Ainda sobre a FLIP # 1

Screen Shot 2019-07-21 at 01.38.33Nas calçadas que circundam o Bryant Park próximas à belíssima e monumental Biblioteca Pública de Nova York, há placas em bronze com frases inspiradas e inspiradoras assinadas por escritores famosos como a americana Emily Dickinson, a inglesa Virginia Woolf, o francês René Descartes e uma do cubano José Martí que diz: “O conhecimento de diferentes literaturas liberta as pessoas da tirania de poucas”. É o espírito que vem norteando o programa oficial da FLIP que tem optado por diversificar seu leque de autores, procurando escritores de posições menos hegemônicas no mercado editorial e que ainda são pouco conhecidos pelo público, mesmo porque, muitos deles são estreantes.

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Nesta 17a. edição da Festa Literária, tivemos na quinta-feira, segundo dia depois da abertura na noite de quarta com Walnice Galvão, o burundinês Gaël Faye, compositor de rap e slam que trouxe seu romance de estreia “Meu Pequeno País” (Rádio Londres, 2019), sobre o genocídio e a guerra étnica em África, livro muito premiado na França onde vive – é filho de mãe ruandense e pai francês. Faye participou de uma mesa ao lado de outro músico, o angolano Kalaf Epalanga, que tem livros de crônicas (“Estórias para Meninos de Cor”, de 2011, “O Angolano que Comprou Lisboa (pela Metade do Preço)”, de 2014) e o relato autobiográfico “Também os Brancos Sabem Dançar” (Todavia, 2018), sobre o seu trânsito entre Benguela e Lisboa. A rodada com os dois teve mediação apropriada da ex-VJ da MTV Marina Person.

Gaël Faye fala sobre “Meu Pequeno País”

Kalaf Epalanga Comenta sua relação com a música e o funk brasileiro

Os dois são autores novos, Gaël Faye tem 36 anos, e Kalaf Epalanga, 40. O mesmo acontece com a israelense Ayelet Gundar-Goshen, 36 anos, e a nigeriana Ayòbámi Adébáyò, 31 anos, que estiveram na segunda mesa oficial de sexta-feira ao meio-dia. Gundar-Goshen tem dois romance lançados, “Uma Noite, Markovitch” (Todavia, 2018) e o inédito por aqui “waking Lions” (2014). AdéBáyò, um único livro, “Fique Comigo” (Haper Collins, 2018). Duas autoras novas, mas que já tem suas obras traduzidas em vários idiomas.

A Israelense Ayelet Gundar-Goshen 

A Nigeriana Ayòbámi Adébàyò

Em um encontro seguinte no programa oficial já na tarde-noite de sexta, foi a vez de mais uma estreante, a venezuelana Karina Sainz Borgo, que em “Noite em Caracas” (Intrínseca, 2019; “La hija de la Española”, no original, best-seller na Europa) narra de forma romanceada as adversidades enfrentadas na Venezuela de Chaves e Maduro, de onde saiu em 2006 para viver na Espanha.

A Venezuela Karina Sainz Borgo lê trecho de seu livro

O programa oficial seguiria à noite com a artista plástica portuguesa Grada Kilomba, com origens em São Tomé e Príncipe e Angola, e que escreve sobre memória, raça, gênero, pós-colonialismo. Grada, formada em psicologia e psicanálise em Portugal, é doutora em filosofia pela Universidade Livre de Berlim (summa cum laude, grau elevado de distinção acadêmica) onde mora. Combativa, tendo convivido com sobreviventes de guerra de Moçambique e Angola, é autora de “Memórias da Plantação” (Cobogó, 2019), que traz reflexões sobre suas conversas com mulheres que enfrentam a diáspora africana. Como artista plástica, já frequentou a Documenta 14, em Kassel na Alemanha, a Bienal de Berlim e de São Paulo e está apresentando até o fim de setembro na Pinacoteca paulista a exposição “Desobediências Poéticas”.

Grada Kilomba discute a normatização da violência contra a mulher com Lilia Moritz

Sempre politizada, a FLIP ofereceu ainda em seu programa oficial as mesas temáticas. Tivemos como de hábito a presença de uma ativista paratiense, Marcela Cananéa, representante do Fórum de Comunidades Tradicionais de Paraty, que reúne militantes de Paraty, Angra e Ubatuba, com um historiador paulista, Marcelo D’Salete, que pesquisa os antigos mocambos da Serra da Barriga, ou Quilombo dos Palmares, que estiveram na primeira mesa da manhã de sexta. De noite, fechando o dia, José Celso Martinez Correa esteve ao lado do indígena Ailton Krenak em uma conversa performática. Eles entraram na tenda principal às 20h30 da noite de sexta-feira, pouco depois da manifestação bolsonarista que aconteceu às 19h, importunando a palestra de Grada Kilomba na tenda principal e a de Gleen Greenwald no barco da FLIPEI ao ar livre, e fizeram uma pajelança boa para curar o clima carregado dos adeptos da truculência.

José Celso Martinez Correa e Ailton Krenak 

Cristina Serra, que trabalhou na Rede Globo, e o jornalista David Wallace-Wells, da New York Magazine, fecharam a noite de sábado discutindo mudanças ambientais e o desastre em Mariana (que a repórter cobriu em uma série de reportagens feitas para o programa Fantástico e que resultou no livro “A Tragédia em Mariana: a História do Maior Desastre Ambiental do Brasil” (Record, 2018)), assuntos com os quais os dois têm se ocupado e no qual o jornalista norte-americano é especialista. Na tarde de quinta-feira, José Miguel Wisnik já tinha palestrado sobre o impacto da mineração da Vale do Rio Doce em Itabira e o que isso se refletiu na obra de Carlos Drummond de Andrade. Suas especulações sobre o tema resultaram no livro “Maquinação do Mundo: Drummond  e a Mineração” (Companhia das Letras, 2018).

José Miguel Wisnik em Palestra da Tarde de 5a. Feira à tarde

Cristina Serra e a História do desastre da Mineração no Brasil fechando a noite de sábado

Nem todo bom palestrante é necessariamente um bom escritor, assim como o oposto também é verdade. Já vi autores que gosto muito fazendo palestras pífias e escritores por quem não nutro muita simpatia, se sairem bem palestrando. Da minha perspectiva ao menos, se os bons palestrantes vão te convencer a chegar ao livro é um assunto da alçada do imponderável.

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Début Flipeiro

FLIPEI 1

Foto de Cauê Ameni

Depois de anos acompanhando a Festa Literária Internacional de Paraty à distância via Internet, fui finalmente conferir in loco como acontece a movimentação do simpático encontro entre escritores e leitores. Cheguei em um momento em que a Flip, em sua 17a. edição, confirmou sinais de mudança que vinham se anunciando há um tempo. Em entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo, a inglesa Liz Calder, que já morou no Brasil e tem paixão por Paraty ainda que viva hoje no interior da Inglaterra, uma das criadoras e organizadoras do evento desde a sua primeira edição em 2003, comentou que a falta de recursos fez com que sumissem das rodadas da mesa principal estrelas internacionais que só viajam de primeira classe ou executiva e exigem hospedagem em hotéis caros. Assim não temos mais autores como Margaret Atwood, Elisabeth Roudinesco, Ian McEwan, Richard Dawkins, Enrique Vila-Matas, Salman Rushdie, Gay Talese, que causaram frisson quando de suas passagens por nossa quermesse literária no passado.

Se as mesas do programa principal, que acontece no auditório da Matriz (vem sofrendo queda em seu público pagante que tem optado compreensivelmente por evitar a sala fechada com seus exaustores barulhentos e optado por assistir às palestras na arejada tenda ao ar livre), deixaram de ser a atração mais importante, os encontros das casas e espaços parceiros da Flip cresceram de maneira exponencial (uma amiga, que vai todo ano, comentou que nunca viu Paraty tão cheia). O debate mais concorrido desta 17a. edição, por exemplo, foi sem sombra de dúvida aquele que reuniu na noite de sexta-feira Glenn Greenwald, Gregório Duvivier, Sabrina Fernandes, Alceu Castilho e Sérgio Amadeu no barco pirata das editoras independentes (Sabrina também teria uma conversa concorrida na manhã de sábado no mesmo lugar com o filósofo Vladimir Safatle).

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Ancorado de forma muito apropriada na margem esquerda do rio Perequê-Açu e reunindo editoras menores como Autonomia Literária, Boitempo, Ubu, Patuá, Relicário, entre uma infinidade de outras, o barco pirata da Festa Literária das Editoras Independentes (Flipei) virou um point obrigatório. Em seu convés oferecia livros em uma grande bancada e, em sua parte superior, palestras acompanhadas pelo público no gramado em frente. Nem a truculência dos bolsonaristas, com seus rojões, morteiros, som nas alturas, conseguiu comprometer o debate com o jornalista do The Intercept que chegou em cena cinematográfica, sendo ovacionado ao surgir inesperadamente pela foz do rio escoltado em uma lancha.

Flip map

Além da embarcação da Flipei, havia ali, bem próximo, o Barco Holandês que da mesma forma ofereceu bate-papo com autores. Ao longo da margem esquerda estavam situadas outras tendas com palestrantes, como a do Sesc, mais antigo ocupante do Areal do Pontal e que apresentou intensa programação com leituras, oficinas e intervenções artísticas. O onipresente Sesc tinha outros três espaços, uma tenda no bairro do Caboré, uma casa no Centro Histórico e uma unidade no Largo de Santa Rita.

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A exposição do caminhão-museu itinerante “Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964” ficou também instalado no Areal. Trata-se de um projeto do IMS em associação com o departamento de história da UFMG, com curadoria de Heloisa Espada e consultoria de Heloisa Starling, Ângela Alonso e Ângela Castro. O caminhão-museu reúne sala de exibição (em que se projeta uma animação sobre Canudos), monitores interativos e um ambiente para leitura. A exposição resultou em um livro belíssimo assinado por Heloisa Espada que era vendido na Casa do IMS. Só não veio na bagagem por causa de seu peso. O caminhão do IMS/UFMG estava na companhia da Kombi da Penguin/Companhia das Letras, da biblioteca-motorizada do Sesc e da livraria ambulante da Flipei montada em um ônibus escolar (daqueles norte-americanos) que circula por cidades exibindo e vendendo livros de editoras menores em seu interior.

A curadora desta edição da Flip, a viúva do jornalista Otávio Frias Filho, Fernanda Diamant, registrou no programa que saiu em caprichada brochura a luta para organizar um evento diversificado. “Montar uma festa como esta, compondo um espaço de múltiplas linguagens, voltado ao pensamento, à escrita, à arte, à crítica, à educação, é complexo”, escreveu depois de informar que teve a intenção de retomar temas euclidianos e atualizá-los. O que de fato aconteceu. Na palestra de abertura, por exemplo, Walnice Galvão se dedicou a falar sobre o autor escolhido como tema da Festa sem se esquecer de fazer uma ponte com o presente. Durante sua palestra, comentou a historiadora, uma das mais destacadas estudiosas de Euclides: “Enquanto o processo de modernização capitalista não terminar e não se passar para outra etapa histórica, “Os Sertões” tem que ser lido todos os dias para se entender o que está acontecendo com os pobres do país nesta guerra sem quartel que a nação promove”. Citou para embasar sua argumentação o genocídio de jovens negros na periferia de São Paulo, a militarização das favelas no Rio e os desastres de Mariana e Brumadinho.

A historiadora identificaria ainda nos movimento dos sem terra uma similaridade com o que foi a luta de Canudos e mencionou dois assentamentos que confirmam isso a partir do próprio nome com que se fizeram conhecidos: Nova Canudos, em Goiás, e Antônio Conselheiro, no Mato Grosso. São evidências da busca de  práticas que se assemelham às insurreições milenaristas e messiânicas como aquelas descritas por teóricos como Engels, Max Weber e Hobsbawn, segundo Walnice. Com a diferença, de que, enquanto os canudenses tinham uma atitude passiva na opção por viverem reclusos, os sem-terra invadem espaços do poder em um movimento ativíssimo.

Como resultado desta militância que encontramos em algumas palestras como a de Walnice e ainda na de Ismail Xavier, as falas afirmativas se fizeram presentes, mas confesso que não me tocaram tanto, embora tenham encontrado público cativo. Mais instigantes, e também claro sinal afirmativo, se mostraram os grupos de slam com seus happenings de improviso que aconteceram em espaços ao ar livre todos os dias e na Casa Globo no final da tarde de sábado. Os poetas dos coletivos de slam, que surgiram e vêm fazendo sucesso na Flip já há algumas edições, procedem a uma recuperação do espírito do rap, mas apresentam como elemento novo a opção de muitos deles pela publicação de seus textos-falados em livros.

Dentro da maratona de atividades, deu tempo ainda para conhecer pessoas como a empresária Samara Krauss da editora de livros Saber e Ler, de Campinas, que participava da Festa como empreendedora. Como ela, a Flip tem reunido donos de editoras pequenas que descobriram um ambiente de troca atraente para discutirem seus negócios na Casa Publishnews. O mesmo se deu na Casa Libre & Santa Rita de Cássia que reuniu autores, editores, ilustradores, tradutores e distribuidores, para pensarem a cadeia do livro. Vários, intensos e diversificados encontros para quem tem paixão pela escrita e por esse “objeto transcendente que podemos amar do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, como diz o poeta.

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Bons Momentos da 17a. Edição da FLIP

Walnice na abertura da mesa principal

Flipei, o muito concorrido espaço paralelo da Festa com Glenn Greenwald, Gregório Duvivier, Sabrina Fernandes, Alceu Castilho e Sérgio Amadeu

Mario Cesar Carvalho e Sérgio Rodrigues falam sobre “Os Sertões” (clique aqui)

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A poesia falada dos grupos de Slam na Casa Globo

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Lucas Afonso abre o verbo

Com a queridinha Lilia Moritz na Casa do IMS

Ismail Xavier e o “Deus e o Diabo” de Glauber Rocha

A Kombi da Penguin/Companhia das Letras

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Começou a Festa…

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Conversa de Livraria

Sérgio 6Sérgio Rodrigues, seguindo uma salutar praxe da qual é adepto e que está se tornando corriqueira, repetiu no lançamento de seu novo livro, “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 2019), o que havia feito com o “Viva a Língua Brasileira” (Companhia das Letras, 2016): um bate-papo antes da tradicional distribuição de autógrafos. No Rio de Janeiro, a conversa aconteceu na livraria da Travessa de Botafogo e teve mediação de Álvaro Costa e Silva – o Marechal, como é tratado em tom jocoso pelos amigos-, editor do saudoso Caderno Ideias (do igualmente saudoso Jornal do Brasil) e que hoje goza do privilégio de ser colunista da célebre página 2 da Folha de São Paulo (por onde passaram Cláudio Abramo, Clóvis Rossi, Otto Lara Resende, em uma lista de ilustres, e onde o jornalista marca presença em alternância com Ruy Castro).

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Álvaro lembrou a trajetória do autor que, com esta obra, soma três livros de contos (“O Homem que Matou o Escritor”, de 2000, e “Sobrescritos”, de 2010, são os anteriores), três romances (“As Sementes de Flowerville”, de 2006, “Elza, a Garota”, de 2008, e “Drible”, de 2014), além de duas seletas de escritos sobre a língua portuguesa e seus usos (“What Língua is Esta?”, de 2005, e “Viva a Língua Brasileira”, de 2016). Procedeu ainda a uma curta apresentação do novo lançamento que reúne, como nos antigos LPs de vinil, lados A e B.

O Lado A abre com o conto que dá título ao livro, que surgiu sugestionado por “O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (Editora Ática, 1982) de um xará do autor, o merecidamente muito cultuado escritor Sérgio Sant´Anna (professor de Sérgio Rodrigues nos tempos do curso de jornalismo na UFRJ dos anos 1980). Sempre achei que o encontro de João Gilberto com os Novos Baianos tivesse se dado no apartamento do grupo de músicos em Botafogo, mas para a imaginação do escritor tudo aconteceu no sítio da turma do “Acabou Chorare” em Campo Grande. “A Fruta por Dentro” é a “segunda faixa” e a inspiração por aqui é a Capitu em sua entediante noite de núpcias com o personagem casmurro de Machado. O escritor destaca a voluptuosidade da enigmática personagem do Bruxo para a alegria dos que não cansam de se entreter com a dubiedade da personagem de olhar dissimulado. Fechamos o lado A com “Vas Preposterum”, “um conto mórbido satírico” sobre a Inconfidência Mineira na definição de Sérgio Sant´Anna. De inspiração assumidamente bocagiana, deve-se adiantar.

Sérgio 9Ao elencar alguns tópicos para o bate-papo, Álvaro tocou na discussão sobre metalinguagem presente no Lado B do livro nas seções “Conselhos Literários Fundamentais”, “Cenas da Vida Zooliterária, Volume 1” e, esparsamente, nas tuitadas de “Breve História de Alguma Coisa”. Passagens em que há aquilo que Sérgio Sant´Anna classificou como “um verdadeiro tiro nas oficinas de literatura”. Sérgio Rodrigues acha que estamos tendo uma badalação excessiva em torno da carreira de escritor, que segundo ele não é essa maravilha toda, o que lembrou a célebre frase de Truman Capote que dizia que, ao te dar o dom da escrita, o Todo Poderoso te entregava também um chicote. Além da glamourização da prática, Sérgio Rodrigues mencionou as festas literárias em excesso e a bajulação dos autores que são tratados como estrelas. Não opinou sem ser questionado se a condição de diva deveria ser prerrogativa exclusiva das damas de salto alto do futebol.

Fechamos a noite comentando a “Terceira Margem” do livro, uma seção à parte com o folhetim “Jules Rimet, Meu Amor”, escrito para ser publicado seriadamente no Le Monde francês durante a Copa do Mundo de 2014. Foi quando a conversa migrou para nossas conquistas e fracassos, os campeonatos mundiais, a Taça erguida em 1970 e depois roubada e derretida, o vergonhoso 7×1 contra a Alemanha e a usurpação da camisa canarinho por uma facção política.

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Muitos amigos do escritor presentes. Mànya Millen foi e aproveitou para representar dois ausentes: Arthur Dapieve, que estava dodói, e Alfredo Ribeiro, preso no trabalho.  Na fila para as dedicatórias e selfies, Luiz Henrique Romanholli trouxe o prestigio do rock brasileiro oitentista, Joaquim Ferreira dos Santos, Arnaldo Bloch e Cora Rónai, o cumprimento e reverência dos ex-colegas de redação. Completando a festa, os amigos da faculdade, da vida e a família celebrando o talento do supercraque das letras.

Fotos de Clarissa Rodrigues, Daniel Turela e Carolina Landi

Ps. Correção – Tarra tão perdidão na companhia do narrador durante a visita ao sítio dos Novos Baianos que não dei a devida atenção a esta passagem: “O pessoal comentava com o João como tinha sido legal uma outra vez que eles se encontraram, parece que num apartamento na cidade.”  Sérgio Rodrigues lembra também que o sítio ficava em Jacarepaguá, o que põe por terra toda a minha fantasia sobre o “Swing de Campo Grande”.

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Sessenta Outonos ao Redor do Sol

61993603_411406779445017_5939035920270360576_nArnaldo Nudelman, ou Arnaud, ou ainda o Lacan da Lapa como alguns o andam tratando, é um amigo de mais de 40 anos de vida. Já falei sobre a doce figura neste blogue, mas acontece que, fim de semana passado, Arnaud completou 60 outonos passeando pelo planeta o que nos força a voltar a ele. Comemorou a data em grande estilo é bom que se registre. Escolheu muito apropriadamente os seus jardins suspensos da Glória para festejar o dia fazendo, com os seus amigos musicistas, uma recriação brasileira do espírito do rooftop concert dos Beatles.

AltoComo no condomínio onde ele mora, as 14 unidades são ocupadas predominantemente por consultórios e pequenas empresas, e poucos moradores vivem ali de fato, sendo que a maioria deles estava presente, foi  possível fazer a cantoria sem perturbar os vizinhos. A área de serviço nos fundos dos imóveis do Edifício Russell dá de frente para o antigo espaço de entulho e que agora é um jardim e horto ali criados por iniciativa do síndico inovador. Foi de frente para o horto, do alto do sétimo e penúltimo andar do prédio, que os músicos Marcelo Ceará, Miguel, Valmir, Lina e Lucy, passaram um repertório seleto de nossa mpb (Caetano, Luiz Melodia, Alceu Valença) em meio a composições autorais. Contaram ainda com a presença luxuosa do sax de Luciana, mulher de Sérgio, dedicado porteiro do Condomínio que ajudava orientando a movimentação dos convidados durante a festa.

Jardim

Lá de baixo, a platéia se deliciou com o show de talento dos músicos que tocaram durante fartas duas horas antes de subirmos para o parabéns pra você. Estavam presentes amigos e amigas que não se encontravam há anos. Tuca, Alexandra, Kátia, Helena, entre as ex-mulheres e ex-namoradas do anfitrião, amigos próximos como Bebeto Abrantes,  cineasta/roterista, Mário Fuks, que não tem mais o seu Volkswagen Blue e vive em Belzonte onde é professor da UFMG, Claudinho e Fernanda, Dario, Luca, as irmãs Danuza e Célia, a filhota, Alice, entre um grupo grande e animado. A pedido do aniversariante, terminamos com Raul Seixas, “tudo igual, vai ser exatamente o mesmo, quando você crescer”.

Meninas

Bebeto Mario

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Trem de Doido, Trem Azul, Trem Mineiro

WhatsApp Image 2019-05-30 at 23.00.17Noite na estação ferroviária do Clube da Esquina na companhia de Lô Borges com direito a comemoração pelos 40 anos de “A Via-Láctea”. E ainda, “Feira Moderna”, “Para Lennon e McCartney”, “Nuvem Cigana”, “Paisagem da Janela” e o repertório do novíssimo “Rio da Lua”. Em meio à apresentação, catarse coletiva como preparativo para as manifestações de hoje em repulsa ao governo que está acabando com o mínimo que nos resta de civilidade.

Lô Borges em especial do Canal Brasil

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Febre Asdrubalina

Documentário do GNT sobre o Asdrúbal

Passado o “Recital da Onça”, que volta possivelmente em uma apresentação durante a FLIP e depois em nova temporada em agosto, a programação asdrubalina seguiu com uma outra integrante do grupo de teatro de Hamilton Vaz Pereira que continua em plena atividade. Por coincidência, enquanto Regina Casé encarna em seu recital-solo uma passageira de classe turística em um voo internacional (pois não é mais cool viajar de classe executiva), Patricya Travassos aparece em situação semelhante como uma aeromoça a cruzar os céus em busca de uma paixão platônica em “Aérea”. A peça de Travassos entrou em cartaz em 2018, é mais antiga portanto, mas tem voltado em temporadas curtas.

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“Aérea” lembra o teatro besteirol e dura apenas 1 hora, mas rende bons momentos. É o tempo que Casé gasta de forma parecida fazendo graça com a situação de estar enfrentando a tensão de ter de lidar com as chateações antes de embarcar em uma viagem de avião e na chegada com a burocracia alfandegária. “Recital da Onça” tem, no entanto, como atrativo adicional os textos literários que dão conta de uma espécie de segunda parte da investida virtuosística de Casé.

Travassos, que tem trilhado também uma carreira brilhante como atriz em novelas (muito elogiada recentemente por sua participação em “Espelho da Vida”) e em programas humorísticos do MultiShow (entrou pro elenco de “A Vila”, de Paulo Gustavo), talvez, para dar mais fôlego a seu espetáculo, devesse ter recorrido a variedade de narrativas que desenvolveu de maneira autoral em dois de seus ótimos livros de contos: “Esse Sexo é Feminino!” (2001, Editora Símbolo) e “Monstra e Outras Crônicas” (contos-crônicas escritas para a revista Marie Claire; Editora Globo, 2006). Certamente teria assim um trabalho tão bem sucedido comercialmente quanto os de Mônica Martelli.

Talento como autora não falta. Não custa lembrar que, amiga de  Vicente Pereira (a quem é dedicado seu primeiro livro), Patricya traz no currículo, além dos quadros das peças do Asdrúbal, dois textos dramatúrgicos (“A Incrível História de Nemias Demutcha” e “Entre Hoje e Amanhã”) e parcerias musicais com letras feitas para Blitz, Sempre Livre, Roupa Nova, Rádio Táxi e Evandro Mesquita. Foi roterista ainda de “Armação Ilimitada”, “TV Pirata” e outros programas da Rede Globo.  Em seu canal no youtube, feito para divulgar seu trabalho de atriz, gravou, com a classe habitual, alguns dos textos de seus livros de contos.

Conto “O Book” no PatCanal de Patricya Travassos

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Música Viralata por Mu Chebabi

 Palinha de Mu & Lenine no Blue Note

Sábado passado tivemos o grande show de lançamento no Blue Note do EP “Música Viralata Brasileira” do amigo Mu Chebabi que não via há muito tempo e que está cantando que é uma maravilha. Teve participação animadíssima de Lenine e classuda de Nico Rezende que se alternaram no palco dando brilho extra a uma seleção generosa de músicas conhecidas e inéditas. Apoio virtuosístico de uma super banda que, comprovando os temores do anfitrião, gosta de roubar o show, com André Siqueira cuidando dos violões e guitarras, Levi Chaves dos sopros, Jorge Ailton do baixo e Zé Mario da bateria. Momento alto da apresentação: o hit infanto-juvenil “Motoca”, composto pelos irmãos May e Mu quando eram crianças. O EP, com capa assinada pelo Casseta Reinaldo Figueiredo, que estava por lá prestigiando a noite, tem ainda a presença muito especial de Zélia Ducan na faixa “Escorpião na Língua” e encontra-se à venda em todas as plataformas digitais.

O EP “MVB” na Amazon

Mu MVB

 

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Uma Onça Chamada Regina

Casé 2Regina Casé anda uma onça com os brasileiros que só pensam em deixar o país. É verdade que o Brasil não está nada fácil. A vontade que se tem é a de sentar no meio-fio e chorar. Preocupada com nossos intrépidos humores, a atriz está dando o seguinte recado aos que estão desistindo da jobiniana Terra Brasilis. Sua recomendação é que experimentem dar um pulinho até a gélida Boston enfrentando os gênios irascíveis das autoridades de imigração americanas para começar a sentir os dissabores de estar em território estrangeiro.

Melhor do que isso talvez seja procurar o que há de mais interessante por aqui para nos lembrarmos do tanto que somos apegados às coisas brasileiras. E a literatura, entendida em sentido lato e entrelaçada aos lugares por onde circulamos diariamente, é, com certeza, um caminho para que percebamos o desvario de certas atitudes. Durante as quase duas horas de espetáculo do “Recital da Onça”, que estreou em uma igreja em Salvador, passou pelo Festival de Teatro de Curitiba, e que agora faz temporada de 12 apresentações no teatro Oi Casa Grande no Rio de Janeiro, a atriz ganha a platéria para a sua causa cantando o samba-enredo da vitoriosa Mangueira, relembrando uma canção como “Luar do Sertão” que parece de domínio público (ainda que Catulo da Paixão Cearense reinvidique a autoria do tema que ficou conhecido através de João Pernambuco) e, em parceria com Hermano Vianna, visitando textos com os quais não cansamos de nos deliciar.

Ana Fernanda Matos, ou Capicua, rapper portuguesa da trilha que abre o espetáculo

Para cada cidade em que se dará a encenação, tem sido escolhido um autor que se relacione diretamente com a cultura local. Em Salvador, a opção foi por Jorge Amado  com seu “Jubiabá”, em Curitiba, Dalton Trevisan (“Moreno Ingrato”) e Paulo Leminski (trecho de “Agora é que São Elas”). Aqui no Rio, Alberto Mussa (“A Primeira História do Mundo”). Sugestionado pelo título do espetáculo e pela menção ao nome de Mussa, estava na expectativa de ouvir alguma coisa sobre a mitologia indígena que associa a onça à criação de tudo que é fundamental para os índios brasileiros. Mussa, no entanto, cuidaria da narrativa sobre a fundação da cidade do Rio de Janeiro. O bote surpresa viria com o “Meu Tio, Iauareté”, um conto de Guimarães Rosa que desconhecia e em que as descrições de uma onça são um show de preciosismo do autor de Cordisburgo.

Iauareté, a “cachoeira das onças” e “lugar em que viveu uma gente onça”, segundo registra a Wikipedia, toma com propriedade todo o fim da peça em um show de virtuosismo de Regina Casé que se metamorfoseia neste animal típico das florestas tropicais (a espécie está em vias de extinção e o maior contigente de exemplares se encontra em nosso território). Rosa chega depois de termos acompanhado o querido Mário de Andrade em suas andanças pelo país em seu “Turista Aprendiz” e Clarice Lispector em uma crônica maravilhosa em todo o seu cru, veraz e triste encantamento. É uma pena que Lima Barreto tenha ficado de fora desse encontro de grandes. 

A própria Regina Casé disse que estava com saudade do teatro, lugar em que se sente em casa. Depois de 25 anos longe dos palcos e dedicada à TV, a atriz trouxe companheiros de sua equipe televisiva para a produção do espetáculo. Além da criação assinada com Hermano Vianna, o “Recital do Onça” tem direção geral do marido da atriz e diretor de seus programas, Estevão Ciavatta. Reatou a parceria com Hamilton Vaz Pereira (direção cênica) com quem fez as peças que inauguraram e consagraram sua carreira nos palcos. Contou ainda com Luiz Zerbibi (cenário), Claudia Kopke e Gilda Midani (figurino) e Renato Machado (iluminação), entre outros em uma equipe numerosa e dedicada.  

Link para a página da ONG Instituto Onça-Pintada

A bela fera de perto

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