Ouvir e ler Amyr Klink trouxe saudade daquela terra que no passado foi o território limítrofe entre o domínio dos povos guaianás e tupinambás-tamoios, às margens do rio Perequê-Açu. Ali, hoje estaria começando a Festa Literária Internacional de Paraty que deve acontecer, esperamos, em novembro. A turma do cancelamento já torceu o nariz para a escolha de Elizabeth Bishop como a homenageada desta 18a. edição da Festa. Para defender a propriedade da opção dos organizadores, nada melhor do que um especialista e tradutor da autora como Paulo Henriques Britto, que conhece como poucos não só a obra como a trajetória intelectual de Bishop. Nesta entrevista, realizada para o 451MHz, podcast de uma das melhores revistas literárias que temos, Paulo Werneck, curador de edições passadas da FLIP e editor da QuatroCincoUm, conversa longamente sobre o percurso de Bishop, suas relações com o Brasil e a cultura brasileira, as particularidades das traduções que Paulo Henriques fez para os poemas da escritora e sobre o tal do suposto apoio da autora americana ao Golpe de 1964.
Quando ouço as histórias do Amyr Klink, fico pensando na muito compreensível sensatez dos lunáticos. Já se foram 35 anos de sua travessia solitária do Atlântico Sul a remo. Desde a Namíbia até a chegada a Bahia, foram 7 mil km em 3 meses e uns poucos dias, um teste de resistência muito superior a qualquer quarentena. Tudo foi contado, e bem contado por sinal, com refinada estrutura narrativa e imagens ótimas, em um livro delicioso de se ler e de se ouvir. Há um ano, “Cem Dias entre Céu e Mar” (Companhia das Letras, 1995; 1a. edição da José Olympio, 1989) se encontra disponível também como audiolivro e agora, durante a pandemia, a editora Cia das Letras liberou a fruição da obra gratuitamente em sua página na Internet.
A invernada no Polo Sul, seguida do singrar do oceano Atlântico em direção ao Ártico, registrada no livro “Paratii – entre Dois Polos” (Companhia das Letras, 1990), e a circunavegação da Antártica, narrada em “Mar sem Fim” (Companhia das Letras, 2000), são consideradas, com justificada razão por força da dificuldade insuperável que essas duas aventuras representaram, os maiores feitos de Klink. Mas, aos olhos dos que fogem a qualquer preço de desafios inexplicáveis, a travessia a remo parece de longe, dentre as três, a menos penosa e mais sublime. As outras lembram o esporte sem graça dos que se lançam a descer ondas gigantescas no mar de Nazaré, sabe-se lá por que.
Ainda que remar oito horas por dia durante três meses não pareça uma escolha prazerosa, os momentos de calmaria em “mar de azeite” devem ter rendido contemplações maravilhosas do oceano e de sua fauna em ambiente bem menos inóspito do que no frio glacial antártico. É verdade que a agitação do mar, rendeu também seus instantes de aperto, assim como a aproximação de tubarões famintos, que queriam tirar os crustáceos do casco do bote I.A.T. (nome da empresa patrocinadora) de Amyr para atrair sua muito desejada refeição de dourados, e de baleias curiosas.
E pensar que o gosto pelo remo começou nas ruas da cidade a qual o navegador sempre esteve ligado. Aquelas mesmas que alagam com a subida da maré e nas quais, quando menino, Amyr, que mal sabia nadar, utilizava para dar seus passeios e cumprir até missões prosaicas como ir à padaria comprar pão. A paixão cresceria com sua iniciação no remo competitivo na USP durante o período em que cursava Economia em São Paulo. Seria acompanhada também pelo interesse em projetar canoas, barcos e organizar façanhas, bem como périplos inusitados globo afora.
Quando não está em sua casa sem luz e sem luxos em Jurumirim em um pedaço de terra onde só se chega pelo mar, Klink passa seus dias em seu escritório em São Paulo. Cercado por uma coleção encadernada da National Geographic, por remos feitos de forma artesanal por pescadores e por relíquias náuticas de suas expedições – como o sextante a que teve de recorrer para calcular seu posicionamento no Atlântico em época anterior a chegada do GPS -, ele cuida de sua rotina de palestras, novas expedições e livros.
Leitor dedicado, depois de passar pelos inevitáveis clássicos ficcionais que têm como tema a navegação, se viu dando preferência aos relatos reais. Independentemente dos humores de suas preferências, parece ter aprendido a se utilizar de recursos narrativos que conheceu e com os quais se entreteve. Seus relatos frequentemente rompem com a ordem cronológica, eventualmente nos lançam naquilo que os especialistas definem como narrativas in medias res, e exibem traços com ambições de narrativas literárias. Klink sabe ainda se valer de recursos como o do antropomorfismo e de apresentar os protagonistas de suas histórias de forma vaga atrasando sua caracterização precisa. Coisas de um leitor atento.
Além de seus livros, algumas de suas quase 3 mil conferências podem ser conhecidas no YouTube. Escutar o próprio autor fazer a leitura de “Cem Dias entre Céu e Mar” deixou neste ouvinte a vontade de uma iniciação tardia no mundo do remo.
Quatro meses para finalmente voltarmos à piscina. Acho que virei um dependente químico da serotonina e da endorfina estimulados por cada treino, além do odor do cloro, do qual as pessoas em geral não gostam, mas que me agrada. Amanhã tem mais, o guarda-vidas Fagner informa que, nesta semana de retorno, as raias têm ficado esquecidas. Quando aumentar o movimento, e caso sigamos sem a queda no número de casos de covid-19 que vem acontecendo no Rio de Janeiro, talvez se torne impossível treinar. Ainda que a piscina da filial da BT localizada no local em que ficava a plateia do antigo Cine Copacabana seja bem arejada.
Não chego a concordar com muitas das ideias apresentadas por eles, mas quem sou eu na fila da cantina da USP para incorrer em algo mais do que frivolas notas pessoais sobre as considerações de dois dos pensadores/autores que mostram bem quem são os vagabundos, os desocupados, os cretinos, neste país? É verdade que, desde o governo FHC (pude acompanhar isso de perto), os programas de pós-graduação entraram em um regime de produção a toque de caixa. É verdade também que a administração petista pouco fez para mudar esse quadro, ainda que tenha alterado radicalmente o cenário de ensino em nível universitário no Brasil. Mas nada se compara ao que estamos vivendo agora: a destruição de tudo o que se construiu de minimamente relevante nos últimos anos.
Em meio a governança de um plantel de mentecaptos, Marilena Chauí, Vladimir Safatle e toda sua turma uspiana seguem produzindo um conhecimento e vivência universitárias essenciais a qualquer projeto que queira dar continuidade a uma experiência acadêmica civilizatória neste país. Projeto que se iniciou com a criação da USP nos anos 1930 e que teve a colaboração de nomes como os de Florestan Fernandes, Lévi- Strauss, Antonio Cândido (entrou nos anos 1940 ao pleitear uma vaga que teve também Oswald de Andrade entre os candidatos), Sérgio Buarque de Hollanda, Umberto Eco (professor visitante assim como Strauss), Alfredo Bosi, e, mais recentemente, Walnice Galvão, Lilia Moritz e José Miguel Wisnik.
Neste encontro da pós-graduação, Chauí e Safatle mostram o poço sem fundo em que se atira o capitalismo e a sua radicalização em um liberalismo suicida. De quebra, atacam a patifaria do atual governo que fez nosso país refém do que há de mais raso e canhestro em nossa história recente. Até chegar lá, no entanto, passeamos por uma bem informada análise das mudanças por que passou a trajetória do pensamento no ocidente. Observamos finalmente o que este pensamento pode nos ajudar na discussão sobre o momento atual.
Não chego a ter a visão catastrofista de Chauí. Não vejo, por exemplo, grandes males na associação de reflexão universitária com alguma prática de mercado (se este for o interesse do pesquisador). Não entendo ainda que a Internet tenha esse poder todo de que nos fala a catedrática. E para colocar em dúvida essa visão, basta nos lembrarmos que a sociedade da informação nunca irá se sobrepor à sociedade do conhecimento. Consideremos também o que a Internet ajudou na disseminação de estudos e experimentos científicos de toda ordem. Por fim, o saber intelectual construído não corre o menor risco de desaparecer se os 10 servidores americanos e dois japoneses (segundo ela comenta) forem desligados. Antes da Internet, vivíamos muito bem com nossos livros e bancos de teses e dissertações de nossas universidades, que guardam um conhecimento que anda até mesmo um pouco esquecido em razão da dispersão interneteira.
O ex-comunista Olavo de Carvalho acha que o departamento de filosofia da USP é um antro de esquerdistas. Conhecia o Olavo bem antes desta excrescência que nos governa aparecer como candidato à presidência e tê-lo como seu mentor. E o tinha em boa conta pela introdução que escreveu para o primeiro volume da coletânea de escritos de Otto Maria Carpeaux. Anteriormente portanto, ao surgimento de sua ambição de ser guru de aloprados. Tinha visto há muito tempo em um livro o seu ataque a Marx, que ele classificava como um vigarista, e ao pensamento marxista. Achava bobo, mas encarava de qualquer jeito como parte do debate.
Agora, o que ele diz sobre Chauí, Safatle, a USP e o Golpe de 1964 é puro devaneio, ou pior, deturpação. Pra início de conversa, ele imagina que o governo petista, com o qual Chauí e Safatle têm identificação, foi um governo de comunista e socialistas (que em seu entendimento são uma única e mesma coisa). Diz ainda que a ambição de Safatle e de toda a esquerda, comunista, socialista, é entrar em guerra aberta contra a direita. Pois, segundo avalia, quando no poder, os esquerdistas não sabem ter uma convivência democrática uma vez que seu desejo é a extinção do adversário. Cita como exemplo o Golpe de 64, quando a direita chegou ao poder e a esquerda foi pegar em armas. É de rolar de rir pelo primarismo, parece mesmo quadro humorístico, uma vez que sabemos que Olavo não é um ignorante. Fiquemos portanto com nossos palestrantes comunistas, socialistas, esquerdistas, que dizem coisas sobre as quais podemos discordar, mas que não criam visões fantasiosas sobre a história.
Aqui vai uma dica para as leitoras que estão sofrendo com o confinamento e procurando como fazer alguma atividade física. Confesso que até eu mesmo já arrisquei seguir desajeitadamente os treinos da Louisa Paterson. Foi puxado, até mesmo constrangedor em alguns momentos. Os homens que nunca praticaram ballet, mesmo que já tenham feito sua nataçãozinha (que não deixa de ser o ballet dentro d´água; disse isso a uma bailarina que treinava comigo e ela achou graça, ainda que a afirmação tenha seu fundo de verdade), não conseguirão nem sonhar com os movimentos precisos e expansivos da aula de Paterson, mas tenho certeza que o grupo feminino vai ter mais facilidade em render com as atividades propostas pela dançarina. O aquecimento de cardio de Paterson pode ser seguido pelas aulas de ballet fitness do professor Leandro Branco da BT. Aproveitem e bom treino. Os homens que, como Léo Jaime, gostam de ballet, não devem perder também.
Algumas acham que é um autor misógino, outros que sua obra não tem densidade para rivalizar com a de um Bandeira, um Drummond, um Quintana, um Cabral de Mello Neto. Vou deixar essa e outras discussões, no entanto, para os entendidos na obra do autor de “A Invenção de Orfeu”. Fiquemos apenas com aquele poeminha assinado pelo companheiro de incursões literárias de Murilo Mendes que todo nadador, que se dedica a dar suas braçadas com gosto, não deixará de entender e apreciar plenamente. Especialmente aqueles que estão há quase 3 meses sem ver a cor de uma piscina.
Enquanto a pandemia segue exibindo sua face trágica, sinistra, funesta, ceifando um número inacreditável de pessoas por aqui e pelo mundo, a semana passada tratou de levar três grandes nomes da cultura brasileira. Gregório Duvivier fez uma bela homenagem ao Moraes Moreira em sua crônica de quarta-feira na Folha de São Paulo. O autor da cartografia afetiva do Rio de Janeiro inaugurou mais um espaço em nosso imaginário: o da Panificadora Ilimitada Moraes Moreira, Pães e Sonhos, na Gávea.
Como o Gregório, imagino que muita gente também começou a tocar violão na ilusão de que um dia conseguiria imitar o compositor dos Novos Baianos em sua destreza com o instrumento. Vagamos nessa quimera sem nos darmos conta que Moraes Moreira e João Gilberto são dois dos mais insuperáveis gênios em harmonização de acompanhamento que o Brasil conheceu (Heitor Villa-Lobos, João Pernambuco e Garoto ficam para uma outra categoria de virtuoses ao violão).
Na rádio-vitrola Belair vermelha de minha irmã mais velha, o “É Ferro na Boneca”, disco de estreia do grupo de Moraes, se alternava com o Tom Zé do LP com “Jimmy, Renda-se” e “Guindaste a Rigor”, o “Sgt. Pepper´s”, a Tropicália do “Panis et Circensis” e os álbuns dos Mutantes. Por essa época já devia estar acontecendo o badalado encontro de João Gilberto com Moraes e os Novos Baianos, encontro que marcaria uma mudança radical na sonoridade do grupo e que daria na criação do clássico “Acabou Chorare”.
Moraes Moreira e sua trupe conheceram João Gilberto por conta do poeta Luís Dias Galvão, parceiro constante e exclusivo do começo da carreira do compositor de Ituaçu. Galvão, que como João nasceu na cidade de Juazeiro, ao norte da Bahia quase na divisa com Pernambuco, foi amigo do excêntrico violonista da Bossa Nova durante toda a vida. No show de João Gilberto no Theatro Municipal, em 2008, era possível vê-lo na platéia aproveitando aquela que seria a derradeira apresentação pública do intérprete maior dos clássicos bossanovistas.
Essa conversa toda sobre os baianos me traz à memória a pessoa do Rogê (certamente, Roger no nome de batismo, mas era assim que era tratado). Estamos no ano de 1977, na turma do 2o. ano do Ensino Médio do Colégio Andrews da Praia de Botafogo. O colega de classe Rogê era filho de um cineasta baiano que tinha sido assistente de Glauber Rocha e que produzia na Bahia, não sei se como ocupação de verdade ou por diletantismo, filmes de ficção-científica de baixo orçamento com cenografia improvisada (gravavam nas dunas recorrendo a tudo quanto era quinquilharia para o cenário). Nunca consegui descobrir de quem se tratava.
O Rogê lembrava fisicamente o Caetano Veloso (vejam a capa do segundo disco do compositor, de 1968, depois do LP de estreia com Gal Costa). Tinha o cabelo encaracolado e o usava ao natural, sempre despenteado. Era calado, introspectivo, quase introvertido, e tinha a fala mansa. Sentava na primeira fileira de carteiras e era o melhor aluno da turma em todas as disciplinas, arrancando elogios de todos os professores. Eu sentava na última fileira, tinha as piores notas, mas a amizade com o Rogê fazia com que ele me convidasse para ir à sua casa na Paula Freitas estudar na parte da tarde. Lá, eu conheci sua irmã, que tinha nome de música de Dorival Caymmi (Marina), e sua avó que nos servia bolo no intervalo dos estudos.
Nossas aulas de sábado no Andrews iam até o meio-dia. Às 15h eu já estava na Concha Acústica da UFRJ para assistir aos shows de Moraes Moreira. No anfiteatro da Universidade com o charme dos lugares a céu aberto, Moraes passava as composições que preparava para seu terceiro disco solo, “Alto Falante”, músicas que assinava com seus novos parceiros-letristas, os poetas Abel Silva, Fausto Nilo e Chacal. Tinha o acompanhamento do violão de Pepeu Gomes e do bandolim de Armandinho, que improvisavam solos acrescentando beleza às músicas. Levava meu gravador portátil à pilha e registrava todos esses shows em fita cassete. Encontrava frequentemente a Marina por lá, mas o Rogê nunca deu as caras.
Além de Moraes Moreira, a semana passada levou o escritor Rubem Fonseca. Gosto bastante da prosa do autor juiz-forano, mas não chego a ser um dos devotos que rezam diariamente na Igreja de São Rubem Fonseca, como os dedicados fãs Arthur Dapieve, Toni Belloto e Sérgio Rodrigues. Implico com o fato de os protagonistas do autor estarem sempre no seu canto, esquecidos de tudo, quando uma personagem gostosona bate, toda oferecida, à porta deles querendo conhecê-los.
Confesso que não li em profundidade a obra do escritor, mas concordo com a avaliação do artigo de quinta-feira passada do Sérgio Rodrigues que chamou a atenção para o fato de que os escritos de Zé Rubem não são apenas obras de um autor de “romances policiais”. Têm, por suas inovações narrativas, importância bem maior que esta. De qualquer jeito, como o “romance policial” não é o meu filão predileto, não posso falar muito. Não tenho nem leitura das obras de Luiz Alfredo Garcia-Roza, por exemplo. Os artigos de Raphael Montes em O Globo e de Ubiratan Brasil no Estadão, sobre a pessoa do ficcionista temporão e sua trajetória, funcionaram como um convite irresistível. Preciso começar por “O Silêncio da Chuva” e ver até aonde vou pelas ruas de Copacabana em companhia do detetive Espinosa.
Da dissidência aqui em casa vem o comentário de desdém acompanhado por ar de enfado:”É sempre a mesma coisa”. Não custa, no entanto, tentar argumentar com as vozes que protestam. Dos discos lançados na última década pelos Strokes, “Angles” (2011) foi bem razoável assim como o EP “Future Present Past” (2016). “Coming Down Machine” (2013) talvez tenha sido o único e categórico tiro n´água. Tudo bem, nenhum deles conseguiu se equiparar ao “First Impressions of Earth” (2006) e sempre que aparece um disco novo dos Strokes temos vontade de fazer aquela pergunta fundamental: “Is this it?”. Vale lembrar porém que o Julian Casablancas andou desperdiçando talento tanto em carreira solo como apostando no The Voidz. “The New Abnormal” segue com a pegada eletrônica das últimas apostas do grupo em mais um mergulho do quinteto nova-iorquino no pop oitentista (parece ser uma obsessão de Casablancas) e dá com folga pro gasto, especialmente para quem está procurando o que fazer em tempos de confinamento.
Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.