


Supershow de Ana Frango Elétrico no Teatro Ipanema. Que músicas, que presença, que banda. Tudo em perfeita sintonia na companhia do baixista Vovô Bebê, do baterista mascarado Guilherme Lirio e dos sopros da dupla Antonio Secchin e Antonio Neves. E na carona do pra lá de talentoso Thiago Nassif que inverteu as coisas e fez a apresentação de abertura. Os dois se encontram ainda no disco de estréia de Anuska que vem por aí. Aguardem por “Mormaço Queima”. Em breve em vinil e nas boas lojas on-line.


Fim de semana triste com a partida de Luiz Melodia. Extraordinário poeta, compositor e cantor. Contamos nos dedos as vezes em que as três qualidades se casam em uma única pessoa. Helio Muniz, um companheiro de batalha jornalística com quem não encontro há séculos, foi certa ocasião entrevistá-lo em sua casa na Gávea. Como parte da decoração da residência havia um quadro na parede com um barco em repouso. O detalhe é que o quadro se encontrava de cabeça para baixo. Excentricidades do grande e simpático artista que nos deixou. Nos últimos anos, tive a oportunidade de vê-lo em 2014 no Theatro Net soltando a voz poderosa de sempre amparada na guitarra do permanente parceiro Renato Piau e de um grupo de cordas. Chovia horrores e Melodia agradeceu modestamente por estarmos lá, como se precisasse. Seus shows eram sempre um convite irrecusável. Depois o vi também no teatro Rival, em 2015, com uma banda numerosa com o auxílio luxuoso de teclado, sopro e tudo mais a que tinha direito. Nos dois shows cantou as músicas do cd “Zerima” (anagrama de Mariza, nome da irmã do cantor, falecida poucos anos antes da gravação do disco), que ficou como sua última obra, e sacou números de sucesso do conhecido repertório que construiu ao longo de uma das mais interessantes carreira da MPB (“Ébano”, “Dores de Amores”, Congênito”, “Salve Linda Canção sem Esperança”). Arriscou uma inesperada releitura de “Parei… Olhei”, música de Rossini Pinto que ficou conhecida na voz de Roberto Carlos, e passou ainda “Loucura”, de Sérgio Sampaio, e “Maracangalha”, de Dorival Caymmi. Em ambos os shows não esqueceu das composições de seu mais famoso disco, “Pérola Negra”, de 1973, que está entre os álbuns favoritos de muitos. Foram nossos últimos encontros.


Quando já se achava que o espírito da poesia de mimeógrafo estivesse morto, enterrado e esquecido para todo o sempre (sobretudo em tempos deste vórtice abdutor de almas conhecido como universo digital), eis que ele sorrateiramente retorna, e novamente com o aval de quem entende do assunto (a professora Heloisa Buarque de Hollanda) e com as bençãos do iniciador de tudo (o poeta Chacal). Todos sabem que Chacal vem instigando a garotada a transformar o que pensa, sente e tudo aquilo mais que estrebucha na agitada alma de nossa juvenília, em poesia, música e performance. Comanda o seu circo já se vão aí quase 30 anos na arena aberta às experimentações que é o palco do CEP 20000 na sala Sérgio Porto no Humaitá.
É por lá que Ana Fainguelernt (ou Ana Frango Elétrico para os que não têm familiaridade com sobrenomes do leste europeu; me lembrou o caso do Garrincha com o Fraldas na Copa de 1962; crianças, pesquisem) pluga sua guitarra e passa seu repertório que em breve chegará ao vinil, mais um suporte vintage que voltou para ser o novo-velho objeto de desejo cultural na era dos bytes. Vai ser uma coletânea que atenderá pelo título de “Xepa/Nata” e que no momento se encontra em processo de crowfunding aguardando a adesão de todos na Embolacha (XEPA/NATA crowdfunding). Antes que o disquinho dê o ar da graça, Ana oferece o relançamento do seu “Escoli o Z – Paralelismo Miúdo” (edição xerográfica da autora, 2016), que sai agora em capas multicoloridas. Participa ainda da reunião de novos poetas no volume 1 do “Caderno do CEP 20000”, produção rodada pelos próprios autores nas oficinas entre o low e o high tech do Colaboratório da UERJ.

Além de música e poesia, Anuska também exercita suas manhas nas artes plásticas, área em que é craque em arriscar traços de um primitivismo que só os desenhistas com talento conseguem realizar com desenvoltura. Como começou há pouco seus estudos na Escola de Belas Artes da UFRJ, pode seguir apostando em suas colagens enquanto afia seus pincéis, grafites, nanquins, para explorá-los em telas e suportes variados. Embora suas telas já tenham admiradores cativos. E é esse dom para as artes gráficas, coisa de quem puxou ao papai Mauro Fainguelernt, que faz com que o “Escoliose” venha com versos lindamente ilustrados.


Dentro da FLIP deste ano, nossa poetisa e artista plástica, que não pára, participa ainda da mesa “Páginas Anônimas: a Literatura que o Brasil Faz e Você Desconhece – Música”. A partir das 17h desta sexta-feira na Casa da Cultura de Paraty, em evento organizado pela Rede Globo. Ana estará muito à vontade entre os seus companheiros de batalha, dividindo mesa com a cantora de funk Blackyva (a black diva da Rocinha) e o inspirado compositor Matheus Torreão. Mediando o encontro, o crítico, escritor e roteirista Rodrigo Fonseca. Na sequência temos pocket show com os participantes.
Não custa nada sonhar com uma aposentadoria em grande estilo. A minha seria dedicada a correr as mais bonitas praias do globo contemplando bestamente a Liga dos Surfistas Profissionais. Enquanto isso não acontece, me contento em ver tudo com as transmissões da equipe super competente da WSL. Como as que acabaram de mostrar a briga pelo título do Corona Open na Baía de Jeffreys na África do Sul. Foi uma beleza de espetáculo com a coroação do português Frederico Morais e do brasileiro Filipe Toledo. Quando Morais subiu ao palanque para ser homenageado e receber seu troféu, com a bandeira de Portugal enrolada na cintura como uma saia, quase que me peguei a começar o “Cale-se de Alexandro e de Trajano/A fama das vitórias que tiveram/Que eu canto o peito ilustre Lusitano/A quem Neptuno e Marte obedeceram/Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/Que outro valor mais alto se alevanta”. O estreante entre a elite do surfe mundial disse que estava se sentindo em casa, o que fez imaginar que Portugal talvez também tenha praias tão bonitas como as da Baía de Jeffreys. Nesta hora bateu aquela vontade de passar uns tempos na terrinha e encarei como mais do que acertada a decisão de alguns dos meus irmãos de se empenharem para conseguir a tal da cidadania lusa.
A competição trouxe um sortimento de ondas maravilhosas e com um show por parte dos surfistas que colecionaram o maior número de notas 10 por suas estripulias em uma mesma competição até o momento. Não se tinha visto nada semelhante em nenhuma das paradas anteriores da temporada deste ano. Ondas grandes e belíssimas em profusão, o que forçou o barco com a equipe de segurança do evento a ter de descer uma das séries. Os comentaristas Peter Mel e Ronnie Blakey, ao lado do veterano Shaun Thomson (vencedor do primeiro torneio realizado por lá em 1981), chegaram a desconfiar que a patrulha também estivesse atrás de arrancar uma nota máxima dos jurados. A fauna local é que estranhou, como de costume, a presença desta nova espécie marinha que nada de costas, com a barriga mirando o céu, e com duas ou três barbatanas dentro d´água. Kelly Slater não veio à Saquarema, mas esteve na Baía de Jeffreys e saiu, para sua infelicidade, de uma das sessões de aquecimento com dois dedos do pé fraturados. Ainda teve que ouvir do médico que o atendeu as seguintes palavras de conforto: “Como foi que você fez isso?” Vai estar de fora da próxima perna do circuito que se dará em Teahupoo, no Taiti, entre 11 e 22 de agosto. Parece que o Taiti, para desgosto geral, é o destino mais caro de que se tem notícia para uma visita.



No final do ano passado, por ocasião do confronto pelo título de campeão do mundo entre Magnus Carlsen e Sergey Karjakin, preparei uma postagem em formato de vlogue sobre as regras e noções básicas de xadrez, bem como as relações deste jogo com a ciência e as artes. Encontrei o arquivo guardado e aqui vai ele para os interessados no assunto.
Regras e Noções Básicas de Xadrez
Gustavo Ferreira Pombo, meu sobrinho por adoção (é filho de uma de minhas primas) e agora meu inquilino, é fã dos Gallagher. Ainda que o Oasis seja em muitos momentos (quase todos, deveríamos dizer) um pastiche de Stones/Beatles/Bolan, o Guga acha em sua devoção extremada que eles fizeram muito mais pelo rock inglês do que seus antecessores e mesmo do que aqueles que foram seus contemporâneos. É claro que a banda dos Gallagher, que estreou com o hit “Supersonic”, tem o seu nome no hall of fame que congrega os representantes da linha involutiva do Brit-Rock, o que não deixa de ser alguma coisa.
Além disso, depois do fim do Oasis, Liam e Noel continuaram sendo paparicados por dedicados seguidores inconformados com o fim da banda, o que acabou levando a coisas inexpressivas como Beady Eye (que se foi em 2014) e High Flying Birds (que continua na ativa e vem ao Brasil com o U2 em outubro) a gozarem de certo prestígio. Os dois grupos de qualquer jeito provaram que é melhor ver Liam e Noel juntos do que separados. Os irmãos seguem também ocupados com projetos individuais.
Recentemente, Noel esteve envolvido com o Gorillaz participando do disco “Humanz”, em uma faixa que, em minha isenta apreciação, prova que o compositor mais ocupado do Oasis pode realizar algo infinitamente mais interessante se entregar por completo o comando musical aos caprichos e cuidados do compositor mais ocupado do Blur. “On a le Porvoir de s´Aimer”, que lembra muito em estilo as composições do “Think Tank” (disco do Blur sem Graham Coxon), é a musiquinha que coloca lado a lado os ex-desafetos Damon Albarn e Noel Gallagher, sem que este último consiga fazer qualquer sombra sobre o primeiro. Vale a pena prestar atenção à cantora Jehnny Beth que participa desta inesperada dobradinha Blur/Oasis. Beth é vocalista da banda Savages, que tinha fugido por completo ao radar do que vos digita. Ótima a gravação que Beth fez em duo com Julian Casablancas cantando no estilo “anger is an energy” a composição “Boy-Girl”, sucesso da parada subpop dos anos 1980 do repertório dos punks dinamarqueses do Sort Sol (com participação da performer americana no wave Lydia Lunch).

Andei sumido, mas foi por uma boa causa. Estava finalizando a compra de um apartamento pequeno, porém bem simpático, na Barra da Tijuca. Fiquei especialmente encantado com a piscina e com o preço, que falou alto. Os imóveis na Barra são bem mais em conta do que os da Zona Sul. Tive, de qualquer maneira, a ajuda, certamente involuntária, do senhor João Uchôa, dono da Universidade em que trabalhei. Sempre tive empatia por ele, ainda que nunca o tenha conhecido pessoalmente. Lecionei em todos os campi da Universidade Estácio de Sá, o que me fazia correr o Rio de Janeiro inteiro, de Madureira ao Rio Comprido. Me aventurei até mesmo a dar aulas em Niterói e Petrópolis.
Gostava de frequentar todas as unidades, mas especialmente, por causa de sua beleza, o campus Tom Jobim, onde cheguei à época de sua inauguração em 2000, e lugar no qual tinha minha maior carga horária. O prédio foi todo construído, em um dos lotes do Centro Empresarial Barrashopping, exclusivamente para abrigar a unidade. Apreciava sua arquitetura que gaiatamente tentava replicar um pouco das linhas do Guggenheim de Nova York. Havia esculturas e obras de artistas plásticos contemporâneos espalhadas por todo o campus, assim como quadros pintados pelo próprio Uchôa, grande parte deles exibindo, em meio às pinceladas, jogos de palavras. Chegou a publicar livros e a escrever uma peça elogiada por Millôr Fernandes.
Certamente, o gosto pelas Letras foi o que fez com que contratasse Deonísio da Silva e Reinaldo Pimenta, dois entendidos em filologia, para ficarem como consultores à disposição dos professores para troca de ideias. Já havia trabalhado com Pimenta em um cursinho pré-vestibular e adorava seus livros, entre os quais há o ótimo “A Casa da Mãe Joana”, sobre a origem de expressões, frases e palavras. Deonísio também tem livros saborosos sobre etimologia, uma interessante dissertação sobre Rubem Fonseca, e ainda suas ficções. O premiado autor de “Avante, soldados: Para Trás” (Prêmio Internacional Casa de las América), que depois se tornaria diretor do curso de Comunicação, nos recebia sem pompa e sem cerimônia em sua sala para conversar sobre o que quer que fosse e tinha um papo agradabilíssimo.

Curioso é que por todos os lugares pelos quais passei em minha vida profissional, com raríssimas exceções (muito raras mesmo), os departamentos de RH sempre tentaram armar algum cambalacho com os funcionários. Muitos destes RHs foram bem sucedidos contra mim. Tenho ações trabalhistas, por falta de recolhimento de FGTS e outras pendengas, das quais nunca consegui receber um único centavo. Fui ainda muito relapso, pela falta de experiência, em ações contra grandes empresas, gigantes do mercado midiático, o que lamento. Na Universidade e a certa altura, algum gênio tentou tirar dez minutos de todas as aulas de todos os professores dos turnos da manhã e da tarde. Devem ter feito uma economia astronômica, mas a conta chegou depois e com acréscimos também astronômicos. Sou muito grato a esse gênio.
Foi a primeira vez em que a justiça do trabalho de fato funcionou para mim. Por isso, e ainda que já esteja caminhando para a calvície plena, fico de cabelo em pé pensando no que a geração que está chegando ao mercado vai ter de enfrentar com a reforma na legislação trabalhista. Por trás dela, certamente estão deputados, senadores e presidente, todos muito bem “orientados” pelo empresariado, que por sua vez é orientado por algum contador, ou talvez um mero contabilista, de seu departamento de RH.

Na época da palestra com o Hermano Vianna (ver Overmundo #1), deixei no Overmundo a minha contribuição com o começo de uma narrativa que deveria seguir em aventuras subsequentes, mas às quais acabei não dando continuidade. A bem da verdade, tenho algumas outras rapsódias encaminhadas com o anti-herói e quem sabe um dia elas não aparecem por lá ou por aqui. A abertura da narrativa, de qualquer maneira, se encontra no banco do Overmundo até hoje (basta clicar no link abaixo para vê-la na íntegra). Uma alegria participar desta iniciativa inovadora que segue como foi criada para ser, reunindo produtores culturais e consumidores, em troca permanente.

O Librivox é um dos muitos sites colaborativos pra lá de interessantes a ter surgido na Internet. Menos de uma ano depois de sua criação em 2005, aparecia um outro projeto ousado e mais ambicioso, a plataforma Overmundo. Trata-se de um destino pensado pelo amigo Hermano Vianna para hospedar a produção em sentido lado (escrita, música, vídeo) que espelhasse manifestações culturais de todos os cantos do Brasil. Na época do lançamento, em 2006, há 11 anos portanto, o antropólogo esteve na universidade em que trabalhava para divulgar a novidade. Hermano fez um detalhado levantamento sobre o que estava acontecendo na web naquele momento, no que acabou sendo um grande apanhando prospectivo de sua parte. Falou sobre muitos sites que acabavam de surgir em todas as latitudes e que se consagrariam como endereços de visita obrigatória como o SciELO. Menciona uns poucos que sumiram na poeira do tempo e que ficaram esquecidos para sempre como o Orkut e o del.icio.us. Fez alusão ainda a um endereço que começava a chamar a atenção de estudantes americanos, um tal de Facebook. Detalhe: ninguém na sala tinha ouvido falar sobre ele. A palestra apresenta uma análise única, ao estilo das sempre intuídas por Hermano, sobre trabalho colaborativo e Internet. O antropólogo consegue misturar em seus comentários Walt Disney, James Brown, Eduardo Viveiros de Castro e um dos fundadores da North Amorica, Thomas Jefferson (em suas considerações sobre direitos autorais). Encontrei o arquivo, que foi gravado pelos queridos alunos Jorge Wagner e Fabrício, em um antigo notebook perdido no junkyard de computadores que tenho aqui em casa.
1 – Palestra sobre o Overmundo e Internet colaborativa 1-3 – Hermano Vianna apresenta o seu projeto interneteiro.
2 – Palestra sobre o Overmundo e Internet colaborativa 2-3 –
3 – Palestra sobre o Overmundo e Internet colaborativa 3-3 –