GregNews Tá no Ar Servindo Humor Consequente

A graça refinada e informativa de Duvivier contra a praga dos doidivanas obscurantistas

1o. Episódio: GregNews Temporada 2018

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Brutalidade sem Fim

marielle-001Ao lado de outros 45 mil eleitores da cidade do Rio de Janeiro, tinha na vereadora Marielle Franco a minha representante na Câmara Municipal. A aposta em sua candidatura vem da crença de que uma verdadeira democracia passa obrigatoriamente pela necessária abertura de espaço para vozes bem diferentes da minha. Vozes de pessoas que não gozaram das mesmas oportunidades das quais usufruiu e que tenham visões e experiências de vida diversas da minha. É claro que esta escolha não foi aleatória, já que Marielle trilhou um caminho em que acredito que é o do investimento em estudos e em formação pessoal como objetivos maiores e fundamentais de nossas insignificantes existências, pouco importando as dificuldades que isto venha a acarretar e independentemente dos resultados imediatos que possa trazer.

Tomei conhecimento e fui entusiasta de sua candidatura por causa do deputado estadual, e nas eleições de 2016 candidato a prefeito, Marcelo Freixo. Freixo tem sido um batalhador incansável por causas importantíssimas de ordem humana que infelizmente orientam as práticas de um número bem reduzido de nossos políticos. Tem assumido riscos incontáveis enfretando as milícias que assolam o Rio de Janeiro, particularmente a bandidagem que em muitos casos surge associada ao poder público. O assassinato de Marielle tinha em meu entender a intenção de intimidar todas as iniciativas humanitárias e de luta nas quais esteve envolvida com Freixo e de atingi-lo indiretamente. Depois de perder um irmão assassinado, o deputado está tendo de encarar mais um revés com a perda de uma dedicada parceira.

Coleciono uma lista grande de divergências com o PSOL, bem como com todos os outros partidos (PDT, PSDB, Rede, PPS, PCdoB, PT), mas nem por isso fecho os olhos e deixo de enxergar e valorizar a prática de políticos que participam e estão envolvidos em lutas fundamentais em todas essas legendas. Assim foi com Marielle e assim é e sempre será com Freixo, Chico Alencar, Randolfe Rodrigues, Alessandro Molon, Eduardo Suplicy, Cristovam Buarque, Manuela D´Ávila, Maria do Rosário, Roberto Freire, para citar alguns daqueles com quem mais simpatizo (observado obviamente o direito de divergir em questões específicas de todos eles).

Nas redes sociais surgiram as campanhas difamatórias e as manifestações mais hediondas já vistas para com Marielle. Um show de notícias falsas, mentirosas e de material produzido com a única finalidade de atacar o que a vereadora representava e desqualifar sua importantíssima atuação política. Tudo feito por gente da pior espécie imaginável. Os cidadãos cariocas, fluminenses e brasileiros, especialmente aqueles que acreditam nas ideias defendidas pela vereadora, só cobram uma única coisa: que os assassinatos bárbaros e brutais de Marielle e do motorista Anderson Gomes sejam esclarecidos prontamente.

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Blitz Feminina no Xadrez On-Line

Se o xadrez é um jogo fascinante, ele apresenta, entretanto, um gravíssimo problema: é um território dominado pela estreiteza obtusa da razão masculina. Por obra e graça da sensível inteligência feminina isso tem mudado. Para os que o encaram como uma diversão resolvida por uma jogada infeliz de um dos oponentes, uma partida de xadrez rápido pode ser bem mais interessante do que os jogos pensados que levam 5 horas para chegar ao fim. Anna Rudolf e Alexandra Botez oferecem a estes o melhor entretenimento jogando “hand and the brain” (uma escolhe a peça, a outra faz o movimento e as duas comentam como estão se saindo) em seus confrontos contra adversários em jogos em modo blitz.

Gente como o Grande Mestre americano Hikaru Nakamura, um dos jogadores americanos a aparecer entre os dez primeiros do raking da Federação Internacional de Xadrez (FIDE, do francês Fédération Internationale des Échecs), que aceitou o desafio de enfrentar a dupla Rudolf/Botez  em transmissão ao vivo. Anna é uma Mestre Internacional (categoria abaixo de Grande Mestre), húngara de nascimento, mas vive na Espanha de onde realiza suas transmissões. Botez ainda está na categoria de Woman Fide Master (ou WFM, posto abaixo ao de Mestre Internacional), e um dia chega lá. Anna Rudolf tem canal no Youtube. Para acompanhar Alexandra Botez, no entanto, é preciso se inscrever em seu perfil no Twitch.tv (o Twitch gera notificação via e-mail quando ela está on-line). Canadense, Botez faz o seu streaming a partir da Califórnia.

Rudolf/Botez vs Nakamura

  Botez/Rudolf vs Nakamura

Ao lado delas, outra forte personalidade feminina no mundo do xadrez é Fiona Steil-Antoni. Mestre Internacional, como Anna Rudolph, Fiona também possui seu canal no youtube, o Fionchetta. Ela está participando como comentarista do aberto de Reiquiavique, torneio que acontece até o dia 14 de março na capital da Islândia e que faz homenagem a Robert James Fischer. A Islândia foi o único país a dar acolhida a Fischer até os seus últimos dias.

Fiona a caminho da Islândia

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“Mormaço Queima” no SpliceToday

AFE e seu “Mormaço Queima” já foram identificados pelos radares de Noah Berlatsky e do SpliceToday, daqui a pouco o resto do mundo também vai saber da novidade

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Onde Foi Parar a Porcaria do Cinto Nesta Espelunca?

Captura de tela inteira 02032018 165757.bmpQuando não acham algum item de suas vestimentas pela manhã, os pobres mortais se limitam a ficar fulos da vida. Se isso acontece em um lugar em que os primeiros raios de sol no inverno só dão as caras às 10h da manhã e às 4h da tarde já estão indo embora, o sentimento pode se elevar a milésima potência. Especialmente, se a última lâmpada do apartamento queimou e não há outra para substitutuí-la. No entanto, quando isso acontecia com Mark E. Smith, enquanto ele se preparava para ir ao seu escritório de trabalho – que ficava no pub mais próximo do mini-flat que dividia com Brix na Rectory Lane em Manchester – ele aproveitava a oportunidade para fazer, em parceria com sua mulher, uma música. As interferências sonoras no meio de “No Bulbs” são pra garantir que o Fall não corria o risco de ter um sucesso comercial. Está em “The Wonderful and Frightening World of…”, de 1984.

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O Aterrorizante Mundo de Walt Disney

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Diante da insistência de Brixie para que conhecesse um de seus lugares prediletos em Los Angeles, Mark Smith acabou cedendo e aceitando visitar o famoso parque de diversões da Califórnia. Na hora de embarcar na montanha russa de Matterhorn (reprodução do Monte Cervino dos Alpes italianos), um dos briquedos favoritos de sua mulher, com quem havia casado há pouco, Mark ficou em estado de choque. Entrou assustado, maldizendo a atração e saiu transfigurado do passeio. Um pouco depois, os dois sentiram uma movimentação anormal da equipe que cuida da segurança do parque. Tentaram saber do que se tratava, mas o desorientado Mickey, que encontraram no caminho, não ajudou em nada. No final da tarde na casa dos avós paternos de Brix, o noticiário televisivo esclareceria tudo: uma mulher tinha sido lançada longe pelo Matterhorn durante o passeio, entrando para o quadro de fatalidades do parque de diversões. Mark acabaria exorcizando todo o seu horror à atração californiana em um poema escrito para uma música belíssima de Brix em que narra o incidente. Não fosse a crueza do relato de seus versos, “Disney´s Dream Debased” talvez tivesse se transformado em uma das músicas do Fall a melhor conseguir se colocar na parada musical inglesa.

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O Mormaço de Estreia da Anuska

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“Mormaço Queima” na Bandcamp (ouça/compre aqui)

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Parabéns, Bebelu

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Bebelu, Rosamundo Distraído e Fiteco

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Bebelu e Fite

Isanuptera e Dedeco

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Milcíades, Cid Sá Freire, Cidão

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Era uma pessoa gregária. Tão gregária que a decisão de ter 5 filhos nunca lhe pareceu um tanto quanto extravagante. O grande número de pessoas que sempre quis se cercar se estendia aos muitos amigos, namorados e namoradas de suas filhas e filhos, que se reuniam e mesmo dormiam, sem cerimônia alguma, em seu apartamento que, ainda que tivesse uma boa metragem, possuía apenas 3 quartos. Muito certamente isto se dava por serem bem-recebidos e sem quaisquer restrições ou formalidades. Além do almoço, em que os sobrinhos compareciam com frequência, o religioso lanche do final da tarde poderia reunir umas 20 pessoas que se revezavam na mesa da copa como se tudo fosse corriqueiro.

O mesmo se repetia com seus amigos particulares. Sempre teve muitos colegas de trabalho que convidava para irem à já superlotada casa de sua família em Petrópolis (onde nós passávamos o verão com nossos tios, primos e uma infinidade de agregados) e à sua fazenda em Silva Jardim, esta de sua propriedade com seu pai e outros dois de seus irmãos. Com seus companheiros de quarto, que conheceu durante o curso de engenharia agronômica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no começo da década de 1950, manteve contato em encontros que faziam com que se vissem pelo menos uma vez ao ano.

Cidão e as crias

Assim que se formou, foi trabalhar na Escola Agrícola Caetano Costa em Lajes, Santa Catarina. Quando embarcou em direção ao sul, já havia se casado em 1956, e logo teria sua primeira filha, Márcia, nascida um ano depois no Rio.  Enfrentou com minha mãe um frio dos diabos em Lajes, temperaturas próximas de zero grau e até mesmo neve. Tinham de passar a roupa de cama a ferro antes de dormir. Por lá nasceriam mais dois de seus filhos, minha irmã Margarida e eu. De Lajes, seguiria para Belo Horizonte, onde nasceu Isabela, sua terceira e última filha, e, de volta ao Rio de Janeiro, ainda conseguiria tempo para outro filho homem, André.

Da experiência na escola agrícola passou à gerência do Banco da Lavoura em Minas Gerais e depois trabalharia ainda no Bemge, em sua sede no Rio, antes de entrar para a Vale do Rio Doce. Como último passo de sua carreira, passaria a atuar em cargos administrativos do governo federal em Brasília. Paralelo a isso, veio a sua fase do que chamamos hoje de empreendedorismo.  É um momento que eu conheço pouco, pois ele nunca conversou em detalhe sobre o assunto em casa, mas que acho fascinante.

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Uma de suas apostas foi como acionista no lançamento do primeiro iogurte brasileiro, o YOG. Não me pergunte como e onde nasceu a iniciativa, porque não faço a menor ideia. É verdade que a vida inteira meu pai criou gado leiteiro e o leite tirado na fazenda em Silva Jardim era recolhido todo o dia bem cedo por um caminhão que o levava até a unidade de pasteurização da CCPL em Alcântara. A empresa que lançou o YOG, no entanto, não tinha nenhuma relação com isso. Talvez só o interesse por um produto com o qual sempre esteve envolvido.

O iogurte era feito com poupa de fruta trazida do exterior, processada e acondicionada em uma muito simpática embalagem, ecologicamente correta, fabricada com celulose. A marca YOG para fins propagandísticos era grafada com as cores do arco-íris e os vários sabores embalados com a coloração correspondente a cada fruta. Foi engraçado quando ele chegou certa vez na fazenda em uma de suas duas Brasílias (tinha uma branca e outra verde) com engradados empilhados com iogurtes de morango, ameixa, pêssego, natural.

Para divulgar o produto, foram confeccionados macacões que todos nós usaríamos. Havia a febre por causa dos macacões jeans das marcas Lee e Levi´s, mas os da YOG eram brancos com o símbolo do produto estampado no bolso da frente. Tínhamos ainda caixas de isopor para acondicionar unidades, também com o logo do produto, assim como outros itens de divulgação.

A classe média recorria naquele tempo a figura do decorador. O lá de casa era o seu Ivo, pessoa que dizia à minha mãe que móveis comprar e como decorar o apartamento nos mínimos detalhes. Lembro que quando uma campanha de TV foi aventada, o seu Ivo sugeriu que exibissem o logo do YOG (não sei se apenas isso ou se com o manjado “vem aí, aguarde”) durante o intervalo da programação, para despertar o interesse dos telespectadores.

A segunda iniciativa veio com a empresa Eletro, que ficava em Botafogo, e que importava artigos eletrônicos a partir de Manaus para serem montados aqui no Rio. Era deles um toca-fitas de carro que funcionava que era uma beleza e que equipou vários dos automóveis que passaram por nossa garagem: além das Brasílias, um Maverick de capota preta, Opalas (azul e vermelhão de capota preta) e um Dodge Dart.

Era também uma pessoa generosa. Desapegado, como diríamos hoje. Dinheiro existe é pra se gastar, era o seu lema. Em Petrópolis, quando o sorveteiro subia a rua Professor Ströller no Quarteirão Brasileiro soprando sua corneta, já vinha sabendo da parada obrigatória no portão de número 272. Descansava a caixa térmica carregada de sorvetes e aguardava. Todos que estivessem em casa eram então convocados para escolherem o sorvete que desejassem. No final ele vinha com a carteira e pagava a conta.

Quando entrou para a Vale do Rio Doce, achou que tinha a obrigação de empregar todos os seus conhecidos na empresa. Não sossegou enquanto não fez isso com muitos de seus amigos (especialmente, por mera coincidência, com os maridos de suas sobrinhas). Alguns trabalharam lá a vida inteira e se aposentaram na Vale, no Brasil e até mesmo no exterior.

Adorava viajar, e o cargo de diretor da Vale do Rio Doce o levou ao mundo inteiro. Não havia país que não conhecesse. Os presentes chegavam de tudo quanto é lugar. Um despertador Casio japonês, que me acordava para ir para o Colégio Andrews da Praia de Botafogo toda manhã, uma camiseta vermelha com o nome da cidade de Honolulu grafada em branco, que adorava, e um tênis Adidas alemão, preto com listras vermelhas, entre outras lembranças.

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A partir de 1979, foi convidado para ser assessor de figuras importantes de Brasília pois já tinha tido uma passagem no Rio pelo Ministério da Fazenda. Em seu apartamento funcional na SQS 309 continuou a receber amigos, irmãos, sobrinhos, com a mesma boa vontade e alegria de sempre. Adquiriu também um sítio entre Sobradinho e Taguatinga onde fabricava artesanalmente queijo frescal para ser vendido em Brasília. Ficou por lá e depois em Valparaíso de Goiás até próximo do fim da vida. Como era muito desorganizado e pouco precavido em relação a tudo, acabou destituído de todos os seus bens e sem conseguir uma aposentadoria mínima para seu sustento. Separado de minha mãe alguns anos depois de se mudar para Brasília, teve, em razão de sua situação precária, de voltar a morar conosco no Rio. Um ataque cardíaco o levou em 2006. Hoje faria 85 anos.

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Não Confundamos Alhos com Bugalhos, nem Virtuosos com Pilantras

O assunto já ficou ultrapassado, especialmente depois que Élio Gaspari, Demétrio Magnoli, Gregório Duvivier e outros colunistas, bem como vários editoriais de jornais, mostraram o escárnio que representa o tal do auxílio-moradia como tem sido usado por nossos  magistrados. Segue, portanto, menos por seu conteúdo-manifesto e mais por questões estilísticas bobas (os blogueiros também têm suas veleidades subliterárias) às quais talvez volte um dia.

Não dá mesmo pra confundir alhos com bugalhos, como bem salientou o colunista Merval Pereira. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente. Cada qual, por sua vez, é único na maneira muito particular como encara o que julga como seus direitos, obrigações, deveres, e como reflete isso em suas atitudes. Tem, por isso mesmo, o seu jeito distintivo de ser. Chega-se assim à conclusão de que um virtuoso, um probo, um íntegro ou mesmo um pilantra, um bandido, um impostor, não pode e não deve ser confundido com outro virtuoso, probo, íntegro ou pilantra, bandido, impostor.

Vejamos por exemplo os casos dos senhores Sérgio Fernando Moro e Luiz Inácio Lula da Silva. Cada um deles tem mostrado que é sagaz a seu modo e maneira. Comungam apenas no desejo de recorrer, um, à bolsa da Viúva, e o outro, ao bolso dos associados desta, sem ceremônia, sem constrangimento, sem escrúpulos. Na hora de fazê-lo, no entanto, cada qual age distintamente, aplicando artimanhas singularíssimas. Um é partidário do tapinha nas costas e das conversas de quermesse. Já o outro, não, mais comedido e reservado, se restringe a acompanhar a maioria de seus confrades de toga para fazer valer o que é moralmente condenável.

Assim, no país dos sem-teto, do bolsa família que mal dá pra pagar um almoço, da aposentadoria com valor máximo de 5 mil reais, o juiz Sérgio Moro recebe, só de auxílio-moradia, a irrisória quantia de 4,300 reais, o que lhe é garantido por lei (o direito brasileiro, como se vê, é uma mãe para aqueles que estão ao seu lado). Se empenha essa quantia para outros fins em lugar daqueles aos quais ela é destinada, isto pouco importa. Não cabe, por sinal, ao magistrado, homem da lei, dos direitos, dos deveres, prestar esclarecimentos sobre isso a ninguém, à exceção daquela à qual alguns insistem em chamar de justiça.

Segue, em função disso, com sua missão que é a de fazer com que malfeitores justifiquem seus atos perante a sua pessoa, sem rodeios, sem conversa fiada. Muito sensato, muito lógico. O que nos faz pensar se não caberia ao Lula perguntar se por acaso o senhor Moro teria guardado em casa todos os comprovantes de aluguel de que dispõe.

Quem sempre viveu com bem pouco, deve, imagino, achar que um salário de 30 mil reais, no Brasil de hoje, seja algo por si só estrambótico, esdrúxulo, excêntrico. Com penduricalhos que chegam ao patamar dos 100 mil ou mais em um mês, tudo passa a ser matéria de sonhos tenebrosos de ganância a nos lembrar o Ali Babá e seus 40 ladrões em passagem das “Mil e uma Noites de Pilantragem”. Ao que tudo indica, estes, no entanto, são valores que não assustam uma casta privilegiada da sociedade brasileira.

O país que já contou com exemplos de magistrados como um Raymundo Faoro (por ironia, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores), autor de um livro belíssimo sobre Machado de Assis entre outras obras fundamentais sobre o Brasil, vive hoje de venerar pessoas extremamente rasas em suas ambições e avaliações sobre o que lhes cabe. Certa vez vi no jornal um texto, muito bem escrito por sinal, do senhor Sérgio Moro. Texto em que ele citava Rui Barbosa. Na minha inocência, fiquei a imaginar que viria algum comentário sobre a tão refinada, ainda que empolada, estilística barbosina. Mas nada disso, ele recorria ao Águia de Haia como mera formalidade para justificar que juízes não podem sofrer sanções por interpretar a lei segundo suas consciências. Foi tudo o que ele conseguiu extrair da retórica do jurista baiano. Espero que o mesmo valha para os julgamentos dos cidadãos brasileiros em sua interpretação sobre as atitudes de juízes, magistrados e demais integrantes da judicatura.

Ao que tudo indica, a razão é que seu interesse acadêmico é mais centrado em saber como se faz para roubar sem ser pego. Por isso, ele esteve na Escola de Direito de Harvard para uma especialização durante um curtíssimo espaço de tempo. Foi conhecer em detalhe como vivem os bandidos e como fazem para esconder fortunas que resultem de falcatruas. Acho que é uma obsessão sua. Tudo, bem entendido, pago com dinheiro do contribuinte. Pois se existe uma classe de privilegiados para darem continuidade aos seus estudos com farta ajuda e paparico do Estado (licença com vencimentos, ajuda-livro, cursos pagos pelo erário), esta classe é a dos magistrados.

Na República dos Bruzundangas, o juiz de Curitiba segue posando com pompa e circunstância como arauto-mor da moralidade. Mas isso é compreensível, já que, como todos sabemos, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente.

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