Um Dia Chego Lá, Enquanto isso…

Maldivas Paradisíaca

Os frequentadores mais assíduos deste espaço estão cansados de saber que um dos sonhos deste blogueiro é acompanhar in loco o circuito da Liga Mundial dos Surfistas Profissionais. Deve ser mesmo muito chato essa história de rodar o planeta atrás de praias como as da costa da Austrália, dos Estados Unidos, da África, da Indonésia, de Portugal e de França. A parada no Taiti é a mais invejada e é uma pena que Fiji tenha saído da rota para entrar aquela piscina no Texas criada por Kelly Slater e pela WSL. Tem gente que ganha dinheiro para ir a esses lugares. E há patrocinadores que levam alguns felizardos, como o casal Tatiana Weston-Webb (nossa representante feminina nas Olimpíadas de Tóquio ao lado de Silvana Lima na estreia do surfe em 2020) e o namorado Jessé Mendes, para conhecerem as Maldivas, outro destino paradisíaco.

A bem da verdade, a brincadeira de seguir o circuito pode sair muito cara até para quem vive disso. Para aqueles que, ainda que sejam atletas conhecidos, não estão no topo da elite do esporte e não faturam os 491,600 dólares em premiação que o Ítalo Ferreira embolsou o ano passado, há uma grande batalha. Para participar dos eventos, o sujeito precisa ter disponível ao menos 100 mil dólares a serem gastos por conta própria em passagens, alimentação e hospedagem. É o que contam. Tanto que alguns dos 40 surfistas da Liga, especialmente aqueles que não estão tão bem ranqueados (e que não contam com patrocinadores, portanto), necessitam recorrer ao improviso buscando o auxílio dos amigos com a famosa vaquinha para fazerem frente a esse gasto.

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Tento contornar minha sede por praias, indo passear todo verão em Búzios. Desta vez, estive por lá na companhia daquele que é alexandrino até no nome, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (“Olavo Bilac: Obra Completa”, Nova Aguilar, 1997), de Claude Lévi-Strauss (“Tristes Trópicos”, Companhia das Letras, 2019) e dos autores selecionados por Bráulio Tavares para a coletânea “Páginas de Sombras: Contos Fantásticos Brasileiros” (Casa da Palavra, 2003). Sim, senhores, também tenho (e não são poucas) minhas deficiências, omissões, lacunas de leitura. Livros que não conheci quando devia ou que repousavam na estante aguardando que os tirasse de lá para deambular por aí.

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Não tinha dado a devida atenção à antologia que Bráulio Tavares com todo o cuidado organizou para o segmento da literatura fantástica brasileira. Impressionante como o escritor paraibano tem coisas a dizer sobre o assunto. Ajudado por Borges, ele lembra que o realismo (aquela invenção que Tom Wolfe diz ter sido tão fundamental para o romance na segunda metade do século XIX quanto a descoberta da luz elétrica foi para nossas vidas) não passa de “uma excentricidade recente”, pois “o fantástico foi a linguagem preferida dos escritores do mundo inteiro, em todos os tempos”. É certo que dentro da concepção ampla do gênero em sua vertente brasileira apontada por Bráulio cabem autores e obras tão diversos quanto Mario de Andrade e seu “Macunaíma”, Guimarães Rosa e seu “Grande Sertão: Veredas” e mesmo Carlos Drummond de Andrade, que está entre os escritores selecionados para a antologia, com o conto “Flor, Telefone, Moça”.

Há contos de autores contemporâneos como o companheiro de rotina de nado livre na BodyTech 2 Rubens Figueiredo e a contista Heloisa Seixas que parece ter tomado gosto pelo assunto (tanto assim que traduziu anos depois “O Poço e o Pêndulo”, de Poe). Uma parcela significativa da coletânea saiu de autores do final do século XIX e começo do XX. Coelho Netto, Aluísio Azevedo e Machado de Assis representam bem o que seria o fantástico para a geração do Oitocentos.  Acima de tudo, há nessa miríade de autores uma interessante variação em torno do tema da literatura fantástica, que nos leva à escrita refinada de Origenes Lessa e de Lygia Fagundes Telles, em dois contos ótimos.

“Demônios”, o conto-quase-novela de Aluísio de Azevedo, que fecha a antologia, narra indiretamente a rotina dos poetas e escritores brasileiros de sua época que se sentavam todos os dias com seus bicos de pena à escrivaninha para redigir seus textos, algumas vezes em um quase breu. Talvez por isso, Olavo Bilac, por exemplo, gostava de trabalhar das 5 às 10 da manhã, antes de dar sequência ao seu dia que se encerrava no final da tarde na porta da Colombo na rua Gonçalves Dias, local para onde mudou-se para beliscar, beber e ser admirado pelos fãs, depois de brigar com o dono da Confeitaria Paschoal na rua do Ouvidor.

E foi em meio a uma de suas manhãs de trabalho que ele recebeu Paulo Barreto, ou João do Rio, em sua residência na rua Dois de Dezembro, na mesma casa em que Bilac foi seduzido pela espiã francesa Eduarda Bandeira atrás dos planos do dirigível de José do Patrocínio. Ao contrário do passa fora que deu na sedutora e aventureira Eduarda, o poeta conversou contente da vida com João do Rio tratando sobre a sua famosa ourivesaria na preparação de seus caprichados versos. Versos que segundo Mario de Andrade, que os ouviu serem recitados em encontros sociais, ficavam ainda mais belos na voz do autor.

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De Bilac saltamos algumas décadas e chegamos ao professor que inaugurou a cátedra de antropologia no Collège de France. Uma surpresa constatar que foi um capricho do destino que levou Lévi-Strauss a abraçar a antropologia e a vir ao Brasil conhecer, registrar, documentar, a história de tribos como os Nambiquara, os Bororo, os Tupi-Cavaíba. A experiência seria central para delinear os caminhos que marcariam a antropologia e fixariam a etnográfica como uma ciência. A visão depreciativa da paisagem do Rio de Janeiro mencionada por Caetano Veloso em “O Estrangeiro”, se deve menos a uma tipificação de fato do que a uma manifestação contrariada de alguém que esteve por pouco tempo por aqui e que rumaria para se estabelecer em São Paulo.

Susan Sontag no ensaio “O Antropólogo como Herói”, em que resenhou “Tristes Trópicos” (resenha publicada na The New York Review of Books em 1963), coloca o livro ao lado dos relatos autobiográficos de Montaigne em seus ensaios e de Freud, em “A Interpretação dos Sonhos”. Nos diz a escritora americana ainda que  “[…] a antropologia, para Lévi-Strauss, é um tipo intensamente pessoal de disciplina intelectual, assim como a psicanálise. O estágio de trabalho de campo é o equivalente exato do treinamento de análise por que passa um candidato a psicanalista”. Em seu ensaio, Sontag comenta também que, para o autor de “Antropologia Estrutural”, seu nascente campo de pesquisa deveria ser entendido como uma ciência e não como um campo de estudo afim aos estudos especulativos da área de humanas. Engraçado como Lévi-Strauss vai endossar essa percepção de sua obra apoiado em Saussure e na escola Jakobsoniana que teriam colocado, segundo ele, as pesquisas linguísticas em um patamar próximo ao dos estudos em ciências exatas.

Foi de um telefonema de uma pessoa com quem não tinha muita afinidade que Lévi-Strauss recebeu a proposta de se “entregar ao exótico, ao estranho, ao outro”, típico de poetas, novelistas, que, como observa Sontag, partiram para conhecer a Ásia, o Oriente-Médio e a mítica América. Para a ensaísta, “Lévi-Strauss inventou a profissão do antropólogo  como uma ocupação totalizante, aquela que envolve um comprometimento espiritual como a dos artistas criativos ou dos aventureiros ou do psicanalista.”  Sua estadia no Brasil foi um verdadeiro ritual de iniciação. Parece difícil encontrar alguém que se prontificaria a passar pelo que ele passou em prol de sua profissão e do que ele entendia como ciência.

“Alexandrino” no ofertório da família Veloso

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to Um Dia Chego Lá, Enquanto isso…

  1. Avatar de Leo Leo disse:

    Delicia de texto, Kiko. Muito bom. Que mistura gostosa!!!

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    • Como poeta, Léo, você talvez consiga solucionar uma dúvida. É verdade que alguns poetas têm a capacidade de falar em versos metrificados? Ferreira Gullar dizia que passou um período de sua vida falando em decassíbalos dada sua extrema admiração por Petrarca.

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