Reforço escolar para todos os candidatos à Presidência da República: ler “Capital e Ideologia” (Intrínseca, 2019), de Thomas Piketty. Vai ser necessário dedicar alguns fins de semana ao assunto, mas serão bem menos que os muitos anos que o autor perdeu sentado em uma cadeira pesquisando e redigindo suas quase mil páginas de texto. Depois podemos começar a conversar sobre o momento em que vivemos. Capital e Ideologia” é uma aula muito sofisticada sobre história política, história econômica e ainda sobre como a literatura guarda relação com tudo isso. Um show de virtuosismo intelectual. Para minha grande decepção, Ciro Gomes no seu “Projeto Nacional: o Dever da Esperança” (Leya, 2020) cita uma única vez Thomas Piketty, e mesmo assim de forma indireta.
Vejam o mundo com o qual o Capeta sonha todas as noites. Parece distopia orwelliana, mas aconteceu. O pior é que Jacira Figueiredo de Oliveira entendia de cinema e até elogiou o apuro cinematográfico de Godard. Agradecimentos ao Kleber Mendonça Filho pelo compartilhamento.
O surfista olha para a praia e pensa que não tem nada ali. O mar está alto, mas muito mexido. Em uma praia do Pepino vazia, Medina foi lá na terça e na quarta-feira desta semana e mostrou como se cria ondas para se surfar onde elas parecem que não existem. E ainda encontrou seus tubos. Um mar em que mesmo um surfista experiente como Lucas Medeiros tem dificuldade de exibir uma performance próxima do razoável. Registros do canal Surfe TV de Carlos Matias.
David Popovici, um jovem talento da natação romena, conseguiu a proesa de baixar o tempo de Cesar Cielo nos 100 metros nado livre. Desde julho de 2009, durante 13 anos portanto, Cielo mantinha o recorde que conquistou usando ainda os trajes tecnológicos que ajudavam bastante e que seriam banidos em seguida das competições. Estrela do Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos disputados em Budapeste em junho deste ano, Popovici saiu do evento com 2 medalhas de ouro nos 100 e 200 metros na sua especialidade – fato que não ocorria desde 1973. Mas, o agora célebre feito veio no sábado no Foro Itálico em Roma, no mesmo local da competição do recorde de Cielo. O professor Rodrigo Borges (não é parente do nadador Gustavo Borges) analisa em detalhe a prova de Popovici no seu Canal Nada Mais no YouTube. Depois de cumprir os primeiros 50 metros com um tempo de 22´´74, bem acima dos 22´´17 de Cielo em 2009, o que o levou até a ficar atrás do francês Maxime Grousset na prova, Popovici voltou os outros 50 metros em 24´´12, fechando com 46´´86, abaixo dos 46´´91, marca do recorde anterior. Em sua resenha vlogueira, Rodrigo Borges incluiu até o depoimento que Cielo gravou para o Instagram comentando a façanha de Popovici. O romeno se transformou em uma das grandes promesas para os jogos Olímpicos de 2024 em Paris.
Foi o fim de semana de nos despedirmos de Jô Soares, de lembrarmos de seus livros inventivos, seus personagens cômicos e suas ótimas entrevistas (as com Rogério Skylab ficaram como as mais antológicas e favoritas deste espectador). Mas foi também o momento de celebrar os 80 anos de Caetano Veloso e de um sentimento de volta à normalidade com algo prosaico como a saída para tardes de autógrafos com os lançamentos de “A Vida Futura” (Cia das Letras, 2022), novo romance de Sérgio Rodrigues, e “Vivo Muito Vivo” (José Olympio, 2022), coletânea de contos assinados por 15 autores que se inspiraram em canções de Caê, ambos na pequena e simpática livraria Janela no Jardim Botânico.
Como faz falta sair para conversar e aproveitar um final de tarde com todo mundo à vontade e sem máscaras. Depois de tanto tempo, a gente até estranha essas coisas. O arrefecimento da pandemia e o avizinhamento do fim de tempos tenebrosos, criaram o clima perfeito para um bate-papo em um espaço muito apropriado para isso, a calçada da rua Maria Angélica entre o Parque Lage e a Lagoa, próximo à entrada de uma galeria onde funciona ainda o sebo Janela-Berinjela. Foi tudo rápido, mas deu para saber que a mãe da Cora Rónai já se recuperou da maratona do Master Pan-Americano em Medellin e que está procurando uma piscina para seus treinos. Aos 98 anos, Nora treina em um parque aquático ao ar livre (o do Clube Guanabara) e quer passar para uma piscina climatizada. Depois que mudei para a Barra da Tijuca, venho nadando em piscinas abertas e sei bem a diferença. A única vantagem de piscina aberta é que, quando chove, você sempre encontra uma raia vazia pra chamar de sua.
A tarde de sábado festejava mais um livro ficcional de Sérgio Rodrigues, a sua “história de fantasmas” como ele definiu na dedicatória, em que o autor de “O Drible” sobe às nuvens, pega a dupla Jota-Jota (Alencar e Machado) e os traz ao Rio de Janeiro de hoje para projetar a surpresa e estupefação dos dois com os dias que correm. Com mediação de Cora Rónai, Sérgio conversava entre conhecidos, parentes, amigos e jornalistas próximos como Arnaldo Bloch, Mauro Ventura, Heloisa Seixas e Ruy Castro – Ruy, por coincidência, em breve lança o seu “Os Perigos do Imperador – um Romance do Segundo Reinado”, narrativa fantasiosa sobre a viagem de D. Pedro II aos Estados Unidos. Tive o prazer e alegria de encontrar em meio a essa turma, 30 e tantos anos depois, o colega dos tempos de O Globo Mário Magalhães (“Marighella”, “Sobre Lutas e Lágrimas”), repórter, ombudsman da Folha e atualmente consultor do UOL. Ele prepara mais uma extensa biografia, desta feita em dois tomos e sobre Carlos Lacerda. Com documentos reservados e disponibilizados apenas recentemente, vai proceder a uma atualização das informações levantadas por John Dulles.
A grande surpresa da tarde-noite foi a inesperada adesão de Fernanda Montenegro ao programa. Apareceu sem maiores pompas e despojadamente. Foi-lhe prestada toda a reverência merecida e, convocada ao centro da conversa, falou da felicidade de ver os teatros do Rio de Janeiro voltando a ter público. Aos 92 anos, a atriz, que continua engajada em sua lida pela dramaturgia e pela cultura, foi agraciada com autógrafos (Sérgio Rodrigues também teve reeditado seu livro de estreia, “O Homem que Matou o Escritor”) antes de todos já que seguiria dali para o teatro do Jockey Club para fazer a peça “Nelson Rodrigues por ele Mesmo” às 20h.
Domingo marcou a festa caetânica. Começou com uma nova rodada de autógrafos na Janela, com o organizador da coletânea “Vivo Muito Vivo”, Mateus Baldi, e com os autores Juliana Leite, Marcelo Moutinho, Paula Giovate e Carlos Eduardo Pereira, alguns dos que participaram do desafio de criar uma curta narrativa ficcional a partir de alguma composição do aniversariante oitentão. O amigo Arthur Dapieve escreveu “A Noite”, sugestionado pela composição “Micheangelo Antonioni”. Deu para conversar rápido com ele e Manya Millen e saber que ela foi alçada do Segundo Caderno para responder pela primeira página de O Globo.
A noite fechou com o especial da GloboPlay. Um tributo merecido e que nos lembra da importância de festejarmos com a circunstância devida nossos grandes e inquietos artistas. Caetano foi foco também de um texto e entrevista super interessantes na Folha de domingo que abriu, no estilo costumeiramente arrojado do jornal, com uma curiosa imagem de sua carteira de identidade em preto e branco na capa e que tratou da sua mudança de perspectiva política a partir do contato com o jovem esquerdista e candidato ao governo de Pernambuco pelo PCB Jones Manoel.
O show com os filhos e a irmã Bethânia, repetiu o modelo do “Ofertório”. Caetano está mais do que certo de procurar desculpas para se reunir e ficar com sua prole por perto. Se tivesse filhos e a sua idade, faria mesmo. Como espectador funcionou como tributo para festejá-lo, especialmente para alguém que assisti aos espetáculos de mister Veloso desde bem garoto.
O primeiro show de Caetano que vi na vida foi no teatro Tereza Rachel, era tão pequeno que fui com minha tia Vânia, meu tio Ronaldo e minha mãe. O baiano ainda cantava “Os Argonautas”, que desapareceria de seu repertório. Logo depois o veria no Instituto de Educação cantando ainda músicas do tempo dos discos “Transa” (1972), “Araça Azul” (1973), “Joia” e “Qualquer Coisa” (ambos de 1975). Sim, o Instituto também tem um auditório e Caetano fazia apresentações mambembes por lá.
No teatro Clara Nunes, no começo dos anos 1980, veria o show de lançamento do disco “Muito – Dentro da Estrela Azulada” (1978) e recordo bem da interpretação de “Terra” com Sérgio Dias dos Mutantes tocando violão de 12 cordas – replicava o registro do disco em cuja capa Caetano aparece repousando a cabeça no colo de sua mãe. Voltaria ao Tereza Rachel e iria ao MAM (que também já teve espaço para shows de música) para conferir os repertórios de “Cinema Transcendental” (1979), “Outras Palavras” (1981) e “Cores e Nomes” (1982). A chegada de “Uns” (1983), o levaria para o Canecão e a partir daí os shows passariam a serem apresentados em lugares cada vez maiores. Muita história pra ser lembrada e que estabeleceu forte afeição com o novo octogenário.
Essa, espero, será a minha futura turma. Todos aqueles que participaram do Campeonato Pan-americano de Natação Master em Medellín, Antioquia, Colômbia, entre 21 e 29 de julho. A estrela do evento foi Nora Rónai, muito aplaudida em todas as muitas provas de que participou (individuais e revezamento) e com quem todos queriam tirar uma foto. Nora realiza aquilo que pra mim ainda é um milagre: completar 100 metros nadando borboleta. Com muito esforço, fecho os 25 metros, e olhe lá. Embora sempre tenha nadado, Nora foi começar a competir apenas aos 69 anos e desde então não largou mais. Como o ano que vem passo definitivamente para o estaleiro em minha vida profissional, quem sabe não me junto a essa animada galera para correr o mundo dando braçadas. Para tanto, é preciso antes intensificar os treinamentos para alcançar tempos que justifiquem e garantam a inscrição nas competições. Em 2016, a primeira vez que pulei de um bloco de partida, aos 56 anos, estava fazendo 50m em 37´´. Como termo de comparação, o Gustavo Borges, aos 44 anos, fechou o “Raia Rápida” daquele ano com 24´´ e o Djan Madruga, aos 58 anos, com 29´´. É preciso baixar pelo menos 8 segundos, portanto. O que isso significa de fato, só treinando diariamente para se conhecer.
O leitor talvez nunca o tenha encontrado pessoalmente, mas com certeza o conhece por alguma foto ou imagem. Trata-se de um artefato blindado, um mini-tanque inspirado nesses que vemos sendo pilotados nas frentes de luta na Ucrânia. Uma obra de arte de guerra e que recebeu o apelido carinhoso de caveirão. Ninguém que more na Zona Sul vai um dia assistir a um desses veículos rodando pelas ruas da vizinhança. Do Leblon, com seus 45 mil habitantes e IDH de 0.967 (superior ao de países como Noruega e Suíça), para o Complexo do Alemão, com seus 75 mil habitantes e IDH de 0.711 (inferior ao da Algeria e do Gabão), a distância física, como já nos alertou a economista Alessandra Orofino, não é tão grande assim, mas é gigante no que se refere à qualidade de vida. E também, acrescentaria, ao tratamento e respeito prestado aos moradores.
É por ruelas, vielas, becos, de favelas cariocas, que o caveirão, acompanhado por jeeps, caminhões e orientado pelos helicópteros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (o Bope), circula com desenvoltura e circunscreve sua área de atuação. Para restringir o avanço do comboio em suas operações, as bem armadas facções criminosas criam barricadas e espalham óleo sobre o asfalto, dificultando a sua movimentação, como aconteceu na ação ocorrida na quinta-feira passada no Complexo do Alemão. De um lado e de outro, dois grupos muito bem armados se entregam à refrega. No meio do tiroteio, fica a população correndo das balas e vendo suas casas e espaços de convívio serem destruídas por munição de grosso calibre.
A operação no Complexo do Alemão tinha um objetivo irrisório para uma ação destas proporções: por fim a uma quadrilha de roubo de veículos e cargas. A despeito disso, se transformou na quarta mais letal ocorrida no Rio de Janeiro, contabilizando 18 mortos: 1 policial e 17 civis, 8 apenas com passagem pela polícia. Só foi superada por outras três operações anteriores igualmente letais, duas delas, a do Jacarezinho, em maio de 2021, deixou 28 mortos, e a da Vila Cruzeiro, em maio deste ano, resultou em 25 vítimas fatais. As três mencionadas acima (a quarta é de 2007) ocorridas durante o governo do sucessor de Wilson “basta mirar na cabecinha” Witzel, o atual governador Claudio Castro. Apadrinhado do pastor Everaldo, com quem foi alvo de ação da Polícia Federal que deixou em agosto de 2020 o presidente do Partido Social Cristão preso e em seguida usando tornozeleira eletrônica até junho deste ano, o candidato de Bolsonaro coleciona mais uma proeza em seu curto mandato à frente do governo. Resultado final da operação: a apreensão de uma poderosa metralhadora 0.50, de quatro fuzis, duas pistolas e 48 motos.
Depois da ação de quinta-feira, o comentário da manicure em conversa com a cliente no cabeleireiro, me dizem, era o de que “a Globo está agora defendendo bandido”. Colado na moto de um entregador de aplicativo, foi possível ver na rua outro dia o adesivo: “2022 o ano do Brasil”, com o 22 em letras garrafais. A teoria para se tentar explicar essas manifestações é a de que há uma identificação entre as classes neo-proletárias com as alas socialmente mais abastadas da sociedade. Mas a situação é mais grave e um alerta para a naturalização de práticas que trazem à memória a disseminação no corpo social de uma postura de inspiração nazifascista que transforma as pessoas em reféns do medo e partidárias de atitudes inaceitáveis.
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.