Cidão Sá Freire na maior Pose. Festejaríamos seus 89 anos ontem

Bebelu Sessentona
Invicto desde o início da pandemia, hoje cedo fui pra fila do drive thru do Downtown para fazer o teste rápido. Segunda-feira tive febre leve, dor no corpo e coriza, mas na terça já estava me sentindo melhor depois de meia dipirona. Com três doses de vacina (duas de AstraZeneca e uma de Pfizer) e também imunizado contra influenza, madruguei esta manhã determinado a realizar o meu terceiro teste do período pandêmico e constatar mais uma gripe (tive duas brevíssimas). Para surpresa minha, era ela mesmo, a covid. Super leve e tranquila. Ao que tudo indica, irá embora amanhã. Sou mais cuidadoso do que a maioria das pessoas que vejo, especialmente na escolha de máscara e no trato com superfícies. Talvez tenha pego no supermercado ou na piscina (únicos lugares públicos que ainda frequento; ainda que as raias da ABM estejam bem vazias neste período de férias). Ou, possivelmente, em uma visita a Petrópolis semana passada.
Tentando sobreviver aos 25 metros de borboleta na piscina vazia da ABM semana passada

Um dos autores com o qual me ocupei muito em 2021 foi Tony Bellotto. Já tinha lido alguma coisa, mas passei em revista os dez livros que ele publicou. A constatação foi a de que temos um dos escritores menos reconhecidos da geração que está na casa dos 60 anos agora. Bellotto nunca levou prêmio algum, nem mesmo um Jabuti para colocar na estante, o que parece uma injustificável falta de consideração por parte de críticos e de seus pares. Talvez seja o estigma de não ser um escritor em tempo integral, já que ele é guitarrista dos Titãs. Pura besteira, Bellotto tem mantido uma regularidade na entrega de suas obras que poucos autores que se dedicam exclusivamente ao oficio conseguem apresentar. Sempre narrativas inovadoras, variadas, escritas com capricho, e até mesmo com uma boa dose de virtuosismo.
Seu personagem mais conhecido é o detetive Bellini, ao qual foram dedicados quatro de seus livros. São uma série de aventuras detetivescas que seguindo o modelo do gênero acabam cativando aqueles leitores que apreciam temas, situações e detalhes recorrentes, artimanhas com as quais os escritores gostam de marcar seus protagonistas para que façam a alegria daqueles que acompanham o desenrolar de suas tramas. Foi assim que convivi com interesse com Remo Bellini nos momentos de reclusão em seu apartamento no coração de São Paulo, invadido permanentemente pelo barulho da Paulista, nas idas ao bar Luar de Agosto na vizinhança para o café da manhã de pão com salame e queijo provolone (lugar em que fomos atendidos pelo observador e galhofeiro Antonio (e depois por seu filho)), ou batendo ponto no escritório da Agência Lobo de Investigações no Edifício Itália, espaço invariavelmente tomado pelo som dos violinos de Paganini e pela fumaça das cigarrilhas Tiparillo da chefona Dora.
São todos livros deliciosos. Nos levam do tema do espiritismo kardecista de “Bellini e os Espíritos” (Cia das Letras, 2005) a uma trama interiorana rocambolesca envolvendo dois irmãos de uma dupla sertaneja de Goiás, encontrada em “Bellini e o Labirinto” (Cia das Letras, 2014). Ou ainda ao basfond dos inferninhos e da prostituição de “Bellini e a Esfinge” (Cia das Letras, 1995). Todos, sem exceção, incensados por refinadas referências à tradição da cultura mitológica e literária gregas com diálogos espirituosos e frases matadoras. Bellotto não se cansa em encontrar um achado burlesco, chistoso, trocista, para concluir as ótimas e hilárias trocas de falas, assim como os pensamentos, de seus personagens.
Da saga de Bellini, o meu favorito é “Bellini e o Demônio” (Cia das Letras, 1998), segundo da série, que abre com citação do “Fausto” de Goethe e tem um especialista em demonologia no meio do caminho, não fosse Bellini um viciado no blues de Robert Johnson. Muito inventiva a busca por um manuscrito perdido de Dashiell Hammett (Hammett só escreveu quatro livros em vida; a interrupção em sua obra é um mistério para os cultuadores de seus escritos) que supostamente estaria no Brasil e que traz Bellini e um investigador americano ao mundo do Copacabana Palace, do Country e do Jockey Club do Rio de Janeiro. Os leva também ao subúrbio carioca de Parada de Lucas e a Teresópolis. Tudo entremeado por pistas plantadas por aquele que talvez seja apenas um colecionador de antiguidades ou um vigarista inescrupuloso. A procura pela obra perdida do criador do Continental Op, de Sam Spade e de Ned Beaumont, é intercalada pela solução de um crime com uma colegial paulistana encontrada sentada na privada do banheiro do colégio com a calcinha nos calcanhares e um tiro na testa (imagem que não foge ao pensamento de Bellini).
Pela leitura de suas obras, vemos que Bellotto tem paixão pela literatura ainda que não demonstre interesse por teoria literária, como aqueles escritores que gostam de, seduzidos por um conhecimento teórico profundo do assunto, tentar arriscar inovações crípticas. Vi, dentro da pós-graduação em ciência da literatura, pesquisadores investindo pesado na leitura de obras complexas de filósofos como Heidegger, Foucault, Derrida, para investigar obras de alguns literatos e deixando esquecida a tessitura pura e simples dos livros. Bellotto trafega no sentido inverso. Menciona e se aproxima de criações literárias em profusão e sem exibicionismo, como expressão, ao que tudo indica, de um fascínio pelo prazer de fruir as obras em si mesmas.
Minha única ressalva em relação às suas tramas é a de que, como leitor, gostaria de ver Bellotto abrindo mão da obrigatoriedade por inserir um crime em todas as suas narrativas e investindo abertamente por gêneros diversos daqueles que o tornaram um escritor conhecido pelos aficionados por literatura policial. Obras como “Machu Picchu” (Cia das Letras, 2013), “No Buraco” (Cia das Letras, 2010) ou “Lô” (Cia das Letras, 2018), por exemplo, não precisavam que aparecesse no meio da trama um crime. São narrativas que mostram que o autor tem lastro para investir por outros gêneros, como aqueles que optam por traçar exclusivamente um rico retrato da dimensão psicológica dos personagens e que exploram as relações afetivas, bem como incidentes que espelham o cotidiano (elementos que, na verdade, já são muito trabalhados e fartos em seus livros).
O anfitrião do saudoso programa “Afinando a Língua”, do canal Futura, também demonstra interesse por idiomas e a manifestação de suas extravagâncias, bizarrices e originalidades. O jockey aposentado e esquecido em uma clínica de Parada de Lucas só guarda na memória uma palavra para rememorar o auge de sua vida profissional: “Citilóf”. Que palavras em inglês poderiam se esconder na paixão do personagem Ervilha pelo nome de sua gloriosa montaria? O adolescente de “Machu Picchu” diz coisas como “Tu veio jantar hoje?”, apenas como gozação com o papai-sabe-tudo-da-família, para depois conjugar o verbo vir no pretérito perfeito sem titubear. O mesmo rapaz conversa com um Onipresente, Onisciente, Onipotente imaginário que se dirige a ele repetindo a última sílaba das palavras, “Porque Deus fala com eco, todo mundo sabe” e com “delay em três tempos”. No começo de “No Buraco”, a argumentação de um pretenso linguista tomando sol em Ipanema é para convencer o interlocutor que a palavra “boceta” deva ser escrita com “u”. Segundo ele, “o o não carrega o calor, a umidade e os aromas do u“, por isso ele desconfia de escritores que escrevam “boceta”. Como dá pra notar, os livros do cultuador de Bukowiski e Henry Miller são pra gente grande e escritos sem filtro.
“Os Insones” (Cia das Letras, 2007) e “Dom” (Cia das Letras, 2020), mais recente obra do escritor (virou série televisiva produzida pela Conspiração para a Amazon), são romances quase irmãos e tratam da realidade e da violência presentes entre a Zona da cidade do Rio de Janeiro e suas favelas. Fico com o primeiro deles, pois prefiro a fabulação livre e desimpedida e não me agrada tratar fatos reais com a pátina da ficção. E isso vale para o “Elza, a Garota”, de Sérgio Rodrigues, para o “Agosto”, de Rubem Fonseca, entre outros tantos. Enfim, são as manias e idiossincrasias de um leitor.
Bellotto me fez dedicar um bom tempo à literatura policial. Depois de passar por seus livros fiquei seduzido por frequentar o filão e o resultado disso é que o leitor deste blogue corre o sério risco de vir a se envolver em novos crimes em uma postagem futura. Garanto no entanto que já não haverá mais o perigo de ser alvo da antiquada Beretta 9 milímetros de nosso herói.


Miragem: Rogilson (bateria), Haroldo (guitarra, vocais e pandeiro), Andrelton (baixo), Fabinho (vocal e guitarra solo) e Marcelinho (vocais e guitarra de apoio)
Da história de Paul Weller, narrada na biografia “My Every Changing Moods” (Omnibus Press, 1996), de John Reed, ficamos sabendo que o The Jam ganhou esse nome, porque era assim que os ensaios do começo do grupo eram chamados pela vizinhança que comparecia à porta da casa dos Wellers para ver os garotos tocarem. Lendo a passagem, lembrei-me que uma jam semelhante acontecia durante o período de veraneio na casa da família de meu pai em Petrópolis (um condomínio dividido por dez tios e respectivos filhos reunindo mais gente do que o Maracanã em dia de final). E de maneira idêntica havia uma plateia para aplaudir a performance do grupo que se chamava Miragem.

A banda era formada por meu irmão, André (Andrelton) Pedrosa (fã de Queen e The Who e, no futuro, um radical devoto da primeira banda de Weller, tão devoto a ponto de ter os versos “Kick out The Style, bring back The Jam” como os mais bem pensados da história do British pop), dois de meus primos, os irmãos Rogério (também conhecido como Roger, Rogilson ou Gerinho) e Haroldo Ferreira de Souza, e Marcelo Crelier e Fabio Rizental. Apenas estes dois últimos, amigos do Andrelton no colégio Sacré-Coeur de Marie em Copacabana, seguiriam profissionalmente como músicos. Marcelo Crelier seria integrante como baixista da banda Inimigos do Rei e Fabio Rizental teria uma carreira extensa participando de várias bandas que se apresentavam na noite até trilhar seu caminho solo tocando seu jazz fusion com gente consagrada como Wagner Tiso.



O repertório era basicamente de músicas dos Beatles (“Day Tripper”, “Taxman”, “Love me Do”, “She Loves You”), do The Who (“My Generation”, “The Kids are All Right”), dos Stones (“Under my Thumb”, “Satisfaction”), mas havia também as composições autorais assinadas por Fabio Rizental e Marcelo Clerier (“Sonhar” e “Verdes Mares”). Meu irmão tocava um baixo Giannini preto, cuja plaqueta de identificação do instrumento seria devidamente levada para um passeio a Londres, de onde voltaria no corpo de um Rickenbacker para enganar a alfândega. O sonho de baixista com Rickenbacker seria depois abandonado com a venda do instrumento para o virtuose Odeid Pomeranblum (Lobão e os Ronaldos) e com o embarque na tentativa de ser empresário do grupo brasiliense Heróis do Dia. Hoje, Andrelton tem uma empresa de representação de produtos médicos. Haroldo é funcionário da Petrobras e Rogério, controlador de voo. Para vermos que nem sempre tudo acaba necessariamente em música.






Chuva constante e tempo nublado somados a um equipamento de aquecimento de água quebrado dão nisso: piscina e raias vazias e na temperatura ideal








Há um bom tempo dei por encerrada aquela farra de presentes de Natal. Sobraram algumas lembrancinhas especialmente para os sobrinhos e umas recordações simbólicas. Por conta disso, aproveitei a pequena trégua da covid e o velho e bom passeio até Búzios, para fazer uma visita à lojinha The House of Rock & Roll em um shopping no final da rua das Pedras, onde encontro inevitavelmente um regalo apropriado para cada um dos quatro sobrinhos que tenho (dois deles do primeiro casamento e dois de duas de minhas irmãs que se aventuraram pela odisseia de ter filhos). A loja sobreviveu bravamente à pandemia e continua em pleno funcionamento, o que é um sinal de alento em tempos de economia aos frangalhos.
Para minha alegria, esse ano ganhei como um recuerdo de uma interneteira que mora aqui em casa, uma assinatura do Spotify, algo que não iria adquirir nunca por conta própria. A era do streaming é um marco ecológico civilizatório para o mundo e varreu da face da Terra todo o lixo comercial e industrial que alimentou e fez a delícia da Geração Coca-Cola e das anteriores. O app do Spotify veio calibrado para uso com vários artistas de suposto interesse e entre os nomes foi inserido um The Jam pela fã da turma Mod old generation. Ao The Jam os algoritmos atrelaram imediatamente Style Council e Paul Weller. Passei desta maneira a ouvir coisas que tinham sumido completamente de minhas memórias, assim como muitas outras novíssimas. Confesso que não sabia que Weller segue lançando discos com extrema regularidade e já soma 16 trabalhos individuais desde o primeiro, em 1992.
Paul Weller com Leah, do casamento com Dee C Lee, a primeira de seus oito filhos, co-autora com o pai de “Shades of Blue”, música do disco “Fat Pop” do ano passado
Engraçado que vendo uma apresentação de mister Weller, gravada no Ópera de Sydney por ocasião do lançamento do album “A Kind Revolution” (2017), seu antepenúltimo projeto, fiquei surpreso ao constatar que muitas composições novas e desconhecidas eram tão boas que não davam saudade das antigas. Aliás, o repertório antigo raramente entra nos shows. As apresentações mais longas contam com uma “Carnation”, “A Town Called Malice” (em sets acústicos, com “That´s Entertainment” e “English Rose”), do The Jam, e “My Ever Changing Moods” e “Shout to the Top”, do Style Council, nada muito mais que disso.
Weller fala sobre paternidade com Jonathan Ross
Do Spotify fui à estante de biografias onde encontrei o “Paul Weller, My Ever Changing Moods” (Omnibus Press, 1996), do jornalista musical John Reed, da revista inglesa Record Collector, que adquiri em 1997 durante viagem à Inglaterra, viagem essa que tinha como um de seus propósitos ver Blur, no Brixton Academy, Oasis, no Wembley Arena (hoje, O2 Arena) e Foo Fighters e The Cure, os dois últimos no Shepherds Bush Empire. Nunca tinha lido o livro. Sabia que John Weller, pai do compositor, foi durante sua vida inteira único e exclusivo empresário do fundador do Jam, mas desconhecia o seu passado de taxista casado com a faxineira Ann Craddock na cidade dormitório de Woking, próxima de Londres. Achava que aquela preocupação toda com roupas e aparência só poderia vir de um aluno do Eton College e não de alguém que frequentasse a Sheerwater Secondary School.
John Weller tentou empurrar o filho em várias direções. Montou um time de futebol para o garoto e, como era um apaixonado por música, assim como sua mulher, deu uma guitarra para o pequeno Paul, tudo para vê-lo desanimado para entrar em campo e largando o instrumento para que acumulasse pó embaixo da cama. Isso apesar de Paul Weller já ser um fã de Beatles, Small Faces e Kinks. Depois de conseguir um amplificador para plugar a guitarra, algo quem ninguém na casa imaginou que fosse necessário, e de conhecer aquele que se tornaria um bem mais talentoso instrumentista do que ele na pessoa de Steve Brookes, Weller começou a ensaiar com o amigo em seu quarto já criando suas próprias composições desde o início.
Com Brookes assumindo a guitarra, (Paul Richard) Rick Buckler as baquetas e empunhando um Höfner semelhante ao do então cultuado Paul McCartney, baixo pelo qual trocara sua guitarra, Weller ficou com a posição de baixista nas sessões de improviso, as jams como todos as chamavam. Do quarto de Paul, elas passaram a acontecer na porta de entrada da casa dos Wellers, com a vizinhança como plateia. John Weller, atento à movimentação do filho, não tardou a agendar as primeiras apresentações em pubs e clubes locais. Quando o nome The Jam, a maneira como todos se referiam aos ensaios, foi aventado para a banda, a irmã de Paul Weller, Nicky, não tardou em lembrar a propriedade da escolha. Durante um café da manhã comentou que se havia um grupo chamado Bread, outro denominado Marmalade, nada mais natural que um Jam viesse se juntar a eles. Pouco depois, o ocupado Steve Brooks sairia do grupo e Bruce Foxton entraria de começo como guitarrista e em seguida como baixista.
“Speak Like a Child”, com título inspirado em tema jazzístico de Herbie Hancock
Das músicas do The Jam fico com as da fase final do grupo (“The Bitterest Pill”, “A Town Called Malice”, “Precious” e “Beat Surrender”) que já prenunciam o que viria com o Style Council. Caramba, como são boas as músicas do Style. Divertidas, bem humoradas, e ficavam especialmente hilárias nos clips dirigidos por Tim Pope. “Speak Like a Child”, “Shout to the Top”, “Solid Bond in Your Heart”, “Long Hot Summer”, “My Ever Changing Moods”, a lista é grande. Depois do namoro com o jazz de Herbie Hancock, com a cultura francesa e com a bossa nova, que o levou a cantar “Garota de Ipanema” com Tracy Thorne, do Everything But the Girl, veio o disco “Café Bleu”. Weller andava cansado com as músicas como hinos de torcida dos tempos do Jam que levavam os shows a se encerrarem como celebração de fim de jogo de futebol. Passamos assim as composições de acento cool e às músicas engajadas com toques de soul music, paixão que já aparecera na fase final do Jam nas versões ao vivo dos clássicos de Curtis Mayfield, Sam Cooke e Ray Charles. A soul music americana funcionaria como inspiração para composições autorais como “Money Go-Round” e as dançantes “Walls come Tumbling Down” e “Internationalists”.
“Walls Come Tumbling Down”, da fase engajada de Weller quando participou de eventos beneficentes e de apoio a causas sindicais ao lado de Billy Bragg
Hoje Paul Weller é um recordista. Tem nada menos do que 8 filhos de quatro casamentos. Só Gill Price, capa do single “Beat Surrender” e seu primeiro namoro firme, escapou. Com Dee C Lee, que fazia backing vocals no Wham! e com quem viveu por uma década depois de se conhecerem para a gravação de “Money Go-Round” no seu estúdio Solid Bond, teve dois filhos. A eles, se seguiram outros seis filhos do casamento com outras três companheiras. A filha mais nova (e última de acordo com ele), do casamento atual, está na faixa dos 5 anos. Os filhos pequenos não frequentam escola e tem lições em casa. Resquício da revolta do jovem Weller que completou com muitas faltas o ensino médio por odiar a disciplina escolar e a autoridade dos mestres, ainda que fosse elogiado por seu talento para escrever, especialmente poesia. O álbum mais novo é “Fat Pop” e tem parceria de Weller com a filha Leah, do casamento com Dee C Lee.




“Reset”, podcast de Mariana Cabral
Queria muito ter assistido ao espetáculo “Um Português e um Brasileiro entram num Bar…” com Gregório Duvivier e Ricardo Araújo Pereira. Foram três apresentações em Lisboa e duas no Porto em novembro passado. Eles já haviam se reunido para conversar sobre a geniosa, a intempestiva, a afetada língua portuguesa, bem como para chafurdar as mais improváveis manifestações de suas excentricidades dos dois dados do Atlântico. Discussão que se estendeu com muito humor à apreciação de nossas diferenças e semelhanças culturais. Ela se deu em 2017, quando os dois cronistas da Folha, que nos distraem com suas divagações aleatórias às quartas-feiras (Duvivier) e aos domingos (Araújo) na Ilustrada, inauguraram esse tipo de bate-papo na terceira edição do “Experimenta Portugal – Arte e Cultura” organizado pelo Consulado Geral de Portugal em São Paulo.
Com quase 1 milhão de visualizações no YouTube, este célebre encontro, já replicado aqui neste blogue, teve uma segunda edição sempre com novos cacos no Festival Literário Internacional de Óbidos (Folio) do mesmo ano (pode ser ouvido como podcast no Spotify). Rendeu tanto e foi tão festejado que parecia inevitável que a dupla de parceiros do programa “Greg News”, em que Ricardo é roterista-colaborador, voltasse a repeti-lo. Como não foi possível assisti-los ao vivo, tive que me contentar com uma entrevista dada pelo Duvivier, por ocasião de sua passagem por lá, ao podcast de Mariana Cabral, também conhecida pela alcunha de Bumba na Fofinha. Mariana está junto de toda uma turma de novos humoristas portugueses com os quais preciso me familiarizar, especialmente depois que dei entrada no pedido de cidadania lusa para, com a aposentadoria se avizinhando, me por a pensaire, ó, pá, em talvez passar uma temporada na terrinha.
Programa de Ricardo Araújo na Rádio Comercial
Ricardo Araújo pertence a uma geração anterior a de Gregório. Começou com o grupo Gato Fedorento nos anos 2000. Grupo que parece ter inspirado a criação do Porta dos Fundos. Além da colaboração como roteirista e das colunas de jornal, Araújo também faz o programa “Mixórida de Temática” na Rádio Comercial. Tanto nela, como em outras emissoras radiofônicas portuguesas que abrem espaço para o humor, o Porta dos Fundos faz aparições frequentes e é recebido sempre com tapete vermelho. Agora em dezembro, Gregório, desta vez com o pessoal do Porta, voltou ao país para a apresentação de mais uma edição do “Portátil”, espetáculo de improviso que o grupo de humoristas já faz há alguns anos em várias cidades portuguesas. Correram com sucesso Ílhavo, Castelo Branco, Coimbra, Porto e Lisboa. Levaram a reboque o Rafael Pimenta segundo colocado no reality que escolheu Macla Tenório (Maria Clara Cerqueira) como a nova integrante do grupo no concurso “Futuro ex-Porta”.
Porta dos Fundos divulga o “Portátil” na Rádio Renascença FM
Edição antiga do “Portátil” pode ser vista no NetFlix


Magnus Carlsen manteve pela quinta vez seguida o título de melhor do mundo jogando contra o desafiante russo Ian Nepomniachtchi no mais decepcionante embate da história do Campeonato Mundial de Xadrez de que se tem notícia (se encerrou semana passada em Dubai nos Emirados Árabes). Nepo é o quinto colocado no ranking da Fédération Internationale des Échecs (FIDE), mas ganhou a primazia de desafiar o campeão do mundo por seu desempenho no torneio de candidatos em que se saiu vitorioso. No xadrez as coisas funcionam assim. Os 8 melhores do mundo em ranking FIDE se confrontam e aquele que vencer o torneio disputa uma série de 14 partidas com o atual campeão, que, desde 2013, é Magnus Carlsen (estes embates acontecem de dois em dois anos). Aquele que pontuar 7,5, entre vitórias e empates, em xadrez clássico (120 minutos para os 40 primeiros movimentos, 60 minutos para as subsequentes 20 jogadas e, finalmente, 15 minutos com segundos de acréscimo até o final) seguido de xadrez rápido e em modo blitz com morte súbita, assume o título de campeão do mundo. No embate deste ano, Magnus venceu 3 partidas consecutivas, fato inédito em confrontos de xadrez clássico que terminam na grande maioria das vezes em empate, e fechou a fatura.

Mas o acontecimento do ano de 2021 para o xadrez foi a ascensão do iraniano Alireza Firouzja que se tornou o mais jovem enxadrista de todos os tempos a alcançar 2800 pontos de rating FIDE com a idade de 18 anos apenas. Superou em alguns meses Magnus Carlsen que era o detentor deste feito. Muitos acreditam que se não fosse a pandemia, Firouzja poderia ter chegado lá ainda mais novo. De qualquer forma, Alireza segue como segundo colocado em pontuação FIDE e Magnus já disse que quer jogar contra ele no próximo mundial. E mais do que isso. Carlsen afirmou em podcast que só jogará se seu oponente for o Firoujza. Com um jogo agressivo, o iraniano, que também tem cidadania francesa e que passou a defender as cores francesas em suas últimas partidas, promete fazer a alegria daqueles que não aguentam mais o xadrez retranqueiro de Carlsen. Raffael Chess, o simpático e mais popular comentador de xadrez do YouTube (saltou de 150 mil assinantes em 2020 para quase 300 mil em 2021), está contando em seu canal youtubeiro a trajetória de Alireza Firouzja até chegar aos 2800 pontos, o que se deu em novembro deste ano. Vale a pena acompanhar.
Alireza Firouzja rumo aos 2800 – I
Alireza Firouzja rumo aos 2800 – II
Alireza Firouzja rumo aos 2800 – III
Alireza Firouzja rumo aos 2800 – IV
Alireza Firouzja rumo aos 2800 – V
Alireza Firouzja rumo aos 2800 – VI
André Roncaglia aponta as imprecisões em economia do autor do excelente “Fascismo à Brasileira“