O Beijo do Largo da Carioca

largo da carioca 3largo da carioca 249239364_560e7b6081

Ainda que tenha mudado muito, um logradouro que propiciou o surgimento da rua da Vala não é o melhor lugar do mundo para se partir desta para melhor. Foi justamente isso, no entanto, o que se deu comigo. Já se vão aí muitos anos desde que tudo se passou. Como frequentasse sempre o local, conhecia bem a sua história. Sabia, por exemplo, como o Desvio do Mar (depois Rua do Ouvidor), dos tempos que precederam a urbanização do Rio de Janeiro, se estendeu continente adentro e foi dar na tal rua da Vala, à qual deram esse nome por abrigar em sua adjacência um córrego em que toda sorte de dejetos eram despejados. Só anos depois, a vala seria coberta e a rua ganharia o nome de Uruguaiana, tornando mais aprazíveis as cercanias do Largo da Carioca.

Novas mudanças estariam por vir e hoje quase tudo que ali havia, quando cheguei à cláusula dos meus dias, desapareceu. Foi-se o Hotel Avenida, foi-se a Galeria Cruzeiro, foi-se o Tabuleiro da Baiana e foram-se os bondes elétricos. Da época em que o infortúnio me levou daqui, ficou pouca coisa. Uma delas muito especial para mim: o velho relógio do Largo, contemporâneo do lampadário da Lapa e das reformas de Pereira Passos, com suas quatro faces e três sereias. É uma testemunha remanescente do meu fim. Entre as coisas que sumiram, foi-se acima de tudo a sede do jornal em que trabalhava. Eu tinha um talento mediano para o jornalismo. Apesar de estar presente nas redações desde há muito, minha rotina, no começo da década de 1940, momento do que aqui vai contado, se resumia a redigir notas de batizado, aniversário, casamento e missa. Alguns achavam que eu merecia mais. Pura gentileza.

        Além do jornal, militava como advogado. Era dura a labuta de quem, durante a Segunda Guerra, tinha de sustentar uma família numerosa. Casara-me em primeiras e únicas núpcias com um anjo de pessoa. Com ela, dividia o leito conjugal, as alegrias e as batalhas de quem quer construir uma vida em comum. Desse enlace, nasceram filhos maravilhosos. O que vou contar aqui é algo, portanto, que só posso fazer porque passei para o lado de cá, dada a indiscrição que o episódio representa e o desgosto que atingiria as pessoas a quem sempre quis bem. Mas vamos aos fatos.

        Lembro bem que era uma sexta-feira e que o fim de semana se anunciava com a perspectiva de praia naquela que pra mim já era uma Copacabana ensolarada. Gostava muito de residir perto do mar, sempre com sua brisa fresca e perfumada. Como o jornal em que trabalhava não circulasse aos domingos, o sábado era dia sagrado para mim. Aos plantonistas que me indagavam sobre minha costumeira ausência, repetia:

– Vocês não sabem, meus caros, que o sábado é uma ilusão.

        Ao que um dos meus colegas redatores logo replicava.

– Ei, espera-lá, vamos com calma que essa frase é minha.

        Mas voltemos aquela sexta-feira. Saí cedo de casa, como habitualmente fazia. Tinha ódio aos ônibus à explosão, que, além da tarifa exorbitante, eram barulhentos. Dirigi-me assim à estação de bondes, perto de onde hoje fica a praça Serzedelo Correia, e peguei o de número 13 em direção ao centro da cidade via Túnel do Leme. Como me alegrava o prazer de deslizar nos trilhos correndo as ruas ao som de um intermitente chacoalhar. Seguia sempre apreciando a paisagem, vendo o movimento e puxando assunto com algum passageiro conhecido. Havia até um poeta que gostava de me recitar, vez ou outra, seus versos que até que não eram de todo maus.

Mas voltemos à sexta-feira. Fiz aquela viagem sozinho e cheguei mesmo cedo ao jornal. Cumpri meus afazeres até às 14 horas, quando fui almoçar como de hábito com um grupo de amigos jornalistas naquele que ainda era chamado de Bar Adolph por nós.  Depois do almoço, me separei de todos para ir à Caixa Econômica tirar do prego uma jóia da família. Queria presentear minha mulher naquela noite. Em seguida tomei o caminho de retorno ao jornal.

O relógio do Largo da Carioca marcava 16h45 e confesso que vinha distraído, meio sonhador, inebriado por um final de tarde belíssimo. Caminhava desatento e pensando como a vida é boa e como é bom viver. Quando me encontrava próximo ao Liceu de Artes e Ofícios, deu-se a infelicidade: um motorista inexperiente na direção dos novos e fumacentos ônibus surgiu em alta velocidade e me lançou espetacularmente ao ar. Ao incidente se seguiu um corre-corre. Uma enfermeira que passava por acaso prestou aqueles que não seriam os primeiros, mas os últimos socorros. Foi nesse momento que aconteceu o sublime. Desfalecido nos braços da enfermeira, tive a impressão de ter recebido, junto com a ajuda, um doce e demorado beijo, ao qual correspondi prontamente. Dali seguiríamos para o Posto Central e eu faleceria dentro do carro de assistência. Acompanhado por uma enfermeira que para mim se encontrava em seu uniforme branco e dentro de uma imaculada ambulância encaminhei-me para o undiscovered country de Hamlet.

        Passados anos de toda a comoção que repercutiu nos jornais em extensos necrológios, pelos quais sou muito grato aos meus companheiros de profissão, surgiria a versão de um colega que colocaria no lugar da prestativa enfermeira um crioulo de narinas triunfais. Foi o que me fez perceber, com a natural distância em que me encontro dos mortais, o quanto é realmente vasta a imaginação humana.

Publicado em Contos | 2 Comentários

Nem Parece Livro de Economia…

HouseDepois de cruzar os dados disponíveis sobre renda e riqueza (aqueles não guardados em segredo por artifícios variados ou escondidos em paraísos fiscais, bem entendido) durante 15 anos (por julgar que “(…) a questão da distribuição de renda é importante demais para ser deixada apenas para economistas, sociólogos, historiadores e filósofos”), seguem algumas das conclusões de Piketty (London School of Economics, MIT e atual professor da École d´Économie de Paris):

“É impressionante constatar, por exemplo, que várias séries americanas dos anos 2000-2010 representem heróis e heroínas carregados de diplomas e qualificações altíssimas: para curar doenças graves (House), para resolver enigmas policiais (Bones) e mesmo para governar os Estados Unidos (The West Wing), é melhor ter alguns doutorados no bolso, quiça até um prêmio Nobel. Não é difícil enxergar em várias dessas séries, uma ode à desigualdade justa, baseada no mérito, no diploma e na utilidade das elites. (…) Viver de um patrimônio acumulado no passado é quase sempre representado como algo negativo, até infame, enquanto em (Jane) Austen e (Honoré de) Balzac isso se passa de maneira bastante natural, desde que exista entre os personagens um mínimo de sentimentos legítimos.
Essa grande transformação das representações coletivas da desigualdade é em parte justificada, mas se funda, contudo, em vários mal-entendidos. Em primeiro lugar, parece evidente que o diploma desempenha um papel mais importante hoje do que no século XVIII (…). Entretanto, isso não significa necessariamente que a sociedade tenha se tornado mais meritocrática. Em particular, isso não implica que a participação da renda nacional para o trabalho tenha aumentado de verdade e, obviamente, isso não significa que as pessoas tenham acesso às mesmas oportunidades para atingir os diferentes níveis de qualificação: em grande medida, as desigualdades da formação apenas subiram de nível e nada indica que a mobilidade intergeracional tenha realmente progredido por meio da educação.” (“O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty; tradução de Monica Baumgarten de Bolle; Intrínseca, 2014)

Publicado em Thomas Piketty | 1 Comentário

Piketty – Renda e Riqueza, Ontem e Hoje

Capa

Entrevista de Thomas Piketty no programa “Roda Viva” (clique aqui)

Estou chegando atrasado para comentar “O Capital no Século XXI” (Intrínseca, 2014; com excelente e cuidadosa tradução de Monica Baumgarten De Bolle), de Thomas Piketty, lançado no final de 2014 no Brasil. Extraordinariamente bem escrito, o livro mostra que bons escritores podem se esconder até mesmo em nichos áridos como os dos estudiosos de economia. Tenho esbarrado com muitos que reagem negativamente quando falo do meu completo arrebatamento pelo livro. Como um vizinho, que comentou: “já sei, aquela velha balela sobre desigualidade”. Não podem imaginar o quanto estão enganados e do muito que estão perdendo. Trata-se de uma minuciosa e esclarecedora análise sobre o mundo contemporâneo.

Como dado adicional, Piketty é um craque do estilo e transforma um assunto chato e complicado como economia, em algo claro, compreensível e fascinante. Penso mesmo que tenha lastro pra se aventurar por áreas em que a imaginação fale mais alto, como o ramo da escrita não-acadêmica. Seu objetivo com o livro de qualquer jeito é justamente, e ao contrário da crença de meu vizinho, mostrar o quanto a competitividade pode ser benéfica para uma sociedade. Faz isso, investigando renda e riqueza.

Em resumo, Piketty quer saber o quanto, ao longo do curto espaço de tempo de nossas míseras existências, convertemos, como fruto e resultado de nosso esforço pessoal, em riqueza. Sua intenção é mostrar como uma sociedade altamente competitiva e meritocrática pode trazer resultados positivos para toda a coletividade. Por isso, quer colocar às claras os aspectos nefastos daqueles que vivem em inércia completa, usufruindo do dinheiro e das riquezas alheias, sem trazer contribuição alguma para o todo social. Prova, desta forma, como o acúmulo de riquezas, concentradíssima nas sociedades contemporâneas, gera cidadãos nada propensos ao trabalho. Todos preferindo, como os personagens de Balzac e de Jane Austen, viver de renda, de um bom casamento ou de uma herança, a ter de encarar a dureza do dia a dia.

Intelectual consagrado no meio em que trânsita, Piketty pode ficar à vontade para falar sobre o assunto, amparado que está em sua brilhante trajetória pessoal. Aos 22 anos, com um doutorado no bolso, ele já estava dando aulas em centros de pesquisa de ponta nos Estados Unidos. Aos 25 podia escolher a universidade em que queria lecionar. Aos 45, é um autor best seller, escrevendo sobre um assunto pouco convidativo como economia. Um feito. Em um momento no começo do livro, com a classe que percorre todo o volume, ele fala um pouco de seu percurso: “Meu sonho quando lecionava em Boston” (reparem que este vago “em Boston” quer dizer na verdade no “MIT”) “era voltar para a École des Hautes Études en Sciences Sociales, uma instituição cujos expoentes incluem Lucien Lebvre, Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss, Pierre Bourdieu, Françoise Héritier, Maurice Godelier e tantos outros. Será que devo confessar isso, arriscando-me a parecer arrogante na minha visão das ciências sociais?”.

Um dos charmes do livro é a destreza com que o autor espalha por seu texto, sempre com vasta e justificada carga de pertinência, exemplos tirados da literatura (Balzac, Austen, Henry James, Proust), de séries televisivas atualíssimas (“House”, “The West Wing”, “Bones”, “Damages”, “Dirty Sexy Money”) e de acontecimentos recentes como o movimento do “Occupy Wall Street”, de 2011, ou uma greve de mineiros na África do Sul, ocorrido em 2012. Colaborador do Le Monde e do Libération, Piketty sabe lançar mão de certa erudição e do factual para tornar mais interessante sua escrita.

Além dos casos citados, chega ainda a falar de um fenômeno típico dos dias de hoje como o dos executivos de grandes corporações (dentro e fora da iniciativa privada), que têm poder para estabelecer e inflar por conta própria, sem nenhuma restrição e justificativa concreta, suas remunerações. Pena o Brasil não aparecer em seu estudo: a horda de tecnocratas de Brasília, seria outro ótimo exemplo. Aliás, José Dirceu, Eduardo Cunha e cia. dariam outros excelentes tópicos atuais para se falar sobre acumulação de riqueza de forma rápida e jogando contra toda a coletividade.

Curioso contrastar o que disse Piketty sobre a trajetória de um executivo como Bill Gates e o que comentou o próprio Gates sobre “O Capital no Século XXI”. Sem papas na língua, à página 433, nos diz o pesquisador: “Em alguns momentos temos quase a impressão de que Bill Gates em pessoa inventou a informática e o microprocessador, e que ele seria 10 vezes mais rico se tivesse recebido integralmente sua produtividade marginal e o valor correspondente à sua contribuição pessoal para o bem-estar no mundo (felizmente, as boas pessoas do planeta puderam se beneficiar das generosas externalidades). (…) Sejamos francos: não sei quase nada sobre a forma exata como Carlos Slim e Bill Gates enriqueceram e sou incapaz de dissertar sobre seus respectivos méritos. Contudo, me parece que Bill Gates também se beneficiou com uma situação de quase monopólio sobre os sistemas operacionais (o mesmo vale para muitas das fortunas construídas pelas novas tecnologias, das empresas de telecom ao Facebook)”.

Na contracapa do livro, Gates comenta a obra do economista em tom elogioso para surpresa geral: “Concordo com as principais conclusões de Piketty. Espero que seu trabalho estimule pessoas competentes a estudar a desigualdade de riqueza e renda. Quanto mais entendermos das causas e curas, melhor”. Ao que tudo indica, Thomas Piketty conseguiu ser convincente até mesmo aos olhos de um dos maiores e mais rápidos fenômenos de acumulação de riqueza que o mundo viu.

Primeiro pesquisador a trabalhar durante 15 anos sobre os dados referentes às rendas e riquezas acumuladas por  pessoas e empresas (obviamente sofrendo as restrições do que é declarado), Thomas Piketty contou em seu estudo com a ajuda de pesquisadores ao redor do mundo para averiguar a lógica que orienta as dinâmicas patrimoniais. Sua pesquisa investigou os cenários econômicos em mais de 20 países no correr de três séculos. Suas análises estão amparadas no “The World Top Income Database” (clique aqui), banco de dados que vem coletando informações sobre renda e patrimônio no mundo. Infelizmente, a Argentina foi o único país da América do Sul a participar da pesquisa. Parece que há uma compreensível dificuldade de se conhecer os dados sobre a situação brasileira. Pelo menos o TWTID já conseguiu começar a coletar alguns dados sobre o cenário brasileiro. Aparecemos por lá, sob a legenda de “work in progress”, ao lado de outros países sobre os quais Piketty e sua equipe passaram a reunir informações depois de encerrado o livro. É um começo.

Publicado em Thomas Piketty | 3 Comentários

Blur em Buenos Aires

Captura de tela inteira 18102015 232057

Trecho do Blur ao vivo na Argentina (clique aqui)

Temporada sortida daqueles shows que já nascem antológicos. Semana passada não resisti e fui até Buenos Aires ver como está o Blur depois da retomada da carreira com “The Magic Whip”, disco lançado no começo deste ano. Não entendi por que eles não abriram datas para apresentações no Brasil dentro da turnê sul-americana que passou por Chile, Argentina e seguiu para o México. Talvez estejam escaldados de um show que fizeram aqui no Rio em 1999 em que o Damon Albarn teve mesmo que perguntar à platéia de pouquíssimos gatos pingados que compareceram ao Metropolitan: “Where are your friends?”. Em 2013, eles tocaram para um público significativo em São Paulo, mas tudo aconteceu dentro de um evento grande como o Festival Terra. Esta semana, eles irão se apresentar ainda em Los Angeles, no Hollywood Bowl, e encerrarão a turnê na sexta-feira no Madison Square Garden, em Nova York. Deu vontade de ver de novo.

Em Buenos Aires, o concerto do Blur aconteceu em Tecnópolis, uma quermesse brega e futurista criada pelos Kirchner na periferia da cidade. Na entrada somos recepcionados por um dinossauro gingante abanando a cauda próximo a um avião das Aerolíneas Argentinas aberto para a visitação da criançada. Depois de andar muito chega-se a um galpãozão com uma precária estrutura de andaimes, dessas que se montam para eventos esportivos na praia, onde cabiam perto de 5 mil pessoas, imagino. As cadeiras demarcadas para sentar, no estilo das antigas arquibancadas do Maracanã, estavam cheias, mas não lotadas como os espaços das duas áreas (vip e comum) para os que quiserem assistir em pé na parte central da arena.

Albarn e o Blur seguem a linha evolutiva do Brit-Pop que tem em Terry Hall, Robert Smith e Morrissey três outros de seus grandes nomes. O que me faz sair de casa para ver qualquer um deles cantando é o fato de, além de serem compositores-letristas excepcionais (Smith e Morrissey acertam mais nas letras, embora os outros dois não deixem a desejar), saberem cantar como poucos. Têm a pegada dos verdadeiros crooners. Por isso, em cada apresentação, as melodias conhecidas ganham sempre algum ar novidadeiro. Vi, por exemplo, Robert Smith apresentar a surrada “Killing an Arab” no HSBC Arena em 2013, recriando sua linha melódia e a colocação de voz de tal forma que pareceu uma música nova pra mim.

Ainda que aprecie todos os discos de Morrissey (com ou sem os Smiths) e os do Blur (mesmo o “Think Tank”, realizado apenas por três de seus integrantes; o guitarrista Graham Coxon parou as gravações no meio para fazer reabilitação por dependência de álcool), gosto particularmente dos trabalhos realizados com um produtor que faz, realmente, grande diferença: Stephen Street. É ele que assina a produção do novo “The Magic Whip” que ganhou toda a crítica. No show, eles tocaram cinco das novas composições: “Go Out”, “Lonesome Street”, “Ghost Ship”, “Thought I was a Spaceman” e “Ong Ong”. As três últimas acabaram, infelizmente, barrando as melhores “I Broadcast”, “Mirror Ball”, “There are Too Many of Us”, favoritas do novo repertório.

O Blur tem uma coleção tão extensa de ótimas músicas que o fã gostaria ainda que houvesse uma maior alternância no roteiro das apresentações. Em Córdoba na noite anterior, a esquecida “Advert” entrou no set list junto com “Caravan”. Esta última, eles não apresentavam ao vivo desde 2003 e voltou a ser interpretada em Buenos Aires. Dias depois, cantaram “Country Sad Ballad Man”, no México. Antes do show mandaram “Vila Rosie” na passagem de som. Para a listagem completa ver o site setlist.fm (http://goo.gl/3L8JW5).

Aguardemos agora pelo Morrissey que baixa por aqui em novembro para apresentações em São Paulo e no Rio. O ex-vocalista dos Smiths passou por um câncer de esôfago, mas está ótimo como contou em  programa recente com Larry King na Internet (clique aqui). Não confio na qualidade do som do Metropolitan (ex-Citibank Hall) e por isso já garanti meu ingresso para SP. Como a Fundição Progresso, costuma derrubar o espetáculo. Aliás, os argentinos fazem som de palco como poucos. Excelente a qualidade sonora do show do Blur na arena em Tecnópolis. Nem em apresentações na Inglaterra vi algo tão bem equalizado.

Publicado em Blur | Deixe um comentário

La Biennale di Venezia 2015

DSC_0713

Cobertura do Trendnotes para a Bienal de Veneza (clique aqui)

Não entendo quase nada de artes plásticas, embora tenha gosto pelo assunto. Me sirvo como guia nestas horas dos conhecimentos do meu expert favorito nesta área, o escritor Ferreira Gullar. Tive mesmo o privilégio de participar de um curso ministrado pelo poeta maranhense na Casa do Saber há alguns anos, oportunidade em que ele fez um muito instrutivo apanhado sobre a história das muitas escolas de pintura e de seus maiores expoentes. Gullar discorreu ainda sobre a jovem cultura brasileira no campo das artes plásticas e de sua participação como crítico em meados dos anos de 1950 com o movimento neoconcretista em meio a um cenário com a presença de artistas inovadores como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Fiquei surpreso, no entanto, quando da abordagem sobre a tradição da escola espanhola, com o fato de Gullar não saber da existência de um texto genial de Michel Foucault sobre “As Meninas”, de Velásquez, ensaio que abre o livro “As Palavras e as Coisas”.

Como minha família é de classe média, bem média mesmo, passei infância e adolescência consumindo apenas cultura de massa, todo aquele lixo cultural problematizado por Walter Benjamin, um dos mais inspirados alunos da Escola de Frankfurt, em suas considerações sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Por isso, só fui ter o interesse despertado para a fruição de quadros nos bancos universitários. Especificamente por causa de uma cadeira de “Estética da Comunicação” ministrada pela professora Rosângela Araújo na PUC do Rio de Janeiro. Em um período em que viajar ao exterior era um luxo para poucos (bem diferente de hoje quando qualquer professorzinho consegue fazer a sua viagem todo ano), Rosângela já havia corrido todos os mais importantes museus da Europa de onde trouxe, para projeção em suas aulas, coleções de slides com imagens dos acervos das principais instituições que havia visitado.

Em cada encontro com os alunos, sempre vestida com aquela classe das personagens mais chiques das estórias de Clarice Lispector, discorria com lastro e erudição rara sobre as obras de Da Vinci, Botticelli, Bosch, Dalí e Escher, misturando discussões de matiz psicanalítico (ah, a maldição de ler José Castello) com o pensamento dos teóricos em alta naquele momento (Lévi-Strauss, Umberto Eco, Roland Barthes). Guardo até hoje a folha em xerox com a listagem dos livros que embasavam suas aulas e que começavam pela tríade Sócrates-Platão-Aristóteles e chegavam a obras de pensadores contemporâneos de todas as latitudes (McLuhan, Otávio Paz, Gullar).

Isto tudo me veio à lembrança, porque este ano tive a oportunidade de pela primeira vez na vida visitar Veneza e ver a tão badalada Biennale Arte em sua 56ª. edição, tudo ao vivo e a cores. Não fazia ideia da dimensão do evento. Iniciada em 1895, a Biennale veneziana virou um atrativo a mais para aumentar a já numerosa horda de turistas que aflui à cidade, povoando de gente mesmo as vielas menos movimentadas. Além das duas extensas áreas da cidade, que guardam os pavilhões dos 89 países participantes (e pode colocar extensa nisso; são um desafio para os que quiserem se arvorar a cobri-las a pé de um só fôlego), há exposições alternativas alocadas em charmosos sobrados e históricas igrejas.

O evento, que teve início em maio e vai até novembro, durando sete meses portanto, apresenta trabalhos inovadores em suporte high-tech ao lado de pintura tradicional, bem como momentos específicos com foco na dança (aconteceu em junho), teatro (em julho e agosto) e música (de hoje até o dia 11 deste mês). A organização da Biennale, que dá atenção também à arquitetura, ao arquivo histórico e ao livro (na abertura de cada dia desta edição está acontecendo a leitura de trechos de “O Capital”, de Karl Marx), me trouxe de novo lembranças de uma exposição de artes que a Rosângela Araújo organizou na PUC e que repetia em um nível menor o espírito da Bienal de Veneza.

Foram abertas inscrições numa mesinha no pátio da PUC e apareceram obras maravilhosas de todas as áreas: Fausto Fawcett fez um de seus primeiros recitais poéticos acompanhado por um grupo de dançarinas e com fundo musical a cargo do futuro escritor e filósofo José Thomaz Brum, o professor Carlos Henrique Escobar apresentou seu espetáculo teatral “Heliogábalo”, Caetano Veloso cantou nos pilotis e foram inscritos quadros muito interessantes de novos artistas plásticos que ocuparam a Biblioteca central e vários espaços na Universidade. Muitos alunos ajudaram na preparação da semana de artes, que deu um trabalhão danado. Valeu porém a pena.  Em tempo: os detalhes sobre a 56ª. edição podem ser conhecidos no site Trendnotes, em reportagem assinada por Ana Carolina Landi.

DSC_0066

Publicado em Bienal de Veneza | Deixe um comentário

Encontro com Picasso e a Modernidade nas Artes Plásticas

IMG_0315Mestres Modernos (programa da BBC1 com Alastair Sooke): Pablo Picasso (clique aqui); Salvador Dalí (clique aqui); Andy Warhol (clique aqui)

Tempo de encontro com as artes plásticas. Alguns sábados atrás, fui, com alguns colegas professores e um grupo de alunos do Polo-Rocinha de Ensino à Distância, em São Conrado, visitar a exposição “Picasso e a Modernidade Espanhola”. A mostra se encerrou esta semana no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, depois de passagem por São Paulo.

Ano passado, tivemos o gênio de Salvador Dalí. Este ano foi a vez de Picasso, em uma não muito extensa, mas belíssima exposição com obras assinadas por ele e por outros artistas espanhóis (Dalí, Miró, Gris, Tàpies). A arte de Picasso é tão ampla e diversificada, que temos espaços que se dedicam a reverenciá-lo, expondo exclusivamente seus originais. Dois em especial o fazem em grande estilo: o Museu Picasso de Barcelona e o Museu Nacional Picasso-Paris, reaberto recentemente. Suas obras estão ainda espalhadas pelos mais renomados museus e galerias do planeta (Prado, Tate, MOMA, Metropolitan). A exposição do CCBB foi realizada com a coleção do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madri, onde se encontra sua mais famosa pintura: o grandioso painel de Guernica.

Para me preparar para a recorrente incursão de Picasso pelo tema do minotauro, a sua sintonia com artistas espanhóis contemporâneos seus (Benjamín Palencia, Alberto Sánchez, Dalí), que também exploraram as metamorfoses da natureza, e os esboços para retratar a tragédia de “Guernica”, assisti aos documentários do crítico de arte inglês Alastair Sooke. Particularmente, a sua série sobre “Mestres Modernos” feita para a BBC. Foi uma certeira fonte informativa para os debates dentro da Semana de Artes de nosso Polo, em seguida a visita à exposição de Picasso.

O “Mestres Modernos” (links acima) de Alastair Sooke, apresenta de forma muito interessante quatro pintores que marcaram o século XX: Picasso, Dalí, Andy Warhol e Henri Matisse. O programa foi originalmente transmitido em 2010 pela BBC 1, em uma tentativa da emissora britânica de trazer um comentarista de arte pouco conhecido do grande público (Alastair Sooke é crítico do jornal inglês The Daily Telegraph) e a discussão sobre pintura para o horário nobre da televisão inglesa. É uma aula sobre artes plásticas e  a influência representada por alguns de seus expoentes na cultura do século passado, influência esta que repercute nos dias de hoje. Sooke acabou me levando a rever meu juízo quanto a Andy Warhol. Sempre achei Warhol o maior picareta do mundo das artes plásticas, mas o crítico inglês nos convence de sua grande originalidade e fundamental importância.

Com os professores Adélia Simões, Fabiana de Souza, Jussara Sans do Nascimento, Roberto Batista e um grupo pequeno mas de entusiasmados alunos, passamos a exposição em revista e saímos contentes com a iniciativa  do CCBB. Como tem se repetido, os curadores de “Picasso e a Modernidade Espanhola” também reservaram um lugar para os “selfies” dos visitantes. Ano passado foi o sofá em forma de boca da atriz Mae West, de Dalí. Esse ano tivemos um labirinto espelhado que dilacera as imagens refletidas, como em “Guernica”. No final da exposição colocaram ainda uma reprodução em tamanho natural da obra maior de Picasso. O foco de duas lanternas quando projetadas sobre a imagem do painel de “Guernica” fazia aparecer os esboços originais do pintor. Uma beleza. Que os curadores do CCBB continuem investindo em iniciativas assim.

Ps. Depois da exposição de Picasso, me deparei em casa com uma caricatura minha que um aluno fez durante uma aula anos atrás. Será que o Alex seguiu pelo mundo das artes plásticas? Talento, ele tem. De sobra.

Capturas de tela4

Publicado em Picasso | 1 Comentário

Duchamp, Godart e o vício do xadrez

Duchamp 3Colagens7                   Documentário sobre Marcel Duchamp e sua paixão pelo xadrez (clique aqui)

O Grande Mestre das artes plásticas Marcel Duchamp passou 20 anos de sua vida jogando xadrez. Comparou o jogo a uma droga que vicia e que chega para consumir uma quantidade absurda de horas de nossa existência. De modo semelhante, me vi nos últimos três anos envolvido com esse jogo, disputando partidas no site “chess.com” sob a alcunha de Godart, em homenagem ao cineasta de minha predileção. Comecei no dia 27 de agosto de 2012 e, exatos 3 anos depois, estou dando por encerrada minha passagem por lá.

Jogava xadrez com certa desenvoltura quando era bem garoto. No ensino fundamental da época cheguei a ganhar um torneio disputado com alunos do Colégio Brasileiro de Almeida, aquele colégio da família Jobim na rua Saddock de Sá em Ipanema, em desafio organizado pelo professor de matemática Joffre (no segundo grau voltaria a encontrá-lo dando aulas no Colégio Andrews na Praia de Botafogo). Como vencia adultos amigos de meu pai em partidas caseiras, segui com a crença de que sabia tudo sobre o jogo intuitivamente. Quando fui jogar xadrez com meus alunos das turmas preparatórias para o IME e para o ITA, no final dos anos de 1990, vi que estava redondamente enganado. Levei surras homéricas.

Me desinteressei do assunto. Isso até reler “Alice através do espelho” e me deparar mais uma vez com o jogo da infância na segunda parte da narrativa de Lewis Carroll. Voltei a ele e comecei a me dedicar a conhecer melhor o assunto estudando alguns livros, especialmente o trabalho de Garry Kasparov (“Meus Grandes Predecessores”, Editora Solis, 2008, 5 volumes) que conta a história do xadrez e do desenvolvimento de seus sistemas de jogo (excelente leitura que descreve em detalhe como nos aprimoramos pessoalmente em um curioso espelhamento da evolução da forma como se jogou xadrez através dos tempos). Vi então que sempre joguei na intuição e que não tinha nenhum conhecimento sobre aberturas, táticas de meio e de fim de jogo e toda a parafernália teórica que segundo “o americano Bob Fischer” (bordão de Jô Soares em programa de humor dos anos 1970) veio para matar o xadrez.

Inscrito no “chess.com”, comecei disputando jogos de 15 minutos e me fixei nos de 5 minutos (5 minutos para cada jogador; dez no total). Isto porque constatei que o xadrez, em qualquer nível, é um jogo de azar como qualquer outro, independente do tempo que se perca jogando. Envolve alguma técnica, por certo, mas as partidas, mesmo entre Grandes Mestres, como os dez maiores enxadristas do mundo que estão se enfrentando desde segunda-feira na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, são resolvidas por um lance infeliz que resulta da pressão exercida pelo tempo.  Os bons enxadristas como Magnus Carlsen, número 1 do mundo no momento, dirão que trabalham duro para que a sorte apareça. Embora esteja liderando em Saint Louis, ele fez feio recentemente em um torneio gêmeo do de Saint Louis disputado na Noruega, vencido pelo veterano Veselin Topalov. O búlgaro Topalov está na casa dos 40 anos, idade em que a memória se transforma em um problema para os mais velhos em confrontos de alto nível (Topalov e Vishy Anand são os únicos na casa dos 40 que seguem entre os melhores).

Comecei com a classificação de 585 e estou encerrando com 1350 pontos. Esta pontuação é muito fiel a qualidade de seu jogo. Impressionante como se custa para melhorar e como, mesmo tendo quedas, logo se volta à pontuação correta para o seu nível de desempenho à medida em que estudamos e conhecemos o jogo e seus princípios. Embora muito interessante, só serve para isso mesmo. Acredito, como o Millôr Fernandes, que o jogo de xadrez, e a dedicação a ele, nos levam apenas a disputar partidas com mais classe.

O Grande Mestre (GM) americano Hikaru Nakamura, que está entre os 10 enxadristas que jogam em Saint Louis, tem perfil no “chess.com” com uma classificação de 2875. O Mestre Internacional (IM; categoria abaixo de Grande Mestre) e boa praça Daniel Rensch, que comanda o site “chess.com”, tem classificação de 2530. O Mestre Nacional (NM; categoria abaixo de Mestre Internacional) Jerry (do excelente canal de xadrez do “youtube”: ChessNetwork; https://goo.gl/miU3y3) tem 2.220 de pontuação. Entre 1.700.000 jogadores do “chess.com”, fico com uma classificação perto da casa dos 315 mil. A razão tentativa/erro respaldado em alguma técnica para melhorar esta posição é porém coisa custosa e apenas para o viciado que não passa um dia sem sua cota de jogatina. Para Duchamp, não há escapatória, todos aqueles que se iniciam no jogo levam a paixão pelo resto da vida. Ainda que concorde com o GM Duchamp, acho melhor parar com a febre por aqui. Vejamos se consigo.

Classificação da Sinquefield Cup depois de 6 das 9 rodadas

Captura de tela inteira 29082015 221357

Publicado em Marcel Duchamp | 5 Comentários

Swimming around the clock com Garmin e Neptune

11928627_1016573021707550_1030374564_n

O Garmin apresenta dados que guardam certa semelhança com aqueles com os quais o Thomas Piketty (“O Capital no Século XXI”, Intrínseca, 2014; voltarei a ele em breve) tem de trabalhar. Eles não chegam a ser de todo precisos, mas são os dados que temos à disposição e nos quais temos que confiar ainda que com muita suspeita. Assim, além do dia, mês e ano em que caímos na água, ele nos mostra o tempo que permanecemos dentro dela, o tempo que nadamos e a distância nadada.  O que é difícil de entender é como podemos ficar mais tempo nadando do que o período em que estivemos dentro da piscina. É verdade que eventualmente pode-se iniciar a cronometragem do Garmin alguns segundos depois de se ter dado o impulso para as primeiras braçadas, mas acho um pouco difícil que ele tenha conhecimento sobre isso. Desta forma, não dá para entender como é possível se ter nadado por 50´55´´ (SW registra o tempo nadado) se o sujeito só permaneceu por 50´50´´ (TOT registra o total do tempo dentro da piscina) na água.

Há problemas também com relação ao registro da distância nadada. Se utilizo uma piscina de 25 metros e sempre termino meus treinos na mesma borda em que inciei, como posso ter percorrido 3 mil e 25 metros? A explicação aqui é mais simples. O Garmin é sensível ao movimento e precisa de uma nova largada contínua após uma virada olímpica ou um retorno na borda para registrar novos 25 ou 50 metros (como determinado previamente pelo aqualouco esportista). Este segundo registro poderia ser confrontado se fizéssemos mentalmente a contagem de nosso percurso. Dentro d´água no entanto a ocupação é com o Neptune, um mp3 com transmissão sonora via reverberação na região da têmpora, que costuma estar tocando coisas como o áudio-livro “On the Heavens”, em que Aristóteles tenta nos convencer, entre outras coisas, sobre a impossibilidade da existência do infinito.

IMG_0064

Publicado em Natação | 1 Comentário

Heat wave inglesa Parte II — Specials, Jam e Kinks

Jam1

Show da tour do aniversário de 30 anos dos Specials (clique aqui)

Temples, banda favorita do momento, canta “Waterloo Sunset”, dos Kinks (clique aqui)

Já disse uma vez, mas não custa repetir. Esta história de que Londres possa em algum momento estar se consumindo em tédio é pura bravata adolescente emulada pelo Clash. Ainda mais quando se tem pela frente um show dos Specials, uma exposição do The Jam e aqueles programas que surgem de improviso, como uma peça para matar saudades dos Kinks. Não estivesse nada disso acontecendo, a desculpa seria pedir aquela inevitável bênção ao senhor Charles Darwin, visitar a galeria Courtauld, circular à toa pela cidade e parar em um pub para ler o The Times, o Independent ou o Guardian/Observer (com jornal, não faço distinção de posição política, credo, abordagem dos fatos. Leio o que estiver à mão, até mesmo tabloide de metrô).

Mais do que ver os Specials, a intenção era saber como anda a vida do senhor Terry Hall, um cantor que, a exemplo de Morrissey, Robert Smith, Caetano Veloso, tem realizado o milagre de envelhecer mantendo a voz e cantando cada vez melhor. Chama a atenção se formos contrastá-los com Ian McCulloch, Gilberto Gil e até mesmo genvte mais nova como Liam Gallagher, que perderam muito, por razões diversas, a potência vocal que tiveram um dia. Pavarotti dizia que não basta ter voz, é preciso saber usá-la. Surpreende assim como Morrissey, Smith, Veloso e Hall conseguem seguir cantando as mesmas músicas sempre acrescentando ar novidadeiro na forma de interpretá-las.

Além disso, Terry Hall continuou, depois dos Specials, trilhando uma carreira diversificada musicalmente com trabalhos ultra refinados, disco após disco. Só parou quando a lógica do mercado fonográfico não deixou mais espaço para projetos musicais de quem vive de um público menor. A volta dos Specials é, infelizmente, uma tentativa de dar conta da realidade mercadológica em tempo de Internet e live streaming, que, se democratizou o acesso à música e tirou o poder voraz das multinacionais do disco, acabou comprometendo certos nichos de mercado. Jerry Dammers, figura importante na primeira formação dos Specials (criador da segunda fase do grupo: o Specials AKA), não quis voltar, Neville Staple, com quem Terry Hall e Lynval Golding formaram o Fun Boy Three, fez a excursão de 30 anos em 2011, mas não pode continuar devido a problemas de saúde. Dos primeiros tempos, estavam no palco Horace Panter (baixo), John Bradbury (bateria) e a dupla Golding/Hall.

Mas o show funciona, ainda mais em um final de tarde no Jardim Botânico (Kew Gardens) em espaço muito bem estruturado que recebe sempre festivais de música no verão e onde na noite anterior o UB40 havia tocado. Uma pena que o verão inglês tivesse se encerrado dois dias antes, em meados de julho, e que acabasse chovendo por toda manhã e tarde daquele domingo. Chuva, no entanto, que foi embora com o show, o que foi ótimo. Não tivemos clima nostálgico e as músicas foram interpretadas com vontade e empenho. Lembrei muito de dois amigos, o dj Edinho e o músico Beto Fae (Dulce Quental/Fagner/Fausto Nilo), que conhecem até mesmo o repertório menos festejado dos Specials e adoram “A Message to You, Rudy”.

Outro espaço de shows do verão londrino é o pátio da Somerset House. Lamentei não ter podido ver o Belle and Sebastian, que só tocou no dia 18 de julho, quando já tinha partido pro restante de um roteiro por Paris, Nice, Cannes, Berlim e Barcelona. Em uma das galerias da mesma Somerset estava acontecendo a “About the Young Idea”, exposição de memorabilia do The Jam, com fotos, cadernos, equipamento e toda as tralhas que Paul Weller, Bruce Foxton e Rick Buckler guardaram do tempo em que estiveram juntos. A ida até lá pediu ainda uma visita à pequena Courtauld Gallery, que vive na sombra da National Gallery e fica muitas vezes esquecida. Rever a coleção permanente, com Rubens, van Gogh, Monet, Gaughin, já vale a visita, e havia também uma temporária com os “Unfisnished Works” de Rembrant, Cézanne, Degas e Kandinsky.

Mas uma das grandes surpresas da passagem por Londres ainda estava por vir: a peça “Sunny Afternoon”, no Harold Pinter Theatre, um musical e revival da história e das composições dos Kinks, com roteiro assinado por Ray Davies himself. Tudo muito bem ensaiado com um show de performance do cast feminino. A dupla de atores da TV e dos palcos ingleses que protagonizam a peça, John Dagleish e George Maguire, surpreendeu interpretando pra valer “Lola”, “You Really Got me”, “All the Day and All of the Night” e tantos outros hits, pré-anos 80 (a narrativa se concentra nesta fase). Do período, fez falta “Victoria”, que não entrou no roteiro. Uma pena que George Maguire, que faz o irmão de Ray Davis, se pareça mais com o lead singer dos Kinks, do que Dagleish, que é quem faz o papel do frontman. O musical é por demais inglês e acho difícil que consiga seguir em temporada mesmo nos Estados Unidos. No Brasil então, me parece impossível. Não custa, de qualquer forma, fazer o boca a boca e torcer para que isso aconteça.

Jam

Publicado em Jam, Kinks, Specials | 2 Comentários

Heat Wave Inglesa Parte I — Shakespeare

Stratford

O rio Avon e a sede da Royal Shakespeare Company com dois teatros, loja de souvenirs e torre panorâmica

Trailer do “Othello” encenado pela RSC  (clique aqui)

Trailer das apresentações do Globe on Screen agendadas para 2015 (clique aqui)

Caros frequentadores deste espaço que a cada dia que passa fica mais com cara de “meu querido diário”. Não era esta a intenção inicial, mas fazer o que se tudo conspirou para isso?  Ah, as santas férias de um blogueiro. Elas foram desfrutadas em passeio pela Velha Ilha, em encontro com conhecidos de ontem, de hoje, de sempre. O Arthur Dapieve vai à Inglaterra ver os new kids on the block (coisas como The Understudiesuk, Fever Dream e Temples; todos ótimos, sendo o Temples o preferido). Eu vou rever os old kids.

Comecemos por duas peças de Shakespeare: a primeira encenada em Stratfrod-upon-Avon na sede da Royal Shakespeare Company, e a outra, pela equipe do Globe, em seu QG em Londres. Estas companhias, além das produções em suas respectivas casas, têm grupos se apresentado em outras cidades dentro e fora da Inglaterra. O Globe está mesmo com uma turnê para a  encenação de “Hamlet” que percorrerá todos os países do mundo em dois anos (qualquer hora baixam aqui).

A sede ultra modernosa da RSC em Stratford tem uma loja de souvenirs em sua entrada e, próxima a ela, uma torre mais alta e em destaque em relação ao prédio, que propicia aos visitantes a chance de ter uma vista panorâmica da cidade. A partir de sua base e por toda sua robusta extensão adjacente, está um complexo que abriga dois teatros, o Royal Shakespeare e o Swan (apresentando sempre obras de Shakespeare e de seus contemporâneos), salas de ensaio e ainda um restaurante no terraço. É a festa para os bardólatras que podem passar dias em Stratford vendo montagens de diferentes peças apresentadas de forma intercalada. Durante o verão, nos meses de junho, julho e agosto, temos também teatro ao ar livre e de graça nos fins de semana.

A RSC fica localizada na parte central da pequena cidade e movimenta a vida local junto com o  roteiro de visitas à casa em que Shakespeare nasceu, a um centro dedicado ao dramaturgo (contando sua história e de seus dramas através de displays hi-tech e com a presença de atores que improvisam cenas ao pedido aleatório do visitante) e à Holy Trinity Church, onde Liam rest in peace. Muito simpática a cidadezinha, especialmente no verão com clima de quermesse em suas margens e muitos barcos a remo e embarcações cortando o rio Avon pra cima e pra baixo.

“Othello” na montagem da RSC foi atualizada. O protagonista shakesperiano agora comando um exército, todo ele trajado com aparato de força tarefa moderna, Iago e o elenco cantam rap e tudo é encenado com cenografia, efeitos especiais, iluminação e sonoplastia vanguardeiras. Vai no caminho oposto à apresentação de “As You Like It” no Globe, teatro reconstruído nos moldes elizabetanos, que faz representações tradicionais com reverência completa ao texto original e se permitindo apenas um discreto caco aqui e ali para fazer graça com a platéia explorando o choque temporal (um ator com um mapa na mão, outro, de óculos escuros).

Pra quem tem prazer em fruir o texto shakespeariano, a segunda montagem ganha de longe. Especialmente porque o Iago da montagem da RSC, interpretado pelo lorde pirata de “Game of Thrones” Lucian Msamati, é de início um negro, em mais um esforço do grupo em inovar, e ainda controla a cena com muito mais vigor que Hugh Quarshe, intérprete de Othelo. Acontece que a peça tira uma de suas maiores graças do contraste entre a aparência de seus protagonistas, explorando a oposição entre a negritude do Mouro de Veneza e a brancura esqualida de Desdemona (que felizmente tem excepcional atuação de Joanna Vanderham, atriz de “Pelos olhos de Maisie” e de séries para a BBC), o que se perde na montagem. E francamente, o papel de Iago é significativo e pode até rivalizar com o de Othello, mas não pode apagá-lo em cena.

Assistir a uma peça no Globe é uma beleza. Na platéia havia desde a garotada, que é forçada a ler Shakespeare na escola, a adolescentes topetudos, passando por senhores e senhoras que conhecem tudo de cor. Todos mesmerizados com a encenação. No elenco, Gwyneth Keyworth, a Clea da última edição do “Game of Thrones”, no papel de Phebe, contracenando com a Rosalind interpretada por Michelle Terry (“Law and order”). As duas ótimas, injetando muito humor em suas atuações, especialmente nas cenas em que contracenam com Orlando, interpretado por Simon Harrison. Um outro ator, também menos conhecido, James Garnon, divertiu o público com o seu Jaques. O Globe, com sua belíssima reconstrução das casas de espetáculo do século XVII, a indumentária típica do drama do período elizabetano e os músicos tocando instrumentos tradicionais, é um programa e tanto a nos transportar no tempo.

Tanto a Royal Shakespeare Company quanto o Globe estão fazendo transmissões ao vivo de suas encenações. O Globe também oferece gravações de suas produções em seu site, tanto para download como para assistir como pay-per-view (no Globe Player). A corrente temporada da RSC apresenta, além de “Othello”,  “O Mercador de Veneza” (essas duas no Royal Shakespeare Theatre) e o “Judeu de Malta” (de Christopher Marlowe) e o “Volpone” (de Ben Johnson), no Swan Theatre. A temporada do Globe tem alternado encenações de “As You Like It”, “Much Ado About Nothing”, “Ricardo II” e “Measure for Measure”. Tem encenado ainda “MacBeth” em cantonês (será que a demanda de turistas chineses já é tão grande assim?) e produções atuais, como a peça “Nell Gwynn”, de uma autora novata: Jessica Swale. O RSC também deixa espaço para o repertório contemporâneo, e encenou no início do ano o “Death of a Salesman”, de Arthur Miller.

Publicado em Shakespeare | 4 Comentários