O Impedimento da Presidenta da República

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Não sei qual o deputado federal do leitor. O meu é o Alessandro Molon. Virei eleitor do Molon quando ele, ainda deputado estadual, durante uma greve de professores da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, veio se juntar ao grupo de docentes que fazia uma manifestação em frente à Alerj. De dentro da Assembléia, ele soubera que estávamos do lado de fora tendo que enfrentar a tropa de choque do governador Sérgio Cabral. Um simpático batalhão de policiais munido de cassetetes, escudos, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, uma forma muito cordial encontrada pelo governador para conversar.

Ontem, Molon votou contra o impeachment de Dilma Lana Rousseff e eu confesso que, sem muita convicção, fiquei ao seu lado por solidariedade e por duas outras razões. A primeira é que acho este tal de impeachment, não um golpe, mas um complô muito do vagabundo. A segunda é que, junto com Molon, estavam Chico Alencar, de quem também já fui eleitor (até ele não necessitar mais do meu voto),  Luiza Erundina, Maria do Rosário, Arlindo Chinaglia, entre outros deputados pelos quais tenho apreço e admiração. Olhava para a turma que votaria pelo sim e via Cunha, Bolsonaro-pai, Bolsonaro-filho, Feliciano, Paulinho da Força, me sentia em um filme B de Roger Corman tendo como estrela o nosso Mordomo de Fita de Terror e futuro presidente. Do grupo que votava pelo impeachment, só tinha identificação com Miro Teixeira. Foi dos poucos da ala dos que queriam o impedimento a explicar de forma decente o seu voto como pedia o ritual da votação e não a “dedicá-lo” (acho que os deputados se sentiram em uma cerimônia do Oscar) ao pai, mãe, mulher, filhos, papagaio, totozinho. Uma palhaçada sem fim em momento que exigia seriedade e compostura.

Um outro motivo a mais pelo qual estava apoiando o voto contrário ao impeachment era que sempre fui muito desconfiado sobre a posição do ensaboado PSDB.  Nos jornais de hoje, Aécio vem dizendo que vai exigir um compromisso de Temer com uma pauta específica. Entre os pontos, está o seguimento das investigações da Lava-Jato (corajoso ele que é citado em denúncias). Incriminados no processo, temos que ver qual a posição de Temer e de seu braço direito na operação impeachment, Eduardo Cunha. José Serra já desconsiderou a orientação do partido e saiu correndo dizendo que quer o Ministério da Saúde. Vai ser engraçado assistir a essas negociações.

No final das contas, não sei se gostei, mas aceitei o resultado, porque acho que o Brasil precisa dar um fim a esta briga de torcida e cuidar de assuntos práticos com esta crise recessiva mundial que está deixando pessoas desempregadas ao redor do planeta e que já colocou no olho da rua 10 milhões de brasileiros. A Dilma, em meu entender, não iria também conseguir governar pois viria um pedido de impeachment atrás do outro. Vamos ver agora qual será a qualidade do debate que vai se seguir.

Entre os jornais de hoje, o Globo fez a melhor e mais diversificada cobertura com textos assinados por colunistas com orientações variadas (da opção pró impeachment de Cora Rónai à intransigente defesa de Dilma do Veríssimo, passando pela indiferença de Gaspari), que ajudam de qualquer jeito as discussões. O Estadão destoou com um editorial que tenta satanizar o PT. É uma posição caduca, antiquada e que agride a inteligência do leitor. O Partido dos Trabalhadores ainda tem nomes importantes em seus quadros e o “fora PT” coloca em um mesmo saco pessoas de qualidades bem distintas. Não esqueçam que em outubro, Tarso Genro vai, junto com outros militantes petistas, comandar uma debandada do partido que virou uma legenda podre.

A Folha trouxe uma novidade: a volta do ponto de exclamação nos títulos. Banido há mais de meio século, fez uma inesperada reentré. Mario Sérgio Conti ajudou a dar estofo a uma cobertura que optou quase que exclusivamente pelo factual em um momento em que precisamos de debates. Discussões como a reforma política. É inacreditável que o deputado de um estado pouco populoso como Roraima, eleito com 30 mil votos, tenha peso na votação igual ao de um deputado do Rio de Janeiro, eleito com 190 mil votos. O deputado do Rio representaria uma população mais de 6 vezes maior que o de Roraima.

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Semana do Cinema Documentário

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O crítico de cinema Amir Labaki segue com mais uma edição de seu festival do filme documentário. A 21.a rodada do É Tudo Verdade vai até este domingo (17/04), com suas últimas sessões (sempre gratuitas) no Rio de Janeiro (em duas salas do Espaço Itaú Botafogo e no cinema do Instituto Moreira Salles). A extensa mostra competitiva e as programações paralelas trouxeram uma muito interessante seleção de curtas, médias e longas-metragens, com registros documentais sobre escritores brasileiros (Armando Freitas Filho, Cacaso) estrangeiros (Gabriel García Marquéz, Ricardo Piglia, Hannah Arendt), artistas plásticos (Cícero Dias, o coletivo Chelpa Ferro) e a revisão de passagens históricas como o Estado Novo getulista (em filme assinado por Eduardo Escorel), o golpe chileno que tirou Salvador Allende do poder (produção de Marcia Allende, neta do estadista), as manifestações de rua da primavera árabe no Egito (“Faraós do Egito Moderno”) e os recentes ataques na França (“Atentados: As Faces do Terror”).

Todas produções que acabam respingando ou para o circuito ou para apresentação em canais por assinatura.  Como o longa-metragem “As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana”, que abriu o evento semana passado no Rio e que terá exibição em breve no Canal Curta! (Net, 56). Trata-se de um bem humorado apanhado, com assinatura do amigo Claudio Lobato em parceria com a cineasta Paola Vieira, sobre a convivência, os happenings poéticos, as festas futebolísticas e carnavalesca, do conhecido grupo carioca.

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A Nuvem Cigana foi um coletivo de criação artística que se reunia nos anos 70, primeiro em um apartamento na ladeira da Travessa Santa Leocádia em Copacabana, e, depois, em uma casa em Santa Teresa. Congregava a trupe de escritores formada por Chacal, Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Ronaldo Santos, e vários outros poetas, seresteiros e namorados da poesia. Tinha também a participação luxuosa de artistas gráficos como Cafi e Dionisio com suas ilustrações refinadas. Rodou seus versos em mimeógrafo, fez a edição artesanal de seus livros e organizou recitais na saudosa livraria Muro, em Ipanema, no Parque Lage e teve uma performance apoteótica no Teatro Municipal de São Paulo. Criaram ainda revistas lúdico-literárias impressas, como o famoso “Biotônico Vitalidade”, que se enquadrou no que ficaria conhecido como a imprensa alternativa.

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Coincidência das coincidências, foi com Ana Amélia Macedo, que fiz um trabalho, ainda nos bancos universitários, sobre a imprensa alternativa quando está era o assunto do momento no comecinho dos anos 80. Ana Amélia aparece, junto com o marido e diretor cine-documentarista, Roberto Berliner, em um dos docs intimistas da maratona. “Buscando Helena” foi o piloto da série “Histórias de Adoção” que segue sendo exibida pelo GNT (canal 41 da Net), toda terça às 23h30. Narra a belíssima experiência do casal como pais adotivos de duas crianças maravilhosas, os hoje já grandinhos Helena e Antonio.

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Do micro para o macro-cosmo, Labaki selecionou para a mostra produções que retratam dramas e realidades de muitos cantos do planeta, de acidentes e suas consequências em grande escala como um incidente em uma usina na Sibéria (“Catástrofe”, da representante russa Alina Rudnitskaya) a um desastre ecológico que se aproxima da tragédia de Mariana e que está acontecendo na Mongólia (“Gigante”, do chinês Zhao Liang). Trouxe ainda novidades como os registros feitos na Coréia do Norte sobre o aniversário do líder Kim Jong-il (“Sob o Sol”). Aquilo que Cora Rónai e nenhum turista tiveram a chance de fazer, o diretor alemão Vitaly Mansky conseguiu: autorização para filmar o que se passa na última pátria do mundo fechada ao contato estrangeiro.

Hoje e amanhã tem a produção inédita “Eduardo Coutinho, 7 de Outubro”, uma conversa e homenagem a nosso documentarista-mor.  Filme do cineasta Carlos Nader, que é festejado com uma retrospectiva de sua obra no É Tudo Verdade. Haveria um debate amanhã, com o diretor, mas o programa foi substituído pela apresentação de um filme-entrevista com Nader às 18h no Instituto Moreira Salles, na Gávea. O site do Itaú Cultural, parceiro da mostra, está exibindo como um regalo um documentário que já foi premiado em maratonas passadas, o média-metragem “Rocha que Voa”, de Eryk Rocha, filho do cineasta Glauber Rocha (clique aqui).

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Podem Me Chamar de Arthur Gordon Pym

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Uma tradução para a Nota Introdutória preparada para a edição de A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket, único romance publicado por Edgar Allan Poe. A primeira impressão do livro,  pela editora nova-iorquina Haper and Brothers em julho de 1838, saiu sob o pseudônimo de Arthur Gordon Pym. Posteriormente a obra entraria para o cânone do autor    

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Southern Literary Messenger (clique aqui)

A Narrativa de A. Gordon Pym de Nantucket
Nota Introdutória

Por ocasião do meu retorno aos Estados Unidos há alguns meses, depois de uma extraordinária série de aventuras nos mares do Sul e em outros lugares, da qual um relato é dado nas páginas que se seguem, o acaso me trouxe à companhia de vários senhores em Richmond, Virgínia, que sentiram profundo interesse por todos os detalhes relacionados às regiões que eu havia visitado, senhores estes que estavam constantemente exigindo de mim, como um compromisso, dar a público minha narrativa. Eu tinha vários motivos, no entanto, para recusar-me a fazê-lo, alguns dos quais eram de caráter inteiramente pessoal, e não diziam respeito a pessoa alguma além de a mim mesmo; outros nem tanto assim. Uma reserva que havia me dissuadido de fazê-lo era que, não tendo mantido um diário durante a maior parte do tempo em que estive ausente, eu temia não ser capaz de escrever, de cabeça apenas, um relato tão minucioso e coerente a ponto de se assemelhar a uma verdade que fizesse jus a este nome, excluído o exagero natural e inevitável ao qual todos nós nos mostramos propensos ao relatar acontecimentos que tiveram influência poderosa ao instigarem nossas faculdades imaginativas. Outra razão foi que os incidentes a serem narrados eram de natureza tão categoricamente fantástica, que, à falta de comprovação a qual minhas narrações são necessariamente devedoras (exceto pelo testemunho de um único indivíduo, e este um índio mestiço), eu só poderia esperar a crença entre a minha família e entre aqueles amigos que encontraram motivo, ao longo da vida, em colocar fé em minha sinceridade – com a probabilidade de que o público em geral fosse entender o que eu trouxesse ao seu conhecimento como uma mera ficção insolente e engenhosa. A desconfiança de minhas próprias habilidades como escritor era, todavia, uma das principais causas a me impedir de agir em conformidade com a sugestão dos que me aconselhavam.
Entre esses senhores em Virgínia que expressaram o maior interesse em meu relato, mais particularmente no que diz respeito a parte dele que se refere ao Oceano Antártico, estava o senhor Poe, editor há pouco tempo da Southern Literary Messenger, uma revista mensal, publicada pelo senhor Thomas W. Branco, na cidade de Richmond. Ele, entre outros, aconselhou-me enfaticamente a preparar imediatamente um relato completo do que eu tinha visto e de tudo pelo que havia passado, e confiava na perspicácia e no bom senso do público ao insistir, com grande plausibilidade, que, por mais cru que fosse meu livro, no que diz respeito apenas à autoria, a sua falta de elegância, caso houvesse alguma, concorreria em favor de uma melhor chance de ele ser recebido como fidedigno.
Apesar de tal argumentação, decidi-me a não agir em acordo com sua sugestão. Ele posteriormente propôs (achando que não iria mais tocar no assunto) que eu o deixasse elaborar, com suas próprias palavras, uma narrativa da primeira parte das minhas aventuras, a partir de fatos produzidos por mim, publicando-a no “Southern Messenger” sob o manto da ficção. Para tanto, não tendo eu nenhuma objeção, consenti, combinando apenas que o meu nome real devesse ser mantido. Dois números desta pretensa ficção apareceram, em função disto, no “Messenger” de janeiro e de fevereiro (1837), e, a fim de que viesse a positivamente ser considerada com certeza como ficção, o nome do senhor Poe foi aposto aos artigos no índice com o conteúdo da revista.

 A maneira pela qual este artifício foi recebido me levou no final das contas a dedicar-me a uma compilação integral e à publicação das aventuras em questão; pois descobri que, ainda que um ar de fabulação tenha sido tão engenhosamente criado em torno daquela parte de minha narrativa que apareceu no “Messenger” (sem alterar ou distorcer um único fato), o público ainda não estava de todo disposto a recebê-la como fantasiosa, e várias cartas foram enviadas para o endereço do senhor P., nitidamente manifestando convicção contrária. Eu concluí por conseguinte que os fatos da minha narrativa provariam ser de tal feitio a ponto de carregarem provas suficientes de sua autenticidade, e que eu tinha, consequentemente, pouco a temer no que diz respeito à incredulidade popular.
Concluída a presente exposição, será visto de imediato como muito do que se segue eu afirmo resultar de minha própria escrita; e deve também ficar entendido que nenhum fato aparece deturpado nas poucas páginas iniciais que foram escritas pelo senhor Poe. Até mesmo para aqueles leitores que ainda não viram o “Messenger”, mostra-se desnecessário assinalar onde sua parte termina e onde a minha inicia-se; a diferença no que se refere ao estilo será facilmente percebida.
A. G. PYM. Nova York, julho de 1838

Texto completo em inglês (clique aqui)

Audiolivro (clique aqui)

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O Lacan da Lapa

           (Mais um conto do falso escritor, do anti-autor, do farsante ficcionista)

           Os amigos o aconselhavam a mudar para Ipanema, mas ele era intransigente e reagia mesmo de forma agressiva quando tocavam no assunto:

– De modo algum. Vocês devem estar todos loucos. Comecei na Lapa e vou terminar meus dias por aqui. É o bairro da bandalha, da esculhambação, da patifaria.

– Pensa bem, Demétrio – replicavam os companheiros. Na Zona Sul você estaria deitando e rolando, ganhando os tubos, botando dinheiro pelo ladrão e trabalhando na santa paz do Senhor. As grã-finas, bem tratadas, bem vestidas, frugais, fariam fila na porta de seu consultório e pagariam até por meia hora de sua atenção.

– Pode até ser, mas não troco a variedade da minha clientela de libertinas e devassas por nada nesse mundo. E de mais a mais, alguém necessita dar continuidade nesta redondeza ao trabalho pioneiro do Lorival Pestana.

            Entre parêntesis: Lorival Pestana era um amigo pederasta e espécie de guru de Demétrio. Já falecido, começara cedo quando a psicanálise dava seus primeiros passos no Brasil. Estabeleceu seu consultório na rua de Matacavalos, quer dizer, do Riachuelo, e chegou a conhecer figuras legendárias como o Madame Satã, ou por extenso como nos cartões de visita: João Francisco dos Santos. Quem esteve em seu consultório durante uma passagem pelo Rio de Janeiro foi ninguém menos que o filósofo Michel Foucault. Lorival iria revelar ao mundo um detalhe importantíssimo que consta da biografia do iminente pensador francês. Seu gosto pelas cuecas de oncinha. Fecha parêntesis.

          Por estas e outras, seguia o nosso charlacanista com suas convicções inabaláveis. Antes de clinicar, se dedicou a fundo ao estudo da psicanálise. Possuía diplomas de cursos com carimbo de tudo quanto é canto: Viena, Paris, Zurique. Todos feitos por correspondência, bem entendido. Em sua prática, tinha predileção exclusiva por atender ao sexo feminino. Quando aparecia algum homem querendo marcar uma consulta, recomendava logo que procurasse um de seus muitos colegas renomados.

            No bar com os amigos, ele compartilhava, sem cerimônia alguma, suas aventuras vividas em anos de dedicação à sua clínica só para mulheres. Como um caso inesperado com o qual andava se ocupando recentemente e que só estava atendendo por obrigação profissional. Acostumado apenas com a sua muito peculiar clientela, ele estranhou quando apareceu por lá uma dama muito chique, dessas da alta sociedade. Confidenciou contrariado aos amigos:

– Vocês não podem imaginar, senhores, estava esperando que surgisse mais um caso complicado: uma transexual indecisa, uma prostituta desiludida, uma lésbica com alguma tara e me aparece essa grã-fina fricoteira. A psicanálise foi feita apenas para cuidar de casos escabrosos, não temos tempo para perfumaria.

              A grã-fina procurara o doutor Demétrio por força e insistência de suas amigas. Nunca pensara em buscar alguma ajuda para o seu caso, mas amigas, como a Climéria, não cansavam de repetir:

– A psicanálise voltou com tudo, será que você não percebeu o óbvio ululante? Pode ir que é batata. Vai acabar com todas as suas dúvidas e apreensões.

A grã-fina pensou consigo mesma e conclui um pouco desanimada: “É, vai ver que é isso mesmo”.

Não queria que ninguém soubesse e foi assim procurar atendimento bem longe de sua vizinhança. Chegara atrás dos serviços do doutor Demétrio porque vira um anúncio de jornal, anúncio este que era publicado regularmente num tabloide vagabundo. No consultório caindo aos pedaços, ela surgiu toda alinhada em uma roupa muito elegante, com sapato de salto alto e uma bolsa, tudo combinando na cor bege. Apresentou-se proferindo com ênfase seu nome completo: Marisa Letícia Ruth da Nóbrega. Pediu de forma extremamente educada, e com certa inibição, para entrar, sentou-se e perguntou se poderia acender um cigarro.

– Aqui a cliente pode tudo – respondeu o doutor e complementou em seu habitual falar escrachado. Afinal de contas, minha senhora, estamos na Lapa, oras.

– Muito agradecida, disse nossa cliente ainda sem graça e constrangida com o ambiente decadente daquele consultório.

          Puxou então sua carteira dourada e pegou o primeiro dos muitos cigarros que fumaria naquele final de tarde. Tinha chegado no encerramento do expediente e pedira toda a discrição possível.

– Ninguém pode nem imaginar que estive aqui, senhor Demétrio, guarde tudo em segredo como recomenda a ética médica – disse aflita.

            Mal sabia ela que tudo o que se passava entre aquelas quatro paredes, coisas nunca jamais imaginadas pelos piores pornógrafos do planeta, era compartilhado com toda fanfarrice e às gargalhadas em lugares públicos pelo Lacan da Lapa, o apelido que nosso protagonista ganhou de seu círculo de amigos. Quando ele aparecia para a cerveja religiosa que compartilhava toda semana com seus amigos, seus companheiro e entusiastas, soltavam logo a blague:

–  Lá vem o Lacan da Lapa. Hoje temos assunto para a noite inteira.

              Diante das palavras amenas e encorajadoras do doutor Demétrio, no entanto, a dama chique se sentiu segura, não hesitou e foi direto ao assunto:

– O problema é meu marido, doutor.

            A frase pegou nosso charlacanista de surpresa. Ele pensou um pouco, em uma de suas conhecidas e longas pausas de silêncio, e acabou decidindo improvisar uma fala que fugia totalmente ao seu script de trabalho:

– Não és a única, dona Marisa Letícia…

– Ruth da Nóbrega, completou a paciente.

– Ah, sim, Ruth da Nóbrega, repetiu o doutor. Pois pode a senhora acreditar no que vou lhe dizer: quase a totalidade das clientes que deitam naquele divã que podemos ver ali, o fazem por causa de seus maridos. São todos uns canalhas, uns crápulas, uns cafajestes. Vamos tratar de resolver o seu problema rapidamente.

– Ele pensa que me engana, mas eu sei de tudo. Já tive a chance de checar as chamadas em seu celular. Está cheio de números de telefones das maiores pilantras, vagabundas, meretrizes. Isso mesmo, meretrizes. Só mulheres ordinárias, todas se oferecendo a troco de nada. Outro dia, ele passou horas conversando com uma sirigaita na maior cara de pau e eu tendo que ouvir a tudo. Aposto que elas enviam selfies nus e que o levam para um motel qualquer.

            Depois de ouvir aquela ladainha, muito contrariado, Demétrio preferiu ser direto com sua cliente endinheirada:

– Bom, minha senhora, estou preocupado com sua aflição. Queria, entretanto, deixar algo claro desde o início. Esta aqui não é exatamente uma agência de detetives. Esta é exclusivamente uma clínica terapêutica. Entenda, por favor.

– Me desculpe, doutor, é que me descontrolo ao falar sobre o assunto.

             Ingênua, ela quis então saber como tudo funcionava e nosso psicanalista, vendo que não haveria como se livra da grã-fina, resolveu ir em frente com o tratamento.

– É fácil, vamos começar agora mesmo. Basta que a senhora se deite naquele divã, tire os sapatos, relaxe e me conte tudo nos mínimos pormenores sobre sua vida. Esqueça o seu marido. Fale-me dos seus sonhos, desejos e fantasias não realizadas. Quero saber cada detalhe sobre essa alma combalida e atormentada.

            E assim não demorou mais do que três sessões para que o doutor Demétrio, seguindo o método de trabalho do qual não conseguia fugir, estivesse fazendo e acontecendo, pintando e bordando, com sua nova cliente. Era o mesmo que se dava com a grande maioria de sua clientela, às escancaradas, com as cortinas abertas e sem nenhum embaraço por parte daquele investigador de almas. Um vizinho, que se habituara a observar tudo pela janela, pensava consigo: “Então é essa bandalheira que chamam de psicanálise? E a paciente ainda paga por esse serviço? Valha-me Deus, isso é um caso de polícia”.

            Depois de dois meses de terapia, a grã-fina já nem lembrava mais do marido. Tinha reservado as quartas-feiras, um dia da semana acima de qualquer suspeita e com sua áurea de inocência, para as suas sessões com o doutor Demétrio.

         Um dia chegou ao prédio mais cedo do que devia para sua consulta. Quando isso acontecia, ficava sempre fazendo hora passeando pelos arredores. Algumas vezes aproveitou para ir até o relógio da Glória. Sonhadora, olhava para aquele marco da cidade e imaginava o que o tempo havia contemplado: crimes, atropelamentos, suicídios. Desta feita, no entanto, já mais desinibida e à vontade, resolveu subir logo ainda que não fosse o seu horário. Foi quando avistou saindo da sala de consultas do doutor Demétrio um tipo vulgar ainda arrumando a roupa um pouco amassada, retocando o batom e ajeitando o cabelo. Ficou chateada com o que viu e resolveu interpelar o psicanalista.

– Que belo papel, hein Demétrio? Venho aqui para esquecer o pilantra do meu marido e em busca de conforto com alguém de confiança e olha o que você me apronta. Quem é essa ordinária que acabou de sair daqui?

– Quem, a Josicleide? Não fale assim dela, é um doce de pessoa.

– Doce de pessoa, uma ova. Vocês estavam é se atracando aqui dentro.

– Calma, meu anjo, não precisa se irritar tanto. Com o papai aqui tem para todas e nunca vai faltar nada para ninguém. Não vejo motivo para vocês se estranharem.

            A grã-fina saiu indignada, cuspindo marimbondo. Daí a uma semana retornou no horário de sua consulta. Quando Demétrio abriu a porta, ela não teve dúvida, muito senhora de si, tirou da bolsa o revólver e descarregou os cinco tiros à queima roupa. Virou as costas e saiu gritando para que todo o prédio ouvisse:

– Canalhas, patifes, calhordas.

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José Carlos Avellar – A Sétima Arte sob o Olhar de um dos seus Grandes Críticos

Captura de tela inteira 24032016 070552Os jornais hoje vivem de manchetes e delas quase que exclusivamente. Em uma hora no máximo, somos capazes de dar conta de uma edição cuja leitura antigamente podia se estender por toda uma tarde, quiça por por todo um dia, como costumava acontecer aos domingos. Estas mudanças começaram a acontecer no final da década de 1980. O jornal em preto e branco foi aos poucos incorporando cores às suas edições, as fotos ganharam proeminência, o tamanho do tipo de letra impressa foi aumentado, e os extensos textos passaram a ser substituídos por matéria jornalística curta e resumida em função do pouco espaço dedicado a cada repórter/jornalista/crítico. Era o começo da proliferação de colunas sociais e políticas feitas quase que exclusivamente com fotos e notas.

Todas as seções sofreram indiscriminadamente com estas mudanças. Mas a morte de José Carlos Avellar nos faz lembrar como as críticas cinematográficas já foram um dia feitas com digressões caudalosas. Avellar preparava resenhas de filmes para as edições de dias ingratos e menos nobres como as segundas e terças-feiras, mas tinha todo o espaço do mundo para escrever o que quisesse. Suas extensas críticas no Caderno B do Jornal do Brasil eram a garantia de que teríamos com o que nos entreter em dias em que as seções de cultura eram mais comedidas em comparação com as volumosas edições do fim-de-semana. Não fazia ideia de que antes de começar a lê-lo, o crítico, ensaísta e professor carioca chegou a escrever, à época em que deu início a sua carreira assinando resenhas como crítico interino do JB, textos publicados em duas partes. Algo impensável nos cadernos culturais dos dias de hoje.

Por entender de técnicas cinematográficas, uma vez que era também um realizador, associava seu conhecimento prático à sua formação teórica e conseguia com isto dar tratamento crítico único às resenhas. José Carlos Avellar sabia explorar como poucos a dimensão mais profunda da experiência fílmica. Certamente impressionado com as características onírica dos filmes de um Buñuel, de um Fellini, de um Bergman, ou o oposto, estimulado pelo neo-realismo italiano de um Vitório De Cica, de um Rossellini, de um Visconti, procurava retratar por contraste, em suas críticas, o que podemos experimentar quando nos reclinamos nestes espaços entre o sonho e a realidade que são as salas escuras dos cinemas. Isto numa época em que as salas de projeção preservavam seu clima de culto, resguardadas das luzes inoportunas e intrometidas dos celulares.

Além da carreira de crítico, ele tratou de cuidar da memória do cinema, trabalhando na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e apostou em novos e conhecidos realizadores comandando primeiro a Embrafilme e, posteriormente, a Riofilme. Mais recentemente atuava como programador da sala de cinema do Instituto Moreira Salles, onde também reunia e mediava conversas com cineastas, jornalistas e críticos. Seguia também publicando resenhas no blogue escrevercinema na Internet (clique aqui).

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Seguem os treinos…

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Com limitações, o relógio de pulso Garmin vem registrando e transferindo para sua página on-line (um app chamado Garmin Express que abre a página da Garmin Connect) os dados dos treinos na piscina da Bodytech da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, ali onde ficava o Cine Copacabana. Desde agosto de 2015, quando os dados passaram a ser enviados, foram 375 quilômetros nadados em 114 horas dentro d´água. O que não dá pra entender é como seria possível se fazer 100 metros em apenas 21 segundos. Se isto acontecesse, estaríamos batendo os recordes dos recordes. Em piscina curta (25m), 1:07 já é um tempo difícil de acreditar e tenho minhas sérias dúvidas em relação a ele. A explicação é, no entanto, simples. Existe um Garmin, que custa na faixa dos 500 dólares, que funciona ancorado em registros via GPS como vários dos gadgets de que dispomos hoje. O modelo que uso tem um preço mais acessível (150 dólares), mas opera a partir de dados informados previamente (como a extensão da piscina e o tipo de treino, por exemplo). E para fazer estes registros, ele é sensível aos movimentos realizados na piscina. É necessário, assim, dar um impulso contínuo a cada larga de uma das bordas para ele contabilizar novos 25m. No geral, isso acontece de forma precisa. Quando se divide uma raia com outros nadadores, qualquer eventual mudança de percurso, no entanto, o força a registrar a finalização de mais uma extensão da piscina o que pode gerar marcas recordes. A alternância de estilos também pode ser fonte de imprecisão pelo que tenho observado.

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Justiça e Ódio

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Capa da edição americana de Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, esgotado no Brasil. Na Estante Virtual, o preço do exemplar começa em 100 reais (clique aqui).  Na audible.com, o áudio-livro sai por 22 dólares (clique aqui)

Achamos que conhecemos bem um escritor e não mais do que de repente descobrimos que a obra deste autor ainda apresenta textos de um completo ineditismo para nós. Passei os últimos dias me deliciando com alguns escritos de Umberto Eco dos quais nem sabia da existência. Especialmente, Six Walks in the Fictional Woods (Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, Companhia das Letras), as 6 conferências proferidas na década de 1990 por Eco dentro do famoso ciclo de palestras que leva o nome do estudioso norte-americano Charles Eliot Norton, evento que desde 1925 acontece anualmente na Universidade de Harvard nos Estados Unidos e prestigia um intelectual de renome. Trata-se de livro com digressões interessantíssimas sobre o ato da leitura e sobre as relações possíveis entre autor/leitor a partir das obras de Arthur Gordon Pym, ou melhor dizendo, Edgar Allan Poe, Italo Calvino, Achille Campanile, Kafka, Joyce, entre muitos outros. Não é preciso ser um entendido em semiótica para saber que estas considerações se aplicam à produção artística veiculada em ou por qualquer meio, até mesmo pela televisão, por exemplo.

Em meus comentários sobre a obra de Eco há algumas postagens atrás deixei esquecido também um romance, O Cemitério de Praga (Editora Record,  2011), aquele que traz o registro de uma citação que desconhecia: “Odeio, logo existo”. O livro e o tópico são comentados por Umberto Eco em depoimento concedido a Paul Holdengräber durante palestra gravada para os arquivos da Biblioteca Pública de Nova York (clique aqui). Com sua exuberante e majestosa barriga, que parece estar ali como que a atestar o júbilo de uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, Eco nos diz que ao que tudo indica a história tem demonstrado que necessitamos odiar fortemente alguém para existirmos. Foi um motorista de táxi em Nova York que o despertou para o assunto, ao indagá-lo, para sua grande surpresa, sobre as pessoas que odiava em seu país.

Ódio semelhante a este podemos talvez identificar nas ações do senhor Sérgio Moro em relação ao senhor Luiz Inácio Lula da Silva. E, nesta hora, peço ajuda aos queridos amigos leitores e entendidos nos campos da psicologia e da psicanálise (em breve teremos aqui um conto dedicado a vocês; aguardem). Vejamos se vocês conseguem me auxiliar no esclarecimento de um enigma. De onde vem, onde nasce, este ódio para com uma pessoa?

Acompanhem a seguinte ponderação: o senhor Sérgio Moro, mestre e doutor pela Universidade do Paraná com um curso rápido de especialização de 5 dias (clique aqui) realizado naquela mesma Universidade de Harvard em que Eco palestrou, poderia perfeitamente, e a bem da justiça, ter encaminhado as gravações que suas investigações levantaram direto para o Supremo Tribunal Federal, em sigilo completo, a fim de que este tomasse conhecimento, avaliasse e, como corte suprema e soberana, decidisse o que fazer. Em lugar desta atitude, no entanto, ele preferiu, sem justificativa razoável alguma, constranger publicamente a pessoa por ele investigada. A intenção, segundo foi comentado, era informar a população sobre fato relevante. O que foi revelado para o que vos digita, porém, foi a manifestação daquele ódio profundo que o ser humano parece guardar bem escondido no lugar mais recôndito de sua alma.

Lembrou muito os ataques de um craque neste assunto: Carlos Lacerda. O Corvo em suas investidas iradas contra Getúlio Vargas e Samuel Wainer nos anos de 1950 conseguiu criar um momento de instabilidade no país que culminou com o suicídio do ditador do Estado Novo. E com esta lembrança, chego mesmo a me perguntar se não estaríamos revivendo a República das Abelhas com a história se repetindo como farsa neste momento. A diferença é que Carlos Lacerda era um político, uma classe que vive deste tipo de expediente. Investidas desta natureza por parte de um juiz, no entanto, não ficam nada bem. Não foi à toa que editorial de hoje da Folha de São Paulo reprovou a iniciativa de Moro.

 

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“Je collectionne tous les livres que je ne crois pas…”

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Umberto Eco em entrevista ao programa La Grande Librairie (clique aqui)

 

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Domingão Anti-Dilma/Lula/PT

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Dia de manifestação anti-Dilma, anti-PT e anti-corrupção. Nas redes sociais, o país pareceu muito dividido, mas a mobilização foi expressiva e histórica, superando até as “Diretas Já”. Não fui um entusiasta da iniciativa e nem participei ativamente porque há um foco excessivo, em meu entender, no PT e nas pessoas de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Sou contrário a este tipo de execração pública. Fantoches dos dois políticos e faixas contra o PT inundaram as ruas. Não vi coisa semelhante em relação a nenhum dos outros partidos e políticos que são acusados de improbidade administrativa. A justiça, como todos que prezam a democracia sabem, deve ser isenta e isonômica.

Em  uma lista do Dossiê do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, o PT aparece na 9a. posição, bem atrás de vários outros partidos políticos. O levantamento é antigo, e, depois da Lava-Jato, a situação deve mudar. Mas é difícil que o PT, com 10 políticos cassados por corrupção eleitoral nesta lista, bata os primeiros colocados: DEM, com 69, PMDB, com 62, e PSDB, com 58. Estranhamente, não vi, no entanto, faixas contra nenhuma dessas agremiações partidárias que, pelo contrário, saíram das manifestações de rua intocadas. Nem tampouco fantoches de políticos com acusações sérias e corroboradas por provas claras (o que ainda não é o caso, pelo menos até o momento, de Dilma Rousseff).

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No sábado, em uma reunião do PMDB, foram feitos também ataques ao PT e à Dilma por uma mesa comandada por Michel Temer com a presença de Eduardo Cunha. O líder do partido já posava como novo salvador da pátria e parece vir se articulando para assumir o cargo de chefe da nação. Aécio Neves, citado em investigações, por sua vez, aproveitou a mobilização para se promover em Belo Horizonte, onde foi bem recebido e acolhido pelos manifestantes. Tentou fazer o mesmo em São Paulo, mas felizmente foi rechaçado. José Serra parou para selfies na manifestação na capital paulista em situação que pedia comedimento. Com este tipo de espírito público, acho difícil querer mudar a situação política.

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Ainda sobre Umberto Eco…

Captura de tela inteira 09032016 213601Alguns textos preparados para este blogue acabam não sendo postados por razões variadas. É o caso da passagem abaixo que fica como mais um gesto de homenagem ao escritor Umberto Eco, especialmente a seu romance A Misteriosa Chama da Rainha Loana, a seu gosto por enciclopédias e sua mania de colecionar velharias e obras raras (o que começou a poder fazer, como relatou certa vez, depois de ganhar muito dinheiro com O Nome da Rosa).

A Wikipédia não cansa de nos servir e parece mesmo fadada a não perder seu status de fonte de difusão de conhecimento da qual a vida online jamais poderá prescindir. Antes do seu aparecimento em 2001, fato que ficamos sabendo consultando a própria Wikipédia, no entanto, os estudantes do mundo todo viviam na dependência das enciclopédias tradicionais com seus pesados volumes. Para o aluno brasileiro da década de 1970, duas tiveram importância fundamental: a Barsa e a Delta-Larousse. Foi através do confronto, da paráfrase, ou da mera cópia, dessas duas obras de referência, que muitos trabalhos escolares foram escritos.

Hoje, parece claro que a elaboração de um saber enciclopédico em volume impresso teria dificuldade de competir com a construção desse mesmo saber de forma colaborativa em ambiente digital com um número incontável de pessoas envolvidas. Um ponto de desvantagem para as enciclopédias geradas na rede mundial de computadores é que elas não passam necessariamente pelo crivo do juízo de pessoas qualificadas como um Antonio Houaiss, um Otto Maria Carpeaux, nomes que deram tratamento único aos verbetes das primeiras enciclopédias lançadas no Brasil. Além disso, há a questão da credibilidade do que é comunicado. Dilma Rousseff, por exemplo, divulgou durante um bom tempo na Wikipédia informações incorretas sobre sua trajetória pessoal, sem problema algum. Até o assunto se transformar em um escândalo.

As enciclopédias impressas tiveram no Brasil da década de 1990 um renascimento por conta de sua associação com nossos jornais como produto de marketing. Em 1996, o jornal Folha de São Paulo traduziu e lançou como encarte de suas edições de domingo os fascículos da “Nova Enciclopédia Ilustrada Folha” (tradução adaptada para a realidade brasileira da “The Oxford Illustrated Encyclopedia”). Muita gente adquiriu esses fascículos que depois eram encadernados através de serviço oferecido pela empresa Folha da Manhã junto às bancas de jornal para os colecionadores dos encartes. Perfizeram dois tomos e vieram em seguida ao lançamento em esquema semelhante do “Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa – Folha Aurélio”, nos anos de 1994 e 1995. Ambas eram estratégias para aumentar a vendagem do jornal aos domingos, o que de fato aconteceu. Essa estratégia seria repetida por todos os jornais brasileiros e se desdobraria em outras jogadas de marketing semelhantes com a comercialização de fitas cassetes, cds, dvds, livros.

Há um ensaio muito interessante de Umberto Eco que contrasta as duas formas de conhecimento que orientam um saber enciclopédico e um saber dicionarizado. O autor do romance Número Zero, em um estudo teórico de 1986, examina o que diferenciaria essas duas maneiras de construção de conhecimento. Eco diz que o dicionário trabalha com um saber redundante e a enciclopédia, por outro lado, com um saber que se perde em um labirinto. O que nos levaria talvez a pensar que os dicionários não passam na verdade de enciclopédias empobrecidas. Pode-se, no entanto, supor justamente o oposto e achar que os dicionários são extremamente refinados em sua especificidade.

De qualquer jeito, os dicionários operam em redundância permanente, a partir da sinonímia, da antonímia, da hiperonímia e da hiponímia das palavras. A utilidade dos dicionários é, em função disso, dependente das culturas que os geraram. Sem um conhecimento prévio da sinonímia, antonímia, hiperonímia e hiponímia dos vocábulos de um idioma específico, a utilidade do dicionário se perde.

O termo “enciclopédia” quer dizer “educação circular” ou “conhecimento geral”, nos diz de novo a Wikipédia. O verbete segue nos informando que elas foram desenvolvidas a partir dos dicionários no século XVIII. São, portanto, posteriores a eles, cronologicamente falando. No Brasil, os nomes de Aurélio Buarque de Hollanda e Antonio Houaiss acabaram associados aos dicionários que produziram ajudados sempre por uma equipe grande de entendidos, deve-se salientar. Aurélio foi o primeiro e dedicou sua vida inteira ao trabalho de lexicógrafo. Seu nome virou mesmo um sinônimo de dicionário durante um bom tempo no Brasil. Antonio Houaiss incursionou de início pelo mundo do conhecimento enciclopédico para só depois se dedicar ao registro e a datação de palavras. Foi levado a esses dois projetos pelo empresário de origem judaica Abraham Koogan que financiou a enciclopédia Delta-Larousse em sua versão brasileira e o dicionário Koogan-Houaiss. Nos armários da minha infância/adolescência as enciclopédias Barsa e Larousse repousavam aguardando as demandas das tarefas escolares. Junto a elas, estava uma outra e mais importante coleção. Trata-se da “Great Books of the Western World”, da enciclopédia Britânica, com seleção dos textos mais importantes de todos os pensadores e escritores fundamentais para a formação de qualquer pessoa.

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Ela chegou em seguida à Barsa e à Delta-Larousse e veio, pelo que me lembro, como cortesia. Seus muitos tomos ficaram envelopados em papel celofane, esquecidos e preservados durante anos do risco da poeira e da humidade. Quando descobri, já na fase universitária, a coleção intocada, não acreditei. Tomos com os escritos de Platão, Aristóteles, Copérnico, Newton, Kant, Hegel, Marx, Freud, Cervantes, Shakespeare, Dante, Goethe (a lista é bem grande), estavam todos lá sem que ninguém tivesse dado qualquer atenção a eles. A biblioteca do Ibeu de Copacabana tinha uma coleção da Britânica. No sebo da Faculdade de Letras da UFRJ podia se ver uma outra malcuidada edição por um preço exorbitante. Daniel Piza contou certa vez como adquiriu a sua coleção em um sebo em São Paulo e ao chegar em casa teve ainda que dar um bom trato, lixando e reparando alguns volumes. Em tempo: no Brasil, a editora Abril lançou a série “Os Pensadores” e a Nova Cultural, a “Coleção Obras Primas”, que lembram a iniciativa da Britânica.

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