Toda Solidariedade à Chape

chapecoense-luto_ybv7eyco388e1p4ieryaz6k17

Natural de Lages, trato de juntar, com o Guga Kuerten, com todos os filhos de Santa-Catarina, com toda a nação dos barrigas-verdes, minha solidariedade à equipe do Chapecoense, o time caçula da nossa cena futebolística que trouxe alegria, animou o campeonato brasileiro e já se aventurava por sonhos sul-americanos quando foi golpeado pela tragédia aérea que levou jogadores, técnicos, auxiliares e dirigentes. Na cidadezinha de Chapecó, lá bem no interior do estado onde segundo a etimologia da língua indígena caingangue/jê se “avista o caminho da roça”, tudo funciona e converge para o clube. Pode-se imaginar o que o time representa para os locais, especialmente com uma equipe que vinha brilhando de maneira mais intensa a cada temporada.

As paixões clubísticas são sempre de duas ordens, ou a paixão como praticante de algum esporte ou como torcedor. Como praticante a minha esteve de início associada ao lugar em que passava as muitas horas vagas do meu dia depois da escola. Podia dizer que minha vida girava em torno deste clube. Quando garoto e morador da zona norte do Rio de Janeiro, o Tijuca Tênis Clube cumpriu este papel. Fazia de tudo, aproveitava a piscina, jogava futebol, basquete, vôlei e principalmente o esporte para o qual o clube havia sido criado (há uma tradição de tenistas na família; tios, primos, e ainda colegas muito próximos na época que veneravam o esporte). E me pergunto mesmo por que o Chapecoense, como a maioria dos clubes, não cumpria esta outra importante função. Talvez porque cuidar de um time de futebol já seja dor de cabeça suficiente. E a Chape soube se tornar um dos clubes mais bem administrados do Brasil. Preocupação que os fez infelizmente optarem por um voo mais em conta, sem saber das loucuras de que os donos de empresas aéreas são capazes.

Consigo entender a origem, embora não saiba explicar a razão da paixão clubística como torcedor. A minha teve seu estopim como resultado da catequese de meu avô materno, Francisco de Mello Pedrosa, que, quando eu ainda estava sendo alfabetizado, me pedia para que lesse as manchetes do Jornal dos Sports nas bancas de jornal. Manchetes que sempre festejavam em sua capa cor-de-rosa os feitos do Flamengo. Ao mudar para Copacabana, em 1972, a paixão clubística me acompanharia e no Flamengo passaria a conciliar as duas paixões, a de torcedor e a de praticante de esportes.

A paixão clubística como torcedor nunca foi exclusivista entretanto. Primeiro porque assistir a jogos de futebol ao vivo e de qualquer arquibancada era um prazer e uma mania. Tinha gosto por muitos clubes em uma época em que o programa no Maracanã se estendia das preliminares, às 15h, até a partida principal, às 17h. Mesmo entre os times cariocas, havia a simpatia pelo São Cristóvão, pelo Olaria, pelo Bangu, pelo América, times que já estavam em baixa e com os quais não havia uma rivalidade explícita. Existia também os clubes do coração para cada estado. Times que eram tão importantes quanto o seu representante em sua cidade. Era assim um prazer poder acompanhar e torcer pelo Santos quando ele vinha com sua maior estrela, Pelé, jogar no Maracanã (meu pai me levou a muitos destes jogos), ou pelo Palmeiras de Ademir da Guia.

O futebol deixou de ser uma paixão não de torcedor, mas de espectador. Talvez porque tenha perdido o hábito de frequentar os estádios e jogo pela televisão não tem a mesma graça. A simpatia pelos times pequenos segue intocável. Me fez torcer por outros tantos clubes menores como o Boavista, e me faz torcer pela volta por cima do Verdão do Oeste. Aqui fica portanto a crônica de solidariedade e homenagem ao clube catarinense. Não foi tão inspirada como a que Nelson Rodrigues escreveu em tributo à equipe do Manchester United na Manchete Esportiva (está na coletânea “O Berro Impresso das Manchetes”, Agir, 2007), e nem como a que Morrissey fez em forma de música na composição “Munich Air Disaster – 1958” (link) para a equipe de sua cidade natal. Fica ainda em sinal de lembrança ao jornalista Paulo Julio Clement, companheiro em O Globo.

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Morrissey. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 Responses to Toda Solidariedade à Chape

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Muito bom. Esqueceu de comentar sobre seu hábito de levar livros para ler no intervalo dos jogos do Maracanã.

    Curtir

  2. Avatar de ana maria souza ana maria souza disse:

    Ah que lindo adorei e me emocionei lembrando nossas idas ao Maraca.

    Curtir

Deixar mensagem para ana maria souza Cancelar resposta