Brix e Mark Edward Smith

Captura de tela inteira 30012018 220219Era um compositor que tinha apenas a própria voz como companheira, ignorando todos os outros instrumentos, no que lembra seu conterrâneo Stephen Patrick Morrissey. Certamente por isso, os dois cantores-compositores de Manchester conseguiram, ao longo de suas respectivas carreiras, escrever músicas com qualquer instrumentista que cruzasse seus caminhos. Mas Mark Edward Smith foi recordista no número de parceiros diferentes com quem trabalhou. O resultado era sempre caótico e invariavelmente muito bom. Isso até ele ser derrubado pelo uso de bebida e drogas bem além do aconselhável (“The road of excess leads to the palace of excess”, chegou a cantar em referência a Blake e Morrison).

Ele só precisava de uma frase aleatória (“Eat Yourself Fitter”, “Australians in Europe”, “Lucifer Over Lancashire”, “Welcome to the US 80´s/90´s”, “Oswald Defense Lawyer”, “Hit the North”, “I Hear Your Telephone Thing Listening In”, “Rocking Records/Rocking Records/Rock the Record/ Rocking Records/The Guy´s Rock Record”, “The Birminghan School of Business School”, “The Book of Lies”) e uma banda criando uma atmosfera sonora qualquer ao fundo, pra martelar, modulando a voz ao seu gosto, seus mantras que se sucediam uns aos outros, sem cessar.

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Falam muito sobre a forma ditatorial com que comandava o grupo. A assinatura das composições, no entanto, era democraticamente feita como pouco se vê no mundinho do rock`n´roll. Mark E. Smith sempre aceitou com desprendimento a co-autoria de músicas que traziam de forma inconfundível sua marca. Brix Smith, por exemplo, que quando conheceu a banda se iniciava de forma rudimentar nas artes musicais, não custou a dividir a autoria das composições, assim como faziam todos os outros instrumentistas. É certo que o casamento com Mark Smith a consagraria como parceira mais assídua. Musicalmente falando, Brix, entretanto, não era Yoko Ono, e a presença de uma americana arejada livrou o grupo de ser uma reedição mais sombria, se é que isso é possível, do Joy Division.

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Mark Smith no Canecão, em julho de 1989, em clique de um devoto da época

Apaixonada pela música britânica a ponto de mudar o nome para Brix por causa de “Guns of Brixton”, do Clash, Laura Elisse Salenger conheceu Mark E. Smith após um show do Fall em sua cidade, Chicago, no começo dos anos 80. Casaram e “conviveram” por uma década. Ele saindo para o Pub às 10 da manhã e ela ficando em casa cuidando dos gatos. Não apenas isso, obviamente, porque gravaram juntos 11 dos melhores discos do Fall, correram o mundo com shows e fizeram um genial espetáculo-performance com a companhia do dançarino Michael Clark.

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Colega de turma de Donna Tartt, Bret Easton Ellis e Jonathan Lethem no curso universitário de escrita criativa, Brix resolveu, ainda que de maneira um tanto temporã, colocar em prática o que aprendeu em sua curta passagem na juventude pelo Bennington College. Escreveu o livro memorialista “The Rise, the Fall and the Rise” (Faber & Faber, 2016). Nele fala não apenas em sua relação com seu primeiro marido e o envolvimento dos dois com o mundo da música, mas também de seus outros casamentos (foi casada também com o violinista clássico Nigel Kennedy e vive hoje com o empresário de moda Philip Start, com quem tem uma loja em Londres) e de sua formação entre Los Angeles e Chicago.

É certo que foi Brix que caiu fora de seu casamento com o líder do Fall. Isso aconteceu porém depois de ela ter notícia de que ele andava atrás de meia-dúzia de mulheres, inclusive de uma de suas amigas e da namorada lésbica desta. Tudo ao mesmo tempo agora. Por isso, em julho de 1989, Mark Smith chegou ao Brasil desfalcado de sua guitarrista e backing vocals. Vinha fazer apenas um show no Canecão dentro de um destes projetos organizados para gastar dinheiro sem explicação já que o público da banda por aqui era bem próximo de zero.

Ao biólogo e dublê de jornalista Carlos Albuquerque coube a tarefa de cobrir a coletiva e de entrevistar Smith. Ainda que imerso na febre de sua reggae night, Calbuque andava siderado com o “Bend Sinister” (1986), que não escapara ao seu radar. Escalado para o trabalho, ele foi, porém, solidário com o fã que vos digita, àquela altura ouvindo sem parar “The Frenz Experiment” (1988) e “I am Kurious Oranj” (1988). Fez a gentileza de me indicar para as duas tarefas, se ocupando apenas com uma hilária resenha que escreveu sobre a apresentação. Fiquei tão devoto, que dois anos depois, em janeiro de 1991, estaria me mandando de Londres para Manchester, única e exclusivamente para ver o segundo e último show do Fall de minha vida. Grande festa poder repetir junto com Mark Smith, dentro do prédio gótico da prefeitura da cidade, o grito de guerra de “White Lightning”.

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No Le Meridien (hoje, Hilton Copacabana) em companhia do gravador e do caderninho da repórter-fã Marcinha Pedrosa

Tinham acabado de sair os álbuns “Extricate” (1990) e “Shift-Work” (1991), já que a banda seguia lançando um disco atrás do outro. Teríamos depois deles alguns dos meus CDs favoritos do grupo: “Code Selfish” (1992), “The Infotainment Scan” (1993), “Middle Class Revolt” (1994) e “Cerebral Caustic”  (1995; este  último, de novo com Brix “Don´t Call me Darling” presente). Em meio à clave do frenesi virtuosístico recitativo, aparecem nesta fase pelo menos 3 músicas lentas belíssimas: “Edinburgh Man”, “Bill is Dead” e “Rose”. A partir dos anos 2000 parei de acompanhar, perdi o interesse. Só fui ter o entusiasmo despertado novamente, quando Damon Albarn convidou Smith para gravar a faixa “Glitter Freeze”, no álbum “Plastic Beach”, do Gorillaz. A subsequente apresentação ao vivo na edição de 2010 do festival de Glanstonbury, com Mick Jones e Paul Simonon no palco, foi um acontecimento.

Ao longo da carreira, Mark Smith gravou, segundo as minhas contas, 30 discos de estúdio (entre 1979 e 2018), em 41 anos de carreira, até nos deixar no dia 24 de janeiro.  Na edição especial integralmente dedicada ao Fall no seu Ronca-Ronca, Maurício Valladares colocou Smith e a banda em relação a qual, segundo John Peel, todas as outras deveriam ser comparadas, ao lado de figuras tão díspares quanto Cartola e Bowie. Está em ótima companhia.

A agora senhora Brix Smith-Start se reuniu recentemente aos irmãos Paul e Steve Hanley no Brix and the Extricated. Paul foi baterista de primeira hora do Fall (ainda que tenha abandonado o grupo logo). Baixista classudo, Steve foi fiel parceiro de Mark E. Smith por 19 anos, assinando incontáveis músicas. Antes de Brix, já havia escrito também um relato biográfico sobre sua convivência com a banda de Manchester intitulado “The Big MidWeek – Life Inside the Fall” (Route Publishing, 2016). Mais uma leitura obrigatória para os apreciadores do lendário grupo e de seu líder.

Ps. Para saber em o que Mark E. Smith andava pensando quando escreveu cada uma de suas letras, existe o The Annotated Fall, página em que cultuadores do cantor, replicando o que comumente só acontece com escritores, conjecturam colaborativamente sobre o assunto.

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Felinolinos e o VeteriMário

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Bello Antônio pelas lentes da cunhada Vani Garcia

Charles Darwin deve ter certamente classificado a espécie como uma praga em função de sua inacreditável velocidade de multiplicação e da razão em que ela se dá. Mas o motivo de eles estarem por tanto tempo por aí sendo paparicados, mimados, afagados com insistência, em lugar de caçados como ratazanas, é que, desde pelo menos o Antigo Egito, o mulherio, e mesmo muitos que fogem a esta classe, se derretem de amores por suas boas e contidas maneiras (quando não são importunados) e por suas feições graciosas.  Um ano se passou e chegou a hora de procedermos a uma atualização sobre a vida dos gatolindos de Felinolândia.

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Ainda que eles agradem e cativem a todos, especialmente quando pequeninos, foi necessário recorrer a algum artifício para conter a proliferação extratosférica que se insinuava. Fez-se imperioso então convocar a entrada em cena da pessoa do VeteriMário. Sempre conto essa história porque ela é para mim o exemplo maior daquilo a que nós nos referimos como vocação.

Parte da família de meu pai tem, digamos, uma certa inclinação campestre, agrária, rural. Foi por isso que, lá pelos idos de 1970, dois de meus tios e meu avô se juntaram a meu pai para comprar uma fazenda. Escolheram uma propriedade na cidade de Silva Jardim, no Estado do Rio de Janeiro, há duas horas e meia aqui do Rio. E assim, toda sexta-feira de noite, um Gordini partia da rua Conde de Bonfim na Tijuca em direção à Praça XV para cruzar a Baía de Guanabara em uma precária balsa que fazia a ligação com Niterói antes da inauguração da ponte que nos levaria com mais rapidez à terra por onde Darwin passeou quando esteve no Brasil. No microscópico carro, para os padrões de hoje, viajavam meus pais, seus 5 filhos e uma ou outra prima. Como? Não faço a menor ideia. Depois de atravessar a Baía ainda era necessário rodar por pista pavimentada até Rio Bonito e, a partir daí, em estrada de terra até a fazenda do Rosário.

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Chegava-se lá por volta de 12h30, 1h da manhã. Isso quando o carro não enfrentava muita lama no meio do caminho em dias de chuva, derrapando de um dado para o outro na pista e, vez ou outra, atolando. Logo no começo, ainda não havia luz elétrica na fazenda e tudo era feito ao lúmen intermitente de lampiões de querosene. Só no dia seguinte teríamos luz gerada por um motor a diesel que ficava no estábulo, distante da sede. E ainda assim só até a meia-noite, quando ele era desligado. Mas isso pouco importava, porque um dos passatempos na fazenda era acordar às 4h30 da manhã para assistir no curral à ordenha do gado. Meu avô sempre levava uma garrafa térmica com café para misturá-lo com o leite fresco e quente recém-tirado do ubre das vacas. O café-da-manhã era tomado de pé no estábulo, entre um mugido e outro.

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Gude-Gude com o Macaco ou o Rabamoça (façam suas apostas)

E é aqui que entra a pessoa de um de meus primos, o VeteriMário, como é tratado por todos. Pois muito bem. A sede ficava em um platô. Lá em baixo tinhamos o imponente estábulo, com as rezes do gado leiteiro circulando nas proximidades em um dos pastos cortado por um sinuoso córego aguardando para a função da madrugada do dia seguinte. Por vezes, havia uma ou outra vaca, não sei se profana ou não, que, por estar prestes a gerar uma nova cria, era deixada em um cercado do curral. Nestas ocasiões, um dentre todos os primos, em uma passagem digna de filme italiano, trocava sua confortável cama por um lugar no estábulo para, em uma eventualidade, ajudar o pobre animal a trazer ao mundo mais uma criatura.

Fazenda

Hoje o VeteriMário, cujo filho Felipe e sua nora Lilian acabam de lhe dar a sua primeira neta, Laura Isabela, cuida do sorriso de cavalos de corrida. O leigo talvez estranhe e diga em sua ignorância ignara que nunca ouvi falar em dentista de cavalo. Pois saibam que eles existem e viajam para tudo quanto é canto para deixar em perfeita ordem os dentes das cavalgaduras. Apenas desta maneira os céleres puro sangue podem exibir com graça seu esplendoroso relincho e se comportarem adequadamente durante suas desabaladas correrias nas disputas nos jockey clubs. Não sou Guimarães Rosa, mas garanto que cavalo sorri e mais do que isso (o que talvez seja motivo de surpresa para muitos): o distinto quadrúpede bebe com alegria até cerveja, caso lhe ofereçam (um dia conto essa outra história).

Mas voltemos aos nossos felinolinos do começo. Pois bem, nosso veterinário-por-vocação teve que esquecer um pouco o sorriso de cavalos de corrida e subir a serra para cometer o ato ignóbil, mas imperioso, de castrar todos os pobres gatitos. O surpreendente é que, apesar de tudo, a guerra continua com o Temer, o Manda-Chuva, que segue atormentando e tirando a paz de seus semelhantes. De qualquer jeito, a última prole veio em um sortimento vário em sua diversidade. Teve o Michelzinho e a Marcella, filhotes do Temer, a Raposinha, filha do Raposão (outro agregado que aparece de vez em quando), e Tonico Junior e Jojo (em homenagem à Joanna Maranhã, pois apesar de pequenina caiu no poço e sobreviveu), filhotes do Bello Antônio. Da primeira leva, ficaram com a família o Fofis e a Kiki, crias do Bello Antônio.

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PiriCat escondida no estofo do sofá com medo do ataque de uma gambá ao seu filhote

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David Byrne: Utopias para o Presente

Captura de tela inteira 08012018 164406-001No dia 8 de março sai o novo disco de David Byrne, “American Utopia”. Como teaser para o lançamento do trabalho que virá para suceder ao ótimo “Love this Giant”, gravado com Saint Vincent (ou Annie Clark) em 2012, o Renaissance man fez uma palestra na tarde desta segunda-feira na universidade The New School, em Nova York. Nela, Byrne apresentou um projeto multimedia que se espalhará por redes sociais para divulgar ações que conheceu e que o levam a ter algum entusiasmo com o mundo atual. Falou sobre iniciativas inovadoras que estão acontecendo ao redor do planeta nas áreas de transporte, saúde e cultura. Ao fim da apresentação de “Reasons to be Cheerful” (nome tirado de música conhecida de Ian Dury and the Blockheads), foi ouvida em primeira mão a faixa “Everybody`s Coming to my House”, do novo disco. Ao lançamento de “American Utopia”, se segue excursão que passará pelo festival Lollapalooza em São Paulo no dia 24 de março. Byrne é sempre motivo de regalo em tempos sombrios.

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O Pacato Cidadão Hugo Waldemar

Seu Hugo e Rogério

Encerrei o ano de 2017 me despendido de um tio querido. Dia 30, fomos levá-lo à sua última morada. No caminho até o mausoléu dos Sá Freire (lado paterno),  no cemitério de São Francisco Xavier, enquanto nos dirigíamos às aléias onde se encontra o jazigo da família, um primo, Claudio Acir Freire Ferreira (que tem entre nós a alcunha chistosa de Matusalém), fez o comentário pertinente: “Era um tio gente boa”. Não poderia concordar de maneira mais definitiva e inapelável.

Se formou em engenharia elétrica e foi funcionário da Light até que a aposentadoria chegasse. Às vezes, era possível encontrá-lo no meio da tarde em uma das caminhonetes da empresa, parado em alguma rua da Tijuca fazendo reparo na rede elétrica da cidade. Em casa, tinha o seu cantinho em que tratava de consertar os rádios e aparelhos eletrônicos de quem precisasse.

Estava sempre ouvindo sua ópera. Era um apaixonado pela mais célebre música italiana. Não gostava de nenhum outro estilo musical e seu fascínio era sem pose. Ouvia no refúgio do lar e nunca teve o desejo de frequentar casas famosas que prestigiam o canto lírico, como o Theatro Municipal, por exemplo. O Scala então, nem pensar. Aliás, nunca demonstrou interesse em sair do país, nem pra passear, pra nada. Só o futebol o levava ao Maracanã e as corridas de cavalo ao Jockey Club, e assim mesmo sem o gosto extremado de alguns de seus muitos irmãos.

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Como tinha, junto com tia Maria Solange, sua esposa de toda a vida, dois filhos de idade próxima à minha (teriam depois mais uma filha), eles me adotoram como um terceiro integrante do núcleo familiar. Eu era um filho postiço com as regalias e privilégios desta condição. Na hora da bronca, acabava poupado. Meu tio possuía uma paciência de Jó com a gente. Quando penso no que fazíamos, fico pasmo: lutávamos telecatch em cima da cama de casal (era o nosso ringue), jogávamos futebol na sala e, quando estávamos mais calmos, botão em cima da mesa de jantar. Eu teria feito com que todos vissem o “China seco” em dois tempos (“China seco” era o chinelo que meu avô usava, como parte de sua indumentária em par com seu permanente pijama, e com o qual ameaçava as crianças desordeiras).

Haroldo, Rogério e Kiko

Meus pais moravam no número 512 da rua Conde de Bonfim, e meu tio Hugo bem perto, na rua Conde de Itaguaí, no segundo bloco de um prédio de 5 andares. Ficava ao lado do número 22, onde foi um dia o endereço de meus avós paternos. Religiosos, meus avós observaram talvez com um zelo excessivo o preceito do crescei e multiplivai-vos: trouxeram ao mundo nada menos do que 10 rebentos, 8 filhos e duas filhas. Os meus tios que nasciam durante o ano, viam o mundo pela primeira vez nesta residência de dois andares de meu avô Waldemar e a minha avó Glorita (Maria da Glória) na Tijuca. Os que nasciam depois que o calor chegasse, vinham à luz na casa de Petrópolis, residência de veraneio do casal.

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Como o tio Coco (era o seu apelido) nasceu em dezembro, acredito que como meu pai, seja natural de Petrópolis. Todos os tios e seus 28 descendentes, bem como netos e muitos agregados, aproveitaram esta casa enquanto deu. Funcionava como uma colônia de férias servindo café da manhã, almoço e jantar para um mundo de gente. Tinham pessoas responsáveis por cada função: controle da despensa, organização do menu, e até por preparar o cafezinho servido durante a jogatina noturna na casa principal.

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Os tios desciam e subiam todos os dias para trabalhar. Quando chegava mais cedo e a tempo de pegar ainda o banho de piscina no final da tarde, tio Hugo comentava: “Kiko, depois de certa idade, pra se entrar na água, só molhando os pulsos e a nuca antes”, e finalizava o comentário com um glorioso mergulho na muito apreciada piscina. De noite, ficávamos à caça de um sinal de TV para ver o jogo lento e silencioso do Ademir da Guia, ou de outros craques da bola do período.

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Nenhum obra de literária que li foi ambientada nesta residência em Petrópolis. Já vários dos romances de Machado de Assis, não sei bem por qual razão, se passam na minha imaginação na casa que existiu um dia na rua Conde Itaguaí na Tijuca (hoje temos um prédio em seu lugar).  Sei que Bentinho viveu infância e adolescência na rua de Matacavalos (ou do Ricahuelo), na Lapa, mas para o leitor dos romances machadianos que vos digita, o caso com Capitu começou e aconteceu na morada de dois pavimentos de meus avós, com sua escada iluminada por um belíssimo vitral que vazava luz na passagem entre um piso e outro.

Tinha um tanque, um quintal e um terno galinheiro, que, tenho certeza, estão em alguma crônica de Nelson Rodrigues. Assim como minha tia-avó Guiomar (ou tia Guiô), que, solteira por toda sua existência, foi para mim uma personagem das peças míticas rodriguianas. Passava os dias a tricotar sentada em uma cadeira em uma casa conjuminada à de meus avós (esta casa está lá até hoje na esquina com a rua Carlos de Laet).

Ontem tivemos a missa de sétimo dia na Sagrados Corações na Conde de Bonfim. Trata-se da igreja que, pela proximidade, toda a família frequentava. Foi o lugar em que me preparei para a minha primeira comunhão. Posso jurar que tocou a “Ave Maria”, de Gounod, durante a cerimônia.

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Dias Bárbaros pela Costa Brasileira

No verão de 1979, que antecedeu a minha entrada na faculdade, embarquei com amigos e conhecidos em uma expedição que correu toda a costa brasileira. Do Rio de Janeiro até São Luiz do Maranhão, chegando mesmo a ir um pouco além em visita a Alcântara. Fomos pingando de cidade em cidade, sempre acampando e dormindo de forma improvisada em qualquer lugar. Em uma faixa de terra, entre o mar e um rio, em Conceição da Barra (vila de pescadores no Espírito Santo), na praça principal na entrada de uma igreja em Caravelas (Bahia), em um quarto com janelas debruçadas sobre a Baía de Todos os Santos, na Casa do Estudante em Salvador,  à beira de uma cachoeira em São Cristovão, Sergipe, na Praia do Francês, em Alagoas.

Fazíamos a própria comida de maneira improvisada, ou pagávamos por uma refeição em qualquer birosca e, em Canoa Quebrada, Ceará, experimentei, pela primeira e única vez, a mais deliciosa muqueca de arráia da minha vida, preparada pelas mulheres de pescadores que nos acolheram. Lá alugamos uma casa com redes, assim como já havíamos feito em Arraial d´Ajuda, em Porto Seguro. Quem comandou esta expedição nordestina foi o José Fortes. Era ele quem indicava os caminhos e atalhos, muitas vezes por vias vicinais de terra pessimamente conservadas, já que todos queriam que a viagem ficasse próximo à costa a maior parte do tempo.

Como todos sabem, o Zé Fortes é quem coordena a agenda, elabora e orienta as excursões do grupo Paralamas do Sucesso. Tenho para mim que o êxito da viagem se deveu em grande medida à capacidade organizacional do futuro empresário. Durante todo o trajeto, quem comandava a caravana indicando todas as rotas em época em que não existia GPS, era ele. Não me recordo de termos ficado perdidos em momento algum (à exceção dos desencontros entre os três carros que faziam o percurso: duas Brasílias e um Passat).

Eu sabia tocar rusticamente os três acordes de Asa Branca e um dos programas da caravana era parar para ouvir o Fernando Brandão, hoje professor na Universidade de Berklee, em Boston nos Estados Unidos, fazer belíssimos improvisos esbanjando aquele talento dos grandes virtuoses em cima da base simplória que repetia no meu saudoso violão Di Giorgio (que encerrou o seu périplo neste mundo depois de ser completamente destruído pelo Márcio França, que pulou a janela da Casa do Estudante da Bahia e o encontrou em repouso no chão). Lembro que em uma sessão em uma praça pública em um desses lugarejos remotos em que havia uma escola de música, as pessoas que assistiam aplaudiram o flautista com grande entusiasmo.

Fomos pela costa, mas voltamos pelo interior do Piauí, passando pela curiosa região de Picos, cujo clima ameno, por se tratar de região serrana, contrasta com o lugar mais quente do planeta Terra: a cidade de Teresina. O ponto alto da viagem já tinha ficado para trás, foi o carnaval de Olinda, comparável em sua espontaneidade ao de todo lugar pequeno, como o de Ouro Preto. Teve ainda as belas paisagens das praias de Fortaleza e de Natal e a escapada até a Feira de Caruaru para conhecer de perto o que tinha visto em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foram os seguintes os aventureiros além do José Fortes e de Fernando Brandão: Ricardo Marins e seu amigo Zé (não recordo o sobrenome), Pedro e Carlos Cavalcanti, Maurício Novelo (também conhecido como Terror), Chiquinho (outro que não me lembro o sobrenome), Marcio França e minha irmã Marcia Maria Pedrosa.

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No Intenso Agora Chinês

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Foto do distrito de Yuzhong na província de Chongqing. Autor: Jonipoon

É a terra dos contrastes. Das megalópoles, do trem bala, do Crazy English, do HiPhone, do shopping hi-tech com bugiganga xingi-ling e das feiras de ambiência medieval, onde é possível comprar um animal vivo e pedir que o feirante faça o abate na hora. Seis vezes a população do Brasil, quatro a dos Estados Unidos. Gente pra burro. Imaginem oferecer a este mundão de pessoas, moradia, educação, serviço de saúde, segurança pública e os confortos da modernidade e da pós-modernidade.

Em um cenário infinitamente menor como o brasileiro, vemos a coleção de descaminhos em todas essas áreas essenciais a que a péssima e criminosa administração pública tem nos levado. Na nossa tiranocracia plutocrática que ainda vai ter de se esforçar muito para chegar a uma democracia, o que temos é um exercício de delinquência que tem comprometido todos os setores considerados fundamentais para o bem estar da população e para uma vida minimamente decente.

Oferecendo aos seus cidadãos tudo o que é regalia para poucos no Brasil (não de graça, mas a valores honestíssimos), a China segue vivendo o seu boom econômico. Um PIB que consegue se manter em boa e positiva taxa de crescimento mesmo com as turbulências internacionais. Vem puxando um grupo grande de economias do planeta a reboque, entre elas a brasileira. O país é comandado pelo Partido Comunista, mas o que se prega naquele que seria o pensamento único em seu território é um socialismo que reconhece a propriedade privada com restrições.

Para os que acham que o riquixá ainda é o meio de transporte mais comum, basta dar uma olhada em uma garagem de um dos gigantescos e modernos conjuntos habitacionais chineses para se contemplar um mar de Porsches, Audis e BMWs. Imóvel próprio, no entanto, só obedecendo a regulamentações específicas (embora até o aluguel já faça parte da vida chinesa há alguns anos; detalhe: com uma ausência de burocracia que deixará o inquilino brasileiro a se perguntar se vive na Rússia stalinista). De uma perspectiva geral, o que temos é um exemplar único de capitalismo de estado, que cada vez mais incorpora a iniciativa privada à sua realidade.

O historiador inglês Martin Jacques em palestra no TED sobre a China

É verdade que temos limitações à liberdade de expressão em ambientes públicos, o que para quem vai a manifestações de rua em frente à Alerj no Rio de Janeiro e enfrenta a polícia do senhor Sérgio Cabral, com suas balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, não é nenhuma novidade. Não há também acesso livre a alguns dos nichos da Internet. São bloqueadas as páginas do Facebook (o que para muitos talvez fosse até motivo de alegria), do Google e de outras ferramentas que operam com desenvoltura e ganhos astronômicos as trilhas da era digital. Para contornar estes entraves é possível instalar uma rede em casa com IP fora do país e se comunicar com o planeta sem que o governo faça qualquer objeção.

Acompanhando a discussão de Martin Jacques, a questão talvez seja saber se os chineses querem estabelecer contato cultural com o mundo quando a troca interna já existe. Em lugar do Whatsapp, eles têm o WeChat, que possui uma infinidade de outras funções que não se encontra no aplicativo do Zuckerberg (paga contas, solicita serviços de entrega, debita quantias em qualquer compra). O aplicativo é da empresa Tencent, que já tem valor de mercado maior que o do Facebook. É da empresa também o Tencent Video, o Youtube chinês.

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Em lugar de ser a China sucateada da era Mao, ela se transformou na China das start-ups de tecnologia de ponta e do e-commerce, a partir das reformas de Deng Xiaoping nos anos 1980 que mudaram a cara do país. Houve a substituição de empresas exclusivamente estatais por empreendimentos que operam como iniciativa privada e tivemos ainda uma migração crescente do campo para as áreas urbanas, em uma mudança que tirou parte da população da miséria. “Crônicas de uma Crise Anunciada” (FGV Editora, 2016) colige artigos que discutem o assunto comparativamente com a situação econômica brasileira. Assinados pelo amigo Pedro Cavalcanti e seu parceiro Renato Fragelli, os textos mostram como um dos pontos centrais no bem sucedido exemplo chinês se deve ao investimento pesado e a preocupação central com o aumento do grau de escolaridade da população.

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Thomas Piketty não poderia ficar de fora do debate. Em um estudo recente, realizado com seus colegas Gabriel Zucman e Li Yang e intitulado “Capital, Accumulation, Private Property and Rising Inequality in China” (NBER Working Paper, 2017), ele analisa a economia chinesa depois de ter cuidado de Europa, Japão e Estados Unidos. Aplica ao caso chinês seu modelo de investigação, que considera fundamentalmente em que razão se dá em uma economia o acúmulo de riqueza e renda individual durante um período histórico específico. Identificou algo de surpreendente: a desigualdade na China avança de uma maneira que só tem paralelo com a realidade americana e que fica distante da conservadora França.

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Eu, que nunca tive vergonha de ganhar dinheiro e que já me submeti a coisas pelo vil metal que até Deus duvida, fico admirado com o espírito aventureiro de brasileiros que estão apostando no mercado chinês para pagarem suas contas, sejam eles jogadores de futebol, empresários, professores ou estudantes. No polo de ensino à distância em que trabalho, apareceu certa vez uma moça muito jovem. Era modelo e tinha vivido na cidade de Hangzhou durante um tempo. Não era modelo de capa de revista, mas de pafleto de venda de roupa íntima feminina. Voltava ao Brasil para concluir sua escolaridade básica e dar sequência à sua carreira nos Estados Unidos.

Outro exemplo é da professora paulistana Verena. Formada em mandarim pela USP, ela foi dar aulas de português para chineses na Universidade de Hubei, em Hunan, onde  conheceu a amiga Sisi Liao. Verena conta sua história à Sisi (dona do canal Pula Muralha), que fez o caminho inverso, dá aulas de mandarim em São Paulo e é casada com um brasileiro ainda que sua família viva na China.

Canal Pula Muralha: Sisi entrevista uma brasileira que morou na China

O casal de estudantes do interior paulista Dieter e Deyse Bruns, seguem um roteiro semelhante: estão aprendendo mandarim em Guiyang e contam como está sendo esta aventura no vlogue “2 a Mais na China”. Sempre tive curiosidade em conhecer como é o dia a dia chinês de uma perspectiva prática e eles têm saciado a minha busca por informações acerca da vida na terra de Xi Jinping. Com eles podemos saber como funcionam os serviços básicos. Coisas prosaicas como atendimento médico, supermercado, shopping center e até mesmo como é fazer uma visita a uma delegacia de polícia (ao mudar de residência na China, é necessário comunicar a mudança à DP mais próxima de seu novo endereço).

2 a Mais na China

No dia 9 de setembro de 1976, uma quinta-feira, estava pela manhã em sala de aula no Colégio Andrews, em seu prédio da Praia de Botafogo, o mesmo prédio em que Clarice Lispector havia estudado se preparando para a faculdade de direito, quando o diretor da escola interrompeu nossa aula para comunicar à classe a notícia da morte de Mao Tsé-Tung, fato do qual acabará de tomar conhecimento. Segundo suas palavras, Mao fora uma das personalidades mais importantes do século. Não sei se àquela altura já se sabia algo sobre a iniciativa do grande timoneiro de uma industrialização de fundo de quintal que levou 40 milhões de pessoas à fome e à morte.

Quatro décadas depois, vemos a China com papel importante e central na economia do mundo. Alguns apostam em um governo que tem inflado a realidade, criado cidades fantasmas e uma bolha econômica que em breve levará a economia do mundo ladeira abaixo. Outros acreditam  na capacidade de uma economia dinâmica e de uma administração rigorosa em lidar com situações extremas.  O futuro dirá quem tem razão.

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Hermano Vianna de Volta ao WordPress

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Aos leitores que gostam de textos provocadores, trago a boa notícia. Depois de um hiato de dois anos, Hermano Vianna está de volta com seus escritos em sua página no wordpress. Vejamos até quando ele terá paciência para seguir postando.  Vim a conhecer melhor o wordpress e decidi por criar meu blogue depois de vê-lo replicando suas colunas de O Globo, durante os 5 anos em que foi colaborador do jornal carioca, por aqui. Queria também escapar ao espírito sovina do Facebook, que fatura alto sem pagar um centavo ao menos às almas ingênuas que passam seus dias produzindo conteúdo gratuito para a rede social. Nem o youtube do Google pratica esta forma de rapinagem. Longe do condomínio fechado do FB, estamos também a salvo do humor daqueles que passam seus dias destilando rancor e ódio.

Hermano anda preocupado com a tal da inteligência artificial. Eu confesso que pouco sei sobre o assunto e muito menos sobre suas implicações em nosso futuro. Por enquanto sigo surpreso, e, para ser mais preciso, abismado, com o seu antípoda: uma certa estupidez que se manifesta de forma naturalíssima. Como diria Nelson Rodrigues, além do universo, temos aí mais um item que se encontra em franca expansão espaço afora.

 

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Screen Test # 1

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35 Anos de Ana Carolina Pereira Landi

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