Raimundinha Viramundo

Faz um bom tempo que não publico um texto ficcional. A leitura de “Torto Arado” (Todavia, 2019), me fez lembrar de um conto rodriguiano que escrevi há uns dois anos. Trata-se de uma narrativa que traz uma perspectiva oposta a da história fabulada por Itamar Vieira Junior. Apesar desta aparente distância, a protagonista do conto, Raimundinha, bem como seus irmãos e familiares, guardam parentesco estreito com as irmãs Bibiana, Belonísia e sua família. Como uma outra semelhança, um riacho ferruginoso corta tanto as terras da fazenda Água Negra, de “Torto Arado”, quanto a propriedade de Sossega o Facho, de “Raimundinha Viramundo”. Se os traços da vegetação distinguem e cuidam de opor o semi-árido das cercanias da Chapada Diamantina da obra do autor baiano com a Mata Atlântica de terras fluminenses presente neste conto, o período das narrativas, anos 1950/60, volta a avizinhar os dois enredos.

Deoclesiano David Afulo de Graça Filho era um célebre empresário da alta sociedade carioca. Tinha uma mansão de dois andares na Urca, luxuosa, fina, vistosa, e um renomado escritório comercial no centro da cidade. Frequentava o Iate Clube do Rio de Janeiro, onde gostava de ir para espairecer vendo o cair da noite. Isso quando não partia para as laranjeiras para assistir a seu filho mais velho, Deoclesiano Neto, jogar pelo Fluminense, seu clube do coração. Na torcida pelo Fluminense Football Club destilava todas as chateações do dia enquanto via o scratch tricolor, que tinha o Deoclesiano Neto como maior craque e goleador do time, dar suas botinadas. Era um torcedor fanático, apaixonado, doente e, como em tudo, estourado. Daqueles que xingam jogadores e juízes com vontade o tempo todo.

Para fugir dos aborrecimentos da cidade grande, tratou de dar vazão a uma doce nostalgia campestre que sempre alimentou e que acabou se concretizando na aquisição de uma fazenda à qual deu o nome de Sossega o Facho. Era o lugar em que passava os finais de semana, quando o tempo não favorecia uma das prazerosas incursões náuticas com alguns de seus quatorze filhos em um dos barcos da família. A fazenda era também o lugar para onde despachava a mulher e os filhos menores quando queria ter um pouco de paz durante as férias escolares.

A Sossega o Facho, com seus muitos hectares de terra, era dedicada à criação de gado leiteiro e ficava perto da Serra do Passa Fora, adiante, mas bem adiante mesmo, da cidadezinha de Jesus Cruz Credo do Mato Alto. Ali, quase na divisa com o município de Nossa Senhora do Deus nos Acuda. A casa foi construída no alto de um platô e era alcançada por uma estrada de terra batida que serpenteava o morro em cima do qual a sede da propriedade repousava solene, soberba, imponente. Dava de fundos para uma floresta de Mata Atlântica e lá embaixo havia um prado, cortado por um córrego, que servia de pastagem aos animais. No limite direito do pasto, se situava o estábulo.

Além do gado leiteiro, que ficava sob a responsabilidade de um capataz e seu ajudante, havia o cultivo de árvores frutíferas, hortaliças, leguminosas, todas entregues aos cuidados de seu Jeromildo, um Jeca Total típico, sempre descalço, com a calça dobrada até a canela, o chapéu de palha e o cigarro de fumo de rolo no canto da boca, de um preto retinto à toda prova. Era casado com dona Rosinácea. Assim como o marido, negra como a escuridão da noite. Viviam em uma casa simples com água potável, que tiravam de um poço artesiano, iluminação de lampião de querosene, uma fossa ao fundo e, próximo ao casebre, um roçadinho.

A riqueza deles era o cultivo da roça de feijão, milho, abóbora, mandioca, inhame, cará, batata inglesa, do qual a família cuidava com toda a dedicação possível e onde colhiam seus alimentos para o dia-a-dia. Estavam indo para o oitavo rebento e na expectativa com o nascimento de Raimundinha que vinha de uma gravidez complicada que todos achavam que não fosse vingar de jeito nenhum. Dona Rosinácia ficou a imaginar, durante toda a gestação, que iria perder a menina a qualquer momento. Tanto assim que chamou a conhecida Robertina, uma parteira da cidade, para ajudá-los.

Apesar disso, a coisa foi feia. Na noite em que sentiu as primeiras contrações do parto, chovia horrores. Raios, trovões, relâmpagos, o diabo, como que a anunciar o fim dos tempos. Tudo metia medo, especialmente no caso de dona Rosinácia que era religiosa e muito supersticiosa. Foram buscar Robertina às pressas na cidade e ela, depois de muita luta, entregou aquela menininha à sua mãe. Chegou miudinha ao mundo e padecente das piores sequelas de um parto difícil. Um fiapo de gente, parecia que não ia sobreviver.

O tempo, no entanto, foi passando, e Raimundinha, por quem todos tinham uma atenção especial, acabou mudando de garotinha franzina para uma criança como outra qualquer que brincava como todas as meninas de sua idade. Como vivia no mato, tinha gosto por se entreter com tudo quanto é bicho. Criava seus passarinhos: canário, azulão, sabiá, galo-da-campina, coleiros e se distraía vendo os tiês, anus-pretos e brancos, saracuras, sanãs, jacus e ainda outras variedades da fauna como os micos-leões-dourados, os tatus, as cutias e as cobras que a encantavam. Impressionante a graça que achava das muçuranas, sucuris, urutus, cotiaras e mesmo de uma das mais traiçoeiras, a cobra coral, que exercia grande fascinação sobre a menina.

Em sua inocência de garota, achava todos os bichos, mesmo os mais peçonhentos, bonitinhos e simpáticos. Implicava era com as maldades que os garotos aprontavam com os pobres daqueles que ela tinha como seus amiguinhos. Quando ficou mais fortinha passou a se desentender com os meninos que se entregavam às suas travessuras de criança matando passarinho com estilingue, cortando rabo de calango, caçando preá do mato. A reação de Raimundinha era às vezes desproporcional. Certa ocasião, acharam que ela iria matar um garoto que dera fim a uma rolinha que ficara presa em um alçapão de bambu. Bateu tanto no menino que ele passou dias se curando das pancadas que levou. Diante da situação, houve o comentário da mulher do capataz da fazenda:

– Sei não, seu Jeromildo e dona Rosinácia. Flor marvada assim de cedo já traz espinho.

E era a pura verdade. Raimundinha passou a aprontar tantas e a ser tão má com os meninos que o casal da roça resolveu consultar dona Heriteia, esposa de seu Deoclesiano, sobre o que fazer. Dona Heriteia achou então que talvez tivesse uma solução para o caso. Trazer Raimundinha para passar uma temporada no Rio de Janeiro cuidando como babá dos seus filhos menores e ajudando nos muitos afazeres de sua casa que já contava com uma legião de serviçais, é bom que se diga. Resolveu consultar Deoclesiano sobre o assunto. O marido respondeu com a delicadeza e cortesia de hábito:

– Ora, veja se não me enche a paciência, Heriteia. Faz a porcaria que você quiser e não me amola.

E assim, Raimundinha mudou de vida. Passou a viver em um mundo que desconhecia por completo, com pessoas elegantes, roupas finas, luxos impensáveis, jantares nababescos e festas, festas e mais festas. Uma coisa que estranhou um pouco é que invariavelmente os muitos casais que conheceu viviam às turras. Às vezes era a mulher que estava a infernizar e dar ordens ao marido, em outras ocasiões, o oposto. A novidade foi que, desde que Raimundinha veio morar no Rio, seu Deoclesiano mudou completamente. Passou a mandar flores para a esposa, a cercá-la de atenções, mimos e paparicos. Dona Heriteia andava nas nuvens, sonhadora, como se tivessem voltado aos tempos de namoro. Quando ia para o Iate, Deoclesiano levava ainda, e feliz da vida, diga-se de passagem, os filhos menores, o que era mais fácil agora com a ajuda da babá que a esta altura estava familiarizada com os luxos dos passeios de barco e dos lanches e jantares no restaurante do Clube.

Raimundinha era também uma outra pessoa. Se transformara em um mulherão vistoso e fazia o maior sucesso na roda de amigos de Deoclesiano. Bastava chegar ao Iate Clube para que todos puxassem conversa com ela. Um deles, o Belmiro, velho companheiro de Deoclesiano, mais entusiasmado, chegou a confessar o desejo de vir a pedir a mão de Raimundinha para se casar com ela. Falou na sua roda de amigos:

– Senhores, Raimundinha é uma princesa etíope das mil e uma noites. Se quiser noivar e casar comigo, é pra ontem. E digo mais, o casamento vai ser de véu e grinalda na Igreja da Candelária.

            Quando Deoclesiano, que andava calmíssimo, soube dos comentários de Belmiro, ficou uma arara. Disse poucas e boas para o amigo e quase partiu para encher de sopapos o pobre do Belmiro que tinha apenas se expressado de forma sincera. Naquele dia, Deoclesiano chegou em casa cuspindo marimbondo. Não demorou para que resolvesse que iria mandar o quanto antes a Raimundinha de volta para a Fazenda do Sossega o Facho. Explicou então o fato a Heriteia e pediu que ela ajeitasse tudo para dali a uma semana. Disse ainda que ele iria pessoalmente levá-la no seu carro novinho, um Studebaker Land Cruiser bullet-nose vermelho.

No dia da partida de Raimundinha, Deoclesiano fez questão de ir bem cedo ao quarto da moça para acordá-la. Bateu uma, duas, três vezes, e ela não respondeu. Continuou insistindo, e nada. A certa altura se viu como um alucinado, dando socos e pontapés na porta. Não adiantou, nem sinal da moça. Tratou então de abrir a porta como um desesperado para constatar que não havia ninguém lá dentro. Esbravejou com todos que se aproximaram preocupados com aquela confusão. A cozinheira e as arrumadeiras estavam assustadíssimas com alguém que agia como um possesso. Procura daqui, procura dali, e não se achava a Raimundinha. Deoclesiano resolveu então ir ao Iate para ver se ela não estaria por lá. Quando chegou ao clube, o rapaz do hangar informou: Raimundinha havia saído de barco ainda de madrugada com Deoclesiano Neto. Nunca mais foram vistos.   

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“When I am 64…”

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Passando Vergonha na CPI

O senador Otto Alencar dando aula

Alfredo Ribeiro e seus seguidores comentam o depoimento no Facebook

Helio de La Peña e Zé Dassilva no Instagram

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Com as Bênçãos do Zé Gotinha

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Nipo-Brasileirismo

Tenho uma coleção de primas lindas. São as benesses de se vir de uma família grande. Quando pirralho, achava, assim como meus primos, imagino, que era só uma questão de tempo para que namorasse uma delas ou, quem sabe, todas elas. Vivíamos imersos nessa doce ilusão que era alimentada diariamente pela contemplação do desfile de beldades que acontecia em todos as oportunidades em que nos reuníamos. Além das primas, havia também as amigas das primas e das irmãs. Esse, porém, é um assunto que fica para uma postagem futura.

Uma dessas primas tinha um nome que a gente poderia soletrar nabokovianamente. Ân. Ge. La. E lembrava, não a Lolita literária, mas a que povoou o imaginário do planeta a partir da popularização da personagem através dos filmes de Stanley Kubrick e Adrian Lyne. Tem, assim como as protagonistas destes filmes, cabelos e olhos claros, o que sempre chama atenção, e andava aos 16, 17 anos, de short jeans curto, blusa cropped ou amarrada na cintura, sandália rasteira e fumava com um charme só seu. Fazia o maior sucesso entre dez entre dez primos que a paparicavam carregando-a pra cima e pra baixo em passeios de bicicleta, de carro, do que fosse. Pois muito bem. É filha de meu tio Zeca (José Márcio) com minha tia Célia em um grupo nuclear que guarda paralelo com o de meus pais, pois reúne um casal com cinco filhos: três mulheres e dois homens, em escadinha com alternância idêntica. Ângela foi, assim como minha irmã Isabela, a penúltima a nascer. E há a coincidência de ambas, ao contrário de todos os outros irmãos, terem cabelos alourados.

Meu tio Zecamarcio, pai da Ângela, merece ser descrito. Era o tipo que vivia no mundo da lua, ou no seu próprio mundo, o que dá quase no mesmo. No dia de seu casamento com tia Célia, já próximo da hora de estar na igreja, não se conseguia encontrá-lo em lugar algum. Procura daqui, procura dali, e foram achá-lo debaixo do seu carro (não sei se um Citröen preto ou já o Studebacker azul de capota branca; era ainda à época dos automóveis importados) a consertá-lo. Depois do casamento, foi cultivar sua prole na rua Henrique Fleiuss, na Tijuca, bem lá no alto, em uma casa espaçosa em que você podia esbarrar com chocadeiras de ovos na sala de jantar e uma seleção de discos de 75 rotações na garagem.

Pai do VeteriMário, de quem já falei por aqui em outra postagem, tinha um sítio em que criava cavalos de raça e galinhas. Uma outra de suas paixões era a nossa música popular. Sua preferência ficava com Noel Rosa, Carmen Miranda, Almirante, Lamartine Babo, Ary Barroso, especialmente as marchinhas de carnaval. Possuía uma senhora discoteca que tia Célia, muitos anos depois, já não sabendo o que fazer com tanto disco, chamaria o caminhão da Comlurb que passava certo dia na rua, pediria ao motorista para virar a caçamba na direção da garagem, e, em seguida a dar um dinheirinho aos garis, despachar sem piedade tudo pro lixo.

Mas voltemos à Ângela, a pretendida por muitos, fossem primos, amigos, conhecidos. Pois muito bem. Um belo dia veio morar na rua Henrique Fleiuss uma família de imigrantes japoneses. Eram pouco fluentes no idioma brasileirinho, mas não demorou muito para que um dos filhos do casal se enturmasse com a turba de rapazes e moças da vizinhança que se conheciam e andavam como uma grande gangue pra tudo quanto é canto. Chama-se Toshiro Sagae e se integrou completamente com todos apesar da dificuldade com o idioma. O fato de carregar um característico sotaque nipônico em sua fala, sotaque que nunca o deixaria, não foi portanto empecilho para que se sentisse enturmado e à vontade.

Toshiro conheceu a Ângela, começou o namoro e passou a acompanhá-la como parte da família para onde eles fossem. Namoraram, noivaram, casaram e estão juntos até hoje. Tiveram três filhos: Mali, Yuli e Kenji, que, além dos nomes peculiares, não deixam de exibir seus traços orientais evidentes ainda que com toques abrasileirados. Durante a infância era até engraçado ver o japinha Kenji com o ouvido colado em um pequeno gravador que só tocava músicas de carnaval das décadas de 30 e 40. Fazia isso sob o olhar observador de tio Zeca, que, sentado na varanda da casa petropolitana de veraneio da família, tomava o seu whisky com Coca-Cola.

Toshiro acabou indo trabalhar na Vale do Rio Doce. Tinha como missão negociar a venda de minério de ferro para o Japão. Quando os japoneses descobriram que o negociador brasileiro não apenas havia nascido na terra do sol nascente como falava sua língua fluentemente, o adotaram como interlocutor privilegiado. Ascendeu na empresa e se tornou peça tão fundamental que foi designado para ocupar uma posição em um escritório da Vale na Califórnia.

Há uns vinte anos, Toshiro e Ângela moram nos Estados Unidos. Os filhos, todos criados por lá, casaram e lhes deram muitos netos. Tantos e tão distantes que não conheço nenhum deles pessoalmente. Já a paixão em estilo John Lennon de Ângela teve seus seguidores na família. Tenho um primo que está no segundo casamento com uma moça nissei e meu sobrinho mais velho namora na ponte aérea Rio-Tóquio. 

 Toshiro e Ângela com os netos Dereck, Connor, Ava e Kaylie

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A Missa Manifesto

Registro da Cerimônia no Cristo Redentor

Foi justa e tocante a homenagem ao ator Paulo Gustavo na terça-feira passada com a celebração desta liturgia tipicamente brasileira que é a missa de sétimo dia com um requinte que nunca tinha visto. Além de chamar a atenção para o descalabro dos mais de 420 mil mortos pelo coronavirus na pessoa de um artista conhecido e do qual todos se sentiam próximos, a missa serviu para prestar deferência à trajetória de alguém que atualizou o que há de melhor e mais genuinamente característico em nossa cultura cômico-chanchadeira. A escolha do Cristo Redentor como palco para a celebração com sua vista para o Rio deu um ar especial ao ato litúrgico.

Tenho fé e sou um devoto seguidor de tudo o que é propalado por Richard Dawkins, mas jamais sairia por aí suplicando às pessoas um minuto de atenção para que ouvissem as sagradas palavras de Darwin. E isso talvez se deva ao fato de que meus pais, ainda que católicos, terem sido sempre católicos café-com-leite, sem nenhum fervor religioso. Batizaram os filhos e colocaram todos para fazer o catecismo apenas em respeito à tradição familiar, sem nunca levar o assunto muito a sério. Apesar de não ter uma crença religiosa forte e de me faltar convicção na fé católica, nutro, de qualquer jeito, admiração por aqueles que encontram conforto na religião e aprecio presenciar seus rituais.

Quando garoto durante as férias petropolitanas tinha uma tia modernosa (divorciada, fumava e dirigia carro), que, no entanto, era uma católica dedicada. Pois eu costumava acompanhá-la, como se fosse um passeio, nas suas idas às missas de sábado à noite na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus em Montecaseros, aquela mesma da Editora Vozes e dos Canarinhos de Petrópolis. Fazia isso com gosto. O som dos sinos convocando os fiéis para a missa de domingo pela manhã na igrejinha de Nossa Senhora das Graças no Quarteirão Brasileiro também me agradava. Alguns tios subiam até a pequena igreja para o ritual. Por todos estes fatos, fico à vontade com a cerimônia ainda que não participe ativamente dela.

Que amigos, que família maravilhosa, tem o ator Paulo Gustavo. Déa Lúcia, mãe do histriônico comediante, acertadamente observou ao final da missa que seu filho “passou no Enem da vida”, reiterando o que havia sido dito durante a homilia pelo Padre Omar. Com sua arte, o intérprete de Dona Hermínia conseguiu, em seus curtos 42 anos de existência, movimentar o teatro, o cinema e a TV, de maneira exponencial à medida em que trilhava sua carreira. Tentem contabilizar o número de pessoas que conseguiram arranjar um ocupação e se projetar com a ajuda do ator-empresário? Um sucesso completo de um empreendedor que começou pedindo dinheiro emprestado para pagar as contas resultantes dos gastos que teve para encenar a peça que o notabilizou.

Expulso por duas vezes do Colégio Salesiano de Niterói, imagino que Paulo Gustavo teria se sentido mais em casa se tivesse frequentado uma escola como o Colégio Brasileiro de Almeida. Por lá, com algum esforço, ele no máximo conseguiria chegar à sala do professor Terdy, para nunca mais querer voltar por conta dos impropérios que ouviria do xerife da escola. Acho que só um aluno conseguiu a proeza de ser expulso do colégio. O calminho e tranquilo estudante cuidou apenas de jogar uma carteira pela janela.

Falei em postagem passada sobre os problemas das tais “escolas experimentais” que surgiram nos anos 1970. Mas houve também elementos positivos nestes projetos educacionais. Neles, tinha-se iniciação em culinária, em carpintaria, em música, e na minha 8a. série do Ensino Fundamental, às sextas-feiras, aulas de teatros que se estendiam das 10h30 até o encerramento do turno da manhã. Nada disso existia nos colégios tradicionais, fossem eles religiosos ou não e em muitos ainda não deve estar em suas grades curriculares.

Paulo Gustavo fez tanta coisa que Cacá Diegues chegou a tomá-lo por cineasta, o que ele nunca foi. O hiperativo ator não deixou no entanto de se associar a realizadores competentes (André Pellenz, César Rodrigues, Susana Garcia) que conseguiram ajudar a impulsionar o cinema brasileiro com filmes que tiveram bilheterias com recorde de público. Diegues tem predileção pelo 3o. filmes da série. Minha preferência fica com o primeiro deles, o mais precário, ainda que tenha adorado todos. A relação com a cidade de Niterói, para onde pegava barcas com regularidade para dar aulas no campus da Estácio de Sá e para participar de congressos e atividades no campus Gragoatá da UFF, explica a identificação. A ligação afetiva vem também do fato de frequentar na infância a casa de meus padrinhos de batismo, minha tia-avó Albertina (Betim para nós; irmã de minha avó materna) e meu tio Armindo, que moravam em Icaraí. Niterói foi também a cidade da rádio Fluminense FM, a Maldita, outro motivo para ter um carinho pelo lugar em que Paulo Gustavo nasceu, viveu boa parte de sua vida e que festejou com sua inventividade e talento.

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Aula com o Professor Alfredo Bosi

Sei que muitos duvidam de milagres, mas tenho a convicção que o tal do curso de escrita criativa de fato dá resultado. Com tradição extensa nas universidades americanas, e agora começando a aparecer nas brasileiras, ele tem ajudado muitos candidatos a escritor, até mesmo limitadamente talentosos, a se tornarem autores premiados. É o que eu digo para a garotada e por experiência própria: tem gente que com pouco faz alguma coisa, enquanto outros, com muito, não fazem quase nada. Não acredito em receita pra escrever e julgo mesmo que alguns conselhos talvez só mostrem sua utilidade para quem se candidata a provas como o Enem. Isso, no entanto, não quer dizer que o trabalho miudinho e constante não se traduza em acertos concretos.

O mesmo se aplica à escola. Assim como o curso de escrita criativa é dispensável para os escritores por vocação, uma instrução tradicional pode ser deixada de lado pelo aluno brilhante, tenha ele tendência para a dispersão ou seja o aprendiz pertinaz. Para o estudante viajandão, uma instituição de ensino estruturada ajuda muito. Talvez por essa percepção, solicitei à minha mãe que me tirasse de uma “escola experimental”, o colégio Brasileiro de Almeida, e me colocasse em uma instituição mais certinha: o Colégio Andrews. Hoje essa convicção está clara pra mim. Entendo assim a razão pela qual o Hermano Vianna tivesse predileção por matricular seu sobrinho no Colégio de São Bento, também uma das mais antigas instituições de ensino do Rio de Janeiro, onde os professores ganham salário de docente de universidade.

No Colégio Andrews, as aulas eram ministradas das 7h às 13h (no São Bento, elas se estendiam até às 16h), de segunda a sábado. Aquela ideia do Darcy Ribeiro, que ele tentou implantar nos CIEPs, de que aluno deve passar o dia na escola, tem aplicação universal e funciona. Ajuda aos pais que precisam trabalhar e é a forma de instrução ideal. Quanto mais tempo na escola, melhor o aproveitamento. É verdade que havia algumas idiossincrasias, mas que eram coisas daquele tempo. No Colégio Andrews da década de 1970 (entrei para cursar o Ensino Médio desta escola em 1976), por exemplo, tínhamos como parte de nossa rotina algo impensável nos dias de hoje. O professor precisava colocar no quadro negro toda a matéria de aula para que os alunos copiassem. Tirando o exercício de caligrafia, não vejo nenhuma vantagem nesta prática que sumiu com a chegada das apostilas com o conteúdo de cada disciplina.

O problema é que a presença das apostilas fez com que esse item fundamental em toda aprendizagem que são os livros sumisse das salas de aula. Para as turmas do primeiro ano de 1976, o professor Ivan, de português e literatura, solicitou que fossem comprados apenas dois livros didáticos: “História Concisa da Literatura Brasileira”, de Alfredo Bosi, e “Literatura Brasileira em Curso”, antologia de textos organizada por Dirce Riedel, Carlos Lemos, Ivo Barbeiri e Therezinha Castro. O “História Concisa” me acompanharia até o doutorado e segue sendo muito útil. Apresenta um resumo da história de nossa literatura, toda ela redigida em uma prosa fluente e estilisticamente primorosa. Traz uma pequena biografia em notas de pé de página para cada autor comentado e não deixa de alçar voo para, na tradição do melhor ensaísmo, marcar, sem maiores alardes, a posição do autor no que toca à criação literária em uma nação que deixou há pouco de viver uma das mais cruéis experiências colonialistas amparada numa não meus cruel cultura escravocrata.

Palestra de Bosi na USP

Mas, o importante de se salientar em Alfredo Bosi é a classe de sua escrita. Assim como apreciamos o talento do escritor ficcionista, temos que aplaudir as virtudes do autor que deve exercer sua criação em um terreno mais árido como o da escrita acadêmica. Se existe os meneios tediantes de alguns textos escolásticos, tem-se de festejar a proeza da redação elegante, classuda, que recorre a vocábulos, entre o ousado e o arcaico, só correntes para aqueles que têm uma sólida cultura livresca. Palavras como “simpleza”, “pinturesca”, “vária”. Outro dia um leitor reclamou com o Sérgio Rodrigues a ausência do ponto e vírgula em suas colunas, o que rendeu uma crônica divertida. Pois a verdade é que certamente há uma questão geracional neste comentário. Vale a pena prestar atenção a como é usada com destreza essa pontuação nos textos de Alfredo Bosi. Voltando a lê-lo por conta de sua morte como mais uma das vítimas de um governo criminoso, fiquei maravilhado com sua prosa requintada. Só equiparável a de um José Paulo Paes, aquele que até traduzindo nos ensina muito sobre como redigir de forma polida e esmerada (pensem na tradução dele para o “Nostromo”, de Conrad, que vem acompanhada de um posfácio belíssimo).

Fui rever também uma palestra de Bosi que havia postado por aqui bem no começo deste blogue e fiquei contente em saber, ao ouvir sobre sua trajetória de vida na parte final de sua exposição sobre o conto “O Espelho”, de Machado de Assis, como a pessoa do poeta José Paulo Paes foi importante no começo de seu percurso acadêmico. Deve ao poeta paulista a convocação para preparar o “História Concisa” na segunda metade dos anos 1960, alguns anos depois de Bosi começar a dar aulas de italiano na USP. Lendo um historiador-jornalista pop como Eduardo Bueno (fui descobrir indicações de Bosi em sua bibliografia para a coleção sobre o Brasil) ou uma historiadora-antropóloga acadêmica como Lilia Moritz, percebe-se o alcance e lastro do que foi deixado pelo autor de “Dialética da Colonização”.

Em sua palestra de volta à USP, identificamos o cuidado em situar e traduzir para os presentes os traços instigantes da escrita machadiana em um conto extraordinário como “O Espelho”. Em um livro anterior sobre Machado, ele já havia situado e resumido as leituras pelas quais os escritos do Bruxo do Cosme Velho vêm sendo submetidos a escrutínio de diferentes perspectivas por aqueles que se dedicaram à análise de sua obra com grande empenho (Astrojildo Pereira, Raymundo Faoro, Roberto Schwarz). Quanto conhecimento, quanto saber, quanta erudição desaparece quando nos deixa um intelectual como Alfredo Bosi. Alguns comparam a morte de um estudioso com as qualidades de Bosi ao sumiço de uma biblioteca. Não há como se discordar.

Publicado em Alfredo Bosi, Eduardo Bueno, José Paulo Paes, Lilia Moritz Schwarcz | Deixe um comentário

Serviço de Utilidade Pública

Fiquem atentos, só os postos de vacinação do Município funcionam aos sábados, pois os pontos alternativos não abrem neste dia. Viva os profissionais da Fiocruz, do Butantan, do SUS e dos postos de saúde.

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Isso é que é Vida

Ah, o paraíso. Herman Melville bem sabia que ele estava nos Mares do Sul. Especialmente para alguém cuja primeira viagem, aos 19 anos, teve como destino a gelada Liverpool (experiência que rendeu lembranças entre o entusiasmo e a decepção para o livro “Redburn”). O jovem Herman, viajou em meio à tripulação do pequeno navio Saint Lawrence, que levava algodão colhido no sul dos Estados Unidos para servir de matéria prima para a indústria manufatureira inglesa (em Manchester, Birmingham e Leeds) e um reduzido número de passageiros, aos quais o aprendiz Melville serviu como criado de camarote. Além de “Redburn”, essa viagem ajudaria como motivo para um escrito ficcional inacabado e editado postumamente, o livro “Billy Budd, marinheiro”, famoso por sua carga homoafetiva (maior talvez do que a de “Moby Dick”; inspirou o “Querelle”, de Jean Genet), razão pela qual acabou se transformando em assunto predileto a ser tratado pelos adeptos de estudos literários pós-coloniais e de gênero.

O primeiro contato com o Pacífico veio, porém, na segunda experiência marítima do escritor, aos 21 anos, agora a bordo do baleeiro Acushnet, no qual embarcou não como oficial de marinha como era esperado por sua posição social, mas, em consequência da falência dos negócios de sua família logo em seguida a morte de seu pai (Melville perdeu o pai aos 12 anos), como um reles marinheiro. Foi nesta condição que ele saiu do porto de partida dos baleeiros americanos do século XIX, em Nantucket, New Bedford, cruzou o Cabo Horn e chegou ao arquipélago de Galápagos, alguns anos depois de Charles Darwin.

Quase nada desta viagem, antes da chegada às Encantadas, apareceria nos textos do futuro escritor, à exceção da menção a uma parada no Rio de Janeiro como comentário aleatório em um trecho de um de seus primeiros livros, cidade em que o Acushnet lançou âncora para despachar pelo brigue Tweet, com destino a Baltimore, a carga de óleo das cachalotes pescadas até chegar ao Rio. A estada nas Encantadas, no entanto, surgiriam bem ficcionalizadas em escrito que leva o segundo nome com que os espanhóis se referem ao conhecido conjunto de ilhas celebrizado por Darwin. Galápagos não o surpreendeu tanto por sua beleza, mas pela natureza vulcânica e inóspita de um lugar em que só sobrevivem tartarugas gigantes, pássaros, pinguins e lagartos.

A partir dali, no entanto, viriam as maravilhas que nos aguardam nas ilhas do Pacífico Sul. E Melville conheceu muitas delas. Esteve, por exemplo, em Nukuhiva, no arquipélago das Ilhas Marquesas, onde se refugiou depois de desertar o Acushnet por desentendimentos com o capitão do navio baleeiro, Valentine Pease. Combinou a fuga com o companheiro Richard Tobias Greene (Toby) e partiram em aventura pelas matas tropicais em direção ao vale onde viviam os temidos typees. Capturados pelos nativos, os marinheiros Melville e Toby conviveram com aborígenes de corpos tatuados e participaram dos rituais desta tribo selvagem com sua fama de antropófagos (Melville, com a perna ferida, mais do que Toby que logo partiu em fuga). Essa convivência com os aborígenes locais foi vivida com muito medo, ainda que com extrema admiração e fascínio por Melville.

Apesar dos apertos por que passou para conseguir escapar de uma tribo que cultivava com requintes semelhantes ao dos tupinambás a deglutição de humanos, não carregou nenhum trauma desta experiência. Se colocarmos lado a lado os relatos do que Melville viveu com os de outro escritor que também navegou o pacífico e que teve contato com grupos selvagens como Joseph Conrad, perceberemos bem a distância entre o horror e o trauma que marcaram o autor de “Coração das Trevas” e de “Lord Jim” e como eles contrastam com o deslumbramento com os nativos e sua cultura que transparece nas obras do escritor de “Moby Dick”.

Das Ilhas Marquesas, Melville conseguiu seguir para o Taiti no barco australiano Lucy Ann, tripulado por um comandante doente que tinha como subordinado direto um auxiliar que vivia bêbado. Tomou parte em um motim a bordo do Julia (ou Little Jule, os nomes falsos como se refere ao barco) e por isso ficou preso no Taiti, talvez a mais bela e maior ilha da Polinésia Francesa. As passagens pelas Ilhas Marquesas e pelo Taiti apareceriam registrados em dois de seus escritos autobiográficos que foram seus únicos livros de sucesso enquanto esteve vivo, “Typee – um olhar sobre a vida na Polinésia” e “Omoo – uma narrativa de aventura nos mares do sul”.

Passou pouco tempo na “prisão” a céu aberto em que ficou cuidando de plantações no Taiti e saiu de lá caminhando para ingressar no navio baleeiro Charles & Henry que o levaria ao Havaí (onde esteve em Maui e Honolulu). A volta pra casa aconteceu com a fragata de guerra Estados Unidos, similar ao USS Constitution que ainda flutua no mar, mas que já não mais existe. Foi nele que Melville passou pela segunda vez pelo Rio de Janeiro. Aqui comemorou seu aniversário de 25 anos no dia 1 de agosto de 1844 ancorado próximo ao Pão de Açúcar e sentindo a brisa e a natureza “com todos os sabores do Trópico de Capricórnio”. No Rio, participou com a tripulação da recepção cheia de pompa a bordo do navio de guerra a dois convidados ilustres, o imperador Dom Pedro II e seu cunhando, o Conde d´Eu.

Fizemos essa volta toda para falar de Melville, mas também para lembrar que o paraíso navegado por James Cook, Charles Darwin e pelo autor de “Benito Cereno” ainda está lá mais paradisíaco do que nunca. A Austrália, por exemplo, fez o lockdown direitinho (e continua a repeti-lo quando é necessário) e é um dos poucos lugares no planeta em que se pode andar sem máscara. Isso, obviamente, depois de passar pela rigorosa quarentena de 14 dias enfurnado em um quarto de hotel. Difícil acreditar que este lugar exista, mas, quem faz o trabalho de casa direitinho, tem suas regalias. Em suas praias e nas piscinas naturais de sua costa, alimentadas pelas águas do mar, é possível aproveitar aqueles mergulhos e liberdade de que todos sentimos tanta falta. Por isso, foi gratificante assistir a volta do circuito internacional de surfe na praia de Merewether, em Newcastle, que se encerrou sábado passado. Não por acaso, outras três pernas do circuito mundial serão disputadas em território australiano. Nesta quinta-feira, mais uma competição tem início. Desta vez em Narrabeen, no norte de Sydney. Por lá, Corona é apenas o nome da cerveja que patrocina o torneio e cujo slogan é: “Corona: isso é que é vida”.

Merewether e seu “ocean bath” com a praia ao fundo

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Momento de Catarse na Volta do Garbage e do GregNews

“The Men Who Rule The World”, faixa do novo álbum do Garbage, “No Gods, no Masters”, com lançamento em 11 de junho e início de excursão em julho no Canadá

Começa a “Depressão com Lastro” da 5a. Temporada do Macambúzio Programa de Greg Duvivier

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