Nas calçadas que circundam o Bryant Park próximas à belíssima e monumental Biblioteca Pública de Nova York, há placas em bronze com frases inspiradas e inspiradoras assinadas por escritores famosos como a americana Emily Dickinson, a inglesa Virginia Woolf, o francês René Descartes e uma do cubano José Martí que diz: “O conhecimento de diferentes literaturas liberta as pessoas da tirania de poucas”. É o espírito que vem norteando o programa oficial da FLIP que tem optado por diversificar seu leque de autores, procurando escritores de posições menos hegemônicas no mercado editorial e que ainda são pouco conhecidos pelo público, mesmo porque, muitos deles são estreantes.

Nesta 17a. edição da Festa Literária, tivemos na quinta-feira, segundo dia depois da abertura na noite de quarta com Walnice Galvão, o burundinês Gaël Faye, compositor de rap e slam que trouxe seu romance de estreia “Meu Pequeno País” (Rádio Londres, 2019), sobre o genocídio e a guerra étnica em África, livro muito premiado na França onde vive – é filho de mãe ruandense e pai francês. Faye participou de uma mesa ao lado de outro músico, o angolano Kalaf Epalanga, que tem livros de crônicas (“Estórias para Meninos de Cor”, de 2011, “O Angolano que Comprou Lisboa (pela Metade do Preço)”, de 2014) e o relato autobiográfico “Também os Brancos Sabem Dançar” (Todavia, 2018), sobre o seu trânsito entre Benguela e Lisboa. A rodada com os dois teve mediação apropriada da ex-VJ da MTV Marina Person.
Gaël Faye fala sobre “Meu Pequeno País”
Kalaf Epalanga Comenta sua relação com a música e o funk brasileiro
Os dois são autores novos, Gaël Faye tem 36 anos, e Kalaf Epalanga, 40. O mesmo acontece com a israelense Ayelet Gundar-Goshen, 36 anos, e a nigeriana Ayòbámi Adébáyò, 31 anos, que estiveram na segunda mesa oficial de sexta-feira ao meio-dia. Gundar-Goshen tem dois romance lançados, “Uma Noite, Markovitch” (Todavia, 2018) e o inédito por aqui “waking Lions” (2014). AdéBáyò, um único livro, “Fique Comigo” (Haper Collins, 2018). Duas autoras novas, mas que já tem suas obras traduzidas em vários idiomas.
A Israelense Ayelet Gundar-Goshen
Em um encontro seguinte no programa oficial já na tarde-noite de sexta, foi a vez de mais uma estreante, a venezuelana Karina Sainz Borgo, que em “Noite em Caracas” (Intrínseca, 2019; “La hija de la Española”, no original, best-seller na Europa) narra de forma romanceada as adversidades enfrentadas na Venezuela de Chaves e Maduro, de onde saiu em 2006 para viver na Espanha.
A Venezuela Karina Sainz Borgo lê trecho de seu livro
O programa oficial seguiria à noite com a artista plástica portuguesa Grada Kilomba, com origens em São Tomé e Príncipe e Angola, e que escreve sobre memória, raça, gênero, pós-colonialismo. Grada, formada em psicologia e psicanálise em Portugal, é doutora em filosofia pela Universidade Livre de Berlim (summa cum laude, grau elevado de distinção acadêmica) onde mora. Combativa, tendo convivido com sobreviventes de guerra de Moçambique e Angola, é autora de “Memórias da Plantação” (Cobogó, 2019), que traz reflexões sobre suas conversas com mulheres que enfrentam a diáspora africana. Como artista plástica, já frequentou a Documenta 14, em Kassel na Alemanha, a Bienal de Berlim e de São Paulo e está apresentando até o fim de setembro na Pinacoteca paulista a exposição “Desobediências Poéticas”.
Grada Kilomba discute a normatização da violência contra a mulher com Lilia Moritz
Sempre politizada, a FLIP ofereceu ainda em seu programa oficial as mesas temáticas. Tivemos como de hábito a presença de uma ativista paratiense, Marcela Cananéa, representante do Fórum de Comunidades Tradicionais de Paraty, que reúne militantes de Paraty, Angra e Ubatuba, com um historiador paulista, Marcelo D’Salete, que pesquisa os antigos mocambos da Serra da Barriga, ou Quilombo dos Palmares, que estiveram na primeira mesa da manhã de sexta. De noite, fechando o dia, José Celso Martinez Correa esteve ao lado do indígena Ailton Krenak em uma conversa performática. Eles entraram na tenda principal às 20h30 da noite de sexta-feira, pouco depois da manifestação bolsonarista que aconteceu às 19h, importunando a palestra de Grada Kilomba na tenda principal e a de Gleen Greenwald no barco da FLIPEI ao ar livre, e fizeram uma pajelança boa para curar o clima carregado dos adeptos da truculência.
José Celso Martinez Correa e Ailton Krenak
Cristina Serra, que trabalhou na Rede Globo, e o jornalista David Wallace-Wells, da New York Magazine, fecharam a noite de sábado discutindo mudanças ambientais e o desastre em Mariana (que a repórter cobriu em uma série de reportagens feitas para o programa Fantástico e que resultou no livro “A Tragédia em Mariana: a História do Maior Desastre Ambiental do Brasil” (Record, 2018)), assuntos com os quais os dois têm se ocupado e no qual o jornalista norte-americano é especialista. Na tarde de quinta-feira, José Miguel Wisnik já tinha palestrado sobre o impacto da mineração da Vale do Rio Doce em Itabira e o que isso se refletiu na obra de Carlos Drummond de Andrade. Suas especulações sobre o tema resultaram no livro “Maquinação do Mundo: Drummond e a Mineração” (Companhia das Letras, 2018).
José Miguel Wisnik em Palestra da Tarde de 5a. Feira à tarde
Cristina Serra e a História do desastre da Mineração no Brasil fechando a noite de sábado
Nem todo bom palestrante é necessariamente um bom escritor, assim como o oposto também é verdade. Já vi autores que gosto muito fazendo palestras pífias e escritores por quem não nutro muita simpatia, se sairem bem palestrando. Da minha perspectiva ao menos, se os bons palestrantes vão te convencer a chegar ao livro é um assunto da alçada do imponderável.











Sérgio Rodrigues, seguindo uma salutar praxe da qual é adepto e que está se tornando corriqueira, repetiu no lançamento de seu novo livro, “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 2019), o que havia feito com o “Viva a Língua Brasileira” (Companhia das Letras, 2016): um bate-papo antes da tradicional distribuição de autógrafos. No Rio de Janeiro, a conversa aconteceu na livraria da Travessa de Botafogo e teve mediação de Álvaro Costa e Silva – o Marechal, como é tratado em tom jocoso pelos amigos-, editor do saudoso Caderno Ideias (do igualmente saudoso Jornal do Brasil) e que hoje goza do privilégio de ser colunista da célebre página 2 da Folha de São Paulo (por onde passaram Cláudio Abramo, Clóvis Rossi, Otto Lara Resende, em uma lista de ilustres, e onde o jornalista marca presença em alternância com Ruy Castro).
Ao elencar alguns tópicos para o bate-papo, Álvaro tocou na discussão sobre metalinguagem presente no Lado B do livro nas seções “Conselhos Literários Fundamentais”, “Cenas da Vida Zooliterária, Volume 1” e, esparsamente, nas tuitadas de “Breve História de Alguma Coisa”. Passagens em que há aquilo que Sérgio Sant´Anna classificou como “um verdadeiro tiro nas oficinas de literatura”. Sérgio Rodrigues acha que estamos tendo uma badalação excessiva em torno da carreira de escritor, que segundo ele não é essa maravilha toda, o que lembrou a célebre frase de Truman Capote que dizia que, ao te dar o dom da escrita, o Todo Poderoso te entregava também um chicote. Além da glamourização da prática, Sérgio Rodrigues mencionou as festas literárias em excesso e a bajulação dos autores que são tratados como estrelas. Não opinou sem ser questionado se a condição de diva deveria ser prerrogativa exclusiva das damas de salto alto do futebol.
Arnaldo Nudelman, ou Arnaud, ou ainda o Lacan da Lapa como alguns o andam tratando, é um amigo de mais de 40 anos de vida. Já falei sobre a doce figura neste blogue, mas acontece que, fim de semana passado, Arnaud completou 60 outonos passeando pelo planeta o que nos força a voltar a ele. Comemorou a data em grande estilo é bom que se registre. Escolheu muito apropriadamente os seus jardins suspensos da Glória para festejar o dia fazendo, com os seus amigos musicistas, uma recriação brasileira do espírito do rooftop concert dos Beatles.
Como no condomínio onde ele mora, as 14 unidades são ocupadas predominantemente por consultórios e pequenas empresas, e poucos moradores vivem ali de fato, sendo que a maioria deles estava presente, foi possível fazer a cantoria sem perturbar os vizinhos. A área de serviço nos fundos dos imóveis do Edifício Russell dá de frente para o antigo espaço de entulho e que agora é um jardim e horto ali criados por iniciativa do síndico inovador. Foi de frente para o horto, do alto do sétimo e penúltimo andar do prédio, que os músicos Marcelo Ceará, Miguel, Valmir, Lina e Lucy, passaram um repertório seleto de nossa mpb (Caetano, Luiz Melodia, Alceu Valença) em meio a composições autorais. Contaram ainda com a presença luxuosa do sax de Luciana, mulher de Sérgio, dedicado porteiro do Condomínio que ajudava orientando a movimentação dos convidados durante a festa.




Noite na estação ferroviária do Clube da Esquina na companhia de Lô Borges com direito a comemoração pelos 40 anos de “A Via-Láctea”. E ainda, “Feira Moderna”, “Para Lennon e McCartney”, “Nuvem Cigana”, “Paisagem da Janela” e o repertório do novíssimo “Rio da Lua”. Em meio à apresentação, catarse coletiva como preparativo para as manifestações de hoje em repulsa ao governo que está acabando com o mínimo que nos resta de civilidade.

Regina Casé anda uma onça com os brasileiros que só pensam em deixar o país. É verdade que o Brasil não está nada fácil. A vontade que se tem é a de sentar no meio-fio e chorar.
