Detonator, o Messias do Heavy Metal

Detonator com as Musas do Metal

Previamente à minha conversão em um diligente, perseverante, zeloso, devoto headbanger do Detonator, quem me iniciou no mundo do metal foi o meu amigo Paulinho Guimarães (aqueles que acompanham as postagens, já o conhecem). Naquele tempo, estas designações nem existiam ainda. Não se falava nem sequer em hard rock, outro rótulo que surgiria para designar mais uma vertente derivada do rhythm and blues. Descrever o Paulinho de então é bem simples. Basta fazer a busca por Rory Gallagher no banco de imagens do Google e você terá o retrato exato do garotão na pós adolescência. Até a jaqueta Lee era a mesma. Quem o conhecesse naquela época, jamais poderia imaginar que ele fosse se engajar na luta por causas indígenas e passar a vida toda empenhado em defendê-los em tribunais Brasil afora.

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Antes de sua filiação a uma destas causas fudamentais e que realmente importam, Paulinho se escondia em um quarto de fundos no apartamento de seus pais, Estelinha e Francisco, na rua Joaquim Nabuco. A janela vivia fechada e ele só acordava tarde, por volta das 13 horas. Não se tratava de depressão, era coisa da natureza dele mesmo, pelo menos naquele momento. Como também sou capaz de dormir mais de 8 horas por noite na maior alegria, compreendo perfeitamente o júbilo daqueles que cultivam por opção própria este hábito.

Pois muito bem, na caverna do Pelinho (era o apelido do rapaz), equipada com uma vitrola da era pré-chegada dos pick-ups Technics, foram fruídas as primeiras horas de guitarras distorcidas, baixarias cheias de peso, viradas incessantes e vozes em falsete. Se ouvia de tudo, com preferência pelo rock de estirpe inglesa (Traffic, Blind Faith, The Faces, Cream). Bem como as três bandas que semearam o heavy metal: Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. São os três grupos mais fundamentais para o aparecimento e fixação do gênero, no momento pós-Yardbirds/Jeff Beck Group.

Paulinho conseguia arriscar alguma coisa no violão, mas o virtuose da família era o seu primo Antônio José (capaz de replicar as escalas estilosas de um Eric Clapton, por exemplo), que morava em Petrópolis. Portanto, não me surpreende nada que Bruno Sutter e o Massacration tenham surgido justamente na cidade imperial. O rock`n`roll sempre foi uma característica da cultura serrana. Depois de acompanhar o grupo de poesia de seu pai no Petropolitano Footbal Club, Sutter, já crescido, passou do disco “A Arca de Noé”, de Toquinho e Vinícius, para o som estridente do Iron Maiden, com um empurrãozinho de sua irmã. Começou a frequentar então a loja de discos Dead Zone, lugar em que se reuniam os metaleiros da cidade e onde ele conheceria o pessoal do Hermes e Renato. Com eles forjou o som galhofeiro do Massacration, dando início a sua trilha na cena heavy metal.

Tudo parece gozação inconsequente. E é. Só que Sutter tem uma voz excepcional que consegue alcançar modulações raras e recorre a este seu dom para suas investidas hilárias. No palco ele encarna o mitológico castrato brasileiro Detonator, o filho do Deus Metal, obrigado por seu pai na mais tenra idade a se auto mutilar para poder dar seus gritinhos lancinantes.
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Além do Massacration, o Detonator aparece ao lado das Musas do Metal em shows que infelizmente ainda não tive a oportunidade de ver. Elas foram selecionadas em audições no programa Rocka Rolla, que Sutter comandava na MTV. Era de uma criatividade a toda prova e é uma pena que tenha chegado ao fim junto com a deblaque do projeto original da Music Television brasileira. Com o fim do espírito da MTV em sua primeira encarnação, em que cabiam apostas que parecem não ter lugar em nenhuma de nossas outras emissoras convencionais, o humor de Sutter e de seu Detonator não encontraram mais espaço televisivo onde se expressar.
Como parte de sua fanfarronice metaleira, Bruno Sutter, na pele ainda do Detonator, editou “A Bíblia do Heavy Metal – o Antigo Testamento” (Edições Ideal, 2013). O livro sagrado do Metal conta, em seu Antigo Testamento, como o Deus Metal criou tudo a partir da manifestação inicial de seu espírito no fenômeno explosivo do Big Bang. Corre, com farta ilustração, toda a história da humanidade até a chegada do Messias, o Detonator, cuja trajetória marcará o Novo Testamento quando todos passam a entender que só o Heavy Metal pode nos salvar.

De volta com o Massacration em música recém-editada, “Metal Milf”, acompanhada de excursão, Sutter segue também com o programa “Bem que se Kiss”, na rádio paulistana KissFM com transmissão ao vivo toda sexta-feira ao meio-dia via Facebook e youtube (em uma das últimas edições, ele conversou sobre a luta para preservar a voz em um estilo musical que exige vocalizações extremas: https://goo.gl/SXeqAJ). Na sua loja on-line há merchandising variado (munhequeira, bonés, DVDs e CDs), do seu projeto solo, do Detonator e de sua mulher, a modelo Nyvi Estephan. Música e humor de qualidade que merecem ser prestigiados.

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As Musas por Elas Mesmas

Anne Wiazemsky (2012)

Anna Karina (2016) 

Sous le Soleil Exactement

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Godard, Céu e Inferno com suas Musas

berg bestNas fases em que flertou abertamente com o cinema comercial, Jean-Luc Godard nunca deixou de provocar o imaginário do público que frequentava as sessões de seus filmes com uma constelação de musas. Nos anos 60, a lista incluiu Jean Seberg e Briggite Bardot, que estiveram à frente de dois de seus clássicos do período: “O Acossado” (“À Bout de Souflle”, 1959) e “O Desprezo” (“Le Mépris”, 1963). A musa mais constante na época, no entanto, foi aquela que se tornaria sua primeira mulher: Anna Karina.

Aos 17 anos, a dinamarquesa Hanna Karin Barkle Bayer chegou a Paris sozinha, de carona, com pouco dinheiro e se hospedou em um hotel barato na Bastilha. Enfrentou dificuldades porque a vida não é fácil pra ninguém, mas, no Quartier Latin, foi abordada ao acaso no café Les Deux Magots, ponto de encontro do que foi chamado um dia de intelectualidade, e requisitada para fazer um trabalho como modelo. Na ocasião, recomendaram ainda que ela adotasse o nome artístico que a consagraria. Conseguiu, em seguida,  estrelar propagandas de dois sabonetes (Mon Savon Bouquet e Palmolive) na inevitável e óbvia cena do banho de banheira. Godard viu uma das propagandas e sugeriu que ela fizesse algo semelhante em um trecho curto de “O Acossado”, só que completamente nua. Karina não toupou, o que foi uma pena. Caso contrário teríamos mais uma passagem antológica e certamente engraçada no filme. Quando não estava ainda obcecado com a militância, Godard era sempre hilário.

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Meses depois, Anna Karina recebeu um telegrama do aquela altura já muito falado diretor de “O Acossado” com um convite para que fosse ao seu escritório conversar sobre sua participação em uma outra produção, desta vez como atriz principal de um filme político. Como era menor, Karina teve que trazer a mãe de Compenhague para assinar o contrato.  Fizeram “O Pequeno Soldado” (“Le Petit Soldat”, 1960), começaram a namorar durante as filmagens, se casaram e ainda rodaram outros seis longas, entre eles, mais investidas certeiras do enfant terrible: “Uma Mulher é uma Mulher” (“Une Femme est une Femme”, 1961), “Viver a Vida” (“Vivre sa Vie”, 1962), “Alphaville” (Alphavile, une Étrange Aventure de Lemmy Caution”, 1965) e “O Demônio das Onze-Horas” (“Pierrot le Fou”, 1965).

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Para um godardiano dedicado que frequentava as sessões de seus filmes em 16mm no subsolo da Aliança Francesa da rua Duvivier, bem como as do auditório da Associação Brasileira de Imprensa – que acompanhava tudo de longe, portanto, e mais de dez anos depois da sua primeira fase cinematográfica-, as coisas pareciam tranquilas entre os dois. Isso até sabermos de desentendimentos, da perda de um filho durante a gestação e da internação de Karina em uma clínica por causa de uma tentativa de suicídio.

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Após as gravações de “Made in USA” (1966), a atriz principal mais constante em filmes do cineasta franco-suíço  andava participando de produções de diretores como Roger Vadim e Jacques Rivettes e sendo cortejada por Serge Gainsbourg, que preparou um disco com sua participação e dedicado a ela (“Anna”; virou uma comédia musical para TV). Jean-Luc e Karina vinham se separando desde o final de 1964 e estava chegando  ao fim a relação entre eles.

Fui atrás desta história toda por causa de “O Formidável” (“Le Redoutable”, 2017), que se ocupa da musa escolhida por Godard como estrela de seus filmes em seguida ao rompimento com Karina: Anne Wiazemsky. Com Wiazemsky, o cineasta também se casaria, também teria uma relação conturbada e realizaria outras três de suas produções: “A Chinesa” (“La Chinoise”, 1967) “Week-End à Francesa” (“Week-End”, 1967) e “One Plus One” (“Sympathy for the Devil”, 1968; com sketchs que se intercalam com a gravação da conhecida música dos Rolling Stones).

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Para se casar com Wiazemsky, com 19 anos na época, Godard teve mais uma vez que buscar o consentimento de terceiros. Desta feita em uma situação delicada, pois tratava-se de ninguém menos que o escritor e nobel de literatura François Mauriac, o “maior representante do romance psicológico na tradição francesa”, segundo avaliação de Otto Maria Carpeaux que o admirava especialmente. O problema adicional era que além de tutor de Anne Wiazemsky e de seu irmão Pierre, Mauriac apoiava o governo de Charles de Gaulle, para dissabor de Comunistas e Socialistas, justo quando Godard iniciava sua militância política.

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“O Formidável” é adaptação de escritos autobiográficos de Wiazemsky (os livros “Une Année Studieuse” e “Un an Après”) e se atém à perspectiva da atriz. É  sua novidade, seu trunfo. Enfatiza novas passagens conturbadas na vida de Jean-Luc. Não se trata apenas de filme para os cultuadores do cineasta. Como comentaram na Folha, Hazanavicius trabalha com humor e com toques à la Woody Allen sua narrativa. Ainda que reverencie o estilo godardiano, faz um cinema em moldes tradicionais o que vai agradar até mesmo à platéia de não convertidos aos manerismos de um dos expoentes maiores da Nouvelle Vague.

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O veterano crítico Inácio de Araujo acha que Hazanavicius, do premiado “O Artista”, tenta desqualificar o maio de 1968, diminuir Godard e não apresenta a posição firme do cineasta expressa por sua independência em relação ao cinema comercial que viria com sua participação no coletivo Dziga Vertov. Tudo isso é verdade, mas Hazanavicius queria apenas mostrar uma outra e desconhecida visão sobre o cineasta. E conseguiu.

Ao que tudo indica, Jean-Luc Godard não leu o roteiro, não viu o filme e não gostou. Reza a blague que ao receber o script chegou a perguntar: “Mas pra que script?”. Anne Wiazemsky estranhou de início o interesse de Hazanaicius, mas apoiou o projeto. Morreu no começo de outubro passado, vítima de câncer aos 70 anos, em seguida à estréia de “O Formidável” na França. Os jornais brasileiros desconsideraram por completo sua partida. Não merecia tal esquecimento.

“Redoutable” em Cannes

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Asdrubalinos: 40 anos de “Trate-me Leão”

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Era uma fase da minha vida em que eu andava sempre no plural. Sempre na companhia de uma verdadeira gangue. Tratava-se de um domingo e voltávamos de uma temporada na Fazenda do Rosário perto da cidade de Silva Jardim, no Estado do Rio de Janeiro no meio do caminho para Campos. Sem um VLT pra nos servir depois do desembarque na estação Novo Rio, a mobilidade urbana ficava por conta do tradicional Mercedão da linha 127 que fazia o trajeto Rodoviária-Copacabana. Naquela tarde, ao chegarmos ao final da avenida Rio Branco demos sinal para que saltássemos na Cinelândia. Partimos então para o Teatro Dulcina, onde aconteceria uma das últimas apresentações da peça “Trate-me Leão”. Estávamos todos motivadíssimos embora uma incógnita nos rondasse: será que conseguiríamos entrar? A razão é que todos ali não tinham ainda completado 18 anos, idade atribuída pelo Conselho Superior de Censura à peça do Asdrúbal Trouxe o Trombone. Na porta do teatro, tivemos que argumentar com o rapaz da roleta, que queria ver os documentos que comprovassem nossa maioridade. Conversa vai, conversa vem, foram chamar o diretor da peça, a fim de resolver o impasse. Hamilton Vaz veio, mas não teve o velho jeitinho e a peça ficou para ser vista um tempo depois e por meio de esquetes apenas, interpretados por Regina Casé e alguns dos outros Asdrúbals no Morro da Urca, em evento destinado a levantar dinheiro para ajudar o poeta Chacal que havia sofrido um acidente em São Paulo e se encontrava hospitalizado. Desde então sigo fã de carteirinha das peças autorais montadas por Hamilton Vaz, até mesmo daquelas em que interpreta solitário seus textos.

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Moz na BBC, Townshend no RiR

Moz na BBC de Maida Vale

Morrissey cumpriu o prometido. Compromisso assumido, levantou cedo, ainda que contrariando seus hábitos, e fez o seu pocket show para os happy few que correram atrás de entradas para vê-lo (com transmissão radiofônica ao vivo) em um dos lendários estúdios da BBC em Maida Vale, ao meio-dia da última segunda-feira. Passei um mês de janeiro inteiro no começo de 1992 em um dos flats das Carlton Mansions, de cara para o belo parque recreativo de Paddington com suas quadras de tênis, e nunca imaginei que os estúdios da BBC, onde eram gravadas as sessions para o programa de John Peel, que sintonizava religiosamente às 11 horas da noite, ficassem ali pertinho.

Com os Smiths e depois em carreira solo, Moz sempre foi figura carimbada entre as escolhas para as sessions da BBC. Ainda assim, se disse agradecido pelo convite do 6 Music Live, de Lauren Laverne, para que se apresentasse em época em que, segundo comentou modestamente, essas ofertas são raras (será?). Logo agora que, depois de ter passado por um selo independente, o letrista das novas “I Wish You Lonely”, “Jackie´s Only Happy When She´s Up on the Stage”, “When You Open Your Legs”, “Home is a Question Mark”, “All the Young People Must Fall in Love” e “Spent the Day in Bed” (7 das 12 composições inéditas cantadas no início daquela tarde) voltou a ser paparicado por uma major como a BMG inglesa.

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Durante o show, tivemos os ataques costumeiros ao Brexit, à polícia que na véspera tinha agido truculentamente durante o plebiscito pela independência da Catalunha e à extrema direita de Anne Marie Waters. Como o Pete Townshend durante o show do Rock in Rio ao saber da presença de João Doria na platéia, fiquei a me perguntar: “The Who?” (a piadinha é cortesia de Alfredo Ribeiro, vulgo Tutty Vasques).

A banda que vem acompanhando Stephen Patrick, comandada pelo “omnipresente Boz Borrer” (deferência do cantor para com o seu mais constante parceiro), segue afiadíssima. Não tenho horror ao passado, mas também não sou um saudosista inveterado. Por isso, não vejo com bons olhos uma volta dos Smiths. Talvez uma participação de Johnny Marr na banda de Morrissey fosse interessante, assim como a de Andy Rourke e de Mike Joyce. Os dois últimos, como se sabe, brigaram feio com o cantor-compositor nos tribunais atrás do vil metal e não há como eles voltarem a estar lado a lado como fizeram nos anos que se seguiram ao fim dos Smiths. A verdade é que enquanto Morrissey trilhou, e segue dando continuidade a uma prolífica carreira solo, Marr, Rourke e Joyce não fizeram nada de minimamente relevante.

A mesma falta de interesse por assistir a um show dos Smiths reunidos se replica no caso do The Who. Fui vê-los no Rock in Rio, única e exclusivamente porque existe uma whomaníaca neófita aqui em casa que queria por que queria ver “os divos”. Tento explicar que comecei a ouvir o Who em uma vitrolinha que rodava discos em 33, 45 ou 78 rotações, e em que o long play de “My Generation” se revezava com o de “Sgt. Pepper´s” e o de “Tropicália ou Panis et Circencis”.  Depois foi a vez das vitrolas de console em que o amigo Paulo Guimarães, sempre a partir de 1 da tarde (ele só levantava a esta hora), pilotava sem parar o “Quadrophenia” no seu quartinho de fundos na Joaquim Nabuco. Em seguida me cansei de ver “Tommy” na tela do Cine Veneza. Ou seja, fiquei tão saturado, que minha paciência para “Pinball Wizard” é bem próxima de zero.

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Mais do que do Who, sou fã de carteirinha da carreira solo de Pete Townshend, com quem acordava às 6 da manhã ao som de “A Little is Enough”, de seu primeiro disco individual depois das parcerias com Ronnie Lane. O serviço de despertador era a vinheta com que a Fluminenese FM dava início às suas transmissões radiofônicas todos os dias às 6 da manhã. Logo depois lançaria o clássico “All the Best Cowboys Have Chinese Eyes” e, em seguida, o “White City”, que não teve o mesmo impacto dos anteriores. A retomada da carreira do Who também foi uma nova lufada do talento de Townshend e eram as músicas dessa fase (especialmente  “Eminence Front”) juntamente com números antigos e menos conhecidos como  “The Seeker”, “I´m the Face”, “Pictures of Lily”, que mais gostaria de ouvir. Em função da reduzida seleção da setlist para um show curto, ficaram todas de fora, à exceção de “Who Are You” e “You Better, You Bet”.

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Em lugar de um show como o do The Who no Rock in Rio, preferia ver a versão orquestral preparada pela atual mulher de Townshend, a musicista Rachel Fuller, com Billy Idol e o tenor Alfie Boe nos vocais, e apresentada em Nova York e Los Angeles nas semanas que antecederam a chegada do grupo ao Brasil. Era parte de uma tour que correu os Estados Unidos em revezamento com as apresentações do Who e que chegou a ter mesmo noites especialíssimas dedicadas a ela  no Royal Albert Hall londrino.

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Na Cama com Morrissey

Primeira música de “Low in High School”:  “Spent the Day in Bed”

No dia 2 de outubro, Morrissey será recebido por Lauren Laverne em seu “6 Music Live”, programa da BBC Radio 6, rádio digital criada pela British Broadcasting Corporation para fazer transmissões pela Internet. Gravado nos estúdios da emissora em Maida Vale, o live show de Laverne  (foi band leader do Kenickie, um grupo que despontou para o completo anonimato na cena inglesa dos anos 90) trará Stephen Patrick fazendo a apresentação das composições que preparou para “Low in High School”, seu novo trabalho. Para sintonizar o “6 Music Live” é preciso disposição. Ele vai ao ar às 10h da matina em Londres, 6 da manhã por aqui.  “Low in High School” chega às plataformas digitais no dia 17 de novembro, mas, antes disso, Moz ainda viaja para os Estados Unidos para dois shows em Los Angeles, nos dias 10 e 11 de novembro, no Hollywood Bowl (em dobradinha com Billy Idol). Tomara que seja aquecimento para uma excursão mundial.

http://www.bbc.co.uk/programmes/articles/4c5Zk2gdKs98lDX8cWKMsXG/6-music-live-2017

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http://www.bbc.co.uk/programmes/b01n3zm0/episodes/guide

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Almoço Nu no Little Club e o Festival Sonora no Donninha Delivery

Ana Fainguelernt e seus companheiros de fuzarca

Imerso em minha completa ignorância, eu poderia jurar que o Beco das Garrafas, o Little Club e o Bottles Bar tinham suas respectivas existências limitadas, nos dias que correm, às páginas do ótimo “A Noite do Meu Bem”, de Ruy Castro. Qual não foi minha surpresa ao constatar que o recanto escolhido pela portuguesa de sotaque afrancesado Eunice Colbert para instalar o seu night club Chez Colbert e para onde convergiram os imigrantes italianos e futuros empresários Mario, Giuseppe e Alberico, depois de desembarcarem no porto da Praça Mauá em meados do século passado, continua aberto e em pleno funcionamento para os que ainda acreditam ser possível se divertir e aproveitar as noites cariocas.

Durante os anos 1950 e 60, Dorival Caymmi, Johnny Alf, Lúcio Alves, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Simonal e músicos que ensaiavam uma tal de Bossa Nova, faziam ponto e se dividiam no palco destes e ainda de outros clubes noturnos como o Escondidinho e o Baccara (já falecidos), todos instalados no enclave da rua Duvivier. O Beco era barulhento o suficente para um morador, em um ataque de ira, despejar garrafas sobre a cabeça daqueles que conversavam e aproveitavam a noite (razão pela qual o lugar ganharia seu nome).

Fui levado ao Beco das Garrafas e ao Little Club por minha nova companheira de noitada, Ana Fainguelernt. Ela fez um show por ali com seus parceiros de fuzarca da banda Almoço Nu, turma com a qual se junta quando está de folga da Ana Frango Elétrico. Eram convidados da banda residente, Giras Gerais, que faz MPB de qualidade, tem disco lançado pela Coqueiro Verde e é de uma competência a toda prova.

Na entrada da passagem de acesso aos night clubs está instalada a loja-museu Beco das Garrafas. Fiquei pensando que, apesar de todo este esforço, tudo por ali deve ainda andar um pouco triste desde que um dos ilustres moradores daquelas redondezas, o poeta Ferreira Gullar, se foi. Era a minha referência na rua Duvivier desde que em uma tarde do começo de 1981, estive em sua casa como estagiário de uma equipe de produção de um programa gravado por Roberto D´Ávila para a Televisão Educativa.

Ainda estavam todos vivos, Gullar, a esposa Teresa e o filho mais novo que era meu xará. E a casa do poeta era belíssima com obras suas, de seus amigos e ainda objetos de arte naïf espalhados por todo canto. A elas se juntara há pouco um croqui, ganho por Gullar como presente de Oscar Niemeyer dias antes durante a gravação de um programa de entrevistas também comandado por Roberto D´Ávila.

Da grande pajelança do Almoço Nu no Little Club, partimos no último domingo para uma apresentação intimista no Donninha Delivery. Anuska me carregando de novo para mais uma volta ao passado, desta vez na Tijuca, onde vivi em exílio, mas feliz da vida, muitos anos morando com mulher, sogra, papagaio e periquito em dois endereços: rua Martins Pena, 15, apto. 203, e na rua São Francisco Xavier, 146, apto. 404.

Trabalhava no Grupo Impacto Pré-Vestibulares e tinha a amizade de um dos muitos biólogos com os quais cruzei na vida (os outros foram o Paulinho, o Arapinga, que já nos deixaram há um bom tempo, e o Calbuque). Tijucano apaixonado por seu bairro a ponto de dizer que não se mudaria de lá por nada neste mundo, Fred tinha fixação com o Homem de Neandertal. Consumia heavy metal vorazmente. Heavy metal de raiz: Angra, Dorsal Atlântica, Sepultura. Pegava todo o salário ganho no fim do mês e enterrava na loja de discos Headbanger num shopping da Saens Peña. Um dia voltou de Nova York com a mais minuciosa documentação imaginável de uma visita ao Museu de História Natural daquela cidade. Trouxe também sua coleção de raridades de metal super pesado. Contava com orgulho que, ao passar o cartão de crédito no caixa da Tower Records, chegara a sair fumaça da maquininha.

No aconchegante espaço do Donninha Delivery da Tijuca (já descobri que eles têm uma filial em Botafogo), tivemos uma das sessions do Festival Sonora só de mulheres-compositoras. As atrações, além do sanduíche vegatariano conhecido como Osho e da banguete com queijo brie e geléia de damasco (recomendo os dois), eram as cantoras compositoras Luiza Brandi e Ana Frango Elétrico. Experiente com dois discos lançados e com uma excursão pela Europa na bagagem, a mineira Luiza Brandi fez um show de classe só com voz e violão. Interpretou as músicas de sua carreira solo, já que ela divide seu tempo ainda com as bandas Graveola, Lixo Polifônico, Boreal (de canções de câmara) e com o coletivo ANA. O Ciclo Internacional de Compositoras, que acontece em 69 cidades em 15 países, segue como uma aposta única contra a “supremacia masculina nos palcos”. Estão certas de reclamar.

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Desafios em Terra e Mar

20883268_1640086112689568_171431321_oWilliam Finnegan não levou o Pulitzer (prêmio de jornalismo concedido pela Universidade de Columbia desde 1917), na categoria de biografia/autobiografia, embolsou 15 mil dólares e o prestígio de ser agraciado com a honraria, à toa. Além de ser um relato sobre alguém que por circunstâncias pessoais passeou muito pelo planeta e teve contato com uma grande variedade de culturas, “Dias Bárbaros – uma Vida no Surfe” (Intrínseca, 2017), na tradução de Edmundo Barreiros, ou “Barbarian Days: a Surfing Life” (Audible, 2015), em audiolivro com leitura feita pelo próprio autor,  é contado com cuidados e requintes que ganham e se justificam ao leitor/ouvinte com facilidade.

Formado pela Universidade da Califórnia em estudos literários, o jornalista nova-iorquino nascido em 1952, colaborador fixo da New Yorker desde 1987, nos lança em sua trajetória de vida alterando um pouco sua cronologiaInicia sua história pessoal já na adolescência vivendo com os pais em Honolulu, lugar em que o gosto pelo surfe, iniciado na infância na Califórnia, se consolidou e o levou ao vício de desafiar mares de ondas grandes como as que quebram no inverno em Pipeline e Waimea, na costa norte da ilha de Oahu no Havaí (não confundir com aquelas surfadas a reboque de jetski pelos big riders Maya Gabeira, Carlos Burle e Pedro Scooby em Mavericks, São Francisco, e em frente ao Farol de Nazaré, em Portugal).

Palestra na livraria Politics & Prose, em Washington

Como cresceu nos anos 60 em meio a geração Flower Power, Finnegan seguiu a cartilha do período. Depois de trabalhar como frentista de um posto de gasolina e de fazer alguns bicos, economizou dinheiro suficiente para, inspirado pelas narrativas de Jack Kerouac, cruzar os Estados Unidos de costa a costa. Antes disso, morou de forma improvisada com uma de suas namoradas na ilha de Maui, onde Jimi Hendrix realizou o show-disco-filme cult “Rainbow Bridge”, aquele que viria a ser o registro de sua última performance em vida. Terminada a faculdade, foi se aventurar pelos mares do Pacífico sul, acampando e dormindo em qualquer canto com o amigo Bryan Di Salvatori (aparece ao lado do autor na foto de capa do livro).

Eram parceiros de aventuras literárias, nutriam lado a lado a pretensão de escrever o “definitivo romance norte-americano”, e foram juntos atrás de ondas desconhecidas que rivalizassem com as do Havaí. Acabaram descobrindo lugares selvagens onde a prática do surfe era ainda inexistente, como Tavarua, em Fiji, que hoje é parada obrigatória do Circuito Mundial dos surfistas profissionais. Passaram também pela Polinésia, Austrália e Finnegan acabou se fixando na África do Sul, onde deu aulas em uma escola de segundo grau e vivenciou de perto o apartheid.

A partir de 1984, começou a contribuir com a New Yorker, o que o fez voltar em 1987 à África do Sul como repórter para retratar o que conhecia bem. Foi o início de sua ligação ao jornalismo que cobre áreas de conflito. Tem alguns livros retratando essa prática jornalística que parece replicar o seu gosto por vivenciar situações limite. Além de “Dateline Soweto”, sobre o apartheid, lançou também “A Complicated War: the Harrowing of Mozambique”, que cuida da guerra civil no país. Nos Estados Unidos, seu jornalismo militante discute a situação de imigrantes e adolescentes deslocados na “home of the brave, land of the free”. Tem um livro sobre o assunto: “Cold New War: Growing Up in a Harder Country”. Hoje mora em Nova York, mas do período em que passou em San Francisco nos anos 1990, saiu uma coluna da New Yorker sobre sua experiência como surfista na cidade e a convivência com o amigo, médico e também surfista, Mark Renneker.

Palestra na Escola Punahou em Honolulu

Um vlogueiro acusou “Dias Bárbaros” de ser obra de um “name dropper”. O que não deixa de ser verdade. Como consequência do seu gosto pela arte da escrita, Finnegan cita sem parar. Levi-Strauss e seus “Tristes Trópicos” para falar sobre a obstinação daqueles que correm o mundo em busca do desconhecido, Proust e seu talento, para comentar a inveja de uma namorada que o lia em francês, e ainda Joyce (um favorito do escritor), Blake, Dylan Thomas, Melville, Eliot e até Luís de Camões. As ondas da Ilha da Madeira acabaram sendo mais uma das descobertas do surfista viajante.

A edição da Intrínseca é luxuosa, fisicamente bem acabada com capa e papel resistentes e de qualidade, mas a tradução peca vergonhosamente. É bom ler traduções problemáticas porque elas mostram o quanto é difícil verter um livro. Nos dão a chance também de perceber como gente como José Paulo Paes e Paulo Henriques Britto fazem milagres. Sabemos que muitas vezes um livro longo, como “Dias Bárbaros”, tem de ser traduzido a toque de caixa, o que torna o trabalho ainda mais complexo. Não se justifica, no entanto, passagens e mais passagens que parecem ter sido feitas pelo tradutor do Google. O texto final, para piorar as coisas, contou com três revisores que deixaram passar coisas que parecem difíceis de acrecitar que tenham escapado a tantas leituras de profissionais da área.

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As Apostas na Roleta da Música Pop

Dear Life (Beck)

O plantonista da semana no museu de velharias novidadeiras da música pop foi Beck Hansen que deixou escapar uma composição estilo “beatles late phase” intitulada “Dear Life” como parte de seu novo álbum, “Colors”, a ser lançado no dia 13 de outubro. Três músicas já haviam aparecido anteriormente: “Dreams”, em junho de 2015, “WOW”, um ano depois, e, em seguida, “Up All Night” (como trilha do jogo Fifa Soccer em sua edição 2017). Ao lado destas, “Dear Life” é a quarta das 10 composições gravadas por Beck, assessorado pelo produtor Greg Kurstin, para o novo álbum.

Ainda que mantenha certa constância no grupo de instrumentistas que o acompanha ao vivo, Beck Hansen gosta de variar os músicos com os quais trabalha em estúdio. Tem feito isso desde o período conhecido aqui em casa como “Beck antes da fama” (dos discos “Golden Feelings”, “Stereopathetic Soulmanure” e “One Foot in The Grave”). Depois, em investidas sempre inovadoras, que alternaram lançamentos de enorme apelo comercial, como “Odelay”, “Mutations” e “Midnite Vultures”, com discos menos popista, como “Guero” e “Modern Guilt”, o compositor teve apenas o inglês Nigel Godrich (Radiohead, REM, U2) como produtor mais frequente (estão juntos em “Mutations”, 1998, “Sea Change”, 2002, e “The Information”, 2006).

É normal não ligar o nome de Greg Kurstin à pessoa, pois ele age nos bastidores. Cuidou da fabricação de uma lista grande de finíssima sucata pop: de Adele (“Hello”) à Lily Allen (“Not Fair”), Sia (“Elastic Heart”) e Pink (“True Love”). Compôs e produziu ainda músicas para o aparentemente fraco disco solo de estreia de Liam Gallagher (“As You Were”), também prestes a ser comercializado (“Wall of Glass” e “For What´s Worth” já ganharam vídeos de divulgação e podem ser ouvidas). Está, por fim, gravando com Macca o próximo trabalho do papai de Stella McCartney. Aliás, fica aqui a dúvida. Será que o novo álbum de vovô Paul vai ter algum hit tão irretocável quanto “Dear Life”?

Foi no estúdio de Kurstin em Los Angeles que “Colors” foi gravado, com ele e Beck cuidando de tudo. Além da produção, Kurstin ganha crédito por dividir a autoria de “Dreams” (em triangulação com Andrew Wyatt) e “Up All Night”. A faixa “WOW” também é, coisa rara de acontecer com Beck, resultado de parceria. Desta vez com outro produtor, Cole M. Greif-Neill. Mas foram tão somente estas três faixas, o restante é obra exclusiva do multi instrumentista virtuose que gosta de compor sozinho, letra e música. Mesmo porque as letras de Beck são um item à parte. Fico mesmo imaginando a trabalheira que não deve ser lembrá-las nos shows.

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Em agosto de 1984, John Peel, pelas ondas da BBC Radio1, nos dava tarde da noite e pela primeira vez a audição de “How Soon is Now”, música que Johnny Marr tinha acabado de compor com Morrissey e andava ensaiando com Roarke e Joyce. Entraria na coletânea “Hatful of Hollow” e e posteriormente também em algumas das edições do disco “Meat is Murder”, antes de se transformar em um hino dos Smiths. Era o tempo em que os DJs, que recebiam pelo correio cartas e tapes de ouvintes e de candidatos aos estrelato, orientavam o público sobre as novidades. Mais de 3 décadas depois, o Vevo de Beck Hansen é que nos faz conhecer a nova aposta do autor de “Loser”. Em novembro, Morrissey tentará nos convencer que tem o que acrescentar à história da música pop com o lançamento de seu novíssimo “Low in High-School”. Aguardando portanto os novos lances na roleta da indústria da música em seu ciclo digital, podemos seguir repetindo o refrão de Beck: “Dear Life/I am holding on/How long must I wait/Before the thrill is gone”.

Dreams

WOW

 

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“As an Old Memoria…”

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