O liberalismo é uma beleza, uma maravilha, coisa do outro mundo, mas só pra quem fatura com suas benesses, regalias, privilégios, seus estilionatos disfarçados de negócio sério, seus favorecimentos estruturais, geracionais, para a casta dos happy few. Para quem trabalha duro para conseguir o mínimo, a situação é bem outra. Thomas Piketty já mais do que esclareceu que não há nada de lisura competitiva, ou meritocracia como dizem, no funcionamento do liberalismo como é praticado hoje na maioria dos países do mundo. Situação que tem levado a uma concentração de renda desproporcial e que não estimula o empenho de cada indivíduo dentro dos estados nação que praticam o livre comércio – e mesmo fora deles, vejam o caso chinês. A desigualdade é tão grande que mesmo o acesso a um direito básico como o da casa própria não parece sensibilizar nuitos governantes sobre sua importância e urgência.
Em recente comício que renovou de maneira surpreendente o que entedemos por campanha eleitoral nos Estados Unidos, Kamala Harris, falando para um grupo de eleitores, lembrou a alegria de sua mãe quando, depois de 10 anos de muita luta, conseguiu quitar a penhora de sua residência e ter definitivamente uma casa para chamar de sua. E prometeu um plano de governo para facilitar a aquisição de moradia por parte de um vasto segmento da sociedade americana. Compreendo bem o sentimento que Harris relatou sobre sua mãe. Se não tivesse o apoio abnegado de minha primeira sogra, com quem dividi por muitos anos um mesmo teto, e a ajuda de minha primeira mulher e da minha atual companheira, certamente ainda não teria conseguido quitar empréstimos para conseguir um teto definitivo.
Kamala Harris fala sobre seu plano de governo
Esse é um tema que tem marcado a campanha eleitoral de Kamala Harris e também a de Guilherme Boulos, as duas apostas políticas que estão trazendo novos ares na luta pela presidência, nos Estados Unidos, e pela prefeitura de São Paulo, aqui no Brasil. Dois programas de governo em que esse dado básico para a vasta maioria das pessoas, que é o de facilitar o direito a uma moradia, tem um importante papel. Talvez não por coincidência, a trajetória de Harris e Boulos apresentem também muitos pontos em comum. Assim como Boulos, Kamala é filha de pais universitários. O pai, jamaicano de Browns Town, e a mãe, indiana de Chennai, se conheceram na California onde foram dar sequência a seus estudos em pós-graduação em economia e medicina, respectivamente.
Kamala e Boulos têm ainda em comum o fato de terem se envolvido na vida pública e na política não com uma ambição autocentrada e mesquinha, mas com o fito de ajudar grupos da sociedade civil em luta por reconhecimento de seus direitos fundamentais. Boulos com o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Kamala, atuando como procuradora da cidade de São Francisco e, depois, do estado da California, sendo dura com o crime organizado transnacional, mas defendedo a reabilitação de criminosos de baixa periculosidade com sua reentrada na vida social através do estudo.
Como senadora, Kamala se empenhou ainda por assegurar um programa de saúde universal para todos e apoiar uma legislação que aumentasse os impostos cobrados das classes favorecidas. Kamala tem como vice o professor Tim Waltz, formado em ciências sociais, e que foi, assim como Boulos, professor de turmas de 2o grau. Foi dando aulas de geografia que ele conheceu sua esposa, a professora de língua inglesa Gwen Whipple, com quem veio a morar na cidade de Mankato em Minnesota, onde ambos lecionaram na escola de ensino médio local.
Os alunos de Tim e Gwen Walz falam sobre a experiência com seus professores
Caso Kamala e Walz sejam eleitos, teremos a primeira mulher presidente dos Estados Unidos com o detalhe adicional de ser filha de pais imigrantes. Teremos também no cargo de vice-presidente um ex-professor de ensino médio. É muito tocante ver a maneira como os alunos de Tim Walz têm apoiado com depoimento próprio, o ex-professor. Tão tocante quanto as manifestações de populares que conseguiram sua primeira moradia com a luta de Guilherme Boulos, como foi o caso de Andréia Barbosa que recebeu a visita em seu apartamento de pessoas que, como o candidato a prefeito de São Paulo, têm na luta pelas classes desfavorecidas seu objetivo político. Caso do ex-prefeito de Nova York Bill de Blasio.
Além da terminar em histórico 5o lugar no quadro geral de medalhas das Paraolimpíadas de Paris 2024 que se enceram hoje, os brasileiros chegaram ao alto do pódio em várias das competições de natação. Carol Santiago, ou Maria Carolina Gomes Santiago, levou 3 medalhas de ouro nos 100 metros costas e nos 50 e 100 metros nado livre, nas categorias S13 e 12. Gabrielzinho, ou Gabriel Geraldo dos Santos Araújo, faturou 3 ouros nos 50 e 100 metros costas e nos 200 metros nado livre na categoria S2. Tivemos ainda mais um ouro para Talisson Glock nos 400 metros livre S6.
Os nadadores brasileiros conquistaram ainda 9 medalhas de prata na Natação Phelipe Melo – 50m livre S10 Wendell Belarmino – 50m livre S11 Talisson Glock – 100m livre S6 Gabriel Bandeira – 100m costas S14 Cecilia Araújo – 50m livre S8 Patricia dos Santos – 50m peito SB3 Carol Santiago – 100m peito SB12 Debora Carneiro – 100m peito SB14 Revezamento 4x100m livre misto – 49 pontos
E outras 10 de bronze Gabriel Bandeira – 100m borboleta S14 Talisson Glock – 200m medley SM6 Mariana Gesteira -100m livre S9 Mariana Gesteira – 100m costas S9 Beatriz Carneiro – 100m peito SB14 Mayara Petzold – 50m borboleta S6 Lidia Vieira – 150m medley SM4 Revezamento 4x50m livre misto – 20 pontos Revezamento 4x100m livre misto – S14 Lidia Cruz – 50m costas S4
A vice-presidente aceitando a indicação para ser a primeira mulher de ascendência negra candidata à presidência dos Estados Unidos
Michelle Obama ovacionada em seu discurso na Convenção do seu partido
Obama, primeiro presidente negro estadunidense, também foi muito aplaudido na Convenção Nacional dos Democratas
Beyoncé cedeu a música tema da campanha, “Freedom”, mas optou por não falar na Convenção, ao contrário de Oprah Winfrey, que discursou e estará ao lado de Kamala durante toda a jornada
Os pais são médicos infectologistas. O pai, Marcos Boulos, é professor titular da Universidade de São Paulo (USP), onde desempenhou várias funções como por exemplo o de superintendente de saúde e de presidente da comisão de ética da universidade. A mãe, Maria Ivete Castro Boulos, é formada pela Universidade da Paraíba e faz residência no Hospital das Clínicas da USP, onde trabalha no Núcleo de Atendimento a Vítimas de Violência Sexual (Navis). É palestrante em escolas e, em uma de suas conversas com jovens, ouviu de um dos adolescentes presentes que as violências sobre as quais ela falava aconteciam em sua casa.
O filho de Maria Ivete e Marcos Boulos é um dos poucos políticos em atividade que exerce com abnegação o ofício de ajudar aos necessitados. Não se trata portanto de nenhum dos pilantras aportunistas que mudam de cidade, de partido e de posições políticas ao sabor das suas ambições e armações pessoais. Graduado em filosofia pela USP e mestre em psiquiatria pela mesma instituição, Guilherme Boulos, que, além de professor da rede pública, lecionou na pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), esteve sempre ligado, por pura convicção, aos movimentos sociais que buscam dar alguma dignidade aos desfavorecidos. Não por acaso, ficou conhecido por se empenhar por conseguir moradia para os sem-teto.
Curioso que em uma das discussões sobre os recentes debates que começam a acontecer com os candidatos à Prefeitura de São Paulo, um cientista político tenha visto na ligação de Boulos com os movimentos sociais um dos “problemas” de sua candidatura. Muito estranho que, em lugar deste fato interessar ao pesquisador, essa opção do candidato da coligação PSOL-PT seja entendida, pelo contrário, de forma depreciativa como um embaraço. É certo que o cientista político em questão se interessa, segundo diz seu currículo, por empreendedorismo, imagino que uma nova área no campo dos estudos político sociológicos. Mas, por surpreendente que seja, nem a menção de Boulos ao projeto de investimento em economia criativa para revitalizar o lado comercial do centro da cidade de São Paulo parece ter despertado a simpatia do comentarista.
O que causou maior surpresa nestas avaliações sobre os debates, no entanto, foi constatar que a maioria dos observadores e comentaristas políticos achou que o atual prefeito Ricardo Nunes se saiu muito bem. Ele foi acusado de favorecer a empresa de um amigo em obras feitas sem licitação, de não cumprir nem de longe a meta de sua administração para a ampliação dos corredores para ônibus, por privatizar os cemitérios da cidade e por trazer em seu currículo um B.O. por violência doméstica. Segundo eles, Ricardo Nunes se mostrou calmo em suas respostas, ainda que não tenha conseguido negar nenhuma das acusações apresentadas. Marcelo Madureira achou mesmo baixaria que a candidata por quem tem apreço, Tábata Amaral, tenha mencionado o incidente de violência doméstica. Realmente não dá para compreender qual o nível de seriedade dessas observações ou se a cara de pau de um candidato passou a ser uma qualidade.
Já que eles foram tão tendenciosos, vou tomar a liberdade de fazer o mesmo. Não vi nenhum candidato, nos debates e entrevistas a que assisti, que tenha demonstrado o conhecimento e a vivência da realidade da cidade de São Paulo como Guilherme Boulos. Impressionante como ele fala com familiaridade não apenas sobre o distrito de Campo Limpo aonde mora, mas também sobre alguns dos distritos que conhece bem e alguns deles que fez questão de visitar para a atual campanha. Lugares, como Itaquera, Capão Redondo, Grajaú, Sapopemba, Guaianases e Vila Perus, que são mencionados com intimidade pelo candidato da coligação PSOL-PT. Sem esquecer do Brás, do bairro de Santa Efigênia e da rua 25 de Março, região em que quer estimular atividades culturais com bares e restaurantes no Programa Novo Centro. Um projeto que lembra o que foi feito aqui no Rio de Janeiro na região do porto da Praça Mauá.
Guilherme Boulos, certamente ajudado pela experiência de sua vice, Marta Suplicy, que já foi prefeita com sucesso de São Paulo e que viveu a atual administração por dentro, tem com muita clareza todos os números para uma governança consequente. Além de lembrar os erros e acertos de administrações passadas, Boulos não esqueceu mesmo de festejar uma boa iniciativa: a criação da “faixa azul”, uma pista exclusiva para motos, que começa a ser replicado no Rio em breve, para acabar com a movimentação de motorcicletas cortanto carros de um lado para o outro.
Em 2016, a candidatura de uma pessoa séria como Marcelo Freixo para a Prefeitura do Rio de Janeiro sofreu o desdém de pessoas esclarecidas, mesmo daqueles pertencentes à sua ala mais escolarizada, pela ligação dele com o PT. O resultado foi que ficamos 4 anos passando o diabo com a administração do senhor Marcelo Crivella. Em 2018, Fernando Haddad, um ótimo ministro da educação e agora um bem sucedido ministro da economia (é o que dizem os números), um intelectual com rara e consistente formação acadêmica (aluno, mestre, doutor e professor concursado da USP, nossa mais importante e bem ranqueada universidade) enfrentou resistência por sua ligação ao PT. O resultado foi que tivemos 4 anos de governo de uma excrecência de pessoa cujo o nome devemos nos recursar a mencionar. Não podemos deixar desta vez que uma cidade importante como São Paulo fique nas mãos de um clone de João Doria que é apoiado por políticos que têm sistematicamente destruído o mínimo de civilidade que a convivência social exige.
Boulos dá aula para Natuza sobre a arrecadação e os gastos da prefeitura de São Paulo
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.