Pepe Escobar, TV247, MyNews e a Invasão Russa da Ucrânia

Depois de ter se destacado como célebre crítico musical no começo dos anos 1980, momento em pôde presenciar entre outras efemérides capivarescas, o Zigue Zigue Sputnik colocar, nas suas palavras, “o último prego no caixão da música pop”, Pepe Escobar abandonou a crítica musical repentinamente e sumiu. A explicação, viemos a saber depois, era que, apesar de escrever com grande classe e competência, Pepe acabou sendo despachado das redações de jornais como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e de revistas como a Bizz, por conta da identificação de plágios em alguns de seus artigos. Daniel Piza chefe da área de cultura do Estadão, ao fazer em 2008 uma avaliação sobre os anos 80, época em que identificou “situações de picaretagem explícita”, escolheu o caso do jornalista paulista para exemplificar sua posição e aproveitou para externar o que pensava sobre o escriba: “Pepe Escobar, por exemplo, foi pego em vários plágios, muito mais numerosos que os de Jayson Blair. Na década seguinte, seguramos seu emprego até onde pudemos. Paulo Francis dizia que ele tinha talento e não caráter. Hoje o talento, limitado, sumiu; o caráter continua desaparecido. Esse tipo de jornalismo felizmente já não cola.”

Indesejado nas redações brasileiras, Pepe tratou de se entregar a um périplo pelo mundo vivendo em destinos tão variados quanto Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos (Los Angeles e Washington D.C.), China (Hong Kong) e Tailândia (Bangkok). Passou também a se dedicar a fazer reportagens e a escrever artigos sobre um assunto mais sério, geopolítica internacional, mudando completamente sua trajetória dentro do jornalismo. Entrevistou o líder afegão pró-Estados Unidos Ahmad Shah Massoud, pouco antes de seu assassinato pela al-Qaeda, e preparou artigos sobre diplomacia e a situação política em países como Irã, Iraque, China, Rússia, Estados Unidos e em regiões como o Oriente Médio, Ásia Oriental e Central, produzindo peças jornalísticas para sites como Asian Times Online, Sputnik, TomDispatch, OpEdNews e para emissoras como Al-Jazeera e Russia Today. Há alguns anos, vem publicando artigos e participando de coberturas dos sites The Saker e The Cradle. Seus textos também são traduzidos para o brasileiro Brasil247, espaço de propaganda petista disfarçado de canal jornalístico (pra quem sabe fazer conta, 2+4+7 dá 13). Ele aparece ainda nos podcasts do canal petista no YouTube (a TV247), onde comenta sua especialidade corrente: política internacional.

Em suas últimas lives para a TV247, o assunto foi obviamente a “Guerra na Ucrânia”, mais um dos lugares por onde Pepe Escobar peregrinou fazendo reportagens. Não dá para desqualificar por completo suas análises, ao contrário do que Pepe faz com tudo aquilo que segundo ele é produzido pela “sórdida mídia corporativa e hegemônica ocidental”. Pelo contrário, é extremamente pertinente o quadro que delineia sobre os laços da parte mais oriental da Ucrânia com a cultura russa, assim como suas observações sobre a importância de regiões separatistas como Luhansk e Donetsk e de cidades como Mariupol e Odessa (esta última central no desenrolar da Revolução de 1917) para a ex-União Soviética. Pepe também coloca em dúvida a pessoa de Volodymyr Zelensky, que virou um herói na mídia mundial, mas segundo ele é testa de ferro de oligarcas ucranianos e comanda um exército neo-nazista. Zelensky estaria fazendo tudo amparado por informações de inteligência fornecidas por experts americanos e se valendo de tropas mercenárias treinadas pelo Tio Sam.

Como se vê, em suas análises, que podem até ter um fundo de verdade, tudo se perde na caricatura do império do mal estadunidense e no desenho de seu poderio demoníaco fruto da ambição de controlar o mundo. É claro que a petistada delira com tanta fanfarronice. Com relação a Putin, por outro lado, ele não menciona nada sobre a perseguição e prisão de jornalistas, manifestantes, assim como o assassinato de opositores. Para ele, o sempre eficiente exército russo está na Ucrânia apenas respondendo às ambições expansionistas do “Natoquistão” e deveria, de acordo com o primeiro de seus podcasts sobre o assunto, dar cabo da missão em pouquíssimo tempo (a invasão russa já dura 20 dias, é bom lembrar). Na TV247, pelo que se depreende dos comentários, este tipo de defesa das atrocidades de Putin fazem o maior sucesso. É a apologia de um ditador e de uma Rússia que na fantasia de certa ala da esquerda ainda é a União Soviética antes da virada de Iéltsin nos anos 1990 na companhia dele próprio, o novo czar russo na linhagem de Ivã, o Terrível (mais até do que a dos Romanov), Vladimir Putin.

O jornalismo, quando praticado com seriedade, se ressente de pontos de vista divergentes. O MyNews, por exemplo, coloca lado a lado duas visões diferentes sobre a invasão da Ucrânia. Pedro Doria, do Meio, e Filipe Figueiredo, do Xadrez Verbal, têm posições bem distintas sobre as democracias no mundo de hoje e seu papel na briga a que assistimos. Nem por isso, deixam de serem confrontados em um debate construtivo. Mas é claro que para muitos, o MyNews é representante da “sórdida mídia corporativa e hegemônica ocidental”. Vão gostar de clichê assim na China.

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Até quando, Putin Vai Seguir Destruindo as Vidas dessa Gente Humilde?

Ucrânia em área não urbana

Pavlo e Luba orgulhosos de seu modestíssimo apartamento

Mapa da Ucrânia

Pavlo e Luba falam ucraniano e vivem na parte ocidental da Ucrânia, na região de Kiev. Mesmo as imagens de áreas rurais vistas no vlog “Pavlofromukraine” são pela vizinhança. Bem distinta é a realidade de Svetlana (Sveta) Davydova que conheci em um grupo de literatura há uns dez anos. Ela vivia em Dnipro, falava russo, inglês, francês e dizia que compreendia ucrânio, embora não fosse fluente no idioma. Dnipro fica perto das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk e pelo que percebo tem uma população com laços culturais fortes com a Rússia. Ainda assim, Sveta admirava a literatura de traço ocidental de um Scott Fitzgerald e mesmo de um autor contemporâneo como Haruki Murakami. Apresentei alguns contos de Nelson Rodrigues e ela achou clichê demais. Embora apreciasse a literatura ocidental, sua cultura musical ficava com os grupos de música pop russos. Vivia com a mãe e um filho em um apartamento e reclamava que as vezes chegava tarde de seu trabalho em um banco e tinha que se deparar com a falta de água em casa, ainda que estivesse com as contas em dia. A diversão era visitar Kiev e suas atrações turísticas, como a belíssima catedral de Santa Sofia ou, com muita luta, conseguir um visto para ir à Europa. Mandei um e-mail perguntando como estavam as coisas com ela e sua família. Mas ao que tudo indica, ler correspondência é a última preocupação dos ucranianos no momento.

Sveta, em Kiev, visitando o jardim botânico e as belas catedrais de Santa Sofia e São Miguel

Vladimir Pv, que participa de um de meus grupos de natação no FB, fugiu de Kiev e já se encontra em território polonês. Conseguiu até um lugar para nadar, mas segue preocupado com parte de sua família que ficou para trás. Pavlo, seus pais e Luba permanence na capital da Ucrânia de onde não pretendem sair mesmo com sinais evidentes de que militares russos preparam um criminoso ataque à cidade.

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Finalmente, Semanas de Sol na Cidade Imperial

O local do tradicional posto Jota Varanda sob céu azulíssimo

Nem o rotineiro temporal da tarde assusta mais

Raposinha tranquila com a chuva

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Semana Triste para os Petropolitanos

Somando quase três centenas de pessoas entre mortos e desaparecidos, Petrópolis vai tentando superar o momento difícil com o apoio de donativos e muito trabalho voluntário, iniciativas que ajudam a contornar o drama que vive a cidade. Diversas igrejas, condomínios no Rio de Janeiro e na própria cidade serrana e até mesmo um clube de futebol como o Botafogo estão mobilizados para dar algum amparo aos petropolitanos que sofreram com as consequências de mais um evento meteorológico extremo. Depois da enxurrada sem precedentes de terça-feira, a maior ocorrida na história da cidade desde que dados sobre fenômenos naturais são coletados, a chuva felizmente diminuiu sensivelmente o que é um bom sinal. Torçamos para que o sol chegue na semana que entra trazendo um pouco de conforto para a população local.

Paróquia de São José da Lagoa no Rio de Janeiro mobilizada em solidariedade

Condomínios sensibilizado com o drama de Petrô

Quedas de árvores e estragos por todos os lados

Pontes com muretas danificadas

A cidade tentando se recuperar

Os alertas que marcaram a semana seguem para evitar novas tragédias

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Cidão 89, Ontem, Bebelu 60, Hoje

Cidão Sá Freire na maior Pose. Festejaríamos seus 89 anos ontem

Bebelu Sessentona

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Também Testei Positivo pra Anglicismo e Covid

Invicto desde o início da pandemia, hoje cedo fui pra fila do drive thru do Downtown para fazer o teste rápido. Segunda-feira tive febre leve, dor no corpo e coriza, mas na terça já estava me sentindo melhor depois de meia dipirona. Com três doses de vacina (duas de AstraZeneca e uma de Pfizer) e também imunizado contra influenza, madruguei esta manhã determinado a realizar o meu terceiro teste do período pandêmico e constatar mais uma gripe (tive duas brevíssimas). Para surpresa minha, era ela mesmo, a covid. Super leve e tranquila. Ao que tudo indica, irá embora amanhã. Sou mais cuidadoso do que a maioria das pessoas que vejo, especialmente na escolha de máscara e no trato com superfícies. Talvez tenha pego no supermercado ou na piscina (únicos lugares públicos que ainda frequento; ainda que as raias da ABM estejam bem vazias neste período de férias). Ou, possivelmente, em uma visita a Petrópolis semana passada.

Tentando sobreviver aos 25 metros de borboleta na piscina vazia da ABM semana passada

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O Romance Policial e seus Cultuadores

Um dos autores com o qual me ocupei muito em 2021 foi Tony Bellotto. Já tinha lido alguma coisa, mas passei em revista os dez livros que ele publicou. A constatação foi a de que temos um dos escritores menos reconhecidos da geração que está na casa dos 60 anos agora. Bellotto nunca levou prêmio algum, nem mesmo um Jabuti para colocar na estante, o que parece uma injustificável falta de consideração por parte de críticos e de seus pares. Talvez seja o estigma de não ser um escritor em tempo integral, já que ele é guitarrista dos Titãs. Pura besteira, Bellotto tem mantido uma regularidade na entrega de suas obras que poucos autores que se dedicam exclusivamente ao oficio conseguem apresentar. Sempre narrativas inovadoras, variadas, escritas com capricho, e até mesmo com uma boa dose de virtuosismo.

Seu personagem mais conhecido é o detetive Bellini, ao qual foram dedicados quatro de seus livros. São uma série de aventuras detetivescas que seguindo o modelo do gênero acabam cativando aqueles leitores que apreciam temas, situações e detalhes recorrentes, artimanhas com as quais os escritores gostam de marcar seus protagonistas para que façam a alegria daqueles que acompanham o desenrolar de suas tramas. Foi assim que convivi com interesse com Remo Bellini nos momentos de reclusão em seu apartamento no coração de São Paulo, invadido permanentemente pelo barulho da Paulista, nas idas ao bar Luar de Agosto na vizinhança para o café da manhã de pão com salame e queijo provolone (lugar em que fomos atendidos pelo observador e galhofeiro Antonio (e depois por seu filho)), ou batendo ponto no escritório da Agência Lobo de Investigações no Edifício Itália, espaço invariavelmente tomado pelo som dos violinos de Paganini e pela fumaça das cigarrilhas Tiparillo da chefona Dora.

São todos livros deliciosos. Nos levam do tema do espiritismo kardecista de “Bellini e os Espíritos” (Cia das Letras, 2005) a uma trama interiorana rocambolesca envolvendo dois irmãos de uma dupla sertaneja de Goiás, encontrada em “Bellini e o Labirinto” (Cia das Letras, 2014). Ou ainda ao basfond dos inferninhos e da prostituição de “Bellini e a Esfinge” (Cia das Letras, 1995). Todos, sem exceção, incensados por refinadas referências à tradição da cultura mitológica e literária gregas com diálogos espirituosos e frases matadoras. Bellotto não se cansa em encontrar um achado burlesco, chistoso, trocista, para concluir as ótimas e hilárias trocas de falas, assim como os pensamentos, de seus personagens.

Da saga de Bellini, o meu favorito é “Bellini e o Demônio” (Cia das Letras, 1998), segundo da série, que abre com citação do “Fausto” de Goethe e tem um especialista em demonologia no meio do caminho, não fosse Bellini um viciado no blues de Robert Johnson. Muito inventiva a busca por um manuscrito perdido de Dashiell Hammett (Hammett só escreveu quatro livros em vida; a interrupção em sua obra é um mistério para os cultuadores de seus escritos) que supostamente estaria no Brasil e que traz Bellini e um investigador americano ao mundo do Copacabana Palace, do Country e do Jockey Club do Rio de Janeiro. Os leva também ao subúrbio carioca de Parada de Lucas e a Teresópolis. Tudo entremeado por pistas plantadas por aquele que talvez seja apenas um colecionador de antiguidades ou um vigarista inescrupuloso. A procura pela obra perdida do criador do Continental Op, de Sam Spade e de Ned Beaumont, é intercalada pela solução de um crime com uma colegial paulistana encontrada sentada na privada do banheiro do colégio com a calcinha nos calcanhares e um tiro na testa (imagem que não foge ao pensamento de Bellini).

Pela leitura de suas obras, vemos que Bellotto tem paixão pela literatura ainda que não demonstre interesse por teoria literária, como aqueles escritores que gostam de, seduzidos por um conhecimento teórico profundo do assunto, tentar arriscar inovações crípticas. Vi, dentro da pós-graduação em ciência da literatura, pesquisadores investindo pesado na leitura de obras complexas de filósofos como Heidegger, Foucault, Derrida, para investigar obras de alguns literatos e deixando esquecida a tessitura pura e simples dos livros. Bellotto trafega no sentido inverso. Menciona e se aproxima de criações literárias em profusão e sem exibicionismo, como expressão, ao que tudo indica, de um fascínio pelo prazer de fruir as obras em si mesmas.

Minha única ressalva em relação às suas tramas é a de que, como leitor, gostaria de ver Bellotto abrindo mão da obrigatoriedade por inserir um crime em todas as suas narrativas e investindo abertamente por gêneros diversos daqueles que o tornaram um escritor conhecido pelos aficionados por literatura policial. Obras como “Machu Picchu” (Cia das Letras, 2013), “No Buraco” (Cia das Letras, 2010) ou “Lô” (Cia das Letras, 2018), por exemplo, não precisavam que aparecesse no meio da trama um crime. São narrativas que mostram que o autor tem lastro para investir por outros gêneros, como aqueles que optam por traçar exclusivamente um rico retrato da dimensão psicológica dos personagens e que exploram as relações afetivas, bem como incidentes que espelham o cotidiano (elementos que, na verdade, já são muito trabalhados e fartos em seus livros).

O anfitrião do saudoso programa “Afinando a Língua”, do canal Futura, também demonstra interesse por idiomas e a manifestação de suas extravagâncias, bizarrices e originalidades. O jockey aposentado e esquecido em uma clínica de Parada de Lucas só guarda na memória uma palavra para rememorar o auge de sua vida profissional: “Citilóf”. Que palavras em inglês poderiam se esconder na paixão do personagem Ervilha pelo nome de sua gloriosa montaria? O adolescente de “Machu Picchu” diz coisas como “Tu veio jantar hoje?”, apenas como gozação com o papai-sabe-tudo-da-família, para depois conjugar o verbo vir no pretérito perfeito sem titubear. O mesmo rapaz conversa com um Onipresente, Onisciente, Onipotente imaginário que se dirige a ele repetindo a última sílaba das palavras, “Porque Deus fala com eco, todo mundo sabe” e com “delay em três tempos”. No começo de “No Buraco”, a argumentação de um pretenso linguista tomando sol em Ipanema é para convencer o interlocutor que a palavra “boceta” deva ser escrita com “u”. Segundo ele, “o o não carrega o calor, a umidade e os aromas do u“, por isso ele desconfia de escritores que escrevam “boceta”. Como dá pra notar, os livros do cultuador de Bukowiski e Henry Miller são pra gente grande e escritos sem filtro.

“Os Insones” (Cia das Letras, 2007) e “Dom” (Cia das Letras, 2020), mais recente obra do escritor (virou série televisiva produzida pela Conspiração para a Amazon), são romances quase irmãos e tratam da realidade e da violência presentes entre a Zona da cidade do Rio de Janeiro e suas favelas. Fico com o primeiro deles, pois prefiro a fabulação livre e desimpedida e não me agrada tratar fatos reais com a pátina da ficção. E isso vale para o “Elza, a Garota”, de Sérgio Rodrigues, para o “Agosto”, de Rubem Fonseca, entre outros tantos. Enfim, são as manias e idiossincrasias de um leitor.

Bellotto me fez dedicar um bom tempo à literatura policial. Depois de passar por seus livros fiquei seduzido por frequentar o filão e o resultado disso é que o leitor deste blogue corre o sério risco de vir a se envolver em novos crimes em uma postagem futura. Garanto no entanto que já não haverá mais o perigo de ser alvo da antiquada Beretta 9 milímetros de nosso herói.

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A Jam do Miragem

Miragem: Rogilson (bateria), Haroldo (guitarra, vocais e pandeiro), Andrelton (baixo), Fabinho (vocal e guitarra solo) e Marcelinho (vocais e guitarra de apoio)

Da história de Paul Weller, narrada na biografia “My Every Changing Moods” (Omnibus Press, 1996), de John Reed, ficamos sabendo que o The Jam ganhou esse nome, porque era assim que os ensaios do começo do grupo eram chamados pela vizinhança que comparecia à porta da casa dos Wellers para ver os garotos tocarem. Lendo a passagem, lembrei-me que uma jam semelhante acontecia durante o período de veraneio na casa da família de meu pai em Petrópolis (um condomínio dividido por dez tios e respectivos filhos reunindo mais gente do que o Maracanã em dia de final). E de maneira idêntica havia uma plateia para aplaudir a performance do grupo que se chamava Miragem.

A banda era formada por meu irmão, André (Andrelton) Pedrosa (fã de Queen e The Who e, no futuro, um radical devoto da primeira banda de Weller, tão devoto a ponto de ter os versos “Kick out The Style, bring back The Jam” como os mais bem pensados da história do British pop), dois de meus primos, os irmãos Rogério (também conhecido como Roger, Rogilson ou Gerinho) e Haroldo Ferreira de Souza, e Marcelo Crelier e Fabio Rizental. Apenas estes dois últimos, amigos do Andrelton no colégio Sacré-Coeur de Marie em Copacabana, seguiriam profissionalmente como músicos. Marcelo Crelier seria integrante como baixista da banda Inimigos do Rei e Fabio Rizental teria uma carreira extensa participando de várias bandas que se apresentavam na noite até trilhar seu caminho solo tocando seu jazz fusion com gente consagrada como Wagner Tiso.

O repertório era basicamente de músicas dos Beatles (“Day Tripper”, “Taxman”, “Love me Do”, “She Loves You”), do The Who (“My Generation”, “The Kids are All Right”), dos Stones (“Under my Thumb”, “Satisfaction”), mas havia também as composições autorais assinadas por Fabio Rizental e Marcelo Clerier (“Sonhar” e “Verdes Mares”). Meu irmão tocava um baixo Giannini preto, cuja plaqueta de identificação do instrumento seria devidamente levada para um passeio a Londres, de onde voltaria no corpo de um Rickenbacker para enganar a alfândega. O sonho de baixista com Rickenbacker seria depois abandonado com a venda do instrumento para o virtuose Odeid Pomeranblum (Lobão e os Ronaldos) e com o embarque na tentativa de ser empresário do grupo brasiliense Heróis do Dia. Hoje, Andrelton tem uma empresa de representação de produtos médicos. Haroldo é funcionário da Petrobras e Rogério, controlador de voo. Para vermos que nem sempre tudo acaba necessariamente em música.

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Treinos na Associação Bosque Marapendi

Chuva constante e tempo nublado somados a um equipamento de aquecimento de água quebrado dão nisso: piscina e raias vazias e na temperatura ideal

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Final de Ano com Paul Weller, o Recordista

Há um bom tempo dei por encerrada aquela farra de presentes de Natal. Sobraram algumas lembrancinhas especialmente para os sobrinhos e umas recordações simbólicas. Por conta disso, aproveitei a pequena trégua da covid e o velho e bom passeio até Búzios, para fazer uma visita à lojinha The House of Rock & Roll em um shopping no final da rua das Pedras, onde encontro inevitavelmente um regalo apropriado para cada um dos quatro sobrinhos que tenho (dois deles do primeiro casamento e dois de duas de minhas irmãs que se aventuraram pela odisseia de ter filhos). A loja sobreviveu bravamente à pandemia e continua em pleno funcionamento, o que é um sinal de alento em tempos de economia aos frangalhos.

Para minha alegria, esse ano ganhei como um recuerdo de uma interneteira que mora aqui em casa, uma assinatura do Spotify, algo que não iria adquirir nunca por conta própria. A era do streaming é um marco ecológico civilizatório para o mundo e varreu da face da Terra todo o lixo comercial e industrial que alimentou e fez a delícia da Geração Coca-Cola e das anteriores. O app do Spotify veio calibrado para uso com vários artistas de suposto interesse e entre os nomes foi inserido um The Jam pela fã da turma Mod old generation. Ao The Jam os algoritmos atrelaram imediatamente Style Council e Paul Weller. Passei desta maneira a ouvir coisas que tinham sumido completamente de minhas memórias, assim como muitas outras novíssimas. Confesso que não sabia que Weller segue lançando discos com extrema regularidade e já soma 16 trabalhos individuais desde o primeiro, em 1992.

Paul Weller com Leah, do casamento com Dee C Lee, a primeira de seus oito filhos, co-autora com o pai de “Shades of Blue”, música do disco “Fat Pop” do ano passado

Engraçado que vendo uma apresentação de mister Weller, gravada no Ópera de Sydney por ocasião do lançamento do album “A Kind Revolution” (2017), seu antepenúltimo projeto, fiquei surpreso ao constatar que muitas composições novas e desconhecidas eram tão boas que não davam saudade das antigas. Aliás, o repertório antigo raramente entra nos shows. As apresentações mais longas contam com uma “Carnation”, “A Town Called Malice” (em sets acústicos, com “That´s Entertainment” e “English Rose”), do The Jam, e “My Ever Changing Moods” e “Shout to the Top”, do Style Council, nada muito mais que disso.

Weller fala sobre paternidade com Jonathan Ross

Do Spotify fui à estante de biografias onde encontrei o “Paul Weller, My Ever Changing Moods” (Omnibus Press, 1996), do jornalista musical John Reed, da revista inglesa Record Collector, que adquiri em 1997 durante viagem à Inglaterra, viagem essa que tinha como um de seus propósitos ver Blur, no Brixton Academy, Oasis, no Wembley Arena (hoje, O2 Arena) e Foo Fighters e The Cure, os dois últimos no Shepherds Bush Empire. Nunca tinha lido o livro. Sabia que John Weller, pai do compositor, foi durante sua vida inteira único e exclusivo empresário do fundador do Jam, mas desconhecia o seu passado de taxista casado com a faxineira Ann Craddock na cidade dormitório de Woking, próxima de Londres. Achava que aquela preocupação toda com roupas e aparência só poderia vir de um aluno do Eton College e não de alguém que frequentasse a Sheerwater Secondary School.

John Weller tentou empurrar o filho em várias direções. Montou um time de futebol para o garoto e, como era um apaixonado por música, assim como sua mulher, deu uma guitarra para o pequeno Paul, tudo para vê-lo desanimado para entrar em campo e largando o instrumento para que acumulasse pó embaixo da cama. Isso apesar de Paul Weller já ser um fã de Beatles, Small Faces e Kinks. Depois de conseguir um amplificador para plugar a guitarra, algo quem ninguém na casa imaginou que fosse necessário, e de conhecer aquele que se tornaria um bem mais talentoso instrumentista do que ele na pessoa de Steve Brookes, Weller começou a ensaiar com o amigo em seu quarto já criando suas próprias composições desde o início.

Com Brookes assumindo a guitarra, (Paul Richard) Rick Buckler as baquetas e empunhando um Höfner semelhante ao do então cultuado Paul McCartney, baixo pelo qual trocara sua guitarra, Weller ficou com a posição de baixista nas sessões de improviso, as jams como todos as chamavam. Do quarto de Paul, elas passaram a acontecer na porta de entrada da casa dos Wellers, com a vizinhança como plateia. John Weller, atento à movimentação do filho, não tardou a agendar as primeiras apresentações em pubs e clubes locais. Quando o nome The Jam, a maneira como todos se referiam aos ensaios, foi aventado para a banda, a irmã de Paul Weller, Nicky, não tardou em lembrar a propriedade da escolha. Durante um café da manhã comentou que se havia um grupo chamado Bread, outro denominado Marmalade, nada mais natural que um Jam viesse se juntar a eles. Pouco depois, o ocupado Steve Brooks sairia do grupo e Bruce Foxton entraria de começo como guitarrista e em seguida como baixista.

“Speak Like a Child”, com título inspirado em tema jazzístico de Herbie Hancock

Das músicas do The Jam fico com as da fase final do grupo (“The Bitterest Pill”, “A Town Called Malice”, “Precious” e “Beat Surrender”) que já prenunciam o que viria com o Style Council. Caramba, como são boas as músicas do Style. Divertidas, bem humoradas, e ficavam especialmente hilárias nos clips dirigidos por Tim Pope. “Speak Like a Child”, “Shout to the Top”, “Solid Bond in Your Heart”, “Long Hot Summer”, “My Ever Changing Moods”, a lista é grande. Depois do namoro com o jazz de Herbie Hancock, com a cultura francesa e com a bossa nova, que o levou a cantar “Garota de Ipanema” com Tracy Thorne, do Everything But the Girl, veio o disco “Café Bleu”. Weller andava cansado com as músicas como hinos de torcida dos tempos do Jam que levavam os shows a se encerrarem como celebração de fim de jogo de futebol. Passamos assim as composições de acento cool e às músicas engajadas com toques de soul music, paixão que já aparecera na fase final do Jam nas versões ao vivo dos clássicos de Curtis Mayfield, Sam Cooke e Ray Charles. A soul music americana funcionaria como inspiração para composições autorais como “Money Go-Round” e as dançantes “Walls come Tumbling Down” e “Internationalists”.

“Walls Come Tumbling Down”, da fase engajada de Weller quando participou de eventos beneficentes e de apoio a causas sindicais ao lado de Billy Bragg

Hoje Paul Weller é um recordista. Tem nada menos do que 8 filhos de quatro casamentos. Só Gill Price, capa do single “Beat Surrender” e seu primeiro namoro firme, escapou. Com Dee C Lee, que fazia backing vocals no Wham! e com quem viveu por uma década depois de se conhecerem para a gravação de “Money Go-Round” no seu estúdio Solid Bond, teve dois filhos. A eles, se seguiram outros seis filhos do casamento com outras três companheiras. A filha mais nova (e última de acordo com ele), do casamento atual, está na faixa dos 5 anos. Os filhos pequenos não frequentam escola e tem lições em casa. Resquício da revolta do jovem Weller que completou com muitas faltas o ensino médio por odiar a disciplina escolar e a autoridade dos mestres, ainda que fosse elogiado por seu talento para escrever, especialmente poesia. O álbum mais novo é “Fat Pop” e tem parceria de Weller com a filha Leah, do casamento com Dee C Lee.

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