Saindo a edição artesanal de meu livrinho “O Lacan da Lapa e Outras Histórias”. Aos assinantes interessados em ter a sua cópia, pede-se que mandem mensagem por e-mail com endereço e CEP. O livrinho será enviado à sua residência sem custo algum. Cortesia de fim de ano deste blogue. Boas entradas e um excelente ano de 2019 para todos.
A teoria do mais velho de meus dois sobrinhos, músico por formação, é que John Lennon é sempre melhor e mesmo insuperável com John Lennon. Apesar disso, vale a pena abrir espaço com alguma condescendência para a versão de Miley Cyrus para uma das célebres composições do inglês de alma nova-iorquina. A licença acontece porque Miley Cirus se encontrou como cantora e vem acompanhada pelo queridinho da Carolina Landi, Sean Ono Lennon.
Foi o ano da consagração definitiva do surfe brasileiro. Das onze etapas da Liga Mundial, nove foram ganhas por atletas brasucas e Gabriel Medina fechou a temporada vencendo finalmente, depois de ser vice por duas vezes (em 2014 e 2015), a rodada mais cobiçada do circuito, o Pipe Masters, disputado em Banzai Pipeline, costa norte da ilha de Oahu no Havaí. O mais importante feito de Medina, no entanto, foi o bicampeonato Mundial, sendo o primeiro brasileiro a gozar desta honraria. Também fizeram bonito Filipe Toledo e Ítalo Ferreria (3o. e 4o colocados em todo o tour), além de Willian Cardoso, Michael Rodrigues, Adriano de Souza e Yago Dora, que ficaram entre os 22 melhores ranqueados, garantindo assim vaga para a temporada de 2019.
E tivemos também Jessé Mendes, faturando a tríplice coroa havaiana depois de ser vice na praia de Sunset e conseguir ficar melhor posicionado no Pipe Masters, superando assim Joe Parkinson (o outro candidato ao título). Dando mais força ao swell da Brazilian Storm, Peterson Crisanto e Deivid Silva passaram pelo qualifying e também estarão no tour do ano que vem. O novato Mateus Herdy, de apenas 17 anos, que acabou em segundo lugar atrás do veterano Joe Parkinson no Hawaii Pro, segundo evento da tríplice coroa havaiana (o terceiro é o Pipe Masters), se sagrou de qualquer jeito o campeão Mundial Pro junior e é uma promessa para o ano de 2020.
As ondas de Pipeline estão entre as mais fotografadas do planeta, contemplá-las já é um passatempo e tanto, mas ver o que Gabriel Medina, “cool as a cucumber” segundo os narradores da WSL, faz com elas, bem como Kelly Slater, que aos 46 anos chegou à seminfinal, é de surpreender qualquer um.
Fora da água, Medina tem ainda mostrado maturidade profissional aliada a responsabilidade social. Um surfista como Filipe Toledo, por exemplo, optou por fazer carreira fora do Brasil e vive, ainda que modestamente com todos os familiares na mesma casa, na California. Medina escolheu seguir por aqui mesmo e abriu em 2017 o seu instituto em Maresias, onde recebe crianças com aptidão para o esporte para praticarem natação, ginástica, inglês e surfe, naturalmente, com vistas a prepará-los para competirem. Detalhe fundamental: tudo feito com o apoio de empresas que acreditam na iniciativa.
Há dois anos estava em Geribá, Búzios, em janeiro, e por lá apareceu o padastro de Medina, Charles Saldanha, que acompanhava atletas que competiam em provas para iniciantes. Toda a entourage de Medina parece portanto estar se dedicando ao projeto. Quando possível, o próprio Medina afirma fazer questão de treinar nas instalações de sua academia, situada de frente para o mar e próxima à sua casa, para estar ao lado dos atletas novatos, mostrando a importância de uma boa preparação. Outro que mantém raízes fortes por aqui é o potiguar Ítalo Ferreira. Ainda que não tenha alcançado a projeção de Medina, apesar de ter ganho 3 das etapas do circuito esse ano, retorna sempre à sua cidade natal, Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, em qualquer brecha do tour.
A turma do “broadcast yourself” realizou uma cobertura abrangente de todas as competições que aconteceram no Havaí neste mês de dezembro fechando o calendário do esporte. O canal Off entrou ao vivo com drone e câmeras na praia levando os interessados pelo esporte a poder acompanhar as competições e seus bastidores de perto. Os canais Woohoo e Série ao Fundo também ajudaram com imagens e coberturas exclusivas e fora das transmissões da WSL, embora precisem entender que a instantaneidade da comunicação pede imperativamente hoje as “lives”. Vejamos como eles se saem em 2019.
Redes socias (através do twitter oficial dos Buzzcocks) e a mídia digital (na página do New Musical Express) anunciam a morte, hoje pela manhã, na Estônia, onde vivia, do queridíssimo Pete Shelley. Tinha 63 anos apenas e sofreu um ataque cardíaco ao que tudo indica. Além da carreira à frente dos Buzzcocks, fui entusiasta de suas investidas solo. Cheguei a vê-lo com os Buzzcocks em 1995 na rua Ceará (ou Searattle, como preferia a nação grunge de então) entre a Praça da Bandeira e a região do Mangue. Pete Shelley e Steve Diggle chegaram para o show espremidos com sua entourage em uma van. Desembarcaram na porta da especulanca em que não cabiam 100 pessoas e fizeram um showzaço. No Rio, viriam em uma segunda oportunidade em 2001 para mais uma apresentação, desta vez no Cine Íris. Essa, infelizmente, só pude ver em um especial da DirecTV (programadora favorita da época).
Depois da interrupção da trajetória dos Buzzcocks para arriscar uma carreira solo, Pete Shelley voltaria sempre à ativa com seu grupo de toda a vida de forma improvisada como pede o espírito de toda banda punk. Em 2014, lançaram o álbum “The Way”, com a mesma pegada característica. Fizeram seu último show no dia 25 de agosto em Belfast, na Irlanda do Norte. Vai deixar muita saudade obviamente. Os dois primeiros álbuns dos Buzzcocks estão programados para sair em uma edição de aniversário de 40 anos em janeiro de 2019.
Se não falham as contas, foram sete os shows de Morrissey aos quais tive a chance de comparecer. Tudo começou em 2000, no Rio de Janeiro com uma apresentação naquele que já foi chamado de Metropolitan (por duas vezes), Credicard Hall e que naquela época atendia pelo nome de ATL Hall (posteriormente, Claro Hall). Hoje carrega um nome horripilante que é melhor não citar. Teve ainda um no Brixton Academy, em 2011, em Londres, que teria repeteco no Citibank Hall de SP e na Fundição Progresso, no ano seguinte.
Os registros de fãs no site Setlist.fm ajuda a ver como os concertos de Moz já se mostraram bem mais generosos. O de 2015, que marcou a sua volta depois de ter enfrentado bravamente um câncer de esôfago, foi disparado o mais farto. As apresentações no Rio e em São Paulo, naquele ano, superou outra ocorrida dois meses antes em um teatro mitológico pra mim, o Hammersmith Odeon (que alguns hoje, santa blasfêmia, teimam em chamar de Eventim Apollo). Sexta passada, na Fundição Progresso, o show não estava tão cheio e nem tão quente (em sua temperatura ambiente, bem entendido) quanto o de 2012, o que se mostrou um alívio para o público. Entre os presentes, o filósofo Roberto Machado que acompanhou a apresentação com o maior interesse. Era a primeira vez que o aluno de Michel Foucault via Moz no palco. Adorou.
A Semana marcou o encerramento em Londres do Campeonato Mundial de Xadrez em que o ítalo-americano Fabiano Caruana (que tem dupla nacionalidade, mas passou recentemente a participar de torneios com sua cidadania estadunidense) empatou como desafiante sua série de 12 partidas de xadrez convecional (pelo menos 100 minutos de jogo para 40 jogadas) contra o atual campeão do mundo Magnus Carlsen. Depois disso, perdeu feio no xadrez rápido de 25 minutos. Três vitórias de Magnus em uma melhor de 4 partidas. Carlsen segue portanto como o melhor enxadrista vivo ainda que seu jogo não encha os olhos deste observador-palpiteiro que prefere o brilho das partidas de outros mestres (especialmente Morphy, Capablanca, Tal e Fischer). Magnus ganhou pela primeira vez em 2013, quando derrotou sem problemas o indiano Vishy Anand. Manteve o título de novo com boa vantagem ao ser desafiado pelo mesmo Vishy em 2014 e, por fim, venceu apenas na fase do xadrez rápido o russo Sergey Karjakin, em 2016. O norueguês fez seu costumeiro jogo retranqueiro contra Caruana, que só teve uma única chance de vitória no sexto jogo. Deixou escapar a oportunidade, no entanto, em um fim de jogo difícil em que mesmo GMs com auxílio de computadores não enxergaram com clareza o caminho que levaria à vitória. O resumão do evento fica por conta da uma amiguinha de Internet, Fiona Steil-Antoni, que acompanhou tudo e fez duas postagens sobre o campeonato em seu vlogue.
Estamos no meio do caminho de uma melhor de 12 partidas iniciada dia 9 de novembro e com encerramento no dia 28 deste mês. São jogos de 1 hora e 40 minutos para as primeiras 40 jogadas, depois mais 50 minutos para os próximos 20 movimentos e ainda 15 minutos para o restante do jogo. Todas as fases com acréscimo de 30 segundo por movimento de cada jogador, o que pode resultar em jogos de até 7 horas de duração. A persistir o empate no xadrez clássico, seguimos para o modo rápido de 25 minutos (4 partidas) e, finalmente, rodadas blitz de 5 minutos (5 pares de 2 partidas cada).
No jogo de número 6 da última sexta-feira, disputado no The College, em Holborn, Londres, cidade em que está acontecendo o evento, tivemos o momento em que o desafiante Fabiano Caruana (2o. do mundo com 2832 de pontuação FIDE e o primeiro americano a participar da disputa do Campeonato Mundial desde Robert Fischer) perdeu a chance de colocar Magnus Carlsen (com 2835 pontos de classificação), campeão e primeiro colocado no mundo desde 2013, em zugzwang e deixou escapar o caminho para um mate que nenhum dos dois enxergou. Carlsen perdeu uma chance de pontuar no primeiro jogo e agora foi a vez de Caruana. O Campeonato segue com todas as partidas empatadas até aqui e com a 7.a rodada a partir das 14 horas de hoje.
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.