Quando não acham algum item de suas vestimentas pela manhã, os pobres mortais se limitam a ficar fulos da vida. Se isso acontece em um lugar em que os primeiros raios de sol no inverno só dão as caras às 10h da manhã e às 4h da tarde já estão indo embora, o sentimento pode se elevar a milésima potência. Especialmente, se a última lâmpada do apartamento queimou e não há outra para substitutuí-la. No entanto, quando isso acontecia com Mark E. Smith, enquanto ele se preparava para ir ao seu escritório de trabalho – que ficava no pub mais próximo do mini-flat que dividia com Brix na Rectory Lane em Manchester – ele aproveitava a oportunidade para fazer, em parceria com sua mulher, uma música. As interferências sonoras no meio de “No Bulbs” são pra garantir que o Fall não corria o risco de ter um sucesso comercial. Está em “The Wonderful and Frightening World of…”, de 1984.
Diante da insistência de Brixie para que conhecesse um de seus lugares prediletos em Los Angeles, Mark Smith acabou cedendo e aceitando visitar o famoso parque de diversões da Califórnia. Na hora de embarcar na montanha russa de Matterhorn (reprodução do Monte Cervino dos Alpes italianos), um dos briquedos favoritos de sua mulher, com quem havia casado há pouco, Mark ficou em estado de choque. Entrou assustado, maldizendo a atração e saiu transfigurado do passeio. Um pouco depois, os dois sentiram uma movimentação anormal da equipe que cuida da segurança do parque. Tentaram saber do que se tratava, mas o desorientado Mickey, que encontraram no caminho, não ajudou em nada. No final da tarde na casa dos avós paternos de Brix, o noticiário televisivo esclareceria tudo: uma mulher tinha sido lançada longe pelo Matterhorn durante o passeio, entrando para o quadro de fatalidades do parque de diversões. Mark acabaria exorcizando todo o seu horror à atração californiana em um poema escrito para uma música belíssima de Brix em que narra o incidente. Não fosse a crueza do relato de seus versos, “Disney´s Dream Debased” talvez tivesse se transformado em uma das músicas do Fall a melhor conseguir se colocar na parada musical inglesa.
Era uma pessoa gregária. Tão gregária que a decisão de ter 5 filhos nunca lhe pareceu um tanto quanto extravagante. O grande número de pessoas que sempre quis se cercar se estendia aos muitos amigos, namorados e namoradas de suas filhas e filhos, que se reuniam e mesmo dormiam, sem cerimônia alguma, em seu apartamento que, ainda que tivesse uma boa metragem, possuía apenas 3 quartos. Muito certamente isto se dava por serem bem-recebidos e sem quaisquer restrições ou formalidades. Além do almoço, em que os sobrinhos compareciam com frequência, o religioso lanche do final da tarde poderia reunir umas 20 pessoas que se revezavam na mesa da copa como se tudo fosse corriqueiro.
O mesmo se repetia com seus amigos particulares. Sempre teve muitos colegas de trabalho que convidava para irem à já superlotada casa de sua família em Petrópolis (onde nós passávamos o verão com nossos tios, primos e uma infinidade de agregados) e à sua fazenda em Silva Jardim, esta de sua propriedade com seu pai e outros dois de seus irmãos. Com seus companheiros de quarto, que conheceu durante o curso de engenharia agronômica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no começo da década de 1950, manteve contato em encontros que faziam com que se vissem pelo menos uma vez ao ano.
Assim que se formou, foi trabalhar na Escola Agrícola Caetano Costa em Lajes, Santa Catarina. Quando embarcou em direção ao sul, já havia se casado em 1956, e logo teria sua primeira filha, Márcia, nascida um ano depois no Rio. Enfrentou com minha mãe um frio dos diabos em Lajes, temperaturas próximas de zero grau e até mesmo neve. Tinham de passar a roupa de cama a ferro antes de dormir. Por lá nasceriam mais dois de seus filhos, minha irmã Margarida e eu. De Lajes, seguiria para Belo Horizonte, onde nasceu Isabela, sua terceira e última filha, e, de volta ao Rio de Janeiro, ainda conseguiria tempo para outro filho homem, André.
Da experiência na escola agrícola passou à gerência do Banco da Lavoura em Minas Gerais e depois trabalharia ainda no Bemge, em sua sede no Rio, antes de entrar para a Vale do Rio Doce. Como último passo de sua carreira, passaria a atuar em cargos administrativos do governo federal em Brasília. Paralelo a isso, veio a sua fase do que chamamos hoje de empreendedorismo. É um momento que eu conheço pouco, pois ele nunca conversou em detalhe sobre o assunto em casa, mas que acho fascinante.
Uma de suas apostas foi como acionista no lançamento do primeiro iogurte brasileiro, o YOG. Não me pergunte como e onde nasceu a iniciativa, porque não faço a menor ideia. É verdade que a vida inteira meu pai criou gado leiteiro e o leite tirado na fazenda em Silva Jardim era recolhido todo o dia bem cedo por um caminhão que o levava até a unidade de pasteurização da CCPL em Alcântara. A empresa que lançou o YOG, no entanto, não tinha nenhuma relação com isso. Talvez só o interesse por um produto com o qual sempre esteve envolvido.
O iogurte era feito com poupa de fruta trazida do exterior, processada e acondicionada em uma muito simpática embalagem, ecologicamente correta, fabricada com celulose. A marca YOG para fins propagandísticos era grafada com as cores do arco-íris e os vários sabores embalados com a coloração correspondente a cada fruta. Foi engraçado quando ele chegou certa vez na fazenda em uma de suas duas Brasílias (tinha uma branca e outra verde) com engradados empilhados com iogurtes de morango, ameixa, pêssego, natural.
Para divulgar o produto, foram confeccionados macacões que todos nós usaríamos. Havia a febre por causa dos macacões jeans das marcas Lee e Levi´s, mas os da YOG eram brancos com o símbolo do produto estampado no bolso da frente. Tínhamos ainda caixas de isopor para acondicionar unidades, também com o logo do produto, assim como outros itens de divulgação.
A classe média recorria naquele tempo a figura do decorador. O lá de casa era o seu Ivo, pessoa que dizia à minha mãe que móveis comprar e como decorar o apartamento nos mínimos detalhes. Lembro que quando uma campanha de TV foi aventada, o seu Ivo sugeriu que exibissem o logo do YOG (não sei se apenas isso ou se com o manjado “vem aí, aguarde”) durante o intervalo da programação, para despertar o interesse dos telespectadores.
A segunda iniciativa veio com a empresa Eletro, que ficava em Botafogo, e que importava artigos eletrônicos a partir de Manaus para serem montados aqui no Rio. Era deles um toca-fitas de carro que funcionava que era uma beleza e que equipou vários dos automóveis que passaram por nossa garagem: além das Brasílias, um Maverick de capota preta, Opalas (azul e vermelhão de capota preta) e um Dodge Dart.
Era também uma pessoa generosa. Desapegado, como diríamos hoje. Dinheiro existe é pra se gastar, era o seu lema. Em Petrópolis, quando o sorveteiro subia a rua Professor Ströller no Quarteirão Brasileiro soprando sua corneta, já vinha sabendo da parada obrigatória no portão de número 272. Descansava a caixa térmica carregada de sorvetes e aguardava. Todos que estivessem em casa eram então convocados para escolherem o sorvete que desejassem. No final ele vinha com a carteira e pagava a conta.
Quando entrou para a Vale do Rio Doce, achou que tinha a obrigação de empregar todos os seus conhecidos na empresa. Não sossegou enquanto não fez isso com muitos de seus amigos (especialmente, por mera coincidência, com os maridos de suas sobrinhas). Alguns trabalharam lá a vida inteira e se aposentaram na Vale, no Brasil e até mesmo no exterior.
Adorava viajar, e o cargo de diretor da Vale do Rio Doce o levou ao mundo inteiro. Não havia país que não conhecesse. Os presentes chegavam de tudo quanto é lugar. Um despertador Casio japonês, que me acordava para ir para o Colégio Andrews da Praia de Botafogo toda manhã, uma camiseta vermelha com o nome da cidade de Honolulu grafada em branco, que adorava, e um tênis Adidas alemão, preto com listras vermelhas, entre outras lembranças.
A partir de 1979, foi convidado para ser assessor de figuras importantes de Brasília pois já tinha tido uma passagem no Rio pelo Ministério da Fazenda. Em seu apartamento funcional na SQS 309 continuou a receber amigos, irmãos, sobrinhos, com a mesma boa vontade e alegria de sempre. Adquiriu também um sítio entre Sobradinho e Taguatinga onde fabricava artesanalmente queijo frescal para ser vendido em Brasília. Ficou por lá e depois em Valparaíso de Goiás até próximo do fim da vida. Como era muito desorganizado e pouco precavido em relação a tudo, acabou destituído de todos os seus bens e sem conseguir uma aposentadoria mínima para seu sustento. Separado de minha mãe alguns anos depois de se mudar para Brasília, teve, em razão de sua situação precária, de voltar a morar conosco no Rio. Um ataque cardíaco o levou em 2006. Hoje faria 85 anos.
O assunto já ficou ultrapassado, especialmente depois que Élio Gaspari, Demétrio Magnoli, Gregório Duvivier e outros colunistas, bem como vários editoriais de jornais, mostraram o escárnio que representa o tal do auxílio-moradia como tem sido usado por nossos magistrados. Segue, portanto, menos por seu conteúdo-manifesto e mais por questões estilísticas bobas (os blogueiros também têm suas veleidades subliterárias) às quais talvez volte um dia.
Não dá mesmo pra confundir alhos com bugalhos, como bem salientou o colunista Merval Pereira. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente. Cada qual, por sua vez, é único na maneira muito particular como encara o que julga como seus direitos, obrigações, deveres, e como reflete isso em suas atitudes. Tem, por isso mesmo, o seu jeito distintivo de ser. Chega-se assim à conclusão de que um virtuoso, um probo, um íntegro ou mesmo um pilantra, um bandido, um impostor, não pode e não deve ser confundido com outro virtuoso, probo, íntegro ou pilantra, bandido, impostor.
Vejamos por exemplo os casos dos senhores Sérgio Fernando Moro e Luiz Inácio Lula da Silva. Cada um deles tem mostrado que é sagaz a seu modo e maneira. Comungam apenas no desejo de recorrer, um, à bolsa da Viúva, e o outro, ao bolso dos associados desta, sem ceremônia, sem constrangimento, sem escrúpulos. Na hora de fazê-lo, no entanto, cada qual age distintamente, aplicando artimanhas singularíssimas. Um é partidário do tapinha nas costas e das conversas de quermesse. Já o outro, não, mais comedido e reservado, se restringe a acompanhar a maioria de seus confrades de toga para fazer valer o que é moralmente condenável.
Assim, no país dos sem-teto, do bolsa família que mal dá pra pagar um almoço, da aposentadoria com valor máximo de 5 mil reais, o juiz Sérgio Moro recebe, só de auxílio-moradia, a irrisória quantia de 4,300 reais, o que lhe é garantido por lei (o direito brasileiro, como se vê, é uma mãe para aqueles que estão ao seu lado). Se empenha essa quantia para outros fins em lugar daqueles aos quais ela é destinada, isto pouco importa. Não cabe, por sinal, ao magistrado, homem da lei, dos direitos, dos deveres, prestar esclarecimentos sobre isso a ninguém, à exceção daquela à qual alguns insistem em chamar de justiça.
Segue, em função disso, com sua missão que é a de fazer com que malfeitores justifiquem seus atos perante a sua pessoa, sem rodeios, sem conversa fiada. Muito sensato, muito lógico. O que nos faz pensar se não caberia ao Lula perguntar se por acaso o senhor Moro teria guardado em casa todos os comprovantes de aluguel de que dispõe.
Quem sempre viveu com bem pouco, deve, imagino, achar que um salário de 30 mil reais, no Brasil de hoje, seja algo por si só estrambótico, esdrúxulo, excêntrico. Com penduricalhos que chegam ao patamar dos 100 mil ou mais em um mês, tudo passa a ser matéria de sonhos tenebrosos de ganância a nos lembrar o Ali Babá e seus 40 ladrões em passagem das “Mil e uma Noites de Pilantragem”. Ao que tudo indica, estes, no entanto, são valores que não assustam uma casta privilegiada da sociedade brasileira.
O país que já contou com exemplos de magistrados como um Raymundo Faoro (por ironia, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores), autor de um livro belíssimo sobre Machado de Assis entre outras obras fundamentais sobre o Brasil, vive hoje de venerar pessoas extremamente rasas em suas ambições e avaliações sobre o que lhes cabe. Certa vez vi no jornal um texto, muito bem escrito por sinal, do senhor Sérgio Moro. Texto em que ele citava Rui Barbosa. Na minha inocência, fiquei a imaginar que viria algum comentário sobre a tão refinada, ainda que empolada, estilística barbosina. Mas nada disso, ele recorria ao Águia de Haia como mera formalidade para justificar que juízes não podem sofrer sanções por interpretar a lei segundo suas consciências. Foi tudo o que ele conseguiu extrair da retórica do jurista baiano. Espero que o mesmo valha para os julgamentos dos cidadãos brasileiros em sua interpretação sobre as atitudes de juízes, magistrados e demais integrantes da judicatura.
Ao que tudo indica, a razão é que seu interesse acadêmico é mais centrado em saber como se faz para roubar sem ser pego. Por isso, ele esteve na Escola de Direito de Harvard para uma especialização durante um curtíssimo espaço de tempo. Foi conhecer em detalhe como vivem os bandidos e como fazem para esconder fortunas que resultem de falcatruas. Acho que é uma obsessão sua. Tudo, bem entendido, pago com dinheiro do contribuinte. Pois se existe uma classe de privilegiados para darem continuidade aos seus estudos com farta ajuda e paparico do Estado (licença com vencimentos, ajuda-livro, cursos pagos pelo erário), esta classe é a dos magistrados.
Na República dos Bruzundangas, o juiz de Curitiba segue posando com pompa e circunstância como arauto-mor da moralidade. Mas isso é compreensível, já que, como todos sabemos, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente.
Era um compositor que tinha apenas a própria voz como companheira, ignorando todos os outros instrumentos, no que lembra seu conterrâneo Stephen Patrick Morrissey. Certamente por isso, os dois cantores-compositores de Manchester conseguiram, ao longo de suas respectivas carreiras, escrever músicas com qualquer instrumentista que cruzasse seus caminhos. Mas Mark Edward Smith foi recordista no número de parceiros diferentes com quem trabalhou. O resultado era sempre caótico e invariavelmente muito bom. Isso até ele ser derrubado pelo uso de bebida e drogas bem além do aconselhável (“The road of excess leads to the palace of excess”, chegou a cantar em referência a Blake e Morrison).
Ele só precisava de uma frase aleatória (“Eat Yourself Fitter”, “Australians in Europe”, “Lucifer Over Lancashire”, “Welcome to the US 80´s/90´s”, “Oswald Defense Lawyer”, “Hit the North”, “I Hear Your Telephone Thing Listening In”, “Rocking Records/Rocking Records/Rock the Record/ Rocking Records/The Guy´s Rock Record”, “The Birminghan School of Business School”, “The Book of Lies”) e uma banda criando uma atmosfera sonora qualquer ao fundo, pra martelar, modulando a voz ao seu gosto, seus mantras que se sucediam uns aos outros, sem cessar.
Falam muito sobre a forma ditatorial com que comandava o grupo. A assinatura das composições, no entanto, era democraticamente feita como pouco se vê no mundinho do rock`n´roll. Mark E. Smith sempre aceitou com desprendimento a co-autoria de músicas que traziam de forma inconfundível sua marca. Brix Smith, por exemplo, que quando conheceu a banda se iniciava de forma rudimentar nas artes musicais, não custou a dividir a autoria das composições, assim como faziam todos os outros instrumentistas. É certo que o casamento com Mark Smith a consagraria como parceira mais assídua. Musicalmente falando, Brix, entretanto, não era Yoko Ono, e a presença de uma americana arejada livrou o grupo de ser uma reedição mais sombria, se é que isso é possível, do Joy Division.
Mark Smith no Canecão, em julho de 1989, em clique de um devoto da época
Apaixonada pela música britânica a ponto de mudar o nome para Brix por causa de “Guns of Brixton”, do Clash, Laura Elisse Salenger conheceu Mark E. Smith após um show do Fall em sua cidade, Chicago, no começo dos anos 80. Casaram e “conviveram” por uma década. Ele saindo para o Pub às 10 da manhã e ela ficando em casa cuidando dos gatos. Não apenas isso, obviamente, porque gravaram juntos 11 dos melhores discos do Fall, correram o mundo com shows e fizeram um genial espetáculo-performance com a companhia do dançarino Michael Clark.
Colega de turma de Donna Tartt, Bret Easton Ellis e Jonathan Lethem no curso universitário de escrita criativa, Brix resolveu, ainda que de maneira um tanto temporã, colocar em prática o que aprendeu em sua curta passagem na juventude pelo Bennington College. Escreveu o livro memorialista “The Rise, the Fall and the Rise” (Faber & Faber, 2016). Nele fala não apenas em sua relação com seu primeiro marido e o envolvimento dos dois com o mundo da música, mas também de seus outros casamentos (foi casada também com o violinista clássico Nigel Kennedy e vive hoje com o empresário de moda Philip Start, com quem tem uma loja em Londres) e de sua formação entre Los Angeles e Chicago.
É certo que foi Brix que caiu fora de seu casamento com o líder do Fall. Isso aconteceu porém depois de ela ter notícia de que ele andava atrás de meia-dúzia de mulheres, inclusive de uma de suas amigas e da namorada lésbica desta. Tudo ao mesmo tempo agora. Por isso, em julho de 1989, Mark Smith chegou ao Brasil desfalcado de sua guitarrista e backing vocals. Vinha fazer apenas um show no Canecão dentro de um destes projetos organizados para gastar dinheiro sem explicação já que o público da banda por aqui era bem próximo de zero.
Ao biólogo e dublê de jornalista Carlos Albuquerque coube a tarefa de cobrir a coletiva e de entrevistar Smith. Ainda que imerso na febre de sua reggae night, Calbuque andava siderado com o “Bend Sinister” (1986), que não escapara ao seu radar. Escalado para o trabalho, ele foi, porém, solidário com o fã que vos digita, àquela altura ouvindo sem parar “The Frenz Experiment” (1988) e “I am Kurious Oranj” (1988). Fez a gentileza de me indicar para as duas tarefas, se ocupando apenas com uma hilária resenha que escreveu sobre a apresentação. Fiquei tão devoto, que dois anos depois, em janeiro de 1991, estaria me mandando de Londres para Manchester, única e exclusivamente para ver o segundo e último show do Fall de minha vida. Grande festa poder repetir junto com Mark Smith, dentro do prédio gótico da prefeitura da cidade, o grito de guerra de “White Lightning”.
No Le Meridien (hoje, Hilton Copacabana) em companhia do gravador e do caderninho da repórter-fã Marcinha Pedrosa
Tinham acabado de sair os álbuns “Extricate” (1990) e “Shift-Work” (1991), já que a banda seguia lançando um disco atrás do outro. Teríamos depois deles alguns dos meus CDs favoritos do grupo: “Code Selfish” (1992), “The Infotainment Scan” (1993), “Middle Class Revolt” (1994) e “Cerebral Caustic” (1995; este último, de novo com Brix “Don´t Call me Darling” presente). Em meio à clave do frenesi virtuosístico recitativo, aparecem nesta fase pelo menos 3 músicas lentas belíssimas: “Edinburgh Man”, “Bill is Dead” e “Rose”. A partir dos anos 2000 parei de acompanhar, perdi o interesse. Só fui ter o entusiasmo despertado novamente, quando Damon Albarn convidou Smith para gravar a faixa “Glitter Freeze”, no álbum “Plastic Beach”, do Gorillaz. A subsequente apresentação ao vivo na edição de 2010 do festival de Glanstonbury, com Mick Jones e Paul Simonon no palco, foi um acontecimento.
Ao longo da carreira, Mark Smith gravou, segundo as minhas contas, 30 discos de estúdio (entre 1979 e 2018), em 41 anos de carreira, até nos deixar no dia 24 de janeiro. Na edição especial integralmente dedicada ao Fall no seu Ronca-Ronca, Maurício Valladares colocou Smith e a banda em relação a qual, segundo John Peel, todas as outras deveriam ser comparadas, ao lado de figuras tão díspares quanto Cartola e Bowie. Está em ótima companhia.
A agora senhora Brix Smith-Start se reuniu recentemente aos irmãos Paul e Steve Hanley no Brix and the Extricated. Paul foi baterista de primeira hora do Fall (ainda que tenha abandonado o grupo logo). Baixista classudo, Steve foi fiel parceiro de Mark E. Smith por 19 anos, assinando incontáveis músicas. Antes de Brix, já havia escrito também um relato biográfico sobre sua convivência com a banda de Manchester intitulado “The Big MidWeek – Life Inside the Fall” (Route Publishing, 2016). Mais uma leitura obrigatória para os apreciadores do lendário grupo e de seu líder.
Ps. Para saber em o que Mark E. Smith andava pensando quando escreveu cada uma de suas letras, existe o The Annotated Fall, página em que cultuadores do cantor, replicando o que comumente só acontece com escritores, conjecturam colaborativamente sobre o assunto.
Charles Darwin deve ter certamente classificado a espécie como uma praga em função de sua inacreditável velocidade de multiplicação e da razão em que ela se dá. Mas o motivo de eles estarem por tanto tempo por aí sendo paparicados, mimados, afagados com insistência, em lugar de caçados como ratazanas, é que, desde pelo menos o Antigo Egito, o mulherio, e mesmo muitos que fogem a esta classe, se derretem de amores por suas boas e contidas maneiras (quando não são importunados) e por suas feições graciosas. Um ano se passou e chegou a hora de procedermos a uma atualização sobre a vida dos gatolindos de Felinolândia.
Ainda que eles agradem e cativem a todos, especialmente quando pequeninos, foi necessário recorrer a algum artifício para conter a proliferação extratosférica que se insinuava. Fez-se imperioso então convocar a entrada em cena da pessoa do VeteriMário. Sempre conto essa história porque ela é para mim o exemplo maior daquilo a que nós nos referimos como vocação.
Parte da família de meu pai tem, digamos, uma certa inclinação campestre, agrária, rural. Foi por isso que, lá pelos idos de 1970, dois de meus tios e meu avô se juntaram a meu pai para comprar uma fazenda. Escolheram uma propriedade na cidade de Silva Jardim, no Estado do Rio de Janeiro, há duas horas e meia aqui do Rio. E assim, toda sexta-feira de noite, um Gordini partia da rua Conde de Bonfim na Tijuca em direção à Praça XV para cruzar a Baía de Guanabara em uma precária balsa que fazia a ligação com Niterói antes da inauguração da ponte que nos levaria com mais rapidez à terra por onde Darwin passeou quando esteve no Brasil. No microscópico carro, para os padrões de hoje, viajavam meus pais, seus 5 filhos e uma ou outra prima. Como? Não faço a menor ideia. Depois de atravessar a Baía ainda era necessário rodar por pista pavimentada até Rio Bonito e, a partir daí, em estrada de terra até a fazenda do Rosário.
Chegava-se lá por volta de 12h30, 1h da manhã. Isso quando o carro não enfrentava muita lama no meio do caminho em dias de chuva, derrapando de um dado para o outro na pista e, vez ou outra, atolando. Logo no começo, ainda não havia luz elétrica na fazenda e tudo era feito ao lúmen intermitente de lampiões de querosene. Só no dia seguinte teríamos luz gerada por um motor a diesel que ficava no estábulo, distante da sede. E ainda assim só até a meia-noite, quando ele era desligado. Mas isso pouco importava, porque um dos passatempos na fazenda era acordar às 4h30 da manhã para assistir no curral à ordenha do gado. Meu avô sempre levava uma garrafa térmica com café para misturá-lo com o leite fresco e quente recém-tirado do ubre das vacas. O café-da-manhã era tomado de pé no estábulo, entre um mugido e outro.
Gude-Gude com o Macaco ou o Rabamoça (façam suas apostas)
E é aqui que entra a pessoa de um de meus primos, o VeteriMário, como é tratado por todos. Pois muito bem. A sede ficava em um platô. Lá em baixo tinhamos o imponente estábulo, com as rezes do gado leiteiro circulando nas proximidades em um dos pastos cortado por um sinuoso córego aguardando para a função da madrugada do dia seguinte. Por vezes, havia uma ou outra vaca, não sei se profana ou não, que, por estar prestes a gerar uma nova cria, era deixada em um cercado do curral. Nestas ocasiões, um dentre todos os primos, em uma passagem digna de filme italiano, trocava sua confortável cama por um lugar no estábulo para, em uma eventualidade, ajudar o pobre animal a trazer ao mundo mais uma criatura.
Hoje o VeteriMário, cujo filho Felipe e sua nora Lilian acabam de lhe dar a sua primeira neta, Laura Isabela, cuida do sorriso de cavalos de corrida. O leigo talvez estranhe e diga em sua ignorância ignara que nunca ouvi falar em dentista de cavalo. Pois saibam que eles existem e viajam para tudo quanto é canto para deixar em perfeita ordem os dentes das cavalgaduras. Apenas desta maneira os céleres puro sangue podem exibir com graça seu esplendoroso relincho e se comportarem adequadamente durante suas desabaladas correrias nas disputas nos jockey clubs. Não sou Guimarães Rosa, mas garanto que cavalo sorri e mais do que isso (o que talvez seja motivo de surpresa para muitos): o distinto quadrúpede bebe com alegria até cerveja, caso lhe ofereçam (um dia conto essa outra história).
Mas voltemos aos nossos felinolinos do começo. Pois bem, nosso veterinário-por-vocação teve que esquecer um pouco o sorriso de cavalos de corrida e subir a serra para cometer o ato ignóbil, mas imperioso, de castrar todos os pobres gatitos. O surpreendente é que, apesar de tudo, a guerra continua com o Temer, o Manda-Chuva, que segue atormentando e tirando a paz de seus semelhantes. De qualquer jeito, a última prole veio em um sortimento vário em sua diversidade. Teve o Michelzinho e a Marcella, filhotes do Temer, a Raposinha, filha do Raposão (outro agregado que aparece de vez em quando), e Tonico Junior e Jojo (em homenagem à Joanna Maranhã, pois apesar de pequenina caiu no poço e sobreviveu), filhotes do Bello Antônio. Da primeira leva, ficaram com a família o Fofis e a Kiki, crias do Bello Antônio.
PiriCat escondida no estofo do sofá com medo do ataque de uma gambá ao seu filhote
No dia 8 de março sai o novo disco de David Byrne, “American Utopia”. Como teaser para o lançamento do trabalho que virá para suceder ao ótimo “Love this Giant”, gravado com Saint Vincent (ou Annie Clark) em 2012, o Renaissance man fez uma palestra na tarde desta segunda-feira na universidade The New School, em Nova York. Nela, Byrne apresentou um projeto multimedia que se espalhará por redes sociais para divulgar ações que conheceu e que o levam a ter algum entusiasmo com o mundo atual. Falou sobre iniciativas inovadoras que estão acontecendo ao redor do planeta nas áreas de transporte, saúde e cultura. Ao fim da apresentação de “Reasons to be Cheerful” (nome tirado de música conhecida de Ian Dury and the Blockheads), foi ouvida em primeira mão a faixa “Everybody`s Coming to my House”, do novo disco. Ao lançamento de “American Utopia”, se segue excursão que passará pelo festival Lollapalooza em São Paulo no dia 24 de março. Byrne é sempre motivo de regalo em tempos sombrios.
Encerrei o ano de 2017 me despendido de um tio querido. Dia 30, fomos levá-lo à sua última morada. No caminho até o mausoléu dos Sá Freire (lado paterno), no cemitério de São Francisco Xavier, enquanto nos dirigíamos às aléias onde se encontra o jazigo da família, um primo, Claudio Acir Freire Ferreira (que tem entre nós a alcunha chistosa de Matusalém), fez o comentário pertinente: “Era um tio gente boa”. Não poderia concordar de maneira mais definitiva e inapelável.
Se formou em engenharia elétrica e foi funcionário da Light até que a aposentadoria chegasse. Às vezes, era possível encontrá-lo no meio da tarde em uma das caminhonetes da empresa, parado em alguma rua da Tijuca fazendo reparo na rede elétrica da cidade. Em casa, tinha o seu cantinho em que tratava de consertar os rádios e aparelhos eletrônicos de quem precisasse.
Estava sempre ouvindo sua ópera. Era um apaixonado pela mais célebre música italiana. Não gostava de nenhum outro estilo musical e seu fascínio era sem pose. Ouvia no refúgio do lar e nunca teve o desejo de frequentar casas famosas que prestigiam o canto lírico, como o Theatro Municipal, por exemplo. O Scala então, nem pensar. Aliás, nunca demonstrou interesse em sair do país, nem pra passear, pra nada. Só o futebol o levava ao Maracanã e as corridas de cavalo ao Jockey Club, e assim mesmo sem o gosto extremado de alguns de seus muitos irmãos.
Como tinha, junto com tia Maria Solange, sua esposa de toda a vida, dois filhos de idade próxima à minha (teriam depois mais uma filha), eles me adotoram como um terceiro integrante do núcleo familiar. Eu era um filho postiço com as regalias e privilégios desta condição. Na hora da bronca, acabava poupado. Meu tio possuía uma paciência de Jó com a gente. Quando penso no que fazíamos, fico pasmo: lutávamos telecatch em cima da cama de casal (era o nosso ringue), jogávamos futebol na sala e, quando estávamos mais calmos, botão em cima da mesa de jantar. Eu teria feito com que todos vissem o “China seco” em dois tempos (“China seco” era o chinelo que meu avô usava, como parte de sua indumentária em par com seu permanente pijama, e com o qual ameaçava as crianças desordeiras).
Meus pais moravam no número 512 da rua Conde de Bonfim, e meu tio Hugo bem perto, na rua Conde de Itaguaí, no segundo bloco de um prédio de 5 andares. Ficava ao lado do número 22, onde foi um dia o endereço de meus avós paternos. Religiosos, meus avós observaram talvez com um zelo excessivo o preceito do crescei e multiplivai-vos: trouxeram ao mundo nada menos do que 10 rebentos, 8 filhos e duas filhas. Os meus tios que nasciam durante o ano, viam o mundo pela primeira vez nesta residência de dois andares de meu avô Waldemar e a minha avó Glorita (Maria da Glória) na Tijuca. Os que nasciam depois que o calor chegasse, vinham à luz na casa de Petrópolis, residência de veraneio do casal.
Como o tio Coco (era o seu apelido) nasceu em dezembro, acredito que como meu pai, seja natural de Petrópolis. Todos os tios e seus 28 descendentes, bem como netos e muitos agregados, aproveitaram esta casa enquanto deu. Funcionava como uma colônia de férias servindo café da manhã, almoço e jantar para um mundo de gente. Tinham pessoas responsáveis por cada função: controle da despensa, organização do menu, e até por preparar o cafezinho servido durante a jogatina noturna na casa principal.
Os tios desciam e subiam todos os dias para trabalhar. Quando chegava mais cedo e a tempo de pegar ainda o banho de piscina no final da tarde, tio Hugo comentava: “Kiko, depois de certa idade, pra se entrar na água, só molhando os pulsos e a nuca antes”, e finalizava o comentário com um glorioso mergulho na muito apreciada piscina. De noite, ficávamos à caça de um sinal de TV para ver o jogo lento e silencioso do Ademir da Guia, ou de outros craques da bola do período.
Nenhum obra de literária que li foi ambientada nesta residência em Petrópolis. Já vários dos romances de Machado de Assis, não sei bem por qual razão, se passam na minha imaginação na casa que existiu um dia na rua Conde Itaguaí na Tijuca (hoje temos um prédio em seu lugar). Sei que Bentinho viveu infância e adolescência na rua de Matacavalos (ou do Ricahuelo), na Lapa, mas para o leitor dos romances machadianos que vos digita, o caso com Capitu começou e aconteceu na morada de dois pavimentos de meus avós, com sua escada iluminada por um belíssimo vitral que vazava luz na passagem entre um piso e outro.
Tinha um tanque, um quintal e um terno galinheiro, que, tenho certeza, estão em alguma crônica de Nelson Rodrigues. Assim como minha tia-avó Guiomar (ou tia Guiô), que, solteira por toda sua existência, foi para mim uma personagem das peças míticas rodriguianas. Passava os dias a tricotar sentada em uma cadeira em uma casa conjuminada à de meus avós (esta casa está lá até hoje na esquina com a rua Carlos de Laet).
Ontem tivemos a missa de sétimo dia na Sagrados Corações na Conde de Bonfim. Trata-se da igreja que, pela proximidade, toda a família frequentava. Foi o lugar em que me preparei para a minha primeira comunhão. Posso jurar que tocou a “Ave Maria”, de Gounod, durante a cerimônia.
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.