A semana passada se encerrou com a notícia do falecimento de Renato Cordeiro Gomes, professor da PUC-RJ durante quase a sua vida acadêmica inteira. Miguel Conde deu a notícia em redes sociais e um número grande de ex-alunos e colegas, como a filósofa Katia Muricy, deixaram seu testemunho sobre a convivência com um intelectual dedicado. Renato foi meu professor durante a graduação na década de 1980 no curso de Comunicação Social da PUC-RJ em uma disciplina cujo assunto era o teatro. Foi um semestre inteiro conhecendo e debatendo a dramaturgia desde a Grécia antiga até a sua expressão como arte contemporânea. Conversamos sobre os dramas de Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, entre outros autores da antiguidade, e chegamos aos contemporâneos com Ibsen, Ionesco, O´Neill. Passeamos ainda por toda a teoria teatral desde o modelo analítico aristotélico até as propostas inovadoras de Stanislavski e Augusto Boal. Lembro de uma discussão acalorada quando da apresentação do teatro artaudiano por um estudante aplicado que ficaria conhecido como escritor, Bernardo Carvalho. As aulas seguiam a proposta de seminários comandados pelos alunos. Apresentei com colegas as ideias técnicas do teatro anti-aristotélico de Bertold Brecht que conhecia mais pelo que dele falava e se utilizava em seus filmes Jean-Luc Godard, cineasta favorito na época, do que por um estudo aprofundado das obras do dramaturgo alemão. Além da paixão pelo teatro, Renato Cordeiro Gomes pesquisou a fundo a vida de Paulo Barreto, ou João do Rio, e o Rio de Janeiro da virada do século XIX para o XX. Tinha paixão também por Mario de Andrade. Um dia lamentou em classe o sumiço de um exemplar de “Macunaíma” todo anotado que possuía e que um aluno levara. Alunos acabam mesmo carregando os livros de seus professores, sempre entendi como uma circulação natural para algumas obras, mas exemplares anotados são inegociáveis. Durante a defesa de minha tese de doutorado, achei interessante convidá-lo para participar da banca, pois imaginei que seria uma oportunidade de ter um reencontro com um professor da minha graduação que fora inclusive paraninfo de minha turma. Fiz o convite também à Flora Süssekind, que infelizmente não pôde estar conosco. Renato participou da banca ao lado de Angélica Soares, Sônia Torres, Beatriz Resende e meu orientador Eduardo de Faria Coutinho. Todos se conheciam, eram muito amigos, e a defesa resultou em uma discussão extremamente enriquecedora. Depois de Miguel Pereira, Renato é mais um dos mestres que saem de cena cedo demais.


Beatriz Resende, Angélica Soares, Eduardo de Faria Coutinho, Sônia Torres e Renato Cordeiro Gomes



