhecimento sobre isso. Desta forma, não dá para entender como é possível se ter nadado por 50´55´´ (SW registra o tempo nadado) se o sujeito só permaneceu por 50´50´´ (TOT registra o total do tempo dentro da piscina) na água.

Há problemas também com relação ao registro da distância nadada. Se utilizo uma piscina de 25 metros e sempre termino meus treinos na mesma borda em que inciei, como posso ter percorrido 3 mil e 25 metros? A explicação aqui é mais simples. O Garmin é sensível ao movimento e precisa de uma nova largada contínua após uma virada olímpica ou um retorno na borda para registrar novos 25 ou 50 metros (como determinado previamente pelo aqualouco esportista). Este segundo registro poderia ser confrontado se fizéssemos mentalmente a contagem de nosso percurso. Dentro d´água no entanto a ocupação é com o Neptune, um mp3 com transmissão sonora via reverberação na região da têmpora, que costuma estar tocando coisas como o áudio-livro “On the Heavens”, em que Aristóteles tenta nos convencer, entre outras coisas, sobre a impossibilidade da existência do infinito.

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Heat wave inglesa Parte II — Specials, Jam e Kinks

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Show da tour do aniversário de 30 anos dos Specials (clique aqui)

Temples, banda favorita do momento, canta “Waterloo Sunset”, dos Kinks (clique aqui)

Já disse uma vez, mas não custa repetir. Esta história de que Londres possa em algum momento estar se consumindo em tédio é pura bravata adolescente emulada pelo Clash. Ainda mais quando se tem pela frente um show dos Specials, uma exposição do The Jam e aqueles programas que surgem de improviso, como uma peça para matar saudades dos Kinks. Não estivesse nada disso acontecendo, a desculpa seria pedir aquela inevitável bênção ao senhor Charles Darwin, visitar a galeria Courtauld, circular à toa pela cidade e parar em um pub para ler o The Times, o Independent ou o Guardian/Observer (com jornal, não faço distinção de posição política, credo, abordagem dos fatos. Leio o que estiver à mão, até mesmo tabloide de metrô).

Mais do que ver os Specials, a intenção era saber como anda a vida do senhor Terry Hall, um cantor que, a exemplo de Morrissey, Robert Smith, Caetano Veloso, tem realizado o milagre de envelhecer mantendo a voz e cantando cada vez melhor. Chama a atenção se formos contrastá-los com Ian McCulloch, Gilberto Gil e até mesmo genvte mais nova como Liam Gallagher, que perderam muito, por razões diversas, a potência vocal que tiveram um dia. Pavarotti dizia que não basta ter voz, é preciso saber usá-la. Surpreende assim como Morrissey, Smith, Veloso e Hall conseguem seguir cantando as mesmas músicas sempre acrescentando ar novidadeiro na forma de interpretá-las.

Além disso, Terry Hall continuou, depois dos Specials, trilhando uma carreira diversificada musicalmente com trabalhos ultra refinados, disco após disco. Só parou quando a lógica do mercado fonográfico não deixou mais espaço para projetos musicais de quem vive de um público menor. A volta dos Specials é, infelizmente, uma tentativa de dar conta da realidade mercadológica em tempo de Internet e live streaming, que, se democratizou o acesso à música e tirou o poder voraz das multinacionais do disco, acabou comprometendo certos nichos de mercado. Jerry Dammers, figura importante na primeira formação dos Specials (criador da segunda fase do grupo: o Specials AKA), não quis voltar, Neville Staple, com quem Terry Hall e Lynval Golding formaram o Fun Boy Three, fez a excursão de 30 anos em 2011, mas não pode continuar devido a problemas de saúde. Dos primeiros tempos, estavam no palco Horace Panter (baixo), John Bradbury (bateria) e a dupla Golding/Hall.

Mas o show funciona, ainda mais em um final de tarde no Jardim Botânico (Kew Gardens) em espaço muito bem estruturado que recebe sempre festivais de música no verão e onde na noite anterior o UB40 havia tocado. Uma pena que o verão inglês tivesse se encerrado dois dias antes, em meados de julho, e que acabasse chovendo por toda manhã e tarde daquele domingo. Chuva, no entanto, que foi embora com o show, o que foi ótimo. Não tivemos clima nostálgico e as músicas foram interpretadas com vontade e empenho. Lembrei muito de dois amigos, o dj Edinho e o músico Beto Fae (Dulce Quental/Fagner/Fausto Nilo), que conhecem até mesmo o repertório menos festejado dos Specials e adoram “A Message to You, Rudy”.

Outro espaço de shows do verão londrino é o pátio da Somerset House. Lamentei não ter podido ver o Belle and Sebastian, que só tocou no dia 18 de julho, quando já tinha partido pro restante de um roteiro por Paris, Nice, Cannes, Berlim e Barcelona. Em uma das galerias da mesma Somerset estava acontecendo a “About the Young Idea”, exposição de memorabilia do The Jam, com fotos, cadernos, equipamento e toda as tralhas que Paul Weller, Bruce Foxton e Rick Buckler guardaram do tempo em que estiveram juntos. A ida até lá pediu ainda uma visita à pequena Courtauld Gallery, que vive na sombra da National Gallery e fica muitas vezes esquecida. Rever a coleção permanente, com Rubens, van Gogh, Monet, Gaughin, já vale a visita, e havia também uma temporária com os “Unfisnished Works” de Rembrant, Cézanne, Degas e Kandinsky.

Mas uma das grandes surpresas da passagem por Londres ainda estava por vir: a peça “Sunny Afternoon”, no Harold Pinter Theatre, um musical e revival da história e das composições dos Kinks, com roteiro assinado por Ray Davies himself. Tudo muito bem ensaiado com um show de performance do cast feminino. A dupla de atores da TV e dos palcos ingleses que protagonizam a peça, John Dagleish e George Maguire, surpreendeu interpretando pra valer “Lola”, “You Really Got me”, “All the Day and All of the Night” e tantos outros hits, pré-anos 80 (a narrativa se concentra nesta fase). Do período, fez falta “Victoria”, que não entrou no roteiro. Uma pena que George Maguire, que faz o irmão de Ray Davis, se pareça mais com o lead singer dos Kinks, do que Dagleish, que é quem faz o papel do frontman. O musical é por demais inglês e acho difícil que consiga seguir em temporada mesmo nos Estados Unidos. No Brasil então, me parece impossível. Não custa, de qualquer forma, fazer o boca a boca e torcer para que isso aconteça.

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Heat Wave Inglesa Parte I — Shakespeare

Stratford

O rio Avon e a sede da Royal Shakespeare Company com dois teatros, loja de souvenirs e torre panorâmica

Trailer do “Othello” encenado pela RSC  (clique aqui)

Trailer das apresentações do Globe on Screen agendadas para 2015 (clique aqui)

Caros frequentadores deste espaço que a cada dia que passa fica mais com cara de “meu querido diário”. Não era esta a intenção inicial, mas fazer o que se tudo conspirou para isso?  Ah, as santas férias de um blogueiro. Elas foram desfrutadas em passeio pela Velha Ilha, em encontro com conhecidos de ontem, de hoje, de sempre. O Arthur Dapieve vai à Inglaterra ver os new kids on the block (coisas como The Understudiesuk, Fever Dream e Temples; todos ótimos, sendo o Temples o preferido). Eu vou rever os old kids.

Comecemos por duas peças de Shakespeare: a primeira encenada em Stratfrod-upon-Avon na sede da Royal Shakespeare Company, e a outra, pela equipe do Globe, em seu QG em Londres. Estas companhias, além das produções em suas respectivas casas, têm grupos se apresentado em outras cidades dentro e fora da Inglaterra. O Globe está mesmo com uma turnê para a  encenação de “Hamlet” que percorrerá todos os países do mundo em dois anos (qualquer hora baixam aqui).

A sede ultra modernosa da RSC em Stratford tem uma loja de souvenirs em sua entrada e, próxima a ela, uma torre mais alta e em destaque em relação ao prédio, que propicia aos visitantes a chance de ter uma vista panorâmica da cidade. A partir de sua base e por toda sua robusta extensão adjacente, está um complexo que abriga dois teatros, o Royal Shakespeare e o Swan (apresentando sempre obras de Shakespeare e de seus contemporâneos), salas de ensaio e ainda um restaurante no terraço. É a festa para os bardólatras que podem passar dias em Stratford vendo montagens de diferentes peças apresentadas de forma intercalada. Durante o verão, nos meses de junho, julho e agosto, temos também teatro ao ar livre e de graça nos fins de semana.

A RSC fica localizada na parte central da pequena cidade e movimenta a vida local junto com o  roteiro de visitas à casa em que Shakespeare nasceu, a um centro dedicado ao dramaturgo (contando sua história e de seus dramas através de displays hi-tech e com a presença de atores que improvisam cenas ao pedido aleatório do visitante) e à Holy Trinity Church, onde Liam rest in peace. Muito simpática a cidadezinha, especialmente no verão com clima de quermesse em suas margens e muitos barcos a remo e embarcações cortando o rio Avon pra cima e pra baixo.

“Othello” na montagem da RSC foi atualizada. O protagonista shakesperiano agora comando um exército, todo ele trajado com aparato de força tarefa moderna, Iago e o elenco cantam rap e tudo é encenado com cenografia, efeitos especiais, iluminação e sonoplastia vanguardeiras. Vai no caminho oposto à apresentação de “As You Like It” no Globe, teatro reconstruído nos moldes elizabetanos, que faz representações tradicionais com reverência completa ao texto original e se permitindo apenas um discreto caco aqui e ali para fazer graça com a platéia explorando o choque temporal (um ator com um mapa na mão, outro, de óculos escuros).

Pra quem tem prazer em fruir o texto shakespeariano, a segunda montagem ganha de longe. Especialmente porque o Iago da montagem da RSC, interpretado pelo lorde pirata de “Game of Thrones” Lucian Msamati, é de início um negro, em mais um esforço do grupo em inovar, e ainda controla a cena com muito mais vigor que Hugh Quarshe, intérprete de Othelo. Acontece que a peça tira uma de suas maiores graças do contraste entre a aparência de seus protagonistas, explorando a oposição entre a negritude do Mouro de Veneza e a brancura esqualida de Desdemona (que felizmente tem excepcional atuação de Joanna Vanderham, atriz de “Pelos olhos de Maisie” e de séries para a BBC), o que se perde na montagem. E francamente, o papel de Iago é significativo e pode até rivalizar com o de Othello, mas não pode apagá-lo em cena.

Assistir a uma peça no Globe é uma beleza. Na platéia havia desde a garotada, que é forçada a ler Shakespeare na escola, a adolescentes topetudos, passando por senhores e senhoras que conhecem tudo de cor. Todos mesmerizados com a encenação. No elenco, Gwyneth Keyworth, a Clea da última edição do “Game of Thrones”, no papel de Phebe, contracenando com a Rosalind interpretada por Michelle Terry (“Law and order”). As duas ótimas, injetando muito humor em suas atuações, especialmente nas cenas em que contracenam com Orlando, interpretado por Simon Harrison. Um outro ator, também menos conhecido, James Garnon, divertiu o público com o seu Jaques. O Globe, com sua belíssima reconstrução das casas de espetáculo do século XVII, a indumentária típica do drama do período elizabetano e os músicos tocando instrumentos tradicionais, é um programa e tanto a nos transportar no tempo.

Tanto a Royal Shakespeare Company quanto o Globe estão fazendo transmissões ao vivo de suas encenações. O Globe também oferece gravações de suas produções em seu site, tanto para download como para assistir como pay-per-view (no Globe Player). A corrente temporada da RSC apresenta, além de “Othello”,  “O Mercador de Veneza” (essas duas no Royal Shakespeare Theatre) e o “Judeu de Malta” (de Christopher Marlowe) e o “Volpone” (de Ben Johnson), no Swan Theatre. A temporada do Globe tem alternado encenações de “As You Like It”, “Much Ado About Nothing”, “Ricardo II” e “Measure for Measure”. Tem encenado ainda “MacBeth” em cantonês (será que a demanda de turistas chineses já é tão grande assim?) e produções atuais, como a peça “Nell Gwynn”, de uma autora novata: Jessica Swale. O RSC também deixa espaço para o repertório contemporâneo, e encenou no início do ano o “Death of a Salesman”, de Arthur Miller.

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Flip versão 2015

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A Flip foi aquela beleza de sempre. Mesmo sem tanto dinheiro, tendo que economizar aqui e ali, o que teve seus reflexos para quem sempre acompanhou a festa literária de longe, rendeu encontros e palestras ótimas. Fizeram falta os áudios daquelas mesas que não puderam ser vistas ao vivo e que torcemos para que apareçam na web quando as coisas acalmarem. Mario de Andrade teve todas as merecidas homenagens e foi celebrado como bem merece, desde a abertura com Beatriz Sarlo e Eduardo Jardim até o encerramento com José Miguel Wisnik.

Professor de “Filosofia da Ciência”, aquela cadeira espinhosa que estudamos na universidade a fim de identificar os tais dos “cortes epistemológicos” e as “rupturas de paradigma”, Jardim escreveu a primeira biografia intelectual do escritor paulista (“Eu Sou Trezentos – Mario de Andrade: Vida e Obra”; Edições de Janeiro, 2015) e tratou de apresentar os traços mais característicos do pensamento marioandradiano. Suas observações foram complementadas pela abordagem de Sarlo, que contrastou a vivência de Mario com a de seus conterrâneos argentinos. Estas duas perspectivas ganhariam ainda novas e adicionais tintas na palestra de fechamento de José Miguel Wisnik, com seu emocionante depoimento com detalhes sobre a trajetória biográfica e afetiva deste brasileiro extraordinário.

Entre uma ponta e outra da programação principal, pudemos ver os autores cuja literatura começamos a conhecer. Tive interesse particular pelo Leonardo Padura. Ainda que não seja um doente por estórias policiais, como a inglesa Sophie Hannah, companheira de mesa de Padura e autora que também tenta renovar o gênero, achei o escritor cubano uma simpatia. É possível mesmo enxergar em Padura aquele interesse que Mario tinha por seu país. O autor de “O homem que amava os cachorros” é cubano, vive em Cuba, e não quer sair de lá. O Brasil de Mario, à sua época, não era certamente o país que o autor de “Macunaíma” mais desejava, mas era a sua terra e não a trocaria por nada. Pelo contrário, se embrenhou país adentro para conhecer a paisagem e a cultura popular brasileira.

Cerceado em sua terra natal, Padura, admirador confesso de uma variedade de autores estrangeiros (Hemingway, Raymond Chandler, Zé Rubem), teve que enfrentar a maior luta para que o seu projeto de escritor vingasse contra todas as adversidades e o isolamento da Ilha. Apesar disso, e ainda que agora goze de prestígio internacional, segue sem vontade alguma de deixar o arquipélago cubano pra trás. Conheci o “Passado Perfeito”, sua primeira obra, e deu vontade de avançar por toda ela. A ideia da narrativa ficcional sobre o assassinato de Leon Trótski é, especialmente, um daqueles achados dos grandes escritores.

Amigas que já conferiram a Flip in loco, dizem que a festa é uma maravilha particularmente para aqueles que acompanham tudo de perto. A Helena Torres, por exemplo, foi com o filho, Gabriel, e se esbaldou não apenas na Flip, mas ainda na Flipinha. Com meu espírito macunaímico-infatilóide acho que não seria diferente. E a bem da verdade, durante a Festa Literária hoje acontecem tantos eventos paralelos que tenho certeza que deve-se sair de lá recalcado por perder as muitas mesas que não puderam ser assistidas nas palestras da off-Flip.

De longe, tivemos que nos contentar com a programação da Tenda dos Autores. Por lá, a diversidade, que faz a graça da Flip, se repetiu mais uma vez nas sessões centrais da Festa. Deu para rir com as ponderações imprevisíveis de José Ramos Tinhorão, conhecer melhor o que orienta a poesia de Arnaldo Antunes e desorienta o percurso musical-poético de Karina Burh, surpreender-se com o pensamento fora de esquadro de Antônio Risério, divertir-se com Marcelino Freire e Jorge Mautner, bem como passear pela perspectiva da escrita teórica sobre erotismo de Eliane Robert Moraes e pela faceta apimentada da literatura erótica de Reinaldo Moraes.

Quando do anúncio do programa principal desta edição 2015, ficou aquela sensação de que talvez os organizadores estivessem repetindo demais alguns dos palestrantes. Mas as apresentações de Lilia Moritz Schwarcz, acompanhada por Heloisa Starling, e o fechamento emocionante de José Miguel Wisnik, botaram por terra estas apreensões. Que a Flip consiga contornar e sobreviver às intempéries de um país imprevisível e volte com a estrutura de sempre o ano que vem. Antes disso, ficamos na expectativa de poder ouvir ainda em áudio as palestras perdidas com Boris Fausto,  Roberto Pompeu de Toledo, Carlos Augusto Calil, David Hare e Colm Tóibín.

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Whomania e Beck animam verão londrino

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Fotos de Vani Garcia, direto do Hyde Park

Sou adepto ferrenho do “cansado de Londres, cansado da vida”. Quando não houver mais nada de interessante pra fazer em London Town, será sinal de que está na hora de desistir de tudo e de todos. Antes do embarque,  já começam as conjecturas sobre o que pode nos aguardar em mais um verãozinho em visita à Ilha. A temporada deste ano tem sido especial pra aqueles que, junto com o Edgar Scandurra e o Nasi, acreditam que o movimento Mod foi a coisa mais importante a acontecer no planeta.

Pete Townshend e Roger Daltrey seguem com a turnê do show que comemora os 50 anos do The Who e fizeram a alegria do público londrino no último fim de semana. Foram os responsáveis por encabeçar, no sábado, o line-up de um mini-festival (o que já é uma vantagem em tempos de festivais megalô) num ensolarado Hyde Park.  Fecharam a tarde/noite depois de Johnny Marr, Kaiser Chiefs e Paul Weller. Vontade danada de estar lá repetindo os versos de “The Seeker” (“I asked Bobby Dylan/I asked the Beatles/I asked Timothy Leary/But he couldn’t help me either”), uma das favoritas ao lado de “Zoo Suit” e “I am the Face”, estas duas gravadas quando a banda ainda atendia pelo nome de High Numbers.

Não sou Whomaníaco como o Marcelo França e meu irmão, André Pedrosa, dois que não dormem sem fazer a sua prece pra São Pete Townshend. Nas redes sociais dava pra acompanhar à distância o show com a ajuda de quem não resistiu e pagou pra estar na cara do palco. Marcelo França também estava atrás de notícias. Tinha a sua listinha com a seleção das músicas que não poderiam faltar. Chegava a viajar em um roteiro pessoal para o show: “Num delírio meu ‘whoniano’, acho que seria ótimo se eles fizessem um set acústico. E tocar, por exemplo, “So sad about us”, “Mary” e “Circles”. Adoraria ser surpreendido com coisas do disco “Odds and Sods”. Uma música como “Bargain” tem que estar em TODOS os shows do Who. Há outras obrigatórias. Não tem como fugir muito do que é o atual set list. Surpresas são sempre boas, mas a essa altura (70 e tal) não dá pra esperar algo por aí. Vi o Who em 2000 ainda com John Entwistle. Era menos paródia do que é hoje – como Led Zep e Stones -, mas já não era e nem dava pra ser aquele fogo todo que aprendemos a amar.”

Domingo que vem, Pete Townshend dá sequência ao clima Mod do verão londrino deste ano. Vai passar com muita pompa o repertório de “Quandrophenia” acompanhado pela Royal Philarmonic Orchestra e pelo London Oriana Choir no Royal Albert Hall. Billy Idol e Phil Jimmy Daniels, sim, ele mesmo em pessoa, confirmaram presença. Não fosse o bastante estes dois programas, segunda-feira, Beck, que anda dizendo adeus a fase folk com a nova e dançante “Dreams” (https://goo.gl/I3fPNU), participou de evento performático com poesia e artes visuais no Barbican Centre (centro cultural alternativo na City londrina).

Os Mutantes fizeram seu histórico show de retorno no Barbican, em 2006, e em 2011 tive a chance de assistir a Damon Albarn com Flea, do Red Hot Chili Peppers, passando por anfitriões para festejar a loja de discos Honest Jon´s (localizada em Portobello e queridinha dos fãs de World Music), bem como os artistas do selo musical de mesmo nome (o selo é  apadrinhado pelo líder do Blur). Beck esteve no Barbican com Thurston Moore (do Sonic Youth) criando a atmosfera sonora para evento multimídia que fazia um mix de música, poesia e artes visuais. Uma pena também chegar tarde para esta. Torcer para que a turnê do Who que segue para os Estados Unidos acabe, como prometido, na América do Sul com o Brasil na rota.

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Hora de aula com Paulo Henriques, Joseph Campbell e Joyce

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Primeira das seis palestras de Joseph Campbell sobre Joyce (clique aqui)

Mês de junho é sempre mês de James Joyce. Este ano, Joyce foi lembrado ao lado de um professor do passado. Lá pelos idos de 1975, a sala de aula ficava no prédio do Instituto Brasil-Estados Unidos, na Nossa Senhora de Copacabana, 690. Estávamos, salvo engano, no curso 21, depois de termos avançado, semestre após semestre, pelo aprendizado infantil do ensino colegial (do C1 ao C4) e pelo anos iniciais da formação para jovens e adultos do 11 e 12, aos quais se seguiriam o 21, 22, 31, 32, e assim por diante até o 62, completando 6 anos de instrução. Era o tempo do “repeat after me”, ainda que não me lembre deste tipo de prática em sua aula. O professor usava óculos de aro arredondado, tinha cabelos longos e escorridos, andava sempre vestido despojadamente, e dava pra suspeitar que a qualquer momento fosse atacar com sua versão pessoal para “Instant Karma”.

Do espaço das salas de aula do IBEU, saltamos para os pilotis da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, instituição em que ele daria sequência ao seu percurso no magistério, agora como professor universitário integrante do quadro docente do curso de Letras da PUC. Começaria também uma carreira de enorme sucesso como tradutor, poeta, contista e ensaísta. É ao lado de Paulo Henriques Britto que vamos nos voltar para o gênio de James Joyce, que, por coincidência, foi também professor de um curso livre  de inglês antes de se projetar entre os grandes nomes da literatura do século XX.

Joyce deu aulas particulares de inglês e trabalhou no curso Berlitz em Pula, na península de Ístria (então, território austro-húngaro, hoje, croata), e Trieste, no nordeste da Itália, até conseguir se cercar de mecenas que o sustentassem para dedicar seu tempo exclusivamente à preparação de suas obras. Não fosse fundamental a sua ligação com o ensino, Joyce não teria feito de seu alterego, Stephen Dedalus, primeiro, um aluno, e, depois, um professor. Além de protagonizar “Retrato do Artista quando Jovem”, em que narra seus anos de formação, Stephen Dedalus divide a atenção dos leitores com Buck Mulligan e Leopold e Molly Bloom em “Ulysses”. Comentam alguns críticos, com muita propriedade, que ele é também a provável voz narrativa dos primeiros contos de “Dublinenses”.

Paulo Henriques passou em revista em duas aulas no Polo de Pensamento Contemporâneo, centro de palestras no Jardim Botânico, os livros de Joyce com foco em “Ulysses”, cuja mais recente tradução, assinada por Caetano Galindo e lançada em 2012, foi por ele coordenada para a editora Companhia das Letras. Mostrou em suas aulas a evolução do estilo de Joyce. De uma narrativa mais linear e cujas inovações se introduziam com a exploração do discurso indireto livre, em “Retrato do Artista quando Jovem”, até a ampla utilização deste recurso com a associação indiscriminada de cenas que justapõe perspectivas narrativas distintas e circulares. Tudo caminhando para o recurso da representação narrativa do fluxo de consciência que vem de maneira radical no monólogo de Molly Bloom, capítulo que fecha “Ulysses”. Todas técnicas de escrita literária usadas por Joyce e que serão trabalhadas para criar a sensação de um sonho posteriormente em “Finnegans Wake”. Para surpresa de muitos dos presentes, o monólogo de Molly Bloom, momento máximo da ousadia joyceana, foi identificado como, de longe, o mais prazeroso para o leitor e o que se torna compreensível sem a exigência de recorrer aos guias explicativos dos muitos comentadores dos escritos do autor.

Para contrariedade de alguns dos presentes, o professor-anfitrião apresentou Dedalus como um personagem tedioso. Se como leitores não sobrepuséssemos a imagem de Stephen Hero, ou de Stephen Dedalus, a de Joyce, talvez fosse fácil concordar com o palestrante. Temos que nos lembrar, no entanto, que Joyce está falando do ensino na Irlanda do fim do século XIX, o que pode eventualmente propiciar a projeção de uma imagem enfadonha sobre um de seus protagonistas. Peguem por exemplo, a autobiografia de outro Stephen ilustre, mais conhecido por seu sobrenome, Morrissey (“Irish blood, English heart”). Nascido em Manchester, filho de pais irlandeses, Stephen Patrick conta em seu livro de memórias, “Morrissey Autobiography” (Penguin Classics, 2013),  como foi sua educação entre os anos 1960-70 no norte da Inglaterra. Quase um século depois de Joyce, Morrissey viu e enfrentou humilhações inacreditáveis (palmatória inclusive), que estiveram bem longe de quem frequentou, no mesmo período, o ensino experimental (era o nome que usavam) do Colégio Brasileiro de Almeida, no Rio de Janeiro.

Da palestra de Paulo Henriques, passamos para as seis conferências sobre Joyce proferidas por outro professor ilustre: Joseph Campbell. Campbell, com vasta produção acadêmica sobre mitologia, é daqueles eruditos universitários que fazem a alegria das suas plateias unindo sofisticação teórica com  análises inspiradíssimas. Conhecidas inicialmente apenas em áudio no percurso para dar aulas universitárias em Niterói, na Barra da Tijuca e em Madureira, essas conferências podem ser vistas agora na Internet (link acima). Apenas com o áudio, a impressão que Campbell deixava em alguém que o desconhecia por completo era a de um professor de universidade californiana em pleno movimento do flower-power. Na realidade as palestras, proferidas em data bem anterior a 1987, ano da morte de Campell, são extremamente formais como se comprova através destes registros em filme.

Para Campbell, o modelo que Joyce adota em seu trabalho tem como espelho a obra de Dante Alighieri. A narrativa de Dante em “La Vita Nuova”, discorrendo sobre a presença física de sua Beatrice e, depois de sua morte, procedendo a idealização de sua figura, é replicada por Joyce para falar da trajetória pessoal de Stephen Dedalus em o “Retrato do Artista”. “Ulysses”, por seu turno, nos levaria ao “Inferno” e ao “Purgatório” da “Divina Comédia” de Dante. E, com “Finnegans Wake”, chegaríamos ao paraíso terrestre no ponto mais alto do purgatório. O “Paraíso” estaria reservado para a última obra a ser preparada por Joyce. Com o seu falecimento, por complicações decorrentes de uma cirurgia aos 59 anos, acabamos por não conhecê-la. Que fique bem entendido que esta obra final é fruto de uma especulação pessoal de Campbell.

A epígrafe que abre o “Retrato do Artista quando Jovem”: “E ele devotou seu espírito a artes obscuras” (citação do Ovídio de “Metamorfoses”), orientaria toda essa trajetória. A apresentação muito erudita desta visão de Campbell seria bem aceita, não fosse um pequeno senão em um trecho de uma de suas seis palestras. Comentando indiretamente a morte de Martin Luther King, Campbell faz a condenação dos estudiosos que enxergam sociologia em tudo, tendência que marcou a universidade no mundo todo a partir de meados do século passado. É difícil, no entanto, aceitar a universidade como espaço exclusivo para a realização de projetos e carreiras de cunho personalista que se distanciam do ambiente social em que estão inseridos. Edward Said, um intelectual de perfil acadêmico, mostrou em sua carreira opções consequentes para aproximar erudição e atuação política por parte de um scholar vinculado ao seu tempo. A posição de Campbell de qualquer jeito não tira o mérito e interesse por suas considerações elaboradíssimas sobre Joyce e seus escritos. Não se deve perder a oportunidade de conhecê-las.

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Hamlet Jr. sob o olhar crítico de dois resenhistas iconoclastas

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Capa do livro de Rodrigo Lacerda e cena do vlogue de John Green (pode ser visto legendado)

Resenha do Crash Course de John Green (clique aqui)

O título talvez deixe a falsa impressão de tratar-se de escrito explicativo e superficial sobre uma das obras mais veneradas de toda a literatura do ocidente: o “Hamlet” de Liam Shakespeare. Não é o caso. O que se tem em “Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos” (Zahar, 2015) é um disfarçado apanhado sobre a fortuna crítica referente a mais elaborada obra do bardo inglês. Tudo contado com o teclado da galhofa e os bytes da picardia, sempre com inspiração na senda dos melhores romancistas brasileiros (Manoel Antônio de Almeida é confessadamente um favorito do autor).

 As argumentações e comentários são ainda encaminhados com uma subjacente estrutura narrativa que lembra uma criação ficcional. Cheguei mesmo a ter a impressão de que o premiado ficcionista Rodrigo Lacerda talvez estivesse pensando em transformar sua iconoclasta apresentação analítica do drama do indeciso Hamlet Jr. (é como trata o protagonista), em um filme ou em uma peça de teatro. Com a qualidade que anda caracterizando os filmes do novo cinema novo brasileiro, daria uma produção cinematográfica de apelo internacional. Nossos roteiristas, que tem feito o diabo, é que devem dizer se estou delirando ou não.

“Hamlet ou Amleto?” é uma análise divertida e com grande lastro de erudição que não deixa nada a dever aos trabalhos dos mais empenhados shakespeariófilos.  Ouvi dizer, embora não tenha conseguido confirmar, que Rodrigo Lacerda frequentava a roda de discussão semanal sobre os escritos do “autor do ser ou não ser” comandada por Barbara Heliodora. Se foi esse o caso, o fato mostra o interesse deste escritor, que em sua primeira novela, “O mistério do leão rampante”, demostrava grande admiração pelo dramaturgo de Stratford-upon-Avon. Admiração essa que, ao que tudo indica, vem de longe. O livrinho infanto-juvenil, “O fazedor de velhos” (Cosac Naify, 2008), de Lacerda, fala mesmo de um leitor, de início mirim e depois pós-adolescente, a um só tempo, intrigado e com extremo fascínio pela dupla Hamlet/Shakespeare.

O inspirado autor de uma coletânea de contos (“Tripé”), novelas (além de “O mistério…”, publicou “A dinâmica das larvas”) de um romance histórico (“A república das abelhas”, sobre seu avô, Carlos Lacerda), com vários prêmios que comprovaram o alcance de sua escrita ficcional (prêmio Jabuti, prêmios da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil e da Academia Brasileira de Letras), se mostra um escrutinador com aquele dom raro dos grandes resenhistas-comentadores que fazem carreira nas universidades. A boa nova é que o livro de Rodrigo Lacerda não tem o ranço e nem apresenta tampouco aquela escrita pouquíssimo criativa que costuma marcar os trabalhos produzidos no meio acadêmico. Embora tenha cumprido os ritos de nossas pós-graduações, doutorando-se em teoria literária e literatura comparada pela USP, o autor de “Hamlet ou Amleto?” não se sente obrigado a posar de entendido. Sua escrita leve, enfezada, divertida, hilária em alguns momentos, tem compromisso apenas com a inteligência do leitor. Mesmo um connaisseur da peça e de sua fortuna crítica, ficará contente em revisitá-la acompanhando o autor que a examina em seus mínimos detalhes, mostrando como trata-se de um drama bem amarrado e extremamente coeso em sua estrutura narrativa.

Sem um registro bibliográfico formal, ainda que haja em sua parte final indicações sobre o que informou seu texto, o analista percorreu os trabalhos de leitura de alguns dos críticos fundamentais dessa peça que há 400 anos é discutida por todos que a entendem como um dos maiores tratados sobre a psique humana. Harold Bloom acha mesmo que Shakespeare com o seu Hamlet inventou o homem moderno. Para o crítico americano, sem o dramaturgo-criador e sua personagem-criatura, não teríamos conseguido nos igualar aos filosóficos houyhnhms machadianos. É uma leitura possível, mas que não deixa de levar uma alfinetada de Lacerda, que diz (se dirigindo a Bloom e seus seguidores ao comentar a passagem em que Hamlet não mata o tio Claudius porque ele está rezando): “De tanto quererem enfatizar que Shakespeare e você (o autor está mais uma vez, e como faz ao longo de todo o livro, dando conselhos a Hamlet Jr. ou a um possível ator que viesse a fazer o seu papel) são homens 100% modernos, inventores do indivíduo contemporâneo, materialistas e racionais, eles atropelam seu lado cristão praticante”.

Com desprendimento, o autor-crítico fica à vontade ainda para recorrer a fontes pouco confiáveis como aquelas presentes na rede mundial de computadores. E neste ponto é uma pena que tenha deixado escapar uma notícia importante do New York Times. Em reportagem do jornal americano de dois anos atrás, ficamos sabendo que o inglês Brian William Vickers, da University College de Londres, identificou, e, pesquisas do americano Douglas Bruster, da Universidade de Austin no Texas, parecem confirmar, os fortes indícios de que a “Spanish Tragedy”, de Thomas Kyd, fonte da estrutura narrativa de “Hamlet”, teve 325 de suas linhas redigidas com a caligrafia de Shakespeare. O fato comprovaria a participação ativa do bardo na preparação da peça.

Aparecendo apenas em um dos periódicos de circulação restrita da Universidade de Oxford, esta informação é registrada por artigo do New York Times de 2013 (http://goo.gl/YP05eq). Em tempo hábil, portanto, para que fosse aproveitada no capítulo 4, em que Lacerda refaz a cronologia da peça no percurso que levaria ao estabelecimento do texto canônico do drama. Rodrigo Lacerda podia ainda ter conhecido também a professora emérita do King´s College de Londres Ann Thompson, que tem palestra postada na Internet (https://goo.gl/VQ9JCM; aconselho avançar até os 10 minutos para contornar as formalidade da apresentação). Ann responde, junto com Neil Taylor, por uma das famosas edições Arden (a de 2006) sobre a tragédia do Príncipe indeciso. Para seu livro, Lacerda preferiu, no entanto, ficar com a antiga edição da New Swan Shakespeare, editada por Bernard Lott para a Longman no final dos anos de 1960.

Mais estes detalhes são pouquíssima coisa para um autor com extenso currículo como tradutor (Faulkner, Dumas, Carver) que se deu ao trabalho de vazar sua versão personalíssima (vale a pena contrastá-la com a de Millôr Fernandes) para todas as longas passagens comentadas. Shakespeare, em geral, e “Hamlet”, especificamente, colecionam as frases mais repetidas por todos nós diariamente em todos os idiomas. Traduzi-las é, portanto, um desafio. No que diz respeito a nossa muito conhecida “Há mais coisas entre o céu e terra do que sonha a nossa vã filosofia”, Lacerda lembra que o adjetivo “vã”, embora caia bem e se adeque ao criar certa ênfase ao momento que se segue a aparição do espectro do pai de Hamlet, não aparece no original.  Rodrigo prefere ainda que a segunda oração fique: “Do que as sonhadas em nossa filosofia”, com “filosofia” como sinônimo para as “ciências naturais”. O assunto é discutível e a “Hamlet ou Amleto?” cabe o mérito de levantar a questão. A tradução de Millôr Fernandes foi mais conservadora e ficou com: “Do que sonha a tua filosofia”. Já que o “your philosophy” do original não parece usar o pronome possessivo como impessoal e sim como uma referência a Horacio, que é o interlocutor do príncipe na cena.

Outros momentos de divergência. A tradução de Lacerda é mais ousada na famosa “Frailty, thy name is woman”. O autor traduz “frailty”, por “traição”, uma leitura possível. Millôr ficou com “fragilidade”. Uma amiga, Regina Cocking, sugeriu “fraqueza”, que talvez seja a melhor alternativa para caracterizar a dúvida de Hamlet sobre o caráter de sua mãe. Já na conhecida troca de farpas entre Hamlet Jr. e Polônio, o ousado é Millôr que faz o Príncipe, se passando por lunático e ao fingir não reconhecer o conselheiro real, se referir a ele como “Rufião”. Sugere assim que “fishmonger” esteja sendo usado como uma corruptela de “fleshmonger”. Lacerda fica com o mais comedido e literal “peixeiro”.

Se desce, investiga e debate detalhes com refinamento, Rodrigo Lacerda não deixa de ter desprendimento para recorrer à Wikipedia. O autor não se furta também a fazer referências a exemplos culturais rasteiros e contemporâneos como os bitiniques, o agente Maxwell Smart, a FIFA e ao Big Brother. Quem se divertir com “Hamlet ou Amleto?”, vai também rolar de rir se instruindo com as duas postagens do vlogue do Crash Course que John Green fez para o “Hamlet” (link acima). O entusiasmo foi tanto que não resisti a baixar o livro “A Culpa é das Estrelas”, para conhecer o universo ficcional deste outro grande resenhador que conversa conosco sem as formalidades dos adeptos de pompa e circunstância.

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