A Confraria dos Ferozes

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A poesia, dentre todas as artes da escrita, talvez seja a mais desafiadora, desconcertante, instável. Da perspectiva de quem nunca escreveu verso algum, é preciso uma certa dose de ousadia para se aventurar por seus caminhos. Muito provavelmente por isso é que existe aquela que um amigo poeta sugeriu ser uma “confraria dos ferozes”, que adoram provocá-la e para quem ela é imprescindível. Não conseguem passar um dia sem visitá-la ou sem serem visitados por ela. Para alguns destes, como Ferreira Gullar, tudo era ao mesmo tempo tão natural que o poeta maranhense afirmava que chegou a passar um bom período de sua vida falando em decassílabos, tamanha a sua admiração e gosto por Petrarca.

Temos dois distintos integrantes desta congregação que estão entregando suas mais recentes coleções de poemas às livrarias: calí boreaz, que acaba de lançar “Outono Azul a Sul” (Editora Urutau, 2018: edição Brasileira e Europeia), e Leonardo Almeida Filho, que teve editado o seu “Babelical” (Editora Patuá, 2018).

Em tempos de textos gritados nas redes sociais em letras maiúsculas e caracteres gigantes, calí boreaz nos apresenta versos escritos todos com grafia minúscula e com uma pontuação singular, elementos que dão charme aos poemas. A autora incursiona por uma poesia de índole sinestésica, que incorpora elementos das artes musicais e visuais. O “Outono Azul a Sul”, uma referência à estação do ano em que nasceu a poetisa em Portugal, devidamente transposta para trópicos solares, traz imagens fotográficas de Antônio Martins-Ferreira e reúne ilustrações do artista plástico Edgar Duvivier, o autor das famosas estátuas de Clarice Lispector/Nelson Rodrigues/Proust e pai do escritor Gregório Duvivier. calí boreaz sugere trilhas, fundos sonoros, quando não o próprio silêncio, para a leitura de seus poemas, registra ainda imagens que ilustram suas poesias para suas postagens em canais multimídia.

“#dia25 — Falha Geográfica”, flutuação entre os sotaques português e brasileiro

Os novos poemas de Léo Almeida chegam incensado por gente como o acadêmico e também poeta, ensaísta e crítico Antonio Carlos Secchin, que elogiou a diversidade de sua poesia, que investe por vertentes variadas alternando poemas curtos e longos, vazados como sonetos ou em versos dísticos. Poderíamos acrescentar as apostas em belos haicais também incluídos na sua trova babelical. Armando Freitas Filho apontou o seu rigor não como aquele que “teme o erro e por isso é avaro, de superfície; o rigor que se lê e se sente […] é decididamente destemido e visceral”, escreveu na contracapa. Leonardo escreve versos homenageando seus poetas queridos em uma lista que inclui Poe, Ginsberg, Cabral, Bandeira, Raimundo Correia, Bilac e faz uma ode a um escritor imaginário ao “traduzir” os versos de um certo Gonçalves Barreto, um suposto bardo português do século XIX que teria vivido radicado na Irlanda.

O “Calango Careta”, hino carnavalesco de bloco brasiliense

Mestre em literatura pela UnB, Leonardo Almeida se aventura por outras áreas além da poesia. Já publicou um romance (“O Livro de Loraine”, 1998), contos (estão na “Antologia do Conto Brasiliense”, de 2004, e em “Todas as gerações”, de 2007, “Logomaquia: um manefasto”, de 2008, e “Nebulosa Fauna e Outras Histórias Perversas”, de 2014) e um trabalho ensaístico (“Graciliano Ramos e o Mundo Interior”, de 2008). É também músico dos mais talentosos, ainda que diletante – não sei por que nunca quis trabalhar profissionalmente com música. Tem um disco em parceria com o amigo Paulo de Sá (“Papo de Boteco”, 2018) e compôs um hino certeiro para um bloco carnavalesco de Brasília, o Calango Careta. 

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Leela e Fausto Fawcett Juntos

Taí  uma parceria que deu certo, a do letrista de “Kátia Flávia” e de “Rio 40 Graus” com o pessoal do grupo Leela, comandado por Bianca Jhordão, uma carioca que começou sua carreira em Petrópolis, e por Rodrigo Brandão, também do Rio de Janeiro. Os dois vivem há um bom tempo em São Paulo onde cuidam do Estúdio Music Bunker (rua Tupi, 608, Santa Cecília), lugar em que produzem suas composições, recebem convidados especiais e fazem transmissões ao vivo pelos canais da banda na Internet (youtube,  FB e Istagram).

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Leela e Edgar Scandurra

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Conto Novo para o Clube Literário da Casa Rio

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Doutor Faustus: Autoexílio nos Trópicos

Foi no mesmo bar em que se conheceram, que os dois vieram a se reencontrar. Doutor Faustus, o mefistófeles do submundo do Rio de Janeiro, e Demétrio, o Lacan da Lapa. Não se viam há um bom tempo e se lançaram aos braços um do outro com toda efusividade em uma daquelas confraternizações de velhos e saudosos amigos. A última vez que se encontraram foi ainda durante o período de vivência intensa de suas respectivas juventudes.

Era à época em que Faustus, ainda um estrangeiro na cidade, buscava sua aproximação com as figuras mais prosaicas da vida carioca. E entre estas, estava Demétrio, alguém com quem teve imediata e plena identificação. Apesar da pompa do título de doutor, Faustus era, como Demétrio, um charlatão barato, um vigarista de alta estirpe, um pilantra formado nas piores escolas da canalhice. Também tinha realizado seu curso por correspondência como o Lacan da Lapa, nosso psicanalista especializado no atendimento aos frequentadores do baixo meretrício. Só que em lugar de Viena, Paris ou Zurique, seus diplomas de sociologia traziam os selos das mais inexpressivas instituições de ensino de Berlim, Marburgo e Bonn.

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Doutor Faustus havia nascido, não fisicamente, mas espiritualmente, em algum lugar da Europa, embora ninguém soubesse precisar ao certo onde. Depois foi obviamente se criar com gosto e esmero extremo na Alemanha. De qualquer jeito, foi justamente no Brasil o país em que veio a se sentir mais em casa, mais à vontade. Bastou desembarcar por aqui para nunca mais querer voltar. Quando mencionavam o assunto, tinha ataques de repulsa, chiliques inomináveis, síncopes acompanhadas por aquilo que alguns achavam tratar-se de alucinações, como se fosse um Hamlet mergulhado em histeria a ver fantasmas. Muitos o julgavam um louco em seu apego a seu país de adoção, mas ele pouco se importava com isso.

Quando indagavam de que lugar havia partido na Alemanha, ele sacava de seu nano sound blaster de micro-portabilidade e detonava uma das músicas do seu repertório autoral guardada em um arquivo digital armazenado em uma nuvem interneteira. O nano-player então reverberava em alto e bom som os versos de um poema hiperneoconcretista que escrevera e que está em uma de suas conhecidas composições: “Bonn, Colônia, Dortmund, Renânia, Brandemburgo, Stuttgart, Leipzig, Munique, Kassel, Hamburgo, Dresden, Bavária, Vestfália…”.

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Sim, além de sociólogo mal-sucedido, doutor Faustus havia se aventurado pelo mundo da música. Escreveu, em parceria com músicos amigos, versos para composições de muito sucesso que davam conta da variedade de personagens que conheceu em suas andanças pelo submundo do Rio de Janeiro.  Começou pelos subúrbios, onde fez fama retratando godivas bandidas que viviam de pequenos expedientes envolvidas com contraventores. De lá, partiu para narrar, como um ciber-rapper-futurista, a sua muito particular visão sobre o que via nos inferninhos da Zona Sul. Região da cidade por onde também transitava com desenvoltura, sempre se deliciando com o clima de bas-fond de lugares como La Cicciolina, Barbarella e Pussycat.

Mantinha estas atividades, mas seguia se dedicando obstinadamente a seus estudos sociológicos. Estudos estes que o levariam durante anos a grandes discussões e confrontos de ideias com os amigos que frequentavam o seu ponto de encontro favorito, um boteco na entrada de Copacabana. Justamente nesta parte da cidade que para ele representava o “êxtase da sagrada perdição” (era como se referia ao espaço de seus sonhos reais) com a exuberância de seu império de sentidos delirantes. Foi ali que conheceu, entre um chopp e outro, o Lacan da Lapa.

Em seus embates, os dois haviam chegado, é verdade que por perspectivas bastante distintas, a uma conclusão: a de que o instinto básico do ser humano é o da destruição, da eliminação, do aniquilamento completo de todas as espécies. Uma sensibilidade pós-darwiniana trabalhada em voltagem máxima por ímpetos vorazes que não guardavam nem mesmo sentimento de empatia ou compaixão para com o seu próprio gênero. E o melhor laboratório de horrores do planeta era, na opinião coincidente dos dois, o Brasil. Parecia que ambos já anteviam o que surgiria no futuro glorioso do país. Por isso, neste reencontro ficaram maravilhados com o acerto de suas visões proféticas.

Faustus comentava com Demétrio:

– Veja você, Demétrio, quando poderíamos ter imaginado que estávamos tão certos? Leia as notícias que circulam nos grandes portais noticiosos, nas redes de informação mundo afora: aqui, onde foram criadas maravilhosas montanhas de rejeitos de minério, maciços de barragens com restos de detritos sólidos e líquidos de alto teor poluente, belíssimas paisagens de resíduos de níquel, cobre, cobalto, bauxita. Sim, isso mesmo. Aqui neste exato país, o que se vê? Um lastro de poluição e destruição sem igual ou paralelo no planeta. Depois de assistirmos ao apogeu do maior projeto pirotécnico do mundo, o da incineração da floresta amazônica, esta é a grande novidade. Isso sem falar nos ataques impiedosos das milícias e grupos clandestinos de extermínio que fariam morrer de inveja, por sua audácia e ousadia, os mais gabaritados quadros da SS.

Demétrio exibia o seu sorrisinho faceiro e observava:

– Faustus, querido, o tempo passa e vemos que você segue como sempre com essa sua análise exclusivamente social. Parece até que o ser humano não existe. Será que você não andaria esquecido dos solitários homicidas convictos que grassam por aí a assassinar, bater, estuprar, com requintes de crueldade e apatia característicos do que seria um Raskólnikof em versão típica dessa nossa era pós—fim do mundo? Não estaria alheio também a um dos maiores contingentes de pobres e miseráveis da face da terra? Uma seleção de facínoras e de seres depauperados em sua auto-estima, humilhados em sua psiquê dilacerada, desvairados com sua total falta de opções? Em um ponto, no entanto, devemos concordar: aqui é onde pulsa em toda sua exuberância o verdadeiro coração da besta. Conrad deveria ter aproveitado uma de suas viagens marítimas para conhecer o Atlântico Sul e retratar o autêntico âmago das trevas, um coração musculoso e palpitante em generosa atividade deliquente.

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Link para a Casa Rio

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Clipe de Estréia da Elétrica Anuska

Roxo: Ana e sua tchurma performática

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A Queridinha do Blogue

Entrevista da elétrica Anuska ao MangoLab

No Circo abrindo para O Terno

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Começo de Ano Tenebroso

Além das tragédias de Brumadinho, das chuvas no Rio de Janeiro, do incêndio que atingiu o Centro de Treinamento do Flamengo, fevereiro traz a notícia do acidente fatal com o jornalista Ricardo Boechat, mas um dos que frequentaram a redação de O Globo quando passei por lá. Muitos plantões sonolentos foram animados por sua presença sempre vivaz. Deixo com Tom Leão, no entanto, que o conheceu bem de perto, o texto de adeus a este jornalista brigão e corajoso.

Na Cova do Leão

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O Lacan da Lapa em seu Jardim

Não é segredo para os mais dedicados e atentos seguidores deste blogue que o protagonista da  história que dá nome ao meu livrinho “O Lacan da Lapa” existe de fato. Pois muito bem, aproveito a oportunidade para fazer uma atualização e dar notícias sobre o paradeiro de nosso psicanalista. Ele já há alguns anos decidiu mudar de endereço ainda que não tenha fugido por completo da sua querida vizinhança lapense, uma vez que isso seria até uma atitude totalmente contrária aos seus instintos mais elementares e aos princípios maiores que norteiam sua existência. Transferiu sua residência para um lugar bem próximo e vive agora em seus jardins hortenses na gloriosa Glória. Isto porque depois da mudança e de um período de adaptação, percebeu que além das neuroses que habitam nossas combalidas almas, existem também outras neuroses muito mais aparentes e que se fazem presentes à nossa volta todo dia. Em função disso, vem operando uma transformação que deve ser seguida por todos aqueles que têm um terreno abandonado, esquecido, entregue ao ócio, ou pior, destinado ao acúmulo de entulho.

Jardins da Glória

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O Ciber-Futurismo-Retrô Faustiano

51574635_2313490725537731_3660380200069234688_n.jpgHá mais coisas na produção cultural do senhor Fausto Cardoso do que possa sonhar o nosso vão conhecimento sobre a fáustica literatura ciber-futurista-retrô-em-rap do autor de “Rio 40 Graus”. Além do que já comentamos em postagem anterior, fomos lembrados que ele ainda tem peças em parceria com Hamilton Vaz Pereira (“Olhos Ardentes”, 1985, “Amizade de Rua”, 1986, e “Ataliba, a Gata Safira”, 1987) e Henrique Tavares (“Cidade Vampira”, 2006). Com este último, realizou também uma série televisiva, “Vampiro Carioca”, feita para o Canal Brasil e que se desdobrou no filme “Vampiro 40o.”. Há ainda as músicas com Dado Villa-Lobos, Skank, Rogério Skylab e Leela.

Teve uma hilariante revista-CD intitulada “Copacabana Lua Cheia”, um romance interessante ainda que sem o mesmo fôlego de “Favelost”, o “Pororoca Rave” (Tinta Negra, 2015), que também ficaram esquecidos. O romance acabou nos levando de volta ao “Santa Clara Poltergeist”, primeiro livro de Fawcett que impressionou em uma segunda leitura. O encontro entre o Negão paulista eletroblack e a catarinense Verinha Blumenau, convertida em Santa Clara Poltergeist, é um momento de extrema criatividade e novidadeiro para a literatura brasileira da década de 1980. Tudo informado pelas ótimas e ecléticas influências citadas como suas pelo próprio autor em entrevista. Começaram com a Rádio Relógio e a Galeria Silvestre, que iluminaram a infância do escritor, e se estenderam a Henry Miller, Augusto dos Anjos e Dalton Trevisan.

Libera Bruce Lee

Entrevista com o escritor

Leela com Fawcett

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Leituras para uma Monografia

51588881_355869881684288_6243663012679385088_nEsses são alguns dos livros (ficou faltando um de Ismail Xavier que não encontrei) cuja leitura discuti com Miguel Pereira durante a preparação de uma monografia sobre o Cinema Novo e a filmografia glauberiana (incluindo o primeiro curta do diretor, “O Pátio”, que teve Luiz Carlos Maciel como um de seus atores). A maioria dos livros foi adquirido na livraria Muro em Ipanema, no subsolo de uma galeria da praça General Osório, das mãos de seu dono Rui Campos. A Muro, assim como a Dazibao, era uma livraria de referência para quem procurava bons livros e cumpria o papel que hoje cabe à Livraria da Travessa, à livraria Leonardo Da Vinci e a Prefácio. A Muro era também o espaço em que ocorriam leituras e performances de grupos como o Nuvem Cigana, coletivo mais famoso da então chamada poesia marginal/geração mimeógrafo.

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TV PUC-Rio Homenageia Miguel Pereira

Uma Vida Dedicada ao Cinema

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