
Entre as artes que lidam com a palavra, a poesia é considerada a sua manifestação mais nobre. Reina acima da prosa, por exemplo, reputada como uma forma de expressão menor. Tanto assim que os grandes romances em qualquer idioma costumam incluir, em algum momento, versos. Escritor que se preze também tem obrigatoriamente que arriscar, uma hora ou outra, um poema. Confesso a minha extrema dificuldade em entender alguns poetas e seus versos. Outros me maravilham de imediato. A razão talvez seja aquela aventada por uma amiga, Sheila Kaplan, que tem um estudo sobre a poesia de Murilo Mendes. Diz ela que um poema deixa na mão de seu autor uma liberdade tamanha que o resultado ou é algo extremamente sublime, ou totalmente desprezível. E ainda assim, a razão por que o julgamos sublime ou desprezível é, de qualquer jeito e como tudo no campo da arte, da ordem do imponderável (alguns talvez preferissem dizer, da ordem do gosto).
Não existe, que eu saiba, crítico, ou mesmo leitor desinteressado e sem qualquer pose de analista literário, que não considere Machado de Assis melhor prosador do que poeta. Os versos de Herman Melville para as “Encantadas”, de forma semelhante, jamais vão fazer qualquer sombra sobre “Moby Dick”, ou mesmo sobre uma das outras obras em prosa do autor norte-americano. Por outro lado, não conheço ninguém que julgue Drummond melhor cronista que poeta, ainda que já tenha esbarrado com pessoas, acreditem, que tentavam lançar um olhar reprovador para a sua poesia. Drummond não chega a ser o poeta de quem eu saiba os versos de cor, mas imagino que aqueles que não vêem profundidade em sua escrita poética vão sempre se restringir a um grupo bem reduzido de pessoas.
Bom, esta volta toda é para chegarmos ao poeta que acaba de ser laureado com o Nobel de Literatura. Incorporando um pouco do espírito de Lima Barreto, devo começar dizendo que não posso ter nenhum apreço por um prêmio para o qual a literatura brasileira inexiste. Para a Academia Sueca, depois de passar mais de um século contemplando o cenário da produção literária planetária, ninguém no Brasil produziu um conjunto de obras relevantes. Mas a falta de sensibilidade parece ser a marca registrada que fez com que fossem esquecidos Tolstói, Valéry, Proust, Joyce, Kafka… a lista é grande. Portanto é melhor que deixemos ela de lado.
Quanto ao Dylan Zimmerman poeta, ele é fonte de sentimentos ambivalentes. Não chego a condição de fã incondicional como o Suplicy-pai e o Eduardo Bueno, ou mesmo à adoração de uma devota que existe aqui em casa e que tem tara pela fase new wave do bardo (é, senhores, não sei se é lenda urbana, mas dizem que essa fase existiu e que foi inspirada em Boy George e seu Culture Club; dúvidas, questionamentos, serão devidamente encaminhados por inbox a quem de direito). Ainda assim gosto muito, e sem saber bem o porquê, de boa parte de sua obra. Especialmente a veia poética que explora a clivagem beat entre o corriqueiro e o surreal, como nos versos que aparecem em “Tangled Up in Blue”:
She lit a burner on the stove and offered me a pipe.
“I thought you’d never say hello,” she said,
“You look like the silent type.”
Then she opened up a book of poems
And handed it to me.
Written by an Italian poet
From the thirteenth century
And every one of them words rang true
And glowed like burning coal
Pouring off of every page
Like it was written in my soul from me to you
Dylan tem incontáveis exemplos como este, que iriam dar no primeiro e provavelmente único exemplar de jornalismo literário escrito em verso com “Hurricane”, como observou de forma pertinente André de Leones no Estadão da última sexta-feira. Mas aprecio especialmente as investidas vazadas na clave estritamente surrealistas, como no clássico “Highway 61 Revisited”:
Oh God said to Abraham, kill me a son
Abe said man you must be puttin me on
God said no, Abe said what
God said you can do what you want Abe but
Next time you see me coming you better run
Well, Abe said where you want this killin done
God said out on highway 61
Ou na abertura de “Subterranean Homesick Blues”:
Johnny’s in the basement
Mixing up the medicine
I’m on the pavement
Thinking about the government
The man in the trench coat
Badge out, laid off
Says he’s got a bad cough
Wants to get it paid off
Há, no entanto, partes de sua obra poética que não fazem sentido algum pra mim. Antes mesmo de pouco ou quase nada me interessar pela trip cristã de Dylan Zimmerman, já achava hits seus como “Blowing in the Wind” tão bons e contagiantes como um comício político. “Knocking on Heaven´s door”, esta talvez pela exposição excessiva, só serviu como uma das primeiras músicas que usei para ensinar a um de meus sobrinhos, que, eu não fazia ideia, viraria músico, a tocar violão.
Parece que, para justificar a premiação de um ídolo pop, compararam Dylan ao Homero que saía pelas cidades recitando seus versos. E nisso, a contribuição do bardo é única. Além de poeta, Bob Dylan, ainda que possua uma voz de taquara rachada, convence como cantor pela genialidade de suas modulações vocais que fazem suas músicas mudarem de um show para o outro (ou faziam, é melhor dizer, já que há um bom tempo ele não consegue mais cantar decentemente como comprovamos em suas apresentações recentes no Brasil). Suas letras, num caso bastante interessante, mostram ainda que a poesia pode estar em constante transformação, permanentemente alteradas que eram pelo autor de uma apresentação para outra. É o que Dylan sempre faz e o torna um performer singular e merecedor de todas as honrarias.











Para uma sociedade que vive diariamente um sentimento de desprezo absoluto por manifestações mínimas de civilidade, as Paraolimpíadas, que acabam de se encerrar no Rio de Janeiro, se mostraram um evento extremamente educativo. Os jogos cumpriram a simpática missão de mobilizar um número significativo de pessoas e levá-las a um exercício raro de prática inclusiva que, tenho certeza, terá consequências para a elevação do grau de tolerância e de respeito mútuo. Todos aqueles que lidam com a realidade educacional brasileira sabem o quanto isto é importante.

O assunto poderia ter sido discutido no conjunto de vime composto por um sofá e por quatro poltronas no espaço entre as duas estantes à esquerda de quem adentrava a livraria e casa editorial Garnier, na rua do Ouvidor no centro do Rio de Janeiro, há um século. Os convivas na livraria do editor de Machado de Assis seriam Olavo Bilac, Lima Barreto, João do Rio, Gilka Machado, Coelho Neto e seus muitos amigos e conhecidos. Ele foi, no entanto, inquirido, perscrutado, perquirido, na mais nova filial da Livraria da Travessa que fica em frente às salas de cinematógrafo do antigo cinema Estação Botafogo (agora, Estação Net).







Grande expectativa pelo encontro em setembro entre dois craques da escrita na Livraria da Travessa em Botafogo para uma conversa sobre esta prima-dona sem coração, esta senhora vaidosa que gosta de fazer e acontecer comigo. Já se vão aí mais de 50 anos de convivência e a arrogante sempre me maltratando, sem dó, nem piedade. Faz tantas que, invariavelmente, me pego a conjecturar se ela não teria amantes em cada bairro da cidade. Enamorados, amásios, concubinos que, como eu, posso antever, também são maltratados, ludibriados, pela pérfida figura. Estamos, ao que tudo indica, condenados por gosto e por destino a procurá-la na triste esperança de uma vida serena em sua companhia. Por vezes suplicando, implorando, nos humilhando em público ou nos remoendo em auto-flagelação no recesso do lar, em busca de um pouco de compreensão. Carentes eternos de sua presença, não conseguimos deixar de pedir que nos trate bem. E ela, invariavelmente, faz justo o oposto. De nariz em pé, fica debochando, desdenhando, fazendo pouco caso de nós. No próximo dia 5, me dirigirei à Livraria da Travessa para saber se, de fato, existem homens felizes no mundo que se dão em completa harmonia com esta desalmada criatura. E caso tal hipótese se confirme, vou querer entender como fazem para conviver com este tipo arrogante, cuja única atribuição em sua maldosa existência parece ser o desejo de espezinhar e menosprezar os que não conseguem passar um dia sequer sem tê-la por perto.




As olimpíadas sobreviveram aos piores vaticínios e para quem nunca esteve próximo de um evento desta magnitude, acompanhar tudo de perto foi deleite puro. Duas semanas de contendas esportivas non-stop. Ora pagando ingresso para ver as competições junto a entusiasmados torcedores (alguns, poucos felizmente, mais entusiasmados do que o necessário, é bem verdade) que apoiavam as delegações brasileira e estrangeiras no Parque Olímpico, ora simplesmente dando um pulo até a praia de Copacabana ou até a Lagoa Rodrigo de Freitas para assistir como mero curioso às maratonas no mar e às competições de remo. Ou ainda pela televisão com a excelente cobertura do Sportv, que fez o mais amplo televisionamento da Rio 2016 e que teve nos programas “Bom Dia Sportv” e “Extraordinários” duas de suas melhores atrações.











Uma beleza o Rio de Janeiro olímpico. Fizeram tantos prognósticos catastróficos que a impressão era a de que nada iria dar certo. Tudo, no entanto, está funcionando bem (a linha nova do Metrô e o BRT em conexão perfeita) e tem sido uma verdadeira alegria circular pela cidade com o clima contagiante dos torcedores. Os ingressos podiam ser um pouco mais baratos, mas dizem que, pelos custos e gastos que um evento desta magnitude requer, mesmo contando com um grande número de voluntários, estamos tendo as entradas mais baratinhas da história recente dos jogos olímpicos. Batalhador incansável por estimular o gosto do público do Rio de Janeiro pelo esporte, Mario Filho estaria feliz da vida em ver uma festa como esta acontecendo.






