Levou algum tempo, mas Morrissey parece que descobriu que seu verdadeiro nome é mesmo Veronica. Está lá no seu novo disco de estúdio, “Bonfire of Teenagers”, finalizado em Los Angeles neste primeiro semestre e que poderá ser adquirido por quem der o maior ou o menor valor de compra por ele como anuncia o site oficial do nosso poetinha (MorrisseyCentral). O ex-vocalista dos Smiths está livre de contratos com gravadoras e apresentado o repertório do novo álbum com suas onze faixas inéditas em sua turnê que corre os Estados Unidos. Os shows têm trazido músicas esquecidas como “Our Frank”, do favorito “Kill Uncle”, e “Let the Right One Slip in”, lançada apenas em compacto como lado B de “Tomorrow” (do álbum “Your Arsenal”), no tempo em que isso ainda existia (lá pelos idos de 1992). Desde a estreia solo com o “Viva Hate”, em 1988, ele soma agora quatorze discos de estúdio, treze de repertório autoral e um de regravações (“California Son”, não tivesse a prefeitura de Los Angeles decretado em 2017 o dia 10 de novembro como seu dia na cidade). “Bonfire” se segue ao meia-bomba “I am not a Dog on a Chain”, lançado pouco antes do início da pandemia, em março de 2020. Morrissey retomou a parceria com o guitarrista Alain Whyte que passou a substituir o permanente colaborador Boz Boorer nos shows. Depois da América, a excursão segue pela Inglaterra com Morrissey cantando como nunca. A última vez que o vi ao vivo foi em novembro de 2018 na Fundição Progresso e quem estava na plateia era o grande filósofo Roberto Machado, que nos deixou o ano passado. O “tradutor” de Foucault para leigos saiu siderado com a performance a que assistiu. O reaça Morrissey segue com imunidade às campanhas de cancelamento aqui em casa e quanto mais velho fica parece mais afiado na interpretação de suas composições.
Vivendo em Altamira, Eliane Brum narra em detalhe a situação atual da Amazônia
O crime hediondo que deu fim as vidas do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo Pereira no Acre, no município de Atalaia do Norte, próximo à região da reserva indígena do Vale do Javari, fez ver o grau de dedicação desses dois ambientalistas e defensores das grandes causas que são levados a se entregar com paixão a tudo que tanto prezam ainda que correndo muitos riscos. Por sorte, esse grupo é significativo e não costuma se intimidar com as ameaças e desconfianças daqueles que não simpatizam com sua luta e que chegam mesmo a antagonizar com ela. Fazem seu trabalho de forma discreta por opção própria. Seguem a trilha aberta por gente abnegada como Rondon, Roquette-Pinto, Lévi-Strauss, os irmãos Villas-Boas, Darcy Ribeiro e outros tantos.
A fascinação, o interesse e o empenho de Bruno Araújo Pereira pela preservação da floresta amazônica e dos povos originários que habitam aquela e outras regiões do país, alguns deles sem ter tido contato com o mundo incivilizado que os rodeia, é mais antiga e se prende à sua atuação como funcionário da Funai. Com o desmonte do órgão pelo governo Bolsonaro, Bruno foi levado a trabalhar na Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), ONG em que seguiu atuando até sua morte. Jornalista colaborador dos jornais The Guardian, The New York Times e Washington Post, Dom Phillips se mudou da Inglaterra para cá em 2007. Ficou tão fascinado pela natureza tropical que nunca mais voltou. Morando no Rio de Janeiro, apresentou a cidade e as belezas das serras e matas atlânticas do estado a companheiros jornalistas durante o período em que esteve por aqui, isso até se mudar para Salvador. Na terra natal de sua mulher, a baiana Alessandra Sampaio, preparava um trabalho jornalístico mais extenso, que viraria o livro “Como Salvar a Amazônia”, e dava aulas de inglês como voluntário para alunos de escolas da periferia.
O crime que todos acompanharam durante semanas em todas as mídias, ganhou destaque no noticiário por ter um jornalista estrangeiro entre as vítimas da ação bárbara, mas, como salienta uma conhecedora do assunto, a também jornalista Eliane Brum, que desde 2017 trabalha em Altamira como corresponde do jornal El País e colaboradora do New York Times e The Guardian, não se trata de caso isolado e sim de uma ação continuada que levou a vida de outros ativistas locais como Maxciel Pereira dos Santos, funcionário da Funai assassinado em 2019. Situação tensa que ameaça ainda outras lideranças como a de Erasmo Alves Teófilo, líder comunitário na região de Anapu, próxima à Altamira, na Amazônia paraense, lugar em que Dorothy Stang foi morta a tiros em 2005 por sua atuação em defesa das comunidades locais.
O Conselho Missionário Indigenista essa semana elencou, junto ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, outros ocorrências como a morte de Edivaldo Manuel de Souza, do Povo Atikum, em Carnaubeira da Penha, a cerca de 500 quilômetros do Recife, bem como o assassinato de indígenas da etnia Guarani-Kaiowá. Mencionou ainda o crime contra Alex Lopes e a invasão ilegal no último fim de semana pela Polícia Militar do território Guapo’y, em Mato Grosso do Sul. Incidente que vitimou Vitor Fernandes e deixou nove feridos por munição letal, dos quais um adolescente que permanece em cuidados intensivos.
Vim a conhecer o trabalho do Conselho Missionário, instituição ligada à CNBB, através do querido Paulinho Guimarães (Paulo Machado Guimarães), já mencionado aqui, que há mais de 30 anos se dedica a representar e defender como advogado do CIMI as causas de povos indígenas. São ONGs como a Univaja, instituições como o CIMI e jornalistas e fotógrafos desbravadores como Eliane Brum e Lucas Landau, filho do amigo Marcio França, que estão ajudando a trazer às claras o ímpeto genocida que tomou conta da Amazônia e de outras regiões conflituosas do país, especialmente sob o governo atual.
Nada como ter uma prima como a Marta Krieger com quem podemos conversar sobre um disco que Damon Albarn gravou no Mali com músicos locais. Ela também é fã de carteirinha de Albarn e queria porque queria ir ver o Gorillaz na noite de sábado no festival Music is the Answer (MITA) que, aqui no Rio de Janeiro, aconteceu no Jockey Club na Gávea. Ainda que compartilhe o culto a Albarn, um talento raro para a composição e um cantor como poucos, preferi escapar de um show de galera para me refugiar em um ambiente sossegado. Fui ouvir Tchaikovski interpretado pela Orquestra do Theatro Municipal sob a regência de Tobias Volkmann e assistir à montagem de “Lago dos Cisnes” com o corpo de baile da casa.
Havia a expectativa de ver o príncipe Siegfried do bailarino convidado e estrela demissionária do Bolshoi (por conta da guerra da Ucrânia) David Motta, novo contratado da Companhia do StaatsBallet de Berlim. O protagonismo na noite de sábado, no entanto, coube ao macaense Cícero Gomes que ficou com a incumbência de lançar ao ar, sob os olhares do bufão e do bruxo e tutor von Rothbart, a bailarina virtuose Márcia Jaqueline, que se desdobrou nos papéis das concorrentes Odette e Odile na busca pela atenção do futuro rei. Além de Cícero e Márcia Jaqueline, o bufão de Rodrigo Hermesmeyer ganhou a plateia sendo muito e merecidamente aplaudido. Rodrigo explorou, além de seus dotes de bailarino, seu muito particular dom teatral, o que encheu de vida o personagem.
Uma ida ao Municipal traz a chance de se aproveitar também o ambiente do Assírio, bar estilizado, onde os encenadores desta montagem, Hélio Bejani e Jorge Texeira, puderem fazer um palestra introdutória acerca das particularidades de “O Lago dos Cisnes” e sobre o que procuraram privilegiar na versão que assinam – reduziram as três horas do programa original para duas horas e pouco. Na sala de espetáculo houve ainda a chance de se contemplar mais uma vez a beleza da decoração que Eliseu Visconti preparou no começo do século passado para o friso acima do proscênio e para o teto. Com ingressos disputadíssimos e esgotados para muitas das sessões, registre-se o agradecimento à Sonja Figueiredo, da Associação Amigos do Municipal, por conseguir três lugares que restavam no balcão nobre.
Que coisa mais pequena e pouco inspirada foi a tal da “repercussão” da conversa que aconteceu entre Ciro Gomes e Gregório Duvivier na última sexta-feira. Os petistas afirmaram na TVPT, quer dizer, TV247, que o Gregório jantou o Ciro, o que já era esperado e previsível. De Ricardo Kotscho não poderia vir algo muito diferente. O ex-jornalista da Folha, que abandonou sua trajetória na redação em 2002 para ser assessor de Lula de quem é amigo há anos, seguiu a mesma linha e perguntou a seus leitores do “Balaio do Kotscho” no UOL se aquele debate era para rir ou para chorar. Isso, obviamente, depois de passar sua coluna inteira desqualificando Ciro Gomes. A campanha de Ciro na opinião de Kotscho é um fracasso, e contrasta com a bem sucedida candidatura do Grande Líder (acho que o colunista não prestou a devida atenção a uma das muitas observações importantes do Ciro: Lula, mesmo no auge de sua vida política, nunca ganhou uma eleição no primeiro turno).
Até mesmo os vlogues que tem tradição de isenção se juntaram ao coro para retratar o encontro como “grotesco” (Henry Bugalho) ou “constrangedor” (o Galãs Feios, de Marcos Bezzi e Helder Maldonado). Não sei se como um efeito destas avaliações, o Politizando de traço cirista de William Jacob chegou também a sugerir uma outra estrutura para o debate. Tudo conversa fiada. O que vimos foi um bate-papo, quente em alguns momentos, o que traz vitalidade ao confronto, entre duas pessoas que pensam o Brasil. Ah, se todos os candidatos fossem espontâneos e autênticos assim. Pessoas de verdade, mostrando suas franquezas e pontos positivos. E mais fundamental e acima de tudo, duas pessoas aflitas em debater e encontrar um caminho que traga algum alento e esperança para uma campanha presidencial que pode jogar o país em um buraco ainda maior do que aquele em que estamos.
O fato é que apesar de terem posições divergentes sobre como se deva dar o embate político no momento, os dois discutiram como amigos que se encontram em um bar e que discordam um do outro. Gregório está certo em defender a equipe de seu programa que faz um trabalho rigoroso e que foi atacada displicentemente no react cirista. Ciro por sua vez mostrou bem como o roteirista e apresentador parece estar tendo uma avaliação inexata sobre alguns dos aliados que se juntaram à sua campanha.
O Cabo Daciolo, por exemplo, que foi tratado como uma personagem folclórica nas últimas eleições presidenciais, tem tido uma atuação política ponderada e não deve ser desprezado como um parceiro no pleito deste ano, representante que é de uma parcela significativa do eleitorado (lembrem que Daciolo foi mais votado em 2018 do que Marina Silva). Temos ainda uma diferença grande entre o Daciolo e gente como Silas Malafaia e o Pastor Isidoro, por exemplo. Falar mal do Aldo Rebelo, ainda que tenhamos divergências com uma ou outra de suas posições no passado como naquele projeto de lei em defesa da língua portuguesa, é pura besteira do Duvivier. Aliás, o ex-militante do PC do B esteve no Canal Livre da semana passada e explicou direitinho qual a sua posição sobre comunidades indígenas já culturalizadas que querem se beneficiar do uso de suas terras. Ele viaja e conhece lugares em que o Gregório nunca esteve.
Se tivéssemos vários candidatos com as ideias e projetos de Ciro Gomes e que como ele se dispusessem a conversar com qualquer um sobre o que pensam e planejam para o país, a campanha presidencial apresentaria um outro viço e despertaria mais interesse nos eleitores. Deixo para fechar um segundo comentário de Henry Bugalho sobre o debate e que trata com seriedade jornalística o que pode ter representado a conversa entre Gregório Duvivier e Ciro Gomes. Lembrando que Ciro e Gregório concordaram pelo menos em um ponto. É preciso negociar até mesmo com os bolsonaristas arrependidos. O Brasil é um país politicamente complexo e soluções simplistas não nos levaram a lugar nenhum.
Como sou um cirista convicto e também um devoto de Gregório Duvivier, estou achando o máximo essa discussão toda sobre o meu candidato a presidente. Fico imaginando a inveja dos apoiadores de outros postulantes ao cargo máximo da República que vivem em tédio e torpor permanente com suas escolhas políticas. Que chatice sem fim foi aquele discurso cheio de platitudes e obviedades. E, pior de tudo, lido por alguém que tem recursos fartos e que portanto já poderia ter há muito pago um bom professor de português para lhe ensinar como melhorar sua oratória e como se lê com desenvoltura um texto escrito (aliás, conheço muitos professores batalhadores que vivem de dar aulas particulares e que aceitariam com gosto a tarefa).
O “GregNews” sobre o Ciro Gomes foi ótimo e o react do Cirão das Massas, na sua live das terças-feiras às 19h30 em seu canal no YouTube, não ficou atrás. O Greg não pôde ir nesta terça participar do “Ciro Games” ao vivo, porque grava seu programa neste dia, mas já confirmou que vai debater com o meu candidato, possivelmente no dia 26. Vai ser uma conversa animada, como são de costume as intervenções e confrontos públicos dos dois. Bem diferente de todo o bode humorístico e político que se vê por aí. Ao contrário da percepção de muitos apoiadores, como o empenhado William Jacob, que fazem parte da “turma boa cirista”, não entendo que o “GregNews” tenha sido depreciativo. Pelo contrário, apresentou as qualidades e problemas da trajetória de Ciro, pontuando tudo com humor na medida certa.
Houve um erro factual. Greg é muito bem assessorado pela competente economista Alessandra (Alê) Orofino, pelo jornalista Bruno Torturra (do canal Estúdio Fluxo) e por uma equipe séria de roteiristas, que podem, mesmo que eventualmente, cometer alguma gafe. Pelo visto não tiveram paciência, o que é justificável, de ler o que FHC escreveu em suas memórias sobre os bastidores do Plano Real. Mostraram também desconhecimento sobre o processo eleitoral no começo da abertura política. O erro grosseiro, no entanto, já foi corrigido em tuíte do próprio Greg e vai ser objeto de uma errata na edição desta sexta na HBO.
Assim como alguns ciristas não gostaram do programa do Greg, teve aqueles sem posição definida, como os Galãs Feios, que detonaram o react do Ciro. É claro que houve uma ponta de ressentimento desnecessário (talvez pela ausência do interlocutor) e em alguns momentos as críticas do Ciro não procederam – especialmente na defesa da religiosidade do Cabo Daciolo. Mas é bom lembrar que o GregNews também foi ácido em seu ataque por exemplo ao fato de Ciro ter trabalhado no Beach Park. É verdade que esse assunto nunca mais tinha sido aventado desde que apareceu em uma matéria da Folha de 10 de outubro de 1999. O que nos perguntamos é, qual o problema de se ir para Harvard e depois ser empregado pelo Beach Park? Como dizia meu pai, “pagando bem, que mal tem?”. A mulher do Ciro na ocasião, disse que testemunhou sua assiduidade ao trabalho e na live de William Jacob, do canal Politizando no YouTube, um dos ouvintes comentou:
Quanto a retirada da candidatura do Ciro postulada por Gregório, não concordo em absoluto com essa que parece ser a sua visão e, possivelmente, dos roteiristas do programa. Acho mesmo que o que ainda resta de democracia precisa muito da presença de uma alma viva neste mundo de zumbis. Se o Ciro é exagerado, muito bom que seja. Que continue assim. E se o Lula está preocupado com o segundo turno, ele que venha procurar negociar um plano de governo decente com quem pode ajudá-lo. Ou então que tente, com seu salto alto e sua empáfia, governar um país em uma vitória por um número irrisório de votos. Ah, e cuidado com os golpes pelo caminho. Boa sorte, companheiro.
Depois de ter se destacado como célebre crítico musical no começo dos anos 1980, momento em pôde presenciar entre outras efemérides capivarescas, o Zigue Zigue Sputnik colocar, nas suas palavras, “o último prego no caixão da música pop”, Pepe Escobar abandonou a crítica musical repentinamente e sumiu. A explicação, viemos a saber depois, era que, apesar de escrever com grande classe e competência, Pepe acabou sendo despachado das redações de jornais como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e de revistas como a Bizz, por conta da identificação de plágios em alguns de seus artigos. Daniel Piza chefe da área de cultura do Estadão, ao fazer em 2008 uma avaliação sobre os anos 80, época em que identificou “situações de picaretagem explícita”, escolheu o caso do jornalista paulista para exemplificar sua posição e aproveitou para externar o que pensava sobre o escriba: “Pepe Escobar, por exemplo, foi pego em vários plágios, muito mais numerosos que os de Jayson Blair. Na década seguinte, seguramos seu emprego até onde pudemos. Paulo Francis dizia que ele tinha talento e não caráter. Hoje o talento, limitado, sumiu; o caráter continua desaparecido. Esse tipo de jornalismo felizmente já não cola.”
Indesejado nas redações brasileiras, Pepe tratou de se entregar a um périplo pelo mundo vivendo em destinos tão variados quanto Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos (Los Angeles e Washington D.C.), China (Hong Kong) e Tailândia (Bangkok). Passou também a se dedicar a fazer reportagens e a escrever artigos sobre um assunto mais sério, geopolítica internacional, mudando completamente sua trajetória dentro do jornalismo. Entrevistou o líder afegão pró-Estados Unidos Ahmad Shah Massoud, pouco antes de seu assassinato pela al-Qaeda, e preparou artigos sobre diplomacia e a situação política em países como Irã, Iraque, China, Rússia, Estados Unidos e em regiões como o Oriente Médio, Ásia Oriental e Central, produzindo peças jornalísticas para sites como Asian Times Online, Sputnik, TomDispatch, OpEdNews e para emissoras como Al-Jazeera e Russia Today. Há alguns anos, vem publicando artigos e participando de coberturas dos sites The Saker e The Cradle. Seus textos também são traduzidos para o brasileiro Brasil247, espaço de propaganda petista disfarçado de canal jornalístico (pra quem sabe fazer conta, 2+4+7 dá 13). Ele aparece ainda nos podcasts do canal petista no YouTube (a TV247), onde comenta sua especialidade corrente: política internacional.
Em suas últimas lives para a TV247, o assunto foi obviamente a “Guerra na Ucrânia”, mais um dos lugares por onde Pepe Escobar peregrinou fazendo reportagens. Não dá para desqualificar por completo suas análises, ao contrário do que Pepe faz com tudo aquilo que segundo ele é produzido pela “sórdida mídia corporativa e hegemônica ocidental”. Pelo contrário, é extremamente pertinente o quadro que delineia sobre os laços da parte mais oriental da Ucrânia com a cultura russa, assim como suas observações sobre a importância de regiões separatistas como Luhansk e Donetsk e de cidades como Mariupol e Odessa (esta última central no desenrolar da Revolução de 1917) para a ex-União Soviética. Pepe também coloca em dúvida a pessoa de Volodymyr Zelensky, que virou um herói na mídia mundial, mas segundo ele é testa de ferro de oligarcas ucranianos e comanda um exército neo-nazista. Zelensky estaria fazendo tudo amparado por informações de inteligência fornecidas por experts americanos e se valendo de tropas mercenárias treinadas pelo Tio Sam.
Como se vê, em suas análises, que podem até ter um fundo de verdade, tudo se perde na caricatura do império do mal estadunidense e no desenho de seu poderio demoníaco fruto da ambição de controlar o mundo. É claro que a petistada delira com tanta fanfarronice. Com relação a Putin, por outro lado, ele não menciona nada sobre a perseguição e prisão de jornalistas, manifestantes, assim como o assassinato de opositores. Para ele, o sempre eficiente exército russo está na Ucrânia apenas respondendo às ambições expansionistas do “Natoquistão” e deveria, de acordo com o primeiro de seus podcasts sobre o assunto, dar cabo da missão em pouquíssimo tempo (a invasão russa já dura 20 dias, é bom lembrar). Na TV247, pelo que se depreende dos comentários, este tipo de defesa das atrocidades de Putin fazem o maior sucesso. É a apologia de um ditador e de uma Rússia que na fantasia de certa ala da esquerda ainda é a União Soviética antes da virada de Iéltsin nos anos 1990 na companhia dele próprio, o novo czar russo na linhagem de Ivã, o Terrível (mais até do que a dos Romanov), Vladimir Putin.
O jornalismo, quando praticado com seriedade, se ressente de pontos de vista divergentes. O MyNews, por exemplo, coloca lado a lado duas visões diferentes sobre a invasão da Ucrânia. Pedro Doria, do Meio, e Filipe Figueiredo, do Xadrez Verbal, têm posições bem distintas sobre as democracias no mundo de hoje e seu papel na briga a que assistimos. Nem por isso, deixam de serem confrontados em um debate construtivo. Mas é claro que para muitos, o MyNews é representante da “sórdida mídia corporativa e hegemônica ocidental”. Vão gostar de clichê assim na China.
Pavlo e Luba orgulhosos de seu modestíssimo apartamento
Mapa da Ucrânia
Pavlo e Luba falam ucraniano e vivem na parte ocidental da Ucrânia, na região de Kiev. Mesmo as imagens de áreas rurais vistas no vlog “Pavlofromukraine” são pela vizinhança. Bem distinta é a realidade de Svetlana (Sveta) Davydova que conheci em um grupo de literatura há uns dez anos. Ela vivia em Dnipro, falava russo, inglês, francês e dizia que compreendia ucrânio, embora não fosse fluente no idioma. Dnipro fica perto das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk e pelo que percebo tem uma população com laços culturais fortes com a Rússia. Ainda assim, Sveta admirava a literatura de traço ocidental de um Scott Fitzgerald e mesmo de um autor contemporâneo como Haruki Murakami. Apresentei alguns contos de Nelson Rodrigues e ela achou clichê demais. Embora apreciasse a literatura ocidental, sua cultura musical ficava com os grupos de música pop russos. Vivia com a mãe e um filho em um apartamento e reclamava que as vezes chegava tarde de seu trabalho em um banco e tinha que se deparar com a falta de água em casa, ainda que estivesse com as contas em dia. A diversão era visitar Kiev e suas atrações turísticas, como a belíssima catedral de Santa Sofia ou, com muita luta, conseguir um visto para ir à Europa. Mandei um e-mail perguntando como estavam as coisas com ela e sua família. Mas ao que tudo indica, ler correspondência é a última preocupação dos ucranianos no momento.
Sveta, em Kiev, visitando o jardim botânico e as belas catedrais de Santa Sofia e São Miguel
Vladimir Pv, que participa de um de meus grupos de natação no FB, fugiu de Kiev e já se encontra em território polonês. Conseguiu até um lugar para nadar, mas segue preocupado com parte de sua família que ficou para trás. Pavlo, seus pais e Luba permanence na capital da Ucrânia de onde não pretendem sair mesmo com sinais evidentes de que militares russos preparam um criminoso ataque à cidade.
Somando quase três centenas de pessoas entre mortos e desaparecidos, Petrópolis vai tentando superar o momento difícil com o apoio de donativos e muito trabalho voluntário, iniciativas que ajudam a contornar o drama que vive a cidade. Diversas igrejas, condomínios no Rio de Janeiro e na própria cidade serrana e até mesmo um clube de futebol como o Botafogo estão mobilizados para dar algum amparo aos petropolitanos que sofreram com as consequências de mais um evento meteorológico extremo. Depois da enxurrada sem precedentes de terça-feira, a maior ocorrida na história da cidade desde que dados sobre fenômenos naturais são coletados, a chuva felizmente diminuiu sensivelmente o que é um bom sinal. Torçamos para que o sol chegue na semana que entra trazendo um pouco de conforto para a população local.
Paróquia de São José da Lagoa no Rio de Janeiro mobilizada em solidariedade
Condomínios sensibilizado com o drama de Petrô
Quedas de árvores e estragos por todos os lados
Pontes com muretas danificadas
A cidade tentando se recuperar
Os alertas que marcaram a semana seguem para evitar novas tragédias
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.