Foo Fighters in Rio 2015

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Como todos os órfãos do Nirvana, passei a acompanhar os Foo Fighters desde que Dave Grohl empunhou uma guitarra e veio pra frente do palco tentar encontrar um caminho no pós-holocausto nirvânico. Tudo era perfeitamente compreensível. No Nirvana, Grohl só havia conseguido ganhar certo destaque como compositor com uma única música: “Marigold”, uma maravilha de composição que ficou esquecida para todo o sempre. Depois de viver na sombra do talento de Cobain, parecia natural a sessão de descarrego pela qual precisava passar e que veio embalada pela carta de intenções de sua “Monkey Wrench”. Gravou 8 ótimos discos de estúdio (de “Foo Fighters” ao recente “Sonic Highways”), alguns deles não de todo felizes, mas dos quais sempre se conseguia salvar muita coisa. Um único senão foram sempre as letras. A bem da verdade, me parece uma das coisas mais problemáticas na música feita em todas as latitudes. Do pagode ao rock´n´roll. Causa surpresa como temos carência de alguém que tenha e saiba o que dizer. Grohl engana com razoável desenvoltura. Para o consumidor de cultura pop, no entanto, as composições precisam comunicar em três minutos todas aquelas coisas que são fundamentais na vida. Cobain sabia fazer isso, Morrissey continua demonstrando como é possível realizar essa proeza.

Dos discos pro palco, Grohl fez a mágica de transformar a animosidade permanente que experimentava junto à fúria de Cobain em fúria de júbilo e festa. E isso mantendo sempre aquele espírito dos tempos do Nirvana de não ser subserviente jamais, em momento algum, a quem pagou para vê-lo. Acompanho os FFs ao vivo desde 1997 em uma apresentação que aconteceu no The Shepherd´s Bush Empire em Londres, em que Grohl fez duo de bateria com Roger Taylor. Os FFs estavam no segundo disco, “The colour and the shape”. É o meu favorito e também dos fãs, campeão de vendagem entre os discos de estúdio do grupo.  Quanto à apresentação de ontem no Maracanã, vou repetir o que disse no Livro-de-Caras. Os shows dos FFs já foram ótimos. Desde o Lollapalooza em 2012 eles andam perdendo a noção de timing ao vivo (músicas longas demais, conversa fiada demais) e ontem ainda tiveram o som jogando contra eles. Na TV tava ruim e lá, muito pior. Iluminação também nota zero. Milhares de holofotes projetando focos de luz na cara do público que foi ver um show. Dois telões mínimos e que ficavam parcialmente encobertos por torres. Coisa da pré-história do rock de arena e diante de um número significativo de fãs que já havia visto um showzaço dos FFs no Rock in Rio de 2001. Grohl está precisando repensar o roteiro e os promotores do evento a estrutura de um concerto que custou caro ao bolso do freguês. Cheguei em cima da hora e perdi Kaiser Chiefs e os Raimundos, mas confesso que não me arrependi. Com aquela estrutura, duvido que tenham conseguido fazer shows minimamente interessantes. Ana Carolina foi ver o Queen cover e não gostou nada dos FFs terem esquecido de “Tie Your Mother Down”.

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Rock in Rio 30 anos

Texto do amigo, e metaleiro de carteirinha (fã número 1 do Kiss), Leonardo Pimentel. Publicado no Facebook e gentilmente cedido para reprodução por aqui:

Rock in Rio

“O Rock In Rio tá fazendo trinta anos. Inesquecível não só pelas atrações, mas porque foi minha primeira cobertura como jornalista, com 18 anos, um ano e meio antes de entrar pra faculdade. Eu era redator das revistas “Roll” e “Metal” – versões nacionais das argentinas “Pello” e “Metal” – e estava credenciado para cobrir o festival, o que me dava acesso livre aos shows e às entrevistas e me elevava a uma categoria de semideus entre os amigos.

No dia da abertura, a equipe marcou como ponto de encontro o hotel em Copacabana onde tínhamos entrevistado George Benson. Saímos de lá (num busum, mesmo) eu, Andre Machado, o editor Manolo Gutierrez, Patrícia (namorada do Manolito), Paulo Cartolano (fotógrafo da revista), dois fotógrafos argentinos e a mulher de um deles (cujos nomes eu, infelizmente, já não lembro). Kiko (Marcos Souza) e Mansur não iam se misturar com aquele bando de metaleiros.

Como prevíamos, perdemos a abertura do festival. Ney Matogrosso cantou quando ainda caminhávamos do ponto de ônibus no Autódromo até a Cidade do Rock. Na entrada, a cobiçada credencial do festival nos garantia algumas prerrogativas, como acesso exclusivo, entrar com equipamento fotográfico e, principalmente, não passar pela dura dos seguranças. Não que eu e André, os bons meninos da redação, corrêssemos algum risco. Já o resto da turma…

Nem bem atravessou os portões, Manolito decretou: “Rock’n’roll é o cacete, isso aqui é um tremendo maconhódromo!” A divisão de tarefas na equipe era clara. Eles fumavam maconha, eu e o André tínhamos a larica, o que nos fez correr logo para um MacDonald’s. Ao voltarmos para o grupo, nos juntamos ao esforço de fazer a argentina se sentir confortável.

Eu oferecei um pedaço do Big Mac.

Ela: “No, gracias.”

André ofereceu um pouco de guaraná.

Ela: “Es natural? No? No, gracias.”

Paulinho ofereceu cerveja (Malt Nojenta, é verdade, mas era o que tinha).

Ela: “No, gracias.”

Manolito esticou-lhe a vela que havia acabado de preparar e acender.

Ela, com cara de nojo: “No, gracias.”

Ainda pensei em dizer “Um sexo gostoso atrás das caixas de som, nem pensar, né?”, mas achei que ela não teria senso de humor pra isso.

Enfim, uns alimentados, outros fumados, nos dispersamos para ver os shows e combinamos nos encontrar na saída ao lado do palco após o último show, para irmos todos juntos até os ônibus.

Não vou me estender sobre Whitesnake, Iron Maiden e Queen porque isso já é História. Basta de dizer que, quando Mercury, May, Deacon e Taylor deixaram de vez o palco, eu fui até a saída combinada e encontrei o André. Desnecessário dizer que fomos os únicos a levar a sério a história do ponto de encontro. Éramos tão babacas, mas tão babacas, que ainda esperamos meia hora pra ver se os outros chegavam. Quando nos convencemos que isso não ia acontecer, fomos embora. Eram 4h30 e o dia ainda estava longe de raiar.

Vimos um monte de ônibus no RioCentro, mas o guia do festival e as matérias de jornal diziam que os ônibus pra Tijuca e pra Niterói (destinos meu e dele, respectivamente) partiriam do Autódromo. Seguimos até lá, apenas para descobrir que tinha havido uma mudança de planos e todos os ônibus partiriam do RioCentro, para onde voltamos e onde constatamos já não haver ônibus algum. O jeito, diziam os funcionários, era esperar a volta dos veículos que tinham acabado de sair.

Enquanto esperávamos, encontramos Marcello Rangel, primo do André, que assistira ao show (na categoria plebe ignara, claro, hehehehe) e também esperava condução para Nikiti. O primeiro ônibus a aparecer foi justamente um “Praça XV”. Para eles era ótimo, pois desceriam de cara para a barca. Também me adiantava, pois eu poderia pegar o metrô no Centro. O problema é que toda a população de Niterói e mais um grupo de Iguaba Grande tiveram a mesma ideia. Gente, gente e mais gente pra embarcar nos 40 lugares sentados e 40 em pé. Num dado momento, eu disse pro André e pro Marcello: “Galera, vão na paz, que eu vou esperar outro.”

Estava eu sentado na caçada havia uns 15 minutos, quando aparece o André, dizendo que até tentou entrar no busum, mas não deu. Dali a pouco, passa o dito ônibus desafiando todas as leis da física sobre corpos não ocuparem o mesmo espaço. Além das trocentas pessoas dentro, vinham uns cinco cambonos literalmente agarrados à porta pelo lado de fora. Um deles era o Marcello, que ainda conseguiu berrar um “Tchau André, tchau Pimentel!” antes de sumir com o coletivo. Para completar nossa depressão, o dia começou a raiar, e nós ainda estávamos ali.

Eram 6h30 quando embicou mais um ônibus, trazendo “Gávea” no letreiro. Whatever! Se estivesse escrito “Mordor” eu ia embarcar do mesmo jeito, desde que pudesse sair dali. O bicho veio desacelerando e eu senti que ia parar uns bons vinte metros depois do ponto da calçada onde eu estava. Como havia outra multidão querendo embarcar, resolvi partir pra ignorância. Peguei o braço do André e disse “Barba, vem comigo”, ao mesmo tempo em que me agarrava a um ferro da porta traseira (antigamente era a porta de embarque), de forma que ônibus nos arrastou até parar.

Veio um fiscal berrando que “tinha que fazer fila”, ao que eu respondi “pode fazer a fila que quiser, desde que a gente entre primeiro!” E foi assim que eu e André fomos empurrados pela massa para dentro do ônibus e ainda conseguimos escolher os lugares. Admito que dormi até o Planetário, de onde pegamos o integração do Metrô para Botafogo. Ele desceu no Centro e eu fui até a Tijuca. Depois de uma meia-trava pra um pastel (não comia nada desde o Big Mac da véspera), cheguei em casa às 8h30 me antecipando em décadas à moda Walking Dead.

Até deu pra descansar – mas não muito. Dali a pouco tinha entrevista com AC-DC e Scorpions e mais show de noite. Mas isso já é história pra outra ocasião.”

Leonardo Pimentel

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Religião e fúria

Os três fundamentalismos

“Os Três Fundamentalismos”, por Sérgio Paulo Rouanet (clique aqui)

Como Téo Pereira, sou fã incondicional do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e seria ótimo comentar alguma coisa sobre ele, mas devo, no entanto, e para não parecer um lunático, fazer a opção pelo registro do noticiário internacional. Ao mesmo tempo, como muita tinta e muita memória digital já foram consumidas com os atentados ocorridos em Paris, discutindo não apenas o ataque ao “Charlie Hebdo” e ao mercadinho Kosher como lembrando ainda outras atrocidades de fundo religioso menos faladas por não terem tido lugar na França, fico com a indicação de um artigo contra todos os fundamentalismos. Foi publicado em seguida ao 11 de setembro de 2001 e poderia ser reimpresso a cada novo atentado. Nele Sérgio Paulo Rouanet ataca sem distinção toda a fúria demente dos fanáticos religiosos de todos as procedências: cristã, judaica ou islâmica. Continua atual e arrisco dizer que infelizmente seguirá assim por muitos milênios. Saiu no saudoso caderno +Mais! da Folha de São Paulo, jornal que em sua busca incessante pela decadência tratou de substituir o ótimo suplemento pela famigerada Ilustríssima, que de ilustre não tem nada.

 

 

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Karl Marx e as antinomias de uma razão impura

Karl Marx

Textos de Marx em domínio público (clique aqui)

Audiolivros de Marx no librivox (clique aqui)

Nova edição de “O Capital” pela Boitempo (clique aqui)

Nas redes sociais está na moda falar mal de Karl Marx. Na cabeça daqueles que não tem familiaridade com a mais elementar dialética, temos a proposição de que Lula e Dilma nos levariam obrigatoriamente a Karl Marx. Ah, as antinomias de uma razão impura. Como podemos ter uma tese e uma antítese idênticas e que, ainda por cima, se igualam a uma síntese que não guarda qualquer relação com elas. É um raciocínio de um primarismo assustador. Marx deve justificadamente estar tendo seus achaques em seu mausoléu em Highgate. Não existem pessoas mais antagônicas.

Lula é adepto da escola da ignorância, como todos sabem. Dilma é um avanço em relação a esta posição. Nunca conseguiu, de qualquer modo, completar sua formação acadêmica de maneira convincente. Marx, ao contrário, teve uma vida inteira dedicada plenamente aos livros. A gloriosa pança do pensador alemão, que vemos em sua muito conhecida e tradicional foto, não é resultado de uma ociosidade nula como podem supor as mentes ignaras, mas, ao contrário, fruto de horas, meses, anos, dedicados a leitura e a escrita de sua extensa obra (que, não devemos esquecer, lhe custou a sobrevivência em condições miseráveis).

Imagino que não exista no planeta terra economista de qualquer orientação ideológica (conservador, liberal, neo-liberal, partidário disto ou daquilo) que não tenha lido os escritos de Marx. Mesmo porque, a obra do sociólogo judeu é trespassada por todos os nomes dos maiores pensadores que o mundo já viu. Peguem, por exemplo, Hegel. Não sei se os leitores já tiveram a chance de ter algum contato com o pensamento hegeliano. Fiz uma cadeira dedicada a esse filósofo com a professora Kátia Muricy no departamento de filosofia da PUC-RJ e foi o suficiente para não querer nem chegar perto. A vasta obra de Marx é outra que exige a dedicação de muitas horas de nossas vidas para que com ela nos familiarizemos minimamente. Arthur Dapieve, quando da preparação de seu trabalho de mestrado, foi descobrir até mesmo um texto de Marx sobre o suicídio.

Se sobra erudição e profundidade em seus escritos, não faltam ainda a graça e a beleza do estilo. Umberto Eco chega a comparar a grandiloquente abertura do Manifesto Comunista à introdução da 5ª. Sinfonia de Beethoven. Na Folha de São Paulo do último domingo, Ferreira Gullar afirmou que Marx satanizou a iniciativa privada. É uma frase simplista. Karl Marx nada mais fez do que deixar às claras como toda fortuna é fruto da orquestração de um grande roubo. E olha que Marx não conheceu Zuckerberg, nem tampouco Larry Page e Sergey Brin, da Google. Bill Gates chegou ao ápice de ser acusado de ação monopolista nos Estados Unidos da América. Não sei de nenhum batedor de carteira que tenha conseguido essa proeza. Lembro finalmente que a editora Boitempo está lançando uma nova tradução de “O Capital”. Os escritos de Marx estão em domínio público e podem ser lidos e ouvidos nos links listados acima.

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Vlogue Viajandão

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O blogue andou devagar com as festividades natalinas, mas com o ex-capitão Lamarca, o ex-Ed Mort, e agora Téo Pereira causando com suas postagens direto da central de fofocas de “Império”, não podemos facilitar. Vamos então inaugurar um espaço por aqui para darmos vazão a um novo tipo de publicação. Com o espírito de um turista aprendiz sempre registro em filminhos meus passeios pelo mundo. Eles serão assim postado nesta nova seção, não planejada originalmente, para nossa página aqui no WordPress. Vou começar com um passeio feito à Turquia em 2011. O primeiro contato com uma cultura islâmica. Aproveito para desejar aos freqüentadores do blogue um 2015 cheio dos chavões de sempre. Aquilo tudo que é, no final das contas, o que realmente importa.

Pelo Mundo – nova seção (clique aqui)

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Resumo da semana na piscina

,image (2)image (1)Registros da semana no parque aquático. O espaço da platéia do Cine Copacabana, onde já namoramos, já rolamos de rir, já sonhamos acordados, é agora o lugar para darmos nossas braçadas diárias. Trilha sonora debaixo d´água: Terry Hall, “Home”, de 1994. Embora tenha um disco chamado “Deception”, Hall nunca decepciona. Compondo, fazendo letra, cantando. Nos Specials, no Fun Boy Three, no Colourfield, na parceria do Vegas com Dave Stewart (dos Eurythmics), com os Dub Pistols e com o MC Mushtaq (do coletivo Fun-Da-Mentals). Com Mushtaq, ele fez um disco pouco conhecido (“The hour of two lights”), em que é acompanhado por um rapper argelino, um flautista sírio, um grupo de ciganos poloneses e por Damon Albarn. Dos seus trabalhos solo, talvez apenas “Laugh” seja menos inspirado. “Home” é um dos favoritos. Deixo o link de mais uma de suas inesperadas parcerias, desta vez com a dupla Blair e Anouchka. Ficam ainda duas outros indicações.

Link relacionado: Terry Hall, Blair e Anouchka (clique aqui)

O Fun Boy Three consegue recriar o velho “The End”, dos Doors

Terry Hall com Craig Gannon (Aztec Camera/The Smiths), Les Pattison (Echo and the Bunnymen), Chris Sharrock (Icicle Works) e Angie Pollock. It all makes “Sense” (clique aqui)

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Pipe, Gabe e o primeiro título mundial do surfe brasileiro

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 Link para os vídeos da Associação de Surfistas Profissionais (clique aqui)

Este ano foi possível conhecer de perto toda a elite do surfe mundial e acompanhá-la em seu  passeio por algumas das mais bonitas praias do planeta. Com as transmissões ao vivo da Associação dos Surfistas Profissionais (ASP), que vêm se aprimorando e ganhando em sofisticação a cada ano, deu para ver a qualidade diferencial das ondas surfadas pelo americano Kelly Slater, pelo australiano Mick Fanning, pelo havaiano John John Florence e por Gabriel Medina. Houve também a graça do surfe feminino das havaianas Coco Ho e Carissa Moore, da australiana Stephanie Gilmore e da brasileira Silvana Lima. Parada final do tour, Pipeline, ou Banzai Pipeline, esteve desde o fim de semana passado e no correr desta semana diante de nossos olhos diariamente mudando ao sabor dos ventos. O translúcido mar azul turquesa levantou-se gigante sábado e domingo passados, descansou placidamente até esta sexta-feira, quando voltou a se erguer, arremessando suas belas ondas contra o seu recife de corais e pedras. O aussie Julian Wilson levou a tríplice coroa e se sagrou campeão do Pipe Masters, mas a festa foi mesmo a do título mundial inédito conquistado por Medina.

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Pequeno grande Botika

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                             (Foto de Jorge Bispo com arte de Guga Ferraz para a  capa do disco de estréia solo de Bernardo Botkay)

“Picolé da Cabeça” no soundcloud (clique aqui)

Site do grupo Os outros (clique aqui)

Eu o conheci bem pequenininho, mas já ensaiando como gente grande no Estúdio 585 (uma casa na rua Sorocaba, 585), no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. “Picolé da Cabeça” é o seu trabalho de estréia como artista solo. Conheço bem a trajetória do agora papai Botika, ou, por extenso, Bernardo Botkay. Ele fez parte da banda Aneura que meu sobrinho Pedro Sá Freire, lá pelos idos de 1997, formou com Vitor Paiva e Bruno Foca Grohl (assim o chamava por me lembrar o ex-baterista do Nirvana e então frontman do Foo Fighters). Botika entrou para o grupo porque os garotos (14, 15 anos, na época) achavam que ele tinha um talento excepcional para compor. Me recordo que fiquei surpreso quando o Pedro fez o comentário. No geral, imagina-se que nessa idade a garotada convoque alguém para sua banda por ter gostos musicais semelhantes. Mas eles se interessaram pelo talento do Botika. E, realmente, a cada ensaio o Bernardo Botkay aparecia com uma nova composição e tinha mesmo certa aversão ao recurso fácil das “covers” de outros grupos. Queria tocar as suas músicas. Sua formação vinha de casa, já que é filho do compositor, instrumentista e arranjador Caíque Botkay.

Os outros garotos, talvez estimulados pelo desafio de Botika, começaram também a compor canções em quantidade. Compuseram muito no período em que ficaram juntos entre 1997 e 2001. Dessa época, o Aneura tem um trabalho de onze faixas, gravado na Rádio MEC no Rio, nunca editado comercialmente. Sobraram ainda em meu computador um número grande de boas composições gravadas em estilo demo tape, que nem sequer tiveram a chance de ser registradas de maneira adequada em estúdio.

Depois do Aneura, Botika partiu com Vitor Paiva para formar a banda Os Outros. Fizeram dois trabalhos autorais de estúdio: “Nós Somos os Outros”, em 2007, e “Pacote Felicidade”, em 2010 (ambos pelo selo Bolacha Discos; o primeiro esgotado porém aberto no youtube (link acima) e o segundo ainda disponível nas lojas on-line). Gravaram ainda o “Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos” (Deckdiscos, 2012), com a cantora de longa trajetória solo. Botika investiu também pelo teatro com o coletivo de música e artes plásticas Aplique de Carne, em que de novo surgem suas composições, desta vez com a violoncelista e cantora Nana Carneiro. Vem trilhando também a carreira de escritor. Publicou dois romances, “Uma Autobiografia de Lucas Frizzo”, em 2004, e “Búfalo”, em 2010. Prepara um terceiro livro (em outra oportunidade falo de seus escritos).

 “Picolé da Cabeça”, gravado no estúdio Toca do Bandido, do falecido produtor Tom Capone (Renato Russo, Skank, Raimundo), reúne 10 ótimas composições, duas delas em parceria: uma com a escritora carioca de Duque de Caxias Bruna Beber (“Pipoca”) e outra com a atriz portoalegrense Carolina Bianchi (“Mundo de Marlboro”). Botika fez-se acompanhar durante as gravações e segue em shows ao vivo com o baterista Bernardo Pauleira (produziu as faixas), o guitarrista Gabriel Mayall (Los Hermanos) e o baixista Daniel Castanheira. A sonoridade é bem distinta do que ele fazia com Os Outros. O produtor e os músicos reunidos para o projeto solo imprimiram textura muito particular às suas composições. Comenta-se que o jeito de cantar lembra o de Cazuza. Procede a observação, ainda que mais do que isso o que vale a pena dizer é que Bernardo Botkay talvez seja um dileto seguidor da tradição musical de Caetano Veloso. Confiram em faixas como “Pequenininho”, “Que você chorou” e a música-título. Curioso que os filhos de Caetano que escolheram o caminho musical (Moreno Veloso e Tom) não tenham querido, até o momento, se aproximar da sombra do nosso grande compositor da maneira como Botika vem se esforçando por fazer. Financiado por dinheiro arrecadado em esquema de crowdfunding, “Picolé da Cabeça” está à venda nas lojas on-line. Adquiri o meu por 7.99 dólares (ou 22,69 reais na conversão feita pelo cartão de crédito este mês).

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Resumo da semana na piscina

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Tempo dentro da piscina e tempo e distância nadados. Trilha sonora debaixo d´água: “Modern Guilt”, de Beck Hansen. “Replica” mostra como fez bem ao Beck ter conhecido Rogério Duprat. Sábado é day-off. Dia da etapa final do Rei e Rainha do Mar na praia de Copacabana. Fazendo a travessia dos Fortes do posto 6 ao Leme em 2012 descobri ao fim da prova que muitos sofrem com motion sickness nadando longas distâncias no mar (teve gente chamando Raul dentro d´água). Bem diferente de nadar em piscina e só com preparação para esse tipo de aventura. Tempo total do percurso em 2012: 1h19.  Não é muito. Senhores de 70 anos fizeram no mesmo tempo.

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Sérgio Rodrigues Todo Prosa

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Blogue  na Veja (clique aqui)

Blogue “Sobre Palavras” (clique aqui)

Sérgio Rodrigues deve estar todo prosa e com justificada razão. É um escritor extremamente talentoso e merecia um prêmio do gabarito do Portugal Telecom de Literatura para coroar anos de batalha. Fico surpreso como a nossa grande imprensa mostra toda a sua diminuta e obtusa visão jornalística ao não abrir espaço para a qualidade de um texto tão superior ao de muitos dos colunistas dos cadernos de cultura que temos que ler semanalmente. É para se colocar em dúvida o correto julgamento dos editores destes cadernos.

O prêmio veio pelo romance “O Drible”, o terceiro escrito por este blogueiro do site da revista Veja. Se em “Elza, a Garota” (Nova Fronteira, 2008), Sérgio Rodrigues misturava fatos históricos com ficção, em “O Drible”, ele ficcionaliza livremente nossa história esportiva e seus protagonistas dentro e fora de campo. No primeiro, romanceava os fatos que levantou sobre a morte da quase menina Elvira Cupello Calônio (Elza no codinome do título), assassinada em uma espécie de queima de arquivo pelo Partidão de Luiz Carlos Prestes (aliás, valeria a pena saber o que a nova biografia de Prestes, de Daniel Aarão Reis, tem a dizer sobre o assunto). Já em “O Drible”, o livro “O Negro no Futebol Brasileiro” e a personalidade de seu autor, Mario Filho, foram fontes de inspiração e surgem entrelaçados ao enredo.

O protagonista é Murilo, um cronista esportivo aposentando e doente vivendo seus últimos dias. Ele reencontra seu filho, Neto, e sua trajetória de cronistas é revista ao longo do livro. A produção de Sérgio Rodrigues, que tem um terceiro romance, este totalmente ficcional (“As Sementes de Flowerville”; Objetiva, 2006), coleciona ainda duas ótimas produções literárias: uma de contos, “O Homem que Matou o Escritor” (Objetiva, 2000), e uma de narrativas curtíssimas, “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial, 2010). O jornalista-escritor assina atualmente os blogues “Todoprosa” e “Sobre Palavras”, no endereço da revista Veja na Internet. “Todoprosa” comenta os lançamentos do mercado livreiro, enquanto “Sobre Palavras” dá continuidade às suas observações sempre afiadas sobre as idiossincrasias de nossa língua e daqueles que se esforçam por utilizá-la corretamente. O colunista havia iniciado esta prática no Jornal do Brasil, veículo jornalístico em que protagonizou um interessante debate com Millôr Fernandes sobre um tema aparentemente enfadonho: o emprego da crase (que, como diria Millôr, “não foi feita para humilhar, mas que humilha, humilha”). Uma seleção das colunas do Jornal do Brasil está em “What Língua is Esta?” (Ediouro, 2005).

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