Despedidas de Dezembro

Não sei se o leitor tem a mesma percepção que este que vos digita, mas, no meu imaginário lúgubre, ainda que agosto leve a fama de mês do desgosto (muito provavelmente por conta da rima fácil), cabe ao mês de dezembro a reputação desonrosa de período agourento por excelência. Na minha fantasia mórbida, ele vem sempre acompanhado por notícias terríveis, medonhas, atrozes. Talvez isso se deva ao fato de ser um mês em que estamos mais disponíveis, na expectativa pelas festas natalinas e pelo réveillon e qualquer acontecimento que escape a esse anseio acabe por sobressair. Nos preparamos para celebrar o fim de ano torcendo para que tudo resulte em comemoração com a chegada de um novo e alentoso tempo.

Esse mês de dezembro de 2022 trouxe pelo menos três notícias fatídicas, as do passamento de Terry Hall, de Nélida Piñon e de Pelé. A de Hall foi comentada por mim em dois posts anteriores em que procurei festejar o grande legado de um cantor e compositor que teve sua genial trajetória interrompida brutalmente. A partida do Atleta do Século XX e maior craque de futebol da história ganhou a cobertura esperada e ampla na imprensa para alguém tão querido dentro e fora do campo e seria portanto repisar o óbvio acrescentar qualquer coisa. Além de um encontro com Chico Buarque no campo do Politeama (time de futebol do compositor no Rio de Janeiro), que frequentou a timeline de muita gente, e que trato de repostar abaixo, vou me referir a um texto que fiz sobre a Copa do Mundo de 2018, em que comentei demoradamente a importância de Pelé para um jovem torcedor que descobria o futebol pela TV e em idas ao Maracanã no final dos anos 1960.

Gostaria assim de falar de Nélida Piñon, pois, ainda que não seja um profundo conhecedor de sua obra, tive um encontro pontual com a autora que me marcou pela simpatia e intensidade de uma pessoa vivaz e agradável ao extremo. Estagiava na TV Educativa no começo dos anos 1980, quando saímos, como era corriqueiro todas as terças-feiras, para a gravação de mais um depoimento para o programa “Um Nome na História”, com o apresentador Roberto D´Ávila. Para alguém que caiu de para-quedas para participar como aprendiz de um dos programas da grade da emissora, foi uma sorte poder ter visitado e conhecido na intimidade de suas casas nomes consagrados como os de Antônio Houaiss, Carlos Heitor Cony, João Cabral de Mello Neto e Nélida Piñon, entre muitos outros. Ela nos recebeu em seu apartamentou na Barra da Tijuca, discorreu sobre sua obra e especialmente sobre o percurso de uma descendente de imigrantes galegos. Não deixou de dar um depoimento politicamente firme naquele começo de experiência de abertura democrática depois dos anos de chumbo do período ditatorial.

Achei inusitado, em sua despedida, que Nélida tenha deixado os seus apartamentos para servirem de espaço para as suas duas cachorras de estimação enquanto elas estiverem vivas. Me lembrou o Quincas Borba, de Machado, autor por quem Nélida tinha, como os bons escritores de nossa literatura, especial apreço. Não tenho dúvida de que ela estaria contente da vida celebrando neste fim de semana a inauguração de um novo momento em nosso cenário político, depois de quatro tristes anos de atraso sob o comando de uma administração que tanta dor trouxe aos brasileiros. Aproveito para desejar um ótimo ano de 2023 para os leitores.

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Meus Amigos Artistas Plásticos

São poucos, mas muito queridos os meus amigos que ousam a se lançar pelos caminhos insondáveis das artes plásticas. Esse ano, eles estiveram em duas exposições que tive o prazer de visitar. A primeira delas foi uma individual do poeta, dos tempos do grupo Nuvem Cigana, e roterista da Rede Globo, Claudio Lobato. Lobato expôs o seu “Absoluto Obsoleto”, com seus móbiles poéticos e suas criações com objetos esquecidos do dia a dia, com pompa e circunstância na galeria da Casa de Cultura Laura Alvim. O espaço da galeria, debruçado sobre a praia de Ipanema, foi perfeito para estimular com objetos insólitos e desconcertantes o imaginário dos que passaram por lá. Nos dias em que fui ainda não havia a exibição de trechos de seu documentário sobre a Nuvem (“As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana”, de 2016). Uma pena, fico aqui pensando que autores recitando seus poemas em projeção nas paredes da galeria, um autêntico cinematógrafo das letras que surpreenderia a João do Rio, casaria perfeitamente com a cenografia ambientada por Lobato com suas obras/objetos.

A segunda aconteceu na Fábrica Bhering, na Gamboa, próxima à zona portuária. O espaço, que no passado, como o nome anuncia, foi uma fábrica de chocolate e balas (as famosas balas Toffee da infância de muitos), com maquinário vindo de Hamburgo na Alemanha, hoje abriga, em seus muitos andares, com pé-direito avantajado como pede um prédio industrial, quase uma centena de ateliês (de ceramistas, designers, lojistas, fotógrafos, livreiros e o que mais se imaginar). Os amigos João Araújo (fotógrafo) e Ana Canti (aquarelista) participaram de uma mostra coletiva no espaço Liliane Braga no terraço da Fábrica, que dá vista para a cidade de Niterói. O João já ganhou há uns anos uma individual para suas fotos no Centro Cultural da Justiça Federal, mas Ana Canti está devendo uma exposição exclusivamente sua com as belíssimas aquarelas que cria.

Ana Canti, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ, preparando uma de suas aquarelas

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Tributo a Terry Hall — Parte II

= TERRY, BLAIR & ANOUCHKA = (1990)

Em seguida ao FB3 e ao Colourfield, Terry Hall partiu para mais um trio impensável, desta vez com a cantora, compositora, arranjadora e tecladista americana Blair Booth e com a psicanalista, escritora e guitarrista australiana Anouchka Grose. Fizeram um único, mas muito inspirado album, intitulado “Ultra Modern Nursery Rhymes” (1990), com arranjos vocais notáveis. É quase inacreditável que os três tenham se conhecido casualmente. As composições originais são assinadas por Terry Hall e Blair Booth exclusivamente e o repertório inclui ainda versões de clássicos dos anos 50 e 70 com arranjos vocais que funcionam que é uma beleza na alternância exuberante das vozes do trio. Tendo influência, segundo eles, dos Mamas and the Papas e dos Beach Boys, regravaram “Three Cool Catz” e “Love Will Keep Us Together”. A volta a décadas passadas é, como constantamos, uma constante nas escolhas feitas por Terry Hall e seguiria como uma de suas marcas. Sempre faixas muito bem selecionados por alguém com grande cultura musical pop.

“Missing” foi a única faixa que ganhou um clip, mas o disco inteiro é excelente.

O “Negro Gato”, clássico de Leiber and Stoller, na versão do trio

Mais uma versão, essa para “Love Will Keep Us Together”, de Neil Sedaka e Howard Greenfield

= VEGAS = (1992)

Um grupo que resultou da parceria de Terry Hall com Dave Stewart dos Eurythmics. Fizeram só um disco com participação da mulher de Stewart na ocasião, Siobhan Fahey, que havia deixado o grupo Bananarama para integrar o duo Shakespeare Sisters (ao lado da americana Marcella Detroit). O Vegas gravou “She” de Charles Aznavour e uma bateria de composições assinadas pela dupla. Em faixas como “Walk into the Wind”, Terry segue o namoro com o som eletrônico da fase final do Colourfield, agora tendo um parceiro especialista no assunto.

“Possessed” foi a música mais conhecida do Vegas

= TERRY HALL SOLO = (1994-1997)

Finalmente, Terry Hall resolveu assumir uma carreira solo. Foram dois albuns apenas, “Home” e “Laugh”. O primeiro, de 1994, trouxe parcerias com Ian Brodie, Craig Gannon (guitarrista da fase final dos Smiths e do começo da carreira solo de Morrissey) e uma genial composição escrita com Damon Albarn, músico com quem Hall trabalharia ainda no futuro. Todos os parceiros, além de assinarem as composições, participaram das gravações que contaram também com o baixista Les Pattison do Echo and the Bunnymen. Em “Laugh”, lançado em 1997, três anos depois de “Home”, a dobradinha com Craig Gannon seguiria funcionando maravilhas e teríamos uma nova composição com Albarn, “For the Girl”, além de versões que recriaram com classe hits melosos e bregas como “Close to You”, de Burt Bacharach, e “I Saw the Light”, de Todd Rudgren.

“Chasing a Rainbow” é a genial composição assinada por Hall com Damon Albarn na época do LP “Home”

Composição original do muito inspirado LP “Laugh”, daqueles que não se pula uma única faixa

Hall desencavou “I Saw the Light”, mais uma escolha certeira para incluir em seu repertório passadista

= GRAVAÇÕES COM GORILLAZ, MC MUSHTAQ, DUB PISTOLS = (2003 – 2007)

Com MC Mushtaq (do coletivo Fun-Da-Mentals), ele fez um disco pouco conhecido, “The Hour of Two Lights” (2003), em que é acompanhado por um rapper argelino, um flautista sírio, um grupo de ciganos poloneses e por Damon Albarn. Trabalhou também com os Dub Pistols, em faixas dos discos “Six Million Ways to Live” (2005) e “Speakers and Tweeters” (2007), com o Gorillaz (single “911”) e o rapper Tricky (versão de “Ghost Town”).

Hall investindo pela World Music com Mushtaq Omar Uddin

Dub Pistols e a versão para “Rapture”, do Blondie

= A VOLTA DOS SPECIALS = (2009 – 2022)

Os Specials se reuniram novamente em 2009 para festejar os 30 anos de carreira. Fizeram shows e registraram tudo em um especial com a presença da grande maioria dos integrantes da banda, inclusive o guitarrista Roddy James Byers. Só Jerry Dammers não quis participar deste retorno do grupo. Depois de muitos shows, voltaram a gravar material inédito em “Encore”, de 2019, e fizeram um disco com versões de músicas abertamente engajadas intitulado “Protest Songs (1924-2012)” (2021). “Encore” apresentou nove músicas inéditas e uma versão para “The Lunatics” dos tempos do Fun Boy Three. “Protest Songs” mistura versões de canções que tratam de embates raciais, como a assinada pelo bluesman dos anos 20/30 Big Bill Broonzy (“Black, Brown and White”), assim como composições no clima de rebeldia do flower power californiano como a do disco de estreia de Frank Zappa e do seu Mothers of Invention (“Trouble Every Day”).  A seleção eclética reúne também Leonard Cohen (“Everybody Knows”), Bob Marley e Peter Tosh (“Get up Stand up”) e uma faixa de Brian Eno e David Byrne dos tempos dos Talking Heads (“Listening Wind”), que comprova que a percepção de música de protesto é tomada em muito lato sensu. Confesso que nenhum dos dois trabalhos figurariam nem de longe em meus projetos favoritos da carreira dos Specials. Como não sou saudosista, gosto de novidades de verdade e minha preferência fica com a variedade das investidas inovadoras e desprendidas das apostas solo de Terry Hall.

Show de aniversário de 30 anos dos Specials

Homenagem de Damon Albarn ao amigo

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Tributo a Terry Hall – Parte I

Terça-feira passada amanheci em Búzios com a manchete do The Guardian que informava sobre a partida prematura de Terry Hall. A notícia mencionava uma “breve doença” que, depois, viemos a saber, era um câncer no pâncreas descoberto recentemente. Foi o baixista dos Specials Horace Panter quem informou os detalhes. Eles se preparavam junto com o vocalista e guitarrista Lynval Golding para a gravação de mais um trabalho dos Specials como sequência a “Encore” (2019) e “Protest Songs (1924-2012)” (2021). Desta vez contariam com a volta do vocalista da primeira formação do grupo, Neville Staples, que havia se reunido brevemente com o grupo para a celebração dos 30 anos de carreira dos Specials em 2009 e depois saíra nas excursões e shows subsequentes (cheguei a vê-los em agosto de 2015 no Kew Gardens em Londres já sem Staples, embora ainda com o baterista da formação original John Bradbury que viria a falecer em dezembro daquele ano). 

Antes de um jogo de futebol na quarta-feira passada, entre o Coventry City e o West Bromwich Albion, uma das muitas homenagens que se espalharam por Coventry, cidade natal de Terry Hall

Terry Hall foi um grande crooner, daqueles que conseguem a proeza de envelhecer cantando cada vez melhor. Compunha também com surpreendente desenvoltura. Criou, com os mais diferentes e inesperados parceiros, músicas antológicas. Era um craque também em recuperar canções esquecidas e atualizá-la em interpretações memoráveis. Segue a recaptulação de sua trajetória, com alguns dos números de seu repertório autoral e das versões que fez ao longo de sua muito produtiva carreira.

= SPECIALS = 1a. Formação (1979-80)

Amigos que conhecem e têm entre suas preferências musicais um gosto mais enraizado na cultura jamaicana, como Edinho Cerqueira, Carlos Albuquerque (Calbuque) e Maurício Valladares (MalVal), podem discorrer com pleno saber sobre os Specials. Apesar de adorar o mais importante grupo de ska de Coventry, descobri, passeando pela Internet, que meus conhecimentos sobre a banda que consagrou o nome de Terry Hall é limitado. A presença de seu vocal característico era importante, não há dúvida, tanto assim que a chamada do texto de Zeca Camargo na Folha de São Paulo comentando a morte do cantor semana passada, o apresentava como líder dos Specials, ainda que a figura mais fundamental no grupo tenha sido sem dúvida alguma a pessoa do tecladista Jerry Dammers.

Ao lado do Madness e do The Beat (ou English Beat nos Estados Unidos), o Specials formou a mais festejada tríade de ska de matriz inglesa. Entre o final dos anos 1970 e começo dos 80, eram venerados dentro da cena indie britânica, embora rapidamente ganhassem também com enorme êxito a parada de sucessos oficial da BBC, cuja aferição era feita, em tempos de cultura pré-digital, levando-se em conta o movimento de compra de discos por parte do público nas lojas. Certa feita, no começo dos anos 1980, estava no underground londrino com uma camiseta estampada com uma propaganda do filme “Dance Craze” (um dos silk screens confeccionados por Maurício Valladares com suas fotos e imagens de bandas favoritas – The Jam, Brian Setzer, Paralamas do Sucesso), quando fui surpreendido por uma fã que do nada agarrava a camiseta para afirmar sua adoração pelas bandas do selo 2-Tone. Acho que naquela época, até em Londres, ainda era um acontecimento pouco usual trajar uma camiseta com bandas de ska.

A música mais famosa do disco de estreia dos Specials foi “Gangsters” (recriação de um ska de Prince Buster, de 1964)

Uma outra versão, sempre com versos adicionais como era de costume no caso dos Specials, feita para “Enjoy Yourself”, clássico de Herb Magidson e Carl Sigman

O sucesso mais conhecido do grupo acabou, no entanto, sendo “Ghost Town”

= FUN BOY THREE = (1982-83)

Terry Hall deixaria o ska para trás e, com dois de seus companheiros do Specials, o vocalista Neville Staple e o guitarrista Lynval Golding, partiria para formar o Fun Boy Three. Com o FB3, eles embarcariam em uma vibe new wave nada ortodoxa em dois excelentes discos. Lançados em 1982 e 83, o primeiro levaria o próprio nome da banda e contaria com a participação de um outro trio, este só de mulheres, o Bananarama, formado por Siobhan Fahey (futura esposa de Dave Stewart dos Eurythmics e depois integrante do duo Shakespeare Sisters), Keren Woodward e Sara Dallin. O segundo e último disco dos FB3, com produção de David Byrne, se intitularia “Waiting”. Traria “Our Lips are Sealed”, faixa de enorme sucesso, parceria de Terry Hall com sua namorada na ocasião, a guitarrista da banda americana The Go-Go´s Jane Wiedlin.

A versão solar das Go-Go´s para o hit “Our Lips are Sealed”

Play it again, Sam”, em mais um clip divertido dos FB3 com uma faixa muito querida (“It must be wondeful to live like you do…”) e participação do Madness e das Bananaramas

FB3 interpreta “This is the End”, dos Doors, que faria ponte com as composições que Hall assinaria em seu futuro grupo, o Colourfield

= COLOURFIELD = (1985-87)

Chamava a atenção a maneira desprendida com que Terry Hall se atirava a novos projetos sem conexão nenhuma com os anteriores. E assim foi com o Colourfield que formou com a dupla Toby Lyons and Karl Shale. No programa Ronca Ronca da última quinta-feira, Maurício Valladares tocou alguns discos de 12 polegadas do grupo. Eram os singles ingleses, os nossos compactos que vinham em uma bolachona de vinil como um LP comum, mas com uma única música de cada lado para que a gravação fosse reproduzida com melhor qualidade sonora. No endereço da 7 Lemington Road Villas, recebi muitos desses discos de 12 polegadas enviados pelas gravadoras, quando morei por lá nos anos 1980 e de onde enviava textos de música. Meus irmãos que também estiveram por lá, fizeram a façanha de queimar 4 mil dólares em discos desses na Virgin Megastore e na HMV da Oxford Street, muitos deles terminariam nos toca-discos da Fluminense FM alimentando o Rock Live, programa do MalVal da época. Depois com a chegada da tecnologia digital seriam todos passados por preço irrisório ao pessoal das barraquinhas de vinil da Pedro Lessa, na travessa de pedestres ao lado da Biblioteca Nacional. Foram dois discos apenas do Colourfield, ambos excelentes, “Virgins and Philistines” (1985) e “Deception” (1987).

“Take” do “Virgins and Philistines”, primeiro disco do grupo, com participação do baterista Pete de Freitas

“Sorry”, a composição que deu nome a banda com arranjo à la Echo and the Bunnymen e “Pushing up the Daisies”

“Deception”, segundo e último disco do Colourfield com paricipação de Sinéad O´Connor na faixa “Monkey in Winter”

 

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Resumo da Copa de 2022 no Catar

Foi a Copa dos inacreditáveis 220 bilhões de dólares (um trilhão e borodoada de reais), disputada fora de época em um país autocrático em que mulher, gay e apreciadores de destilados e fermentados alcoólicos são tratados aos pontapés. Direitos humanos? Esqueça. Enfim, no plano político-cultural foi a Copa da vergonha. Em campo, faltou muito talento para termos um espetáculo de maior impacto, à exceção do brilho trazido por parte dos dois craques que se enfrentaram na final com times que tiveram que calibrar seu desempenho para se igualarem a eles e não fazerem feio. E a final entre Argentina e França elevou de fato o nível da competição com um jogaço, cheio de reviravoltas e que tranformou a decisão em uma daquelas partidas memoráveis como não se via há muito tempo. Parabéns a Messi e Mbappé pelo show que proporcionaram. O cartunista Gervário Castro Neto registrou com seu traço único e irreverente toda a Copa. Fez também a gentileza de ceder suas certeiras criações para ilutrarem essa postagem.

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Ana Carolina Modelito 4.0

Terry Hall assina os versos da trilha sonora

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O Adeus a Isabel do Vôlei, a Gal Fa-Tal e ao Tremendão Erasmo Carlos

Não queria deixar de registrar na linha do tempo do blogue a saída de cena de três de nossas estrelas. A Isabel do Vôlei, como ficou conhecida, foi-se aos 62 anos. Era um mês mais nova do que eu. Por sua importante trajetória, ela já tinha ganho merecidamente um verbete de destaque na enciclopédia sobre Ipanema organizada por Ruy Castro. O grande biógrafo das personagens mais significativas da vida brasileira e historiador de nossa cultura não deixou ainda de escrever um inspirado texto de despedida na Folha de São Paulo de quinta-feira passada. Ruth de Aquino na sexta em O Globo soube igualmente recuperar uma entrevista belíssima que revelou a singeleza e despojamento da batalhadora que não corria de uma boa briga – deveria estar agora no grupo de esporte da equipe de transição do governo Lula. No “Ela é Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema” (Cia das Letras, 1999), do mineiro mais ipanemense que se conhece, Maria da Graça também aparece na entrada dedicada ao Pier e suas dunas, onde Gal pontificou com sua turma do vapor barato. Gal Costa partiu aos 74 depois de fazer a trilha sonora de minha vida e, imagino, da de muitos leitores. Não podemos deixar portanto de querer ouvir mais uma vez em sua voz uma seleção das músicas que marcaram vários momentos de nossas sempre precárias existências. Eramos Carlos, mais um que se foi, nos deixou ontem aos 81 anos. Com ele, assim como com Gal Costa, podemos lembrar por onde andávamos ao som de cada uma de muitas de suas canções autorais ou aquelas assinadas ao lado do amigo Roberto Carlos, parceiro desde o período da Jovem Guarda.

Isabel em fotos recentes de um passeio com uma amiga, a jornalista e divulgadora Christina Martins

Na bossanovista e suave “Coração Vagabundo”, de seu disco de estreia com Caetano Veloso, cujo título vinha curiosamente entre aspas.

Interpretando o “Barato Total”, de Gilberto Gil

O amor azulzinho, de Djavan

Outra genial de Caê, que marcou época em sua voz

Traduzindo a brejeirice das músicas de Ary Barroso

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Eleições 2022 em Perspectiva

A diferença de perto de 6 milhões e 200 mil votos do 1o. turno das eleições presidenciais de 2022, que imaginávamos, fosse se amplicar no 2o. turno, afinal Ciro Gomes e Simone Tebet são candidatos mais alinhados com as propostas e o ideario da coligação que reunia PT/PCdoB/PV/Rede/PSOL/PSB/Avante, encolheu assustadoramente para menos do que 2 milhões e 200 mil, na mais apertada disputa da história das eleições brasileiras. O enxugamento se deu principalmente na região sudeste, a mais populosa da federação. Só em Minas Gerais, os 560 mil votos de vantagem conseguidos pela chapa Lula/Alckmin no 1o turno minguou para menos que 50 mil votos no 2o turno. Em São Paulo, Bolsonaro acrescentou aos seus 1.7 milhão votos de vantagem no 1o. turno, quase outro 1 milhão de novos votos – ainda que seu resultado nas urnas tenha ficado 1.1 milhão abaixo do conseguido em 2018.

A candidatura petista cresceu, no entanto, de 2018 para 2022 na região sudeste, especialmente em São Paulo com a perda de protagonismo por parte do PSDB. Mesmo porque, do contrário, teríamos uma derrota. Uma arte do jornal carioca O Globo, publicada no dia seguinte do 2o. turno, mostra como desde 1989, o PT, ainda que perca nas regiões sul e sudeste, quando vitorioso, nunca deixou de ganhar em Minas Gerais – o estado que por tradição define o vencedor das eleições – e no Rio de Janeiro. As derrotas no Rio só vieram a acontecer com a candidatura de Haddad em 2018 e agora em 2022, certamente porque esses dois pleitos marcam a ascenção do bolsonarismo. Ainda que o berço do Partido dos Trabalhadores seja São Paulo, o Rio de Janeiro, ao lado de Minas Gerais, foi sempre o estado da região sudeste em que o PT obteve maioria. E isso, a despeito de só ter tido influência em dois governos fluminenses com a presença de Benedita da Silva como vice de Anthhony Garotinho, em 1998, e de Rosinha Garotinho, em 2002.

Nos pleitos de 1989-94-98 e 2002, o Rio Grande do Sul também acompanhava o partido de Lula, mas, desde o mensalão, o estado que teve dois governadores petistas (Olívio Dutra, de 1999 a 2003, e Tarso Genro, de 2011 a 2015) debandou e nunca mais entregou seus votos a líderes petistas – a vitória para o governo não se sobrepõe necessariamente à vitória estadual.

Quem quiser recapitular a trajetória do partido desde sua criação em fevereiro de 1980 no Colégio Sion em São Paulo com a presença e apoio de grandes e fundamentais pensadores da cultura brasileira como Sérgio Buarque de Hollanda, Mário Pedrosa e Antonio Candido, tem ao seu dispor um excelente livro de Celso Rocha de Barros. Na bancada das livrarias a capa vermelhona e o título (“PT, uma História”; Companhia das Letras, 2022), pode parecer uma manifestação laudatória ao partido, mas não se trata de nada disso. Tem-se na verdade uma interessante rememoração do que tem sido a mais recente e ainda brevíssima experiência democrática brasileira depois de 20 anos de eleições indiretas (de 1964-1985). Estão registradas a campanha pelas Diretas Já e os pleitos diretos subsequentes, que, é bom lembrar aos desavisados, se iniciaram anteontem.

O livro tem importância também por recapitular os bastidores dos planos econômicos e o cenário político que se repete agora com a inesperada união entre tucanos históricos e petistas. O assunto é o mesmo de sempre, os ajustes dos vários planos para a economia, do Plano Cruzado, com o qual André Lara Resende e Pérsio Arida já estavam envolvidos, ao Plano Real de FHC. Faz ao mesmo tempo um histórico das medidas de enfrentamento da fome com a iniciativa de Eduardo Suplicy em 1990 de apresentar a ideia de uma política de renda mínima para os mais vulneráveis, proposta que deu nos programas Bolsa Família e Auxílio Brasil. Os bastidores da política se fazem presentes com a aliança do PT com o PL, de Waldemar da Costa Neto e da Igreja Universal do Reino de Deus, representado pelo vice José Alencar, o que se deu na primeira campanha vitoriosa do PT em 2002. As práticas de caixa dois e a corrupção presentes e disseminadas nos vários partidos políticos são abordadas sem panos quentes.

Historicamente, o maior berço de votos petista foi, desde 2002, o nordeste do país. É ali que o PT tem a sua maior base de votos como comprovando mais uma vez agora em 2022. Foi o nordeste brasileiro, ao lado de um crescimento no sudeste, o maior responsável pela vitória de Lula e Alckmin nestas eleições. As pesquisas de opinião, que foram muitas esse ano, confirmaram que o eleitorado de baixo poder aquisitivo e que recebe até 2 salários mínimos se alinha com o PT e com os partidos de esquerda, em oposição aos de faixa salarial mais elevada e com formação escolar superior que tendem a votar nos representantes da centro-direita.

No nosso município do Rio de Janeiro, por exemplo, os bairros mais ideologicamente alinhados com o petismo em 2022 não foram os bairros mais ricos e da elite carioca, mas, pelo contrário, os mais pobres. Nisso o perfil do eleitor brasileiro se diferencia e se opõe ao do eleitor europeu e francês. Uma das novidades de um dos mais recentes livros de Thomas Piketty, “Capital e Ideologia” (Intrínseca, 2020), é ter uma abordagem distinta do volume “O Capital no Século XXI”. Se no livro de 2013, Piketty fazia uma análise de caráter principalmente econômico, em “Capital e Ideolgia” o estudo apresenta uma perspectiva político sociológica. Nele, Piketty mostra como os eleitores de baixa renda franceses, por exemplo, que foram alinhados com a esquerda durante os anos 1950, 60 e 70, estão escolhendo representantes da direita. Na França, os eleitores de renda mais elevada e com escolaridade superior são aqueles que, por outro lado, passaram a votar na esquerda. Curiosamente, entretanto, a esquerda francesa teve que se aproximar dos eleitores de centro com a pessoa de um político como Emmanuel Macron para voltarem ao poder. Ainda que inversamente, a esquerda e as classes desfavorecidas brasileiras estão tendo pelo visto que caminhar para o centro para conseguir uma vitória nas urnas.

Abaixo arte de O Globo depois do 1o turno, tuíte de Gregório Duvivier após o 2o. turno e foto de faixa na Praça do Vidigal, na entrada da favela na Avenida Niemeyer

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Domingo, Dia de Fazer o L sem Medo de Ser Feliz

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Mais uma Ótima Conversa com Greg

Marcio Debellian recebe Gregório Duvivier para falar sobre seus livros, leituras e sua trajetória como escritor, na Biblioteca Parque do Centro – fica próxima da Praça da República (antigo Campo de Santana). É o projeto Parque de Ideias com shows, oficinas literárias, palestras, que acontece nas bibliotecas Parque do Centro, de Manguinhos e da Rocinha.

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