PUC-RJ em Luto pelo Mestre Renato Cordeiro Gomes

A semana passada se encerrou com a notícia do falecimento de Renato Cordeiro Gomes, professor da PUC-RJ durante quase a sua vida acadêmica inteira. Miguel Conde deu a notícia em redes sociais e um número grande de ex-alunos e colegas, como a filósofa Katia Muricy, deixaram seu testemunho sobre a convivência com um intelectual dedicado. Renato foi meu professor durante a graduação na década de 1980 no curso de Comunicação Social da PUC-RJ em uma disciplina cujo assunto era o teatro. Foi um semestre inteiro conhecendo e debatendo a dramaturgia desde a Grécia antiga até a sua expressão como arte contemporânea. Conversamos sobre os dramas de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, entre outros autores da antiguidade,  e chegamos aos contemporâneos com Ibsen, Ionesco, O´Neill. Passeamos ainda por toda a teoria teatral desde o modelo analítico aristotélico até as propostas inovadoras de Stanislavski e Augusto Boal. Lembro de uma discussão acalorada quando da apresentação do teatro artaudiano por um estudante aplicado que ficaria conhecido como escritor, Bernardo Carvalho. As aulas seguiam a proposta de seminários comandados pelos alunos. Apresentei com colegas as ideias técnicas do teatro anti-aristotélico de Bertold Brecht que conhecia mais pelo que dele falava e se utilizava em seus filmes Jean-Luc Godard, cineasta favorito na época, do que por um estudo aprofundado das obras do dramaturgo alemão. Além da paixão pelo teatro, Renato Cordeiro Gomes pesquisou a fundo a vida de Paulo Barreto, ou João do Rio, e o Rio de Janeiro da virada do século XIX para o XX. Tinha paixão também por Mario de Andrade. Um dia lamentou em classe o sumiço de um exemplar de “Macunaíma” todo anotado que possuía e que um aluno levara. Alunos acabam mesmo carregando os livros de seus professores, sempre entendi como uma circulação natural para algumas obras, mas exemplares anotados são inegociáveis. Durante a defesa de minha tese de doutorado, achei interessante convidá-lo para participar da banca, pois imaginei que seria uma oportunidade de ter um reencontro com um professor da minha graduação que fora inclusive paraninfo de minha turma. Fiz o convite também à Flora Süssekind, que infelizmente não pôde estar conosco. Renato participou da banca ao lado de Angélica Soares, Sônia Torres, Beatriz Resende e meu orientador Eduardo de Faria Coutinho. Todos se conheciam, eram muito amigos, e a defesa resultou em uma discussão extremamente enriquecedora. Depois de Miguel Pereira, Renato é mais um dos mestres que saem de cena cedo demais.

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Beatriz Resende, Angélica Soares, Eduardo de Faria Coutinho, Sônia Torres e Renato Cordeiro Gomes

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Aula de Jornalismo com Glenn Greenwald

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O comentário nas redes sociais nesta semana foi a canseira que jornalistas profissionais deram ao editor do site The Intercept Brasil, em entrevista no programa Roda Viva, por não entenderem noções básicas sobre as responsabilidades e os compromissos de um jornalismo feito com seriedade. Quem acompanha o site jornalístico de Glenn Greenwald sabe a trabalheira que é preparar as extensas reportagens que eles publicam e que sempre dão conta em profundidade dos assuntos em foco em suas investigações.

Glenn Greenwald no Roda Viva

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Ainda sobre a FLIP # 3

Screen Shot 2019-07-20 at 17.41.52Não dá para fechar esse apanhado sem fazer menção à programação educativa da Festa que tem papel muito importante em todo o evento, deixando com a população local e frequentadores um estímulo ao cultivo da leitura e do seu crescimento intelectual. Como exemplos, deve-se citar a Central da Flipinha, na Praça da Matriz, tenda circense com oficinas, contadores/mediadores de leitura, rodas de conversa e apresentações artísticas. Fundamental neste aspecto o papel da Biblioteca Comunitária Casa Azul que realiza atividades artísticas, literárias, educativas durante todo o ano. Há ainda a partir dela, a troca com a rede de bibliotecas comunitárias por todo o município. Antes do começo da Festa, a Casa de Cultura de Paraty realiza também encontros para aproximar estudantes e moradores da obra do autor homenageado. Um belo trabalho que mostra que não apenas da badalação dos intelectuais e artista que marcam presença no evento, como foi o caso esse ano de Zélia Duncan, Zeca Camargo, Edney Silvestre, Renata Sorah, João Moreira Salles, Luiz Schwarcz, Ney Matogrosso, Ruy Castro, Heloisa Seixas, Marcelo Barreto, vive a Festa Literária Internacional de Paraty.

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Ainda sobre a FLIP # 2

Screen Shot 2019-07-21 at 09.54.47Como todos aqueles que tem gosto por ouvir e participar de palestras e debates, sempre tive receio de ir à Flip, porque julgava que seria uma correria de uma mesa para outra com horário apertado para as refeições. O que de fato aconteceu. Acompanhando tudo de casa é possível escolher pelo menos a programação principal on-line de maneira mais organizada. A multiplicação de debates com as opções das casas parceiras como a da Folha, a do IMS, da Globo, do Sesc e dos barcos Holandês e da Flipei, tornaram a maratona ainda maior e mais fragmentária para quem esteve lá. Felizmente, algumas das que perdi, como as da Casa Folha, estão disponíveis no portal UOL onde podem ser vistas. A Flip costumava deixar todas as palestras da mesa oficial na íntegra em seu canal no youtube, mas este ano optou por disponibilizar apenas uns poucos encontros na íntegra e trechos curtos dos demais.

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Duas ativistas que fizeram sucesso durante a Festa Literária foram Marilene Felinto e Djamila Ribeiro. Marilene falou no sábado pela manhã na tenda oficial e Djamila Ribeiro teve uma mesa concorridíssima na Casa Folha ao lado do cronista Antônio Prata na quinta-feira. A discussão era a mesma, a importância da luta por políticas afirmativas em relação às mulheres negras. As palestras da tenda dos autores são pagas, mas saem por 60 reais (com meia-entrada para clientes Itaú, banco parceiro do evento).

Trecho da Palestra de Marilene Felinto

Para as mesas da Casa Folha são distribuídas senhas gratuitas com 140 lugares sentados. Caixas de som ficam viradas para o lado de fora e é possível acompanhar da parte externa da casa. Aos que forem, recomenda-se que levem cadeira de praia ou banquinho desmontável, muito úteis em todos os eventos.

Conversa entre Djamila Ribeiro e Antônio Prata na Casa Folha (clique aqui)

Djamila

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Ainda sobre a FLIP # 1

Screen Shot 2019-07-21 at 01.38.33Nas calçadas que circundam o Bryant Park próximas à belíssima e monumental Biblioteca Pública de Nova York, há placas em bronze com frases inspiradas e inspiradoras assinadas por escritores famosos como a americana Emily Dickinson, a inglesa Virginia Woolf, o francês René Descartes e uma do cubano José Martí que diz: “O conhecimento de diferentes literaturas liberta as pessoas da tirania de poucas”. É o espírito que vem norteando o programa oficial da FLIP que tem optado por diversificar seu leque de autores, procurando escritores de posições menos hegemônicas no mercado editorial e que ainda são pouco conhecidos pelo público, mesmo porque, muitos deles são estreantes.

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Nesta 17a. edição da Festa Literária, tivemos na quinta-feira, segundo dia depois da abertura na noite de quarta com Walnice Galvão, o burundinês Gaël Faye, compositor de rap e slam que trouxe seu romance de estreia “Meu Pequeno País” (Rádio Londres, 2019), sobre o genocídio e a guerra étnica em África, livro muito premiado na França onde vive – é filho de mãe ruandense e pai francês. Faye participou de uma mesa ao lado de outro músico, o angolano Kalaf Epalanga, que tem livros de crônicas (“Estórias para Meninos de Cor”, de 2011, “O Angolano que Comprou Lisboa (pela Metade do Preço)”, de 2014) e o relato autobiográfico “Também os Brancos Sabem Dançar” (Todavia, 2018), sobre o seu trânsito entre Benguela e Lisboa. A rodada com os dois teve mediação apropriada da ex-VJ da MTV Marina Person.

Gaël Faye fala sobre “Meu Pequeno País”

Kalaf Epalanga Comenta sua relação com a música e o funk brasileiro

Os dois são autores novos, Gaël Faye tem 36 anos, e Kalaf Epalanga, 40. O mesmo acontece com a israelense Ayelet Gundar-Goshen, 36 anos, e a nigeriana Ayòbámi Adébáyò, 31 anos, que estiveram na segunda mesa oficial de sexta-feira ao meio-dia. Gundar-Goshen tem dois romance lançados, “Uma Noite, Markovitch” (Todavia, 2018) e o inédito por aqui “waking Lions” (2014). AdéBáyò, um único livro, “Fique Comigo” (Haper Collins, 2018). Duas autoras novas, mas que já tem suas obras traduzidas em vários idiomas.

A Israelense Ayelet Gundar-Goshen 

A Nigeriana Ayòbámi Adébàyò

Em um encontro seguinte no programa oficial já na tarde-noite de sexta, foi a vez de mais uma estreante, a venezuelana Karina Sainz Borgo, que em “Noite em Caracas” (Intrínseca, 2019; “La hija de la Española”, no original, best-seller na Europa) narra de forma romanceada as adversidades enfrentadas na Venezuela de Chaves e Maduro, de onde saiu em 2006 para viver na Espanha.

A Venezuela Karina Sainz Borgo lê trecho de seu livro

O programa oficial seguiria à noite com a artista plástica portuguesa Grada Kilomba, com origens em São Tomé e Príncipe e Angola, e que escreve sobre memória, raça, gênero, pós-colonialismo. Grada, formada em psicologia e psicanálise em Portugal, é doutora em filosofia pela Universidade Livre de Berlim (summa cum laude, grau elevado de distinção acadêmica) onde mora. Combativa, tendo convivido com sobreviventes de guerra de Moçambique e Angola, é autora de “Memórias da Plantação” (Cobogó, 2019), que traz reflexões sobre suas conversas com mulheres que enfrentam a diáspora africana. Como artista plástica, já frequentou a Documenta 14, em Kassel na Alemanha, a Bienal de Berlim e de São Paulo e está apresentando até o fim de setembro na Pinacoteca paulista a exposição “Desobediências Poéticas”.

Grada Kilomba discute a normatização da violência contra a mulher com Lilia Moritz

Sempre politizada, a FLIP ofereceu ainda em seu programa oficial as mesas temáticas. Tivemos como de hábito a presença de uma ativista paratiense, Marcela Cananéa, representante do Fórum de Comunidades Tradicionais de Paraty, que reúne militantes de Paraty, Angra e Ubatuba, com um historiador paulista, Marcelo D’Salete, que pesquisa os antigos mocambos da Serra da Barriga, ou Quilombo dos Palmares, que estiveram na primeira mesa da manhã de sexta. De noite, fechando o dia, José Celso Martinez Correa esteve ao lado do indígena Ailton Krenak em uma conversa performática. Eles entraram na tenda principal às 20h30 da noite de sexta-feira, pouco depois da manifestação bolsonarista que aconteceu às 19h, importunando a palestra de Grada Kilomba na tenda principal e a de Gleen Greenwald no barco da FLIPEI ao ar livre, e fizeram uma pajelança boa para curar o clima carregado dos adeptos da truculência.

José Celso Martinez Correa e Ailton Krenak 

Cristina Serra, que trabalhou na Rede Globo, e o jornalista David Wallace-Wells, da New York Magazine, fecharam a noite de sábado discutindo mudanças ambientais e o desastre em Mariana (que a repórter cobriu em uma série de reportagens feitas para o programa Fantástico e que resultou no livro “A Tragédia em Mariana: a História do Maior Desastre Ambiental do Brasil” (Record, 2018)), assuntos com os quais os dois têm se ocupado e no qual o jornalista norte-americano é especialista. Na tarde de quinta-feira, José Miguel Wisnik já tinha palestrado sobre o impacto da mineração da Vale do Rio Doce em Itabira e o que isso se refletiu na obra de Carlos Drummond de Andrade. Suas especulações sobre o tema resultaram no livro “Maquinação do Mundo: Drummond  e a Mineração” (Companhia das Letras, 2018).

José Miguel Wisnik em Palestra da Tarde de 5a. Feira à tarde

Cristina Serra e a História do desastre da Mineração no Brasil fechando a noite de sábado

Nem todo bom palestrante é necessariamente um bom escritor, assim como o oposto também é verdade. Já vi autores que gosto muito fazendo palestras pífias e escritores por quem não nutro muita simpatia, se sairem bem palestrando. Da minha perspectiva ao menos, se os bons palestrantes vão te convencer a chegar ao livro é um assunto da alçada do imponderável.

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Début Flipeiro

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Foto de Cauê Ameni

Depois de anos acompanhando a Festa Literária Internacional de Paraty à distância via Internet, fui finalmente conferir in loco como acontece a movimentação do simpático encontro entre escritores e leitores. Cheguei em um momento em que a Flip, em sua 17a. edição, confirmou sinais de mudança que vinham se anunciando há um tempo. Em entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo, a inglesa Liz Calder, que já morou no Brasil e tem paixão por Paraty ainda que viva hoje no interior da Inglaterra, uma das criadoras e organizadoras do evento desde a sua primeira edição em 2003, comentou que a falta de recursos fez com que sumissem das rodadas da mesa principal estrelas internacionais que só viajam de primeira classe ou executiva e exigem hospedagem em hotéis caros. Assim não temos mais autores como Margaret Atwood, Elisabeth Roudinesco, Ian McEwan, Richard Dawkins, Enrique Vila-Matas, Salman Rushdie, Gay Talese, que causaram frisson quando de suas passagens por nossa quermesse literária no passado.

Se as mesas do programa principal, que acontece no auditório da Matriz (vem sofrendo queda em seu público pagante que tem optado compreensivelmente por evitar a sala fechada com seus exaustores barulhentos e optado por assistir às palestras na arejada tenda ao ar livre), deixaram de ser a atração mais importante, os encontros das casas e espaços parceiros da Flip cresceram de maneira exponencial (uma amiga, que vai todo ano, comentou que nunca viu Paraty tão cheia). O debate mais concorrido desta 17a. edição, por exemplo, foi sem sombra de dúvida aquele que reuniu na noite de sexta-feira Glenn Greenwald, Gregório Duvivier, Sabrina Fernandes, Alceu Castilho e Sérgio Amadeu no barco pirata das editoras independentes (Sabrina também teria uma conversa concorrida na manhã de sábado no mesmo lugar com o filósofo Vladimir Safatle).

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Ancorado de forma muito apropriada na margem esquerda do rio Perequê-Açu e reunindo editoras menores como Autonomia Literária, Boitempo, Ubu, Patuá, Relicário, entre uma infinidade de outras, o barco pirata da Festa Literária das Editoras Independentes (Flipei) virou um point obrigatório. Em seu convés oferecia livros em uma grande bancada e, em sua parte superior, palestras acompanhadas pelo público no gramado em frente. Nem a truculência dos bolsonaristas, com seus rojões, morteiros, som nas alturas, conseguiu comprometer o debate com o jornalista do The Intercept que chegou em cena cinematográfica, sendo ovacionado ao surgir inesperadamente pela foz do rio escoltado em uma lancha.

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Além da embarcação da Flipei, havia ali, bem próximo, o Barco Holandês que da mesma forma ofereceu bate-papo com autores. Ao longo da margem esquerda estavam situadas outras tendas com palestrantes, como a do Sesc, mais antigo ocupante do Areal do Pontal e que apresentou intensa programação com leituras, oficinas e intervenções artísticas. O onipresente Sesc tinha outros três espaços, uma tenda no bairro do Caboré, uma casa no Centro Histórico e uma unidade no Largo de Santa Rita.

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A exposição do caminhão-museu itinerante “Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964” ficou também instalado no Areal. Trata-se de um projeto do IMS em associação com o departamento de história da UFMG, com curadoria de Heloisa Espada e consultoria de Heloisa Starling, Ângela Alonso e Ângela Castro. O caminhão-museu reúne sala de exibição (em que se projeta uma animação sobre Canudos), monitores interativos e um ambiente para leitura. A exposição resultou em um livro belíssimo assinado por Heloisa Espada que era vendido na Casa do IMS. Só não veio na bagagem por causa de seu peso. O caminhão do IMS/UFMG estava na companhia da Kombi da Penguin/Companhia das Letras, da biblioteca-motorizada do Sesc e da livraria ambulante da Flipei montada em um ônibus escolar (daqueles norte-americanos) que circula por cidades exibindo e vendendo livros de editoras menores em seu interior.

A curadora desta edição da Flip, a viúva do jornalista Otávio Frias Filho, Fernanda Diamant, registrou no programa que saiu em caprichada brochura a luta para organizar um evento diversificado. “Montar uma festa como esta, compondo um espaço de múltiplas linguagens, voltado ao pensamento, à escrita, à arte, à crítica, à educação, é complexo”, escreveu depois de informar que teve a intenção de retomar temas euclidianos e atualizá-los. O que de fato aconteceu. Na palestra de abertura, por exemplo, Walnice Galvão se dedicou a falar sobre o autor escolhido como tema da Festa sem se esquecer de fazer uma ponte com o presente. Durante sua palestra, comentou a historiadora, uma das mais destacadas estudiosas de Euclides: “Enquanto o processo de modernização capitalista não terminar e não se passar para outra etapa histórica, “Os Sertões” tem que ser lido todos os dias para se entender o que está acontecendo com os pobres do país nesta guerra sem quartel que a nação promove”. Citou para embasar sua argumentação o genocídio de jovens negros na periferia de São Paulo, a militarização das favelas no Rio e os desastres de Mariana e Brumadinho.

A historiadora identificaria ainda nos movimento dos sem terra uma similaridade com o que foi a luta de Canudos e mencionou dois assentamentos que confirmam isso a partir do próprio nome com que se fizeram conhecidos: Nova Canudos, em Goiás, e Antônio Conselheiro, no Mato Grosso. São evidências da busca de  práticas que se assemelham às insurreições milenaristas e messiânicas como aquelas descritas por teóricos como Engels, Max Weber e Hobsbawn, segundo Walnice. Com a diferença, de que, enquanto os canudenses tinham uma atitude passiva na opção por viverem reclusos, os sem-terra invadem espaços do poder em um movimento ativíssimo.

Como resultado desta militância que encontramos em algumas palestras como a de Walnice e ainda na de Ismail Xavier, as falas afirmativas se fizeram presentes, mas confesso que não me tocaram tanto, embora tenham encontrado público cativo. Mais instigantes, e também claro sinal afirmativo, se mostraram os grupos de slam com seus happenings de improviso que aconteceram em espaços ao ar livre todos os dias e na Casa Globo no final da tarde de sábado. Os poetas dos coletivos de slam, que surgiram e vêm fazendo sucesso na Flip já há algumas edições, procedem a uma recuperação do espírito do rap, mas apresentam como elemento novo a opção de muitos deles pela publicação de seus textos-falados em livros.

Dentro da maratona de atividades, deu tempo ainda para conhecer pessoas como a empresária Samara Krauss da editora de livros Saber e Ler, de Campinas, que participava da Festa como empreendedora. Como ela, a Flip tem reunido donos de editoras pequenas que descobriram um ambiente de troca atraente para discutirem seus negócios na Casa Publishnews. O mesmo se deu na Casa Libre & Santa Rita de Cássia que reuniu autores, editores, ilustradores, tradutores e distribuidores, para pensarem a cadeia do livro. Vários, intensos e diversificados encontros para quem tem paixão pela escrita e por esse “objeto transcendente que podemos amar do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, como diz o poeta.

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Bons Momentos da 17a. Edição da FLIP

Walnice na abertura da mesa principal

Flipei, o muito concorrido espaço paralelo da Festa com Glenn Greenwald, Gregório Duvivier, Sabrina Fernandes, Alceu Castilho e Sérgio Amadeu

Mario Cesar Carvalho e Sérgio Rodrigues falam sobre “Os Sertões” (clique aqui)

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A poesia falada dos grupos de Slam na Casa Globo

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Lucas Afonso abre o verbo

Com a queridinha Lilia Moritz na Casa do IMS

Ismail Xavier e o “Deus e o Diabo” de Glauber Rocha

A Kombi da Penguin/Companhia das Letras

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Começou a Festa…

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Conversa de Livraria

Sérgio 6Sérgio Rodrigues, seguindo uma salutar praxe da qual é adepto e que está se tornando corriqueira, repetiu no lançamento de seu novo livro, “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 2019), o que havia feito com o “Viva a Língua Brasileira” (Companhia das Letras, 2016): um bate-papo antes da tradicional distribuição de autógrafos. No Rio de Janeiro, a conversa aconteceu na livraria da Travessa de Botafogo e teve mediação de Álvaro Costa e Silva – o Marechal, como é tratado em tom jocoso pelos amigos-, editor do saudoso Caderno Ideias (do igualmente saudoso Jornal do Brasil) e que hoje goza do privilégio de ser colunista da célebre página 2 da Folha de São Paulo (por onde passaram Cláudio Abramo, Clóvis Rossi, Otto Lara Resende, em uma lista de ilustres, e onde o jornalista marca presença em alternância com Ruy Castro).

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Álvaro lembrou a trajetória do autor que, com esta obra, soma três livros de contos (“O Homem que Matou o Escritor”, de 2000, e “Sobrescritos”, de 2010, são os anteriores), três romances (“As Sementes de Flowerville”, de 2006, “Elza, a Garota”, de 2008, e “Drible”, de 2014), além de duas seletas de escritos sobre a língua portuguesa e seus usos (“What Língua is Esta?”, de 2005, e “Viva a Língua Brasileira”, de 2016). Procedeu ainda a uma curta apresentação do novo lançamento que reúne, como nos antigos LPs de vinil, lados A e B.

O Lado A abre com o conto que dá título ao livro, que surgiu sugestionado por “O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (Editora Ática, 1982) de um xará do autor, o merecidamente muito cultuado escritor Sérgio Sant´Anna (professor de Sérgio Rodrigues nos tempos do curso de jornalismo na UFRJ dos anos 1980). Sempre achei que o encontro de João Gilberto com os Novos Baianos tivesse se dado no apartamento do grupo de músicos em Botafogo, mas para a imaginação do escritor tudo aconteceu no sítio da turma do “Acabou Chorare” em Campo Grande. “A Fruta por Dentro” é a “segunda faixa” e a inspiração por aqui é a Capitu em sua entediante noite de núpcias com o personagem casmurro de Machado. O escritor destaca a voluptuosidade da enigmática personagem do Bruxo para a alegria dos que não cansam de se entreter com a dubiedade da personagem de olhar dissimulado. Fechamos o lado A com “Vas Preposterum”, “um conto mórbido satírico” sobre a Inconfidência Mineira na definição de Sérgio Sant´Anna. De inspiração assumidamente bocagiana, deve-se adiantar.

Sérgio 9Ao elencar alguns tópicos para o bate-papo, Álvaro tocou na discussão sobre metalinguagem presente no Lado B do livro nas seções “Conselhos Literários Fundamentais”, “Cenas da Vida Zooliterária, Volume 1” e, esparsamente, nas tuitadas de “Breve História de Alguma Coisa”. Passagens em que há aquilo que Sérgio Sant´Anna classificou como “um verdadeiro tiro nas oficinas de literatura”. Sérgio Rodrigues acha que estamos tendo uma badalação excessiva em torno da carreira de escritor, que segundo ele não é essa maravilha toda, o que lembrou a célebre frase de Truman Capote que dizia que, ao te dar o dom da escrita, o Todo Poderoso te entregava também um chicote. Além da glamourização da prática, Sérgio Rodrigues mencionou as festas literárias em excesso e a bajulação dos autores que são tratados como estrelas. Não opinou sem ser questionado se a condição de diva deveria ser prerrogativa exclusiva das damas de salto alto do futebol.

Fechamos a noite comentando a “Terceira Margem” do livro, uma seção à parte com o folhetim “Jules Rimet, Meu Amor”, escrito para ser publicado seriadamente no Le Monde francês durante a Copa do Mundo de 2014. Foi quando a conversa migrou para nossas conquistas e fracassos, os campeonatos mundiais, a Taça erguida em 1970 e depois roubada e derretida, o vergonhoso 7×1 contra a Alemanha e a usurpação da camisa canarinho por uma facção política.

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Muitos amigos do escritor presentes. Mànya Millen foi e aproveitou para representar dois ausentes: Arthur Dapieve, que estava dodói, e Alfredo Ribeiro, preso no trabalho.  Na fila para as dedicatórias e selfies, Luiz Henrique Romanholli trouxe o prestigio do rock brasileiro oitentista, Joaquim Ferreira dos Santos, Arnaldo Bloch e Cora Rónai, o cumprimento e reverência dos ex-colegas de redação. Completando a festa, os amigos da faculdade, da vida e a família celebrando o talento do supercraque das letras.

Fotos de Clarissa Rodrigues, Daniel Turela e Carolina Landi

Ps. Correção – Tarra tão perdidão na companhia do narrador durante a visita ao sítio dos Novos Baianos que não dei a devida atenção a esta passagem: “O pessoal comentava com o João como tinha sido legal uma outra vez que eles se encontraram, parece que num apartamento na cidade.”  Sérgio Rodrigues lembra também que o sítio ficava em Jacarepaguá, o que põe por terra toda a minha fantasia sobre o “Swing de Campo Grande”.

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Sessenta Outonos ao Redor do Sol

61993603_411406779445017_5939035920270360576_nArnaldo Nudelman, ou Arnaud, ou ainda o Lacan da Lapa como alguns o andam tratando, é um amigo de mais de 40 anos de vida. Já falei sobre a doce figura neste blogue, mas acontece que, fim de semana passado, Arnaud completou 60 outonos passeando pelo planeta o que nos força a voltar a ele. Comemorou a data em grande estilo é bom que se registre. Escolheu muito apropriadamente os seus jardins suspensos da Glória para festejar o dia fazendo, com os seus amigos musicistas, uma recriação brasileira do espírito do rooftop concert dos Beatles.

AltoComo no condomínio onde ele mora, as 14 unidades são ocupadas predominantemente por consultórios e pequenas empresas, e poucos moradores vivem ali de fato, sendo que a maioria deles estava presente, foi  possível fazer a cantoria sem perturbar os vizinhos. A área de serviço nos fundos dos imóveis do Edifício Russell dá de frente para o antigo espaço de entulho e que agora é um jardim e horto ali criados por iniciativa do síndico inovador. Foi de frente para o horto, do alto do sétimo e penúltimo andar do prédio, que os músicos Marcelo Ceará, Miguel, Valmir, Lina e Lucy, passaram um repertório seleto de nossa mpb (Caetano, Luiz Melodia, Alceu Valença) em meio a composições autorais. Contaram ainda com a presença luxuosa do sax de Luciana, mulher de Sérgio, dedicado porteiro do Condomínio que ajudava orientando a movimentação dos convidados durante a festa.

Jardim

Lá de baixo, a platéia se deliciou com o show de talento dos músicos que tocaram durante fartas duas horas antes de subirmos para o parabéns pra você. Estavam presentes amigos e amigas que não se encontravam há anos. Tuca, Alexandra, Kátia, Helena, entre as ex-mulheres e ex-namoradas do anfitrião, amigos próximos como Bebeto Abrantes,  cineasta/roterista, Mário Fuks, que não tem mais o seu Volkswagen Blue e vive em Belzonte onde é professor da UFMG, Claudinho e Fernanda, Dario, Luca, as irmãs Danuza e Célia, a filhota, Alice, entre um grupo grande e animado. A pedido do aniversariante, terminamos com Raul Seixas, “tudo igual, vai ser exatamente o mesmo, quando você crescer”.

Meninas

Bebeto Mario

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