Família Boulos, os Radicais

Os pais são médicos infectologistas. O pai, Marcos Boulos, é professor titular da Universidade de São Paulo (USP), onde desempenhou várias funções como por exemplo o de superintendente de saúde e de presidente da comisão de ética da universidade. A mãe, Maria Ivete Castro Boulos, é formada pela Universidade da Paraíba e faz residência no Hospital das Clínicas da USP, onde trabalha no Núcleo de Atendimento a Vítimas de Violência Sexual (Navis). É palestrante em escolas e, em uma de suas conversas com jovens, ouviu de um dos adolescentes presentes que as violências sobre as quais ela falava aconteciam em sua casa.

O filho de Maria Ivete e Marcos Boulos é um dos poucos políticos em atividade que exerce com abnegação o ofício de ajudar aos necessitados. Não se trata portanto de nenhum dos pilantras aportunistas que mudam de cidade, de partido e de posições políticas ao sabor das suas ambições e armações pessoais. Graduado em filosofia pela USP e mestre em psiquiatria pela mesma instituição, Guilherme Boulos, que, além de professor da rede pública, lecionou na pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), esteve sempre ligado, por pura convicção, aos movimentos sociais que buscam dar alguma dignidade aos desfavorecidos. Não por acaso, ficou conhecido por se empenhar por conseguir moradia para os sem-teto.

Curioso que em uma das discussões sobre os recentes debates que começam a acontecer com os candidatos à Prefeitura de São Paulo, um cientista político tenha visto na ligação de Boulos com os movimentos sociais um dos “problemas” de sua candidatura. Muito estranho que, em lugar deste fato interessar ao pesquisador, essa opção do candidato da coligação PSOL-PT seja entendida, pelo contrário, de forma depreciativa como um embaraço. É certo que o cientista político em questão se interessa, segundo diz seu currículo, por empreendedorismo, imagino que uma nova área no campo dos estudos político sociológicos. Mas, por surpreendente que seja, nem a menção de Boulos ao projeto de investimento em economia criativa para revitalizar o lado comercial do centro da cidade de São Paulo parece ter despertado a simpatia do comentarista.

O que causou maior surpresa nestas avaliações sobre os debates, no entanto, foi constatar que a maioria dos observadores e comentaristas políticos achou que o atual prefeito Ricardo Nunes se saiu muito bem. Ele foi acusado de favorecer a empresa de um amigo em obras feitas sem licitação, de não cumprir nem de longe a meta de sua administração para a ampliação dos corredores para ônibus, por privatizar os cemitérios da cidade e por trazer em seu currículo um B.O. por violência doméstica. Segundo eles, Ricardo Nunes se mostrou calmo em suas respostas, ainda que não tenha conseguido negar nenhuma das acusações apresentadas. Marcelo Madureira achou mesmo baixaria que a candidata por quem tem apreço, Tábata Amaral, tenha mencionado o incidente de violência doméstica. Realmente não dá para compreender qual o nível de seriedade dessas observações ou se a cara de pau de um candidato passou a ser uma qualidade.

Já que eles foram tão tendenciosos, vou tomar a liberdade de fazer o mesmo. Não vi nenhum candidato, nos debates e entrevistas a que assisti, que tenha demonstrado o conhecimento e a vivência da realidade da cidade de São Paulo como Guilherme Boulos. Impressionante como ele fala com familiaridade não apenas sobre o distrito de Campo Limpo aonde mora, mas também sobre alguns dos distritos que conhece bem e alguns deles que fez questão de visitar para a atual campanha. Lugares, como Itaquera, Capão Redondo, Grajaú, Sapopemba, Guaianases e Vila Perus, que são mencionados com intimidade pelo candidato da coligação PSOL-PT. Sem esquecer do Brás, do bairro de Santa Efigênia e da rua 25 de Março, região em que quer estimular atividades culturais com bares e restaurantes no Programa Novo Centro. Um projeto que lembra o que foi feito aqui no Rio de Janeiro na região do porto da Praça Mauá.

Guilherme Boulos, certamente ajudado pela experiência de sua vice, Marta Suplicy, que já foi prefeita com sucesso de São Paulo e que viveu a atual administração por dentro, tem com muita clareza todos os números para uma governança consequente. Além de lembrar os erros e acertos de administrações passadas, Boulos não esqueceu mesmo de festejar uma boa iniciativa: a criação da “faixa azul”, uma pista exclusiva para motos, que começa a ser replicado no Rio em breve, para acabar com a movimentação de motorcicletas cortanto carros de um lado para o outro.

Em 2016, a candidatura de uma pessoa séria como Marcelo Freixo para a Prefeitura do Rio de Janeiro sofreu o desdém de pessoas esclarecidas, mesmo daqueles pertencentes à sua ala mais escolarizada, pela ligação dele com o PT. O resultado foi que ficamos 4 anos passando o diabo com a administração do senhor Marcelo Crivella. Em 2018, Fernando Haddad, um ótimo ministro da educação e agora um bem sucedido ministro da economia (é o que dizem os números), um intelectual com rara e consistente formação acadêmica (aluno, mestre, doutor e professor concursado da USP, nossa mais importante e bem ranqueada universidade) enfrentou resistência por sua ligação ao PT. O resultado foi que tivemos 4 anos de governo de uma excrecência de pessoa cujo o nome devemos nos recursar a mencionar. Não podemos deixar desta vez que uma cidade importante como São Paulo fique nas mãos de um clone de João Doria que é apoiado por políticos que têm sistematicamente destruído o mínimo de civilidade que a convivência social exige.

Boulos dá aula para Natuza sobre a arrecadação e os gastos da prefeitura de São Paulo

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Medalha Também para o Surfe Brazuca

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Hoje Foi o Dia Dela nos Jogos Olímpicos de Paris

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O Guru Allan Lichtman Prevê Vitória de Kamala Harris a 100 Dias das Eleições

Lichtman, em podcast com seu filho, esclarece até onde vão as previsões do seu livro “The Keys to the White House” para a atual corrida para a Casa Branca e o que pode acontecer em novembro

Professor universitário de história com trajetória no meio acadêmico, ele preparou um modelo de 13 itens que tem servido inacreditavelmente para se prever o resultado das eleições norte-americanas. Desde que foi criado em 1981 e posto em prática a partir de 1984, o modelo vem se confirmando com quase 100% de regularidade, em um percurso tão triunfante que Allan Lichtman é recebido por presidentes e entrevistado por todos os canais de televisão importantes nos Estados Unidos. Detalhe surpreendente, quando replicado em eleições anteriores, o modelo manteve sua acertividade. Só falhou uma única vez, na dispute entre Al Gore e Bush filho, em 2002, aquela em que o democrata ganhou no voto popular, mas perdeu no colégio eleitoral por estado. Em 2016, Hillary Clinton também venceu no voto popular ainda que tenha fracassado no colégio eleitoral. Apesar disso, a previsão de Lichtman era para uma vitória de Trump. E isso, mesmo jogando por terra todas os levantamentos dos institutos de pesquisa que davam Hillary como vitoriosa. A 100 dias das eleições presidenciais norte-americanas, Lichtman não vê o Partido Republicano conseguindo converter em falsos, os 6 itens que necessita para retornar à Casa Branca. Ainda que até novembro o quadro possa mudar, por enquanto isso não se deu. E Lichtman é categórico ao afirmar que nem vitória em debate, nem instituto de pesquisa, conseguem prever resultados como seu engenhoso modelo.

Em vermelho estão os 5 itens que o Partido Republicano tem a seu favor. Item 1 – Não houve crescimento do Partido Democrata (no poder) no congresso americano no meio de seu mandato (nas eleições de 2022, portanto). Item 3 – o candidato à Casa Branca deve estar no poder. Harris é vice, não conta, e Biden abriu mão de sua candidatura. Item 10 – uma falha de ação militar no exterior prejudica o governo e compromete esse ponto (caso das guerras Israel-Hamas e Russia-Ucrânica que abalam esse quesito). 11 – sucesso militar no exterior (mesmo caso do anterior): ausência de ações bem sucedidas leva vantagem para o partido fora do governo. Em azul, os 8 itens necessários e que se confirmam até o momento para o Partido Democrata seguir administrando o país. Item 2 – não há disputa nas primárias do partido no governo para a escolha do próximo candidato (Biden abriu mão de sua candidatura em favor de Kamala e o partido apoiou rapidamente). Item 4 – Não existe um terceiro partido forte concorrendo (o caso da candidatura de Robert F. Kennedy Jr. não tem efeito pois ela não tem boa aceitação). Itens 5 e 6 – economia forte no curto e longo prazo. É o que apontam os institutos que avaliam o desempenho econômico do país. Item 7 – uma grande mudança política por parte do governo favorece a administração no poder. Biden fez isso durante sua administração. Item 8 – ausência de algum distúrbio no país. Um movimento como o “balck lives matter”, que já passou, poderia prejudicar o candidato do governo. Item 9 – um grande escândalo envolvendo o governante. Item 13 – um concorrente carismático. Não é o caso de Trump, que agrada a alguns e é odiado por outros. Tem que ter o apoio majoritário da população como John Kennedy, por exemplo.

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Festa Teatral no Palacete dos Lage com a Trupe de Hamilton Vaz

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Na Companhia de Fucô e Chomsky

Debate na Universidade Tecnológica de Eindhoven em 1971 com legendas em português, inglês e outros idiomas (opções nas configurações do YouTube)

Junho marcou os 40 anos da morte de Paul-Michel Foucault e por coincidência esse foi também o mês em que tentaram despachar Noam Chomsky (alguns inadvertidamente chegaram mesmo a fazê-lo) para o outro lado. Mas Chomsky, apesar da internação de uma semana em São Paulo como consequência ainda de um AVC sofrido no ano passado que o deixou com dificuldade para falar e com o lado direito de seu corpo paralisado, continua por aqui e “Fucô” foi lembrando em um congresso na Universidade de São Paulo em que se discutiu a atualidade e a presença de suas ideias. Revendo a trajetória desses dois grandes intelectuais que marcaram o pensamento do século XX, podemos observar as transformações pelas quais passaram e as crenças às quais se apegaram em meio as mudanças que se deram nas universidades mundo afora.

E pode-se começar confrontando o célebre debate entre Chomsky e Foucault gravado na Holanda na Universidade Tecnológica de Eindhoven em 1971, que virou também o livro “Natureza Humana: Justiça versus Poder”. O programa televisivo flagra Foucault e Chomsky vivendo, ainda que de maneira surpreendentemente sóbria, o momento agitado pós-maio de 68 na França e de mobilização universitária com as demonstrações públicas contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos. E é impressionante a extrema dificuldade que esses dois empenhados militantes têm, enquanto debatem suas percepções sobre ciência e política, de chegarem a um consenso. Conceitos como “natureza humana” e “justiça”, que são na opinião de Chomsky noções corriqueiras e compreensíveis para qualquer um, traduzem, para o adepto de genealogias nietzschianas, insuspeitas construções sociais e, por isso, em lugar de serem utilizados como parâmetros triviais, devem ser questionados em sua origem.

Como veríamos depois, seria algo irreconciliável entre eles. Quarenta anos após a morte de Foucault, os cultuadores de sua obra seguiriam confrontando a posição de Chomsky de condenação de parte da corrente filosófica que apareceu junto com o autor de “A Arqueologia do Saber”, especialmente o relativismo das ideias propagadas pela tendência acadêmica que ficou conhecida como pós-modernismo. É certo que, apesar do valor inconteste de suas extensas, eruditas e densas pesquisas, há certo exagero e intransigência nas posições de Foucault.

Chomsky não foi o único a discordar de algumas posições cripticas de Michel Foucault. Edward Said, por exemplo, mesmo elogiando o importante legado deixado pelo pensador francês com quem se dizia em grande dívida intelectual, discordava de alguns de seus pontos de vista, particularmente sua busca por se posicionar contra a ênfase e peso dados ao caráter singular de um autor. Foucault advogava o desaparecimento do autor e da cultura que o criou. Essa abertura para o tema como que é antecipado como a fagulha na discussão sobre criatividade que dá início às discórdias entre Foucault e Chomsky no debate da televisão holandesa. O próprio pesquisador por trás de trabalhos tão extraordinariamente autorais quanto “História da Loucura”, “As Palavras e as Coisas”, “Vigiar e Punir”, e que ganhou fama e contribuiu para o avanço de ideias fundamentais para o debate contemporâneo, parece ser a negação da importância de tal postulado.

Uma pena portanto que Foucault, apenas dois anos mais velho do que Noam Chomsky, não tenha tido um percurso intelectual tão longevo quanto o do linguista norte-americano para seguir defendendo seus pontos de vista e mesmo para contradizer aqueles que o questionam. Ainda que não tenha visto no meio universitário o nascimento dos estudos multiculturalistas e pós-coloniais, as ideias de Paul-Michel Foucault acabaram de qualquer jeito tendo repercussão dentro dessas duas importantes vertentes acadêmicas de pesquisa que se iniciaram no final dos anos 1970 e que seguem fortes no século XXI. O curioso é que, em contraste com os estudos atuais, as pesquisas foucauldianas parecem de um eurocentrismo a toda prova, não apenas em seus postulados, mas especialmente pelo material de pesquisa que o filósofo escolhe para caracterizar suas hipóteses – é verdade que isso não é exclusividade dele, Said e Chomsky seguem bastante essa receita.

Foucault esteve por 5 vezes no Brasil. A primeira em outubro de 1965, para um curso na USP em que discutiu suas pesquisas daquele período que culminariam no livro “As Palavras e as Coisas”, lançado no ano seguinte. O curso acabou, no entanto, não acontecendo por conta dos desdobramentos do golpe militar de abril de 64. Depois de uma visita à Tunísia para lecionar, na segunda metade dos anos 1960, ele voltaria em 1973. No começo do ano, entre os dias 21 e 25 de maio, faria a célebre palestra que teve discussões quentes com Hélio Pellegrino, Affonso Romano de Sant´Anna, Chaim Katz e Luiz Costa Lima, entre outros. As palestras e os debates de Foucault estão registrados no livro “A Verdade e as Formas Jurídicas” (Nau Editora, 2003), com tradução de Roberto Machado e Eduardo Jardim, que participaram também do encontro (se tornaram dois conhecidos professores da PUC/RJ no período).

Roberto Machado, especialmente, ficaria a partir desse encontro de 1973, com o seu nome ligado ao do filósofo do Collège de France. Machado frequentaria vários cursos de Foucault na renomada instituição francesa a partir daquele ano e viraria amigo particular e cicerone do autor de “História da Sexualidade” em suas outras passagens pelo Brasil. O relato desta convivência está no livro “Impressões de Michel Foucault” (n-1 edições, 2017), em que, além da apresentação das questões discutidas por Foucault ao longo de sua extensa obra, conhecemos o filósofo francês em sua intimidade, algo que irritava Fucô, pois considerava sua vida particular irrelevante.

O congresso de junho na USP serviu para vermos como andam as pesquisas inspiradas na trajetória e no trabalho do intelectual do Collège de France, que faria carreira também como professor visitante na Universidade de Berkeley na California nos anos de 1980. Um dos palestrantes foi Marcelo Hoffman, da Universidade de Pace em Nova York. Ele apresentou as conclusões de seu trabalho “Foucault in Brazil: Dictatorship, Resistance, and Solidarity” que cobre a atuação de Foucault em relação ao cenário político brasileiro durante os anos de chumbo.

Foucault voltou ao Brasil no triênio 74, 75 e 76, sempre nos meses de setembro e outubro. Quando em outubro de 1975 dava um curso sobre “História da Sexualidade” (projeto que resultaria em seu último trabalho, editado em 4 volumes) na USP, decidiu encerrar o curso no meio em solidariedade aos estudantes por conta da repressão política que resultou na prisão de professores, alunos e jornalistas. Foucault falou em uma das assembléias universitárias sobre o arbítrio para justificar o encerramento do curso e ficou ainda na cidade para participar da missa ecumênica em nome do jornalista Wladimir Herzog, de início dado como encontrado morto por suicídio na prisão, e, depois, reconhecido como mais uma pessoa assassinada pelo regime militar brasileiro no Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

Mais do que a trajetória pessoal de Foucault, suas ideias já vinham há muito dando ensejo a pesquisas interessantes no Brasil, certamente por ter visitado muito o pais. A difusão de suas obras e preocupações filosóficas tiveram a seu favor o gabarito de uma intelectual como Margareth Rago. Professora aposentada da Unicamp, mas ainda ativa, Rago desenvolveu estudos inovadores dentro da nossa realidade inspirados nas obras do pensador francês e ajudou a formar muitos quadros de pesquisadores que hoje aplicam as ideias de Foucault a universos como o das igrejas pentecostais e das práticas psiquiátricas no país. Foucault segue portanto com cartaz em alta no meio acadêmico brasileiro. Além do encontro na USP, já havia ocorrido outro em maio na Unicamp também lembrando os 40 anos de sua morte.

Margareth Rago da Unicamp apresenta o pensamento de Foucault e trata de aplicá-lo à nossa realidade

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Noite com All that Jazz

Cia Vida em Arte e as Coreografia de Lu Moura para seus grupos de dançarinas (Teatro Thiago de Mello, Rio de Janeiro, Brasil, em 21/07/2024)

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Ontem, Mais um Prêmio, Hoje, Show de Ajuda ao Sul

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Enchentes no Rio Grande do Sul

O portoalegrense Eduardo Bueno abre o verbo sobre a história e a situação de seu estado natal depois das inundações

Fazer política, todos nós fazemos mesmo que alguns não se apercebam disso. Mas se envolver na vida partidária já é algo que escapa um pouco a minha compreensão, especialmente ao vermos o que tem grassado no cenário político no Brasil e no mundo. Sei que alguns têm um pendor para essa atividade e desde muito jovens abraçam como com um impulso natural a vida político partidária, como é o caso, ainda que com interesses e ambições pessoais bem distintas, de Manuela D´Ávila e de Eduardo Leite. O que não consigo entender é o que leva um sujeito a tomar a decisão de querer viver de política. É esse o meu sentimento em relação à maioria daqueles que pleiteiam cargos públicos no Brasil. Tirando algumas raras exceções, grande parte das pessoas entram para a vida pública por ver na política uma possibilidade de ter ou um “emprego” ou um ganho extra – por que será que um general da reserva, como Hamilton Mourão, veio a se tornar vice-presidente e senador?

Não parecem perceber que pra além da militância para uns e de ganha pão ou ganho extra pra outros, no entanto, a atividade política, quando alguém segue por muito tempo dentro da vida pública, envolve questões práticas que dizem respeito a responsabilidades bem mais sérias do que o bem mais previsível legislar, que requer apenas bom senso. Depois de galgarem os primeiros passos como vereadores, deputados ou senadores, chega a hora de se lançarem à administração de cidades, estados ou mesmo do país. Algo que imagino seja de extrema complexidade e exija a dedicação de alguém que conheça bem o assunto.

Penso nisso ao checar os perfis dos prefeitos dos municípios riograndenses mais populosos atingindos recentemente por chuvas torrenciais que levaram a inundação de boa parte do estado deixando em seu rastro mortos, desabrigados e o comprometimento da economia do estado por muitos anos. Os prefeitos de Porto Alegre, Pelotas e Canoas, por exemplo, são pessoas com formação respectivamente em direito, letras e jornalismo e o de e Caxias do Sul teve experiência como comerciante antes de entrar para a política, áreas de conhecimento e atuação que pouco tem a ver com aquilo que o cargo da administração pública parece exigir.

Além de ter obviamente o conhecimento da história do lugar em que vivem, o cargo de prefeito ou governador exige a competência e o entendimento de como cuidar administrativamente de uma cidade e de um estado. E foi justamente isso que senti falta por parte de todos aqueles, atuais ou pretéritos, prefeitos e governadores, no caso das enchentes recentes ocorridas no Rio Grande do Sul – por mais esforçado e conciliatório que o atual governador Eduardo Leite tenha se mostrado para esclarecer sua atuação neste momento de crise. Será que os ocupantes de cargos administrativos públicos no sul desconheciam o histórico das complicações que um ciclo de chuvas intensas já causou e poderia voltar a causar aos riograndenses? E mesmo o atual presidente e os ex-presidentes nada sabiam sobre as vulnerabilidades deste estado no que se refere ao ciclo de chuvas? Ao que tudo indica, tinham pouca ou nenhuma compreensão sobre as frangilidades do Rio Grande do Sul frente às intempéries climáticas. O resultado são prejuízos incalculáveis e sem precedentes para a economia e para a população do estado.

A obra “A Fisionomia do Rio Grande do Sul”, do padre jesuíta e antropólogo Balduíno Rambo, que descreve a geografia do estado, por Bueno

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Lições com a Grande Mestra Russa Dina Belenkaya

Belenkaya enfrenta o indiano Gukesh, aos 17 anos o mais jovem enxadrista a disputar o título de campeão do mundo a acontecer em novembro próximo

Edgar Allan Poe, que em ensaio famoso ensinou ao mundo como se faz para escrever um poema elaborado e extraordinariamente sombrio, como “O Corvo”, tratava de identificar, em suas muito particulares confabulações de ordem teórica, dois tipos de aptidões humanas segundo sua peculiar visão: a calculista e a analítica. Identificava a primeira como sendo um traço dos que jogam xadrez e a segunda como daqueles que se entregam a partidas que exibem uma maior interação entre seus participantes como nos jogos de damas e de cartas. Advogando a superioridade dos jogos de azar, Poe justificava que só uma mente analítica seria capaz de alcançar a intricada e superior dimensão psicológica inerente aos jogos de damas e ao carteado e tão distante do frio e frívolo xadrez. Segundo Poe, “é pra além dos limites das meras regras que a habilidade do analista se evidencia”. Constrangimentos, hesitações, audácias, apreensões. Tudo, de acordo com Arthur Gordon Pym, contribui como “indicação do verdadeiro estado das coisas”. Associava essa capacidade àquela exibida pela mente brilhante de um C. Auguste Dupin que era capaz de desvendar um mistério tão complicado quanto o dos assassinatos ocorridos na Rua Morgue.

Xadrez de rua na França contra o GM indiano Vidit Gujrathi

O mais admirável autor de contos góticos da história, no entanto, não teve tempo de conhecer o xadrez que lança suas peças em modo blitz acompanhado pelo que se convencionou chamar de “trash talk”. Essa é uma versão menos calculista e mais reflexiva e análitica e tem na pessoa da enxadrista russa Dina Belenkaya uma de suas expoentes. Trata-se de uma variante desse jogo em que ainda que as peças sigam se movendo, como diria Poe, “de maneira bizarra”, temos, apesar disso, uma partida em que o vencedor, mesmo quando derrotado no raso resultado final, pode se sobressair como o mais agudo, imaginoso e desafiador. Se servindo de sua “técnica analítica”, Belenkaya nem sempre ganha suas partidas, mas, em todas elas, temos a garantia de puro entretenimento. Alegre, espirituoso e, por vezes, cômico.

Dina, natural de São Petersburgo, joga no Coffee Chess, em Los Angeles

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