Jorge Amado (1912-2001) em depoimento gravado em 1984 para o Vox Populi da TV Cultura, programa de entrevistas que seria substituído pelo Roda Viva
O canal Conhecendo Museus nos leva a uma visita, no Pelorinho em Salvador, ao Museu Casa de Jorge Amado e, no Rio Vermelho, à moradia na capital baianade Jorge Amado e Zélia Gattai. Entremeando o passeio, temos trechos de documentário de Ruy Santos e de entrevista dada à Bruna Lombardi para o seu “Gente de Expressão“
O grupo da Ioga (Letícia, Otávio, Daniel, Regina, Marcela, Bel, Fernanda, Betinha, Carolina e Lauro) e, entre as baianas Poliana e Alana, Patrícia, Cynthia e Lorena
A semana que antecedeu o domingo de nossas eleições municipais foi passada visitando Ilhéus e Itacaré, ao sul de Salvador, num ponto do litoral equidistante entre Porto Seguro e a Cidade da Bahia, como o baiano se refere à capital do estado. Um passeio turístico com praias, trilhas e aulas de ioga comandadas pelos professores Fernanda Tomassini e Daniel Rivas. Itacaré é um município de perto de seus 30 mil habitantes que vive quase que exclusivamente do turismo e dos serviços a ele associados. Fica 73km ao norte de Ilhéus, que, por sua vez, tem uma população dos seus 180 mil habitantes e que sobrevive desde os anos 20 do século passado à custa das fazendas de cultivo de cacau, que se alastra em plantações pela região favorecido pelas sombras das florestas de Mata Atlântica.
Por ter um aeroporto com voos regulares para São Paulo, Ilhéus se torna também escala obrigatória para o morador do Rio que quer conhecer as praias selvagens de Itacarezinho, de Havaizinho, da Engenhoca e de Pé de Serra, em Itacaré. Bem como, o seu Rio de Contas, que vem margeando a cidade desaguar caudaloso no mar, e que guarda ao longo de seu curso manguezais e mesmo uma cachoeira. Em sua foz temos de um lado a Praia do Pontal e de outro, o Mirante do Xaréu (aquele que Caetano canta em “Milagres do Povo”), concorrido na hora do por do sol itacareense.
Se os moradores de Itacaré festejam sua geografia cativante, os habintantes de Ilhéus cultuam com o maior orgulho o fato de sua cidade ser o lugar onde Jorge Amado, nascido em 1912 na próxima Itabuna, viveu boa parte de sua juventude até partir para estudar direito no Rio de Janeiro nos anos 1930. É a cidade ainda em que o escritor baiano ambientou um de seus romances mais famosos, “Gabriela, Cravo e Canela”. Muito mal cuidada, a casa em que viveu o escritor baiano funciona como centro cultural. Já o cabaré Bataclan, ao contrário, foi muito bem reformado e oferece almoço de qualidade ao visitante. Entre a realidade e a ficção, temos na praça central a igreja Matriz de São Sebastião e o bar Vesúvio, de seu Nacib.
Caetano e o (Mirante do) Xaréu, em que “brilha a prata luz do céu”, música em homenagem a Jorge Amado, um ateu materialista que dizia ter visto o candomblé fazer milagres
Para o olhar de alguém que vem de fora, as eleições municipais locais pareceram ter evoluído um pouco, mas não muito em relação ao que elas eram no período inicial da exploração do cacau na região, o que é muito bem retratado por Jorge Amado em seu romance. Para a prefeitura de Ilhéus, por exemplo, tivemos esse ano até um candidato que se apresentava como Coronel Resende, ainda que não fosse coronel por ter fazenda e mandar na região, mas por ser militar reformado. Concorria obviamente pelo Partido Liberal (PL) de Bolsonaro. Pouco expressivo, ele acabou desistindo da candidatura às vésperas das eleições para ajudar a vitória do empresário Valderico Junior, do União Brasil, que derrotou a candidata do PT Adélia Pinheiro, médica, professora e ex-Secretária Estadual de Educação da administração petista do governador Jerônimo Rodrigues. Valderico acabou obtendo 43% dos votos, Adélia, 40%, e, como em eleições em cidades com menos de 200 mil habitantes não se tem segundo turno, o candidato do União Brasil terminou eleito.
Em Itacaré, o vitorioso foi Nego de Saronga do PT, que tem como vice o professor Zé Washington, do PSD, e que contou para se eleger com o apoio do atual prefeito da cidade, Antônio Anízio, também do PSD. Foi possível presenciar a carreata animada de Nego 13, como Nego de Saronga era referido nos muitos adesivos de sua campanha espalhados por carros, motos nas ruas e no bem visível diretório do PT na cidade.
Itacaré é um município simples, com uma legião de hippies e de artesãos locais oferecendo seus artesanatos nas imediações da praça central. Tem uma rede hoteleira e de restaurantes bem estruturada. Deu a impressão de ser mais cuidada do que Ilhéus. As manifestações políticas mais evidentes nessas cidades baianas se restringiram aos candidatos dos partidos que administram os municípios. Assim como tivemos a caminhada festeira de Nego 13 em Itacaré, em Ilhéus houve uma carreata gigante com baianas vestidas a caráter, música e barulheira na campanha de Bento Lima, candidato do atual prefeito Mário Alexandre (Bento foi secretário de gestão da atual administração), ambos políticos do PSD. Bento, no entanto, não conseguiu esconder os escândalos de uso indevido de verba pública da prefeitura, o que o deixou na lanterna entre os eleitores ilheuenses.
Voltando ao Rio de Janeiro, vimos o prefeito Eduardo Paes, da onipresente legenda de Gilberto Kassab, se sagrar vitorioso no primeiro turno. E em São Paulo, o PSD estava também no palanque comemorando a primeira colocação do peemedebista Ricardo Nunes. Uma tristeza ver os comentaristas de TV falando com naturalidade no PSD, do Kassab, no PL, de Valdemar Costa Neto. Pelo visto, os partidos políticos hoje no Brasil têm dono e suas legendas se transformaram em legendas de aluguel para políticos carreiristas.
Sempre imaginei que as pessoas se reunissem em torno de uma agremiação partidária por suas convicções. Foi assim nos anos 1940, quando Jorge Amado se lançou e foi eleito deputado federal por São Paulo pelo Partido Comunista Brasileiro, o que fez estritamente por suas cresças políticas. Mas agora não. Os candidatos concorrem pela legenda do Kassab, do Valdemar Costa Neto, pelo PDT, de Carlos Lupi. As únicas exceções talvez sejam o PSB e o PSOL.
Em tempos de voto de cabestro digital, tivemos também que ouvir de um guia de trilhas local que nos levou às praias do Resende, da Ribeira, da Tiririca e da Costa, que ele era direitista, mas, em lugar da linha bolsonarista, se identificava mais com o estilo de Pablo Marçal. Para os que estão muito assustados com a cena política, a impressão que ficou, depois de conhecer o cenário em cidades menores, é que essas legendas são pouco importantes para as decisões administrativas que os candidatos tomarão no futuro. Em Ilhéus, por sua importância, tivemos, ao contrário de Itacaré, um debate televisivo e os candidatos pareceram muito simplórios e pouco senhores de suas convicções. Foi a sensação que ficou.
Debate televisivo dos candidatos à prefeitura de Ilhéus (em cidades menores, como Itacaré, não houve debate na TV)
O liberalismo é uma beleza, uma maravilha, coisa do outro mundo, mas só pra quem fatura com suas benesses, regalias, privilégios, seus estilionatos disfarçados de negócio sério, seus favorecimentos estruturais, geracionais, para a casta dos happy few. Para quem trabalha duro para conseguir o mínimo, a situação é bem outra. Thomas Piketty já mais do que esclareceu que não há nada de lisura competitiva, ou meritocracia como dizem, no funcionamento do liberalismo como é praticado hoje na maioria dos países do mundo. Situação que tem levado a uma concentração de renda desproporcial e que não estimula o empenho de cada indivíduo dentro dos estados nação que praticam o livre comércio – e mesmo fora deles, vejam o caso chinês. A desigualdade é tão grande que mesmo o acesso a um direito básico como o da casa própria não parece sensibilizar nuitos governantes sobre sua importância e urgência.
Em recente comício que renovou de maneira surpreendente o que entedemos por campanha eleitoral nos Estados Unidos, Kamala Harris, falando para um grupo de eleitores, lembrou a alegria de sua mãe quando, depois de 10 anos de muita luta, conseguiu quitar a penhora de sua residência e ter definitivamente uma casa para chamar de sua. E prometeu um plano de governo para facilitar a aquisição de moradia por parte de um vasto segmento da sociedade americana. Compreendo bem o sentimento que Harris relatou sobre sua mãe. Se não tivesse o apoio abnegado de minha primeira sogra, com quem dividi por muitos anos um mesmo teto, e a ajuda de minha primeira mulher e da minha atual companheira, certamente ainda não teria conseguido quitar empréstimos para conseguir um teto definitivo.
Kamala Harris fala sobre seu plano de governo
Esse é um tema que tem marcado a campanha eleitoral de Kamala Harris e também a de Guilherme Boulos, as duas apostas políticas que estão trazendo novos ares na luta pela presidência, nos Estados Unidos, e pela prefeitura de São Paulo, aqui no Brasil. Dois programas de governo em que esse dado básico para a vasta maioria das pessoas, que é o de facilitar o direito a uma moradia, tem um importante papel. Talvez não por coincidência, a trajetória de Harris e Boulos apresentem também muitos pontos em comum. Assim como Boulos, Kamala é filha de pais universitários. O pai, jamaicano de Browns Town, e a mãe, indiana de Chennai, se conheceram na California onde foram dar sequência a seus estudos em pós-graduação em economia e medicina, respectivamente.
Kamala e Boulos têm ainda em comum o fato de terem se envolvido na vida pública e na política não com uma ambição autocentrada e mesquinha, mas com o fito de ajudar grupos da sociedade civil em luta por reconhecimento de seus direitos fundamentais. Boulos com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Kamala, atuando como procuradora da cidade de São Francisco e, depois, do estado da California, sendo dura com o crime organizado transnacional, mas defendedo a reabilitação de criminosos de baixa periculosidade com sua reentrada na vida social através do estudo.
Como senadora, Kamala se empenhou ainda por assegurar um programa de saúde universal para todos e apoiar uma legislação que aumentasse os impostos cobrados das classes favorecidas. Kamala tem como vice o professor Tim Waltz, formado em ciências sociais, e que foi, assim como Boulos, professor de turmas de 2o grau. Foi dando aulas de geografia que ele conheceu sua esposa, a professora de língua inglesa Gwen Whipple, com quem veio a morar na cidade de Mankato em Minnesota, onde ambos lecionaram na escola de ensino médio local.
Os alunos de Tim e Gwen Walz falam sobre a experiência com seus professores
Caso Kamala e Walz sejam eleitos, teremos a primeira mulher presidente dos Estados Unidos com o detalhe adicional de ser filha de pais imigrantes. Teremos também no cargo de vice-presidente um ex-professor de ensino médio. É muito tocante ver a maneira como os alunos de Tim Walz têm apoiado com depoimento próprio, o ex-professor. Tão tocante quanto as manifestações de populares que conseguiram sua primeira moradia com a luta de Guilherme Boulos, como foi o caso de Andréia Barbosa que recebeu a visita em seu apartamento de pessoas que, como o candidato a prefeito de São Paulo, têm na luta pelas classes desfavorecidas seu objetivo político. Caso do ex-prefeito de Nova York Bill de Blasio.
Além da terminar em histórico 5o lugar no quadro geral de medalhas das Paraolimpíadas de Paris 2024 que se enceram hoje, os brasileiros chegaram ao alto do pódio em várias das competições de natação. Carol Santiago, ou Maria Carolina Gomes Santiago, levou 3 medalhas de ouro nos 100 metros costas e nos 50 e 100 metros nado livre, nas categorias S13 e 12. Gabrielzinho, ou Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, faturou 3 ouros nos 50 e 100 metros costas e nos 200 metros nado livre na categoria S2. Tivemos ainda mais um ouro para Talisson Glock nos 400 metros livre S6.
Os nadadores brasileiros conquistaram ainda 9 medalhas de prata na Natação Phelipe Melo – 50m livre S10 Wendell Belarmino – 50m livre S11 Talisson Glock – 100m livre S6 Gabriel Bandeira – 100m costas S14 Cecilia Araújo – 50m livre S8 Patricia dos Santos – 50m peito SB3 Carol Santiago – 100m peito SB12 Debora Carneiro – 100m peito SB14 Revezamento 4x100m livre misto – 49 pontos
E outras 10 de bronze Gabriel Bandeira – 100m borboleta S14 Talisson Glock – 200m medley SM6 Mariana Gesteira -100m livre S9 Mariana Gesteira – 100m costas S9 Beatriz Carneiro – 100m peito SB14 Mayara Petzold – 50m borboleta S6 Lidia Vieira – 150m medley SM4 Revezamento 4x50m livre misto – 20 pontos Revezamento 4x100m livre misto – S14 Lidia Cruz – 50m costas S4
A vice-presidente aceitando a indicação para ser a primeira mulher de ascendência negra candidata à presidência dos Estados Unidos
Michelle Obama ovacionada em seu discurso na Convenção do seu partido
Obama, primeiro presidente negro estadunidense, também foi muito aplaudido na Convenção Nacional dos Democratas
Beyoncé cedeu a música tema da campanha, “Freedom”, mas optou por não falar na Convenção, ao contrário de Oprah Winfrey, que discursou e estará ao lado de Kamala durante toda a jornada
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.