A Obra Aberta da Lava-Jato

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Os dois mais importantes colunistas culturais brasileiros vivos, Ruy Castro e Sérgio Augusto, dedicaram artigos a Umberto Eco durante o fim de semana. O nosso biógrafo e historiador da vida cotidiana do século XX favorito desencavou um daqueles achados e nos lembrou que a primeira especulação sobre a tal “obra aberta” partiu de um artigo de Haroldo de Campos publicado em 1955 no jornal Diário de São Paulo. O poeta, tradutor e um dos idealizadores do programa de comunicação e semiótica da PUC-SP disparou portanto a fagulha que Eco, que teve convivência com os irmãos Campos, soube bem aproveitar. Ruy Castro comenta então, em tom trocista, que não custaria nada portanto ao estudioso italiano ter registrado de alguma forma um agradecimento.

Sérgio Augusto falou sobre a prática jornalística de Umberto Eco citando os artigos que o “sábio do Piemonte” escreveu ao longo de toda a vida e desde os anos 1960. Escritos que desconheço. Parece que há coletâneas desses textos em Diário Mínimo, obra editada em dois volumes dando conta de períodos diversos da práxis jornalística de Eco. Quando achamos que conhecemos bem a obra do escritor, vemos que ainda há muita coisa a ser lida. Sérgio Augusto não deu muita atenção à produção romanesca do autor, mas ficou encantado e teceu loas a Número Zero, para vermos como cada obra chega a um leitor distinto.

Em sua coluna na página 2 da Folha de São Paulo, por onde já passaram dois dos maiores nomes do jornalismo brasileiro (Cláudio Abramo e Otto Lara Resende), Ruy Castro tratou ainda de atrelar a conversa sobre Umberto Eco ao momento conturbado que vivemos para observar de novo jocosamente que de obra aberta e ambígua quem entende mesmo é Luiz Inácio Lula da Silva. Para não dizerem que vivo em outro planeta, gostaria de comentar com petistas e anti-petistas (tenho amigos queridos dos dois lados) que a briga de torcida em que se transformou a investigação da Lava Jato, que, como assunto jurídico deveria correr distante de qualquer paixão, me deixa admirado. Não me agrada o jogo de cena de Lula, mas, como Chico Buarque de Hollanda, não acredito e nem confio no PSDB. Esta história de ex-presidentes criarem seus institutos é também das coisas mais megalomaníacas e abomináveis de que já se teve notícia.

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O Legado de Umberto Eco

Umberto Eco

Conversa com Umberto Eco sobre memória e livros (clique aqui)

A morte de Umberto Eco, ocorrida há pouco mais de uma semana, faz com que qualquer um que tenha acompanhado sua trajetória e convivido com seus escritos se sinta compelido a comentar a impressionante herança deixada por alguém que se dedicou com empenho surpreendente à escrita: seja para refletir sobre as relações entre arte e ciência, seja para incorrer em uma criação romanesca de significativo lastro. Nos obituários e textos póstumos publicados sobre o autor, apareceram os elogios e também observações críticas a um escritor cujos livros foram de qualquer jeito objeto de afeição e estima por parte de todos aqueles que apreciam os autores/teóricos que conseguem aliar erudição e inventividade. Vamos então a cada um dos segmentos que compõem o denso e extensíssimo legado deixado pelo grande mestre italiano.

Semiólogo

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Outro dia falamos sobre os escritos de Roland Barthes, que se notabilizou por suas discussões e interesse pela semiologia. Mas, se houve alguém que se dedicou ainda com mais empenho aos fundamentos desta ciência, essa pessoa foi Umberto Eco. Os estudos de Eco talvez sejam extremamente técnicos e eventualmente maçantes para o leitor desinteressado pelos princípios da semiótica, mas são, a bem da verdade, as mais pormenorizadas e profundas considerações sobre o assunto já feitas e resultaram em um número grande de tratados definitivos sobre o tema.

Partindo dos escritos do pioneiro filósofo e lógico americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), o professor italiano, que inaugurou a cátedra de semiótica na mais antiga universidade européia  (a Universidade de Bolonha, onde lecionou até se despedir de nós), deu sequência aos estudos semiológicos em vários volumes. Começou por A Estrutura Ausente, livro de 1964, editado no Brasil em 1976, e seguiu com Tratado Geral de Semiótica, de 1976, lançado por aqui na mesma época. A semiologia, ciência considerada prospectivamente por Ferdinand de Saussure em suas anotações para o seu curso de linguística geral, continuaria a pontuar trabalhos subsequentes de Eco, ainda que sob uma nova abordagem que incluiria a perspectiva do leitor.

Nas escolas de comunicação nas décadas de 1970/80, o erudito italiano, que visitara o Brasil e convivera com a intelectualidade brasileira, era leitura obrigatória. No curso da PUC-RJ da década de 80, havia um culto às suas discussões semiológicas. Quem me apresentou particularmente aos textos do autor e fez a minha iniciação ao mundo do teórico foi a muito querida professora Rosângela Araújo. Convivi com seus textos ao longo de toda a graduação e quando estava fazendo a monografia de final de curso, voltei a eles. Queria escrever sobre o cinema de Glauber Rocha e julguei que seria pertinente tentar entender como se estruturava a linguagem cinematográfica.

As discussões de Eco se insinuavam como perfeitas para embasar teoricamente o trabalho monográfico, ainda que o espaço de tempo de um semestre não tenha sido suficiente para aproveitar consequentemente as ponderações do teórico. De qualquer jeito, os tratados do semiólogo me marcariam por demais e seriam mesmo incorporados às discussões de minha dissertação de mestrado sobre a tradução em meios audiovisuais.

A tentativa de Eco de estabelecer um modelo teórico que desse conta de todas as formas de troca que acontecem na comunicação é preciso e adequado a uma abordagem estruturalista, mas parece não ter conseguido fugir às suas limitações, especialmente para um autor que já havia escrito a muito citada Obra Aberta (1962). Tanto assim que, dos tratados de semiótica, ele partiria para relacionar a discussão semiológica com uma filosofia da linguagem e para investigar o papel do leitor no processo comunicacional.

Ensaísta

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Retomando sua verse ensaística, Eco começou então a escrever livros especulativos e mais prazerosos de se ler como Lector in Fabula (1979), Semiotics and the philosophy of Language (1986) e Os Limites da Interpretação (1990). Este último se desdobraria em uma apaixonante discussão que resultaria no livro Interpretação e Superinterpretação (1993). Coletânea que reuniu os textos das conferências de Tanner que aconteceram em Cambridge em 1990. O professor italiano era homenageado e suas palestras foram realizadas em diálogo com outros três estudiosos do tema: Richard Rorty, Jonathan Culler e Christine Brooke-Rose. Foi um daqueles debates em que não se consegue chegar a consenso sobre coisa alguma. A proposta de discutir o assunto de qualquer jeito partira galhardamente do próprio Eco que já devia imaginar os embates que viriam pela frente e deve ter se divertido com o confronto de ideias.

O auge da carreira de Umberto Eco é certamente marcado por obras especulativas, escritas sempre, como tudo o que fez, com muita criatividade. Assim começamos com Kant and the Platypus (1997), reunião de ensaios sobre linguagem e cognição, seguimos com Quase a Mesma Coisa (2003), sobre o trabalho tradutório, e chegamos ao extraordinário História das Terras e Lugares Lendários (2013). Trata-se de uma das várias (e belissimamente ilustradas) obras de um erudito que consegue discorrer sobre temas como cartografia e as crenças sobre as características esféricas da Terra, bem como os lugares em que se passam as narrativas de Homero.

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Ilustração do livro “História das Terras e Lugares Lendários”, de Umberto Eco, com exemplo da cartografia em seus primórdios. O “mapa em T” representa, na linha horizontal, à direita, o Nilo e, à esqueda, o mar Negro. Na vertical temos o Mediterrâneo. Em cima, a Ásia e, abaixo, Europa e África.

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Há ainda Sobre a Literatura (2002), digressões variadas sobre o exercício de escrita por autores inevitáveis (Shakespeare, Dante, Karl Marx, Oscar Wilde e James Joyce).  Cito por fim On Beauty (2010) e On Ugliness (2011), dois outros livros ilustrados, que infelizmente nunca comprei pois achei excessivamente caros quando dos seus respectivos lançamentos, distribuídos em livrarias por editoras que não têm pena do bolso dos leitores.

Romancista

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O obituário do New York Times desencavou, o que é salutar em um apanhado sobre um autor, os ataques de Salman Rushdie ao romance O Pêndulo de Foucault (1988), publicados em uma resenha do London Observer na época do lançamento do livro. Foi o suficiente para o editorialista da Folha de São Paulo Marcelo Coelho sair à caça de aspectos problemáticos nos livros do autor. Além de Eco ter identificado, de maneira errônea segundo Coelho, pontos positivos no âmbito da cultura de massa em Apocalípticos e Integrados (1965), o escritor produziu, “com resultados insatisfatórios” de acordo com o articulista, um produto híbrido entre a “alta” e “baixa” cultura com seu romance best-seller O Nome da Rosa (1980).

Coelho gastou ainda uma coluna inteira para mostrar os descaminhos de Número Zero (2015), última obra ficcional de Eco, e espera que o legado do escritor italiano seja maior do que o fato de ter inaugurado, com O Pêndulo de Foucault, a tradição na literatura da moda dos títulos implausíveis, que teria sequência, de acordo com o colunista da Folha, com O Atiçador de Wittgenstein, O Cachorro de Rousseau e O Relógio de Cuco de José do Patrocínio.

Ainda que eventuais questões críticas pontuais possam ser reconhecidas na obra romanesca de Eco, não podemos esquecer das criações mais significativas do autor. Além de O Nome da Rosa (aquele livro que foi lido por mais de 10 milhões de leitores em 30 idiomas ao redor do planeta) obras literárias que consagraram um escritor que gostava de mistura um saber erudito com histórias de tons narrativos variadíssimos. Obras como A Ilha do Dia Anterior (1995), com suas referências às clássicas aventuras marítimas, Baudolino (2000), que nos conduz à Idade Média de uma forma bem distinta de O Nome da Rosa, e A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2005), em que surge uma espécie de alter ego do escritor, um senhor que perdeu a memória afetiva e tenta reconstituir sua história pessoal na Itália do século XX. Todas obras de fôlego, as duas primeiras em tradução caprichada de Marco Lucchesi e a última vertida por Eliana Aguiar, dois tradutores que cuidaram recorrentemente dos escritos de Umberto Eco.

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A Vida Noturna Carioca em “A Noite do Meu Bem”

Nada como um recesso para termos um reencontro de verdade com o prazer da leitura. Leitura de livro, bem entendido. Antigamente as pessoas falavam em uma tal de “maquininha de fazer doido” para se referir à televisão. A definição parece mais apropriada para caracterizar uma outra invenção da modernidade, a Internet. Ela está fazendo com que deixemos de lado, esqueçamos, o encanto fundamental da leitura de livro, aquele feito de papel e cola, se é que alguém ainda se lembra dele. É verdade que atualmente ouço muito mais do que leio, viciado que estou nos áudio-livros da Librivox e da Audible. Mas Caetano Veloso está coberto de razão ao falar do grande amor táctil que votamos a este objeto de inacreditáveis qualidades transcendentes e de cujas características físicas às vezes não se pode prescindir sem que eles percam toda sua graça.

Quando esbarramos com um novo livro de Ruy Castro, então, esta sensação é intensificada em razão do cuidado único que a editora Companhia das Letras (que trata o autor a pão de ló) dedica a cada uma de suas obras. Elas merecem. Assim, a fascinação com “A Noite do Meu Bem”, lançado no finalzinho do ano passado pela editora de Luiz Schwarcz, começa em pé, dentro da livraria. Antes mesmo de adquirir o livro já nos pegamos embevecidos a folhear aquele volume com arrojadíssimo projeto gráfico-editorial. A escolha das fotos, a vivacidade das legendas (nunca gratuitas), os elaboradíssimos índices remissivos (neste volume há até uma “cançãografia”), tudo colabora para transformar a obra em um vasto território para os instintos exploratórios do leitor antiquado.

Além disso, há o texto sempre espirituoso de Ruy Castro, capaz de despertar o interesse até daqueles que, como Lucio Rangel e Stanislaw Ponte Preta, trocariam com facilidade as noitadas regadas a samba-canção (assunto central da obra que leva o subtítulo de “A História e as Histórias do Samba-Canção”) por um jazz after midnight (jam para os íntimos) à beira da piscina do Hotel Glória. E é assim que seguimos o convite da contracapa e mergulhamos de cabeça no ambiente agitado do Night and Day, situado no segundo piso do majestoso edifício Serrador na Cinelândia, do Sacha´s, do Fred´s, do Casablanca, do imponente Monte Carlo, com uma estrela de neon verde que podia ser vista de toda a Zona Sul, do diminuto Chez Colbert, que reencarnaria no Little Club, e do Baccara. Um mapa no caderno de fotos no meio do livro situa cada um deles, a quase totalidade em Copacabana.

Vivenciamos ainda (e principalmente) a ascensão e queda, com fim dramático, do Vogue, na Princesa Isabel, de frente pra praia, talvez o mais badalado dos nightclubs que fizeram a alegria dos notívagos que frequentavam as noites cariocas entre 1946 e 1965. Não podia imaginar que  houvesse tanto o que contar e Ruy Castro sabe ir reservando para cada momento do livro um destes episódios que custamos a crer que aconteceram de fato.

A vida sofisticada dos irmãos Carlinhos e Jorginho Guinle com a rivalidade entre as suas respectivas e pra lá de glamorosas esposas. Uma egípcia, e a outra, norte-americana. A amizade do primeiro com Dorival Caymmi, que sempre foi para mim muito mais carioca e copacabanense do que baiano. As trajetórias de Doris Monteiro, Maysa, Dolores Duran, todas com passagens antológicas. O mesmo vale para a carreira de Dick Farney, Ibrahim Sued e Antonio Maria. Os momentos conturbados da vida conjugal de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, que já foram narrados em especial de TV, são relembrados pela pena inspirada do autor. Como fã de Ary Barroso, me deliciei com passagens de sua vida de compositor, figura iconoclasta da noite e narrador de futebol. Uma novidade saber das narrações de jogos de futebol com dois locutores, como na final da Copa de 1950 em que Ary narrou os ataques brasileiros e Antonio Maria, os uruguaios.

Não fazia ideia da importância de Humberto Teixeira, que, segundo nos conta Ruy, era autor solitário das composições assinadas com Luiz Gozanga, que respondia apenas pela “sanfonização” das músicas que “compunham em parceria”. Em postagem anterior já disse que acho o arranjo tão importante quanto a música e a solidariedade da assinatura de Gonzagão é merecida. Mas foi uma surpresa saber que Humberto Teixeira era um intelectual, folclorista, que fazia letra e música ao piano e que foi quem levou a sanfona de Luiz Gozanga dos tangos, fados e fox-trotes, para o mundo do baião. Já incorri em muitos spoilers deste livro delicioso. O melhor é lê-lo, folheá-lo e conferir as imagens vintage-retrô dos cadernos de fotos. Boa leitura e bom divertimento.

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Roland Barthes, Costa Lima e as Teorias literárias

João Ubaldo tinha horror a teorias literárias, dizia que em sua casa a discussão era de interesse exclusivo de sua mulher. Achava o assunto enfadonho. Quando era perguntado sobre seu método de trabalho, costumava recorrer à velha blague para lançar por terra qualquer sinal de elaboração e justificativa maior para orientar sua prática de romancista. Afirmava que seus romances eram criados de modo muito simples: primeiro, dava um nome a figura do seu protagonista e, depois, tratava de sair correndo atrás dele.

Os livros teóricos são na verdade tão engenhosos quanto qualquer romance, têm seus encantos particulares e um público de fascinados leitores, entre os quais me incluo. É claro que como em tudo, e até mesmos nos escritos ficcionais, há os seus excessos. Falemos portanto de dois autores que se mantêm na tensão entre a extrema e salutar erudição e o incompreensível exagero academicista.
Em meados do século passado, a moda das grandes teorias que tudo explicam seguia em plena voga e tínhamos pensadores em muitas áreas querendo estabelecer uma nova e inédita perspectiva teórica para dar conta de qualquer coisa. Algumas teorias daquele período ainda se sustentam hoje com o endosso de muitos estudiosos, como a postulação de Stephen Hawking de que o universo se iniciou com um Big Bang.
Muito particularmente, e ainda que seja bem embasada a teoria de Hawking, não acredito que tudo o que exista tenha algum dia se contraído até a dimensão diminuta de uma bola de golfe para em seguida passar pelo processo de uma grande expansão que gerou todo o universo. Sei que está tudo profundamente fundamentado, mas o bom senso, e o senso comum, imagino, não se deixam convencer. A discussão no entanto não é Hawking, mas dois outros teóricos seus contemporâneos que dedicaram seu tempo à análise literária, um campo mais movediço do que às áreas de conhecimento das tão cultuadas e precisas ciências exatas. Refiro-me a Roland Barthes e Luiz Costa Lima.
Hoje, na Casa do Saber, na Lagoa no Rio de janeiro, teremos o depoimento de Ana Maria Machado sobre o professor do Collège de France, de quem a escritora foi aluna. A conversa será mediada por Beatriz Resende, professora do meu doutorado em Ciência da Literatura na UFRJ e, não estivesse em Búzios, iria acompanhar a conversa para ouvir mais sobre Roland Barthes.
Ele merece esse tipo de reverência. Em sua aula inaugural no Collège de France, quando assumiu a cadeira de Semiologia Literária em 1977, Barthes disse algo muito inspirado e com aquela naturalidade dos intelectuais sem pose. Falou que a sua entrada para o Collège de France, orquestrada pelo amigo Michel Foucault, talvez não tivesse amparo no percurso de alguém que só tinha o título universitário, já a alegria por estar naquele centro de excelência, por onde os mais importantes nomes da intelectualidade francesa haviam passado, era para ele motivo do mais justificado júbilo.
Barthes sempre teve uma escrita classuda, que dispensava qualquer título comprobatório, mesmo quando se aventurava por caminhos problemáticos. A questão é que tanto ele quanto Luiz Costa Lima viveram no período em que a (para alguns santa, para outros maldita) praga do pensamento estruturalista dominava as universidades de todo o planeta. Foram assim contaminados pela tentativa de busca de um explicação geral que desse conta de tudo.  São, porém, tentativas inventivas e algumas resistem, em alguns de seus aspectos, bravamente ao tempo.
Peguemos, por exemplo, dois livros de Barthes: o Mitologias e o S/Z. Escritos de forma muito criativa, o primeiro trata das “mitologias” presentes naquele momento da história contemporânea (os anos de 1950/60enquanto o segundo  procede a uma análise da novela “Sarrasine”, de Balzac. Ambos pecam, no entanto. Mitologias menos, explorarando, ainda que em um espectro intersemióitco, o que depois ficaria conhecido como intertextualidade (o que não deixou de ser uma análise inovadora naquele momento); já S/Z se mostra malsucedido em ganhar o leitor por conta do modelo críptico de sua organização interna que pouco ajuda as muito interessantes observações que Barthes faz sobre a inventiva novela balzaquiana.
Com Luiz Costa Lima temos um exemplo correlato. Seus livros são um show de erudição, preparados por alguém que conseguiu ler com gosto ficção, filosofia, sociologia e as mais fundamentais obras humanistas. A tentativa porém de nos convencer de que houve um certo “controle do imaginário” que cerceou a criação literária é que é questionável. Se existe um espaço em que a censura pode até coibir legalmente, mas não consegue se meter e causar inibição, é o da criação artística. O próprio autor, no percurso das perto de 1.500 páginas que dedicou ao assunto, parece em muitos momentos lutando para se convencer de sua própria tese. Não tivéssemos pelo meio do caminho descidas a detalhes de obras ficcionais geniais e pararíamos antes de concluir sua leitura.

Além do estofo com que trabalha seus ensaios/livros, o que aprecio nos estudos de Luiz Costa Lima é que eles sempre se encerravam com o registro do lugar em que foram escritos ou concluídos. E este lugar era muitas vezes a cidade de Armação dos Búzios. Cidade inspiradora para se voltar a estes dois críticos e suas obras mirando, do jardim da pousada que atende pelo nome de Le Relais La Borie, a bela praia de Geribá.

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Torre de Comando para David Robert Jones

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“Black Star”, faixa-título do último disco de Bowie (clique aqui)

“Lazarus”, uma das composições de “Black Star” (clique aqui)

Foi um grande baque encontrar pela manhã a fã toda inconsolável com a notícia de que, como disse, David Bowie havia virado estrelinha. Confesso, no entanto, que sabia que as coisas não iam bem com Bowie. E isso por um  motivo simples. O Major Tom, o Ziggy Stardust, o Thin White Duke, era um performer, gostava de brilhar sob as luzes do palco exibindo todo o seu talento para admiração das muitas plateias que o acompanhavam e o aplaudiam onde quer que ele fosse. Quando ele sumiu por completo de cena, estava na cara que algo de muito errado estava acontecendo. Continuou produzindo da maneira que era possível e “Black Star” e “Lazarus”, músicas/clipes de seu último disco, são registros de alguém que não pode deixar de ser fiel à sua arte. É como se dissesse: é triste, mas é isso que estou vivendo e tenho que colocar o meu talento a serviço e como testemunha de tudo pelo que estou passando. Muito corajoso e belíssimo, David Robert Jones.

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Jornalismo, Literatura e o “Maracanazo”

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É antigo o namoro do jornalismo com a literatura. O último surto mais forte, consistente e inovador deste fenômeno talvez tenha sido o que ficou conhecido como o “Novo Jornalismo” norte-americano. Em vez de frequentarem as redações dos jornais como se estas fossem, nas palavras de Tom Wolfe, “um motel de 24 horas” pelo qual passavam enquanto aguardavam o tempo necessário para que escrevessem seu grande romance, os jornalistas começaram a querer tentar fazer literatura no meio impresso. O próprio Wolfe, e ainda Truman Capote, Hunter Thompson, Gay Talese e outros muitos, trataram de agregar voltagem literária aos seus escritos jornalísticos.

Dentro do jornalismo brasileiro, a crônica foi sempre o espaço literário por excelência. Nossos maiores escritores moldaram com a tão falada cor local aquele que acabou ficando conhecido como o gênero típico das letras brasileiras. De Machado de Assis a Drummond, passando por um plantel de autores que deram brilho e desenvolveram seus estilos amparados nesta vertente. Gente como Rubem Braga, Nelson Rodrigues (com uma obra sem paralelo em sua extensão neste gênero), Fernando Sabino e Vinícius de Morais (sob risco de ser atacado pelos amantes de sua poesia, confesso que tenho a crônica de Vinícius como o melhor de sua obra), entre muitos. Há ainda os cronistas pouco lembrados como o Apicius, que no meu entender escrevia crônicas ao resenhar suas visitas gastronômicas aos restaurantes da cidade (ou ao falar sobre os pastéis preparados por sua cozinheira), e o estrangeiro em meio a brasileiros que foi David-Drew Zingg, que vazava as colunas de Tio Zingg em inglês para que fossem traduzidas e publicadas na Folha de São Paulo.

O gênero se firmou de tal forma dentro da imprensa brasileira que todo jornalista com alguma ambição se prepara para um dia conseguir estrear a sua coluna de cronista. Poucos chegam lá. Dos jornalistas da geração que se inciou nas redações nos anos 80, Arthur Dapieve conseguiu a proeza e vem se dedicando abnegadamente ao ofício desde 1993. É verdade que a geração de Dapieve diminuiu a pátina literária da crônica. Praticaram principalmente, ainda que não de maneira exclusiva, o que Afrânio Coutinho classificou como crônica informativa. Isso se deu certamente porque todos vinham de carreiras nas seções de cultura, resenhando discos, livros, filmes. Esta geração tentou de qualquer jeito investir pela seara literária apostando eventualmente em uma “crônica narrativa” (próxima do conto, seguindo mais uma categorização de Afrânio Coutinho) ou trabalhando seus dotes para a escrita ficcional, fabular, em livros planejados com este fim.

Antes de sua estreia ficcional, Dapieve esteve no Jornal do Brasil onde se inciou com seu texto classudo trabalhando como repórter na redação do prédio da Avenida Brasil 500 nos anos de 1980. Tratou de preparar posteriormente dois livros-reportagem que consolidariam sua trajetória de jornalista nas décadas seguintes. Fez os ótimos “BRock” (Editora 34, 1995), contando sua vivência do rock brasileiro oitentista, e “Renato Russo – o Trovador Solitário” (Relume Dumará, 2000), biografia do líder da Legião Urbana. Escreveu também um trabalho acadêmico, “Morreu na Contramão – o Suicídio como Notícia” (Jorge Zahar Editor, 2007), resultado de uma pesquisa de mestrado. Em seu estudo de pós-graduação, Dapieve procede de início a um apanhado sobre como autores-chave no debate sociológico-filosófico (Durkheim, Marx, Camus) trataram, examinaram e discutiram o suicídio. Em seguida, parte para mostrar a forma cuidadosa, e por vezes tendenciosa, com que a imprensa estampou e continua a estampar o “to be or not to be” (para Camus, segundo Dapieve, a única pergunta fundamental a ser feita) em suas páginas.

Sua prática ficcional é posterior aos livros-reportagem e anterior a esta pesquisa. Ela teve sua estreia com “De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo” (Objetiva, 2004), seguiu com “Black Music” (Objetiva, 2008) e acaba de somar um terceiro título à lista com a edição de “Maracanazo” (Alfaguara, 2015), lançado no finalzinho do ano passado. “Maracanzo” reúne 5 contos, embora o último escrito, que dá nome ao livro, possa ser entendido como uma novela em função de sua significativa extensão. Nesta novela, temos a retomada do tom do primeiro romance de Dapieve. Ainda que a narrativa não guarde relação direta com seu livro de estreia, a escrita segue orquestrada por alguém que sabe criar cenas de alta qualidade literária entremeadas por diálogos certeiros.

Assim como “Fragmento da Paisagem”, segundo dos 5 contos do livro, “Maracanazo” tem como ponto de partida um acontecimento real: o jogo da Copa do Mundo de 2014 em que o Chile tirou a Espanha, campeã de 2010 e força maior do futebol de então, da disputa pelo título. Durante seu desenrolar uma eufórica filha de chilenos, Violeta, e um inconsolável espanhol, Victor, se conhecem e traduzem a rivalidade tanto histórica quanto futebolística entre os dois países. Do esporte de massas para a música das elites, vamos ter, em “Fragmento da Paisagem”, um senhor rememorando o encontro amoroso entre seus pais (começo de sua história) depois da audição do último registro da nona sinfonia de Mahler, regida por Bruno Walter em janeiro de 1938 em Viena. Trata-se da última apresentação pública da sinfonia antes do domínio nazista – resiste até hoje, registrada que foi em áudio.

Interessante ver como os leitores se alternam na escolha de seu conto predileto. Ciça Brandi gostou de “Bloqueio”. Conversando me disse que foi este o conto que mais a impressionou. Ian, meu sobrinho, seguiu a recomendação da dedicatória autográfica do autor e grudou na leitura de “Inverno, 1968”, recriação de mais um fato real: um dos últimos ensaios de Syd Barrett com seus companheiros do Pink Floyd. Eu gostei muito de “Maracanazo” mas o preferido foi o conto de abertura, “Tempo Ruim”. E isso por um motivo estritamente afetivo. Passei  a adolescência e pós-adolescência me esbaldando na praia de Copacabana e tenho para mim que falta uma narrativa épica para retratar a vida à beira-mar do carioca. Dapieve teve um primeiro insight, falta desdobrá-lo em uma aventura grandiosa (acho que Melville, o de “Redburn” principalmente, talvez fosse uma boa inspiração para isso).

Devoto e fiel seguidor de Zé Rubem, o escritor prepara, no entanto, um romance policial para dar sequência ao “Maracanazo”. “Táxi Argentino”, seu conto para o livro-coletânea “Rio Noir” (Leya, 2014), organizado pelo Titã Tony Bellotto, é o capítulo inicial do romance ao qual se dedica. Ao que tudo indica, deve prevalecer o climão policialesco de “Black Music”. Vamos acompanhar o detetive Cabeção e seu ajudante Aguiar para saber por que uma loura falsificada de vestido preto foi acabar dependura em uma das encostas do Cristo Redentor. Será que o traveco Candy Spears e seu companheiro de noitada, Lipe (ou por extenso, Felipe Krauss Barreto), têm alguma coisa a ver com isso? É esperar para saber.

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Notícias de Dezembro e a Chegada do Ano-Bom

Captura de tela inteira 31122015 084907IMG_0565-001Ninguém tinha medo, nem de sol, nem de praia. Nem a Flora Süssekind, nem o Caetano Veloso, nem o Eduardo Mascharenhas, nem a Patrícia Kogut, nem o Hermano Vianna, nem o Bernardo Carvalho, que estaria embarcando em breve para enfrentar as temperaturas glaciais de Nova York, nem o Herbert Vianna, louco de vontade de voltar pra casa pra registrar uma melodia no seu Casiotone, nem o Bussunda, nem o Hélio de la Peña, nem os outros Cassetas. Quanto à botafoguense Maitê Proença, não saberia dizer. Ela nunca passou por lá.

Foi a Leila Maia, no entanto, que chegou ao posto 9 com a notícia de que tinham matado o John Lennon. A partir de então fui cultivando a impressão, a cada fim de ano subsequente, de que dezembro sempre vem com alguma notícia ruim. Cheguei a enumerar vários incidentes brutais que marcaram esse mês, mas como, ainda que não seja supersticioso, tenho lá minhas superstições, deixei a tarefa de lado e trato de endereçá-la aos que tiverem interesse neste passatempo mórbido. Mesmo porque veio aquela voz interior a repetir: “Cala a boca, Batista. Cala a boca, Batista”.

Tentei me convencer também que talvez esse não seja necessariamente o caso. Coisas terríveis se repetem em todos os meses de maneira indiscriminada. E qualquer retrospectiva nos mostra o número de fatos tenebrosos que tivemos ao longo de 2015. Ocorre, entretanto, que o que acontece em dezembro acaba ficando especialmente marcados em nós por ser este um momento de confraternização e que deveria (obrigatoriamente) permanecer intocado.

Este ano tivemos, por exemplo, o incêndio que consumiu por completo o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Mais um indício, na cabeça agorenta, da maldição de dezembro. Antes de encarar a notícia como uma tragédia inesperada, pareceu, a bem da verdade, um descalabro dos responsáveis por manter aquele espaço. Tive a oportunidade de fazer duas visitas ao Museu. A primeira por ocasião de uma belíssima exposição dedicada a Fernando Pessoa em 2010. Em novembro passado, tratei de retornar com o maior entusiasmo para conferir a homenagem a Luís da Câmara Cascudo. Foi, no entanto, uma grandicíssima decepção. Vi uma exposição sem graça e que não comunicava quase nada sobre a obra do folclorista.

Se a exposição temporária deste ano no primeiro piso não chegou a impressionar (se salvaram apenas algumas bonitas imagens, reprodução de fotos de Câmara Cascudo), a apresentação permanente de poesia em um anfiteatro no terceiro e último andar foi um momento de epifania. Não tinha assistido a essa espécie de recital poético na primeira vez em que lá estive. Não sei, portanto, se foi  acrescentada há pouco tempo.

Eram trechos muito bem selecionados de poemas (Camões, Gregório de Matos, Drummond, Vinícius, Manuel Bandeira), de textos em prosa (Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Oswald e Mario de Andrade) e de fragmentos de músicas (Noel Rosa, Emicida), acompanhados por projetações que exploram a materialidade das palavras. Enquanto eram lidas, recitadas, cantadas, pelas vozes possantes de Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Paulo José, Maria Bethânia, Chico Buarque, Bete Coelho e um elenco de primeira, elas surgiam aleatoriamente no teto, nas paredes e no chão. Parece que tínhamos três destes recitais que se alternavam ao longo do dia.

Trabalho muito bem feito com concepção visual arrojada de Marcello Dantas, que de empreendedor da saudosa sala Magnetoscópio se transformou em curador artístico renomado, e direção musical de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski. A projeção acontecia no galpão que chamavam de Praça da Língua e que foi reduzido a cinzas como mostraram as imagens das chamas que consumiram vorazmente toda a estrutura interna do edifício da Estação da Luz.

Uma pena ter de esperar a reconstrução do Museu que, com a dívida que assola todos os Estados, deve demorar para acontecer, para que possamos viver experiência tão estimulante e voltarmos a fruir alguma exposição temporária mais inspirada. O passeio a São Paulo tinha como roteiro ainda a passagem pela Casa de Mario de Andrade, recentemente reinaugurada. Queria conhecer o sobradinho em que o escritor residiu boa parte de sua vida. No site na Internet, somos informados que a Casa da rua Lopes Chaves, na Barra Funda, fica aberta à visitação aos sábados, mas isso não se confirmou na prática. Tive que contemplar tudo do lado de fora. Aos que se interessarem em ir conhecê-la em um sábado, aconselho que liguem se informando se a Casa de Mario estará aberta para visitação.

O melhor de ir a São Paulo é voltar para o Rio de Janeiro e ver com outros olhos como essa cidade é realmente, e apesar dos pesares, qualquer coisa de muito especial (não há nenhum bairrismo nisso porque sou nascido em Lages, Santa Catarina). Dá pra entender assim por que temos tantos paulistas passeando por aqui na expectativa pelo Réveillon deste ano. Nós vamos pra lá em busca de programas culturais. Eles baixam por aqui em busca de alguma das paisagens arrebatadoras e da festa da virada que é infinitamente mais bonita na Cidade Maravilhosa.

Aproveito o finalzinho da postagem para desejar aos amiguinhos e amiguinhas, leitores e leitoras, um 2016 com tudibom, como dizia o Rogério Durst, colega de trampo jornalístico, muito querido, que se foi em abril, bem no comecinho do ano, tendo completado apenas 54 voltas de vida ao redor do sol.

feliz 2016

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MozCult – Mémorias com o Último Rockstar Internacional

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All over this town
Yes, a low wind may blow
And I can see through everybody’s clothes
With no reason
To hide these words, I feel
And no reason
To talk about the books I read
But still, I do, That’s ‘cause I’m a…
Sister I’m a…
All over this town

Link para a vinheta do programa “60 Minutos de Música Contemporânea” (clique aqui)

Aproveitando a recente passagem de Stephen Patrick Morrissey pelo país, vamos a um apanhado sobre os livros que têm se dedicado a comentar o percurso do muito querido cantor, compositor, letrista. Alguém que vem há mais de 30 anos fazendo a trilha sonora da vida de muita gente. Como se Moz tivesse sido incumbido de dar sentido a cada momento, cada passagem, cada acontecimento de nossas existências. A poesia desempenha inocentemente essa função e o letrista/cantor encarna o papel de alguém que espelha as aflições, anseios, expectativas, de nossas pobres animas.

Morrissey – Autobiography (copyright de 2011 da Whores in Retirement, editada, em 2013, pela Penguin; inédita no Brasil), com o crivo imponente e inesperado da Penguin Classics, selo que costuma ser reservado apenas para obras consagradas, era a tão aguardada autobiografia que o ex-frontman dos Smiths vinha prometendo há um bom tempo. Através dela, descobrimos que Morrissey recorria, da mesma maneira como seus fãs fazem agora, à música de seus artistas favoritos para fazer a apropriação das condutas, atitudes, posturas (ou poses, afetações, fingimentos, como queiram) de seus cantores e bandas prediletos.

Ficamos sabendo assim que ele idolatrava, de maneira idêntica a forma como é idolatrado hoje, os mesmos grupos que a juventude carioca, criada no começo dos anos 70, venerava. Meu avô paterno, que ficou viúvo ainda na casa dos 50 anos e vivia com sua única irmã em Ipanema, gravava para o seu neto, sempre que solicitado e com o maior gosto, as edições (às 15h, de segundo a sexta) do “60 Minutos de Música Contemporânea”. Um programa da rádio JB AM apresentado pelas vozes de Sérgio Chapelin, Orlando de Souza e Eliakin Araújo e onde se ouvia em primeira mão os novos discos de Marc Bolan, David Bowie, New York Dolls e de outros artistas que salvavam os modorrentos dias de Moz em Manchester. Para nós, o New York Dolls era mais uma banda com gente fantasiada, como o Kiss. Para Moz, eles eram a banda. Embora todos, inclusive Moz, soubéssemos que, por estranho que possa parecer, a pinta de boneca deles nada mais era do que artifício para impressionar as fãs.

Além de ir para a fila do gargarejo nos shows de Ramones, Patti Smith, Iggy Pop, Lou Reed, Morrissey marcava ponto na porta de teatros e hotéis atrás de algum contato com seus artistas favoritos.  De Marc Bolan, ele se aproximou no lobby do hotel Midland em Manchester. Para um sofrido pedido de “Será que você me daria um autógrafo?”, teve de ouvir a resposta negativa: “Ah, não”. Na porta da casa de espetáculo Stretford Hardrock, ele teve mais sorte com Ziggy Stardust. De salto alto e roupa lamê, Bowie desembarcou de uma Mercedez preta ao meio-dia e o jovem Moz conseguiu, ainda vestindo o uniforme de escola, tocar a mão e passar um bilhete para seu ídolo sem poder sonhar que anos depois os dois se aproximariam. Em uma de suas temporadas de férias na casa de uma amiga de sua mãe em Staten Island, Nova York, ele foi ao CBGB onde se apresentava uma banda que desconheço, Sparks. Gostava dos irmãos Mael e fez uma foto com Russell na porta do clube cult nova-iorquino.

Depois de ter tentado parceria com Billy Duffy, futuro guitarrista do (Theatre of Hate, Southern Death Cult e, finalmente,) The Cult, Morrissey começou a compor com um outro instrumentista que Duffy indicara como muito mais talentoso do que ele próprio, Johnny Marr. Marr trouxe Mike Joyce e Andy Rourke e assim nasceu os Smiths.

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As capas conceituais dos singles dos Smiths, com fotos que iam do fisioculturista George O´Mara (“Hand in Glove”), tirada de um livro de nu masculino, ao de Viv Nicholson (“Heaven Knows I am Miserable Now”), famosa por afirmar que iria “gastar, gastar, gastar”, quando o marido ganhou na loteria na Inglaterra dos anos 60, passando por atores (Jean Marais, Terence Stamp, Richard Bradford), atrizes (Pat Phoenix, Yootha Joyce, Candy Darling), escritor (Truman Capote) e cantor (Elvis Presley) 

Uma de minhas irmãs e meu irmão viram o que não tive o prazer de presenciar. Uma apresentação do início da  carreira dos Smiths, em 24 de julho de 1983 no Hammersmith Palais (antológica casa de shows em Londres que já não existe). Os Smiths estavam abrindo o concerto dos Altered Images, ao lado de outra banda que, como os Altered Images, despontaria para o anonimato, Roman Holliday. Só tinham gravado uma única música, “Hand in Glove”, lançada como um compacto em maio de 1983. “This Charming Man” era a composição nova do repertório do grupo e, editada em novembro daquele ano, viraria outro dos clássicos eternos dos Smiths. Continua até hoje levantando as apresentações de Morrissey, como se comprovou em seus shows no Brasil.

Em seu diário da época, minha irmã Marcinha Pedrosa anotou:

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Pouco mais de um ano depois, no segundo semestre de 1984, já impressionado com o disco de estréia dos Smiths e especialmente com uma música que infelizmente não aparece no repertório solo de Moz, “What Difference Does it Make?”, ouviria a transmissão radiofônica de outra composição que chegaria para virar mais um clássico dos Smiths, “How Soon is Now?”. Teve sua execução inaugural no programa de John Peel, na BBC Radio 1, assim que foi lançada, em setembro de 1984. Não dá para compreender a má vontade de Morrissey com o DJ que tanto fez pelos Smiths e por sua carreira.

O olhar clínico de Seu Peru não demoraria para proferir o seu veredito sobre Morrissey: “Tá na cara que é uma bibona, Teacher”. A sexualidade de Moz, entretanto, ficou em suspenso durante décadas. Morrissey se autoproclamou um celibatário e, ao ouvir do amigo David Bowie, em conversa em um restaurante, a confissão de que este havia se excedido com sexo e drogas, confessou que, ao contrário, não tinha tido quase nada das duas coisas. Ele conta, no entanto, sobre o seu caso com o fotógrafo Jake Owen Walters, com quem namorou e viveu em um apartamento em Londres durante dois anos. Jake Walkers se tornou ainda seu assistente pessoal na segunda metade da década de 1990.

 A “Mozepédia – a Enciclopédia de Morrissey e dos Smiths”, de Simon Goddard (Leya, 2013), lembra do affair mencionado em uma carta particular trocada entre o jovem Morrissey e seu pen-pal, Robert Mackie. As cartas podem ser lidas na Internet (link aqui). Em uma delas Moz fala de uma namorada, Annalisa (Jablonska, segundo Goddard), e afirma que ambos são bissexuais. Em sua autobiografia, nada é mencionado. As cartas, de qualquer jeito, aparentam muito mais um jogo de sedução entre Morrissey e seu amigo, que escrevia de Glasgow, do que qualquer outra coisa.

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Capa da saudosa revista Vox, de junho de 1992, que trouxe capítulo do livro de Johnny Rogan, antes de seu lançamento comercial

“Morrissey & Marr – the Severed Alliance” (Omnibus Press, 1993), do mais conhecido biógrafo dos Smiths, Johnny Rogan, trouxe a conhecimento público um assunto delicado que infelizmente ocupa muito e desnecessário espaço na autobiografia de Moz: a briga nos tribunais entre ele e dois dos seus companheiros de banda, o baterista Mike Joyce e o baixista Andy Rourke. A dupla entrou nos anos de 1990 com uma ação na justiça inglesa pedindo reparação pelo pouco que receberam enquanto estiveram com os Smiths. O problema é que bem no começo da carreira do grupo, Moz e Marr assinaram com o selo independente Rough Trade como únicos responsáveis pela banda e Joyce e Rourke foram apenas testemunhas. Eles pediam e conseguiram então uma reconsideração para uma divisão igualitária dos royalties do grupo.

A discussão toca em um ponto que nunca compreendi muito bem em direitos relacionados com música. Para mim, a parte instrumental é tão importante em uma composição quanto melodia e letra. Pensem na bateria de “The Queen is Dead” ou no baixo de “Nowhere Fast”, entre outros incontáveis exemplos. Sem a bateria de Joyce e o baixo de Rourke, essas músicas seriam certamente algo completamente diferente. É ridículo portanto que Morrissey, uma pessoa tão anti-establishment, se apegue a uma assinatura em um papel, contra toda a contribuição real destes dois músicos para o grupo. Grupo que, não custa lembrar, foi sempre apresentado como uma banda e não como um trabalho de um compositor e um letrista com músicos contratados. Bola fora de Moz.

Não posso encerrar sem comentar o sistema de ensino na Inglaterra. Causa surpresa, para quem frequentou uma “escola experimental” no Brasil dos anos 70 como o Colégio Brasileiro de Almeida no Rio de Janeiro, saber que os ingleses ainda adotavam a palmatória e que mestres da St. Mary`s Secondary Modern, em Manchester, deixavam os alunos em um pátio na chuva durante o recreio para não terem que ficar tomando conta de adolescente. É claro que o nosso exemplo era o oposto. Aqui, quem tocava o terror nas escolas eram os alunos que faziam o diabo em estabelecimentos de ensino como o, assim conhecido, “Baseado de Almeida”.

Scanner_20151207 (7)Ps. Na lista dos livros sobre os Smiths, vale recomendar também “The Smiths – the Visual Documentary” (Omnibus Press, 1994), do mesmo Johnny Rogan, autor que Morrissey disse querer ver morto em um engavetamento em uma auto-estrada ou em uma incêndio em um hotel e com quem afirma não ter falado mais do que o suficiente para solicitar que desligasse o telefone. Pelo visto, Morrissey é mais um candidato ao grupo Procure Saber.

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Do Primeiro Assédio à Primeira Pessoa do Plural

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Seguindo outros ilustres exemplos dentro do jornalismo impresso e no ambiente da blogosfera, tratamos de abrir espaço para a #AgoraÉqueSãoElas em texto assinado pela jornalista, pesquisadora e escritora Sheila Kaplan.  Sheila saltou dos bancos universitários direto para as páginas de O Globo, onde trilhou carreira brilhante como repórter e crítica de teatro, escrevendo resenhas refinadíssimas que sempre foram lidas com o maior gosto. Transitou ainda por editoras e pelo espaço acadêmico. Organizou o livro “Jornalismo Eletrônico ao Vivo” (em parceria com o âncora Sidney Rezende) e é autora de dois trabalhos universitários primorosos sobre as escritas do cronista José Carlos de Oliveira e do poeta Murilo Mendes. Dando sequência ao périplo de jornalista, colaborou durante anos com a revista “Ciência Hoje”, produzindo artigos, reportagens científicas e chegando mesmo ao cargo de editora do caderno de cultura deste periódico científico. Veio ainda a descobrir a sua veia ficcional ao se aventurar pelo universo dos livros infanto-juvenis com “Duda Cata Tudo” (Editora Rovelle) e “Mgkai, o Estrangeiro” (Editora Edebê; a ser lançado em breve). Sheila Kaplan apresenta por aqui a sua perspectiva muito pessoal sobre a hashtag que está mobilizando combativas vozes femininas.

O dia a dia nas redes sociais costuma ser modorrento, como expediente em  repartição pública. De post em post, você é levado pra cá e pra lá – bom-dia com orquídeas e margaridas, artigos sobre o drama ou o escândalo da hora, uma música dos anos 50, bichanos fofos, “opiniães” sem fim. Após algum tempo, nauseado, você quase se afoga nesse oceano da dispersão. No meio disso, vez em quando, o potencial crítico e aglutinador das redes vem à tona. Foi o que aconteceu recentemente com a campanha #PrimeiroAssédio, que explodiu no twitter e facebook e rapidamente se alastrou nas redes, levando centenas (milhares?) de mulheres a contarem suas vivências de abuso.

Histórias numerosas, em diferentes nuances de violência: de uma mão indesejada a nos tocar o corpo ou a nos roçar a bunda, de forma despistada ou ostensiva, às experiências mais escabrosas de violentação e estupro. A campanha deixou a nu que o que muitas julgávamos pertencer ao âmbito pessoal situa-se, na verdade, na esfera do coletivo, numa cultura em que o assédio, em seus vários graus, é encarado – e tolerado – como efeito da “natureza” masculina. Quantos homens não entendem ainda como “elogio” o olhar lascivo acompanhado de um “te chuparia todinha”, que se tem de ouvir desde os primeiros anos da puberdade?

Ao desnaturalizar o assédio, os numerosos relatos vieram mostrar como todas sofremos alguma violência, em suas formas ditas mais brandas (as sortudas, como comentou uma das autoras) ou nas mais perversas. A campanha nos mostrou que, à época do primeiro assédio, quase todas nos calamos por vergonha ou culpa. Aos 10, 11 anos, é comum acreditar que foi algo em nós que, sem querer, provocou o abuso do outro. Perceber o quanto é generalizada esta violência nos faz ver como tais palavras e ações nos humilharam, envergonharam, machucaram. Como doeram e, muitas vezes, ainda dóem. A campanha nos aponta que já não é possível ver um caso de pancadaria doméstica e aceitar a justificativa de “descontrole”, ainda que tal versão seja confirmada pela vítima. Menos ainda ignorar a aprovação, à mesma época, do projeto de lei 5069/13, que nega o aborto às vítimas de abuso sexual e estupro ao obrigá-las a fazerem boletim de ocorrência e exame de corpo de delito para poderem ser atendidas, agregando violência à violência.

Estas e outras questões foram discutidas quando, num momento seguinte, a campanha nascida nas redes migrou para a mídia impressa, expandindo-se no #AgoraÉQueSãoElas, em que colunistas homens cederam seu lugar para mulheres refletirem sobre a sua realidade e direitos (http://goo.gl/RsNm1G). Sem dúvida, uma iniciativa importante, mas que não nos impede de pensar que o hashtag, à parte o trocadilho sonoro que tanto agrada à mídia, denuncia que são “eles” que detêm a fala. “Eles”, que cavalheirescamente nos cedem, nessa (breve) ocasião, seu lugar. É um avanço, mas evidencia que ainda há muito pra se conquistar até que se possa chegar ao #AgoraSomosNós.

 

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O Conquistador

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Sigamos com mais um conto. Este, com final feliz. 
Serve de preâmbulo para a #AgoraÉqueSãoElas, que vem por aí.

O Conquistador

Tinha um caderno onde fazia com grande dedicação as anotações das suas conquistas amorosas. Aos amigos, exibia sempre com todo o orgulho e acrescentando, sem constrangimento algum, o comentário:

– Papei todas. Podem conferir aí. Mais de 10 nomes por letra, de A a Z. Solteiras, casadas, divorciadas, viúvas… Tem de tudo.

Os amigos investiam então em tom de blague:

– Ei, mas espera aí? Se você não está mentindo, precisamos urgentemente erguer um busto em sua homenagem.

As mulheres reagiam, no entanto, agressivamente:

– Você é um machista, chauvinista!

Ao que ele retrucava:

– Ué, tenho culpa de gostar das mulheres e de ter toda reciprocidade por parte delas?

Para as mais reativas, ele reservava sempre uma fala que proferia como um desses discursos que trazemos pronto:

– Meus anjos, eu tenho uma teoria: para mim, se esse mundo fosse um mundo só de mulheres, nós não veríamos as atrocidades e a pouca vergonha que grassam por aí.

Edeoclésia não resistia e contra atacava:

– Se você pensa assim, por que se vangloria tanto de fazer e acontecer com nós do sexo frágil?

Contente com o interesse despertado, Adrio Acácio, era esse o nome de nosso conquistador, tentava se justificar:

– Mas não há nada de errado nisso, meu amor. É a ordem natural das coisas. E querem saber de uma coisa: eu gosto pacas de mulher.

E era a pura verdade. Com olhar inebriado, Adrio Acácio cultivava como passatempo contemplar o sexo oposto em ocasiões como as horas mortas no transporte público. Ficava mesmo maravilhado e pensava consigo: como são gentis umas com as outras. Um dia viu duas amigas se encontrarem por puro acaso dentro do ônibus. Ficou fascinado ao observar como elas perderem uma eternidade de tempo uma admirando a outra, sorrindo com uma alegria e satisfação espontâneas e fazendo agrados mútuos sobre a beleza dos cabelos, das roupas e dos adereços que tinham escolhido para aquela manhã.

Pois muito bem. Seguia nosso conquistador levando sua vida amparada em suas convicções muito particulares quando foi convidado para uma festa, daquelas que movimentam toda uma rua, todo um quarteirão, todo um bairro. Os mais exagerados diriam talvez, toda uma cidade. Comentou então com os amigos que também iriam à festa dançante:

– Nessa eu vou bater o recorde mundial da canalhice. Pego pelo menos três numa mesma noite, podem escrever.

E realmente tudo indicava que a festa seria animada. Era o que mais se ouvia falar e sempre comentada com os maiores entusiasmos. Chegou o dia tão esperado e quando Adrio Acácio adentrou aquele ambiente repleto de mulheres, bebidas, pensou alto: “Essa promete, essa promete”. Surgiu no recinto em grande estilo e arriscando de cara e todo senhor de si uns passos de dança, já que se saía muito bem nesse assunto. Quando viu a primeira pequena pela frente, não resistiu a perguntar de pronto e ainda que não tivessem sido apresentados formalmente um ao outro:

– Tô ou não tô elegante, bonitinha? Pode dizer.

Sem graça a moça jogou o cabelo para trás e demonstrando nervosismo se saiu com uma fala que ele sempre interpretava como um sinal de aprovação:

– Ai, sei lá vai, para…

Com um amigo comentou:

– Não te falei? Hoje tem, hoje tem.

A festa estava uma animação só com gente sorrindo, eufórica e feliz pra todos os lados. Em certo momento, Adrio Acácio viu uma moça que lhe encheu os olhos. Uma morena de fechar o trânsito. Foi mais uma vez se apresentando com seu jeito atirado e desinibido.

– Posso saber como se chama essa gracinha de gente? Pode soar ultrapassado, mas era também chistoso, zombeteiro e funcionava.

– Claro, respondeu a beldade. Roxalina, muito prazer.

– Roxa, o quê? Retrucou Adrio Acácio.

– Isso mesmo que você ouviu, Roxalina. Agora me dá licença que esta festa está ótima e não posso perder meu tempo por aqui.

Roxalina partiu direto para a pista de dança e não deu mais conversa para o conquistador que ficou ali esquecido, remoendo o desprezo. Chegou a rilhar nos dentes: “Essa vai ter troco”.

A festa já ia pela madrugada. Roxalina já havia tomado uma, duas, todas. Estava completamente bêbeda ou bêbada, não sei ao certo. Deixo mesmo essa tarefa para o leitor que deve consultar seus alfarrábios para dirimir a dúvida. Já havia também flertado com metade dos rapazes presentes e se atracado com uns tantos. Quando começava a clarear, podíamos reconhecê-la jogada em um sofá em um dos cantos da sala, afundada em meio a muitas almofadas. Aos seus pés (acho mesmo que recitando uns poemas de Ana C.) se encontrava o nosso conquistador. Pedia, suplicava, mendigava, uma atenção, um carinho, um sinal de afeto. Amparada nas muitas doses de bebida que tomara, Roxalina era firme e decidida com o conquistador:

– Com você, meu amigo, nem hoje, nem amanhã, nem nunca.

Adrio Acácio foi para casa inconsolável e tomou chá de sumiço. Ninguém o via mais nos lugares que costumava frequentar. Era um trapo de gente, andava nas ruas sempre cabisbaixo, olhando pro chão, sem falar com pessoa alguma, imerso e taciturno, encafuado, sofrendo com a rejeição. Morava em uma vila, essa não em Laranjeiras, mas em Copacabana. Na casa conjuminada a sua, tínhamos a residência de dona Glaucia. Glaucia havia ficado viúva há pouco tempo e para ajudá-la naquele momento difícil aparecera, para passar uma temporada com a tia, a sobrinha Fidélia. E foi justamente a loiríssima Fidélia que veio a despertar Adrio Acácio de novo para a vida. Flertaram, namoraram com gosto e logo decidiram casar. Primeiro no civil e depois no religioso, como manda o figurino. Venceriam as bodas de prata e de ouro. Deixariam nada menos do que cinco filhos como resultado daquele enlace feliz.

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