Tributo a Terry Hall — Parte II

= TERRY, BLAIR & ANOUCHKA = (1990)

Em seguida ao FB3 e ao Colourfield, Terry Hall partiu para mais um trio impensável, desta vez com a cantora, compositora, arranjadora e tecladista americana Blair Booth e com a psicanalista, escritora e guitarrista australiana Anouchka Grose. Fizeram um único, mas muito inspirado album, intitulado “Ultra Modern Nursery Rhymes” (1990), com arranjos vocais notáveis. É quase inacreditável que os três tenham se conhecido casualmente. As composições originais são assinadas por Terry Hall e Blair Booth exclusivamente e o repertório inclui ainda versões de clássicos dos anos 50 e 70 com arranjos vocais que funcionam que é uma beleza na alternância exuberante das vozes do trio. Tendo influência, segundo eles, dos Mamas and the Papas e dos Beach Boys, regravaram “Three Cool Catz” e “Love Will Keep Us Together”. A volta a décadas passadas é, como constantamos, uma constante nas escolhas feitas por Terry Hall e seguiria como uma de suas marcas. Sempre faixas muito bem selecionados por alguém com grande cultura musical pop.

“Missing” foi a única faixa que ganhou um clip, mas o disco inteiro é excelente.

O “Negro Gato”, clássico de Leiber and Stoller, na versão do trio

Mais uma versão, essa para “Love Will Keep Us Together”, de Neil Sedaka e Howard Greenfield

= VEGAS = (1992)

Um grupo que resultou da parceria de Terry Hall com Dave Stewart dos Eurythmics. Fizeram só um disco com participação da mulher de Stewart na ocasião, Siobhan Fahey, que havia deixado o grupo Bananarama para integrar o duo Shakespeare Sisters (ao lado da americana Marcella Detroit). O Vegas gravou “She” de Charles Aznavour e uma bateria de composições assinadas pela dupla. Em faixas como “Walk into the Wind”, Terry segue o namoro com o som eletrônico da fase final do Colourfield, agora tendo um parceiro especialista no assunto.

“Possessed” foi a música mais conhecida do Vegas

= TERRY HALL SOLO = (1994-1997)

Finalmente, Terry Hall resolveu assumir uma carreira solo. Foram dois albuns apenas, “Home” e “Laugh”. O primeiro, de 1994, trouxe parcerias com Ian Brodie, Craig Gannon (guitarrista da fase final dos Smiths e do começo da carreira solo de Morrissey) e uma genial composição escrita com Damon Albarn, músico com quem Hall trabalharia ainda no futuro. Todos os parceiros, além de assinarem as composições, participaram das gravações que contaram também com o baixista Les Pattison do Echo and the Bunnymen. Em “Laugh”, lançado em 1997, três anos depois de “Home”, a dobradinha com Craig Gannon seguiria funcionando maravilhas e teríamos uma nova composição com Albarn, “For the Girl”, além de versões que recriaram com classe hits melosos e bregas como “Close to You”, de Burt Bacharach, e “I Saw the Light”, de Todd Rudgren.

“Chasing a Rainbow” é a genial composição assinada por Hall com Damon Albarn na época do LP “Home”

Composição original do muito inspirado LP “Laugh”, daqueles que não se pula uma única faixa

Hall desencavou “I Saw the Light”, mais uma escolha certeira para incluir em seu repertório passadista

= GRAVAÇÕES COM GORILLAZ, MC MUSHTAQ, DUB PISTOLS = (2003 – 2007)

Com MC Mushtaq (do coletivo Fun-Da-Mentals), ele fez um disco pouco conhecido, “The Hour of Two Lights” (2003), em que é acompanhado por um rapper argelino, um flautista sírio, um grupo de ciganos poloneses e por Damon Albarn. Trabalhou também com os Dub Pistols, em faixas dos discos “Six Million Ways to Live” (2005) e “Speakers and Tweeters” (2007), com o Gorillaz (single “911”) e o rapper Tricky (versão de “Ghost Town”).

Hall investindo pela World Music com Mushtaq Omar Uddin

Dub Pistols e a versão para “Rapture”, do Blondie

= A VOLTA DOS SPECIALS = (2009 – 2022)

Os Specials se reuniram novamente em 2009 para festejar os 30 anos de carreira. Fizeram shows e registraram tudo em um especial com a presença da grande maioria dos integrantes da banda, inclusive o guitarrista Roddy James Byers. Só Jerry Dammers não quis participar deste retorno do grupo. Depois de muitos shows, voltaram a gravar material inédito em “Encore”, de 2019, e fizeram um disco com versões de músicas abertamente engajadas intitulado “Protest Songs (1924-2012)” (2021). “Encore” apresentou nove músicas inéditas e uma versão para “The Lunatics” dos tempos do Fun Boy Three. “Protest Songs” mistura versões de canções que tratam de embates raciais, como a assinada pelo bluesman dos anos 20/30 Big Bill Broonzy (“Black, Brown and White”), assim como composições no clima de rebeldia do flower power californiano como a do disco de estreia de Frank Zappa e do seu Mothers of Invention (“Trouble Every Day”).  A seleção eclética reúne também Leonard Cohen (“Everybody Knows”), Bob Marley e Peter Tosh (“Get up Stand up”) e uma faixa de Brian Eno e David Byrne dos tempos dos Talking Heads (“Listening Wind”), que comprova que a percepção de música de protesto é tomada em muito lato sensu. Confesso que nenhum dos dois trabalhos figurariam nem de longe em meus projetos favoritos da carreira dos Specials. Como não sou saudosista, gosto de novidades de verdade e minha preferência fica com a variedade das investidas inovadoras e desprendidas das apostas solo de Terry Hall.

Show de aniversário de 30 anos dos Specials

Homenagem de Damon Albarn ao amigo

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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