A Lenda por Trás do Mito

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Aproveitando a brilhante performance de Gabriel Medina durante a etapa brasileira do mundial da Associação dos Surfistas Profissionais encerrada na última quinta-feira na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, oportunidade em que conseguiu um inédito mortal, segue resenha de um livro que adquiri sem muita convicção, mas que valeu a compra. Maior estrela do surfe no Brasil, Medina, aos 23 anos, acabou ganhando uma precoce biografia. Tudo se justifica no entanto porque sua trajetória pessoal e história familiar, de fato, colecionam assunto suficiente para rechear um livro. Coube ao jornalista Tulio Brandão, ex-repórter do Jornal do Brasil, de O Globo e ex-colunista da revista Fluir, vasculhar a possível lenda por trás do mito e se dar ao trabalho de contá-la no seu “Gabriel Medina – a Trajetória do Primeiro Campeão Mundial do Brasil” (Primeira Pessoa, 2015).

Na orelha do volume, o convite à leitura é feita por um outro brasileiro que também já colocou o seu nome no panteão do esporte nacional ao chegar a número 1 do mundo dando suas raquetadas, Gustavo Kuerten. Surfista nas horas vagas, Kuerten festeja o novo ídolo e deixa o caminho livre para a apresentação feita com muito humor por Kelly Slater. Escrita em junho de 2015, último ano de Slater no circuito mundial, a introdução registra as muitas surpresas que o maior surfista de todos os tempos testemunhou ao acompanhar o percurso de Gabriel Medina desde que ele começou a aparecer em 2009, aos 15 anos de idade. A chegada de Medina à elite do surfe em 2011, aos 17 anos e com o recorde de acabar sendo o mais jovem surfista a estrear no circuito mundial, deixou Slater preocupado com a possibilidade de que o brasileiro pudesse roubar-lhe a marca de mais jovem surfista a se sagrar campeão na World Surf League. Com seu título de 2014 aos 20 anos, Medina acabou no entanto apenas igualando a marca do americano.

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Com Brandão vamos saber do passado da família do atleta. Os avós maternos de Gabriel, dois jovens filhos de pais esquerdistas, vieram a se aproximar durante o período em que estavam fazendo seus estudos na antiga União Soviética. Aurora Medina, de quem Gabriel herdou o sobrenome que ficaria famoso e os traços de índio sul-americano da costa do pacífico, era filha de militantes da Frente Popular Chilena que apoiavam o Governo de Salvador Allende nos anos de 1970. O avô materno, Jaime Pinto, por sua vez, era filho de pais ligados ao Partido Comunista Brasileiro. Com a morte do pai em uma manifestação de um 1o. de maio no sul, Jaime, ainda garoto, acabou sendo criado por um padrasto que era amigo de Luiz Carlos Prestes, Pagu, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. Era natural portanto que os avós de Medina pudessem se cruzar, o que acabou acontecendo quando os dois viajaram para fazer seus estudos em território soviético. O casal teve três filhos e decidiu chamar uma das filhas, a mãe de Gabriel, de Simone, em homenagem a líder feminista Simone de Beauvoir.

Com a jovem Simone, vamos a Maresias, onde a mãe de Medina viveria e conheceria o seu primeiro marido, o jogador de futebol Claudio Ferreira. Com ele teria dois filhos: Gabriel e Felipe, hoje jogador de futebol, como o pai, pelo Independente de Limeira, time do interior de São Paulo. Passamos depois pelo divórcio e o casamento com o padrasto do surfista, Charles Saldanha, aquele que seria responsável por descobrir o talento de Gabriel para as ondas. Caberia a Charles preparar o surfista em todo o seu caminho para chegar ao topo da elite do surfe mundial. Fica-se sabendo de todas as batalhas e agruras passadas pelos dois na luta para transformar Gabriel Medina de uma promessa do surfe amador, em um dos melhores surfista do mundo. Um pequeno tropeço na biografia de Brandão é o de tratar o tempo todo o verdadeiro pai de Medina como “pai biológico”, um recurso desnecessário para realçar a importância de Charles para a carreira do atleta.

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O restante do livro apresenta os bastidores das temporadas em que Gabriel brilhou desde 2012 até chegar a consagração com o título mundial em dezembro de 2014 em Pipeline. Tudo se encerra com Medina abrindo caminho para os jovens surfistas que integrariam a Brazilian Storm, que se confirmou o ano passado com o título de Adriano de Souza e que segue agora com Ítalo Ferreira, Filipe Toledo e Miguel Pupo, todos se destacando no mundial deste ano. A Brazilian Storm por sinal teve ótimo desempenho na etapa brasileira que se encerrou na quinta-feira. Uma pena que Gabriel tenha parado na semi-final. Medina merecia disputar a final com o craque havaiano John John Florence. Foram disparado os dois melhores surfistas da competição, que este ano, infelizmente não teve nem Slater, nem Mick Fanning. De todos que enfrentam um mar adverso em dias chuvosos, Florence e Medina conseguiram a proeza de entrar e sair de tubos que nenhum dos outros surfistas conseguiram enxergar. Gabriel abusou ainda das manobras voadoras com várias notas 10 e encontrou o momento certo para conseguir o inédito mortal de costas que vinha treinando há tempos, foi a primeira vez que isto aconteceu em uma competição oficial de surfe.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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1 Response to A Lenda por Trás do Mito

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Nunca imaginei que você fosse ler esse livro, interessante a história dele.

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