A Primeira Eleição em Portugal

Imbuído do velho espírito de vira lata, estava conjecturando sobre qual possível confusão já poderia ter arrumado em terras lusas. Mas não se tratava de nada disso, era só uma correspondência das autoridades de além-mar pedindo para que escolhesse o partido que deve governar o país nos próximos anos. Desde o segundo semestre de 2023, adquiri a cidadania portuguesa e com ela, pelo visto, o direito de apitar sobre os futuros caminhos da vida daqueles que vivem no Norte, Centro, Lisboa, Alentejo, Algarve e adjacências. Tudo cortesia de meu bisavô materno, Bernardino Teixeira de Freitas, pai de minha avó Bertha, nascido em Braga, no dia 23 de junho de 1862, e que imigrou para essa terra brasilis em período em que ninguém na família consegue precisar quando. Faleceu em março de 1941, aos 79 anos, na sua casa na rua Justiniano da Rocha, 70, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, de colapso cardíaco e já viúvo de minha bisavó Virginia.

Embarquei na onda de virar cidadão português empurrado por uma de minhas irmãs que cuidou de toda a burocracia. Faz anos que não piso em Portugal e como também não tive tempo e nem meios para contribuir com nenhum imposto para a administração pública de lá, imaginei que seria um pouco petulante querer opinar sobre decisões que irão ter impacto na vida dos habitantes do país de onde veio meu bisavô. O quadro político, no entanto, era complicado, me alertaram meus amigos do Clube da Esquerda, e acabei enviando meu voto, com a ajuda de uma amiga, integrante da falange esquerdista, que mora em frente a uma agência dos correios em Copacabana – a agência que fica perto de minha casa não aceita cartas, só Sedex (a privatização, como vemos, tornou tudo mais eficiente, agora temos agências do correio, por exemplo, que não trabalham mais com cartas).

Tratei ao menos de me inteirar sobre a situação política que os portais de notícias, as machetes dos jornais e a mídia de modo geral dizem que levou à direita um país de tradição socialista. Olha, perto da direita brasileira, achei a direita portuguesa de uma civilidade impressionante. Precisamos urgentemente trazê-la para cá. A centro direita, representada pela Aliança Democratica e liderada por Luís Montenegro, não quer nem conversar com os direitistas extremistas do Chega. Uma das razões, imaginem vocês, é que o líder do Chega, André Ventura, recorre com frequência a palavras chulas e de baixo calão em seus ataques. Disse, por exemplo, que a Aliança Democrática era uma prostituta política.

(Fonte: jornal Expresso)

Os resultados preliminares, faltando contar os votos que têm até o dia 20 para chegarem por via postal, indicam que a Aliança Democrática e o Partido Socialista vão brigar pela maioria. Dos 230 assentos na Assembleia da República, a AD ficou com 79 cadeiras e o PS, com 77. Faltam 4 deputados a serem definidos. Como a maioria nunca será significativa, qualquer um dos dois grupos terá de buscar acordos com as outras legendas. Na direita convicta, o Chega teve um crescimento expressivo e pulou de 12 deputados para 48. A Iniciativa Liberal, por sua vez, ficou com 8 cadeiras. O problema é que nenhuma dessas legendas é concordante entre si e nem tampouco alinhada com a Aliança Democrática (curioso, a Iniciativa Liberal defende a privatização da TAP e o Chega é contra).

Luís Montengro (PSD), da Aliança Democrática (AD), e Pedro Nuno, do Partido Socialista (PS), siglas líderes de intenção de voto em Portugal, e suas propostas para o país

Na ala gauche, o Bloco de Esquerda, de Mariana Mortágua, uma espécie de Guilherme Boulos de calças mesmo, quer acabar com a especulação imobiliária e impedir a volta dos Golden Visas (vistos de residência temporária para quem investe em imóveis de luxo, que ficam vazios em Portugal a maior parte do ano e que são reponsáveis por uma disparada no preço das moradias), conseguiu 5 cadeiras apenas. A Coligação Unitária (que une o Partido Comunista Português e o Partido Ecologista “Os Verdes”) arrebatou 4 lugares. O Livre, outro opositor ferrenho do Chega, ficou com 4 deputados. São 13 assentos no total. Ao atual Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, caberá decidir se oficializa um Primeiro-Ministro com um legislativo fraturado ou se convoca novas eleições.

Para nós brasileiros, é um universo pequeno de eleitores. Nas nossas eleições de 2022, 124 milhões de eleitores (quase 80% do eleitorado) compareceram às urnas de um total de 156 milhões de possíveis votantes. As eleições de 2024 em Portugal contabilizaram 6,1 milhões de eleitores, com uma taxa de abstenção de 33,8%, considerada baixa. São universos eleitorais de dimensões muito distintas, portanto.

Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, e André Ventura, do Chega, rivalizam

Como já setenciou Caetano Veloso, “política é o fim”. Depois de rever os debates, constato como nunca poderia me aproximar desse jogo de agressões e desentedimentos. Cada um dos candidatos gastando seu tempo investigando a vida alheia para ficar falando mal e fazendo pouco caso do opositor. Além disso, confesso que, tendo dificuldade para administrar minha própria conta bancária, nunca teria competência para responder pelas finanças públicas, de uma cidade, de um estado (distrito, por lá) e muito menos de um país. Melhor ficar ao lado do humorista, colunista da Folha, ex-redator do GregNews, Ricardo Araújo Pereira, que, extremamente popular em Portugal, ganhou um programa similar ao que Gregório Duvivier teve na HBO (foi encerrado esse ano quando deveria ser gravada sua oitava temporada). Um humor um pouco difícil para brasileiros (prefiro o Ricardo comentando com graça o noticiário ou divagando sobre assuntos aleatórios), mas dá pra gargalhar com o circo das eleições.

Ricardo Araújo Pereira entrevista o líder do Partido Socialista (PS), Pedro Nuno Costa

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Solinhos por Ian Birkeland

Larry Carlton (Steely Dan)

Brian May (Queen)

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Harry Strokes Style

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Conversa de Sambista em Rimas de Amor e Dor

Heitor dos Prazeres

Monsueto Menezes e Arnaldo Passos na Voz de Caetano Veloso

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Carnavalização Balzaquiana

Tempo de leituras do mestre de “A Comédia Humana” ao som da marchinha de Nássara e Wilson Baptista, cantada por Jorge Goulart. O engajado Goulart usando de sua voz para festejar um monarquista de carterinha. Mas, enfim, até Engels cultuava os extraordinários folhetins do escritor.

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Meteu o Atestado, Francamente

Beck com Caetano no show de Pretinho da Serrinha, quinta-feira passada na Arena Jockey

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Vai Ter Beck Hansen Hit Maker

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Vai Ter Beck Hansen Antes da Fama

Setlist do show de terça-feira passada no Chile

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Getting Ready for Saturday Night — II

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Getting Ready for Saturday Night — I

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