No verão de 1979, que antecedeu a minha entrada na faculdade, embarquei com amigos e conhecidos em uma expedição que correu toda a costa brasileira. Do Rio de Janeiro até São Luiz do Maranhão, chegando mesmo a ir um pouco além em visita a Alcântara. Fomos pingando de cidade em cidade, sempre acampando e dormindo de forma improvisada em qualquer lugar. Em uma faixa de terra, entre o mar e um rio, em Conceição da Barra (vila de pescadores no Espírito Santo), na praça principal na entrada de uma igreja em Caravelas (Bahia), em um quarto com janelas debruçadas sobre a Baía de Todos os Santos, na Casa do Estudante em Salvador, à beira de uma cachoeira em São Cristovão, Sergipe, na Praia do Francês, em Alagoas.
Fazíamos a própria comida de maneira improvisada, ou pagávamos por uma refeição em qualquer birosca e, em Canoa Quebrada, Ceará, experimentei, pela primeira e única vez, a mais deliciosa muqueca de arráia da minha vida, preparada pelas mulheres de pescadores que nos acolheram. Lá alugamos uma casa com redes, assim como já havíamos feito em Arraial d´Ajuda, em Porto Seguro. Quem comandou esta expedição nordestina foi o José Fortes. Era ele quem indicava os caminhos e atalhos, muitas vezes por vias vicinais de terra pessimamente conservadas, já que todos queriam que a viagem ficasse próximo à costa a maior parte do tempo.
Como todos sabem, o Zé Fortes é quem coordena a agenda, elabora e orienta as excursões do grupo Paralamas do Sucesso. Tenho para mim que o êxito da viagem se deveu em grande medida à capacidade organizacional do futuro empresário. Durante todo o trajeto, quem comandava a caravana indicando todas as rotas em época em que não existia GPS, era ele. Não me recordo de termos ficado perdidos em momento algum (à exceção dos desencontros entre os três carros que faziam o percurso: duas Brasílias e um Passat).
Eu sabia tocar rusticamente os três acordes de Asa Branca e um dos programas da caravana era parar para ouvir o Fernando Brandão, hoje professor na Universidade de Berklee, em Boston nos Estados Unidos, fazer belíssimos improvisos esbanjando aquele talento dos grandes virtuoses em cima da base simplória que repetia no meu saudoso violão Di Giorgio (que encerrou o seu périplo neste mundo depois de ser completamente destruído pelo Márcio França, que pulou a janela da Casa do Estudante da Bahia e o encontrou em repouso no chão). Lembro que em uma sessão em uma praça pública em um desses lugarejos remotos em que havia uma escola de música, as pessoas que assistiam aplaudiram o flautista com grande entusiasmo.
Fomos pela costa, mas voltamos pelo interior do Piauí, passando pela curiosa região de Picos, cujo clima ameno, por se tratar de região serrana, contrasta com o lugar mais quente do planeta Terra: a cidade de Teresina. O ponto alto da viagem já tinha ficado para trás, foi o carnaval de Olinda, comparável em sua espontaneidade ao de todo lugar pequeno, como o de Ouro Preto. Teve ainda as belas paisagens das praias de Fortaleza e de Natal e a escapada até a Feira de Caruaru para conhecer de perto o que tinha visto em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foram os seguintes os aventureiros além do José Fortes e de Fernando Brandão: Ricardo Marins e seu amigo Zé (não recordo o sobrenome), Pedro e Carlos Cavalcanti, Maurício Novelo (também conhecido como Terror), Chiquinho (outro que não me lembro o sobrenome), Marcio França e minha irmã Marcia Maria Pedrosa.
Foto do distrito de Yuzhong na província de Chongqing. Autor: Jonipoon
É a terra dos contrastes. Das megalópoles, do trem bala, do Crazy English, do HiPhone, do shopping hi-tech com bugiganga xingi-ling e das feiras de ambiência medieval, onde é possível comprar um animal vivo e pedir que o feirante faça o abate na hora. Seis vezes a população do Brasil, quatro a dos Estados Unidos. Gente pra burro. Imaginem oferecer a este mundão de pessoas, moradia, educação, serviço de saúde, segurança pública e os confortos da modernidade e da pós-modernidade.
Em um cenário infinitamente menor como o brasileiro, vemos a coleção de descaminhos em todas essas áreas essenciais a que a péssima e criminosa administração pública tem nos levado. Na nossa tiranocracia plutocrática que ainda vai ter de se esforçar muito para chegar a uma democracia, o que temos é um exercício de delinquência que tem comprometido todos os setores considerados fundamentais para o bem estar da população e para uma vida minimamente decente.
Oferecendo aos seus cidadãos tudo o que é regalia para poucos no Brasil (não de graça, mas a valores honestíssimos), a China segue vivendo o seu boom econômico. Um PIB que consegue se manter em boa e positiva taxa de crescimento mesmo com as turbulências internacionais. Vem puxando um grupo grande de economias do planeta a reboque, entre elas a brasileira. O país é comandado pelo Partido Comunista, mas o que se prega naquele que seria o pensamento único em seu território é um socialismo que reconhece a propriedade privada com restrições.
Para os que acham que o riquixá ainda é o meio de transporte mais comum, basta dar uma olhada em uma garagem de um dos gigantescos e modernos conjuntos habitacionais chineses para se contemplar um mar de Porsches, Audis e BMWs. Imóvel próprio, no entanto, só obedecendo a regulamentações específicas (embora até o aluguel já faça parte da vida chinesa há alguns anos; detalhe: com uma ausência de burocracia que deixará o inquilino brasileiro a se perguntar se vive na Rússia stalinista). De uma perspectiva geral, o que temos é um exemplar único de capitalismo de estado, que cada vez mais incorpora a iniciativa privada à sua realidade.
É verdade que temos limitações à liberdade de expressão em ambientes públicos, o que para quem vai a manifestações de rua em frente à Alerj no Rio de Janeiro e enfrenta a polícia do senhor Sérgio Cabral, com suas balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, não é nenhuma novidade. Não há também acesso livre a alguns dos nichos da Internet. São bloqueadas as páginas do Facebook (o que para muitos talvez fosse até motivo de alegria), do Google e de outras ferramentas que operam com desenvoltura e ganhos astronômicos as trilhas da era digital. Para contornar estes entraves é possível instalar uma rede em casa com IP fora do país e se comunicar com o planeta sem que o governo faça qualquer objeção.
Acompanhando a discussão de Martin Jacques, a questão talvez seja saber se os chineses querem estabelecer contato cultural com o mundo quando a troca interna já existe. Em lugar do Whatsapp, eles têm o WeChat, que possui uma infinidade de outras funções que não se encontra no aplicativo do Zuckerberg (paga contas, solicita serviços de entrega, debita quantias em qualquer compra). O aplicativo é da empresa Tencent, que já tem valor de mercado maior que o do Facebook. É da empresa também o Tencent Video, o Youtube chinês.
Em lugar de ser a China sucateada da era Mao, ela se transformou na China das start-ups de tecnologia de ponta e do e-commerce, a partir das reformas de Deng Xiaoping nos anos 1980 que mudaram a cara do país. Houve a substituição de empresas exclusivamente estatais por empreendimentos que operam como iniciativa privada e tivemos ainda uma migração crescente do campo para as áreas urbanas, em uma mudança que tirou parte da população da miséria. “Crônicas de uma Crise Anunciada” (FGV Editora, 2016) colige artigos que discutem o assunto comparativamente com a situação econômica brasileira. Assinados pelo amigo Pedro Cavalcanti e seu parceiro Renato Fragelli, os textos mostram como um dos pontos centrais no bem sucedido exemplo chinês se deve ao investimento pesado e a preocupação central com o aumento do grau de escolaridade da população.
Thomas Piketty não poderia ficar de fora do debate. Em um estudo recente, realizado com seus colegas Gabriel Zucman e Li Yang e intitulado “Capital, Accumulation, Private Property and Rising Inequality in China” (NBER Working Paper, 2017), ele analisa a economia chinesa depois de ter cuidado de Europa, Japão e Estados Unidos. Aplica ao caso chinês seu modelo de investigação, que considera fundamentalmente em que razão se dá em uma economia o acúmulo de riqueza e renda individual durante um período histórico específico. Identificou algo de surpreendente: a desigualdade na China avança de uma maneira que só tem paralelo com a realidade americana e que fica distante da conservadora França.
Eu, que nunca tive vergonha de ganhar dinheiro e que já me submeti a coisas pelo vil metal que até Deus duvida, fico admirado com o espírito aventureiro de brasileiros que estão apostando no mercado chinês para pagarem suas contas, sejam eles jogadores de futebol, empresários, professores ou estudantes. No polo de ensino à distância em que trabalho, apareceu certa vez uma moça muito jovem. Era modelo e tinha vivido na cidade de Hangzhou durante um tempo. Não era modelo de capa de revista, mas de pafleto de venda de roupa íntima feminina. Voltava ao Brasil para concluir sua escolaridade básica e dar sequência à sua carreira nos Estados Unidos.
Outro exemplo é da professora paulistana Verena. Formada em mandarim pela USP, ela foi dar aulas de português para chineses na Universidade de Hubei, em Hunan, onde conheceu a amiga Sisi Liao. Verena conta sua história à Sisi (dona do canal Pula Muralha), que fez o caminho inverso, dá aulas de mandarim em São Paulo e é casada com um brasileiro ainda que sua família viva na China.
O casal de estudantes do interior paulista Dieter e Deyse Bruns, seguem um roteiro semelhante: estão aprendendo mandarim em Guiyang e contam como está sendo esta aventura no vlogue “2 a Mais na China”. Sempre tive curiosidade em conhecer como é o dia a dia chinês de uma perspectiva prática e eles têm saciado a minha busca por informações acerca da vida na terra de Xi Jinping. Com eles podemos saber como funcionam os serviços básicos. Coisas prosaicas como atendimento médico, supermercado, shopping center e até mesmo como é fazer uma visita a uma delegacia de polícia (ao mudar de residência na China, é necessário comunicar a mudança à DP mais próxima de seu novo endereço).
No dia 9 de setembro de 1976, uma quinta-feira, estava pela manhã em sala de aula no Colégio Andrews, em seu prédio da Praia de Botafogo, o mesmo prédio em que Clarice Lispector havia estudado se preparando para a faculdade de direito, quando o diretor da escola interrompeu nossa aula para comunicar à classe a notícia da morte de Mao Tsé-Tung, fato do qual acabará de tomar conhecimento. Segundo suas palavras, Mao fora uma das personalidades mais importantes do século. Não sei se àquela altura já se sabia algo sobre a iniciativa do grande timoneiro de uma industrialização de fundo de quintal que levou 40 milhões de pessoas à fome e à morte.
Quatro décadas depois, vemos a China com papel importante e central na economia do mundo. Alguns apostam em um governo que tem inflado a realidade, criado cidades fantasmas e uma bolha econômica que em breve levará a economia do mundo ladeira abaixo. Outros acreditam na capacidade de uma economia dinâmica e de uma administração rigorosa em lidar com situações extremas. O futuro dirá quem tem razão.
Aos leitores que gostam de textos provocadores, trago a boa notícia. Depois de um hiato de dois anos, Hermano Vianna está de volta com seus escritos em sua página no wordpress. Vejamos até quando ele terá paciência para seguir postando. Vim a conhecer melhor o wordpress e decidi por criar meu blogue depois de vê-lo replicando suas colunas de O Globo, durante os 5 anos em que foi colaborador do jornal carioca, por aqui. Queria também escapar ao espírito sovina do Facebook, que fatura alto sem pagar um centavo ao menos às almas ingênuas que passam seus dias produzindo conteúdo gratuito para a rede social. Nem o youtube do Google pratica esta forma de rapinagem. Longe do condomínio fechado do FB, estamos também a salvo do humor daqueles que passam seus dias destilando rancor e ódio.
Hermano anda preocupado com a tal da inteligência artificial. Eu confesso que pouco sei sobre o assunto e muito menos sobre suas implicações em nosso futuro. Por enquanto sigo surpreso, e, para ser mais preciso, abismado, com o seu antípoda: uma certa estupidez que se manifesta de forma naturalíssima. Como diria Nelson Rodrigues, além do universo, temos aí mais um item que se encontra em franca expansão espaço afora.
Previamente à minha conversão em um diligente, perseverante, zeloso, devoto headbanger do Detonator, quem me iniciou no mundo do metal foi o meu amigo Paulinho Guimarães (aqueles que acompanham as postagens, já o conhecem). Naquele tempo, estas designações nem existiam ainda. Não se falava nem sequer em hard rock, outro rótulo que surgiria para designar mais uma vertente derivada do rhythm and blues. Descrever o Paulinho de então é bem simples. Basta fazer a busca por Rory Gallagher no banco de imagens do Google e você terá o retrato exato do garotão na pós adolescência. Até a jaqueta Lee era a mesma. Quem o conhecesse naquela época, jamais poderia imaginar que ele fosse se engajar na luta por causas indígenas e passar a vida toda empenhado em defendê-los em tribunais Brasil afora.
Antes de sua filiação a uma destas causas fudamentais e que realmente importam, Paulinho se escondia em um quarto de fundos no apartamento de seus pais, Estelinha e Francisco, na rua Joaquim Nabuco. A janela vivia fechada e ele só acordava tarde, por volta das 13 horas. Não se tratava de depressão, era coisa da natureza dele mesmo, pelo menos naquele momento. Como também sou capaz de dormir mais de 8 horas por noite na maior alegria, compreendo perfeitamente o júbilo daqueles que cultivam por opção própria este hábito.
Pois muito bem, na caverna do Pelinho (era o apelido do rapaz), equipada com uma vitrola da era pré-chegada dos pick-ups Technics, foram fruídas as primeiras horas de guitarras distorcidas, baixarias cheias de peso, viradas incessantes e vozes em falsete. Se ouvia de tudo, com preferência pelo rock de estirpe inglesa (Traffic, Blind Faith, The Faces, Cream). Bem como as três bandas que semearam o heavy metal: Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. São os três grupos mais fundamentais para o aparecimento e fixação do gênero, no momento pós-Yardbirds/Jeff Beck Group.
Paulinho conseguia arriscar alguma coisa no violão, mas o virtuose da família era o seu primo Antônio José (capaz de replicar as escalas estilosas de um Eric Clapton, por exemplo), que morava em Petrópolis. Portanto, não me surpreende nada que Bruno Sutter e o Massacration tenham surgido justamente na cidade imperial. O rock`n`roll sempre foi uma característica da cultura serrana. Depois de acompanhar o grupo de poesia de seu pai no Petropolitano Footbal Club, Sutter, já crescido, passou do disco “A Arca de Noé”, de Toquinho e Vinícius, para o som estridente do Iron Maiden, com um empurrãozinho de sua irmã. Começou a frequentar então a loja de discos Dead Zone, lugar em que se reuniam os metaleiros da cidade e onde ele conheceria o pessoal do Hermes e Renato. Com eles forjou o som galhofeiro do Massacration, dando início a sua trilha na cena heavy metal.
Tudo parece gozação inconsequente. E é. Só que Sutter tem uma voz excepcional que consegue alcançar modulações raras e recorre a este seu dom para suas investidas hilárias. No palco ele encarna o mitológico castrato brasileiro Detonator, o filho do Deus Metal, obrigado por seu pai na mais tenra idade a se auto mutilar para poder dar seus gritinhos lancinantes.
Além do Massacration, o Detonator aparece ao lado das Musas do Metal em shows que infelizmente ainda não tive a oportunidade de ver. Elas foram selecionadas em audições no programa Rocka Rolla, que Sutter comandava na MTV. Era de uma criatividade a toda prova e é uma pena que tenha chegado ao fim junto com a deblaque do projeto original da Music Television brasileira. Com o fim do espírito da MTV em sua primeira encarnação, em que cabiam apostas que parecem não ter lugar em nenhuma de nossas outras emissoras convencionais, o humor de Sutter e de seu Detonator não encontraram mais espaço televisivo onde se expressar.
Como parte de sua fanfarronice metaleira, Bruno Sutter, na pele ainda do Detonator, editou “A Bíblia do Heavy Metal – o Antigo Testamento” (Edições Ideal, 2013). O livro sagrado do Metal conta, em seu Antigo Testamento, como o Deus Metal criou tudo a partir da manifestação inicial de seu espírito no fenômeno explosivo do Big Bang. Corre, com farta ilustração, toda a história da humanidade até a chegada do Messias, o Detonator, cuja trajetória marcará o Novo Testamento quando todos passam a entender que só o Heavy Metal pode nos salvar.
De volta com o Massacration em música recém-editada, “Metal Milf”, acompanhada de excursão, Sutter segue também com o programa “Bem que se Kiss”, na rádio paulistana KissFM com transmissão ao vivo toda sexta-feira ao meio-dia via Facebook e youtube (em uma das últimas edições, ele conversou sobre a luta para preservar a voz em um estilo musical que exige vocalizações extremas: https://goo.gl/SXeqAJ). Na sua loja on-line há merchandising variado (munhequeira, bonés, DVDs e CDs), do seu projeto solo, do Detonator e de sua mulher, a modelo Nyvi Estephan. Música e humor de qualidade que merecem ser prestigiados.
Nas fases em que flertou abertamente com o cinema comercial, Jean-Luc Godard nunca deixou de provocar o imaginário do público que frequentava as sessões de seus filmes com uma constelação de musas. Nos anos 60, a lista incluiu Jean Seberg e Briggite Bardot, que estiveram à frente de dois de seus clássicos do período: “O Acossado” (“À Bout de Souflle”, 1959) e “O Desprezo” (“Le Mépris”, 1963). A musa mais constante na época, no entanto, foi aquela que se tornaria sua primeira mulher: Anna Karina.
Aos 17 anos, a dinamarquesa Hanna Karin Barkle Bayer chegou a Paris sozinha, de carona, com pouco dinheiro e se hospedou em um hotel barato na Bastilha. Enfrentou dificuldades porque a vida não é fácil pra ninguém, mas, no Quartier Latin, foi abordada ao acaso no café Les Deux Magots, ponto de encontro do que foi chamado um dia de intelectualidade, e requisitada para fazer um trabalho como modelo. Na ocasião, recomendaram ainda que ela adotasse o nome artístico que a consagraria. Conseguiu, em seguida, estrelar propagandas de dois sabonetes (Mon Savon Bouquet e Palmolive) na inevitável e óbvia cena do banho de banheira. Godard viu uma das propagandas e sugeriu que ela fizesse algo semelhante em um trecho curto de “O Acossado”, só que completamente nua. Karina não toupou, o que foi uma pena. Caso contrário teríamos mais uma passagem antológica e certamente engraçada no filme. Quando não estava ainda obcecado com a militância, Godard era sempre hilário.
Meses depois, Anna Karina recebeu um telegrama do aquela altura já muito falado diretor de “O Acossado” com um convite para que fosse ao seu escritório conversar sobre sua participação em uma outra produção, desta vez como atriz principal de um filme político. Como era menor, Karina teve que trazer a mãe de Compenhague para assinar o contrato. Fizeram “O Pequeno Soldado” (“Le Petit Soldat”, 1960), começaram a namorar durante as filmagens, se casaram e ainda rodaram outros seis longas, entre eles, mais investidas certeiras do enfant terrible: “Uma Mulher é uma Mulher” (“Une Femme est une Femme”, 1961), “Viver a Vida” (“Vivre sa Vie”, 1962), “Alphaville” (Alphavile, une Étrange Aventure de Lemmy Caution”, 1965) e “O Demônio das Onze-Horas” (“Pierrot le Fou”, 1965).
Para um godardiano dedicado que frequentava as sessões de seus filmes em 16mm no subsolo da Aliança Francesa da rua Duvivier, bem como as do auditório da Associação Brasileira de Imprensa – que acompanhava tudo de longe, portanto, e mais de dez anos depois da sua primeira fase cinematográfica-, as coisas pareciam tranquilas entre os dois. Isso até sabermos de desentendimentos, da perda de um filho durante a gestação e da internação de Karina em uma clínica por causa de uma tentativa de suicídio.
Após as gravações de “Made in USA” (1966), a atriz principal mais constante em filmes do cineasta franco-suíço andava participando de produções de diretores como Roger Vadim e Jacques Rivettes e sendo cortejada por Serge Gainsbourg, que preparou um disco com sua participação e dedicado a ela (“Anna”; virou uma comédia musical para TV). Jean-Luc e Karina vinham se separando desde o final de 1964 e estava chegando ao fim a relação entre eles.
Fui atrás desta história toda por causa de “O Formidável” (“Le Redoutable”, 2017), que se ocupa da musa escolhida por Godard como estrela de seus filmes em seguida ao rompimento com Karina: Anne Wiazemsky. Com Wiazemsky, o cineasta também se casaria, também teria uma relação conturbada e realizaria outras três de suas produções: “A Chinesa” (“La Chinoise”, 1967) “Week-End à Francesa” (“Week-End”, 1967) e “One Plus One” (“Sympathy for the Devil”, 1968; com sketchs que se intercalam com a gravação da conhecida música dos Rolling Stones).
Para se casar com Wiazemsky, com 19 anos na época, Godard teve mais uma vez que buscar o consentimento de terceiros. Desta feita em uma situação delicada, pois tratava-se de ninguém menos que o escritor e nobel de literatura François Mauriac, o “maior representante do romance psicológico na tradição francesa”, segundo avaliação de Otto Maria Carpeaux que o admirava especialmente. O problema adicional era que além de tutor de Anne Wiazemsky e de seu irmão Pierre, Mauriac apoiava o governo de Charles de Gaulle, para dissabor de Comunistas e Socialistas, justo quando Godard iniciava sua militância política.
“O Formidável” é adaptação de escritos autobiográficos de Wiazemsky (os livros “Une Année Studieuse” e “Un an Après”) e se atém à perspectiva da atriz. É sua novidade, seu trunfo. Enfatiza novas passagens conturbadas na vida de Jean-Luc. Não se trata apenas de filme para os cultuadores do cineasta. Como comentaram na Folha, Hazanavicius trabalha com humor e com toques à la Woody Allen sua narrativa. Ainda que reverencie o estilo godardiano, faz um cinema em moldes tradicionais o que vai agradar até mesmo à platéia de não convertidos aos manerismos de um dos expoentes maiores da Nouvelle Vague.
O veterano crítico Inácio de Araujo acha que Hazanavicius, do premiado “O Artista”, tenta desqualificar o maio de 1968, diminuir Godard e não apresenta a posição firme do cineasta expressa por sua independência em relação ao cinema comercial que viria com sua participação no coletivo Dziga Vertov. Tudo isso é verdade, mas Hazanavicius queria apenas mostrar uma outra e desconhecida visão sobre o cineasta. E conseguiu.
Ao que tudo indica, Jean-Luc Godard não leu o roteiro, não viu o filme e não gostou. Reza a blague que ao receber o script chegou a perguntar: “Mas pra que script?”. Anne Wiazemsky estranhou de início o interesse de Hazanaicius, mas apoiou o projeto. Morreu no começo de outubro passado, vítima de câncer aos 70 anos, em seguida à estréia de “O Formidável” na França. Os jornais brasileiros desconsideraram por completo sua partida. Não merecia tal esquecimento.
Era uma fase da minha vida em que eu andava sempre no plural. Sempre na companhia de uma verdadeira gangue. Tratava-se de um domingo e voltávamos de uma temporada na Fazenda do Rosário perto da cidade de Silva Jardim, no Estado do Rio de Janeiro no meio do caminho para Campos. Sem um VLT pra nos servir depois do desembarque na estação Novo Rio, a mobilidade urbana ficava por conta do tradicional Mercedão da linha 127 que fazia o trajeto Rodoviária-Copacabana. Naquela tarde, ao chegarmos ao final da avenida Rio Branco demos sinal para que saltássemos na Cinelândia. Partimos então para o Teatro Dulcina, onde aconteceria uma das últimas apresentações da peça “Trate-me Leão”. Estávamos todos motivadíssimos embora uma incógnita nos rondasse: será que conseguiríamos entrar? A razão é que todos ali não tinham ainda completado 18 anos, idade atribuída pelo Conselho Superior de Censura à peça do Asdrúbal Trouxe o Trombone. Na porta do teatro, tivemos que argumentar com o rapaz da roleta, que queria ver os documentos que comprovassem nossa maioridade. Conversa vai, conversa vem, foram chamar o diretor da peça, a fim de resolver o impasse. Hamilton Vaz veio, mas não teve o velho jeitinho e a peça ficou para ser vista um tempo depois e por meio de esquetes apenas, interpretados por Regina Casé e alguns dos outros Asdrúbals no Morro da Urca, em evento destinado a levantar dinheiro para ajudar o poeta Chacal que havia sofrido um acidente em São Paulo e se encontrava hospitalizado. Desde então sigo fã de carteirinha das peças autorais montadas por Hamilton Vaz, até mesmo daquelas em que interpreta solitário seus textos.
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.