Kami Maltz e Josh Turner recriam a antológica composição de Joni Mitchell
Mais um clássico de Mitchell pela dupla
Kami Maltz e Josh Turner recriam a antológica composição de Joni Mitchell
Mais um clássico de Mitchell pela dupla
Entrevista com Brenda Wineapple na Universidade da Cidade de Nova York
Moser entrevistado por Bill Goldstein, do New York Times, na livraria nova-iorquina Strand
Foi do motorista e hilário dublê de guia de excursão entre as cidades de São Francisco e Monterey que ouvi o comentário: “Woodstock foi realizado em prol de um ideário, festival de música de verdade no entanto foi o de Monterey”. Vou me abster de fazer uma avaliação comparativa entre as qualidades do Festival de Música Pop da costa oeste dos Estados Unidos, ocorrido em 1967, com o acontecido na fazenda de Max Yasgur durante aquela semana de agosto de 1969 há 50 anos atrás (mesmo porque muitos dos grupos que tocaram em Monterey apareceram também em Woodstock). Fico apenas com a observação do simpático guia que não deixa de ter seu fundo de verdade.
Para comentar o que de fato representou o espírito do festival de Woodstock, vou me valer de Camille Paglia, a aluna queridinha do recém-falecido Harold Bloom, de quem foi orientanda durante o doutorado na Universidade de Yale. Lembrei-me de Paglia em meio ao passeio pela obra ensaística de Susan Sontag, de quem Camille seria apontada por alguns como a sucessora (não acho que seja o caso, a despeito do trabalho dedicado da autora de “Vampes e Vadias” (Editora Francisco Alves, 1996)). Ainda que os escritos de Paglia sejam bem interessantes em razão dos ótimos temas que escolhe para abordar e da erudição com que os apresenta, entendo que as conclusões a que eles nos levam, a partir das digressões teóricas da autora, ficam a desejar, especialmente se comparadas em sua pertinência com o que Sontag conseguiu fazer com muito mais brilhantismo.
Mitchell interpreta sua versão intimista na BBC
Nas entrevistas e palestras, as coisas desandam de vez embaladas por seu jeito de falar corrido e sem pausas (já a vi defendendo a pena de morte como medida punitiva e dizendo que mulher que convida um homem para entrar em seu apartamento não pode querer se desculpar depois por qualquer coisa). Mas nas mais de 500 páginas de “Personas Sexuais” (Companhia das Letras, 1992), por exemplo, dá para se identificar uma Paglia erudita, ilustrada. As conclusões que tira do que comenta, cabe a cada um julgar em que medida procedem. O mesmo se repete no também interessante “Break, Blow, Burn” (Pantheon Books, 2005). Nele, Paglia analisa os versos de autores canônicos como Shakespeare, Blake, Yeats e contemporâneos como William Carlos Williams, Robert Lowell, Sylvia Plath, poetas aos quais recorria durante suas aulas na Universidade de Artes na Filadélfia, onde lecionou.
Para fechar “Break, Blow, Burn”, ela escolheu os versos de “Woodstock”, música composta por Joni Mitchell por ocasião do célebre festival. Defensora do ensino e da prática de leitura de poesia em voz alta em sala de aula, o que anda em desuso, Camille de início apresenta sua leitura particular e bem informada do poema. Comenta as referências ao Gênesis do poema e as ligações do trovador popular, que ganhou força nos anos 1960 na folk music norte-americana, com a tradição da poesia escrita. O cerne de tudo é, no entanto, uma abordagem que contrasta a famosa versão feita por Crosby, Stills, Nash & Young, que aparece no único trabalho de estúdio do grupo, o excelente “Déjà Vu”, com a registrada de forma intimista pela própria Mitchell no seu álbum “Ladies of the Canyon”, ambos os discos lançados em 1970.
Segundo Paglia, um poema confessional, melancólico e que retrata o festival a partir de uma visão pessimista foi transformado em um hino revolucionário celebratório pelo quarteto. Para a escritora, CSN&Y tratam os versos sem senso crítico, festejando de forma ingênua a contracultura hippie. Advoga assim a necessidade fundamental de uma voz feminina para interpretar o poema e apagar seu lado de congraçamento entre machos fazendo com que as sutilezas da letra pudessem desta forma serem percebidas.
Curioso é que Joni Mitchell, que teria tido caso com pelo menos dois dos integrantes do grupo (Crosby e Nash), fez a música especialmente para ela ser cantada durante o evento e queria estar no palco de Woodstock com eles. Já tinha mesmo apresentado a composição ao lado dos músicos e só não foi para Woodstock com o quarteto porque tinha agendada a gravação de um programa de TV na data e não haveria tempo hábil para retornar. Sabemos, porém, que nem sempre o autor é a pessoa mais indicada para interpretar sua própria obra. Fica a critério do leitor portanto a faculdade de exercer a liberdade que o ato da leitura propicia e decidir se as considerações de Camille Paglia são pertinentes ou não.
A versão de CSN&Y no álbum “Déjà Vu”
Se estivesse por aqui, Mario Filho certamente acrescentaria mais um capítulo à história de seu clássico livro “O Negro no Futebol Brasileiro” depois desta coletiva do técnico Roger Machado, do time de três cores baiano (tricolor só existe um, segundo Nelson Rodrigues) em seguida à derrota para o Fluminense do técnico Marcão, na 25a. rodada do Brasileirão de 2019. No gramado, eles conquistaram o espaço que mereciam há anos, mas nos dias que correm, a busca é por conseguir o reconhecimento fora das quatro linhas. Nascido em Porto Alegre, Roger foi destacado lateral-esquerdo do Grêmio, onde começou nos anos 1990. Jogou também no Fluminense e teve passagens pelo futebol japonês e norte-americano. Como técnico desde os anos 2010, já comandou o mesmo Grêmio e ainda Atlético Mineiro, Palmeiras e Ponte-Preta. Hoje é o técnico do Esporte Clube Bahia e se expressa com desenvoltura rara entre seus companheiros de profissão. Detalhe importante: tem o que dizer seja sobre um jogo ou sobre o Brasil.
Coletiva em seguida ao jogo Bahia vs Fluminense no Maracanã ontem à noite
Ele fez a melhor participação especial naquela que foi uma das surpresas do RiR, o show da super banda Tenacious D da dupla Jack Black e Kyle Gass. O vigilante potiguar Júnior Bass Groovador aproveita agora o sucesso e projeção alcançados para dançar animadamente ao som do groove de seu baixo em workshops pelo Brasil afora.
Álbum para Audição e Aquisição no site BandCamp (clique aqui)

Burt Bacharach, Rogério Duprat, Nora Ney, Beck Hansen, todos aparecem entre as inspirações, algumas assumidas e outras não, do novo trabalho de Ana Fainguelernt que chega para suceder a “Mormaço Queima” (2018), álbum de estreia da musicista queridinha deste blogue. Ana Frango Elétrico vem acompanhada por um time de músicos amigos que ajudaram a criar uma atmosfera sonora certeira para as muito originais composições selecionadas para este “Little Electric Chicken Heart”, que tem concepção artística e direção personalíssimas da cantora-compositora (assistida por Martin Scian, que mixou e masterizou todas as músicas).
São oito canções e uma vinheta, a maior parte, sete delas, assinadas por Ana individualmente, uma em parceria com Bruno Schiavo (“Tem Certeza?”) e outra ótima composição feita por Chico França (“Promessas e Previsões”), escolhida com propriedade para integrar o repertório desse novo projeto. As faixas estão sendo lançadas pelo selo paulistano Risco que tem em seu cast a banda Terno. Não por acaso portanto, Tim Bernardes, com quem Ana tem ocasionalmente dividido o palco, colabora com o excelente arranjo de voz e coro de “Promessas e Previsões” e tocando teclado nesta mesma faixa e em “Deveria Ter Ficado Menos”.
Do grupo que colabora com a cantora há mais tempo, estão presentes Antonio Neves, que cuida dos caprichados arranjos de metais, Vovô Bebê, que ficou encarregado do arranjo de voz de “Tem Certeza?” e do baixo na maioria das faixas, e Guilherme Lirio, que responde por bateria, drum machine, lapsteel, metalofone e baixo. Há também os colegas do grupo Almoço Nu, Thomás Duarte (congas, timbau) e Juliana Thiré, que soltou sua potente voz ao lado da de Dora Morelenbaum em “Se no Cinema” e “Tem Certeza?” (Dora fez ainda o arranjo de coro e voz para “Chocolate”, além de participar dos vocais de seis músicas). No setor percussivo, o mais requisitado foi o veterano baterista Marcelo Costa (Barca do Sol, Caetano, Lulu Santos, Tribalistas), que comparece em todas as faixas.
Com produção executiva de Santiago Perlingero, “Little Electric Chicken Heart” ficou um álbum marcante, cheio daqueles detalhes que fazem a delícia do ouvinte atento, como o som de vinil no começo desta canção belíssima que é “Saudade” (com sua muito interessante alternância entre os vocais masculino e feminino) e a guitarra enfezada à la Lenny Gordin de “Tem Certeza?”. Merecem destaque os arranjos de metais que apareciam mais comedidamente no primeiro disco e agora ganharam o primeiro plano, particularmente em composições como “Se no Cinema” e “Chocolate”. Tem-se ainda, como cereja no bolo e surpresa maior, a participação vocal especialíssima da mamãe Tutuca em várias faixas. Nesta quinta-feira à noite será possível ver a tradução ao vivo de todo o trabalho no show de lançamento que Ana faz no OiFuturo do Flamengo. Para quem não conseguiu seu ingresso (eles se esgotaram rapidamente), haverá nova apresentação em breve no Espaço Cultural BNDES.
