A Flip foi aquela beleza de sempre. Mesmo sem tanto dinheiro, tendo que economizar aqui e ali, o que teve seus reflexos para quem sempre acompanhou a festa literária de longe, rendeu encontros e palestras ótimas. Fizeram falta os áudios daquelas mesas que não puderam ser vistas ao vivo e que torcemos para que apareçam na web quando as coisas acalmarem. Mario de Andrade teve todas as merecidas homenagens e foi celebrado como bem merece, desde a abertura com Beatriz Sarlo e Eduardo Jardim até o encerramento com José Miguel Wisnik.
Professor de “Filosofia da Ciência”, aquela cadeira espinhosa que estudamos na universidade a fim de identificar os tais dos “cortes epistemológicos” e as “rupturas de paradigma”, Jardim escreveu a primeira biografia intelectual do escritor paulista (“Eu Sou Trezentos – Mario de Andrade: Vida e Obra”; Edições de Janeiro, 2015) e tratou de apresentar os traços mais característicos do pensamento marioandradiano. Suas observações foram complementadas pela abordagem de Sarlo, que contrastou a vivência de Mario com a de seus conterrâneos argentinos. Estas duas perspectivas ganhariam ainda novas e adicionais tintas na palestra de fechamento de José Miguel Wisnik, com seu emocionante depoimento com detalhes sobre a trajetória biográfica e afetiva deste brasileiro extraordinário.
Entre um ponta e outra da programação principal, pudemos ver os autores cuja literatura começamos a conhecer. Tive interesse particular pelo Leonardo Padura. Ainda que não seja um doente por estórias policiais, como a inglesa Sophie Hannah, companheira de mesa de Padura e autora que também tenta renovar o gênero, achei o escritor cubano uma simpatia. É possível mesmo enxergar em Padura aquele interesse que Mario tinha por seu país. O autor de “O homem que amava os cachorros” é cubano, vive em Cuba, e não quer sair de lá. O Brasil de Mario, à sua época, não era certamente o país que o autor de “Macunaíma” mais desejava, mas era a sua terra e não a trocaria por nada. Pelo contrário, se embrenhou país adentro para conhecer a paisagem e a cultura popular brasileira.
Cerceado em sua terra natal, Padura, admirador confesso de uma variedade de autores estrangeiros (Hemingway, Raymond Chandler, Zé Rubem), teve que enfrentar a maior luta para que o seu projeto de escritor vingasse contra todas as adversidades e o isolamento da Ilha. Apesar disso, e ainda que agora goze de prestígio internacional, segue sem vontade alguma de deixar o arquipélago cubano pra trás. Conheci o “Passado Perfeito”, sua primeira obra, e deu vontade de avançar por toda ela. A ideia da narrativa ficcional sobre o assassinato de Leon Trótski é, especialmente, um daqueles achados dos grandes escritores.
Amigas que já conferiram a Flip in loco, dizem que a festa é uma maravilha particularmente para aqueles que acompanham tudo de perto. A Helena Torres, por exemplo, foi com o filho, Gabriel, e se esbaldou não apenas na Flip, mas ainda na Flipinha. Com meu espírito macunaímico-infatilóide acho que não seria diferente. E a bem da verdade, durante a Festa Literária hoje acontecem tantos eventos paralelos que tenho certeza que deve-se sair de lá recalcado por perder as muitas mesas que não puderam ser assistidas nas palestras da off-Flip.
De longe, tivemos que nos contentar com a programação da Tenda dos Autores. Por lá, a diversidade, que faz a graça da Flip, se repetiu mais uma vez nas sessões centrais da Festa. Deu para rir com as ponderações imprevisíveis de José Ramos Tinhorão, conhecer melhor o que orienta a poesia de Arnaldo Antunes e desorienta o percurso musical-poético de Karina Burh, surpreender-se com o pensamento fora de esquadro de Antônio Risério, divertir-se com Marcelino Freire e Jorge Mautner, bem como passear pela perspectiva da escrita teórica sobre erotismo de Eliane Robert Moraes e pela faceta apimentada da literatura erótica de Reinaldo Moraes.
Quando do anúncio do programa principal desta edição 2015, ficou aquela sensação de que talvez os organizadores estivessem repetindo demais alguns dos palestrantes. Mas as apresentações de Lilia Moritz Schwarcz, acompanhada por Heloisa Starling, e o fechamento emocionante de José Miguel Wisnik, botaram por terra estas apreensões. Que a Flip consiga contornar e sobreviver às intempéries de um país imprevisível e volte com a estrutura de sempre o ano que vem. Antes disso, ficamos na expectativa de poder ouvir ainda em áudio as palestras perdidas com Boris Fausto, Roberto Pompeu de Toledo, Carlos Augusto Calil, David Hare e Colm Tóibín.






























