Despedida ao Cine-Documentarista Silvio Tendler

Para suas turmas da PUC/RJ, mestre Silvio Tendler abria o seu baú de filmes na sala de projeção do departamento de comunicação da universidade e nos ensinava aquilo que sabia fazer como poucos: garimpar imagens cinematográficas históricas sobre assuntos relevantes da memória brasileira para costurar suas narrativas politizadas sobre a vida nacional. Já gozava de prestígio por ter realizado o filme “Os Anos JK – Uma Trajetória Política” (1980), mas estava preparando aquela que viria a ser a sua grande obra tanto de bilheteria quanto por abrir caminho para o movimento das “Diretas Já”. “Jango” (1984) foi aquele filme que todos assistiram nos cinemas como se estivessem em uma missa e que se traduziu em um marco importante ajudando na movimentação que culminaria na completa redemocratização do país, o que ocorreria em seguida com a volta das eleições para presidente. Apesar de já ter então realizado um documentário que era puro entretenimento, como “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1981), sobre o quarteto de humoristas mais famosos no Brasil da época, seu nome se vincularia a todas as lutas abertamente políticas que encontraria pela frente. Fez isso durante toda sua trajetória como cine-documentarista, recuperando a memória de pessoas importantes como o Almirante Negro João Candido, como Milton Santos, como Marighella e como Glauber Rocha. Retratou também a luta do brasileiro por seus direitos sociais e trabalhistas em “A Bolsa ou a Vida” (2021) e por atenção médica em “Saúde tem Cura” (2022). Um olhar sempre amoroso para com as pessoas deste país. Dono da produtora Caliban, todos os seus títulos podem ser conferidos sem custo algum no canal da empresa no YouTube, onde o próprio Silvio Tendler convida o público a conhecer suas produções.

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Yago Dora Escreve Seu Nome entre os Grandes do Surfe

A luta não é fácil. Pergunte aos brasileiros Mineirinho (Adriano de Souza), Ítalo Ferreira e Filipe Toledo, que, ao contrário de um dos mais jovens campeões do circuito de toda a história, Gabriel Medina (campeão aos 20 anos de idade, em 2014), custaram a chegar até lá. Ou mesmo àqueles que continuam na luta como Jordy Smith (37 anos), Miguel Pupo (33 anos), Griffin Colapinto (27), Ethan Ewing (27 anos) e Kanoa Igarashi (27 anos). Tem também o time daqueles que desistiram de tentar e se aposentaram como Julian Wilson (36 anos). Aos 29 anos, depois de uma trajetória oscilante que se firmou mais recentemente, Yago Dora faturou o título de campeão do Circuito Mundial da WSL. Se vai levar o troféu pra casa é uma outra história, já que ele custa 20 mil dólares para os campeões interessandos em tê-lo em sua residência. Medina, recordista do circuito junto com Andy Irons e Mick Fanning, todos com três títulos de campeão (ultrapassados apenas pelos onze títulos de Kelly Slater), já desistiu e optou recentemente por ficar com a réplica em miniatura.

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Inesquecíveis Crônicas de Nossa Vida Pública e Privada

A cordialidade brasileira como um dado positivo de nossa cultura teve toda sua máxima expressão na pessoa do grande cronista e na muito querida figura pública de Luis Fernando Veríssimo. Se seu pai marcou nossa literatura como o escritor dos romances extensíssimos, retratando muitas sagas e com personagens memoráveis, Luis Fernando, ainda que tenha escrito alguns romances (cinco no total: “O Jardim do Diabo”, 1987, “Borges e os Orangotangos Eternos”, 2000, “O Opositor”, 2004, “A Décima Noite”, 2006, e “Os Espiões”, 2009) ficou conhecido como o criador das narrativas curtas e malicosamente zombeteiras. Figura retraída e contida (dizia que não falava pouco, “os outros é que falam muito”), não poupava seus leitores de suas tiradas e comentários certeiros e arrasadores sobre a vida nessa nossa Terra Brasilis. Com o detalhe de nunca ter amarelado na hora de se posicionar claramente sobre qualquer assunto, especialmente a política. E fez isso em escritos preparados sempre com a maior classe e finura. Deixou também uma galeria de criaturas (Ed Mort, o Analista de Bagé, a Velhinha de Taubaté) que brejeiramente retrataram, sem meios-tons e sem concessões, a nossa cultura. Personagens inesquecíveis que nos deliciaram e que seguirão nos deliciando, criados que foram por um humor maroto, espirituoso e sagaz. Até mesmo desenhando em quadrinhos com a Família Brasil ou com suas tirinhas das cobras era genial com seu traço singelo.

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Ni Hao, Pessoas que Vivem na Esculhambação da Periferia do Capitalismo

Uma biblioteca gigante e moderníssima, uma polícia que anda desarmada, uma casa de espetáculos para música clássica com assinatura da arquiteta britânica de origem iraquiana Zara Hadid, edificações arrojadas em seu aspecto futurista, em Guangzhou (Cantão) é assim. Precisamos urgentemente fazer um upgrade comunista nesse nosso capitalismo periférico. Agendando o próximo turismo internacional com a Estrela Vermelha, pra ver as maravilhas de um padrão de vida que desconhecemos por completo. Um passeio da hora com Felipe Durante, um catarinense que fala paulistês.

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A Ditadura Democrática da China

O catarinense Felipe Durante mora na China continental há mais de cinco anos. Antes disso, viveu em Hong Kong. Está por lá legalmente, sem problema algum. É engenheiro de produção e trabalha na multinacional chinesa fabricante de eletrodomésticos Haier e vive perto de Guangzhou que, ao lado de Xangai e Pequim, é uma das 5 mais importantes cidades chinesas. Segundo ele, na China você tem uma legislação trabalhista com direitos semelhantes aos brasileiros, com garantias parecidas com as do nosso INSS, do nosso seguro desemprego, além de obrigatoriedade de férias como aqui. Elias Jabbour é o comunista do Dudu Paes, também já esteve na China muitas vezes. Primeiramente como pesquisador e depois trabalhando no Novo Banco de Desenvolvimento, ligado aos Brics. Jabbour tem vários livros sobre o que apurou em suas pesquisas de campo no país da Ásia Oriental. O mais recente deles é “China: o Socialismo do Século XXI” (Boitempo Editorial, 2021). Vejamos o que sai do confronto de perspectivas de duas pessoas que viveram a realidade chinesa. Particularmente no que diz respeito às características do sistema político chinês e o controle sobre a vida do cidadão em contraste com as democracias ocidentais.

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Brasil, Província Chinesa

Imaginem se o Brasil, cujos carros-chefes da economia baseiam-se em commodities (soja, minério, café), vai conseguir competir com países que produzem produtos sofisticados de alto valor agregado. Uma economia que opera produzindo produtos de tecnologia de ponta emprega infinitamente mais gente do que aquela que trabalha com commodities. Estou aprendendo com os chineses e vendo a surra que estamos levando, especialmente por sermos um país que se desindustrializa há quatro décadas. Ciro Gomes já chamava a atenção para estas questões em 2018. Não podemos ter uma economia amparada exclusivamente em commodities e muito menos em serviços (economia nenhuma sobrevive de serviços). Para complicar as coisas, não temos como competir, em termos de escala, com economias que produzem mercadorias em quantidades absurdas. Estamos, pelo visto, condenados a fazer mágica na periferia de todos os capitalismos.

Se falou muito sobre as besteiras ditas por Janja naquela viagem do governo Lula à China, mas negociações muito importantes passaram desapercebidas

Midea, empresa criada em 1968 na China, investindo em produtos de alta tecnologia

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O Futuro Chinês já Chegou

DeepSeek e o Tombo das Big Techs americanas

Investimento pesado em tecnologia de ponta

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Treta na Esquerda em Torno do Capitalismo Chinês

Trump que se cuide, o Dragão Imperialista Chinês não perdoa

O caso da gigante chinesa Huawei

A bolha imobiliária causada pela empresa de construção Evergrande

DR entre Stalinistas e Trotskistas

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Paulo Guedes Dá Aula sobre Economia, História e Karl Marx

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Conversão ao Marxismo

Tomo 50 da Great Books of the Western World, da Enciclopédia Britânica, dedicado a Karl Marx

Estou fazendo uma aproximação do pensamento de Karl Marx. Conheço superficialmente sua obra e não saberia dizer com precisão muita coisa sobre seus estudos pra além do meramente trivial. É verdade que Marx, assim como Shakespeare e Freud, é um daqueles autores/escritores que, mesmo quem nunca leu uma única linha de suas obras, pode comentar sobre várias passagens, expressões e máximas de seu repertório. Há mais frases, conceitos, ideias de Marx mencionadas cotidianamente entre o céu e a terra do que julga a nossa vã filosofia. Assim como sabemos, mesmo sem nunca ter tocado em uma única obra de Freud, o que é superego, id, complexo de Édipo, ato falho, também podemos discorrer sobre luta de classes, mais-valia, alienação, infraestrutura/superestrutura e outros tantos conceitos trabalhados por nosso Carlos Marques em seus escritos.

Meu guia nessa empreitada tem sido o pesquisador do pequeno Instituto Latino Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese, com sede em uma salinha em um edifício no centro de Belo Horizonte) Gustavo Machado, que, há 15 anos, se dedica a investigar a obra do pensador alemão. Me tornei assinante de seu canal no YouTube, o Orientação Marxista, e convido os leitores a apoiarem o seu esforço em popularizar o pensamento de Marx. Ao tornar-se membro de seu canal temos acesso, via Google Drive, a seus fichamentos, estudos e sua tese de doutorado de quase mil páginas. Ela leva o título de “Marx e a Filosofia” e deverá, assim como sua dissertação de mestrado (“Marx e a História”, Editora Sundermann, 2016), ser lançada em breve. Os inscritos podem também ver a gravação de sua defesa de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um embate cheio de controvérsias até mesmo entre professores entendidos na obra do barbudo alemão.

Não se trata de pose. Gustavo é leitor dedicado e também dá aulas e disponibiliza em seu canal no YouTube análises explicativas de “O Capital” para quem tem interesse em conhecer o trabalho do filósofo alemão. Já passou a pedreira do tomo 1 (único concluído em vida pelo autor) do título mais conhecido e falado de Marx e promete, assim que tiver tempo, apresentar o restante da obra mais fundamental do pensador.

Além do trabalho sério, suas postagens, que curiosamente surgem às vezes em um português trôpego e farto em solecismos, servem comentários sobre a atualidade política brasileira e internacional. São postagens fertilmente ilustradas por alguém que, além de toda a obra de Marx, leu muito e sabe discorrer com desenvoltura sobre os momentos mais críticos e decisivos da história, assim como discutir consequentemente as ideias de pensadores como Aristóteles, Platão, Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Malthus, Durkheim, Weber, ou de um período posterior como Keynes, Harvey e Mises. Além obviamente dos marxistas (ou encarados como tal) como Lenin, Trótski, Rosa Luxembourgo, Adorno (foram os que o ouvi mencionar até o momento), bem como dos comentadores contemporâneos da obra marxiana (termo que ele detesta; assino embaixo), como Fred Mosely e Robert Allbitron (americanos), Christopher J. Arthur (inglês) e Geert Reuten (holandês), entre muitíssimos outros.

Gustavo Machado destaca como um dos traços marcantes da escrita de Marx o seu constante e estilistamente extraordinário uso da ironia. Algo que o pesquisador simbioticamente e talvez de forma inconsciente acabou incorporando à sua oratória e ao seu texto que têm incomodado tanto esquerdistas quanto direitistas. Em discussões em vários podcasts, Gustavo Machado tem dado trabalho a interlocutores conservadores com titulação, como Marco Antonio Costa, comentarista da Jovem Pan (apelidado sarcasticamente de Superman da Shopee pelos críticos de suas falas canhestras), doutor em direito pela PUC de São Paulo, ou pouco preparados, apesar da grande experiência, como escritor, analista político, palestrante, tradutor com passagens pela Jovem Pan, RedeTV!, Gazeta do Povo e Brasil Paralelo, como Flavio Morgenstern. Os esquerdistas como Elias Jabbour e Jones Manoel, examinados nas imprecisões de suas falas por Gustavo, por sua vez, o têm atacado e mesmo se recusado a debater com ele em função de suas posições e críticas firmes frente a algumas políticas praticadas pelo governo Lula e pela China, por exemplo.

Controversa mesmo, no entanto, foi a sua discussão e classificação em um vlogue em seu canal de que a economia (seja a microeconomia ou a macroeconomia) seria uma pseudociência. A argumentação é bastante convincente e não segue a linha daquela balela que levou Natália Pasternak à identificação da psicanálise como tal. Partindo do pressuposto de que o objetivo maior de Marx em “O Capital” foi fazer uma análise cientificista e crítica da economia burguesa e mostrar sua lógica interna, Gustavo argumenta que, de uma perspectiva marxista, é impossível identificarmos em uma análise econômica, seja ela microeconômica ou macroeconômica, uma ciência. Para corroborar suas ponderações, ele dá o exemplo dos vários e possíveis cálculos do PIB, com base em salários, juros, lucros, subsídios, impostos, consumo das famílias, etc. Ainda que tais cálculos tenham sua validade, eles não poderiam, por não trazerem uma avaliação global descolada do momento que retratam de uma economia, mais do que assinalar uma análise pontual e pouco significativa.

Essa perspectiva relativiza as conclusões a que podem chegar os analistas de uma determinada economia. Por isso, imagino, temos que ouvir tantos disparates. Analistas que acham que congelar o salário mínimo por 6 anos pode ser uma alternativa para “ajustar” a economia. Outros que se assustam quando a taxa de desemprego cai, pois enxergam nela uma tendência não salutar para o mercado, entre outros absurdos que ouvimos diariamente. Para analisar um determinado momento, esses parâmetros podem até serem usados, mas, de uma perspectiva científica, eles não valeriam absolutamente nada. Gustavo lembra que, além de números que resultam de levantamentos bastante problemáticos e que escamoteiam dados essenciais (ele mostra exemplos em sua fala), eles nunca conseguem fazer uma análise crítica e ampla sobre a economia que examinam. São recortes em grande medida aleatórios. É verdade que apesar das imprecisões e das conclusões estapafúrdias a que esses dados possam nos levar, o próprio Gustavo e o Instituto em que atua lançam mão deles para preparar o seu “Anuário Estatístico do Ilaese, Trabalho e Exploração”, que reúne informações sobre as principais empresas em atuação no Brasil e no mundo.

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