Foi o fim de semana de nos despedirmos de Jô Soares, de lembrarmos de seus livros inventivos, seus personagens cômicos e suas ótimas entrevistas (as com Rogério Skylab ficaram como as mais antológicas e favoritas deste espectador). Mas foi também o momento de celebrar os 80 anos de Caetano Veloso e de um sentimento de volta à normalidade com algo prosaico como a saída para tardes de autógrafos com os lançamentos de “A Vida Futura” (Cia das Letras, 2022), novo romance de Sérgio Rodrigues, e “Vivo Muito Vivo” (José Olympio, 2022), coletânea de contos assinados por 15 autores que se inspiraram em canções de Caê, ambos na pequena e simpática livraria Janela no Jardim Botânico.
Como faz falta sair para conversar e aproveitar um final de tarde com todo mundo à vontade e sem máscaras. Depois de tanto tempo, a gente até estranha essas coisas. O arrefecimento da pandemia e o avizinhamento do fim de tempos tenebrosos, criaram o clima perfeito para um bate-papo em um espaço muito apropriado para isso, a calçada da rua Maria Angélica entre o Parque Lage e a Lagoa, próximo à entrada de uma galeria onde funciona ainda o sebo Janela-Berinjela. Foi tudo rápido, mas deu para saber que a mãe da Cora Rónai já se recuperou da maratona do Master Pan-Americano em Medellin e que está procurando uma piscina para seus treinos. Aos 98 anos, Nora treina em um parque aquático ao ar livre (o do Clube Guanabara) e quer passar para uma piscina climatizada. Depois que mudei para a Barra da Tijuca, venho nadando em piscinas abertas e sei bem a diferença. A única vantagem de piscina aberta é que, quando chove, você sempre encontra uma raia vazia pra chamar de sua.
A tarde de sábado festejava mais um livro ficcional de Sérgio Rodrigues, a sua “história de fantasmas” como ele definiu na dedicatória, em que o autor de “O Drible” sobe às nuvens, pega a dupla Jota-Jota (Alencar e Machado) e os traz ao Rio de Janeiro de hoje para projetar a surpresa e estupefação dos dois com os dias que correm. Com mediação de Cora Rónai, Sérgio conversava entre conhecidos, parentes, amigos e jornalistas próximos como Arnaldo Bloch, Mauro Ventura, Heloisa Seixas e Ruy Castro – Ruy, por coincidência, em breve lança o seu “Os Perigos do Imperador – um Romance do Segundo Reinado”, narrativa fantasiosa sobre a viagem de D. Pedro II aos Estados Unidos. Tive o prazer e alegria de encontrar em meio a essa turma, 30 e tantos anos depois, o colega dos tempos de O Globo Mário Magalhães (“Marighella”, “Sobre Lutas e Lágrimas”), repórter, ombudsman da Folha e atualmente consultor do UOL. Ele prepara mais uma extensa biografia, desta feita em dois tomos e sobre Carlos Lacerda. Com documentos reservados e disponibilizados apenas recentemente, vai proceder a uma atualização das informações levantadas por John Dulles.
A grande surpresa da tarde-noite foi a inesperada adesão de Fernanda Montenegro ao programa. Apareceu sem maiores pompas e despojadamente. Foi-lhe prestada toda a reverência merecida e, convocada ao centro da conversa, falou da felicidade de ver os teatros do Rio de Janeiro voltando a ter público. Aos 92 anos, a atriz, que continua engajada em sua lida pela dramaturgia e pela cultura, foi agraciada com autógrafos (Sérgio Rodrigues também teve reeditado seu livro de estreia, “O Homem que Matou o Escritor”) antes de todos já que seguiria dali para o teatro do Jockey Club para fazer a peça “Nelson Rodrigues por ele Mesmo” às 20h.

Domingo marcou a festa caetânica. Começou com uma nova rodada de autógrafos na Janela, com o organizador da coletânea “Vivo Muito Vivo”, Mateus Baldi, e com os autores Juliana Leite, Marcelo Moutinho, Paula Giovate e Carlos Eduardo Pereira, alguns dos que participaram do desafio de criar uma curta narrativa ficcional a partir de alguma composição do aniversariante oitentão. O amigo Arthur Dapieve escreveu “A Noite”, sugestionado pela composição “Micheangelo Antonioni”. Deu para conversar rápido com ele e Manya Millen e saber que ela foi alçada do Segundo Caderno para responder pela primeira página de O Globo.
A noite fechou com o especial da GloboPlay. Um tributo merecido e que nos lembra da importância de festejarmos com a circunstância devida nossos grandes e inquietos artistas. Caetano foi foco também de um texto e entrevista super interessantes na Folha de domingo que abriu, no estilo costumeiramente arrojado do jornal, com uma curiosa imagem de sua carteira de identidade em preto e branco na capa e que tratou da sua mudança de perspectiva política a partir do contato com o jovem esquerdista e candidato ao governo de Pernambuco pelo PCB Jones Manoel.
O show com os filhos e a irmã Bethânia, repetiu o modelo do “Ofertório”. Caetano está mais do que certo de procurar desculpas para se reunir e ficar com sua prole por perto. Se tivesse filhos e a sua idade, faria mesmo. Como espectador funcionou como tributo para festejá-lo, especialmente para alguém que assisti aos espetáculos de mister Veloso desde bem garoto.
O primeiro show de Caetano que vi na vida foi no teatro Tereza Rachel, era tão pequeno que fui com minha tia Vânia, meu tio Ronaldo e minha mãe. O baiano ainda cantava “Os Argonautas”, que desapareceria de seu repertório. Logo depois o veria no Instituto de Educação cantando ainda músicas do tempo dos discos “Transa” (1972), “Araça Azul” (1973), “Joia” e “Qualquer Coisa” (ambos de 1975). Sim, o Instituto também tem um auditório e Caetano fazia apresentações mambembes por lá.
No teatro Clara Nunes, no começo dos anos 1980, veria o show de lançamento do disco “Muito – Dentro da Estrela Azulada” (1978) e recordo bem da interpretação de “Terra” com Sérgio Dias dos Mutantes tocando violão de 12 cordas – replicava o registro do disco em cuja capa Caetano aparece repousando a cabeça no colo de sua mãe. Voltaria ao Tereza Rachel e iria ao MAM (que também já teve espaço para shows de música) para conferir os repertórios de “Cinema Transcendental” (1979), “Outras Palavras” (1981) e “Cores e Nomes” (1982). A chegada de “Uns” (1983), o levaria para o Canecão e a partir daí os shows passariam a serem apresentados em lugares cada vez maiores. Muita história pra ser lembrada e que estabeleceu forte afeição com o novo octogenário.






Prezado Marcos. Gostaria que me ajudasse a ter contato com TOSHIRO SAGAE, meu amigo de juventude, quando cursamos juntos o colegio Batista e depois o Colegio de Aplicação da UEG, ambos na Tijuca. Sei que e
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Olá, Freddalla, já passei o seu contato de email para o Toshiro e disse do seu interesse em reencontrá-lo. Abraço
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