Flip versão 2015

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A Flip foi aquela beleza de sempre. Mesmo sem tanto dinheiro, tendo que economizar aqui e ali, o que teve seus reflexos para quem sempre acompanhou a festa literária de longe, rendeu encontros e palestras ótimas. Fizeram falta os áudios daquelas mesas que não puderam ser vistas ao vivo e que torcemos para que apareçam na web quando as coisas acalmarem. Mario de Andrade teve todas as merecidas homenagens e foi celebrado como bem merece, desde a abertura com Beatriz Sarlo e Eduardo Jardim até o encerramento com José Miguel Wisnik.

Professor de “Filosofia da Ciência”, aquela cadeira espinhosa que estudamos na universidade a fim de identificar os tais dos “cortes epistemológicos” e as “rupturas de paradigma”, Jardim escreveu a primeira biografia intelectual do escritor paulista (“Eu Sou Trezentos – Mario de Andrade: Vida e Obra”; Edições de Janeiro, 2015) e tratou de apresentar os traços mais característicos do pensamento marioandradiano. Suas observações foram complementadas pela abordagem de Sarlo, que contrastou a vivência de Mario com a de seus conterrâneos argentinos. Estas duas perspectivas ganhariam ainda novas e adicionais tintas na palestra de fechamento de José Miguel Wisnik, com seu emocionante depoimento com detalhes sobre a trajetória biográfica e afetiva deste brasileiro extraordinário.

Entre um ponta e outra da programação principal, pudemos ver os autores cuja literatura começamos a conhecer. Tive interesse particular pelo Leonardo Padura. Ainda que não seja um doente por estórias policiais, como a inglesa Sophie Hannah, companheira de mesa de Padura e autora que também tenta renovar o gênero, achei o escritor cubano uma simpatia. É possível mesmo enxergar em Padura aquele interesse que Mario tinha por seu país. O autor de “O homem que amava os cachorros” é cubano, vive em Cuba, e não quer sair de lá. O Brasil de Mario, à sua época, não era certamente o país que o autor de “Macunaíma” mais desejava, mas era a sua terra e não a trocaria por nada. Pelo contrário, se embrenhou país adentro para conhecer a paisagem e a cultura popular brasileira.

Cerceado em sua terra natal, Padura, admirador confesso de uma variedade de autores estrangeiros (Hemingway, Raymond Chandler, Zé Rubem), teve que enfrentar a maior luta para que o seu projeto de escritor vingasse contra todas as adversidades e o isolamento da Ilha. Apesar disso, e ainda que agora goze de prestígio internacional, segue sem vontade alguma de deixar o arquipélago cubano pra trás. Conheci o “Passado Perfeito”, sua primeira obra, e deu vontade de avançar por toda ela. A ideia da narrativa ficcional sobre o assassinato de Leon Trótski é, especialmente, um daqueles achados dos grandes escritores.

Amigas que já conferiram a Flip in loco, dizem que a festa é uma maravilha particularmente para aqueles que acompanham tudo de perto. A Helena Torres, por exemplo, foi com o filho, Gabriel, e se esbaldou não apenas na Flip, mas ainda na Flipinha. Com meu espírito macunaímico-infatilóide acho que não seria diferente. E a bem da verdade, durante a Festa Literária hoje acontecem tantos eventos paralelos que tenho certeza que deve-se sair de lá recalcado por perder as muitas mesas que não puderam ser assistidas nas palestras da off-Flip.

De longe, tivemos que nos contentar com a programação da Tenda dos Autores. Por lá, a diversidade, que faz a graça da Flip, se repetiu mais uma vez nas sessões centrais da Festa. Deu para rir com as ponderações imprevisíveis de José Ramos Tinhorão, conhecer melhor o que orienta a poesia de Arnaldo Antunes e desorienta o percurso musical-poético de Karina Burh, surpreender-se com o pensamento fora de esquadro de Antônio Risério, divertir-se com Marcelino Freire e Jorge Mautner, bem como passear pela perspectiva da escrita teórica sobre erotismo de Eliane Robert Moraes e pela faceta apimentada da literatura erótica de Reinaldo Moraes.

Quando do anúncio do programa principal desta edição 2015, ficou aquela sensação de que talvez os organizadores estivessem repetindo demais alguns dos palestrantes. Mas as apresentações de Lilia Moritz Schwarcz, acompanhada por Heloisa Starling, e o fechamento emocionante de José Miguel Wisnik, botaram por terra estas apreensões. Que a Flip consiga contornar e sobreviver às intempéries de um país imprevisível e volte com a estrutura de sempre o ano que vem. Antes disso, ficamos na expectativa de poder ouvir ainda em áudio as palestras perdidas com Boris Fausto,  Roberto Pompeu de Toledo, Carlos Augusto Calil, David Hare e Colm Tóibín.

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Whomania e Beck animam verão londrino

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Fotos de Vani Garcia, direto do Hyde Park

Sou adepto ferrenho do “cansado de Londres, cansado da vida”. Quando não houver mais nada de interessante pra fazer em London Town, será sinal de que está na hora de desistir de tudo e de todos. Antes do embarque,  já começam as conjecturas sobre o que pode nos aguardar em mais um verãozinho em visita à Ilha. A temporada deste ano tem sido especial pra aqueles que, junto com o Edgar Scandurra e o Nasi, acreditam que o movimento Mod foi a coisa mais importante a acontecer no planeta.

Pete Townshend e Roger Daltrey seguem com a turnê do show que comemora os 50 anos do The Who e fizeram a alegria do público londrino no último fim de semana. Foram os responsáveis por encabeçar, no sábado, o line-up de um mini-festival (o que já é uma vantagem em tempos de festivais megalô) num ensolarado Hyde Park.  Fecharam a tarde/noite depois de Johnny Marr, Kaiser Chiefs e Paul Weller. Vontade danada de estar lá repetindo os versos de “The Seeker” (“I asked Bobby Dylan/I asked the Beatles/I asked Timothy Leary/But he couldn’t help me either”), uma das favoritas ao lado de “Zoo Suit” e “I am the Face”, estas duas gravadas quando a banda ainda atendia pelo nome de High Numbers.

Não sou Whomaníaco como o Marcelo França e meu irmão, André Pedrosa, dois que não dormem sem fazer a sua prece pra São Pete Townshend. Nas redes sociais dava pra acompanhar à distância o show com a ajuda de quem não resistiu e pagou pra estar na cara do palco. Marcelo França também estava atrás de notícias. Tinha a sua listinha com a seleção das músicas que não poderiam faltar. Chegava a viajar em um roteiro pessoal para o show: “Num delírio meu ‘whoniano’, acho que seria ótimo se eles fizessem um set acústico. E tocar, por exemplo, “So sad about us”, “Mary” e “Circles”. Adoraria ser surpreendido com coisas do disco “Odds and Sods”. Uma música como “Bargain” tem que estar em TODOS os shows do Who. Há outras obrigatórias. Não tem como fugir muito do que é o atual set list. Surpresas são sempre boas, mas a essa altura (70 e tal) não dá pra esperar algo por aí. Vi o Who em 2000 ainda com John Entwistle. Era menos paródia do que é hoje – como Led Zep e Stones -, mas já não era e nem dava pra ser aquele fogo todo que aprendemos a amar.”

Domingo que vem, Pete Townshend dá sequência ao clima Mod do verão londrino deste ano. Vai passar com muita pompa o repertório de “Quandrophenia” acompanhado pela Royal Philarmonic Orchestra e pelo London Oriana Choir no Royal Albert Hall. Billy Idol e Phil Jimmy Daniels, sim, ele mesmo em pessoa, confirmaram presença. Não fosse o bastante estes dois programas, segunda-feira, Beck, que anda dizendo adeus a fase folk com a nova e dançante “Dreams” (https://goo.gl/I3fPNU), participou de evento performático com poesia e artes visuais no Barbican Centre (centro cultural alternativo na City londrina).

Os Mutantes fizeram seu histórico show de retorno no Barbican, em 2006, e em 2011 tive a chance de assistir a Damon Albarn com Flea, do Red Hot Chili Peppers, passando por anfitriões para festejar a loja de discos Honest Jon´s (localizada em Portobello e queridinha dos fãs de World Music), bem como os artistas do selo musical de mesmo nome (o selo é  apadrinhado pelo líder do Blur). Beck esteve no Barbican com Thurston Moore (do Sonic Youth) criando a atmosfera sonora para evento multimídia que fazia um mix de música, poesia e artes visuais. Uma pena também chegar tarde para esta. Torcer para que a turnê do Who que segue para os Estados Unidos acabe, como prometido, na América do Sul com o Brasil na rota.

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Hora de aula com Paulo Henriques, Joseph Campbell e Joyce

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Primeira das seis palestras de Joseph Campbell sobre Joyce (clique aqui)

Mês de junho é sempre mês de James Joyce. Este ano, Joyce foi lembrado ao lado de um professor do passado. Lá pelos idos de 1975, a sala de aula ficava no prédio do Instituto Brasil-Estados Unidos, na Nossa Senhora de Copacabana, 690. Estávamos, salvo engano, no curso 21, depois de termos avançado, semestre após semestre, pelo aprendizado infantil do ensino colegial (do C1 ao C4) e pelo anos iniciais da formação para jovens e adultos do 11 e 12, aos quais se seguiriam o 21, 22, 31, 32, e assim por diante até o 62, completando 6 anos de instrução. Era o tempo do “repeat after me”, ainda que não me lembre deste tipo de prática em sua aula. O professor usava óculos de aro arredondado, tinha cabelos longos e escorridos, andava sempre vestido despojadamente, e dava pra suspeitar que a qualquer momento fosse atacar com sua versão pessoal para “Instant Karma”.

Do espaço das salas de aula do IBEU, saltamos para os pilotis da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, instituição em que ele daria sequência ao seu percurso no magistério, agora como professor universitário integrante do quadro docente do curso de Letras da PUC. Começaria também uma carreira de enorme sucesso como tradutor, poeta, contista e ensaísta. É ao lado de Paulo Henriques Britto que vamos nos voltar para o gênio de James Joyce, que, por coincidência, foi também professor de um curso livre  de inglês antes de se projetar entre os grandes nomes da literatura do século XX.

Joyce deu aulas particulares de inglês e trabalhou no curso Berlitz em Pula, na península de Ístria (então, território austro-húngaro, hoje, croata), e Trieste, no nordeste da Itália, até conseguir se cercar de mecenas que o sustentassem para dedicar seu tempo exclusivamente à preparação de suas obras. Não fosse fundamental a sua ligação com o ensino, Joyce não teria feito de seu alterego, Stephen Dedalus, primeiro, um aluno, e, depois, um professor. Além de protagonizar “Retrato do Artista quando Jovem”, em que narra seus anos de formação, Stephen Dedalus divide a atenção dos leitores com Buck Mulligan e Leopold e Molly Bloom em “Ulysses”. Comentam alguns críticos, com muita propriedade, que ele é também a provável voz narrativa dos primeiros contos de “Dublinenses”.

Paulo Henriques passou em revista em duas aulas no Polo de Pensamento Contemporâneo, centro de palestras no Jardim Botânico, os livros de Joyce com foco em “Ulysses”, cuja mais recente tradução, assinada por Caetano Galindo e lançada em 2012, foi por ele coordenada para a editora Companhia das Letras. Mostrou em suas aulas a evolução do estilo de Joyce. De uma narrativa mais linear e cujas inovações se introduziam com a exploração do discurso indireto livre, em “Retrato do Artista quando Jovem”, até a ampla utilização deste recurso com a associação indiscriminada de cenas que justapõe perspectivas narrativas distintas e circulares. Tudo caminhando para o recurso da representação narrativa do fluxo de consciência que vem de maneira radical no monólogo de Molly Bloom, capítulo que fecha “Ulysses”. Todas técnicas de escrita literária usadas por Joyce e que serão trabalhadas para criar a sensação de um sonho posteriormente em “Finnegans Wake”. Para surpresa de muitos dos presentes, o monólogo de Molly Bloom, momento máximo da ousadia joyceana, foi identificado como, de longe, o mais prazeroso para o leitor e o que se torna compreensível sem a exigência de recorrer aos guias explicativos dos muitos comentadores dos escritos do autor.

Para contrariedade de alguns dos presentes, o professor-anfitrião apresentou Dedalus como um personagem tedioso. Se como leitores não sobrepuséssemos a imagem de Stephen Hero, ou de Stephen Dedalus, a de Joyce, talvez fosse fácil concordar com o palestrante. Temos que nos lembrar, no entanto, que Joyce está falando do ensino na Irlanda do fim do século XIX, o que pode eventualmente propiciar a projeção de uma imagem enfadonha sobre um de seus protagonistas. Peguem por exemplo, a autobiografia de outro Stephen ilustre, mais conhecido por seu sobrenome, Morrissey (“Irish blood, English heart”). Nascido em Manchester, filho de pais irlandeses, Stephen Patrick conta em seu livro de memórias, “Morrissey Autobiography” (Penguin Classics, 2013),  como foi sua educação entre os anos 1960-70 no norte da Inglaterra. Quase um século depois de Joyce, Morrissey viu e enfrentou humilhações inacreditáveis (palmatória inclusive), que estiveram bem longe de quem frequentou, no mesmo período, o ensino experimental (era o nome que usavam) do Colégio Brasileiro de Almeida, no Rio de Janeiro.

Da palestra de Paulo Henriques, passamos para as seis conferências sobre Joyce proferidas por outro professor ilustre: Joseph Campbell. Campbell, com vasta produção acadêmica sobre mitologia, é daqueles eruditos universitários que fazem a alegria das suas plateias unindo sofisticação teórica com  análises inspiradíssimas. Conhecidas inicialmente apenas em áudio no percurso para dar aulas universitárias em Niterói, na Barra da Tijuca e em Madureira, essas conferências podem ser vistas agora na Internet (link acima). Apenas com o áudio, a impressão que Campbell deixava em alguém que o desconhecia por completo era a de um professor de universidade californiana em pleno movimento do flower-power. Na realidade as palestras, proferidas em data bem anterior a 1987, ano da morte de Campell, são extremamente formais como se comprova através destes registros em filme.

Para Campbell, o modelo que Joyce adota em seu trabalho tem como espelho a obra de Dante Alighieri. A narrativa de Dante em “La Vita Nuova”, discorrendo sobre a presença física de sua Beatrice e, depois de sua morte, procedendo a idealização de sua figura, é replicada por Joyce para falar da trajetória pessoal de Stephen Dedalus em o “Retrato do Artista”. “Ulysses”, por seu turno, nos levaria ao “Inferno” e ao “Purgatório” da “Divina Comédia” de Dante. E, com “Finnegans Wake”, chegaríamos ao paraíso terrestre no ponto mais alto do purgatório. O “Paraíso” estaria reservado para a última obra a ser preparada por Joyce. Com o seu falecimento, por complicações decorrentes de uma cirurgia aos 59 anos, acabamos por não conhecê-la. Que fique bem entendido que esta obra final é fruto de uma especulação pessoal de Campbell.

A epígrafe que abre o “Retrato do Artista quando Jovem”: “E ele devotou seu espírito a artes obscuras” (citação do Ovídio de “Metamorfoses”), orientaria toda essa trajetória. A apresentação muito erudita desta visão de Campbell seria bem aceita, não fosse um pequeno senão em um trecho de uma de suas seis palestras. Comentando indiretamente a morte de Martin Luther King, Campbell faz a condenação dos estudiosos que enxergam sociologia em tudo, tendência que marcou a universidade no mundo todo a partir de meados do século passado. É difícil, no entanto, aceitar a universidade como espaço exclusivo para a realização de projetos e carreiras de cunho personalista que se distanciam do ambiente social em que estão inseridos. Edward Said, um intelectual de perfil acadêmico, mostrou em sua carreira opções consequentes para aproximar erudição e atuação política por parte de um scholar vinculado ao seu tempo. A posição de Campbell de qualquer jeito não tira o mérito e interesse por suas considerações elaboradíssimas sobre Joyce e seus escritos. Não se deve perder a oportunidade de conhecê-las.

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Hamlet Jr. sob o olhar crítico de dois resenhistas iconoclastas

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Capa do livro de Rodrigo Lacerda e cena do vlogue de John Green (pode ser visto legendado)

Resenha do Crash Course de John Green (clique aqui)

O título talvez deixe a falsa impressão de tratar-se de escrito explicativo e superficial sobre uma das obras mais veneradas de toda a literatura do ocidente: o “Hamlet” de Liam Shakespeare. Não é o caso. O que se tem em “Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos” (Zahar, 2015) é um disfarçado apanhado sobre a fortuna crítica referente a mais elaborada obra do bardo inglês. Tudo contado com o teclado da galhofa e os bytes da picardia, sempre com inspiração na senda dos melhores romancistas brasileiros (Manoel Antônio de Almeida é confessadamente um favorito do autor).

 As argumentações e comentários são ainda encaminhados com uma subjacente estrutura narrativa que lembra uma criação ficcional. Cheguei mesmo a ter a impressão de que o premiado ficcionista Rodrigo Lacerda talvez estivesse pensando em transformar sua iconoclasta apresentação analítica do drama do indeciso Hamlet Jr. (é como trata o protagonista), em um filme ou em uma peça de teatro. Com a qualidade que anda caracterizando os filmes do novo cinema novo brasileiro, daria uma produção cinematográfica de apelo internacional. Nossos roteiristas, que tem feito o diabo, é que devem dizer se estou delirando ou não.

“Hamlet ou Amleto?” é uma análise divertida e com grande lastro de erudição que não deixa nada a dever aos trabalhos dos mais empenhados shakespeariófilos.  Ouvi dizer, embora não tenha conseguido confirmar, que Rodrigo Lacerda frequentava a roda de discussão semanal sobre os escritos do “autor do ser ou não ser” comandada por Barbara Heliodora. Se foi esse o caso, o fato mostra o interesse deste escritor, que em sua primeira novela, “O mistério do leão rampante”, demostrava grande admiração pelo dramaturgo de Stratford-upon-Avon. Admiração essa que, ao que tudo indica, vem de longe. O livrinho infanto-juvenil, “O fazedor de velhos” (Cosac Naify, 2008), de Lacerda, fala mesmo de um leitor, de início mirim e depois pós-adolescente, a um só tempo, intrigado e com extremo fascínio pela dupla Hamlet/Shakespeare.

O inspirado autor de uma coletânea de contos (“Tripé”), novelas (além de “O mistério…”, publicou “A dinâmica das larvas”) de um romance histórico (“A república das abelhas”, sobre seu avô, Carlos Lacerda), com vários prêmios que comprovaram o alcance de sua escrita ficcional (prêmio Jabuti, prêmios da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil e da Academia Brasileira de Letras), se mostra um escrutinador com aquele dom raro dos grandes resenhistas-comentadores que fazem carreira nas universidades. A boa nova é que o livro de Rodrigo Lacerda não tem o ranço e nem apresenta tampouco aquela escrita pouquíssimo criativa que costuma marcar os trabalhos produzidos no meio acadêmico. Embora tenha cumprido os ritos de nossas pós-graduações, doutorando-se em teoria literária e literatura comparada pela USP, o autor de “Hamlet ou Amleto?” não se sente obrigado a posar de entendido. Sua escrita leve, enfezada, divertida, hilária em alguns momentos, tem compromisso apenas com a inteligência do leitor. Mesmo um connaisseur da peça e de sua fortuna crítica, ficará contente em revisitá-la acompanhando o autor que a examina em seus mínimos detalhes, mostrando como trata-se de um drama bem amarrado e extremamente coeso em sua estrutura narrativa.

Sem um registro bibliográfico formal, ainda que haja em sua parte final indicações sobre o que informou seu texto, o analista percorreu os trabalhos de leitura de alguns dos críticos fundamentais dessa peça que há 400 anos é discutida por todos que a entendem como um dos maiores tratados sobre a psique humana. Harold Bloom acha mesmo que Shakespeare com o seu Hamlet inventou o homem moderno. Para o crítico americano, sem o dramaturgo-criador e sua personagem-criatura, não teríamos conseguido nos igualar aos filosóficos houyhnhms machadianos. É uma leitura possível, mas que não deixa de levar uma alfinetada de Lacerda, que diz (se dirigindo a Bloom e seus seguidores ao comentar a passagem em que Hamlet não mata o tio Claudius porque ele está rezando): “De tanto quererem enfatizar que Shakespeare e você (o autor está mais uma vez, e como faz ao longo de todo o livro, dando conselhos a Hamlet Jr. ou a um possível ator que viesse a fazer o seu papel) são homens 100% modernos, inventores do indivíduo contemporâneo, materialistas e racionais, eles atropelam seu lado cristão praticante”.

Com desprendimento, o autor-crítico fica à vontade ainda para recorrer a fontes pouco confiáveis como aquelas presentes na rede mundial de computadores. E neste ponto é uma pena que tenha deixado escapar uma notícia importante do New York Times. Em reportagem do jornal americano de dois anos atrás, ficamos sabendo que o inglês Brian William Vickers, da University College de Londres, identificou, e, pesquisas do americano Douglas Bruster, da Universidade de Austin no Texas, parecem confirmar, os fortes indícios de que a “Spanish Tragedy”, de Thomas Kyd, fonte da estrutura narrativa de “Hamlet”, teve 325 de suas linhas redigidas com a caligrafia de Shakespeare. O fato comprovaria a participação ativa do bardo na preparação da peça.

Aparecendo apenas em um dos periódicos de circulação restrita da Universidade de Oxford, esta informação é registrada por artigo do New York Times de 2013 (http://goo.gl/YP05eq). Em tempo hábil, portanto, para que fosse aproveitada no capítulo 4, em que Lacerda refaz a cronologia da peça no percurso que levaria ao estabelecimento do texto canônico do drama. Rodrigo Lacerda podia ainda ter conhecido também a professora emérita do King´s College de Londres Ann Thompson, que tem palestra postada na Internet (https://goo.gl/VQ9JCM; aconselho avançar até os 10 minutos para contornar as formalidade da apresentação). Ann responde, junto com Neil Taylor, por uma das famosas edições Arden (a de 2006) sobre a tragédia do Príncipe indeciso. Para seu livro, Lacerda preferiu, no entanto, ficar com a antiga edição da New Swan Shakespeare, editada por Bernard Lott para a Longman no final dos anos de 1960.

Mais estes detalhes são pouquíssima coisa para um autor com extenso currículo como tradutor (Faulkner, Dumas, Carver) que se deu ao trabalho de vazar sua versão personalíssima (vale a pena contrastá-la com a de Millôr Fernandes) para todas as longas passagens comentadas. Shakespeare, em geral, e “Hamlet”, especificamente, colecionam as frases mais repetidas por todos nós diariamente em todos os idiomas. Traduzi-las é, portanto, um desafio. No que diz respeito a nossa muito conhecida “Há mais coisas entre o céu e terra do que sonha a nossa vã filosofia”, Lacerda lembra que o adjetivo “vã”, embora caia bem e se adeque ao criar certa ênfase ao momento que se segue a aparição do espectro do pai de Hamlet, não aparece no original.  Rodrigo prefere ainda que a segunda oração fique: “Do que as sonhadas em nossa filosofia”, com “filosofia” como sinônimo para as “ciências naturais”. O assunto é discutível e a “Hamlet ou Amleto?” cabe o mérito de levantar a questão. A tradução de Millôr Fernandes foi mais conservadora e ficou com: “Do que sonha a tua filosofia”. Já que o “your philosophy” do original não parece usar o pronome possessivo como impessoal e sim como uma referência a Horacio, que é o interlocutor do príncipe na cena.

Outros momentos de divergência. A tradução de Lacerda é mais ousada na famosa “Frailty, thy name is woman”. O autor traduz “frailty”, por “traição”, uma leitura possível. Millôr ficou com “fragilidade”. Uma amiga, Regina Cocking, sugeriu “fraqueza”, que talvez seja a melhor alternativa para caracterizar a dúvida de Hamlet sobre o caráter de sua mãe. Já na conhecida troca de farpas entre Hamlet Jr. e Polônio, o ousado é Millôr que faz o Príncipe, se passando por lunático e ao fingir não reconhecer o conselheiro real, se referir a ele como “Rufião”. Sugere assim que “fishmonger” esteja sendo usado como uma corruptela de “fleshmonger”. Lacerda fica com o mais comedido e literal “peixeiro”.

Se desce, investiga e debate detalhes com refinamento, Rodrigo Lacerda não deixa de ter desprendimento para recorrer à Wikipedia. O autor não se furta também a fazer referências a exemplos culturais rasteiros e contemporâneos como os bitiniques, o agente Maxwell Smart, a FIFA e ao Big Brother. Quem se divertir com “Hamlet ou Amleto?”, vai também rolar de rir se instruindo com as duas postagens do vlogue do Crash Course que John Green fez para o “Hamlet” (link acima). O entusiasmo foi tanto que não resisti a baixar o livro “A Culpa é das Estrelas”, para conhecer o universo ficcional deste outro grande resenhador que conversa conosco sem as formalidades dos adeptos de pompa e circunstância.

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Nova parada no Belvedere do poeta Chacal

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– Rogério Durst, meu querido, uma Malzbier, por favor.

– Malzbier não temos, amiguinho, só cerveja. Serve?

– Melhor. Desce uma, desce duas, desce todas.

– É pra já.

Vamos secar umas geladas e brindar: “a alguém, a alguma coisa, a algum lugar”. Tim-tim então para a pessoa do escritor Carlos Emílio Lima, autor de “A cachoeira das eras”. Tim-tim também para o CEP 20000. E, finalmente, tim-tim para o Espaço Cultural Stanislaw Ponte Preta, a ex-sala Sérgio Porto. Copo de botequim em punho, rejubilemo-nos todos sob a égide cretense do Minotauro-Casas-Turuna do poeta Chacal. Afinal, são 25 anos desde que o CEP 20000 surgiu com seu nome menos bossa nova e mais rock`n´roll em uma mesa do bar e restaurante Sagres no Baixo Gávea. Mesa compartilhada por Chacal com seus amigos Guilherme Zarvos, detentor à época de uma inseparável echarpe-âncora que domesticava sua cabeça voadora, e com o poeta parnasiano Carlos Emílio Lima, então o proprietário do sovaco mais ilustrado do país. Coube a este último a escolha do nome para o Centro de Experimentação Poética, batizado com o adendo da referência ao número de endereçamento postal do Rio de Janeiro.

Esta e outras passagens antológicas do nascimento do CEP 20000 são relembradas por Chacal em seu segundo e novíssimo espetáculo teatral memorialista, “XXV”, que se segue à autobiografia “Uma história à margem”, encenada em 2013. Ele passou há pouco pelo Sesc Copacabana e voltará em novas apresentações (notícias pela página do Chacal no Livro-de-Caras: clique aqui). Enquanto isso, o CEP segue com suas edições mensais, agora com sua quarta geração de artistas, sempre na última quinta-feira de cada mês.

É umas dessas coisas boas da vida cultural carioca. Surgiu ali no ano de 1990, um pouco depois do Cineclube Estação Botafogo. No Estação, frequentávamos a nossa escolinha de cinema, passando em revista todo o expressionismo alemão e a cinematografia dos grandes diretores/autores da sétima arte. Por lá nos mantínhamos também em dia com as apostas dos velhos e novos cineastas nas mostras e festivais que tinham lugar em suas muitas salas. Foi ali que vimos e babamos na gravata com o “Asas do desejo”, de Wim Wenders, em sua primeiríssima exibição em nossas telas. Saímos todos maravilhados. Enquanto isso, o CEP ia fazendo sua história.

Além de narrar os momentos decisivos e turbulentos pelos quais navegou seu experimento poético-musical, o nosso mestre de cerimônias recria performances e intervenções que tiveram lugar na arena do Humaitá. Como aquela em que Chacal homenageia a performer Marcia X, falecida em 2005. Em cena, manipula os lovely babies da artista. Reprisa o ritual kama Sutra com as bonequinhas movidas à pilha e encerra tudo com um nu selvagem e primal em encenação Zen Nudista. Nessa altura do espetáculo, o público está totalmente envolvido e à vontade com a descontraída conversa de Chacal que já colocou como num truque a todos no bolso. Dessa passamos ao concurso de mergulho ridículo com adesão e participação ativa da plateia, que é convocada a tomar parte e acaba se engajando naturalmente em várias cenas. Não poucos dos presentes se prontificam a se lançar em um colchão-mar simulando hilárias cabriolas quamperinas.

Chacal traz à cena ainda personagens do seu repertório, como o márrico (caprichem no portunhol) Mago Magu e o palhaço Piroquinha. Distribui também cacos dos personagens dos amigos que passaram pela cena aberta do CEP nesses 25 anos, como o Jacareta de Manu Melo, um jacaré careta parceiro dos atos falhos.

Em imagens gravadas ao longo das duas décadas e meia de atividade, os artistas, muitos deles presenças constantes quase como residentes do CEP, ajudam a relembrar as noitadas etílico poéticas. Gente muito inspirada como o lunático Joe Romano (em imagens da TV Pinel) e o professor Ericson Pires. Este último, colega de batalha universitária, falecido em 2012, protagonizou uma das muitas tentativas de aproximar Chacal e o CEP do meio acadêmico. Ericson é conclamado emotivamente por Chacal para recitar o seu “Novas tecnologias” em performance gravada em 2008.

Especialmente interessante no espetáculo é a participação do jovem artista plástico Domingos Guimaraens, primeiro lembrando um divertidíssimo diálogo do poeta Guilherme Zarvos com uma atendente do Ecad. Depois ajudando Chacal em um trabalho de luz sobre uma tela fotossensível que registra fugazmente o que nela é projetado. Sobre essa imagem, as silhuetas ganham contornos luminosos fortes quando sobrepostas por um foco de luz de uma diminuta lanterna usada pelo poeta, aqui no papel de arteiro performer. Em material gravado, vemos ainda os autores hoje conhecidos que se iniciaram no CEP, como Michel Melamed e Gregório Duvivier. As poesias de Gregório Duvivier, depois de recitadas no CEP, iriam circular em “partituras impressas”, como Chacal se refere aos livros editados com os novos autores cepianos, e consagrar um dos grandes poetas da nova geração.

Rogério Durst certamente diria que, além de sua verve poética única, de sua simpática presença, Ricardo Chacal tem a qualidade rara de ser o poeta menos pretensioso de nossa cena sub-sub-pop-underground. Não é pouco. Um brinde a ele. Aguardemos novas encenações desse “XXV” que faz um bem danado ao espírito.

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Geniozinho trabalhando – o Mozart do xadrez

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Link para o evento (clique aqui)

É uma tradição no xadrez o jogo de olhos vendados. Todos os maiores enxadristas têm a capacidade de jogar partidas simultâneas sem ver o tabuleiro. Magnus Carlsen, número 1 do mundo no momento, faz no entanto uma coisa inédita: enfrenta três adversários ao mesmo tempo com 9 minutos apenas para dar conta dos oponentes. Evento beneficente organizado pela Fundação Sohn que se dedica a incentivar pesquisas de cura e tratamento para o câncer infantil.

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Sérgio Rodrigues escreve sobre Rogério Durst

 Link para a postagem do blog todoprosa de Sérgio Rodrigues (clique aqui)1-Captura de tela inteira 19052015 220838

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Passeando pelas praias do planeta com a Liga Mundial de Surfe

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Endereço da Liga Mundial de Surfe na Internet (clique aqui)

O futebol segue como o dono da bola no campo midiático. Manda e desmanda em todas as mídias e reina intocável, absoluto e todo senhor de si junto a ainda cobiçada garota dos olhos de todos, a TV aberta (que vive, é bom que se diga, seus dias de declínio). Tolera marginalmente o vôlei e sempre sofreu e manteve a liderança frente as tentativas de ultrapassagem das corridas de baratinha (também conhecidas como provas de fórmula 1) e mais recentemente tem encarado os golpes baixos do telecatch-vale-tudo (com os eventos dos Ultimate Fighting Championships). Duas “práticas esportivas” que, sem espírito esportivo algum, tem-se de dizer que são indevidamente assim apresentadas. O MMA, especialmente, provoca o sentimento de saudades do Verdugo, do Pé na Cova, do Múmia e do Ted Boy Marino.

 Em suas armações de jogo implacáveis, o futebol também faz os seus lançamentos na área da TV paga, onde quem recebe as maiores deferências é o tênis. Muita gente deve lembrar, que o tênis, algumas décadas antes de o Guga aparecer, gozava do maior prestígio na faixa das transmissões de TV por sinal livre. As finais do torneio de Wimbledon ao vivo eram, por exemplo, programa obrigatório. Hoje, é necessário pagar para ver uma única partida que seja. Curiosamente, a ida para o campo do sinal pago, levou as transmissões de tênis a se sofisticarem de tal forma, que o futebol ao vivo na TV aberta começou a ter de copiar o seu modelo de televisionamento. Atualmente, não só o futebol, como todos os esportes seguem esse “padrão tênis de transmissão”.

Ao reconhecerem a impossibilidade de competir com o espaço ocupado no espectro midiático pelo futebol, no Brasil, e pelo basquetebol, o baseball e outros esportes nos Estados Unidos e em outros países, os praticantes, organizadores e patrocinadores do surfe fizeram a opção pelo meio alternativo da Internet. Estão dando um show. Sem desembolsar um único centavo, seguimos em mais um ano de transmissões ao vivo do Circuito Mundial de Surfe através da página da Liga Mundial de Surfe (ou World Surf League (WSL), em inglês) na Internet.

Já passamos pela Gold Cost, por Bells Beach e por Margaret River, na Austrália. Este final de semana seguimos acompanhando a elite do surfe mundial fechar a etapa brasileira do Circuito fazendo bonito na praia da Barra da Tijuca próximo ao quebra-mar. A “Brazilian storm” cumpriu apenas em parte o prometido. O Adriano Mineirinho, vulgo Adriano de Souza, atual líder do circuito, recolheu seu strap cedo, mas Filipe Toledo e Ítalo Ferreira, surfistas tão jovens quanto o Gabriel Medina, junto com Jadson André fizeram as honras da casa e levaram o Brasil até a final (escrevo antes de ela ter acontecido).

Numa visão poética do surfe ficamos aqui a imaginar o que um escritor como Herman Melville não faria caso corresse as praias do mundo acompanhando um circuito que,  depois de Austrália e Brasil, terá paradas em Fiji, na África do Sul, na Polinésia Francesa, chegando à costa oeste americana. Alguns dos lugares por onde Melville passou e com os quais tinha grande intimidade. Se com marinheiros embarcados em um baleeiro na caça ao leviatã, o escritor nova-iorquino produziu páginas memoráveis, o que ele não faria com os cenários e os personagens incríveis do mundo do surfe.  Para alguns não seria nem necessário criar um nome. Por inspiração de seus pais (ou talvez da cultura havaiana), os havaianos Coco Ho e John John Florence vieram ao mundo com a alcunha das grandes lendas. Já Jadson André e Juliana Lima têm aquela trajetória dos humildes lutando contra todas as adversidades para afirmar seu valor que tanto encantava Melville.

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Ainda sobre o Rogério Durst

Na última semana e durante um bom tempo ainda, imagino, meu único assunto tem sido e será o Rogério Durst. E a razão é simples. Quando perdemos alguma pessoa por quem temos grande estima, ficamos com vontade de conversar sobre ela o dia inteiro, o tempo todo. Aconteceu quando perdi minha primeira mulher, Elizabeth Wester, com quem havia convivido e compartilhado uma experiência de 25 anos de vida. Na época, me lembro que eu andava por tudo quanto é canto procurando, mendigando, a atenção de alguém com quem pudesse relembrar alguma coisa sobre aquela criatura querida que havia desaparecido de repente de minha existência. O pior é que para a maioria das pessoas, esse sentimento não fazia o menor sentido. Houve aqueles que chegaram mesmo ao extremo, e falo de pessoas que conheceram bem minha primeira mulher, de nem sequer dizer alguma coisa. Nem telefonaram. E quando liguei para informar, a sensação que tive foi a de que as estivesse mesmo importunando com aquela notícia/lembrança desagradável. Outras foram amigas ao extremo e me ajudaram com a maior atenção no meu período de luto, sou muito grato a elas.

Nessa época vivi uma epifania na rua que me fez imaginar que o Sérgio Buarque de Hollanda talvez estivesse de todo errado e vendo fantasmas quando reconheceu e quis menosprezar a chance de, até mesmo perdido na multidão, podermos encontrar um homem desitenressadamente cordial. A cena aconteceu na fila de uma empresa de telefonia móvel. Estava eu cumprindo mais uma das dolorosas atribuições que surgem nesses momentos, a de ter de encerrar todas as contas que ficaram, quando me vi em uma loja de celulares entupida de gente. Constrangido de ter de contar a minha história mais uma vez, informei de qualquer jeito à atendente tudo o que se tratava. Um senhor, atrás de mim, ouviu nossa conversa e, ainda que fôssemos dois estranhos, me cumprimentou de maneira sincera e externou de forma sentida os seus pesares. Fiquei profundamente tocado com essa inesperada manifestação e saí dali acreditando que talvez ainda haja salvação para a raça humana.

Volto ao Durst. Vim a conhecê-lo em 1985, 1986, na redação da Revista de música “Roll” já então em uma casa na rua Paulo de Frontin, no Rio Comprido, depois de a revista ter passado por salas em um prédio comercial na Marechal Floriano, no centro.  O Rogério apareceu por lá trazido pelo Luiz Carlos Mansur, com quem eu tinha uma convivência muito próxima naquela época pois já estávamos há mais de um ano frequentando a redação. Me divertia a valer com o Mansur e não seria diferente com o Durst e ainda com o Leonardo Pimentel. Era um grande prazer, uma alegria trabalhar naquela espelunca. Aliás, as conversas na redação ou na rua ficaram sempre como as melhores coisas do período de militância no jornalismo. Depois disso o Mansur e o Durst foram para o Jornal do Brasil e o Tom Leão e eu, para O Globo. Voltei então a encontrar com frequência com o Durst correndo as salas de exibição e eventos de divulgação para dar conta de pautas que iriam ajudar a encher os cadernos de cultura do fim de semana.

 Ainda que tenha escrito eventualmente sobre música, a praia do Rogério Durst foi sempre a sétima arte como bem destacou a Cora Rónai. Era um apaixonado por todo tipo de cinema, dos filmes udigrudi às megaproduções, dos clássicos aos filmes trash, das comédias bobas de Hollywood às chanchadas da Atlântida, bem como espectador, com muito gosto, de toda a variedade do cinema brasileiro e, como contou um amigo, também dos enlatados de TV. É verdade que não era benevolente com nada e nem com ninguém. Perdia o amigo, mas não perdia a piada. Em hipótese alguma. Fez uma carreira brilhante escrevendo as melhores resenhas de filme dos jornalistas de sua geração. Capaz de se equiparar aos maiores nomes de toda a crítica brasileira (Alex Viany, Paulo Emílio Salles, Ely Azeredo, Sérgio Augusto, Ruy Castro, José Carlos Avelar, Susana Schild). Tinha uma escrita de graça única.

Quando o Jornal do Brasil, que era então no Rio de Janeiro objeto de culto com seu imponente prédio no número 500 da Avenida Brasil, deu início ao seu processo de falência, começou a migração de todo o corpo de jornalistas do JB para O Globo. Um dia cheguei à redação e quem estava por lá sentado em frente a um terminal? Rogério Durst. Tinha vindo para cuidar do Caderno de Informática convidado por Cora Rónai.  Editores e chefes de reportagem do caderno de cultura logo perceberam as qualidades de seu texto, mas o jornal já estava bem servido de críticos cinematográficos. Foi só com a aposentadoria de Paulo Perdigão, que ele veio a assumir a seção dedicada às sinopses dos filmes da TV, o que tinha feito no JB. De O Globo, foi brilhar na seção de cinema nas páginas lustrosas da Vejinha-Rio.

Chega um momento na vida em que começamos a querer reencontrar as pessoas com quem convivemos no passado. Pode ser qualquer pessoa. O porteiro de um prédio em que você morou, o jornaleiro da banca onde você sempre comprava jornal, os atendentes do bar que você frequentou. Com os amigos que cruzaram seu caminho então nem se fala. Procurei vários amigos que não via há séculos. Alguns, compreensivelmente, já estavam em outra frequência e não queriam nem lembrar de nada. Estavam a bem da verdade pagando para esquecer tudo. Outros, como o Rogério Durst, pelo contrário, ficaram interessados em também conversar.  Ele tinha então saído da Vejinha-Rio. Por e-mail, me informava com o humor característico: “levei um pé na bunda da vejinha (agora sob nova gerência) e ando bastante desempregado desde então. o mercado está uma bosta então estou em casa, costurando pra fora quando pinta alguma coisa, o q é um pénosaco.” Preparava um livro sobre cinema. Para poder usufruir do prazer da convivência com o Durst, sugeri, e ele aceitou, que organizássemos algumas palestras sobre cinema no centro cultural Midrash no início de 2011. Adorei as palestras, mas confesso que não achei o Rogério bem. Como só tinha contato com ele e não conhecia ninguém da família, ainda que ele contasse muito sobre sua vida caseira e comentasse o carinho especial pela enteada (que tratava como filha), resolvi comentar com alguns amigos comuns sobre a minha preocupação. A vida seguiu e continuamos trocando e-mails vez ou outra. Em setembro do ano passado estava indo ao cinema quando encontrei por acaso com o Durst saindo de um botequim na praia de Botafogo. Sua extrema magreza me assustou mas ele também me achou magro demais e a conversa fluiu bem. Me contou então que estava ajudando um dos filhos de Luiz Carlos Prestes a redigir uma biografia ou autobiografia, não lembro ao certo. Acabei chegando atrasado ao cinema. Achei ainda assim que tínhamos conversado pouco. Seria nosso último encontro. Nunca mais veria aquele amigo vivo.

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Rogério Durst por seus amigos

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