Talento Australiano

Courtney Barnett é uma super talentosa cantora e compositora que joga no time de Susan Sontag, mas, ao contrário da ensaísta, vive suas preferências afetivas sem traumas. Nascida em Sydney, completou 32 anos agora há pouco, no dia 3 de novembro. A apresentação abaixo, do ano passado, conta com a excelente e também talentosa multi-instrumentista inglesa Katie Harki (faz grande diferença ao vivo e infelizmente não tem aparecido nos shows mais recentes) e dos constantes músicos de apoio Dave Mudie (bateria) e Bones Sloane (baixo).

Show do ano passado em Chicago

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Sontag por Ela Mesma

Entrevista de 3 horas com Susan Rosenblatt

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Ainda sobre Susan…

Encontro no MIT com Penrose, Sontag e Wilson

  • O artista plástico Paul Thek reclamava muito com a escritora por conta do fato de Sontag querer teorizar sobre qualquer assunto. Um dia não se aguentou e disse: “Susan, pare com isso. Eu sou contra a interpretação”. Sontag adorou, “Contra a Interpretação” virou o título do primeiro livro da ensaísta.
  • É fato que Sontag é capaz de discorrer sobre qualquer assunto. Existe até um encontro documentado no MIT em que ela, Roger Penrose e Edward Osborne Wilson são desafiados a falar sobre 5 fotografias aleatórias. Susan se saiu com as ponderações mais inventivas (link na imagem acima). Certamente por isso, Herbert Marcuse, que morou durante o ano de sua chegada aos Estados Unidos na mesma casa em que Susan e seu primeiro e único marido viviam, comentava: “Ela é capaz de criar teoria sobre o ato de descascar batata”.
  • No final de sua carreira e antes de voltar ao derradeiro ensaio de “Diante da Dor dos Outros”, Sontag tentou convencer os incautos que sua verdadeira vocação era para a ficção e a tratar seus ensaios como arroubos de juventude. Parece ter ganho o entusiasmo pelo menos de seu mais novo biógrafo. Moser acha que ela produziu boa ficção e ensaios menos inspirados. Ainda bem que temos o direito de discordar.
  • Sontag mentia com certa frequência sobre questões pouco relevantes e a biografia revela passagens cômicas por conta desta idiossincrasia da escritora. Aqui em casa corre até o comentário jocoso de que ela era falsa até no nome com que ficou conhecida. Pegou de seu padrasto por achar que Rosenblatt, sobrenome de seu pai, expunha evidentes traços de sua ascendência judaica. 
  • “Camp” é um termo corriqueiro que até os bem jovens hoje reconhecem. Foi assunto do famoso ensaio “Notas sobre o Camp” de 1964 que é citado insistentemente por Moser em sua biografia. Traz a marca de uma escrita em que a inventividade supera a conceituação. Faz lembrar os ensaios de Ana Cristina Cesar.
  •  Foram 17.198 trocas de e-mails entre Sontag e seus amigos e conhecidos. Mensagens que, sob autorização, podem ser lidos por pesquisadores como aconteceu com Benjamin Moser. O que leva o fã a se perguntar como eles seriam redigidos. Até 2004, as redes sociais ainda não existiam, ou eram pouco difundidas. Mensagens eletrônicas eram o meio por excelência de troca de conversas digitais. Imagino que Sontag não seguiria o modelo de um amigo que curiosamente redige tudo em letra minúscula e sem acentuar as palavras. Talvez se parecesse mais com a redação de Flora Süssekind, tudo guiado por um autocontrole e rigor impressionantes em sua redação.
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Susan Lee Jacobson Rosenblatt no Divã do Dr. Moser

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Link para a resenha da “QuatroCincoUm”  (aberta para leitura)

Na tarde de quinta-feira dia 5 de setembro de 2002, a fila nos jardins que ficam aos fundos da Biblioteca Nacional era grande. Serpenteava os bancos de concreto à sombra das árvores e saía pela rua México afora indo parar não se sabe aonde. Aguardando para presenciar uma rodada do colóquio “Caminhos do Pensamento: Horizontes da Memória” com Susan Sontag, na sua primeira e imagino que única visita ao Brasil (palestra que a ensaísta faria ao lado do historiador Carlo Ginzburg), estavam um casal de fato, Cristiane Costa e Paulo Roberto Pires, um casal improvável, Gisele Sanglard e Claudio Cordovil, e uma alma solitária, este que vos digita. Desde as 10h da manhã, aguardava a entrada no auditório Machado de Assis lendo “A Metáfora Viva”, de Paul Ricoeur, que é uma pena não ter chegado às mãos de Benjamin Moser antes de ele escrever o seu “Sontag: Her Life and Work” (Ecco/HarperCollins; Ecco/HarperAudio, 2019).

Cristiane e Claudio, eu conhecia bem da turma de pós-graduação da ECO/UFRJ de uma cadeira ministrada pela professora Heloisa Buarque de Hollanda (que reunia mestrandos e doutorandos) e foi do Cordovil que veio o comentário ácido: “Nos Estados Unidos, Sontag não junta mais do que uns poucos gatos pingados para ouvi-la. Aqui é essa multidão”. A bem da verdade, Gisele, que imaginei fosse conhecida de todos para depois saber que ela havia entrado na conversa casualmente, estava lá para acompanhar o que o historiador Ginzburg tinha a dizer. Os outros, com pose depreciativa ou não, viviam o frisson de ver e ouvir Sontag de perto.

Lilia Moritz Schwarcz seria a mediadora da mesa e abriu os trabalhos com a classe costumeira. Lembrou que Sontag dispensava apresentações, mas que ela não iria perder em hipótese alguma a oportunidade de falar sobre a ensaísta convidada e passou a uma bela introdução. Sontag veio conversar sobre um livro que estava finalizando, “Diante da Dor dos Outros”, seu último trabalho em vida e que encerraria em grande estilo e num retorno ao ensaio, depois da ficção do romance “Na América”, sua trajetória de escritora (ela morreria dois anos depois, em dezembro de 2004). Tinha uma brochura de papéis à sua frente com marcações de post-it coloridos e passeou pelas muitas páginas impressas enquanto distribuía os costumeiros, incisivos e certeiros insights de sua verve ensaística. O livro era uma espécie de continuação atualizada para os tempos de imagens digitais e da nascente Internet do seu conhecido e ótimo “Sobre Fotografia”.

“Sobre Fotografia” foi o livro com que me aproximei pela primeira vez da obra da autora no começo dos anos de 1990. Além de escrever para O Globo, tinha um segundo emprego em uma produtora de vídeo em Laranjeiras e andava com o livro debaixo do braço. Durante esse período, Belisário Franca e Hermano Vianna estavam festejando o sucesso de “African Pop” e preparando um novo documentário sobre música baiana e caribenha. Em um dos intervalos da edição do documentário em uma roda de conversa que também incluía o editor de imagens e futuro artista plástico Sérgio Mekler, Belisário se desmanchou em elogios pelo livro de Sontag, que havia sido lançado em 1977 e que reunia os ensaios que a autora publicara na The New York Review of Books em 1973.

“Sobre Fotografia” saiu por aqui em 1983, Belisário já tinha lido, mas eu só vim a conhecê-lo nesta época. Virei freguês desde então e passei a tê-la como uma de minhas autoras-ensaístas prediletas. Tão logo Benjamin Moser anunciou o começo da pesquisa para a preparação da biografia, fiquei na expectativa pela história de vida de Sontag da qual já sabia alguma coisa por conta de seus diários, que, no entanto, não davam muita graça de ler em função de sua organização fragmentária (agora passaram a fazer todo o sentido do mundo).

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Foi uma sorte que parte dos responsáveis pelo legado de Sontag tenham escolhido Moser para cuidar de mais uma biografia da escritora. Já existem outras lançadas anteriormente, uma delas de Sigrid Nunez (“Sempre Susan: a Memoir of Susan Sontag”, Riverhead Books, 2014). A jovem Sigrid Nunez, hoje romancista, foi, na segunda metade dos anos 1970, secretária na convalescença do primeiro dos três cânceres pelo quais Susan passou. Conviveu tanto com a autora que acabou namorando David Rieff, único filho de Susan, com quem dividiu o mesmo teto. Viviam os dois e a sogra, que se empenhou muito para a aproximação do casal.

Atual editor responsável pela obra de sua mãe, foi David Rieff e sua tia e única irmã de Susan, Judith, que não andam se entendendo muito bem com a ex-esposa de Sontag, a fotógrafa Ana Leibovitz (com quem Susan viveu entre tapas e beijos de 1989 até a sua morte em 2004), que optaram felizmente pelo biógrafo de Clarice Lispector. Para o trabalho, franquearam todo o material pessoal da autora que foi adquirido ainda em vida pela Universidade da Califórnia em Berkeley (a primeira universidade pela qual Susan passou) por 1 milhão e cem mil dólares.

Aquisição que incluiu toda uma coleção de manuscritos com a qual nenhum dos biógrafos anteriores puderam contar. Papéis particulares e documentos reservados da autora: caixas com fotos, diários, faturas de hotel, cartas de amor, rascunhos de manuscritos (alguns inéditos), programas de ópera, tudo identificado como parte dos “Sontag Papers”. Até mesmo os computadores pessoais da escritora (um PowerBook 5300, um PowerMacG4 e um iBook) com um indiscreto acesso as suas trocas de e-mails (Sontag, que cuidou da transação de venda de seu legado, sabia que isso aconteceria quando fechou o acordo), estão entre as fontes das quais Moser pôde se valer para sua biografia.

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As resenhas já publicadas sobre o trabalho de Moser destacaram alguns pontos que merecem ser retomados. Como bem salientou o artigo da QuatroCincoUm, Moser realizou mais do que uma biografia intelectual, uma biografia de tom ensaístico, em um espelhamento ao que de melhor Susan fez em vida (só Sontag ao que parece discorda um pouco disso). Em artigo na Piauí, Alejandro Chacoff lembrou ainda as características do ensaísmos de Sontag, que oscilaria entre a erudição na citação de fontes (agora sabemos, construída à base do consumo de muita anfetamina numa repetição de prática cultivada por Jean-Paul Sartre) para comunicar ideias de fácil compreensão (Sontag chegou a se mostrar frustrada com o cineasta Don Levine que elogiou o “Sobre Fotografia” para ouvir da ensaísta nova-iorquina: “Mas não é tão bom quanto Benjamin, não é verdade?”).

O tom ensaístico que marca o lado novidadeiro do trabalho biográfico de Moser tem sido ao mesmo tempo motivo de algumas restrições. Lara Feigel, do The Guardian, disse que o biógrafo diagnostica os transtornos de Sontag com a linguagem de uma manual de psicologia. Parul Sehgal, do The New York Times, chegou a adquirir o “Adult Children of Alcoholics”, da psicóloga americana Janet Woititz (citada no livro), para concluir que a opção de Moser por querer explicar a personalidade de Sontag a partir do vício de sua mãe, Mildred, em bebida, não é defendida pela pesquisadora em sua obra.

Paulo Roberto Pires criticou por sua vez as avaliações sobre os posicionamentos políticos de Susan com relação a fatos históricos como a Guerra do Vietnã e a queda do Muro de Berlim. Segundo o resenhista, Moser retrata os posicionamentos de Sontag nestes momentos “com grandiloquência e simplificação que não fazem jus a seu estilo”. Eu poderia falar sobre a “Sontag como metáfora” de Moser (como destacou o excelente título da Ilustrada), mas não vale a pena ficar apontado mais problemas em um relato delicioso de ler. Um trabalho, que, como nos diz o escritor de “As Horas”, Michael Cunningham, na contra-capa do livro, tornou “difícil imaginar a vida de Sontag sem a narrativa que Benjamin Moser construiu em torno dela”.

77222442_570668920365623_6337346505787047936_nEstão lá os detalhes que ajudam a entender seu fragmentário diário, editado por seu filho em dois tomos até o momento. Há os pormenores muito bem esclarecidos sobre os encontros e a convivência com Thomas Mann, Herbert Marcuse, Jean-Paul Sartre, Andy Warhol, Roger Straus (o mais dedicado editor da autora) e Robert Kennedy. Ficamos sabendo ainda com precisão sobre a dificuldade da escritora em assumir sua homossexualidade e sobre os relacionamentos conturbados com a amiga Harriet Sohmers, a futura dramaturga María Irene Fornés, a atriz Carlotta del Pezzo e a fotógrafa Annie Leibovitz.

Moser também nos convenceu, e esse é um mérito exclusivo desta biografia, que “Freud: The Mind of a Moralist”, obra assinada solitariamente pelo primeiro e único marido de Susan, o sociólogo Philip Rieff, é em grande parte de autoria de Sontag e merece ter lugar entre seus escritos. Eles se conheceram na Universidade de Chicago quando ela contava apenas 17 anos. Ele a convidou para ajudá-lo em uma pesquisa sobre Freud e os dois pesquisaram, namoraram, casaram e tiveram o filho David. Mas foi Susan quem respondeu pelo trabalho intenso de “The Mind of a Moralist”. Esse fato marcou muito a produção subsequente da autora, como bem pontua ao longo do livro o autor de “Clarice,”  confrontando este livro e o restante da obra de Sontag.

Para encerrar, vale a pena citar a maneira como Benjamin Moser fecha sua dedicada biografia, mostrando a necessária reverência por Susan Sontag sem deixar de ser sincero com sua personagem e com sua trajetória de vida. Diz o biógrafo: “Aristóteles escreveu que a “metáfora consiste em nomear algo com uma designação que pertenceria a outra coisa”; e Sontag mostrou como a metáfora forma, e depois deforma o ser; como a linguagem pode consolar, e como pode destruir; como uma representação pode confortar e ao mesmo tempo se mostrar obscena; a razão pela qual até o bom intérprete deve ser contra a interpretação. Fez seu alerta contra as mistificação desencadeadas por fotos e retratos: incluindo aquelas assinadas por biógrafos.”

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Primeiro dia de Aula

School 3Exercício de aquecimento com a professora TatiSchool 4Prática com a banda do professor Nilo RomeroSchool 1Nos corredores da School of RockA imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em péSchool 2School 5School 7

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Uma Lágrima pelo Crab Man

Conheci o Renan Pitanguy de perto na convivência com a família Barroso, da qual fazia parte sua mulher Paula (irmã do meu amigo Jorge Barroso, que namorou durante muito tempo minha irmã mais nova). Que pessoa adorável, despojada, simpática e pronta pra ajudar em qualquer coisa. Tinha paixão pelo Jiu-Jítsu e pelo surfe. Além do convívio familiar, o encontrava também nas aulas de boxe do Clube Radar em Copacabana, que Jorge e eu frequentávamos mais pelo exercício físico de aquecimento do que pelos jabs e cruzados que se seguiam a ele. Renan era presença constante nas aulas do professor Tortinho, acompanhado por seu filho, o pequeno Fabrício, fruto do casamento com Paula Barroso. Ainda que se dedicasse às artes marciais, era das pessoas mais cordatas e tranquilas que vim a conhecer. Quando jovem, investiu muito dinheiro para realizar o sonho de ir ao Havaí, em época em que isso custava muito caro, para praticar o seu free-surfe. Visitou tanto o paraíso dos surfistas que acabou sendo apelidado pelos locais de Crab Man, pela maneira com que se posicionava em cima da prancha ao despencar dos picos de Sunset e Pipeline. Lutando contra as complicações decorrentes do implante de uma prótese no joelho, ele nos deixou ontem. Descanse em paz, querido Renan.

Rico de Souza entrevista Renan Pitanguy parte 1

Rico de Souza entrevista Renan Pitanguy parte 2

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“Blue”, Favorito de Renato Manfredini e de Muitos

Kami Maltz e Josh Turner recriam a antológica composição de Joni Mitchell

Mais um clássico de Mitchell pela dupla

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Benjamin Moser e os Bastidores de “Sontag Her Life and Work”

Entrevista com Brenda Wineapple na Universidade da Cidade de Nova York

Moser entrevistado por Bill Goldstein, do New York Times, na livraria nova-iorquina Strand 

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A Poeira Estelar de Woodstock

74265679_589119324960041_4717768128635863040_n.jpgFoi do motorista e hilário dublê de guia de excursão entre as cidades de São Francisco e Monterey que ouvi o comentário: “Woodstock foi realizado em prol de um ideário, festival de música de verdade no entanto foi o de Monterey”. Vou me abster de fazer uma avaliação comparativa entre as qualidades do Festival de Música Pop da costa oeste dos Estados Unidos, ocorrido em 1967, com o acontecido na fazenda de Max Yasgur durante aquela semana de agosto de 1969 há 50 anos atrás (mesmo porque muitos dos grupos que tocaram em Monterey apareceram também em Woodstock). Fico apenas com a observação do simpático guia que não deixa de ter seu fundo de verdade.

Para comentar o que de fato representou o espírito do festival de Woodstock, vou me valer de Camille Paglia, a aluna queridinha do recém-falecido Harold Bloom, de quem foi orientanda durante o doutorado na Universidade de Yale. Lembrei-me de Paglia em meio ao passeio pela obra ensaística de Susan Sontag, de quem Camille seria apontada por alguns como a sucessora (não acho que seja o caso, a despeito do trabalho dedicado da autora de “Vampes e Vadias” (Editora Francisco Alves, 1996)). Ainda que os escritos de Paglia sejam bem interessantes em razão dos ótimos temas que escolhe para abordar e da erudição com que os apresenta, entendo que as conclusões a que eles nos levam, a partir das digressões teóricas da autora, ficam a desejar, especialmente se comparadas em sua pertinência com o que Sontag conseguiu fazer com muito mais brilhantismo.

Mitchell interpreta sua versão intimista na BBC

Nas entrevistas e palestras, as coisas desandam de vez embaladas por seu jeito de falar corrido e sem pausas (já a vi defendendo a pena de morte como medida punitiva e dizendo que mulher que convida um homem para entrar em seu apartamento não pode querer se desculpar depois por qualquer coisa). Mas nas mais de 500 páginas de “Personas Sexuais” (Companhia das Letras, 1992), por exemplo, dá para se identificar uma Paglia erudita, ilustrada. As conclusões que tira do que comenta, cabe a cada um julgar em que medida procedem. O mesmo se repete no também interessante “Break, Blow, Burn” (Pantheon Books, 2005). Nele, Paglia analisa os versos de autores canônicos como Shakespeare, Blake, Yeats e contemporâneos como William Carlos Williams, Robert Lowell, Sylvia Plath, poetas aos quais recorria durante suas aulas na Universidade de Artes na Filadélfia, onde lecionou.

Para fechar “Break, Blow, Burn”, ela escolheu os versos de “Woodstock”, música composta por Joni Mitchell por ocasião do célebre festival. Defensora do ensino e da prática de leitura de poesia em voz alta em sala de aula, o que anda em desuso, Camille de início apresenta sua leitura particular e bem informada do poema. Comenta as referências ao Gênesis do poema e as ligações do trovador popular, que ganhou força nos anos 1960 na folk music norte-americana, com a tradição da poesia escrita. O cerne de tudo é, no entanto, uma abordagem que contrasta a famosa versão feita por Crosby, Stills, Nash & Young, que aparece no único trabalho de estúdio do grupo, o excelente “Déjà Vu”, com a registrada de forma intimista pela própria Mitchell no seu álbum “Ladies of the Canyon”, ambos os discos lançados em 1970.

Segundo Paglia, um poema confessional, melancólico e que retrata o festival a partir de uma visão pessimista foi transformado em um hino revolucionário celebratório pelo quarteto. Para a escritora, CSN&Y tratam os versos sem senso crítico, festejando de forma ingênua a contracultura hippie. Advoga assim a necessidade fundamental de uma voz feminina para interpretar o poema e apagar seu lado de congraçamento entre machos fazendo com que as sutilezas da letra pudessem desta forma serem percebidas.

Curioso é que Joni Mitchell, que teria tido caso com pelo menos dois dos integrantes do grupo (Crosby e Nash), fez a música especialmente para ela ser cantada durante o evento e queria estar no palco de Woodstock com eles. Já tinha mesmo apresentado a composição ao lado dos músicos e só não foi para Woodstock com o quarteto porque tinha agendada a gravação de um programa de TV na data e não haveria tempo hábil para retornar. Sabemos, porém, que nem sempre o autor é a pessoa mais indicada para interpretar sua própria obra. Fica a critério do leitor portanto a faculdade de exercer a liberdade que o ato da leitura propicia e decidir se as considerações de Camille Paglia são pertinentes ou não.

A versão de CSN&Y no álbum “Déjà Vu”

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Grunge, o Retorno

“Risco”, nova dos Mentals com Deb Babilônia

Publicado em Deb and the Mentals, Deborah Babilônia | Deixe um comentário