O Síndico do Prédio de Ana Cristina César

Ana C. lendo a poesia “Samba Canção” (clique aqui)

Como para todo mundo, chega um dia em que se tem de encarar a sua nomeação para ocupar a delicada, a espinhosa, a onerosa posição de síndico. Principalmente em um condomínio em que há um rodízio significativo dos condôminos que se prontificam a assumir essa tarefa. Há uma semana sou síndico de um edifício que tem no entanto significado especial para mim, pois foi aqui, no prédio em que resido, que morou boa parte de sua vida e escreveu muito de sua obra a poetisa, tradutora, crítica e escritora Ana Cristina César.  Foi aqui também que ela deu cabo de sua curta existência, se atirando pelo vão da área central que divide às unidades de frente e fundos. Não seria a primeira, ainda que viesse a ser a derradeira tentativa de por fim a sua vida. Seu Cosmo, porteiro do prédio desde 1965, em seguida a conclusão das obras que colocaram a edificação de pé, conheceu bem a família de Waldo César e Maria Luiza, pais de Ana C. (uma das alcunhas com que a autora assinava seus escritos). Conviveu muito com todos e estava por sinal na portaria quando se deu a tragédia. Ana Cristina, depois de morar em uma casa na Gávea uns poucos anos, período em que trabalhava como revisora na Rede Globo, entrou em uma crise séria de depressão. Voltou para o apartamento dos pais e aqui ficou com uma acompanhante. No domingo, dia 29 de outubro de 1983, convenceu sua enfermeira a deixá-la tomar banho sozinha. Aproveitou o descuido e fez o que vinha planejando há um bom tempo. Waldo César e Maria Luiza estavam morando no Chile e retornaram para viver o pesadelo que os acompanharia pelo resto de seus dias. Vim a trabalhar com Waldo César em 1990, oito anos depois da morte de Ana C., e ele ainda carregava a sombra do incidente que lhe roubou a talentosa filha. Por essa época, o documentarista João Moreira Salles se aproximou do sociólogo, que lhe cedeu tudo o que tinha de registros sobre a vida e a obra da escritora. O cineasta fez então o belíssimo curta-metragem “Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem”, com as imagens de que dispôs. Todo o acervo de escritos de Ana Cristina foram ainda levados para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, onde se encontram catalogados e à disposição do interesse de pesquisadores. O IMS por sinal, já reeditou toda a obra de Ana C., bem como seus inéditos, dando aos leitores tudo o que a autora produziu em seus 31 anos de vida. Acho que nosso condomínio merece mesmo uma das placas que a prefeitura tem feito assinalando os pontos em que moraram as pessoas que trouxeram contribuições significativas para a cultura carioca e brasileira. Fez isso por Nara Leão. Vamos ver se o atual síndico consegue sensibilizar as autoridades a dedicar a mesma reverência ao nome de Ana Cristina César.

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O irmão alemão do Chico Buarque de Hollander

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Disse Oscar Wilde em um de seus textos que não consigo parar de citar: “(…) eu devo confessar que gosto de toda sorte de memórias. Admiro tanto por sua forma, como por seu conteúdo. Em literatura, o mero egoísmo é fonte de enorme prazer.” Wilde coloca então o personagem Gilbert a enumerar vários autores (Rousseau, Byron, Balzac, Flaubert) que deliciaram seus leitores com suas passagens autobiográficas. Em contradição com o que pregava o cordão do Procure Saber (já tomaram vergonha na cara e sumiram, graças a Deus), Chico Buarque resolveu contar a história de seu pai e de parte de sua família sem nenhum constrangimento. Como desculpa, tratou de ficcionalizar sua narrativa. O resultado é o ótimo “O Irmão Alemão” (Companhia das Letras, 2014). Li o livro com um grupo grande de amigos que, ainda que não tenham gostado (em sua maioria) da nova aposta do autor, ficaram de qualquer jeito convencidos das qualidades literárias do “romance”. Para quem tem interesse restrito em narrativas com plot bem amarrado e encadeadas em sequência vertiginosa, a estrutura solta de “O Irmão” talvez deixe a desejar. Chico, no entanto, parece que vem apurando seu talento de romancista e elevando a voltagem literária de seu texto. Particularmente, não aprecio a opção de se ficcionalizar abertamente fatos autobiográficos. É verdade que cada caso é um caso e que o livro de Chico não chega a soar tão inadequado quanto o “romance” “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, por exemplo. Ainda que não simpatize com sua abordagem, “O Irmão Alemão” acabou me surpreendendo e me transformando em um leitor apaixonado por sua narrativa.

 

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“Crítica e Valor” — Flora, Silviano, Nelson e Oscar Wilde

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Fui reencontrar o passado relendo o texto que escrevi para o encontro “Crítica e Valor”, simpósio em homenagem a Silviano Santiago, que aconteceu em 2006 e cujas comunicações estão sendo agora editadas em livro. Como já disse em postagem anterior, entrei um pouco de gaito nesse evento que reuniu a nata da crítica literária brasileira e estrangeira. Estava na ocasião fechando minha tese de doutoramento. Tinha a maior vontade de ter Flora Süssekind, professora da minha graduação e autora de quem sou fã (acompanho sua trajetória desde que ela me dava aula e escrevia resenhas de teatro infantil para o JB), em minha banca de defesa, mas, diante da impossibilidade de se fazer presente por excesso de trabalho, ela acabou me convidando para apresentar uma comunicação e nos revermos no seminário que estava organizando em homenagem a Silviano.

Foi um desafio. Especialmente porque o homenageado, de quem sou também grande admirador e cuja escrita ficcional e não-ficcional é de um refinamento sem par entre os críticos de todas as origens, nunca escreveu uma única linha sobre a obra de Nelson Rodrigues, assunto de minha tese e que me ocupava completamente.  Mas no fim das contas não foi difícil vislumbrar a possibilidade de um encontro entre Nelson e o tema do seminário, tão  querido a Silviano. O caminho até lá veio com um dos geniais textos de Oscar Wilde pelo qual andava fascinado na época: “The Critic as Artist”.  Voltei também a ele agora. É uma dessas coisas maravilhosas cujo prazer só a boa literatura consegue nos proporcionar. Nele, Ernest, personagem homônimo ao da peça “The Importance of Being Ernest”, conversa com seu amigo Gilbert sobre o real valor e utilidade da crítica. Um, o intelectual Ernest, atacando os críticos, o outro, o músico Gilbert, a defendê-los. Nelson Rodrigues ficaria do lado de Ernest sem dúvida e foi uma pena que pressionado pelo dead-line do seminário não tenha escolhido a epígrafe mais precisa no texto de Wilde. Trata-se daquela em que Ernest afirma: “Por que aqueles que não podem criar se incumbem de avaliar o valor de um trabalho criativo? O que eles podem saber sobre isso? Se o trabalho de alguém é fácil de ser entendido, uma explicação é desnecessária.” Nelson assinaria embaixo. No meu ensaio mostro como Nelson Rodrigues condicionou de certa maneira a visão de muitos críticos que escreveram sobre sua obra (Sábato Magaldi, Hélio Pellegrino, e tantos outros). Críticos estes que tentaram ir contra o pensamento de Ernest e convencer seus leitores de que tinham algo mais a dizer do que tudo aquilo que a própria obra artística de Nelson comunicava.

Por causa do ensandecido trabalho que deve ser a edição de uma obra volumosa como o livro do seminário “Crítica e Valor”, que conta com 710 páginas. Um trecho de meu texto foi omitido durante a edição. Segue abaixo a errata para que a página 278 faça total sentido:

“Se em uma vertente de matiz historiográfico que busca a delimitação de autor e obra podemos, portanto, vislumbrar a insinuação de um dado valorativo, no que se refere à crítica, esse aspecto se faz presente de forma mais evidente. Mesmo porque é papel desta assinalar o grau de permanência de uma obra. Os escritos de Nelson Rodrigues mostram um autor consagrado, uma unanimidade surpreendente e em desacordo com quem sempre repelia o pensamento único. Um dos poucos pontos da recepção crítica de seus escritos que tem ensejado certa controvérsia, diz respeito à discussão sobre se seus textos assinalariam ou não a manifestação de uma autor moralista.

O assunto não poderia escapar ao crítico maior da obra teatral rodrigueana, Sábato Magaldi. Magaldi toca nesse tópico em suas apresentações das peças de Nelson que podem ser apreciadas como um todo no livro Teatro da obsessão: Nelson Rodrigues. Em seu texto, afirma o membro da Acadêmia Brasileira de Letras:

A dualidade bem-mal sustenta os comportamentos, sem primário…” (segue citação de Magaldi em destaque)

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Encontro com o passado na Fundação Casa de Rui Barbosa

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Ontem foi dia de voltar ao passado em visita à casa do ilustre senhor Rui Barbosa, jurista, diplomata, orador, jornalista, filólogo, tradutor, e o que mais se possa pensar relacionado com o mundo do direito, da diplomacia e das letras. O passeio a Botafogo tinha como objetivo recolher exemplares com os ensaios apresentados durante o encontro internacional “Crítica e Valor”, organizado pelas queridas Célia Pedrosa e Flora Süssekind ao lado da pesquisadora Tania Dias. O encontro, em homenagem a um de nossos maiores críticos literários, Silviano Santiago, aconteceu em 2006 e já não contava com a publicação das palestras em livro. Os ensaios apresentados durante o simpósio são assinados por um número grande de renomados críticos brasileiros e estrangeiros. Walnice Nogueira Galvão, Paulo Henriques Britto, Beatriz Resende, Hans Ulrich Gumbrecht, puxam uma lista extensa. Flora, professora na minha graduação na PUC-RJ, na época em que começava a deixar de assinar seus textos como Maria Flora, teve a boa vontade, a generosidade e, diria mesmo, o atrevimento de me colocar ao lado de figuras tão consagradas. Lá estou com o ensaio “O artista enquanto crítico”. Espero que gostem, muito embora acredite que esses ensaios discutem assuntos que só interessam a quem vive no meio universitário.

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Foo Fighters in Rio 2015

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Como todos os órfãos do Nirvana, passei a acompanhar os Foo Fighters desde que Dave Grohl empunhou uma guitarra e veio pra frente do palco tentar encontrar um caminho no pós-holocausto nirvânico. Tudo era perfeitamente compreensível. No Nirvana, Grohl só havia conseguido ganhar certo destaque como compositor com uma única música: “Marigold”, uma maravilha de composição que ficou esquecida para todo o sempre. Depois de viver na sombra do talento de Cobain, parecia natural a sessão de descarrego pela qual precisava passar e que veio embalada pela carta de intenções de sua “Monkey Wrench”. Gravou 8 ótimos discos de estúdio (de “Foo Fighters” ao recente “Sonic Highways”), alguns deles não de todo felizes, mas dos quais sempre se conseguia salvar muita coisa. Um único senão foram sempre as letras. A bem da verdade, me parece uma das coisas mais problemáticas na música feita em todas as latitudes. Do pagode ao rock´n´roll. Causa surpresa como temos carência de alguém que tenha e saiba o que dizer. Grohl engana com razoável desenvoltura. Para o consumidor de cultura pop, no entanto, as composições precisam comunicar em três minutos todas aquelas coisas que são fundamentais na vida. Cobain sabia fazer isso, Morrissey continua demonstrando como é possível realizar essa proeza.

Dos discos pro palco, Grohl fez a mágica de transformar a animosidade permanente que experimentava junto à fúria de Cobain em fúria de júbilo e festa. E isso mantendo sempre aquele espírito dos tempos do Nirvana de não ser subserviente jamais, em momento algum, a quem pagou para vê-lo. Acompanho os FFs ao vivo desde 1997 em uma apresentação que aconteceu no The Shepherd´s Bush Empire em Londres, em que Grohl fez duo de bateria com Roger Taylor. Os FFs estavam no segundo disco, “The colour and the shape”. É o meu favorito e também dos fãs, campeão de vendagem entre os discos de estúdio do grupo.  Quanto à apresentação de ontem no Maracanã, vou repetir o que disse no Livro-de-Caras. Os shows dos FFs já foram ótimos. Desde o Lollapalooza em 2012 eles andam perdendo a noção de timing ao vivo (músicas longas demais, conversa fiada demais) e ontem ainda tiveram o som jogando contra eles. Na TV tava ruim e lá, muito pior. Iluminação também nota zero. Milhares de holofotes projetando focos de luz na cara do público que foi ver um show. Dois telões mínimos e que ficavam parcialmente encobertos por torres. Coisa da pré-história do rock de arena e diante de um número significativo de fãs que já havia visto um showzaço dos FFs no Rock in Rio de 2001. Grohl está precisando repensar o roteiro e os promotores do evento a estrutura de um concerto que custou caro ao bolso do freguês. Cheguei em cima da hora e perdi Kaiser Chiefs e os Raimundos, mas confesso que não me arrependi. Com aquela estrutura, duvido que tenham conseguido fazer shows minimamente interessantes. Ana Carolina foi ver o Queen cover e não gostou nada dos FFs terem esquecido de “Tie Your Mother Down”.

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Rock in Rio 30 anos

Texto do amigo, e metaleiro de carteirinha (fã número 1 do Kiss), Leonardo Pimentel. Publicado no Facebook e gentilmente cedido para reprodução por aqui:

Rock in Rio

“O Rock In Rio tá fazendo trinta anos. Inesquecível não só pelas atrações, mas porque foi minha primeira cobertura como jornalista, com 18 anos, um ano e meio antes de entrar pra faculdade. Eu era redator das revistas “Roll” e “Metal” – versões nacionais das argentinas “Pello” e “Metal” – e estava credenciado para cobrir o festival, o que me dava acesso livre aos shows e às entrevistas e me elevava a uma categoria de semideus entre os amigos.

No dia da abertura, a equipe marcou como ponto de encontro o hotel em Copacabana onde tínhamos entrevistado George Benson. Saímos de lá (num busum, mesmo) eu, Andre Machado, o editor Manolo Gutierrez, Patrícia (namorada do Manolito), Paulo Cartolano (fotógrafo da revista), dois fotógrafos argentinos e a mulher de um deles (cujos nomes eu, infelizmente, já não lembro). Kiko (Marcos Souza) e Mansur não iam se misturar com aquele bando de metaleiros.

Como prevíamos, perdemos a abertura do festival. Ney Matogrosso cantou quando ainda caminhávamos do ponto de ônibus no Autódromo até a Cidade do Rock. Na entrada, a cobiçada credencial do festival nos garantia algumas prerrogativas, como acesso exclusivo, entrar com equipamento fotográfico e, principalmente, não passar pela dura dos seguranças. Não que eu e André, os bons meninos da redação, corrêssemos algum risco. Já o resto da turma…

Nem bem atravessou os portões, Manolito decretou: “Rock’n’roll é o cacete, isso aqui é um tremendo maconhódromo!” A divisão de tarefas na equipe era clara. Eles fumavam maconha, eu e o André tínhamos a larica, o que nos fez correr logo para um MacDonald’s. Ao voltarmos para o grupo, nos juntamos ao esforço de fazer a argentina se sentir confortável.

Eu oferecei um pedaço do Big Mac.

Ela: “No, gracias.”

André ofereceu um pouco de guaraná.

Ela: “Es natural? No? No, gracias.”

Paulinho ofereceu cerveja (Malt Nojenta, é verdade, mas era o que tinha).

Ela: “No, gracias.”

Manolito esticou-lhe a vela que havia acabado de preparar e acender.

Ela, com cara de nojo: “No, gracias.”

Ainda pensei em dizer “Um sexo gostoso atrás das caixas de som, nem pensar, né?”, mas achei que ela não teria senso de humor pra isso.

Enfim, uns alimentados, outros fumados, nos dispersamos para ver os shows e combinamos nos encontrar na saída ao lado do palco após o último show, para irmos todos juntos até os ônibus.

Não vou me estender sobre Whitesnake, Iron Maiden e Queen porque isso já é História. Basta de dizer que, quando Mercury, May, Deacon e Taylor deixaram de vez o palco, eu fui até a saída combinada e encontrei o André. Desnecessário dizer que fomos os únicos a levar a sério a história do ponto de encontro. Éramos tão babacas, mas tão babacas, que ainda esperamos meia hora pra ver se os outros chegavam. Quando nos convencemos que isso não ia acontecer, fomos embora. Eram 4h30 e o dia ainda estava longe de raiar.

Vimos um monte de ônibus no RioCentro, mas o guia do festival e as matérias de jornal diziam que os ônibus pra Tijuca e pra Niterói (destinos meu e dele, respectivamente) partiriam do Autódromo. Seguimos até lá, apenas para descobrir que tinha havido uma mudança de planos e todos os ônibus partiriam do RioCentro, para onde voltamos e onde constatamos já não haver ônibus algum. O jeito, diziam os funcionários, era esperar a volta dos veículos que tinham acabado de sair.

Enquanto esperávamos, encontramos Marcello Rangel, primo do André, que assistira ao show (na categoria plebe ignara, claro, hehehehe) e também esperava condução para Nikiti. O primeiro ônibus a aparecer foi justamente um “Praça XV”. Para eles era ótimo, pois desceriam de cara para a barca. Também me adiantava, pois eu poderia pegar o metrô no Centro. O problema é que toda a população de Niterói e mais um grupo de Iguaba Grande tiveram a mesma ideia. Gente, gente e mais gente pra embarcar nos 40 lugares sentados e 40 em pé. Num dado momento, eu disse pro André e pro Marcello: “Galera, vão na paz, que eu vou esperar outro.”

Estava eu sentado na caçada havia uns 15 minutos, quando aparece o André, dizendo que até tentou entrar no busum, mas não deu. Dali a pouco, passa o dito ônibus desafiando todas as leis da física sobre corpos não ocuparem o mesmo espaço. Além das trocentas pessoas dentro, vinham uns cinco cambonos literalmente agarrados à porta pelo lado de fora. Um deles era o Marcello, que ainda conseguiu berrar um “Tchau André, tchau Pimentel!” antes de sumir com o coletivo. Para completar nossa depressão, o dia começou a raiar, e nós ainda estávamos ali.

Eram 6h30 quando embicou mais um ônibus, trazendo “Gávea” no letreiro. Whatever! Se estivesse escrito “Mordor” eu ia embarcar do mesmo jeito, desde que pudesse sair dali. O bicho veio desacelerando e eu senti que ia parar uns bons vinte metros depois do ponto da calçada onde eu estava. Como havia outra multidão querendo embarcar, resolvi partir pra ignorância. Peguei o braço do André e disse “Barba, vem comigo”, ao mesmo tempo em que me agarrava a um ferro da porta traseira (antigamente era a porta de embarque), de forma que ônibus nos arrastou até parar.

Veio um fiscal berrando que “tinha que fazer fila”, ao que eu respondi “pode fazer a fila que quiser, desde que a gente entre primeiro!” E foi assim que eu e André fomos empurrados pela massa para dentro do ônibus e ainda conseguimos escolher os lugares. Admito que dormi até o Planetário, de onde pegamos o integração do Metrô para Botafogo. Ele desceu no Centro e eu fui até a Tijuca. Depois de uma meia-trava pra um pastel (não comia nada desde o Big Mac da véspera), cheguei em casa às 8h30 me antecipando em décadas à moda Walking Dead.

Até deu pra descansar – mas não muito. Dali a pouco tinha entrevista com AC-DC e Scorpions e mais show de noite. Mas isso já é história pra outra ocasião.”

Leonardo Pimentel

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Religião e fúria

Os três fundamentalismos

“Os Três Fundamentalismos”, por Sérgio Paulo Rouanet (clique aqui)

Como Téo Pereira, sou fã incondicional do jornalismo gonzo de Hunter Thompson e seria ótimo comentar alguma coisa sobre ele, mas devo, no entanto, e para não parecer um lunático, fazer a opção pelo registro do noticiário internacional. Ao mesmo tempo, como muita tinta e muita memória digital já foram consumidas com os atentados ocorridos em Paris, discutindo não apenas o ataque ao “Charlie Hebdo” e ao mercadinho Kosher como lembrando ainda outras atrocidades de fundo religioso menos faladas por não terem tido lugar na França, fico com a indicação de um artigo contra todos os fundamentalismos. Foi publicado em seguida ao 11 de setembro de 2001 e poderia ser reimpresso a cada novo atentado. Nele Sérgio Paulo Rouanet ataca sem distinção toda a fúria demente dos fanáticos religiosos de todos as procedências: cristã, judaica ou islâmica. Continua atual e arrisco dizer que infelizmente seguirá assim por muitos milênios. Saiu no saudoso caderno +Mais! da Folha de São Paulo, jornal que em sua busca incessante pela decadência tratou de substituir o ótimo suplemento pela famigerada Ilustríssima, que de ilustre não tem nada.

 

 

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Karl Marx e as antinomias de uma razão impura

Karl Marx

Textos de Marx em domínio público (clique aqui)

Audiolivros de Marx no librivox (clique aqui)

Nova edição de “O Capital” pela Boitempo (clique aqui)

Nas redes sociais está na moda falar mal de Karl Marx. Na cabeça daqueles que não tem familiaridade com a mais elementar dialética, temos a proposição de que Lula e Dilma nos levariam obrigatoriamente a Karl Marx. Ah, as antinomias de uma razão impura. Como podemos ter uma tese e uma antítese idênticas e que, ainda por cima, se igualam a uma síntese que não guarda qualquer relação com elas. É um raciocínio de um primarismo assustador. Marx deve justificadamente estar tendo seus achaques em seu mausoléu em Highgate. Não existem pessoas mais antagônicas.

Lula é adepto da escola da ignorância, como todos sabem. Dilma é um avanço em relação a esta posição. Nunca conseguiu, de qualquer modo, completar sua formação acadêmica de maneira convincente. Marx, ao contrário, teve uma vida inteira dedicada plenamente aos livros. A gloriosa pança do pensador alemão, que vemos em sua muito conhecida e tradicional foto, não é resultado de uma ociosidade nula como podem supor as mentes ignaras, mas, ao contrário, fruto de horas, meses, anos, dedicados a leitura e a escrita de sua extensa obra (que, não devemos esquecer, lhe custou a sobrevivência em condições miseráveis).

Imagino que não exista no planeta terra economista de qualquer orientação ideológica (conservador, liberal, neo-liberal, partidário disto ou daquilo) que não tenha lido os escritos de Marx. Mesmo porque, a obra do sociólogo judeu é trespassada por todos os nomes dos maiores pensadores que o mundo já viu. Peguem, por exemplo, Hegel. Não sei se os leitores já tiveram a chance de ter algum contato com o pensamento hegeliano. Fiz uma cadeira dedicada a esse filósofo com a professora Kátia Muricy no departamento de filosofia da PUC-RJ e foi o suficiente para não querer nem chegar perto. A vasta obra de Marx é outra que exige a dedicação de muitas horas de nossas vidas para que com ela nos familiarizemos minimamente. Arthur Dapieve, quando da preparação de seu trabalho de mestrado, foi descobrir até mesmo um texto de Marx sobre o suicídio.

Se sobra erudição e profundidade em seus escritos, não faltam ainda a graça e a beleza do estilo. Umberto Eco chega a comparar a grandiloquente abertura do Manifesto Comunista à introdução da 5ª. Sinfonia de Beethoven. Na Folha de São Paulo do último domingo, Ferreira Gullar afirmou que Marx satanizou a iniciativa privada. É uma frase simplista. Karl Marx nada mais fez do que deixar às claras como toda fortuna é fruto da orquestração de um grande roubo. E olha que Marx não conheceu Zuckerberg, nem tampouco Larry Page e Sergey Brin, da Google. Bill Gates chegou ao ápice de ser acusado de ação monopolista nos Estados Unidos da América. Não sei de nenhum batedor de carteira que tenha conseguido essa proeza. Lembro finalmente que a editora Boitempo está lançando uma nova tradução de “O Capital”. Os escritos de Marx estão em domínio público e podem ser lidos e ouvidos nos links listados acima.

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Vlogue Viajandão

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O blogue andou devagar com as festividades natalinas, mas com o ex-capitão Lamarca, o ex-Ed Mort, e agora Téo Pereira causando com suas postagens direto da central de fofocas de “Império”, não podemos facilitar. Vamos então inaugurar um espaço por aqui para darmos vazão a um novo tipo de publicação. Com o espírito de um turista aprendiz sempre registro em filminhos meus passeios pelo mundo. Eles serão assim postado nesta nova seção, não planejada originalmente, para nossa página aqui no WordPress. Vou começar com um passeio feito à Turquia em 2011. O primeiro contato com uma cultura islâmica. Aproveito para desejar aos freqüentadores do blogue um 2015 cheio dos chavões de sempre. Aquilo tudo que é, no final das contas, o que realmente importa.

Pelo Mundo – nova seção (clique aqui)

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Resumo da semana na piscina

,image (2)image (1)Registros da semana no parque aquático. O espaço da platéia do Cine Copacabana, onde já namoramos, já rolamos de rir, já sonhamos acordados, é agora o lugar para darmos nossas braçadas diárias. Trilha sonora debaixo d´água: Terry Hall, “Home”, de 1994. Embora tenha um disco chamado “Deception”, Hall nunca decepciona. Compondo, fazendo letra, cantando. Nos Specials, no Fun Boy Three, no Colourfield, na parceria do Vegas com Dave Stewart (dos Eurythmics), com os Dub Pistols e com o MC Mushtaq (do coletivo Fun-Da-Mentals). Com Mushtaq, ele fez um disco pouco conhecido (“The hour of two lights”), em que é acompanhado por um rapper argelino, um flautista sírio, um grupo de ciganos poloneses e por Damon Albarn. Dos seus trabalhos solo, talvez apenas “Laugh” seja menos inspirado. “Home” é um dos favoritos. Deixo o link de mais uma de suas inesperadas parcerias, desta vez com a dupla Blair e Anouchka. Ficam ainda duas outros indicações.

Link relacionado: Terry Hall, Blair e Anouchka (clique aqui)

O Fun Boy Three consegue recriar o velho “The End”, dos Doors

Terry Hall com Craig Gannon (Aztec Camera/The Smiths), Les Pattison (Echo and the Bunnymen), Chris Sharrock (Icicle Works) e Angie Pollock. It all makes “Sense” (clique aqui)

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